Samba Perdido – Capítulo 02, parte1

Capítulo 02

   "Rio seu mar, suas praias sem fim

Rio você foi feito para mim."

Samba do Avião -Tom Jobim

 

A vida carioca havia começado em clima de segunda lua de mel num quarto de frente para o mar de Copacabana no hotel Miramar. Os dias de semanas eram dedicados a nadadas e passeios nas praia semi deserta em frente. Nos fins de semana, para evitar a multidão, se deleitavam em caminhadas pela floresta da Tijuca, descobertas nos arredores da cidade e em aventuras culinárias. Os dois passaram aquelas semanas apaixonados um pelo outro e por tudo o que aquela cidade tinha a oferecer.

Descansados e aclimatados, embarcaram na sua primeira missão: escolher um lugar para morar. Sua busca os levou a conhecer como os cariocas viviam e a recantos menos turísticos porém igualmente atraentes; ruas residenciais na descolada Ipanema e no seu vizinho Leblon, bairros menos badalados beirando a Baía de Guanabara e mais para perto do Centro, como Botafogo, Laranjeiras, Catete e Flamengo. Viram imóveis ao redor da floresta, na verde Gávea e no Jardim Botânico, vizinho do parque lindíssimo com o mesmo nome. Os corretores também os levaram a áreas mais afastadas como o Cosme Velho, localizado num vale no meio da floresta tropical, à Urca, à sombra do Pão de Açúcar, e à Santa Teresa, em cima dos morros beirando o centro da cidade.

Todas essas alternativas, em geral apartamentos espaçosos e recentes, eram como um sonho para um casal vindo da fria e cinzenta Londres castigada por bombardeios. No entanto, apesar de adorarem tudo o que viram, escolheram permanecer em Copacabana. Lá, além da proximidade da praia e de Paulo, havia algo que as outras partes do Rio não tinham: o glamour com que estrelas como Fred Astaire, Ginger Rogers e Carmen Miranda haviam apresentado a cidade ao mundo. Havia carisma. O bairro às vezes lembrava as charmosas cidades costeiras da Côte d´Azur francesa, com suas ruas calmas e limpas e com seu cotidiano praieiro, noutras vezes lembrava Manhattan, com sua floresta de edifícios modernos e elegantes. Neste aspecto, o ar cosmopolita, porém ainda verde, da “Princesinha do Mar” não tinha páreo no Brasil.

As avenidas do bairro eram repletas de lojas oferecendo novidades importadas, boutiques exclusivas, cinemas e casas noturnas sofisticadas. Por ser um recanto recente e abastado, esses estabelecimentos ou eram os melhores da cidade ou pertenciam às melhores redes do país. Circulando em suas ruas movimentadas ou estacionados em suas calçadas, carros do último modelo, nacionais e importados, realçavam o seu ar internacional.

A praia em si era maravilhosa: havia quatro quilômetros de oceano aberto cercados por uma exuberante cadeia de morros que separava aquele paraíso do resto da cidade. À frente, um pequeno grupo de ilhas cobertas por vegetação selvagem quebrava a monotonia do horizonte. Seu passeio público, a elegante Avenida Atlântica, era o cenário onde de dia a elite carioca exibia seus corpos torneados e bronzeados e nos fins de tarde desfilava com suas melhores roupas nas suas caminhadas.

*

Depois de decidirem onde iriam morar, a escolha de um apartamento foi fácil. Com uma conta bancária recheada de valorizadas libras esterlinas provenientes da venda da casa em Londres podiam voar alto. Em breve estavam de mudança para uma espaçosa cobertura onde uma ampla varanda dava uma deslumbrante vista da praia. Como todos os outros prédios ao redor, a entrada parecia com a de um hotel de luxo. Painéis de mármore e enormes espelhos emoldurados revestiam suas paredes imitando palácios na Europa e cenários hollywoodianos.

A mobília do casal, comprada a preço de banana em casas de leilão na Londres do pós-guerra, era classuda e combinava bem com a elegância do endereço. Ela incluía antiguidades como uma autêntica mesa de cabeceira Chippendale, um piano de calda, talheres de prata, porcelana chinesa legítima da mais alta qualidade e pinturas clássicas, falsas porém convincentes.

Tudo havia sido enviado de antemão por navio. Agora, três meses depois, estava à espera na alfândega do porto. Enquanto Rafael saiu em busca dos contatos comerciais que seus amigos haviam fornecido, Renée ficou responsável por liberar seus tesouros.

Armada com o português básico aprendido com um professor improvisado indicado pelo consulado brasileiro em Londres, ela foi lidar com a burocracia local. Aos olhos do encarregado, a senhora inglesa era a própria figura da gringa rica e ingênua. Mesmo avisada, Renée se recusou a aceitar que um homem tão charmoso, numa posição de tanta responsabilidade, pudesse estar atrás de propina, apesar de que todos seus novos vizinhos e amigos haviam assegurado que qualquer pessoa nesse tipo de trabalho iria querer algum tipo de “incentivo” para agilizar as coisas. Numa tarde decisiva, seu medo de ofender foi tanto que não teve coragem de entregar um envelope gordo, recheado de dinheiro. Essa hesitação lhe custou mais quatro mêses de espera.

*

Depois de instalados em Copacabana, o casal foi se integrando na vida da Zona Sul. Nessa mesma época e no mesmo lugar, artistas como Vinícius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim estavam misturando samba, letras inspiradas e jazz dando origem à bossa nova. As casas de show espalhadas por de Copacabana. As mais exclusivas ficavam de frente para a praia na Avenida Atlântica. As mais na moda ficavam nas vielas logo atrás. Uma delas era o Beco das Garrafas onde o trio e outras futuras lendas da bossa nova se apresentavam regularmente. Esse seria o berço de clássicos do gênero como a Garota de Ipanema, que Frank Sinatra gravaria no auge de sua carreira e que venderia fora do Brasil tanto quanto as músicas que os Beatles ou os Rolling Stones estavam gravando.

A bossa era a expressão musical do otimismo pelo qual o país passava. Esse era um Brasil inteligente, urbano, sofisticado mas ainda assim apaixonado pelas suas raízes. Rafael tinha acertado quanto às possibilidades do país. Com um processo de industrialização acelerado e com um mercado consumidor em crescimento, as oportunidades eram ilimitadas. O slogan do presidente Juscelino Kubitschek era fazer “cinquenta anos em cinco”. Com isso em mente, o seu governo investiu pesadamente em infraestrutura e abriu o país para o capital externo. Ele também se dedicou a construir uma nova capital, a futurística Brasília, no longínquo Planalto Central.

Apesar de não frequentarem a noite e de esnobar a nova moda musical, os dois acabariam por se encaixar bem em Copacabana. A vizinhança era de uma classe média recente, ansiosa​ em se familiarizar com sua recém adquirida posição social. Isso incluía viver de acordo com o que viam e liam em filmes e revistas estrangeiras. Pessoas de fora personificavam as suas aspirações e proximidade com elas não só dava status, mas também dava asas à imaginação.

Após uma breve fase de se sentir alienada, Renée foi rápida em perceber a oportunidade social de assumir o papel de embaixatriz do mundo “desenvolvido”. Espelhando a jovem e recém empossada Rainha Elizabeth II, ela aceitou o cargo com convicção e prazer. Vinda de uma família de imigrantes alpinistas sociais, o Brasil​ neste aspecto lhe pareceu um El Dourado. Isolada da sua família e da sua cultura, vivendo num país estrangeiro como uma dona de casa milionária, mimada pelo marido, temida pelas empregadas, tratada como alguém especial nas ruas e sem ter ninguém que a questionasse, ela se reinventou e criou um personagem surrealista.

Trinta centímetros mais alta que a média das brasileiras, com um forte sotaque inglês e com um guarda-roupas repleto de peças elegantes feitas em Londres, para os brasileiros Renée passava a imagem de uma mulher poderosa e à frente de seu tempo. Isso era fácil num lugar onde donas de casa de respeito nunca eram vistas na noite, sequer em restaurantes com seus maridos. Seus biquínis – em voga na Europa do pós-guerra – mostravam o umbigo. Na praia, esse show de nudez chocava, e mais de uma vez os salva-vidas tiveram que lhe pedir que voltasse para casa para trocar de trajes.

Renée foi também uma das primeiras mulheres a dirigir no Rio, o que atraía muitos comentários, alguns grosseiros e outros de admiração. Nenhuma das duas reações a perturbava, já que na opinião dela os brasileiros se transformavam em caubóis selvagens quando ao volante. No país que viria a fornecer ao mundo da Fórmula Um campeões como Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, ela resolveu tomar para si a missão de ensinar aos motoristas, via exemplo, como respeitar os limites de velocidade. O carro dela sempre acabava atravancando o trânsito na faixa da esquerda. Isso fazia com que recebesse um sem-número de gritos e de palavrões dos motoristas obrigados a fazer a ultrapassagem pela direita. Anos mais tarde, ela também tentaria deixar claro aos surfistas de Ipanema que o mar era de todos, nadando com a sua toquinha florida entre os cabeludos sarados e suas pranchas.

Porém, apesar da satisfação em vender como jóias colares de contas aos nativos, nem sempre a história colava​. Sem contar que havia gente que de fato pertencia àquele mundo no Rio de Janeiro, para início de conversa, a Inglaterra que provocava suspiros em admiradores incautos era agora um lugar em transformação. Após duas pesadas guerras mundiais, as tradicionais divisões de classe estavam virando uma coisa do passado. Conforme o país foi se reconstruindo, os privilégios antes reservados para a aristocracia – agora falida – foram ficando acessíveis à uma classe média emergente. A nova dinâmica criou dois campos: os que queriam enterrar o passado e construir um Reino Unido onde todos tivessem oportunidades iguais e os que queriam tomar o lugar da aristocracia declinante e desfrutar os privilégios que seus pais nunca tiveram. Renée pertencia ao segundo grupo. A rainha Elizabeth foi mais sutil e resolveu popularizar a monarquia como estratégia de sobrevivência.

As duas maiores barrerias que encontrou para sua forçação de barra eram dois: a substituição do Reino Unido pelos Estados Unidos no topo do mundo ocidental e o aparecimento da cultura jovem nesses dois países. Para manter seu sonho vivo, ela rejeitava toda e qualquer novidade que contradizesse sua narrativa de rainha modernizadora dos trópicos. Que nem a madrasta da Branca de Neve, sua vaidade parecia perguntar ao espelho “Espelho, espelho meu, existe alguém ou algo mais avançado do que eu?” Se tivesse, bloqueava na hora. Isso atingia as raias da incomprensibilidade. Sob sua guarda não havia televisão, pouquíssimo cinema e nada de música popular, fosse ela brasileira ou internacional, incluindo o jazz, a bossa nova e o rock’n’roll. A única expressão cultural válida era o teatro – o de Londres é claro – e a música clássica. Para ela, a arte contemporânea era um lixo; a pintura tinha morrido com o expressionismo e em literatura, mesmo o hiper-religioso Tolkien, autor do Senhor dos Anéis, era visto com suspeição.

Sua fobia à novidades era tanta que, por alguma razão, ela também barrou de sua vida tudo o que não lhe tinha sido familiar na Inglaterra: doçes, refrigerantes, hambúrgers, milk-shakes e pastéis. Em contrário de todos à sua volta, ela insistia em uma dieta saudável e insossa, parte de uma noção, de fato à frente do seu tempo, de que a alimentação era fundamental para a saúde.

*

Nascido em 1900 num vilarejo na província austro-húngara da Galiza, na Polônia, Rafael, seu comparsa – e agora provedor – nas aventuras de validação social, não podia ser mais diferente. Os austro-húngaros, vistos como os senhores daquele mundo, menosprezavam os poloneses, que por sua vez desprezavam, a ponto de odiar, os judeus. Por sua vez, os judeus mais assimilados e vivendo em capitais Europeias viam os do leste europeu, como a família dele, como atrasados e presos a superstições religiosas das quais tinha se livrado ao sair dos ghettos. Para piorar as coisas, os mesmos judeus do leste europeu consideravam os galitzers como camponeses que não tinham saído da idade média. Assim sendo, embora a Galiza fosse a região da Polônia mais tolerante em relação aos seus estrangeiros: muçulmanos balcânicos, judeus, turcos e russos, ele cresceu como um caipira entre os caipiras. A ida para a Alemanha tinha sido a maneira que encontrou para escapar daquele determinismo sufocante.

Apesar de ter recebido uma rica educação rabínica, Rafael nunca frequentou uma escola secular quanto menos uma universidade. Contudo era inteligentíssimo e compensava essa lacuna trabalhando duro com diligência e criatividade. Com esses atributos alcançou cedo sucesso no mundo dos negócios, tanto na Alemanha pré-nazista quanto mais tarde na Holanda. No entanto, foi em Londres, em meados da sua quarta década, que seu destino deu uma guinada inimaginável. O casamento com uma beldade de uma abastada família de Golders Green e o brinde de um imóvel pago pelo sogro numa área respeitável de uma metrópole mundial foi o equivalente a ganhar na loteria.

Esse legado fez com que na vida doméstica, tal como Sancho Panza, ele obedecesse a todas as regras que a esposa impunha, mesmo se não fizessem sentido algum. Maduro e conhecedor dos recantos mais sombrios da vida, ciente das diferenças gritantes entre os dois, Rafael soube fazer com que ela se sentisse idolatrada e que seu personagem permanecesse vivo. Com isso, conseguiu manter sólido um relacionamento improvável num lugar mais improvável ainda.

A vida confortável no Brasil virou uma tentativa de se reinventar. Em um lugar tão diferente quem sabe ele pudesse encontrar uma recalibragem interna ou a fonte da eterna juventude. Contudo, a melancolia nunca o deixou. Apesar de se sentir bem com a relativa inocência e alegria a sua volta, o contraste com sua dissimulada solidão e com o fim brutal de seu mundo era doloroso demais. O último elo que manteve com algo que se pudesse chamar de lar, foram seus negócios com a Alemanha Oriental, uma república satélite dos soviéticos nascida do país que havia lhe trazido tanto sofrimento.

Na intimidade, seus pensamentos, suas atitudes e seu compasso emocional viviam perdidos numa dimensão diferente que às vezes deixava escapar em histórias da sua infância como a de quando, na escola rabínica, colou a barba do seu professor na mesa enquanto este dormia. Também se orgulhava de ter conseguido enganar um policial polonês a procura de bebidas ilegais na casa do seu avô quando criança, despistando uma porta escondida no celeiro. Esse avô, rico e assimilado com quem todos na aldeia vinham se aconselhar, foi mais marcante do que seu próprio pai de quem nunca falava. Rafael era o repositório de uma coleção de piadas, palavras, ditados populares e ensinamentos religiosos de um mundo que agora somente existia em suas memórias, na sua língua nativa, o iídiche, e em raras fotografias.

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Mania e a Bola de Fogo

SINOPSE
Ficção, entretanto inspirada na vida de Mania Kaufmann que morreu em São Paulo, aos cem anos
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MÂNIA E A BOLA DE FOGO
Autor: Josebel Rubin

A cadeira de balanço pendulava em sintonia com o belíssimo relógio de parede que ela trouxe da Alemanha quando seus pais, encantados pelo shadchan yossef, o falante e bem sucedido casamenteiro, concordaram com o arranjo.
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Em seus 17 anos, Mânia espiava a conversa, entre medo e encantamento por aquela figura alta e um tanto desengonçada, um pouco estranha para o seu olhar de quase menina.
A Alemanha vivia o ano de 1930, quando os nazistas começavam a aumentar seus assustadores ruídos.
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Agora, passados 12 anos, na cadeira de balanço que ela sempre postava defronte a janela da casa, avistava o pequeno mundo daquela pequena cidade inglesa, a pouco mais de 100 km de Londres, e seus pensamentos pendulavam entre a alegria de pensar no marido um quase aventureiro a quem ela aprendeu a amar, e a amargura de rever as imagens de sua mãe e de sua irmã ,em um campo de concentração. Seu casamento a livrou da Alemanha nazista, mas deixou o tributo das lembranças.
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Corriam as horas que antecediam mais um shabat daquele 1942. Mania viu, trêmula, a aproximação de uma bola de fogo que veio vagarosamente em direção ao seu rosto e depois se afastou, brusca, meteórica. Ela soube então que a mãe e a irmã tinham partido deste mundo.
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A bola de fogo se espatifou em milhões de fatias e muitas delas vieram para o Brasil, para onde ela acabou mudando e vivendo o resto dos seus dias.
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Na sala, sempre manteve uma cadeira de balanço, um permanente olhar sobre as ruas turbulentas de São Paulo e sempre um pêndulo, a balançar os pensamentos no turbilhão das dolorosas imagens.
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Mania faleceu por aqui, três dias depois do Shabat em que completou cem anos de vida.

Memórias

Francisco (16/04/1918 – 11/06/2000)

In memória

“Pegue o primeiro avião porque teu pai quer te ver antes de morrer”

 

Sala de aula lotada, 150 alunos se preparando para o vestibular. Aula de literatura. Ela estava analisando a obra de Milton Hatoum – “Um relato de um certo Oriente.” O coordenador chega e pede para falar em particular. Ela pede um pouco de tempo para finalizar os comentários de um personagem e seus dramas, os metarrelatos. Pede licença aos alunos e vai à sala da coordenação. Todos estavam solícitos e quando ela vê, em uma cadeira, o rapaz que trouxe a noticia, suas mãos tremeram. Jamais alguém viria ao cursinho se não fosse para algo muito sério. Ela sentou abruptamente, e foi logo perguntando, papai? Não houve resposta imediata. O rapaz apenas falou que o voo já havia sido marcado. Ela teria algumas horas para organizar os filhos, cachorros, gatos e a mochila de viagem. Com um olhar e alguns gestos falou, vou e quando voltar continuarei a aula. Foi para casa, fez várias ligações, colocou coisas na mochila sem muita ordenação e um livro… Pegou um jeans surrado, pois era assim que ela usava em dias sem exigências da carreira, camisetas, uma boina, que havia comprado em uma de suas viagens, abriu o guarda vestidos e tocou em todos, havia saudades… Ela sabia que os irmãos não aceitariam sem um bom traje para cerimônia, escolheu o vestido de veludo preto com rendas e detalhes de seda laranja e preta, presente da mãe. Ela amava este vestido, usava-o em poucas ocasiões, como se fosse para eternidade…  Falou para os filhos as devidas obrigações, alimentação, escola e horário do dentista, natação. Acariciou os animais e beijou cada filho com muita ternura e falou, a mamãe volta breve. O vovô precisa ver mamãe. Após tantas horas de voos e conexões, a introspecção foi formando e ordenando as mais doces lembranças do pai e sua infância com tantas aventuras e lendas contadas. Lembrou-se de uma que a fez chorar por muitas vezes: “A menina que nasceu no oco do pau.” Essa menina era ela. O pai criava toda a imagética do nascimento, a menina acreditava e chorava… Queria ser filha da mãe e dele.  Lembrou-se das primeiras espigas de milho que o pai trazia para ela e sua irmã, transformando-as em bonecas.  As vestia com os retalhos das costuras da mãe. Como ele sabia dar-lhe alegrias… No aeroporto de Manaus, que ficou exatamente 6 horas de espera para o próximo voo, ela percebeu um jovenzinho que se aproximou e parecia querer algo, parecia um indiano pelas características físicas. Ela não entendia bem o que ele queria, mas percebeu o frio da madrugada no aeroporto quase deserto. Tirou a echarpe e o cobriu para aquecê-lo, os olhos do garoto ficaram com gratidão e um sorriso pálido apontou em seus lábios. Ela o aconchegou e disse, espere que vou comprar algo quente para você. Ela cruzou o saguão e foi até um dos quiosques. Pediu café e algo para alimentar o garoto. Quando entregou o lanche nas mãos do menino, ela percebeu sua solidão, mas não podia se envolver mais que o possível. Apenas observava-o, mastigava com delicadeza o alimento, como se fosse um ritual. Talvez estivesse viajando ao encontro do pai, não sabia… Lembrou-se da aula pela metade, dos personagens e seus dramas, as dificuldades da convivência familiar, nos segredos tão bem guardados, o afogamento de Emir… Olhou novamente para o menino, que acabara de mastigar o último pedaço do sanduíche e com olhos marejados em lembranças antigas, pensou na dor de sua mãe quando perdera o primeiro filho afogado, que levava o nome do pai. Assunto proibido. Dor quase não tocada por ninguém. Só ouviu sobre a morte tão precoce, muitos anos depois, entre um suspiro da mãe e sua tia, que lhes segurava as mãos. Ficou por muito tempo sentindo saudades do irmão que não conhecia. Criava sempre uma história para este rosto que se transformava. Observando com mais atenção o menino, percebeu uma palidez tocante, quantas histórias poderia ter vivido, quantas marcas poderia ter sofrido… Chegou a pensar que ele poderia ser uma mula (transportando drogas), coisa comum nesse tempo sem lei, afastou o pensamento com as mãos em um gesto desesperado. Ela cogitou várias possibilidades, mas não perguntou nada. Pegaram o mesmo voo para Brasília, ao chegar cada um foi para suas salas de embarque. Ela apenas olhou em seus olhos e disse, tudo pode ficar bem, não sei, mas pode. Tocou em seus cabelos negros e disse adeus. Em Brasília, havia uma movimentação maior no aeroporto, homens de ternos, senhoras elegantes, rostos indiferentes, talvez, a dor alheia.  Ela voltou aos seus pensamentos, o pai que estava morrendo, a aflição da mãe e dos irmãos. O pai era o porto seguro. Era o silêncio, a cantoria, as boas rizadas, a fantasia. Era o norte de todos por sua capacidade de ensinar os filhos à importância da liberdade. Ele a chamava de”Vinvim”, comparava-a a este pássaro pela delicadeza de ambos, pequenos, miúdos e tristes. Lembrou-se das prendas que o pai sempre trazia ao voltar das roças, uma pedrinha, uma pena de pássaro, coisas de tesouros de pai para filha. Era assim o amor. Suspira profundamente e as brincadeiras todas chegam a um fluxo de saudades antigas. A conexão demoraria apenas duas horas até Fortaleza, e em questão de pouco tempo Recife, palco de outras histórias juvenis. Chega à cidade em que o pai estava. Olharam-se tão generosamente, os anos distantes, as brigas por telefone, o perdão, o abraço único e forte. Mesmo na cama, as mãos e os braços estavam vigorosos. Não precisou de palavras. Havia a certeza da partida e do bem e do mal que cada um fez ao outo. Os irmãos, na sala ao lado, falavam baixinho para espantar as tristezas, contavam suas histórias, suas conquistas. Eles eram assim. Envelheceram e cada um com seus males da idade e suas receitas prescritas. Ela só sabia que o amor da família era maior que qualquer intriga que um dia os separaram. Ela os amava com suas durezas e certezas. Tudo se encerrou na madrugada. Ele amava alegria e o humor era a característica mais presente em sua vida. No velório, um bêbado veio fazer a festa e o riso tomou conta do lugar e o choro foi se dissipando. De repente, todos falavam sobre as aventuras de Francisco. E Antonino, cantiga de dor e tristeza, que tanto ele cantava, foi lembrada por todos. Ela voltou com a certeza de que Francisco ensinou os sonhos dos carneirinhos no céu aos segredos da floresta. O Norte a esperava.

Gigi Pedroza

11/03/2019

Bêbado de desesperança

Uma negritude uma tormenta um cinza amargo. Um desespero amordaçado. O eco do ódio manchando o caminho. Uma reumática verdade ajoelhada. Uma vingança reciclável. Um fracasso acaso pagão acaso divino acaso um descaso ou apenas fracasso.

Duas meias verdades. A esperança encarcerada em uma e outra. Uma bomba poliglota assina a hipoteca do futuro. Um discurso de destruição em massa arrota a versão Beta do novíssimo testamento. Uns mortos inocentes e outros vivos bem culpados. Três tigres de pólvora afiam as unhas colaterais enquanto seiscentos e oito motivos para que a paz seja viável agonizam por decreto sem pena nem glória. Uma sem-vergonhice indomável. Um Oriente Médio rachado ao meio e dois povos despedaçados no meio. Uma região três religiões mil esbarrões. Deus não existe diria o próprio se somasse o sangue em seu nome derramado.

Como sempre, morrem inocentes por sê-lo e governam os culpados por igual motivo. Em todos os idiomas e em todos os canais sempre haverá quem patrocine uma guerra, quem glorifique umas mortes, quem viva dos dividendos pagos pelo sangue alheio. Sempre faltarão vozes que gritem verdades e mãos que aplaudam esses gritos que dizem verdades.

Assim estão as coisas porque assim o quer o deus que é cada um dos cavaleiros deste Apocalipse insuportável.

Sangue que te quero sangue, ordena o general da banda interrompendo a cantiga de roda dos que ainda esperam.

Bêbado de desesperança, tropeço na realidade e antes de cair no chão de mim mesmo me prometo e me juro que nunca nunca voltarei a beber a primeira manchete de jornal que anuncie a vitória da insensatez sobre o cordura ou vice-versa.

Bruno Kampel

O Bezerro de Ouro dos Tolos

Nos conta a Biblia de que Moisés havia subido no Monte Sinai para falar com Deus. O povo cansado de esperar por seu retorno a achando que ter saído do Egito poderia ter sido uma má ideia, forçam  Arão a criar um ídolo e assim forjam um Bezerro de Ouro para adoração.

Moisés retorna com os Dez Mandamentos e revoltado com o povo quebra a pedra com os 10 Mandamentos, dá um esporro geral, detona o Bezerro e coloca ordem na casa.

Eu sempre achei esta história interessante por diversos aspectos e gostaria de compartilhar com quem me lê.

A figura de Moisés é singular. Adotado pela rainha ele foi criado como um egípcio e até descobrir sua verdadeira origem, agiu como tal. Mas aconteceu e um belo ele descobre que é judeu.

Os judeus viviam inicialmente livres no Egito mas acabaram sendo transformados em escravos, mão de obra para construções. Como nada que está ruim não possa piorar, um decreto do Faraó mandou matar todos os bebês nascidos do sexo masculino. Incapaz de cometer tal ato sua mãe o entrega a Miriam, sua irmã mais velha que o coloca em uma cesta no Rio Nilo. Ele é achado pela rainha que passa a criá-lo.

Ao se descobrir judeu, Moisés percebe que a vida para ele e seu povo não vai melhorar nada. Um dia falando com Deus ele é convocado a tirar os judeus do Egito e levá-los para Israel, um terra que lhes é prometida. Depois de muita briga e 10 pragas, finalmente o Faraó resolve libertar o povo judeu e eles para não dar chance ao azar, partem rapidamente esquecendo de levar farinha para fazerem pão, mas isso é outra história.

O Faraó de fato se arrepende e sai em perseguição aos judeus para trazê-los de volta. Na fuga Moisés consegue abrir uma passagem pelo mar, os judeus chegam do outro lado, mas o exército egípcio que os perseguia acaba sendo engolido pelas águas.

Os judeus começam a sua saga em direção a Terra Prometida, o que não foi fácil. Então acontece o episódio do Bezerro de Ouro e como castigo, são condenados a vagar por 40 anos no deserto para que uma nova geração de libertos nasça e seja ela a entrar na Terra Prometida.

Independentemente de se tratar de uma história verídica, ou não, afinal não existe nenhuma prova destes acontecimentos, a figura de Moisés é o centro de tudo.

Moisés ao conhecer sua orígem, imediatamente passou a defender o povo judeu e seu direito de ser um povo livre. Esta luta pela liberdade e a conquista de um lugar que pudessem chamar de sua nação é épica e nós a repetimos todos os anos na nossa páscoa para que todo judeu saiba que um dia fomos escravos e lutamos por nossa liberdade como um exemplo para todos os povos.

Ele foi o responsável pelas primeiras leis escritas e normas de civilidade com os 10 Mandamentos. Pela primeira vez um povo passa a ter um dia de descanso. Não matar e não roubar passam a ser preceitos básicos, coisa que não acontecia até então. Estas leis passam a dar um sentido de civilidade a humanidade.

Muita coisa aconteceu desde então, mas como seres humanos, nos custou muito colocar em prática coisas tão simples como estas.

No Brasil de hoje o povo recebeu um novo Bezerro de Ouro para adoração. Uma elite ultrajada com a perda de sua supremacia racial, inconformada com as conquistas das castas inferiores e sobretudo incomodada com a concorrência e convivência nas universidades, aeroportos e supermercados, deu ao populacho um símbolo para idolatrarem.

Assim como o Bezerro de Ouro, este novo ídolo veio incubido de dar ao povo um sentido de participação nos destinos da nação, seja lá qual destino cada um entendeu para si. O fato é que a maioria das pessoas foi levada a crer que ele vai trazer felicidade e desenvolvimento e que na próxima Copa do Mundo vamos fazer 8 X 0 na Alemanha.

Mais provável que o futuro resultado deste hipotético jogo, é a tragédia que está desabando sobre o país. Estamos com um ministério de uma República das Bananas, me desculpem as bananas. Ministros de uma mediocridade nunca vista, com uma verborragia vergonhosa que se supera a cada dia.

Este Bezerro ungido presidente é de longe, incomparável ao que de pior o Brasil já teve a frente de um governo. Ele é tão ruim que a mídia golpista já se pergunta como chegamos neste ponto e como vamos sair disso. Isso tudo com menos de 100 dias.

Na minha opinião, somente as ruas mudam este quadro. Enquando a esquerda continuar apontando dedos, não repensar seu erros, entre eles ter nomeado os piores juízes que este STF já teve antes do Alexandre de Moraes que é “Hors Concours” e não ter aparelhado devidamente o estado como faz muito bem a direita, ter sido complacente com a bandalheira entre tantas outras burrices, o Brasil não vai tomar jeito.

As ruas agora são dos blocos de carnaval, depois disso precisam ser ocupadas para derrubar este Bezerro.  Sem o clamor das ruas nada vai acontecer de bom e nada salva o país de retrocessos históricos e da perda de árduas conquistas sociais populares.

Este é um Bezerro de Ouro feito com Ouro dos Tolos.

Uma empresa chamada Brasil

Finalmente chegara o grande dia do julgamento. As coisas na justiça são muito demoradas, mas dizem os advogados que precisam ser assim mesmo. Eu não podia reclamar porque comigo ela andava a galope.

Meu caso deveria ser muito simples. Eu trabalhei oito anos em uma empresa chamada Brasil e ela pagava o meu salário. No entanto a empresa afirma nos últimos meses que havia me pago a mais, ou seja, além do que eu deveria receber.

Como podiam dizer isso, eu ainda não entendia. Explico: durante o processo, conseguiram uma ordem de busca e apreensão na minha casa, desbloqueio dos meus sigilos bancários, escutas nos meus telefones e o escambau. Reviraram a minha vida de cima abaixo, de trás para frente, dos meus parentes, dos meus amigos, dos meus cachorros etc. Ainda assim depois de nada encontrarem, lá estava eu sentado como réu.

Confesso que ainda hoje quando penso nisso, me passa na cabeça que aquilo tudo ia acabar em pizza numa grande confraternização entre promotores e advogados. Eu e o juiz repartindo fatias para todo mundo. Não foi bem assim.

Interrogado eu expliquei que nunca havia recebido um centavo a mais do que deveria. Que não tinham uma única evidência disso e achei, sinceramente, que o ônus da prova ainda era da acusação. Claro que me imaginava em um tribunal normal, num julgamento real como manda a lei. Não era bem isso.

Trouxeram uma testemunha, o novo contador da empresa. Ele afirmava que além do salário normal, haviam me pago valores a mais e que eu apesar de saber que estava errado, os recebi sem chamar atenção. Que todos na empresa, desde que ele fora admitido nela, sabiam que aquele dinheiro a mais era destinado a minha pessoa.

Assim que ele terminou, meu advogado perguntou o óbvio: como é que ele pagava além do que devia sem nenhum questionamento? Como é que ele contabilizava estes valores? Bem, segundo ele, quando assumiu o cargo na empresa, foi dito a ele que assim era. Que teria inclusive conversado com a minha esposa já falecida, e na conversa questionado  se ela estava feliz com o que eu trazia para casa no final do mês, ela respondeu que sim.

Neste ponto o juiz me questiona se eu estava a par disso. Minha esposa foi até bem objetiva na sua resposta, mas agora já não podia falar por si. Disse ainda que até onde eu me recordava, ela só poderia ter respondido que estava feliz com o valor do meu salário, que era o que eu levava para casa todo final de mês.

Então veio a maior surpresa. O juiz mostra um holerite encontrado na minha residência, preenchido com o meu nome, com o valor do meu salário e onde deveria constar o valor, havia uma rasura com outro valor. Perguntava ele, se eu reconhecia o tal holerite.

Examinei o papel e perguntei, devolvendo-o ao juiz, se havia alguma assinatura nele. Não esperei pela resposta e falei que se não existe assinatura não tem valor nenhum. Além disso, eu não me lembro dele.

Com isso, o julgamento foi se encaminhando para o final. Na minha ótica, e do resto do mundo, a empresa não foi capaz de comprovar aquela acusação. Não tinham uma única prova cabal do que alegavam. Nem poderiam porque eu nunca havia recebido nada mesmo.

Hoje, sentado na minha cela, lembrando aquele dia, vejo que eu estava enganado. Minha condenação foi publicada poucos dias depois. Eu deveria cumprir pena por apropriação indébita de valores recebidos além do meu salário, mas preciso explicar melhor para que seja compreendido.

Segundo o juiz, eu teria que pagar pelo crime de intenção de receber valores que não recebi. De acordo com ele, o testemunho do contador alegando que havia dinheiro destinado a minha pessoa, mesmo que de fato nunca tenha me sido depositado, além do holerite sem nenhuma assinatura, eram suficientes para comprovar minha intenção de receber dinheiro a mais e, portanto de cometer um crime. E por esta intenção aqui estou.

Eu estava cotado para assumir a presidência da empresa e com a minha detenção isto não foi possível. O novo presidente acaba de tomar posse e já convidou o juiz que me condenou para um alto cargo, prontamente aceito por ele.

Já estava suficientemente indignado quando vieram me informar que ganhei uma cozinha nova daquela empresa, mas como mandaram entregar no lugar errado, um sítio de um amigo, resolveram me processar outra vez. Agora dizem que foram induzidos a erro porque havia um guarda-chuva de minha propriedade no local e exigem que eu restitua tudo.

PS: Meu carcereiro acaba de me avisar que tem um visitante querendo falar comigo sobre a compra do prédio onde sou mantido. Disse que sou o dono porque estou aqui há sete meses sem pagar aluguel com comida e roupa lavada.

Coisas incríveis acontecem nesta empresa.