Quando o Luto Encontra o Luto

Maoz Inon estava preparando o café da manhã para a esposa em sua casa em Binyamina, no norte de Israel, quando seu pai escreveu no grupo da família no WhatsApp às 7h30 da manhã de 7 de outubro de 2023. A mensagem dizia que mísseis estavam caindo e que sons de guerra preenchiam Netiv HaAsara, a comunidade agrícola mais próxima da fronteira com Gaza, onde seus pais moravam.

Maoz ligou imediatamente. Seu pai, Yakovi, de setenta e oito anos, atendeu brevemente. Ele e Bilha, a mãe de Maoz, de setenta e seis anos, haviam trancado a casa e estavam no quarto de segurança. Netiv HaAsara fica a apenas cem metros de Gaza. Maoz pensou que fosse mais um episódio da violência recorrente ao longo da fronteira. Disse aos pais que os amava e que ligaria novamente em breve.

Às 7h40, quando ligou outra vez, ninguém atendeu.

O horror se instalou quando Maoz começou a ver imagens nas redes sociais de terroristas do Hamas invadindo comunidades israelenses na fronteira. Ele e suas três irmãs se reuniram na casa de uma delas, enquanto o irmão mais novo vinha de Londres. No fim da tarde, conseguiram falar com o responsável pela segurança da comunidade, que lhes disse que a casa dos pais havia sido queimada até virar cinzas. Dois corpos foram encontrados dentro.

Os irmãos iniciaram o período tradicional de luto judaico. No segundo dia, a pedido do irmão de Maoz, Magen, divulgaram uma declaração conjunta rejeitando a vingança em nome de seus pais. Foram dos primeiros israelenses a se manifestar publicamente sobre a morte de civis em Gaza.

“A vingança não vai trazê-los de volta e só vai intensificar o ciclo em que estamos presos há mais de um século — o ciclo israelense-palestino de derramamento de sangue, vingança e morte.”

Durante três dias após o assassinato de seus pais, Maoz foi tomado pela dor e pelo sofrimento. Numa noite, chorando enquanto dormia, teve o que ele chama de uma visão: toda a humanidade chorava com ele, suas lágrimas curando feridas, purificando terras ensanguentadas, revelando um caminho para a paz. Ao acordar, soube que aquela era a forma de honrar o legado de seus pais.

A primeira ligação de condolências veio de Aziz Abu Sarah, um ativista palestino pela paz que Maoz conhecia apenas de nome. O irmão de Aziz havia morrido em 1990 em decorrência de ferimentos sofridos numa prisão israelense. Quando Aziz sugeriu que continuassem trabalhando juntos pela paz, Maoz não hesitou.

A colegas que demonstraram incredulidade diante da rapidez com que ele intensificou seu ativismo após perder os dois pais, Maoz disse: “Quando uma pessoa se perde no deserto, ela clama por água. Quando uma pessoa se perde nesse tipo de luto, é normal clamar por paz.”

Desde então, Maoz e Aziz têm viajado o mundo juntos. Em maio de 2024, falaram ao papa Francisco e a doze mil construtores da paz em Verona, na Itália. Receberam uma ovação de pé e um abraço do papa. Um ano depois, encontraram-se com o papa Leão XIV no Vaticano. Em dezembro de 2025, Maoz recebeu o prêmio Champion of Shared Society por seu trabalho em prol da convivência pacífica entre judeus e árabes em Israel.

O livro deles, O Futuro é a Paz: Uma Jornada Compartilhada pela Terra Santa, escrito em coautoria com o ativista palestino Hamze Awawde, tem lançamento previsto para abril de 2026.

Antes de 7 de outubro, Maoz havia passado vinte anos construindo pontes. Em 2005, criou uma pousada na Cidade Velha de Nazaré em parceria com uma família árabe local, com o objetivo de revitalizar a área e servir como plataforma de diálogo intercultural. Mais tarde, fundou a rede Abraham Hostel em Jerusalém, que se tornou a maior cadeia de hostels de Israel.

“Durante 20 anos tive parceiros da Palestina, da Jordânia e do Egito. Eu sei que israelenses e palestinos podem viver juntos porque vivi isso.”

Vinte e três anos antes, e centenas de quilômetros ao sul, em Belém, na Cisjordânia, outra história se desenrolava.

Layla Alsheikh nasceu e cresceu na Jordânia. Estudou contabilidade e gestão empresarial. Em 1999, casou-se e se mudou para Belém, realizando o que chamava de seu sonho de vida: retornar à Palestina.

Na madrugada de 11 de abril de 2002, seu filho Qussay, de seis meses, começou a ter dificuldades para respirar após soldados israelenses lançarem gás lacrimogêneo em sua vila. Layla tentou levá-lo às pressas ao hospital, mas soldados israelenses a impediram de fazê-lo por mais de cinco horas.

Qussay morreu naquela noite por falta de atendimento médico em tempo hábil.

Durante quatorze anos, Layla carregou seu luto em silêncio. Nunca buscou vingança. Nunca contou aos outros filhos como o irmão havia morrido, relutante em arrastá-los para o que chamava de um ciclo de violência.

Em 2016, uma amiga a convidou para uma reunião do Parents Circle–Families Forum, uma organização que reúne famílias israelenses e palestinas que perderam entes queridos no conflito.

A primeira reação de Layla foi: “Você está louca?”

Mesmo assim, ela foi. Na primeira reunião, sentou-se em silêncio, ouvindo outras mães contarem suas histórias: uma mãe que perdeu o filho em um atentado suicida em Jerusalém; uma mãe que perdeu o filho em um bombardeio em Gaza; uma avó que perdeu a neta em um ataque com foguete.

Layla percebeu que todas choravam da mesma forma. Todas tinham o mesmo vazio no peito. Todas acordavam pela manhã e precisavam de alguns segundos para lembrar que aquilo tinha realmente acontecido.

Na segunda reunião, Layla falou. Contou sobre Qussay. Sobre as cinco horas no posto de controle. Sobre segurar o corpo do filho enquanto ele ficava cada vez mais leve em seus braços. Quando terminou, uma mãe israelense atravessou a sala e a abraçou sem dizer uma palavra.

“Uma das mulheres israelenses se levantou e me disse: peço desculpas a você em nome do meu povo. Eu também sou mãe e sinto a sua dor. Ela não sabia que, com essas palavras simples, tinha me trazido de volta à vida.”

Layla voltou para casa e chorou como não chorava havia anos. Mas era diferente. Não apenas dor, havia também um tipo de alívio que ela não conseguia explicar.

Não há indícios de que Maoz e Layla já tenham se encontrado. Eles atuam dentro do mesmo movimento, mas seguem caminhos separados. Maoz viaja o mundo com Aziz, falando para plateias, encontrando papas, escrevendo livros. Layla participa das reuniões do Parents Circle em Belém, senta-se com mães israelenses e se recusa a permitir que a morte do filho sirva de justificativa para que outros filhos morram.

Desde 7 de outubro, as reuniões do Parents Circle tornaram-se mais difíceis. Os membros vivem em mundos distintos, moldados por ambientes midiáticos diferentes. Quase todos os membros palestinos perderam numerosos familiares em Gaza durante a guerra. O governo israelense proibiu o Parents Circle nas escolas, embora muitas escolas tenham desafiado a ordem.

Em um evento recente, alguém perguntou diretamente a Layla como ela conseguia conciliar genocídio e ocupação ao fazer esse trabalho com israelenses.

“Nem tudo eu posso perdoar.”

Ela descreveu suas próprias experiências com a violência de colonos sancionada pelo exército na Cisjordânia. O trabalho do Parents Circle, enfatizou, não exige perdão nem esquecimento. Exige apenas o reconhecimento da humanidade daqueles que estão sentados do outro lado.

Maoz não esqueceu que o Hamas matou seus pais. Layla não esqueceu as cinco horas no posto de controle. Nenhum dos dois perdoou. Mas ambos decidiram que seu luto não será transformado em arma, que sua perda não será usada para justificar mais perdas.

“Durante 60 anos, meu pai foi agricultor. Durante 60 anos, ele semeou trigo nos campos de Israel. E não importava o quão devastador tivesse sido o ano anterior, por enchentes ou por seca. Ele sempre semeava novamente. E eu perguntava: papai, o que você está fazendo? Por que não desiste? Por que não faz outra coisa? E ele sempre me dizia: Maoz, meu filho, o ano que vem será melhor. O ano que vem será melhor. E eu tenho a capacidade de torná-lo melhor.”

Maoz não pode mais semear trigo nos campos do pai. O kibutz ainda está se recuperando. Muitos vizinhos foram embora. Mas ele continua o trabalho em que seus pais acreditavam: construir pontes, conduzir viagens que aproximam israelenses e palestinos, falar para públicos ao redor do mundo.

“A esperança não é um sentimento que eu espero chegar. Eu faço esperança. A esperança é um esforço coletivo, algo que criamos juntos.”

Layla não pode trazer Qussay de volta. Não pode desfazer as cinco horas no posto de controle. Não pode apagar a memória do corpo do filho ficando mais leve em seus braços. Mas ela continua frequentando as reuniões do Parents Circle, continua sentando-se com mães israelenses e continua se recusando a deixar que o trauma defina completamente quem ela é.

Nenhum dos dois acredita que esteja mudando o mundo. Nenhum dos dois tem ilusões de resolver o conflito. Mas ambos fizeram uma escolha: recusam-se a deixar que seu luto se transforme em ódio.

Fontes das citações:

  1. The Catholic Register
  2. Emanuel Congregation of New York
  3. France 24
  4. The Amherst Student
  5. Alliance for Middle East Peace (ALLMEP)
  6. Democracy Now!
Onde estará?

Onde estará?

À Jacqueline Du Pré, inspiração acima de datas e rituais.

A avó portuguesa do amigo tijucano gostava de mim. Quando os sinos do Natal começavam a bimbalhar no horizonte, convidava-me para a ceia, mesmo sabendo que nossas tradições eram diferentes. Um espanto! Frutas secas, rabanadas, peru saindo do forno (que aroma!), panetones, banquete para um Menino habituado à frugalidade radical. Ali tomei, pela primeira vez, um vinho verde, que achei estranho e, zás-trás, me nocauteou. O clima era amável, ninguém contava histórias que podiam constranger, nada de tiozão do pavê ou sectarismos. Adolescente, aprendi o valor da comunhão pela amizade, do respeito às diferenças e da conversa com leveza.

Cercado pelos primeiros sinais natalinos, Papai Noel tomando Coca-Cola nos reclames e Jingle Bells na veia e sem molho tropical, resolvi hoje sair em busca do espírito de Natal. Teria ele abraçado Mimi e fugido pra Xangai? Ou teria saído por aí, levando violão debaixo do braço e procurando chaminés inexistentes? O que, afinal de contas, é esse espírito? Dizem as boas e más línguas que é o guardião da fraternidade, da união, da empatia, da solidariedade e outros valores menos votados. Cadê ele?

Peguei o metrô e fui à luta. No vagão lotado, observei um rapaz cabisbaixo. Depois de duas estações, começou a soluçar. Um choro silencioso, sentido. Não eram lágrimas de esguicho, mas dava para ver que havia ali muito sofrimento. Que tipo de lembrança o invadira? Olhei em volta, outras pessoas também perceberam o que estava acontecendo. Ocupadas com celulares e embalagens para presente, não moveram uma palha. Quando, vencendo uma crônica timidez, pensei em oferecer-lhe conversa, o trem parou e ele saltou, levando consigo uma dor que não sei dimensionar. O espírito de Natal devia estar distraído,/ assobiando uma canção./Passou batido/por aquele vagão.

Já na rua, quase aos solavancos, tento desviar-me da multidão apressada. Consumir é preciso, viver … nem sempre. O Fradinho magro, eterno ingênuo, sussurra: Quem sabe o espírito de Natal divide-se, generosamente, dentro das caixas embaladas com papel colorido, esperando apenas o momento de fazer uma entrada triunfal? Como dizem que ele é silencioso e invisível, jamais o saberemos.

Dentro de uma lotérica, uma fila aguarda atendimento. É a ilusão de mudar a vida com sorteios e mandingas. Ao lado da fila, uma imagem perturbadora. Prostrado no chão, um homem quase nu estende a mão pedindo misericórdia. Está tão fraco que mal consegue levantar a cabeça. Encolhido, à beira do nada, recebe apenas a indiferença. É um horror que me faz lembrar uma foto dos anos 90, tirada no Sudão. Uma criança subnutrida jaz na terra árida, sem forças para andar. Perto, um abutre observa, paciente, antecipando a refeição potencial. A figura rastejante que vi na lotérica, acredite, ilustre passageiro, era um homem. Os abutres, ora os abutres, somos todos nós. O espírito de Natal, sem dar o ar da graça, tem filtros muito seletivos, cuja lógica será sempre inacessível.

Um tanto desapontado com a primeira amostragem, abro o jornal. Leio que o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, ordenou que o padre Julio Lancellotti deixe de transmitir suas missas pela internet e suspenda as atividades nas redes sociais. O padre Julio, que tem 2,3 milhões de seguidores no Instagram, é conhecido por seu trabalho a favor da inclusão de minorias e de ajuda a moradores de rua. O que diria o espírito de Natal desta censura, do arbítrio antipopular, em nome do originador da data natalícia? Que conforto ofereceu a Leonardo Boff quando foi condenado ao silêncio obsequioso por um papa ultrarreacionário?

Volto à senhora portuguesa e sua família que me acolheram num Natal distante, apresentando-me um ambiente calmo, sem cobranças e, sem discursos ou proselitismo, mostraram-me uma celebração memorável. Quem sabe o espírito de Natal, em seu mistério imaterial, não passe de uma memória suave que diminui a carga do viver? Um pouco de poesia não machuca.

Abraço. E coragem.

Os Femininos, no Filme Vicky Cristina Barcelona, de Wood Allen

Os Femininos, no Filme Vicky Cristina Barcelona, de Wood Allen

Vicky Cristina Barcelona é um filme de desenho poético e substância humana próprios de Woody Allen, seu diretor. Nele, a voz masculina vai soltando o fio narrativo como o de Ariadne, querendo manter o controle ou simplesmente não ser devorado pelo universo feminino, que se impõe com personagens vívidas, vigorosas e intensas, especialmente, as de Maria Elena (Penélope Cruz), Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson).

 

Por outro lado, as figuras masculinas são caracterizadas em quatro sentidos. A de Juan Antonio (Javier Bardem), como pintor que depende da inspiração e presença da ex-mulher e de movimentos externos; a de maridos, cujo foco de assuntos gira em torno das futilidades cotidianas das mentes americanizadas e cocacolizadas, criando-lhes um comportamento insensível e impermeável; a de um velho (o pai de Juan) cujos textos servem apenas para demonstrar seu ódio pelo mundo e, lógico, a “voz” que verbaliza as relações como em um confessionário.

 

Assim, o homem ou o masculino, aparece apenas como alguém que diz, verbaliza, como no caso do convite de Juan Antonio ou do isolamento de seu pai. E as outras personagens masculinas despontam no filme como quem oferece um discurso vazio do mercado (computers, casas, viagens, dinheiro, instituições). Mas, é a presença e ações femininas que determinam a vida das relações.

 

Nas personagens Maria Elena, Vicky e Cristina, Allen aponta para o melhor da tradição semítica, renovando a roupagem dos três perfis femininos: Lilith, Havá e Miriam, ou seja, a mulher em uma humanidade anterior, a mulher mítica de Adam e a irmã de Moshè (Moisés), que o salva nas águas egípcias.

 

Mas, ainda no nome de Maria Elena, Allen dá as chaves do mundo helênico, inicialmente, para a figura de Helena (a bela mulher responsável pela Guerra de Tróia) e, assim, como a personagem Maria Elena, influenciando uma nova ordem de relações e descobertas, e abrindo caminho para uma compreensão dos perfis femininos. E é da Mitologia grega que Allen atualiza para suas três personagens, os perfis das Cáritas (as três graças). Aglaia, Eufrosina e Tália (claridade/esplendor, alegria/júbilo e Poesia/flores). Assim, as personagens se revestem do semítico e do grego. Maria Elena/Lilith/Aglaia, Vicky/Havá/Eufrosina e Cristina/Miriam/Tália.

 

Maria Elena é o fogo abrasador e inspirador. A loucura apaixonante de um homem, Juan, dependente dela em todos os sentidos. Ela pinta e cria, mas não há sofrimento em sua arte que, sob os pés, vai se colorindo e plenificando.

 

A obra, neste sentido, é ela, e não a tela! Maravilhosamente senhora de si, como Lilith ao partir, deixa um homem que vai encontrar nos braços perfumosos de Cristina o conforto tolerante de uma mulher que busca algo além dos padrões americanos ou machistas.

 

Cristina procura em Juan, em sua pintura e em sua provocação, o sentido de sua vida, a Poesia e a música, e ele a leva para sua casa, para seu mundo e para suas telas. Mas, o sentido que Cristina procura, ela encontra apenas quando Maria Elena retorna, de modo dramático e único.

 

É com ela, Maria Elena, Aglaia dos encantamentos e claridade, que Cristina aprende a olhar o mundo externo humano ou não. É com ela que aprende a fotografar e, na aparente escuridão do trabalho fotográfico, ela encontra o talhe perfeito, sensual, intenso e poético de Maria Elena, a quem passa a fotografar, vale dizer, a quem passa a ver, enxergar e observar, e com quem passa a se relacionar, como notas e pentagrama, de modo afetivo. Em Maria Elena ela aprende a ver sua própria feminilidade, a alegria, o mundo externo e o exercício da afetividade.

 

Ao lado de Maria Elena, ela se descobre Miriam em música, com cânticos de quem ultrapassa o Mar de Juncos e em Poesia e flores de Tália. Mas, recusa a condição de uma vida aprisionada no triângulo lúdico. Finalmente, descobrindo-se a si mesma, por intermédio de Maria Elena, ela consegue se superar, decidir, questionar como Miriam, e superar a presença de Maria Elena, essa Lilith espanhola.

 

Em outro sentido, sua amiga Vicky, provocada, como o foi Havá, à descoberta amorosa pelo mesmo Juan, recusa o encontro com a recusa de quem não quer recusar. Com as dúvidas de quem encontra dois mundos antagônicos: o de seu (talvez) casamento com a figura amarelada do seu noivo e o mergulho em um mundo de amores e afeição, sem institutos ou regras.

 

E quando a flecha de Eros a atinge, a despeito de sua visão quadrificada. Ela cede, como Eva e Eufrosina, com alegria e júbilo, ao amor e à ternura da experiência do encontro de si mesma, entre os arbustos de algum jardim edênico de Espanha.

 

© Pietro Nardella-Dellova, O Feminino, no Filme Vicky Cristina Barcelona, de Wood Allen in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 94-98.

Paixões e política

Paixões e política

Futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso (Bill Shankly, ex-gerente de futebol do Liverpool)

Ô Jacques, tanto assunto perturbador pra você comentar e escolhe logo futebol ? Depois de um breve diálogo com um querido amigo, no qual expusemos algumas divergências fraternas, resolvi arriscar uns palpites sobre esse que é o esporte que (ainda) mobiliza multidões no Brasil. Longe de ser apenas pretexto trivial para conversa de boteco, estou falando de um dos poucos fatores que simbolizam uma identidade nacional. Difícil tratá-lo em tão pequeno espaço, mas não vou fugir da bola dividida.

Meu amigo, que frequenta arquibancada rival no Maracanã, referiu-se ao Flamengo como “antro bolsonarista”. Pensou, certamente, no Rodolfo Landim, presidente do clube de 2019 a 2024. Landim alinhou-se, publicamente, a Bolsonaro, mas perdeu a eleição do ano passado para Luiz Eduardo Baptista, o Bap, que interrompeu o escandaloso adesismo direitista. É apenas, como tantos outros dirigentes de clubes, um burocrata inexpressivo. O “antro” deixou formalmente de existir, como aconteceu no passado em tantos outros clubes dirigidos por criminosos e simpatizantes da ditadura civil-militar. Há aqui, no entanto, uma questão de fundo mais relevante: a relação de futebol com política. Mais amplamente, de esporte com política.

 O futebol é um reflexo da sociedade e nela a política é o oxigênio que se respira, a artéria por onde circulam relações pessoais e sociais. Não há compartimento social que independa de ações políticas lato sensu. Permanecendo no futebol (o espaço é curto). Nas Copas do Mundo de 1934 e 1938, as seleções italiana e alemã fizeram, perfiladas, a saudação nazifascista, subordinando a esfera de couro a regimes de extrema-direita. Em 1950, Getúlio Vargas e Mendes de Moraes usaram a Copa como propaganda para projeção internacional do país no pós-guerra. Em 1958 (Juscelino), 1962 (Jango) e 1970 (Médici), os campeões mundiais foram, pós-título, ao beija-mão de autoridades que tiraram uma casquinha da euforia popular. Em 1978, a ditadura argentina usou a Copa para alardear uma imagem “limpa” do regime, um dos mais sangrentos do período.

Sempre foi difícil separar a paixão pelo esporte das circunstâncias políticas stricto sensu. Dois exemplos fortes. Há relatos de que presos políticos em 1970, num dos períodos mais duros da ditadura brasileira, discutiram se deviam torcer pela seleção canarinho. Se ela ganhasse, ponderavam, a ditadura usaria o triunfo como arma de propaganda do Brasil Grande. Depois das primeiras vitórias, com atuações espetaculares de Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho & companhia, renderam-se à maravilha do jogo bem jogado. Coisa parecida aconteceu no Uruguai, em 1980, com a disputa do chamado Mundialito. Sob uma ditadura que teve o maior número de presos políticos per capita, os prisioneiros viveram dilema semelhante ao dos companheiros brasileiros: torceriam pela Celeste ? No final, acabaram vibrando com o título vencido pelos uruguaios. Paixão não se anula nem sob tortura.

Antes de continuar, um registro importante. O Flamengo tem boa tradição democrática. Não à toa, aliás, tem a maior torcida do país (cerca de 48 milhões de torcedores, segundo a última pesquisa), atravessando todos os extratos sociais e regiões do país. Os que se referem a ele como “clube do Leblon” têm os cotovelos doloridos e laboram contra os fatos. Estão no vasto currículo da torcida dois movimentos importantes. O Fla-Diretas, que ajudou pioneiramente a mobilizar a galera para a campanha das Diretas-Já, e o Flamengo Antifascista, autoexplicativo.

Finalmente, meu amigo falou que o time do Flamengo é um bando de alienados. Tem razão, mas por que falou apenas do rubro-negro da Gávea ? Todos os times, sem exceção, são exatamente assim. Nada diferente da sociedade brasileira, tristemente despolitizada. O futebol tem sido, historicamente, uma ponte para a ascensão social das classes oprimidas. O modelo deste alpinismo é a ostentação dos poucos que ascendem na profissão. O processo reproduz-se por gravidade. É o oprimido vestindo a máscara do opressor, sem qualquer intenção de desafiar a máquina de exploração do pé-de-obra.

Mencionou ainda meu compadre que durante a Democracia Corinthiana, início dos anos 80, houve uma espécie de revolta contra o reacionarismo da direção do clube. Seria referência das possibilidades de superar o imobilismo. Infelizmente, o exemplo de pouco vale. Em primeiro lugar, não houve uma revolta contra a direção do clube. As lideranças do movimento, Sócrates, Casagrande e Vladimir, contaram com o apoio do diretor e vice-presidente de futebol, Adílson Monteiro Alves, um sociólogo progressista. Em segundo, o movimento viveu em simbiose irrepetível com um momento muito particular da história brasileira. A ditadura vivia seus últimos anos, a reação institucional e popular crescia, mobilizações multiplicavam-se. Com a derrota da emenda Dante de Oliveira, em 1984, a Democracia Corinthiana refluiu, não deixando rastro no ambiente do futebol. Sócrates foi jogar na Itália. Casagrande migrou para o São Paulo.

Bem, muito ainda haveria a comentar, mas o texto já está grande. Quem sabe voltamos para um segundo tempo ? Uma última observação. Jamais fui aos estádios condicionado pela composição da diretoria do meu time. Acho que nenhum torcedor faz isso. Como bem disse o João Saldanha, o jogador pode ser profissional, mas a torcida, e não fujo à regra, é amadora.

Abraço. E coragem.

Rav Giam – HaZaken, e a Caneca d’água: aos pés e nas asas de um Mestre para a vida

Rav Giam – HaZaken, e a Caneca d’água: aos pés e nas asas de um Mestre para a vida

HaZaken e a Caneca d’água

Após a retomada de fôlego, lembrei-me das visitas que recebi na noite anterior, à margem do Tirreno. Há pessoas que me legaram bênçãos e alegria, força e lucidez para caminhar constante, sem detrimento de mim mesmo. Ao deixar a Sinagoga do Quartiere Ebraico, fui à torneira de água bem no meio daquele pátio beber um pouco e me refrescar e, ao ver aquela água jorrando, tão clara e natural, recordei-me, com afeto e respeito, do Rav Giam, HaZaken que, havia alguns anos, ensinou-me muitas coisas sobre a vida e sobre D’us.

Rav Giam foi um bom homem com profundo apreço pela vida e pelas pequenas criaturas da natureza…

Lembrei-me de folhagens viçosas, arbustos verdejantes e árvores imponentes: o limoeiro, a figueira, a palmeira, o cafeeiro, a amoreira, o bambual, a bananeira, a goiabeira, a laranjeira.

E as flores perfumosas do seu jardim, entrecortado por passagens, bancos e muretas de paralelepípedos – tudo plantado e feito pelo seu coração!

Caminhei tantas vezes, na minha última infância e primeira juventude, de um lado para o outro, preso à sua mão, pulando o caminho das formigas, emudecendo-me, atônito, diante dos beija-flores. E descobrindo, a cada canto, a santidade do mundo das larvas, casulos e borboletas, a sabedoria das aranhas coloridas, no alto das árvores, o calor dos ninhos de passarinhos e a vida em sementes explodindo ao vento.

Naquele tempo, convidava-me a estar diante do poço e beber uma canecada de água fresca, e me orientava, também, a ver tudo ao redor porque o poço no rancho daquele bom Mestre era o centro de tudo, mostrando como a natureza e o homem são o corpo e a alma da Terra.

E os olhos iluminados pela bondade podem encontrar Poesia e música puras, e harmonia, e afeto, e respeito pela vida.

Jamais me esquecerei daquela ponte que ele fez entre uma árvore e outra com um galho ressequido para que as formigas pudessem passar pelo alto, protegidas!

E com aquela caneca à mão, meio que derramando água fresca, descobri, para sempre, que estes são os milagres mais próximos da manifestação de D’us!

Então, entendi por que ele se comovia com os cães enxotados, sarnentos e famintos nas calçadas, e os tomava nos braços sarando suas feridas com carinho, banhando-os e alimentando-os, dando-lhes nomes: Zé, Caçula, Preta, Marrom. E, dava-lhes, sobretudo, a amizade e a proteção de sua casa.

Entendi, também, por que arrebanhava das ruas para a pequena varanda tantos gatos quantos podia salvar do veneno da vizinhança. E por que alimentava centenas de pombos, recebendo-os na palma da mão, medicando asas e pés quebrados pela violência das pedras da ignorância.

                                 Tudo

                                     que eu

                             quero é aprender a misericórdia

                          e banhar-me às águas tranquilas da humildade,

                                           chorar, quem sabe, com os que choram

                           e sentir-me feliz com o sorriso alheio…

                                   tudo que eu quero é o tempo vivido e aproveitado

                                  com coisas de alma e sentimento

                         a semente que germina calada,

                                           o rio que corre incontrolável,

                                  a chuva, e o sol e a brisa…

                             tudo que eu quero é abraçar a humanidade

                                           e derrubar barreiras – tantas levantadas –

                            voar a espaços sem termo e conhecer infinitos rumos

                                      desacreditados e estar solto e leve…

                                               tudo que eu quero é o tempo presente

                                  pleno na vida presente e não desconfiar

                                               nem tecer planos

                                            que me conduzam a prisões

                                              irreparáveis

                                                         da existência.

Com aquela caneca de água à mão, compreendi por que ele dava morada ao sapo à direita da porta, e por que mantinha uma tampinha com açúcar para as grandes formigas pretas e, mais adiante, um vaso com água limpa para os passarinhos se refrescarem.

Certa vez, ele chorou compulsivamente, durante uma semana, a morte do besouro grudado à tinta nova que ele deixou no portal em sua horta. Afinal, cada vida perdida tem mesmo que ser pranteada, pois causa desequilíbrio na ordem das coisas. Compreendi em toda a dimensão o choro do Rav, do meu querido Rav Giam. Porque as mãos de um homem bom foram feitas para abençoar a terra, pois é com mãos e atos de bondade que abençoamos – e não com palavras!

Por isso mesmo, eu ficava ali muitas horas e, ao anoitecer dividia o seu pão comigo para depois ficar diante da sua mesa e caminhar, madrugada adentro, por cada uma das letras da Torá, ouvindo do seu peito a angústia e a ansiedade de Avraham, a solidão de Ytzchak, a força de Ya’akov e a determinação de Moshé rabenu pela liberdade.

E depois, fazia-me ouvir o choro de Yirmiahu pelas ruas de Jerusalém, e descer aos infernos de Yoná, e cantar os Tehilim e construir com os Mishlei e Cohélet, e renovar esperanças com Yeshayahu, e descobrir a beleza singular do amor do homem por uma mulher com os Shir Hashirim.

E nessas tantas madrugadas ouvíamos o barulho dos grilos, dos sapos e dos ventos, no seu jardim feito Éden. E, sobre sua mesa, tantos livros abertos, convertendo sua casa numa singular Beit Midrash onde eu era tocado no espírito e inspirado na alma a um verdadeiro Bar Mitzvá e, por tanta assimilação, a uma T’shuvá.

Mas, às vezes, atrás do Mestre aparecia o homem, o poeta e, escondidos entre seus livros, mantinha seus versos, e na profundidade de cada um deles, a sua própria angústia e ansiedade diante de D’us, a sua própria solidão, e força, e fraqueza a sua própria determinação pela liberdade e os seus  pés estrepados, o seu próprio choro e seu próprio grito. O seu próprio inferno, o seu antigo casaco cobrindo as mãos nos tempos de opressão e guerra, o seu próprio amor perdido no passo delicado de uma bailarina espanhola, em algum palco e, sobretudo, a sua própria humanidade!

Porque, segundo Rav Giam, para isto fomos feitos, ou seja, para salvar larvas e nelas, as borboletas, esperando em suas asas encontrar os olhos da mulher amada.

Fomos feitos para estudar a Torá, e esconder entre as páginas sagradas as folhas que ninguém compreende do amor simplesmente humano. Esperando encontrar alguma Dalila, alguma Betsabá, alguma Rainha do Sul, que nos arrebatam no seu encanto, que nos ensinem a amar e nos façam sofrer para, depois, nos fazerem remover colunas, vencer guerras e amar em outras mil oportunidades, procurando atrás de cada coluna, em cada palácio, e em cada dança de uma hebreia o rosto único, o perfume único e a dança única da mulher amada, venha ela de onde vier.

Por isso, a um só tempo, somos tão frágeis e tão fortes. Por isso, nosso jardim é, a um só tempo, Éden e Kaos. Por isso vivemos com um dos pés no leite, no mel, no pão e no vinho da terra prometida, e o outro nos tecidos finíssimos do Egito. 

E transformamos, tantas vezes, nosso Talit, o manto das Mitzvôt, em própria mortalha. Porque somos humanos, a despeito de toda maldade e de toda violência e de tantos obstáculos nestes quatro mil anos, continuamos plenamente humanos. E, como humanos, nos reerguemos, sempre, em nossa Bimá, porque ali se faz iluminar a Torá C’haim.

E é o humano que compreende e salva os cães, os gatos, os pombos, as formigas, os sapos e tudo. Porque queremos descobrir em cada um a amizade e o afeto que humanamente nos falta.

                                                Nas

                                               fachadas

                                    dos prédios

              nas pessoas e nos carros, nas coisas de uso comum,

              na linguagem usual  e na linguagem técnica

                      e na linguagem culta e no verso feito,

                 no peito que aparece no decote, na prece, no dote e no jeito,

                              no olho e no molho que cai sobre o prato

                   e o fato de primeira página que cai no olhar

                molhar dos dedos e os enredos de qualquer carne

                             que se quer sempre e o caminhar, o vestir  e o despir,

                  o par ao parar na ponte e a fronte que se ergue

                             antes que se envergue o altivo

                      cativo falante e a amante que se engraça,

                            a massa humana que divaga

                                              de semana em semana na vaga:

                       tudo parece buscar aparência

                tudo se move em torno do que parece e não há essência

                                 e há ausência de vida

                                              e não há vida

                                                      (e  n ã o  à  vida)

                                                                um não

                                                                        à essência!

Pietro Nardella-Dellova: HaZahen e a Caneca dágua in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 46 e segs.

De olhos bem abertos

De olhos bem abertos

Jorge Luis Borges achava que o paraíso teria o aspecto de uma biblioteca. Para Ruy Castro, ir para o céu significaria ir para um sebo e lá passar a eternidade. Estamos juntos nessa.  Faz décadas que frequento esta agência de viagens fantásticas disfarçada por papéis amarelados e capas sedutoras, vestida por histórias que se recusam a desaparecer. Também como o Ruy, gosto especialmente dos sebos que não são à prova de ácaros e cultivam camadas geológicas de poeiras ancestrais. Embaixo de uma pilha de livros que não desabavam por mistérios da Natureza, descobri um Almanhaque original autografado pelo Barão de Itararé. Escondido em outra, com autógrafo afetivo, a primeira edição de um livro de crônicas do Stanislaw Ponte Preta. Peças de um quebra-cabeças que vão desenhando minh’alma.

Em episódio da série The Twilight Zone (Além da Imaginação), concebido por Rod Serling nos anos 50, o bancário Henry Bemis, vivido por Burgess Meredith (o pinguim do seriado clássico do Batman), é apaixonado por livros. Mulher e chefe o reprimem. Nada de leitura, é perda de tempo, diziam-lhe, coisa de poeta inútil, de malandro.

Certo dia, querendo paz para ler no intervalo de almoço, entra no cofre forte do banco e tranca-se lá dentro. De repente, e lembremos que era uma época de apreensão pelas primeiras bombas atômicas, ouve-se um forte estrondo. Intrigado, Henry sai do cofre e, atônito, descobre que a cidade foi à breca. Prédios em ruínas, ruas em pedaços, pessoas pulverizadas.

No início desesperado e zonzo, caminha trôpego pelos escombros. Descobre, surpreso, que os livros da biblioteca pública estavam intactos. Cá entre nós, bela sacada do Serling: livros e histórias são indestrutíveis. Bemis fica eufórico. Teria, finalmente, todo o tempo que quisesse para ler seus autores prediletos. Dickens, Shakespeare, Twain, Whitman, obras completas, lombadas queridas, sem grasnados censores.

Tudo parecia caminhar bem, grande torcida para o senhor Bemis. Não terminou assim. Ao mover-se na escadaria da biblioteca, seus óculos, portentosos fundos de garrafa, caem num degrau e quebram-se. O mundo fica embaçado, letras inacessíveis. “Não é justo”, murmura em desespero. Assim passaria a eternidade, ao lado da paixão tornada inalcançável. Sempre quis mudar este final e o faço, involuntariamente, a cada livro que leio. Repasso as bem traçadas linhas aos que, em harmonia comigo, garimpam histórias de espanto, surpresa e sentidos para a vida. Olhos bem abertos para as lindezas do engenho e da sensibilidade humanos. O sonho embutido nos sorrisos tímidos de Henry Bemis.

Em visita recente ao sebo Berinjela, bati os olhos numa lombada discreta. Da autora, argentina, nunca ouvira falar. De família emigrante norueguesa, em Cadernos de Infância  Norah Lange compartilhou memórias do tempo em que morou em Mendoza e Buenos Aires. São capítulos curtos, quase independentes. Um deles, que fala da morte súbita do pai, me puxou pelo umbigo com tal veemência que senti como se fosse eu que o escrevera.

A experiência da Morte nunca é fácil. Norah tinha 10 anos quando o pai simplesmente saiu de cena. Os sinais revelam-se em detalhes para a Menina: a luz apagada do escritório em casa, a pressa do cocheiro em afastá-la e às irmãs da casa familiar, o rosto angustiado da mãe. Ante o inevitável, há no princípio uma negação, o choro que não vem. Ela fixa o olhar numa janela, como se a luz solar que penetrava por ali pudesse parar o tempo. Até desabar, chorar horas como milênios. Com o tempo, ela percebe como desconhecia aquele pai subitamente ausente. E conclui: “Quando olho seu retrato, penso que não o conheço, penso que ele não me conhece. Sua morte construiu diferentes destinos”.

O Menino passou por coisa parecida. Numa quarta-feira de cinzas, depois de uma noite exaustiva na tesouraria do clube tijucano, o Grande se foi. Como Norah, procurei uma janela, que só fui encontrar meses mais tarde num livro de popularização da Química (que mudou meu destino). Também como ela, tentei chorar o susto indimensionável, mas não conseguia. Até que uma vizinha, de espírito mediterrâneo, me sacudiu e ordenou: Chora! E as torneiras abriram-se, até hoje pingam, inconsoláveis. Começava o tempo das perguntas que nunca foram feitas, das respostas que não chegaram. O jeito é inventá-las. E por aí vou.

Abraço. E coragem.

Jacques