Jorge Luis Borges achava que o paraíso teria o aspecto de uma biblioteca. Para Ruy Castro, ir para o céu significaria ir para um sebo e lá passar a eternidade. Estamos juntos nessa. Faz décadas que frequento esta agência de viagens fantásticas disfarçada por papéis amarelados e capas sedutoras, vestida por histórias que se recusam a desaparecer. Também como o Ruy, gosto especialmente dos sebos que não são à prova de ácaros e cultivam camadas geológicas de poeiras ancestrais. Embaixo de uma pilha de livros que não desabavam por mistérios da Natureza, descobri um Almanhaque original autografado pelo Barão de Itararé. Escondido em outra, com autógrafo afetivo, a primeira edição de um livro de crônicas do Stanislaw Ponte Preta. Peças de um quebra-cabeças que vão desenhando minh’alma.
Em episódio da série The Twilight Zone (Além da Imaginação), concebido por Rod Serling nos anos 50, o bancário Henry Bemis, vivido por Burgess Meredith (o pinguim do seriado clássico do Batman), é apaixonado por livros. Mulher e chefe o reprimem. Nada de leitura, é perda de tempo, diziam-lhe, coisa de poeta inútil, de malandro.
Certo dia, querendo paz para ler no intervalo de almoço, entra no cofre forte do banco e tranca-se lá dentro. De repente, e lembremos que era uma época de apreensão pelas primeiras bombas atômicas, ouve-se um forte estrondo. Intrigado, Henry sai do cofre e, atônito, descobre que a cidade foi à breca. Prédios em ruínas, ruas em pedaços, pessoas pulverizadas.
No início desesperado e zonzo, caminha trôpego pelos escombros. Descobre, surpreso, que os livros da biblioteca pública estavam intactos. Cá entre nós, bela sacada do Serling: livros e histórias são indestrutíveis. Bemis fica eufórico. Teria, finalmente, todo o tempo que quisesse para ler seus autores prediletos. Dickens, Shakespeare, Twain, Whitman, obras completas, lombadas queridas, sem grasnados censores.
Tudo parecia caminhar bem, grande torcida para o senhor Bemis. Não terminou assim. Ao mover-se na escadaria da biblioteca, seus óculos, portentosos fundos de garrafa, caem num degrau e quebram-se. O mundo fica embaçado, letras inacessíveis. “Não é justo”, murmura em desespero. Assim passaria a eternidade, ao lado da paixão tornada inalcançável. Sempre quis mudar este final e o faço, involuntariamente, a cada livro que leio. Repasso as bem traçadas linhas aos que, em harmonia comigo, garimpam histórias de espanto, surpresa e sentidos para a vida. Olhos bem abertos para as lindezas do engenho e da sensibilidade humanos. O sonho embutido nos sorrisos tímidos de Henry Bemis.
Em visita recente ao sebo Berinjela, bati os olhos numa lombada discreta. Da autora, argentina, nunca ouvira falar. De família emigrante norueguesa, em Cadernos de Infância Norah Lange compartilhou memórias do tempo em que morou em Mendoza e Buenos Aires. São capítulos curtos, quase independentes. Um deles, que fala da morte súbita do pai, me puxou pelo umbigo com tal veemência que senti como se fosse eu que o escrevera.
A experiência da Morte nunca é fácil. Norah tinha 10 anos quando o pai simplesmente saiu de cena. Os sinais revelam-se em detalhes para a Menina: a luz apagada do escritório em casa, a pressa do cocheiro em afastá-la e às irmãs da casa familiar, o rosto angustiado da mãe. Ante o inevitável, há no princípio uma negação, o choro que não vem. Ela fixa o olhar numa janela, como se a luz solar que penetrava por ali pudesse parar o tempo. Até desabar, chorar horas como milênios. Com o tempo, ela percebe como desconhecia aquele pai subitamente ausente. E conclui: “Quando olho seu retrato, penso que não o conheço, penso que ele não me conhece. Sua morte construiu diferentes destinos”.
O Menino passou por coisa parecida. Numa quarta-feira de cinzas, depois de uma noite exaustiva na tesouraria do clube tijucano, o Grande se foi. Como Norah, procurei uma janela, que só fui encontrar meses mais tarde num livro de popularização da Química (que mudou meu destino). Também como ela, tentei chorar o susto indimensionável, mas não conseguia. Até que uma vizinha, de espírito mediterrâneo, me sacudiu e ordenou: Chora! E as torneiras abriram-se, até hoje pingam, inconsoláveis. Começava o tempo das perguntas que nunca foram feitas, das respostas que não chegaram. O jeito é inventá-las. E por aí vou.
Abraço. E coragem.
Jacques