por Mauro Nadvorny | 20 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Justiça, Política
Daniel Silveira desceu ao Inferno, só que ainda não percebeu. Tem uma anedota antiga que diz que a uma pessoa sabendo que ia morrer, lhe foi dada a opção de escolher entre o inferno e o paraíso. Primeiro o levaram para conhecer o inferno. Ficou boquiaberto. Comida e bebida a vontade, gente se divertindo com jogos e praias paradisíacas, uma felicidade só.
Então foi ao paraíso. E viu todos compenetrados em seus pensamentos, discussões filosóficas sobre o sentido da vida, ninguém de porre, um verdadeiro tédio. Não teve dúvida, escolheu que ao morrer desejava ir para o Inferno, e assim foi.
Ao chegar no Inferno foi recebido a chicotadas e colocado para trabalhar em fornos de alta temperatura. Na primeira oportunidade perguntou ao Diabo como era possível, ele tinha vindo visitar antes e era tudo diferente. Bem, respondeu o Diabo, na primeira vez viestes como turista, agora chegastes como residente.
Daniel Silveira, no alto de sua arrogância, se achava intocável. Como turista no Congresso, acreditava que podia fazer o que bem entendesse e falar o que quisesse. Tudo garantido pela imunidade parlamentar, pelo direito a livre expressão e pelo Presidente da República a quem servia como Reinfeld serviu ao Drácula na obra de Bram Stoker.
O vídeo do ainda deputado é de uma agressividade ímpar. Ele despeja impropérios contra os membros do STF, instiga a população a persegui-los nas ruas, enobrece a ditadura com o AI-5 e deixa bem claro que na sua visão esta Suprema Corte deveria ser extinta.
Não bastasse tudo isso, no momento de sua prisão desacatou uma policial ao se negar a usar máscara, e continuou sua sina ao ganhar de presente dois celulares quando já se encontrava preso. Quem os forneceu vai pagar por isso.
A Câmara dos Deputados votou por sua permanência na prisão. Seus problemas estão apenas começando e a ficha começou a cair. Em sua defesa ele confessou que se excedeu (sic). Um pequeno eufemismo para um falastrão deste calibre. Parece que um pedido formal de desculpas com um profundo arrependimento não vai acontecer.
Talvez ele seja sortudo ainda para ter o mandato cassado por seus pares e assim ter sua via crucis remetida para um juiz de primeira instancia, onde o andar da carruagem é lento. Assim ele ganha tempo, uma vez que condenado já está. Como ironia, com uma gota de sarcasmo, fica a pergunta, se isto acontecer, ele vai apelar para o STF?
A memória de Marielle começa a ser vingada. Este ser que se elegeu quebrando a placa de rua em seu nome exibida como troféu, vai pegar caro por seu ato. Quem se achava acima da lei, pairando sobre nós, simples mortais, que tudo podia e a ninguém devia satisfação, para ele o jogo virou.
Claro que na justiça brasileira, em geral, existe um longo caminho a ser percorrido para que ela seja de fato exercida com parcimônia. Os salários dos nobres magistrados são aviltantes. As penas para maus juízes, por demais brandas. O CNJ deixa muito a desejar. Uma reforma se faz premente.
Pode-se discordar de sentenças proferidas por um juiz. As vezes até mesmo contrárias a sentenças já proferidas. Algumas até contrárias aquelas já proferidas por cortes superiores. Raro, mas não impossível, contrárias ao que diz a lei e a constituição. Mas não se pode atacar a justiça.
Daniel Silveira atacou ao atacar o STF como um todo, e seus desafetos da corte em particular, atacou a justiça. Não teve papas na língua. Achou que poderia clamar por uma ditadura em nome da democracia, que pensava ele, não punha limites aos direitos do cidadão. Errou na forma e no conteúdo. Se ferrou.
Nós da esquerda só temos uma coisa para dizer: Daniel tá preso, babaca!
Gratos estamos todos nós que amamos e respeitamos a democracia. Não importa a ideologia. Felizes com a atitude do STF, mesmo discordando de muitas outras. De agora em diante, Daniel Silveira passou a ser residente no Inferno, um lugar perfeito para ele.
por Mauro Nadvorny | 13 fev, 2021 | Comportamento, Israel, Mundo, Opinião
Em Israel 41% da população já recebeu pelo menos uma dose da vacina, sendo que alguns ainda estão por a segunda 21 dias depois. Para cada um dos que tomaram a primeira dose, a segunda fica automaticamente guardada de maneira a não faltar. Se continuar neste ritmo até o final de Março toda a população poderia estar vacinada.
No entanto, aqui, como em muitos outros lugares do mundo, existem aqueles que se negam a tomar a vacina. Alguns religiosos ortodoxos por orientação de seus rabinos, alguns da comunidade árabe por desconfiarem de tudo que é dado pelo governo, e muitos negacionistas.
Semana que vem o governo quer estudar uma maneira de aplicar o Passaporte Verde. Seria um documento que permitiria aos vacinados entrada em Shoppings, restaurantes, cinemas, casas de espetáculo, academias etc. Ainda por decidirem, se instaurou uma discussão ética. Pessoas que não querem se vacinar, cidadãos do país com todos os direitos e deveres podem ser discriminados?
Uma pessoa que não se vacina para o Covid-19, não coloca apenas a sua vida em risco. Ele também pode levar o vírus para outros que ainda aguardam o chamado para se vacinarem, e para aqueles que por razões médicas não podem fazê-lo. Cada pessoa que tem os sintomas graves da doença ocupa um leito de UTI que poderia estar sendo utilizado para salvar a vida de cidadãos acometidos de outras enfermidades. Pior, pode morrer.
O negacionista, geralmente está dando razão a uma mensagem do WhatsApp que recebeu onde constava algum estudo sinistro de médicos sem nomes, de uma instituição não mencionada, afirmando que tomar a vacina causa algum dano irreparável. Ele não só acredita cegamente na informação, como a divulga. Somados, os que não querem tomar vacina hoje representam 1,5 milhão de israelenses. É muita gente.
Em números proporcionais é o que está acontecendo no mundo todo. As Fake News estão se transformando em crime contra a humanidade. Se antes tinham propósitos políticos para detratar um político ou um partido, hoje municiam uma onde de pessoas que dão razão a todo tipo de informação sem base científica alguma como a Terra Plana. No entanto, sua determinação pode levar o vírus a permanecer por mais tempo entre nós, levando a novas mutações que podem causar a morte de milhares de pessoas.
Daí a importância de se criminalizar as Fake News. Espalhar notícias falsas precisa ter uma pena de multa e detenção do propagador. Sem medidas sérias o custo para a sociedade será muito maior. A impunidade é o principal combustível delas.
Muitos sugerem a criação de barreiras que impeçam os negacionistas de conviverem em sociedade, ou torne a vida deles insuportável. Fazer exame a cada 48 horas para poder se apresentar no trabalho, ou ter sua entrada liberada em locais públicos com o custo pago por eles, é uma delas.
Alguns sugerem medidas mais radicais, como a proibição de entrarem em locais públicos sem apresentarem o Passaporte Verde. A única permissão seria para locais que vendem comidas e remédios.
Outros propõe multas pesadas em dinheiro por dia, semana ou mês que a pessoa permanecer sem se vacinar depois de haver recebido lugar na fila.
Infelizmente o Covid-19 não ataca somente negacionistas, ele atinge a todos nós. Uma vez infectados,2% podem ir a óbito.Fora seletivo e matasse somente os que fazem pouco caso, o mundo agradeceria.
Aí está um belo tema para se discutir: numa pandemia até onde vão os direitos individuais sobre os direitos da coletividade?
por Mauro Nadvorny | 8 fev, 2021 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Na última sexta-feira tive a triste visão do Prof. Gonzalo Vecina Neto, eminente e reconhecido médico sanitarista, fazendo uma defesa desesperada da ANVISA, na qualidade de fundador da agência, em uma entrevista na GloboNews que basicamente versava sobre a súbita mudança da agência na política de licenciamento para uso emergencial de vacinas e sobre a pressão do Congresso para que a mesma estabeleça um prazo de 5 dias para a avaliação de pedidos de registro emergencial de qualquer vacina doravante.
De fato, concordo com o Dr. Vecina no que tange à (necessária) respeitabilidade da agência e de seu potencial técnico, além de grandes feitos em prol da saúde e segurança sanitária de nossa população. Mas nem só de glórias e flores vive a nossa ANVISA. Na última edição do meu boletim semanal “Coronavírus e Política, uma infecção cruzada” (gravada no canal Coletivo Estrela, no Youtube) fiz uma longa introdução trazendo uma pequena lista de eventos históricos onde a ANVISA deixou marcas antipáticas de um complexo burocrático desconectado da vida real dos profissionais de saúde e de seus pacientes, e portanto, não me estenderei aqui sobre o passado. Ainda assim, não custa nada manter vivos na memória os eventos onde a ANVISA interferiu de forma excesivamente voluntariosa na vida das pessoas sob pretextos “puramente técnicos”, sendo o mais clássico (e semelhante ao momento atual) o caso dos anorexígenos anfetamínicos e não anfetamínicos, por ela banidos do mercado contrariando todos os pareceres das sociedades de endocrinologia e mesmo a conduta de outras importantes agências estrangeiras. O resultado desta política foi a inclusão de uma medicação usada para o tratamento do TDAH no rol de prescrições até de serviços universitários, o que aumentou tremendamente o custo do tratamento de um grande número de pacientes e também para o estado. O fim da ópera deu-se quando o Congresso decidiu legislar sobre o caso e restabeleceu a “legalidade” dos anfetamínicos, atropelando a agência, em semelhança ao que agora ocorre em relação às vacinas.
É certo que a ANIVSA é um órgão de fundamento técnico e que assim deve proceder. Entretanto, ela é executora de uma política, que é a política de regulação sanitária. Com este status, ela deve ser como a mulher de César, a quem não basta ser honesta, deve parecer honesta. E perdeu boa parte de sua credibilidade ao ser desavergonhadamente aparelhada pelo indigno presidente da República, que plantou na presidência da agência um amigo pessoal de alta patente (o Contra-Almirante Antônio Barra Torres) sem nenhum passado técnico que o capacitasse ao cargo e fortemente alinhado ideologicamente ao chefe do executivo.
No atual contexto de uma pandemia grave como a de COVID-19, é óbvio que medidas urgentes se impõem, entre elas o projeto, testagem e aplicação das vacinas, e desde o trimestre inicial de 2020 apontava-se que em algum momento ainda deste ano haveria a demanda regulatória para o uso emergencial. No final do último trimestre de 2020 surgiu a demanda do registro emergencial das vacinas. Qual foi a resposta da ANVISA? Simplesmente nenhuma. Não havia protocolo de aprovação emergencial na agência, o que teve que ser formulado às pressas e que causou atraso na liberação da Coronavac e da Oxford-AstraZêneca. Em outras palavras, a agência parece ter dormido de março a novembro e não foi capaz de antecipar-se à mais que óbvia demanda escandalosamente visível no horizonte.
Para piorar tudo no que tange à sua imagem enquanto protetora da saúde e da segurança sanitária da população, a agência quedou-se silente em relação ao ilegal exercício da profissão médica por parte do presidente da República, que literalmente prescreveu tratamentos inexistentes para COVID-19 a todos os brasileiros. Ora, aquela agência que me obriga como médico a ter cinco tipos de formulários para prescrever medicamentos aceitos pela ciência e referendados em todo o mundo, que notabilizou-se por uma série de interdições corretas, nada faz para coibir o uso incorreto e arriscado de medicações sob protocolo do Ministério da Saúde formulados goela abaixo pelo chefe do executivo. Esta omissão certamente será registrada como o mais trágico evento da história da ANVISA. E foi criminosa.
Se fosse apenas pelos dois eventos acima, a agência já estaria em uma grande enrascada.
Longe de mim querer criticar a defesa apaixonada do Prof. Vecina, e longe de mim querer a derrocada da agência. A questão é que os fatos mostram que a agência, enquanto resultante da soma de suas partes, seu corpo técnico e funcional, não consegue transmitir uma imagem de coerência à população geral e muito menos aos que tentam heroicamente nos tempos de hoje praticar uma medicina ética e científica. Como clínico que sou, só posso observar que o conjunto de sinais e sintomas apresentados pela nossa “paciente” são compatíveis com um quadro clínico de descolamento da realidade. Sim, o corpo técnico da ANVISA deve ter responsabilidade política além de técnica. Se como médico tenho o dever ético de zelar pelo bom exercício da profissão e também pela boa imagem da medicina e da classe médica, por analogia, e com ainda mais intensidade pelo grau de autoridade que a agência tem, seu corpo funcional deve capacitar-se continuamente ao diálogo com a sociedade e manter em construção permanente um conjunto de ações e princípios que despertem na sociedade o sentimento de segurança sanitária, além da segurança em si mesma.
Ainda no campo do diagnóstico, a guerra entre Ricardo Barros, líder do governo na Câmara e Antonio Barra Torres, mostra a fratura nas hordas bolsonaristas, algo previsível quando temos no governo um bando de loucos, bem adequadamente nominados pelo ex-presidente Lula.
É digna de compaixão mesmo a situação de muitas pessoas que já dedicaram boa parte de suas vidas à agência, e com grandes realizações. Mas o episódio deixa claro que o tecnicismo e o academicismo não dão conta sozinhos de um país com as nossas características. A autonomia de uma agência como a ANVISA só pode ser garantida por um corpo funcional fortemente articulado com a sociedade e que tenha preparo e formação política para que esteja sempre em estado de alerta e consciência sobre as forças do jogo do poder. É ingenuidade imaginar que a ANVISA sobreviva tão somente de tecnicidade. O que aliás, cabe a qualquer instituição. As más consequências desse erro estão no palco.
por Mauro Nadvorny | 6 fev, 2021 | Comportamento, Israel, Opinião, Oriente Médio
É realmente incrível a importância que tanta gente dá a Israel, um país menor do que Sergipe, com 9 milhões de habitantes, que fica longe do Brasil. Nem mesmo a irrisória comunidade judaica brasileira explica isso.
O fato é que Israel não sai das manchetes. São notícias hora boas, hora ruins dependendo também de que lado da história se encontra a mídia, ou seus leitores. São tantas informações, que as pessoas nem se dão ao cuidado de verificarem a fonte e sua veracidade.
No início da pandemia, por exemplo, se dizia que Israel tinha descoberto a cura, que teria vacinas em poucos dias e todo tipo de exaltação a medicina israelense. Nada disso era verdade. O importante era promover falsas esperanças dando crédito a Israel e as relações de Bolsonaro com Netanyahu.
Hoje com mais de 5.000 mortes, no terceiro Lockdown com cerca de 8.000 novos casos diários, ainda assim somos elevados ao primeiro lugar em termos percentuais de vacinação da população. Provavelmente até o mês de Abril, todos que quiseram, somados aos que tinham permissão, vão estar vacinados. Como todos, estamos pagando o preço.
E sim, esta semana, dois hospitais de ponta aqui de Israel tiveram resultados de cura com o uso de fármacos desenvolvidos por eles em pacientes graves da Covid-19. Estes medicamentos estão sendo testados e ainda vão demorar a chegar ao mercado. No entanto, se confirmado o que está sendo visto até aqui, a equação se fecha com o uso preventivo da vacina e da medicação no caso de infecção.
Muito se falou também nos últimos dias com relação a vacinação dos palestinos, de que seria uma obrigação de Israel que estaria sendo descumprida. Antes de tudo, a Autoridade Palestina nunca pediu oficialmente que Israel fornecesse vacinas. Todas as aquisições feitas por eles, ou recebidas como doação foram recebidas. Antes disso Israel já havia doado material médico e máscaras.
Esta semana Israel doou 5.000 vacinas. Até agora elas vem sendo utilizadas para vacinar o corpo médico e os serviços de segurança. Sim, antes de vacinar os mais necessitados depois do corpo médico, eles estão vacinando a polícia. E a bem da verdade, a pandemia não está tão grave nos territórios e nem em Gaza.
Alguns funcionários brasileiros da Organização de direita americana “Stand With Us”, com estreitas relações com o governo Israelense, pagos para defender Israel de qualquer ataque, ou mesmo suposição de estar fazendo alguma coisa moralmente duvidosa se apressaram em mostrar que de acordo com os acordos de Oslo, que Israel descumpre diariamente, a saúde nos territórios está a cargo da Autoridade Palestina. Uma piada de mau gosto.
Neste momento, a situação nos territórios é melhor do que em Israel, e com certeza do que no Brasil. Portanto, não há razão para maiores preocupações.
A Covid-19 continua se espalhando através das diversas mutações que ocorrem. Isto é totalmente previsível e por enquanto não existe nenhuma razão para se duvidar da eficácia das vacinas com relação a elas. O problema das novas mutações é que elas se espalham mais rapidamente do que a capacidade de se vacinar as populações.
Se o ano que passou foi de incredulidade com o que aconteceu, este ano é de esperança. A maioria dos países vão poder começar a voltar a ter uma vida muito próxima do que existia antes. Uma questão de tempo, mas a solução para ele já existe.
por Richard Klein | 30 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Conto, Crônica, Livro
Capitulo 28
Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia.
Caetano Veloso - Canto Para o Povo de um Lugar
A próxima parada era João Pessoa, a capital da Paraíba. Dessa vez deixamos as caronas de lado e resolvemos ir de trem. Era quase de graça e a linha se afastava da costa e entrava pelo sertão à dentro. Dada a escassez de ferrovias no Brasil isso prometia uma viagem única e imperdível. Ela nos permitiria conhecer, mesmo que de relance, essa região tornada famosa em verso, prosa e música. Depois de saciar a fome, beber umas cervejas e dar uma volta pela belíssma Maceió, fomos para a estação. Na entrada, encontramos com os gaúchos da Praia do Francês que tinham gostado da ideia e tinham resolvido se juntar.
Assim que pusemos os pés dentro do terminal, causamos uma comoção. Para os passageiros locais, ver aquela galera estranha era como presenciar a entrada da versão moderna da gangue de Pat Garrett e Billy the Kid ou de uma banda de rock recém-saída do inferno. Só faltava a camera lenta e a musica de filmes de faroeste. Sob olhares constantes e mal disfarçados, compramos passagens para o próximo trem que partiria dentro de uma hora. Sem mais nada para fazer, ficamos vagando pela estação achando graça do pessoal boquiaberto.
Depois que o trem partiu, tomamos posse de um vagão vazio. Pela janela, ficamos curtindo ver o verde litorâneo ficando para trás e paisagem se tornando muito diferente da que tínhamos visto pelo nordeste afora até então. Primeiro, veio o cerrado com sua vegetação densa porém seca e espinhosa e uns vinte minutos depos entramos na aridez do sertão.
Essa região semi desértica era a mais pobre e atrasada do Brasil, a ponto de ser considerada por estudiosos como a região mais semelhante à Europa medieval no mundo. Nela, o povo profundamente católico e supersticioso tinha um relacionamento semifeudal com os donos da terra. A cultura era machista ao extremo e havia um altíssimo grau de analfabetismo. Mesmo sabendo que não interagiriamos com essa população, só o fato de estar ali mudou o clima no trem. Continuamos em silêncio cruzando a vegetação rala no ar quente e depois de um tempo começamos a atravessar e a parar em cidades.
As estações dilapidadas pareciam remanescentes de uma era quando havia uma promessa nunca cumprida de prosperidade. Quando o trem parava, uma pequena multidão chegava às nossas janelas para nos vender todo tipo de coisa, desde garrafas d’água de plástico até animais silvestres. Em todo vilarejo, o trem era o maior evento do dia e nós – os cabeludos estranhos – os destaques. O povo se amontoava em nossas janelas apontando para nós e rindo como se fossemos uma banda de rock de gays drogados.
Algumas vezes faziam piadas sobre nós.“O sulista! Isso aí é cabelo de homem?” A meninada ria.
“Por que, bonitão? Quer que o teu macho fique gato como eu?” A meninada ria mais ainda, mas alguns não gostavam e ameaçavam jogar coisas.
Atrás das estações, mercados mambembes alojavam lojas de roupas baratas, botequins, açougues mal cheirosos e lojas de discos que tocavam alto músicas que davam arrepios de tão brega que eram. Homens andavam a cavalo nas ruas de terra batida entre carros enferrujados, jumentos sonolentos e cães magrelos. Por todo lado crianças descalças corriam sob o sol escaldante.
Quando o trem saía das cidadezinhas, voltava àquela paisagem árida e desolada que lembrava as de faroestes italianos. A população, porém, não era de camponeses mexicanos, mas uma mistura de descendentes de índios, brancos e africanos vivendo em casebres de barro com cobertura de palha. Os pequenos lotes de terra nela, lutavam para parecer fazendas naquele calor insuportável. As plantações eram mínimas e o gado era tão magro que dava para contar as costelas.
Os vagões e sua locomotiva azuis e antigos estavam nas últimas e pareciam em harmonia com o que nos cercava. Por conta do horror dos outros passageiros em compartilhar seus assentos com gente “do demo”, acabamos ficando sozinhos em nosso vagão durante a viagem inteira. Vez por outra, funcionários do trem entravam para conferir o que estávamos fazendo e geravam um silêncio hostil. Apesar da extrema pobreza passando do lado de fora e do clima tenso do lado de dentro, todos concordamos que o passeio estava sendo uma “viagem”. Claro, apesar da vigilância apertada, conseguimos fumar nosso veneno com as cabeças para fora das janelas.
*
No Rio, “paraíba” era o termo pejorativo dado aos membros do seu enorme contingente de nordestinos, sem distinção de onde vinham. Eles preenchiam o papel que mexicanos exercem nos Estados Unidos, árabes na França e paquistaneses no Reino Unido. Igual aos preconceituosos dos países ricos, muitos cariocas tinham sentimentos contraditórios com relação ao Nordestinos. Junto com o fascínio pela sua cultura e da admiração pela suas belezas naturais vinha a rejeição de imigrantes pobres vindos de lá com legados diferentes.
Quando o trem chegou em João Pessoa, a capital da Paraíba, assim que comecamos a circular pela cidade, descobrimos que, pelo contrário, a cidade tinha – pelo menos a nível arquitetônico – uma sofisticação clássica que comparava bem com a do Rio. Suas construções bem conservadas do século 19 e suas avenidas elegantes delimitadas por árvores exuberantes com postes de luz de estilo antigo faziam a cidade muito charmosa.
Porém, o principal motivo de estar contente por estar ali era que uma amiga da faculdade, Francesca, estava passando as férias com sua família Paraibana. Como muitos outros membros da elite local, eram descendentes de italianos. Loura de olhos azuis, era deslumbrante a ponto de uma revista carioca a ter eleito como a musa daquele verão. Apesar disto, o seu atributo mais atraente era seu espírito de moleque e a gente se dava muito bem.
Dessa vez íamos ficar na casa do estudante universitário e assim que chegamos, ligamos para ela. “Richard! Pedro! Seus malucos!!! Como que vocês chegaram até aqui!!?? De que?! De carona de caminhão?? Pegaram o trem pelo sertão?! Hahahaha! Vocês são muito loucos!”
Depois das piadas e de contar alguns “causos”, fui à pergunta inevitável: “E aí, Francesca? Vamos se encontrar?”
“Claro!!” Daí ela cochichou baixinho: “Mas nada de pãpãpã porque o pessoal daqui é caretasso!!”
“Beleza, claro que não, só que você vai perder o veneno que trouxemos de Maceió.”
Ela deu uma risada. “Vocês tão aonde?”
“Na casa do estudante universitário, conhece?”
“Claro! Daqui a pouco tô passando aí!”
Receando que fossemos conhecer alguém da sua família endinheirada, nos vestimos da melhor maneira possível. Na falta de outra opção, colocamos umas roupas hipongas metidas a chique compradas em Salvador. Não demorou muito e ela chegou com dois primos, ambos educadíssimos e com um visual super conservador, com certeza membros eminentes da elite local. Após as apresentações, levaram Pedro e eu num carro elegantíssimo com ar-condicionado para conhecer João Pessoa. Depois, nos convidaram para jantar num restaurante elegante. Foi um convite desconfortável, mas aceitamos por causa da insistência da Francesca.
Eles acabaram fazendo questão de pagar a conta da peixada maravilhosa. Mas diferente do jantar bizarro com dupla de mergulhadores em Vitória e suas “amigas”, não havia nenhum interesse escuso. Porém, descobririamos mais tarde entre risadas que nos confundiram com um casal gay. Não era para menos: nossas roupas neo-hippies, batas e calças floridas e soltas jamais poderiam ser classificadas como roupas para macho em qualquer cidade do mundo em qualquer tempo da história.
Na realidade, mesmo com a má impressão que causamos, tinha esperanças de, quem sabe, engatar uma aventura de verão com a Francesca. Apesar de ter um namorado no Rio, nas matadas de aula nos jardins da faculdade rolava um clima forte. Entretanto, com a família dela por perto – e eu parecendo um extraterrestre para eles – as chances de que algo acontecesse eram zero.
Além da inacessibilidade da Francesca e da elegante arquitetura de João Pessoa, não havia muito o que nos atraísse ou nos prendesse lá. Decepcionados, depois de tres dias ali seguimos rumo ao norte, para Fortaleza, a capital do estado do Ceará, onde ficaríamos com um tio de Pedro.
*
voltar
Início
por Mauro Nadvorny | 30 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Imprensa, Opinião, Política
“O Leite Condensado é para enfiar no rabo da imprensa. Vão pra PQP”. Assim falou o presidente do Brasil num rompante miliciano. Qual foi a consequência desta falta de respeito com o cargo que ocupa? Quem disse nenhuma ganhou uma caixa de chicletes.
O Brasil perdeu o respeito consigo mesmo. Sua honra, sua dignidade, sua história não significam mais nada. O país é um morador de rua entre as nações. Não se importa mais com a sua imagem, como é visto pelos seus pares. Passou com honra o fundo do poço.
Impressionante o desdém da mídia tradicional para os fatos. De um lado a compra de mantimentos de fornecedores suspeitos, para dizer o mínimo. Na sequência uma manifestação destemperada, chula de parte do mandatário brasileiro, e o assunto é logo esquecido.
As explicações para as compras são de um mundo paralelo. Nele os soldados bebem leite consensado para receberem mais calorias. Este leite é mais fácil de se guardar. Mas se feitas as contas, é como se cada membro das Forças Armadas tivesse recebido 1,5 lata de leite condensado por ano, considerando o preço real que é na média de R$ 28,00. Visto desta forma, é razoável o que foi adquirido.
No entanto as licitações de itens um pouco estranhos foram vencidas por fornecedores um tanto esquisitos. Os preços pagos são outra história. Isto sim justifica uma investigação rigorosa. São inúmeras suspeições de cartas marcadas.
Em uma nação qualquer, com o mínimo de civilidade, o governo teria vindo a público com uma explicação séria. Exporia os números reais, o destino da mercadoria e como ela é empregada. Tudo claro e transparente. E se fosse o caso, abriria imediatamente uma investigação para punir os responsáveis por qualquer questão ilegal.
Nada disso ocorreu. Primeiro a imprensa deu a entender que a compra tinha sido realizada pelo presidente para seu consumo. Depois voltou atrás, mas aí teve de escutar os palavrões do dignatário mor. Então mudaram de assunto.
O que precisa ficar claro é que nada justifica o destempero do presidente. O cargo que ele ocupa é maior do que ele. Para ocupá-lo é necessário vencer eleições democráticas. “De acordo com o texto de 1988, cabe ao vendedor as tarefas de chefe de Estado e de governo e de comandante das Forças Armadas. Na prática, isso significa que o presidente é o representante público mais elevado do País e o principal articulador das vontades da população”.
Para permanecer no cargo é necessário manter o decoro que o cargo exige. Um presidente não pode proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo. Isto é crime contra a probidade na administração, passível de processo de Impeachment.
Nunca um presidente do Brasil teve tantos pedidos de Impeachment. A maioria deles embasados em crimes tipificados na lei. Nada disso parece abalar quem deveria dar provimento aos pedidos de pelo menos um deles. Infelizmente ele tem o poder para isso e vai deixar o cargo sem tirar nenhum dos 62 pedidos da gaveta.
Qualquer presidente está sujeito a receber um pedido de Impeachment, isto aconteceu com todos. No entanto vale recordar que os dois efetivamente cassados, Collor e Dilma, receberam 24 e 37 respectivamente.
O que estamos presenciando atualmente é inédito. Eduardo Cunha vai lançar um livro onde entre outras histórias, conta como foi planejado o golpe contra Dilma que se utilizou de um dos pedidos de Impeachment para se concretizar. Dando nomes aos bois vai escancarar o que todo mundo sabe. Dilma foi deposta em um golpe branco, constitucional e indecoroso.
Uma das figuras envolvidas no golpe é justamente aquela pessoa que tem hoje o poder de abrir um processo contra Bolsonaro. Rodrigo Maia que tem péssimas relações com o presidente e ainda assim se nega a tomar uma atitude, nem mesmo se dá o trabalho de examinar os pedidos. Foi um tigre contra Dilma, mas é uma barata contra Bolsonaro se escondendo nas sombras.
A política é a arte de engolir sapos, e assim o PT vai ter de votar em outro partícipe do golpe para evitar que o candidato do Planalto assuma a Câmara. São as voltas que o mundo dá. Neste caso, uma ironia do destino, quase uma Escolha de Sofia.
O que se espera é que Baleia Rossi, se eleito, não aguarde muito tempo mais para dar início ao Impeachment daquele que seguramente é o pior presidente do Brasil de todos os tempos. Desta vez, não um processo baseado em ilações, mas em crimes cometidos contra o povo Brasileiro.
Tomara 2021 termine sem o vírus e sem o verme.