por Mauro Nadvorny | 30 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Imprensa, Opinião, Política
“O Leite Condensado é para enfiar no rabo da imprensa. Vão pra PQP”. Assim falou o presidente do Brasil num rompante miliciano. Qual foi a consequência desta falta de respeito com o cargo que ocupa? Quem disse nenhuma ganhou uma caixa de chicletes.
O Brasil perdeu o respeito consigo mesmo. Sua honra, sua dignidade, sua história não significam mais nada. O país é um morador de rua entre as nações. Não se importa mais com a sua imagem, como é visto pelos seus pares. Passou com honra o fundo do poço.
Impressionante o desdém da mídia tradicional para os fatos. De um lado a compra de mantimentos de fornecedores suspeitos, para dizer o mínimo. Na sequência uma manifestação destemperada, chula de parte do mandatário brasileiro, e o assunto é logo esquecido.
As explicações para as compras são de um mundo paralelo. Nele os soldados bebem leite consensado para receberem mais calorias. Este leite é mais fácil de se guardar. Mas se feitas as contas, é como se cada membro das Forças Armadas tivesse recebido 1,5 lata de leite condensado por ano, considerando o preço real que é na média de R$ 28,00. Visto desta forma, é razoável o que foi adquirido.
No entanto as licitações de itens um pouco estranhos foram vencidas por fornecedores um tanto esquisitos. Os preços pagos são outra história. Isto sim justifica uma investigação rigorosa. São inúmeras suspeições de cartas marcadas.
Em uma nação qualquer, com o mínimo de civilidade, o governo teria vindo a público com uma explicação séria. Exporia os números reais, o destino da mercadoria e como ela é empregada. Tudo claro e transparente. E se fosse o caso, abriria imediatamente uma investigação para punir os responsáveis por qualquer questão ilegal.
Nada disso ocorreu. Primeiro a imprensa deu a entender que a compra tinha sido realizada pelo presidente para seu consumo. Depois voltou atrás, mas aí teve de escutar os palavrões do dignatário mor. Então mudaram de assunto.
O que precisa ficar claro é que nada justifica o destempero do presidente. O cargo que ele ocupa é maior do que ele. Para ocupá-lo é necessário vencer eleições democráticas. “De acordo com o texto de 1988, cabe ao vendedor as tarefas de chefe de Estado e de governo e de comandante das Forças Armadas. Na prática, isso significa que o presidente é o representante público mais elevado do País e o principal articulador das vontades da população”.
Para permanecer no cargo é necessário manter o decoro que o cargo exige. Um presidente não pode proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo. Isto é crime contra a probidade na administração, passível de processo de Impeachment.
Nunca um presidente do Brasil teve tantos pedidos de Impeachment. A maioria deles embasados em crimes tipificados na lei. Nada disso parece abalar quem deveria dar provimento aos pedidos de pelo menos um deles. Infelizmente ele tem o poder para isso e vai deixar o cargo sem tirar nenhum dos 62 pedidos da gaveta.
Qualquer presidente está sujeito a receber um pedido de Impeachment, isto aconteceu com todos. No entanto vale recordar que os dois efetivamente cassados, Collor e Dilma, receberam 24 e 37 respectivamente.
O que estamos presenciando atualmente é inédito. Eduardo Cunha vai lançar um livro onde entre outras histórias, conta como foi planejado o golpe contra Dilma que se utilizou de um dos pedidos de Impeachment para se concretizar. Dando nomes aos bois vai escancarar o que todo mundo sabe. Dilma foi deposta em um golpe branco, constitucional e indecoroso.
Uma das figuras envolvidas no golpe é justamente aquela pessoa que tem hoje o poder de abrir um processo contra Bolsonaro. Rodrigo Maia que tem péssimas relações com o presidente e ainda assim se nega a tomar uma atitude, nem mesmo se dá o trabalho de examinar os pedidos. Foi um tigre contra Dilma, mas é uma barata contra Bolsonaro se escondendo nas sombras.
A política é a arte de engolir sapos, e assim o PT vai ter de votar em outro partícipe do golpe para evitar que o candidato do Planalto assuma a Câmara. São as voltas que o mundo dá. Neste caso, uma ironia do destino, quase uma Escolha de Sofia.
O que se espera é que Baleia Rossi, se eleito, não aguarde muito tempo mais para dar início ao Impeachment daquele que seguramente é o pior presidente do Brasil de todos os tempos. Desta vez, não um processo baseado em ilações, mas em crimes cometidos contra o povo Brasileiro.
Tomara 2021 termine sem o vírus e sem o verme.
por Richard Klein | 23 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Crônica
Na manhã seguinte saimos rumo às praias de cartão-postal de Maceió, nas Alagoas. Águas cristalinas e uma vegetação abundante de coqueiros se estendendo ao longo da costa inteira eram uma promessa bem-vinda com depois da simplicidade cênica de Aracajú.
Seguindo uma recomendação recebida ainda no Rio, passamos direto por Maceió e fomos para a Praia do Francês, a uma meia hora e pouco da cidade. Chegamos num fim de tarde ensolarado e ficamos maravilhados de cara. O lugar era lindo e o pessoal era diferente de tudo o que tinhamos visto até entao; garotas e garotos bronzeados do “sul” saudáveis, abastados, com ares de surfistas, relaxados, todos num astral ótimo e muito diferente daquele que havia feito de Arraial d’Ajuda uma decepção.
A experiência já havia nos ensinado que a primeira coisa a se resolver era procurar um lugar para ficar. Perguntamos por ali e o dono da venda da aldeia nos falou de uma construção. “Tão construindo uma casa lá no final da praia. Os obreiros só vão voltar em março. Já tem uns cabeludos acampando lá. Acho que deve ter lugar para vocês.”
Fomos lá e gostamos. A base da obra já estava pronta, mas estava coberta só por um teto de palha mal-acabado. Conforme o dono da venda tinha dito, havia um grupo de sete ou oito caras já acampados lá e fomos falar com eles.
“Fala aê, beleza?”
“Beleza!” respondeu o mais velho deles, um cara de cabelo crespo, brinco na orelha e cavanhaque.
“Tamo chegando aqui e a gente queria saber se dava para acampar num canto.”
“Sem problemas, tchê, aqui tem lugar para muita gente. Se vocês não tiverem problemas com gaúchos podem ficar à vontade.” O sotaque e a maneira cantada de falar não podiam ser mais típicos.
Agradecemos e depois de montar a barraca fomos conversar com eles. Já era fim de tarde e, como não seria surpresa, estavam bebendo chimarrão sentados na sombra e apreciando o fim de dia vendo o mar.
“Conhecem chimarrão? Prova um pouco!” O Pedro recusou. Eu que já tinha experimentado e até gostav, aceitei.
“Isso não é para beber no frio?”
O cara deu uma risada. “A gente bebe chimarrão até debaixo d’água, tchê.”
Um outro, com uma cabeleira lisa que ia até debaixo do ombro, perguntou: “É a primeira vez de vocês aqui?”
“É, a gente está viajando a costa e tamo indo até o Ceará, pelo menos esse é o plano. E vocês?”
“Saímos de Porto Alegre há um mês e viemos de carona até aqui. Bá! É muito chão e em sete é tri-complicado.”
A maioria era loiro, todos educadíssimos apesar do visual inconformista. Naquele calor, aquele monte de cabeludo me trouxe à memória as bandas de rock do sul dos Estados Unidos. O cara que nos deu as boas-vindas foi direto ao assunto.
“Pois é, carioca, vocês fumam um, né?”
“É, somos do clube.”
“É o seguinte, a gente descobriu um plantador em Barra de São Miguel, uma cidadezinha perto daqui. A coisa é um veneno, tchê.”
Um outro emendou: “Fomos lá para experimentar, e bááá! Voltamos tri-loucos!”
Todos confirmaram que era “tri-bom”.
O primeiro continuou: “Então, tchê, nós estamos fazendo uma vaquinha para comprar um peso. Se a gente juntar trezentas pilas compramos seiscentas gramas, faltam cinquenta, cês podem entrar?”
“Sei lá. tem um pouco aí para a gente experimentar?”
O de cabelo até a cintura respondeu na hora: “Claro, tchê!”
Um deles tirou um baseado do bolso, acendeu e passou para a gente. Como qualquer do bom, depois de duas baforadas deu para sentir a qualidade. Os caras estavam certos. A parada era “tri-boa”.
Pelos calculos, íamos ficar com quase cem gramas daquele veneno por um quarto do preço que custaria no Rio, uma oportunidade imperdível num lugar perfeito. Não pensamos duas vezes; concordamos, raspamos o dinheiro escondido num compartimento secreto da mochila e entregamos a eles. Na manhã seguinte, dois deles foram buscar o bagulho. Quando voltaram por volta do meio dia, foi uma fumelhança desatinada.
Depois de um tempo, a larica bateu e caiu a ficha de que apesar do generoso estoque do bom, estávamos completamente sem grana. Os gaúchos ficaram igual. A única possibilidade da gente reabastecer os bolsos implicaria em uma ida de uma hora de ônibus até Maceió de manhã cedo para achar um caixa eletrônico – que ainda só existiam nas grandes cidades e que, por sinal, o Brasil estava inaugurando a nível mundial. Depois, a gente teria que esperar o ônibus de volta que só saía no final do dia. Praia boa e bagulho bom eram um convite à preguiça e ninguém estava disposto a perder um dia inteiro com aquilo. Do lado positivo, isso significaria um alívio para o nosso parco dinheirinho.
A salvação alimentar foi um coqueiral imenso logo atrás do acampamento. Não era preciso nem subir nas árvores, era só sair catando os côcos caídos no chão e com isso passamos uma semana inteira nos alimentando deles. No café e como sobremesa, comíamos a carne macia dos côcos mais verdes. Côcos mais maduros tinham a polpa mais grossa, mais nutritiva e eram nosso prato principal e durante o dia. A água deles saciava nossa sede e, também nutriente, ajudava a nos manter. Usavamos um facão na obra para abri-los e tínhamos que tomar cuidado para não acertarmos nosso dedo ou atingir os outros naquela chapação generalizada.
*
A Praia do Francês é famosa por seu coral e sua vida marinha espetaculares. Isto, e a água limpa e transparente, rara no Nordeste, fazia com que um monte de gente viajasse do país inteiro para mergulhar ali. Consegui uma máscara de mergulho e um tubo emprestados de um paulista que tinha virado entusiasta da nossa compra na Barra de São Miguel. Por conta da sua generosidade, passava os dias explorando o coral e os peixes coloridos sob a influência do veneno verde, uma combinação que se provou perfeita. Embaixo d’agua me sentia como se estivesse passando horas num planeta diferente. No fim do dia, quando chegava o pôr do sol, me sentindo bem e abençoado, pegava a viola e saía em caminhadas ao longo do coqueiral curtindo a brisa do mar fazendo as árvores se balançarem de um jeito mágico. Seguia até encontrar um lugar protegido e ficava ali tentando criar música.
Enquanto o Pedro não sabia por onde começar com o banquete de beldades passando o verão ali, não demorou muito para que eu conhecesse outros músicos. O pessoal se reunia para fazer um som em frente da barraca de uns argentinos gente boa. Se não estivesse mergulhando, estava ali. Fazer experimentos musicais no Nordeste era uma experiência especial. A vibração musical da região era menos africana e mais árabe e indígena. O calor e o ar seco pareciam influenciar a gente. As levadas que inventávamos abriam mais espaço para digressões inusitadas. A qualidade do THC e a desintoxicação forçada pela dieta à base de coco me trouxeram inspiração. Quando tocavamos no calor do dia e no vento frio e seco da noite, eu e meus camaradas de som pareciamos um bando de beduínos de sunga envoltos numa magia Sufi num deserto a beira mar.
Às vezes, íamos levar um som na praia quando ficava escuro. Ali nossas sessões acabavam virando apresentações em torno das fogueiras que o pessoal acendia e davam um toque hippie às férias de todos os presentes. Com tantos músicos antenados envolvidos, a gente se recusava a tocar músicas conhecidas. Fazíamos improvisações que, pelo menos para nós, eram de altíssimo nível. Para os que estavam ouvindo provavelmente também, porque apesar do silêncio, havia respeito e um astral mágico no ar. As musicas começavam com uma levada fácil até alguém se inspirar e levar o que estavamos fazendo para um lugar mais especial. Conforme o som ia evoluindo, voltávamos à frase inicial e ficávamos nela até que outro alçasse vôo para novas alturas. A coisa fluía com ritmos e texturas provindos da redondeza. O sentimento era para lá de fantástico.
Apesar do sucesso das sessões, começamos a sentir um clima estranho naquele lugar que de início tinha parecido um paraíso. Acabamos nos dando conta de que a Praia do Francês era, na verdade, um destino turístico mais de elite do que o sul da Bahia e que nós, os outros músicos e os gaúchos do acampamento, éramos minoria. Por conta disso, nos deparamos com muita cara virada por não estarmos viajando com um carro do ano e dormindo em pousadas boas. Não pensamos muito sobre o assunto, mas talvez de maneira inconsciente isso nos tenha levado a ficar ali menos tempo do que poderíamos.
Levantamos acampamento junto com os gaúchos. Na manhã que chegamos em Maceió, a primeira coisa que fizemos foi ir à cata de um caixa eletrônico. Achamos um alojado numa cabine de vidro futurista contrastante com a arquitetura colonial ao seu redor. Novamente com dinheiro no bolso, foi um alívio ir a um pé sujo à beira da praia para desfrutar de uma refeição decente. O que pedimos foi o prato básico da região – arroz com feijão, farinha de mandioca, peixe frito e uma cerveja gelada para completar. Por mais simples que fosse, a comida caiu como uma maravilha depois de uma semana e pouco vivendo de côco.
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por Richard Klein | 16 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Crônica, Livro
Capítulo27
“...Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar.”
Dia Branco, Geraldo Azevedo
A próxima parada foi Aracajú, a capital de Sergipe. Apesar do nome bonito e de uma música inspirada do Caetano exaltando a cidade, o lugar não desceu bem. Chegamos a noite e de cara pareceu uma cidadezinha de interior sem charme com ruas desertas e quase sem comércio. Sabiamos onde queriamos ir: praia da Coroa do Meio, um bairro de classe media alta com uma praia legal indicada por um amigo de Salvador. Nos sentindo como astronautas num planeta estranho, saimos perguntando como chegar lá e nos deparamos com um povo reservado que nos via como extra terrestres certamente por causa do ar largado, das roupas mal tratadas e das mochilas.
Conseguimos finalmente chegar no nosso destino mais sem graça do que o esperado. A única coisa que curtimos era que dava para acampar na praia deserta. Quando armamos a barraca já era por volta das nove e meia. Olhamos em volta e vimos que apesar da discreta elegância da vizinhança tudo parecia fechado. Apesar disso, a fome nos fez esquecer o risco de deixar as tralhas ali e saimos à cata de um lugar aberto. Depois de uns dez minutos achamos um bar aberto. Ele era de frente para a praia e parecia ser movimentado durante o dia, mas parecia vazio. Subimos para a esplanada e um garçom de uniforme sujo nos recebeu e nos conduziu a uma mesa. Tlavex para nos agradar, ele nos colocou ao lado da única outra mesa ocupada, a de duas beldades que pareciam de fora. Elas sorriram e começamos a papear. Elas eram paulistas pertencentes ao “público alvo” de Pedro: trinta e poucos anos, cultas, bem de vida e interessadas em espiritualidade oriental. Depois que a comida e as cervejas vieram, tentando disfarcar a fome entre garfadas e goles de cerveja, descobrimos que uma delas levava o Rajneesh tão a sério que tinha gasto uma pequena fortuna para passar uma temporada no seu Ashram no Oregon. Contamos o que estavamos fazendo ali e conquistamos a sua simpatia Uma delas se engraçou tanto com o Pedro que depois de pagarmos a conta, partiu com ele para a barraca a fim de aprender seu “caminho para a sabedoria”. Naquela altura, já havia me acostumado a ver ele se dando bem e levava minha desgraça com bom humor.
Embora a outra também fosse atraente, não rolou química nenhuma. Isso não impediu que fossemos para um passeio pela praia onde matamos uma ponta generosa que tinha guardado. Depois de um papo desconfortavel e seco, voltamos para o bar onde ela decidiu manter seu “eu interior” para si mesma e retornou ao hotel.
Sozinho naquela noite menos que interessante de Aracajú fiquei esperando que liberassem a barraca. Do nada, como num filme surrealista, apareceu um grupo de lésbicas bêbadas que saiu debochando do garçom, falando um monte de besteiras e rindo alto na maior sarração e beijação. Certamente eram as únicas mulheres abertamente homossexuais no estado inteiro.
No meio da confusão apareceu um cara local de visual esquisito que sentou-se na mesa ao lado, colocou os pés em outra cadeira e saiu puxando conversa.
“Caralho, meu irmão! Fumei uma maconha boa pra caralho! tô viajando legal!” Ele virou para mim e perguntou. “E você? tá doidão também?”
Aquilo foi estranho. Tudo me dizia que o sujeito não estava chapado coisa nenhuma. O bigode mexicano, os sapatos brilhantes e a camisa engomada para dentro da calça me diziam que pertencíamos a tribos diferentes. “Não, tô legal aqui, curtindo a noite.”
“Porra! Eu quero ficar mais doidão ainda! Apresenta aê um do bom para a gente fumar!”
“Desculpa, mas não fumo essa coisa.” Pela reação quase hostil, deu para ver que ali tinha problema.
“Porra, cara! Senti que tu tem! Vai enrustir?” e deu uma risada forçada.
Eu já tinha desmascarado o cara, mas se era para jogar seu joguinho resolvi sacanear. “Chapado como? Tipo um ferro quente? Não estou entendendo.”
O cara insistiu. “Você é carioca, não é? Tou doido para experimentar a de lá, aperta um para a gente!”
“Sou do Espirito Santo, amigo! Apertar o quê? Tem alguma coisa frouxa nessa mesa?” Dei uma balançada nela. “Não… Ela está firme. Não estou entendendo.”
A conversa continuou até o cara resolver sair sem perder a pose. “Não vai apresentar, né brother? Tá bom, vou nessa. ” Ele tirou o pé da mesa, ajeitou o cinto, arrumou a camisa e desceu do platô piscando para mim e mandando um sinal de legal.
Depois que foi embora, o garçom veio falar comigo. “O senhor fez muito bem em não dar trela para aquele sujeito. Ele é capitão da polícia. Tava doido para morder uma grana do senhor.”
“Eu percebi na hora. Obrigado.” Deu vontade de perguntar porque ele não tinha me avisado logo. Agora era fácil. De qualquer forma continuei no bar, tentando me certificar que o policial tinha desaparecido. Lá pelas tantas, o Pedro apareceu para me dizer que ia dormir no hotel.
“Porra, Richard! Como é que tu não ficou com a outra? Tu não viu que ela tava dando mole?”
Sem saber se ele estava me sacaneando ou não, respondi: “Tu não sabe que sou uma merda nisso?”
Ele deu uma risada. “A minha falou que ela tinha gostado de você, mas que você nao fez nada. Meu irmão, tu paga para vacilar!”
Depois que sairam felizes da vida fui para dar uma volta na beira do mar e fiquei pensando naquilo. Quando desencanei, talvez por estar relaxado de novo, a chapação voltou com o vento noturno. Depois de um tempo, tomei corajem e voltei para a barraca ainda receoso que o cara do bar fosse lá me acordar no meio da noite para me levar. Quando entrei, deitei deixei a porta da barraca aberta para ficar apreciando a noite gostosa la fora. Com a visão das ondas quebrando no escuro, seu barulho e a tranquilidade em volta, bateu uma paz ímpar. Talvez se não existessem humanos naquele lugar e aquelas casas sem-graça, Aracajú seria um lugar gostoso. Fiquei pensando na paulista, se ela tinha me dado mole ou não, e quando e se curtiria transar com uma mulher mais velha. Com aquilo rodando na cabeça acabei pegando no sono e dormi bem.
No dia seguinte, o Pedro veio me acordar cedo. Apesar do dia sem uma nuvem no céu, o sofrimento continuou: a praia era terrível, as pessoas eram feias e a comida incomível. Era hora de voltar para a estrada.
*
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por Mauro Nadvorny | 16 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Não há como não ficar horrorizado diante do que acontece em Manaus. Da mesma forma, sejamos honestos, diante de um país sem governo, fatos como este não são mais uma surpresa. O que sim surpreende a mim e ao mundo é como o brasileiro ainda se permite um presidente como este.
Está mais do que claro a regressão econômica, trabalhista, ética e moral do país. Voltamos ao mapa da fome! Indústrias estão abandonando o país depois de todos os benefícios que usufruíram por anos sem pestanejar. Brasileiros são motivo de piada mundo afora.
Qualquer cidadão sabe quando está acabando seus mantimentos, ou qualquer outro item de primeira necessidade que precisa ser reposto antes que termine de vez. Da mesma maneira, qualquer estoquista sabe quando estão finalizando itens importantes para manter a fábrica em funcionamento. Programas de computador avisam com antecedência os hospitais da necessidade de adquirir suprimentos que vão findar com muita antecedência.
O oxigênio que falta em Manaus é a consequência nefasta de um sistema que não se importa com a vida. De um país sem gerenciamento de crise, que contrariando o mundo inteiro distribui vermífugos como tratamento preventivo ao Covid-19. Seria motivo de riso, não fosse responsável por milhares de mortes de cidadãos convencidos de que haviam se tornado imunes ao vírus.
Um avião da Azul foi preparado para buscar dois milhões de doses de vacinas na Índia. Esqueceram de combinar com o governo indiano a disponibilidade delas. Como é que um país que está começando a hercúlea tarefa de vacinar 1,4 bilhão de pessoas vai se permitir enviar para fora as vacinas que necessita para salvar a sua população?
Resta aos brasileiros as vacinas que estão sendo produzidas pelo Butantan. Será uma briga de foice para quem irá receber primeiro. O governo federal sem outra solução já exige que sejam suas, enquanto o governo de São Paulo diz que são eles quem tem direito. Obvio que o caso vai parar na justiça, como é óbvio a falta total de planejamento que deixou o Brasil sem suprimento de vacinas.
O país se tornou terra arrasada. Primeiro negaram o vírus, agora negam a vacina. Enquanto mais de mil mortes ocorrem ao dia, vermicidas inundam as redes sociais com suas teorias conspiratórias. Uma presidente foi derrubada com a desculpa de pedaladas fiscais que se provaram inexistentes. Um genocida permanece na presidência com toda sua inépcia e verborreia exposta diariamente nas mídias.
Apontar este governo como fascista, nazista, ou ambos é pouco. Eles sequer têm a capacidade de compreenderem o que estas ideologias significam. Dizer que são conservadores, neoliberais é atribuir a eles uma inteligência que não possuem. Considerá-los milicianos é admitir que possuam alguma forma de organização, que sabemos, não existe. Este governo é o nada, é um buraco negro. É morte e destruição.
A Manaus de hoje é o retrato do Brasil de amanhã. Junto com cada amazonense estão sendo enterrados os valores de um Brasil que não existe mais. Em cada cova jaz agora a solidariedade, o pleno emprego, a plena educação, a segurança, a alegria do povo e a fartura. Na porta do cemitério uma placa com a frase: “Aqui está enterrado o Futuro”.
Bons tempos em o maior crime que se poderia atribuir a um político era se locupletar roubando os cofres públicos. Quando eles apenas tiravam o dinheiro destinado de obras e ações sociais para si mesmos. Hoje eles roubam o dinheiro destinado a salvar vidas. Se não fosse suficiente, dão sustentação ao genocida que retribui com cargos para que continuem desfrutando das benesses dos amigos do poder. Uma mão lavando a outra e o tão sonhado Impeachment se tornando a cada dia mais distante de acontecer.
Se o povo não se rebelar, não levantar sua voz, não exigir a mudança, as coisas vão continuar piorando cada vez mais. Faltando dois anos para as próximas eleições, o que vai restar do país? Eu mesmo respondo, nada. Nada do que fomos um dia. O Brasil daqui a dois anos pode ser qualquer coisa, menos o Brasil onde nasci.
Indigne-se, direcione sua indignação para organizar formas de pressionar o Congresso pelo Impeachment. Exija dos congressistas que ainda possuem um pingo de patriotismo, que comecem o processo imediatamente, não percam mais tempo. Não permita que na próxima vala seja enterrada também a esperança.
por Richard Klein | 9 jan, 2021 | Brasil, Comportamento
Nas praias de Salvador, assim como nas das outras cidades por onde passariamos no Nordeste, haviam figuras há muito desaparecidas nas do Rio: vendedores de caranguejos carregando pencas deles ainda vivos e amarrados a um pedaço de pau, vendedores de queijo coalho derretido na hora, carroças oferecendo sorvete caseiro, vendedores de abacaxi, além das tradicionais baianas vendendo acarajé e outras delícias locais. Separando a linha da costa dos intermináveis calçadões, uma infinidade de quiosques de madeira cobertos de palha vendiam cerveja, água de coco e iguarias da cozinha baiana preparadas com frutos do mar da área. Nas praias afastadas, assim como no Posto seis de Copacabana, ainda havia pescadores com suas redes e barcos de madeira remanescentes de um passado em que a elite sequer sonhava em expor suas peles brancas ao sol e, Deus o livre, pegar um bronze.
Como no Rio, a praia era o coração do verão. Na segunda visita a Salvador já conhecia as praias certas. As melhores, Piatã e Itapuã eram distantes. Até fomos lá uma ou duas vezes mas a viagem de õnibus era longa e desconfortável. Por isso, adotamos o Porto da Barra que ficava do lado de onde estávamos dormindo. Ela tinha um clima parevido com o do Posto Nove em Ipanema. Localizada um pouco antes da saída da Baía de Todos os Santos, apesar de não ser oceânica as correntes se encarregavam de deixar o mar limpo. Sua água calma e morna era uma delícia e o grande número de pequenos barcos de pesca ancorados em frente davam um charme único ao lugar. Podíamos nadar até eles, pular para dentro e desfutar o luxo de relaxar flutuando sob o sol escaldante.
A hora certa para se chegar era depois do almoço, a hora certa de sair de sair era bem depois do pôr do sol, que volta e meia iamos ver atrás do Farol. Igual ao Posto Nove, aquela praia atraía a moçada em busca curtição, música, amigos novos e interessantes e, é claro, sexo. Talvez até amor. Nao demorou muito para Pedro e eu começarmos a conhecer o pessoal da terra. Em Salvador, como em todo o Nordeste, a rapaziada gostava de ser vista com pessoas de fora e convites para festas eram frequentes e sempre bem-vindos.
“Hoje à noite vai ter um som porreta na casa de Capilé. O lugar é massa; um casarão antigo na Ribeira. Apareçam lá! Peguem o endereço.”
As festas eram sempre excelentes, com baseados circulando em todos os cômodos, gente jovem e bonita de todas as cores, muito riso e muito charme. Sendo os baianos poetas natos, havia muitas discussões coloridas e acaloradas acerca de cultura, musica, política e filosofia. Havia também o atrativo, quase inconfessável, de oferecerem comida e bebida de graça e de não se importarem com gente passando a noite e dormindo nos cantos. Teve uma festa que a gente foi que durou o fim de semana inteiro.
Se você não tivesse a sorte de estar transando no banheiro – quando o Pedro sumia já sabia onde ele estava – o melhor lugar era a cozinha, onde os convidados compartilhavam a animação com o dono da casa. Havia sempre um quarto ou uma varanda com pessoas reuniadas em torno de um violonista de talento. A qualidade é a quantidade deles era impressionante. Nunca consegui entender como nunca alcançariam sucesso enquanto tantas bandas ruins estourariam no Rio e São Paulo nos anos 1980.
Às vezes, também tocava, mas logo percebi que para causar uma boa impressão em Salvador, tinha que me ater ao rock que ninguém se sentia à vontade para tocar por ser fácil demais. Um local passaria vergonha depois de alguém tocar suas próprias músicas ou de exalar talento interpretando uma de Caetano Veloso, Gilberto Gil e dos Novos Baianos. Só que como nunca conseguiria competir com o que faziam de melhor, descobri que um carioca tocando rock ou reggae era uma novidade bem-vinda, principalmente se cantasse em inglês. Eu conseguia impressionar com Bob Marley, Jimi Hendrix, Pink Floyd e Rolling Stones, algo que muitos nunca tinham ouvido tocado em inglês “legitimo”.
*
A farra, a praia, conhecer pessoas novas, tocar violão e tentar – e, às vezes, conseguir – transar eram apenas um lado da nossa aventura de verão. Nosso meio de transporte, as caronas, eram um dos pontos altos da nossa turnê Nordestina. A rotina para pegá-las era sempre a mesma: chegar de ônibus até um posto de gasolina na rodovia e lá ir de caminhão em caminhão pedindo uma carona para nosso próximo destino. Muitos dos motoristas mandavam a gente ir embora na hora, mas alguns até apreciavam nossa companhia inofensiva e, talvez, interessante.
A malha ferroviária brasileira é quase inexistente e apesar de 80% da população do país viver perto ou junto à costa, ninguém parece ter tido a ideia de transportar mercadorias por navio. Pelo contrário, quase todo o transporte entre as vastas distâncias é feito por estradas, motivo pelo qual havia um exército de motoristas de caminhão. Como qualquer outra categoria de trabalhadores, eram explorados, dormindo muito pouco e viajando dias a fio pelas estradas malconservadas do país. Faziam isso correndo o risco de serem vítimas de assaltantes e de policiais corruptos. Mesmo assim, os caminhoneiros que conhecemos eram pessoas espetaculares que possuíam sua própria cultura e um forte senso de camaradagem. Eles conheciam todas as curvas, saliências e buracos à frente, bem como os bons e maus lugares em termos de segurança, comida, diversão e mulheres. Todos tinham grandes histórias para contar e as famosas namoradas, ou até mesmo famílias, em cada parada.
Na maioria das vezes, íamos com o camioneiro na cabine. Normalmente havia uma cama de bom tamanho atrás do banco onde podíamos nos revezar para um cochilo. Outras vezes tínhamos que ir na carroceria, vivendo a liberdade mágica da BR trazida pelo ar livre, pelo céu aberto, pelos barulhos e pelo vento. À noite, viamos os faróis passando voados, as cidades na distância e as estrelas cadentes sobre montanhas enluaradas. Durante o dia, o sol forte trazia o cheiro doce da cana-de-açúcar que vinha das plantações ao lado da estrada.
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por Mauro Nadvorny | 9 jan, 2021 | Comportamento, Mundo, Opinião, Política
Quem tivesse ligado a TV e visto as cenas da invasão do Congresso Americano, desavisado pensaria se tratar de um filme ou uma série. Como acreditar se tratar de cenas reais em um país onde as agencias de segurança costumam funcionar.
Não somente eram cenas reais, como foram comandadas pelo presidente do país. O lunático instigou seus seguidores a tomarem o Congresso para impedir que o vencedor das eleições presidenciais fosse declarado presidente.
Entre os invasores, grupos de judeus e nazistas cuja idolatria a Trump é capaz de superar suas diferenças. Supremacistas com a bandeira confederada receberam juras de amor do presidente dos EUA. Racistas transitaram pelos corredores atacando os poucos policiais que tentaram resistir. Sem dúvida alguma, foi um caos promovido por diferentes facções da direita radical americana irmanadas em defesa de seu mestre.
Vale ressaltar que uma manifestação de “Vidas Negras Importam” que passou próxima ao Congresso há pouco tempo, assistiu a um Congresso protegido por centenas de agentes de polícia. Claro que neste caso não eram brancos comportados e civilizados que se manifestavam, uma invasão podia acontecer e foi preciso uma ação preventiva. Bem diferente de quando o presidente do país faz uma manifestação de desagravo ao resultado da eleição. (usei de sarcasmo para quem não entendeu).
A chamada democracia americana é uma ilusão. Enquanto no mundo inteiro o vencedor de uma eleição é aquele que recebe mais votos, lá o presidente é eleito por delegados de estados. Na verdade o eleitor está participando de uma pseudodemocracia, o seu voto se somado a maioria nem sempre elege o presidente. Trump se elegeu assim. Hillary teve mais votos, mas menos delegados.
Trump não é o político tradicional, nunca foi. É um homem de negócios, um empreendedor, empresário que sempre usou do poder do dinheiro para prevalecer. Péssimo pagador, deve milhões ao fisco americano e corre sério risco de parar na cadeia quando deixar a Casa Branca.
Na política usou das mesmas táticas para impor seus desejos. Chantageou meio mundo árabe para aceitarem relações diplomáticas com Israel em troca de armas. Retirou os EUA do Acordo do Clima, impôs sanções econômicas ao Irã depois de se retirar unilateralmente do acordo atômico que o país cumpria.
Com a China teve seus momentos de amor e ódio. Ultimamente, que se diga, muito mais ódio. Tentou dobrar o país de todas as maneiras. Rompeu acordos comerciais, impôs sanções, aumentou impostos de importação de seus produtos, obrigou empresas americanas a suspenderem suas atividades na China, tentou retirar as companhias chinesas do 5G da telefonia celular etc.
Teve seus momentos na TV. Participou do Reality The Apprentice (O Aprendiz). Nele um grupo de pessoas precisando desesperadamente de um emprego, precisam agradar Trump, o chefe, para permanecerem no programa. A cada semana, o chefe vai eliminando participantes até que resta um, aquele que recebe o emprego. Para chegar lá, precisou cumprir diversas tarefas, mas acima de tudo, teve que passar por cima dos demais competidores. Nem sempre venceu o mais capaz, mas sempre o que mais agradou o chefe.
Esta figura sinistra, filho da meritocracia, um capitalista sagaz, tomou o Partido republicano e se elegeu presidente. Soube jogar de acordo com as regras e montou uma estratégia para ter mais delegados no colégio eleitoral, não para ter mais votos. Deu certo e o mundo teve de conviver por quatro anos com ele.
De temperamento difícil, mimado como uma criança, não conheceu adversários no seu partido. Mesmo entre seus apoiadores semeou discórdias e sempre que contrariado não hesitou em despedi-los. A lista é longa. Trump conseguiu ter seu nome marcado para sempre. Para seus apoiadores um Deus na Terra, para seus opositores, um demônio.
Os EUA tremeram nesta semana. Boa parte das lideranças políticas temem pelas instituições, acham que Trump continua sendo um perigo para a democracia faltando poucos dias para o término de seu mandato. Uns sugerem o inédito segundo Impeachment, outros o uso da Emenda 25 que permitiria seu afastamento com o vice assumindo a presidência. Todos parecem compreender o perigo que ele continua representando.
Trump foi um ídolo para outros países também. Bolsonaro, por exemplo, está convencido de que as eleições americanas foram fraudadas em favor dos democratas. Que o Covid-19 foi criado em um laboratório chinês para que pudessem vender uma vacina com nanorobôs que nos transformaria em comunistas.
A queda desta figura nefasta é um alívio para todo o mundo. As lições sobre como ele chegou ao poder precisam ser aprendidas para que nunca mais volte a acontecer. Se a democracia americana não mudar, o fascismo vai voltar com mais força e desta vez para ficar. Eles com certeza aprenderam a lição de que eleições não são um bom negócio.