por Mauro Nadvorny | 7 jan, 2020 | Brasil, Comportamento
Vocês os arrependidos
Para cada nova tragédia anunciada, mais um grupinho de arrependidos surge nas redes sociais. Mais um dos grandes da mídia faz um editorial tentando limpar a sua imagem. Lamento, mas é tarde demais.
Esta gente deve estar se perguntando onde foi que errou. A desculpa mais comum era de que não queriam o PT, porque não queriam o Haddad, porque não queriam o Lula, porque não queriam a corrupção.
De trás para frente eu posso dizer que ninguém quer a corrupção em lugar algum, mas vocês são os mais corruptos desde sempre. Vocês são os sonegadores de impostos que preferem um desconto a uma nota fiscal. Preferem enganar o Imposto de Renda, sonegam o INSS e aplaudem quando um amigo conta de que maneira enganou o seguro.
Lula já havia sido condenado sem provas e vocês foram os que aplaudiram e transformaram o Moro em um super-herói da infância. Fecharam os olhos para todos os absurdos que ele cometeu e pregaram aos quatro ventos que os fins justificam os meios. Ajudaram a quebrar as maiores empreiteiras nacionais causando o desemprego de milhares de trabalhadores.
Haddad foi achincalhado com um tsunami de Fake News que vocês ajudaram a espalhar. Absurdos que vocês sabiam serem falsos e mesmo assim despejaram nas redes sociais. Notícias que sabidamente ajudaram a minar a candidatura dele.
Não querer o PT é legítimo, é do jogo democrático, afinal vivemos em uma democracia. Haviam muitos candidatos e qualquer um deles poderia ter recebido o voto de vocês, mas a escolha recaiu no mais inepto, no menos preparado, naquele que dizia com todas as letras para que vinha e mesmo assim vocês votaram nele.
Vocês me causam náuseas. Vocês são o que o ser humano tem de pior. Não faltaram avisos, todos os sinais estavam presentes, e mesmo assim vocês o elegeram. Ele falou contra os negros e teve o voto de vocês. Falou contra as mulheres e teve o voto vocês. Falou contra os LGBTs e teve o voto de vocês. Falou contra os ambientalistas e teve o voto de vocês. Nunca escondeu nada, foi tudo as claras, ninguém de vocês foi enganado.
Seu arrependimento não vai salvar o Brasil da vergonha diária internacional a que todos estamos sendo submetidos. Quando a gente acha que vai ter um dia de sossego ele nos lembra que ainda está lá colocado pelo voto de vocês. E quando não é ele, um membro da sua equipe assume o papel do mico.
Vocês nos colocaram nas mãos de um bando de infantilóides. Gente que falsificou currículos e se tornaram ministros de estado. Pessoas totalmente desqualificadas que dão ouvidos a um lunático que se intitula filósofo e que não consegue falar uma frase sequer que não contenha a palavra ânus com duas letras.
Nosso país, por causa de vocês, virou motivo de chacota e preocupação. Nossa imagem no exterior é de incredulidade. Estamos fazendo o grotesco Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, parecer um estadista se comparado a Bolsonaro.
Um avião presidencial com cocaína! Façam-me o favor de ficarem quietos e nos deixarem falar disso como se deve. Um presidente precisa estar protegido durante seus deslocamentos, qualquer presidente. Existe um grupo de homens treinados especialmente para isso, aqueles caras que protegem a instituição e que, em tese, dão as suas vidas para proteger o mandatário do país.
Um elemento da equipe de suporte as viagens consegue embarcar com 39 Kg de cocaína. E se fosse um Kg de material explosivo? Isso exige cooperação interna. Não é trabalho solo. Tem muito mais gente envolvida e não duvidem se forem próximos deste debilóide que vocês elegeram, ou dos filhos que vieram a reboque.
Falem sério, arrependidos? Acham que alguma penitência vai salvar vocês do purgatório? O cara que quer liberar fuzis para o cidadão de bem, que libera agrotóxicos proibidos no mundo civilizado, que quer acabar com os radares nas estradas, dobrar o número de pontos para perda de carteira de motorista, terminar com a necessidade de cadeira de proteção para crianças. Deste cara que vocês estão falando agora que se arrependeram de votar?
Ou será do sujeito que vai salvar nossa economia com o fim da tomada de três pontos, padrão internacional para salvar vidas. Ou este cara que está lá no Japão comprando briga com a França e a Alemanha mostrando que entende muito de diplomacia e mais ainda do clima.
O tamanho do mal que vocês causaram ao Brasil só será mensurado daqui há alguns anos. Os prejuízos econômicos e sociais são enormes e todos já estão sofrendo as consequências. A culpa é de vocês.
Dia 30 está chegando e gostaria de saber quantos de vocês ainda vão participar das manifestações a favor disso tudo. Pergunta chata, decisão difícil. Sair pra rua de amarelo batendo panela ao lado dos que pregam intervenção militar deve ser constrangedor, mas vocês se merecem. Existe outra opção, sempre se pode atravessar a rua e ficar ao lado dos monarquistas.
por Mauro Nadvorny | 21 dez, 2019 | Brasil, Economia, Política
Rachando a cara de vergonha
Nunca esqueci de uma reportagem do Jornal Nacional de 1998 sobre a fome no Nordeste. O repórter entrevistava uma família de agricultores que não tinha mais o que comer. A mulher cozinhava no fogão a lenha uma sopa de papelão. O pai da família questionado sobre a situação respondeu resignado, “Deus quer assim”. Aquilo foi um soco no meu estômago. A melhor explicação de como escravizar um povo.
A democracia não é um regime perfeito, ainda assim, não existe nada melhor. Eleições livres elegem os representantes do povo aos níveis municipal, estadual e federal. São eles que por um período de 4 anos vão legislar em nosso nome. Vão criar leis que melhorem nosso nível de vida trazendo progresso e bem-estar para todos. Por este trabalho serão remunerados de acordo.
Variando de um país para outro, presidencialismo ou parlamentarismo, as democracias se assemelham com seus três poderes, Legislativo, Judiciário e o Executivo convivendo harmoniosamente. Todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido. É assim que começa a Constituição Cidadã de 1988.
O exercício político deveria ser uma tarefa de cidadãos e cidadãs dispostas a pensarem formas de melhorar a vida do povo. Gente eleita para trazer soluções aos anseios de sua comunidade, reivindicações populares necessárias desde o nível mais básico, como uma ponte, um calçamento até aquelas mais abrangentes como educação, saúde e segurança para todos.
No Brasil com o passar dos anos, a política se transformou em uma profissão e meio de vida. Famílias de políticos são conhecidas em diversos estados do país, é o famoso Coronelismo com o voto a cabresto. Tudo perfeitamente admitido com a maior naturalidade.
Natural também se imaginar que para exercer tão nobre profissão, os políticos necessitam se apresentar vestidos de maneira condizente. Criaram então a Ajuda Paletó. Seus filhos precisavam estudar em boas escolas. Criaram a Ajuda Escola. Eles tinham de viajar constantemente. Criaram a Ajuda Viagem.
Precisavam comer em restaurantes dignos. Criaram a Ajuda Alimentação. Tinham de aproveitar suas férias. Criaram a Ajuda Férias. Como todo trabalhador tinham direito ao 13º salário. Criaram o 13º e até o 14º salário. E por aí vai.
Claro que para exercerem tão nobre profissão para o bem geral de todos, eles precisam de assessores, muitos assessores. Estes honrados cidadãos limitados a um trabalho pelo período do mandato dos políticos precisavam ser bem remunerados, muito bem remunerados. Assim foram criados cargos, muitos cargos.
Não bastando tudo que recebem, mais as necessárias ajudas para quase todas suas naturais necessidades, era preciso um pouco mais. Os políticos ao disporem de uma enorme quantidade de cargos para serem preenchidos, pagos pelo povo, por que não serem remunerados por esta benevolência. Que tal uma rachadinha?
A proposta é bastante simples. O gabinete do político tem lugar para um número limitado de pessoas trabalharem. Digamos que umas 5 pessoas, mas ele tem direito a preencher até 15 cargos. Então ele convida mais 10 pessoas a “trabalharem” para ele. O trabalho em questão é apenas o de ceder seu nome como funcionário do gabinete. Por este nobre favor, ele passa a receber mensalmente um salário sem
precisar trabalhar. Em troca deste arranjo benéfico as duas partes, ele devolve metade da renda ao político e ambos vivem felizes para sempre.
Isto acontece em todo o Brasil de norte a sul nas Câmaras de Vereadores, Assembleias Legislativas e até mesmo no Congresso Nacional. É tão conhecido como é o Jogo do Bicho. A diferença que o jogo é considerado uma contravenção, e a rachadinha uma atividade normal.
Alguém já deve estar se perguntando, mas o que tem a ver aquela reportagem da Sopa de Papelão com a rachadinha? Tudo. Em um país com um povo que se dá o respeito, a atividade política recebe atenção e é devidamente escrutinada. Um político que não atender as expectativas durante seu mandato, dificilmente será reeleito. Muito diferente do que acontece no Brasil onde a maioria dos eleitores nem lembra em quem votaram nas últimas eleições para vereador ou deputado.
Quando um cidadão que não tem o que comer, afirma que a situação de sua família é um desígnio de Deus, os maus políticos venceram. Enquanto estes políticos continuarem a se locupletar em seus cargos, e o povo atribuindo suas mazelas a Deus, o país jamais deixará de ser uma republiqueta de terceiro mundo.
Dos anos 90 para cá o poder dos pentecostais vem aumentando. O número de Igrejas, das mais simples, a Templos de Luxo, se distribuem por todo território nacional em números que só crescem. Agora pode faltar o que comer, mas não pode faltar o dízimo dado por esta geração de acéfalos, o combustível que alimenta este círculo vicioso de subserviência. Um Exército de Brancaleone, não só de maltrapilhos, cujo objetivo é tão somente um lugar no Paraíso Celestial prometido por seus pastores. Para eles estes políticos representam Deus na Terra, quando não são o próprio Deus.
Flávio Bolsonaro não inventou a rachadinha, tampouco a sopa de papelão. No entanto ele é a bola da vez. Da mesma maneira que eventualmente um barão do Jogo do Bicho é jogado aos leões para acalmar a plebe, o 01 é o boi de piranha. É por culpa de políticos como ele que voltamos ao mapa da fome. Políticos que criticam uma sátira cristã da Porta dos Fundos, mas são na verdade aquele Deus que se refere o pai de família que só terá alimento enquanto trouxer papelão para casa, porque assim querem os “Flávios Bolsonaros”.
Ele é a ponta do Iceberg e junto com ele está a família que vive desta política suja. Com eles outros milhares de políticos país a fora. Basta!
Em tempo, para todos os meus leitores um Feliz Natal.
por Mauro Nadvorny | 30 nov, 2019 | Brasil, Política
Frente Ampla ou desistam de uma vez
O presidente Lula está livre de sua cela, mas não da perseguição de seus algozes. O que aconteceu no TRF4 não tem precedentes na história jurídica e com certeza vai fazer parte do currículo de formação dos futuros advogados do país.
A relativização de questões básicas do entendimento do STF foi, talvez, a coisa mais bizarra que já vi em termos de julgamentos. A suprema corte resolve uma situação de maneira clara e inequívoca, mas os desembargadores do TRF4 interpretam a decisão a seu bel prazer. Decidem que a propriedade não é importante e aumentam a pena para cumprimento maior do que condenados por assassinato.
Depois de que o mesmo tribunal anulou uma sentença “copia e cola”, eles dizem que não vale para o Presidente Lula. Isso até mesmo com a cópia falando do Triplex.
A perseguição que já vinha sendo denunciada, agora ficou escancarada. Pior, mesmo que o STJ, ou o STF retifiquem o que fizeram, nada vai acontecer com estes desembargadores. Eles vão continuar julgando à sua maneira. O TRF4 está contaminado pela ideologia política, fato.
O país não está pacificado e o clima das eleições continua nas ruas. Temos um presidente que ainda não desceu do palanque e junto com seus filhos trata de atacar sistematicamente o campo adversário. As redes sociais são usadas com dois propósitos, o de enaltecer seus atos e o de difamar a imagem de quem os contraria.
Existe um verdadeiro clima de guerra. O ódio vai aumentando alimentado por atitudes dos membros do governo. Alguém lembra quem foi o ministro da educação dos últimos governos? Deste, ninguém vai esquecer e o mesmo vale para outros ministérios. Nunca tantos malucos incompetentes estiveram presentes em um governo simultaneamente.
A América Latina está entrando em um novo período de convulsões sociais. A coisa está tão complicada que já nem se fala mais na Venezuela. As ruas do Chile, da Bolívia, da Colômbia estão tomadas por manifestantes. Enquanto isso o Brasil segue ainda em passo lento.
É realmente surpreendente esta passividade do povo brasileiro com tudo o que está acontecendo. Direitos históricos sendo perdidos, arrocho salarial, negócios quebrando, a miséria mostrando sua cara, total falta de perspectiva e ainda assim as ruas continuam vazias.
A oposição não se organiza e uma Frente Ampla, imprescindível neste momento, não foi formada ainda. Sem ela, pouco se pode esperar e a mudança vai ficando distante. A militância vai perdendo o ânimo e mesmo com as defecções de arrependidos, vai aumentando em maior número o dos conformados.
Se este círculo vicioso não for rompido logo, os tentáculos deste governo vão crescer e tomar conta da sociedade. Eles vão sufocar a mídia economicamente e impor a sua visão de um mundo branco, cristão, cuja base é a família tradicional. Tudo que for diferente não terá lugar neste novo mundo. As minorias terão de tornar submissas a maioria.
Se nada mudar, a oposição não vai mais encontrar para quem falar. A resistência está chegando ao seu limite. Mãos estão se soltando. Vozes se calando. Eles estão aí ao lado zombando de nós.
Acordem brasileiros, antes que seja tarde demais. Frente Ampla Já! Sacudam a poeira e vamos dar a volta por cima. Não vamos nos entregar pro homem. Amanhã vai ser outro dia.
por Mauro Nadvorny | 1 nov, 2019 | Brasil, Política
A casa 58
Não existe nenhum mistério em relação a casa 58. O porteiro escreveu de forma clara e precisa que Élcio pediu e teve confirmada sua entrada no condomínio para se dirigir a casa de número 58 do seu Jair. Esta é a prova, tudo o mais pode ser considerado como evidência.
O porteiro percebeu que ele foi para a casa 66, de Lessa. Ele liga novamente para a casa 58 e é atendido pela mesma pessoa que ele atribui como sendo seu Jair. É informado por ele que sabe do que se trata e que não há problema.
Talvez o fato dele afirmar em depoimento que a pessoa que o atendeu tinha a voz do seu Jair possa ser considerado não verdadeiro, mas isso não tem a menor importância. O que conta é o que está escrito no papel, mesmo que o MP e a PGR decidam pelo contrário e afirmem que ele mentiu em depoimento.
Não gostaria de entrar no mérito do fato da promotora ser partidária da família miliciana. Talvez ela fosse capaz de separar sua militância política da sua vida profissional. No entanto, quando ela afirma que o porteiro mentiu, e ignora a prova cabal, o que ele escreveu naquele dia, aí fica claro que sua militância está se sobrepondo ao seu profissionalismo.
Sim, em se tratando de milicianos protegidos pelos Bolsonaro, inclusive com empregos em seus gabinetes, é imaginável que seu Jair estivesse a par dos planos de matar Marielle. Talvez fosse o mandante. Tudo isso é possível, mas ainda precisa ser investigado e comprovado. Os fatos mostrados até agora sugerem isso como uma linha investigativa igual as outras.
Sim, o seu Jair surtou em sua mensagem de indignação pela reportagem do JN. Alguns dizem que uma pessoa inocente não se comportaria assim. Minha experiência mostra o contrário. Os que se indignam mais, costumam ser os inocentes. De toda forma, a questão aqui é outra. A descompostura do presidente diante do que ele considera uma afronta.
Está claro que não temos um presidente que ainda não compreendeu que as eleições já passaram, e que ele ocupa um cargo passageiro. Qualquer Brasileiro pode chegar ao cargo máximo da nação numa democracia, mas o emprego possui algumas exigências comportamentais, éticas e morais para seu ocupante. O que o mundo inteiro está vendo diariamente é a incompatibilidade total do seu Jair para o cargo.
Um presidente necessita atributos básicos que independem de sua educação, cultura, conhecimento, religião e posição ideológica. Ele governa para todos e representa o país como um todo. Não precisa ser poliglota, mas está sempre acompanhado de um tradutor por onde vai circular. Ele pode não ser um líder nato, mas é visto assim por seus pares.
Seu Jair parece não ter sido o melhor aluno da escola, tem baixíssima cultura geral, pouco conhecimento do mundo e reafirma sua posição ideológica e sua religião onde quer que esteja. Mal fala o português e está longe de ser um líder reconhecido por seus pares.
Ele coloca suas convicções ideológicas acima de tudo e governa exclusivamente para a parcela da população que o apoiou. Continua em campanha eleitoral acusando tudo e todos que o contrariem ou confrontem. Tenta governar como o dono de um negócio que decide o que será comprado, de quem e como será pago. Não sabe o significado da impessoalidade do cargo que ocupa, e muito provavelmente sequer o que isto signifique.
Seu Jair pode, ou não ser o mandante do assassinato de Marielle. Talvez soubesse de tudo. Um dos filhos, ou todos podem ter envolvimento. Para onde quer que se olhe, evidências apontam para ele, seus filhos e seus conhecidos. Nenhuma investigação séria poderia minimizar este conhecido envolvimento pessoal da família com os assassinos.
Infelizmente vivemos tempos obscuros onde a justiça perdeu a imparcialidade e o Estado de Direito é uma miragem. Se alguém tem esperança de que este crime chegue aos donos da casa 58, é bom repensar o país onde vive.
por Mauro Nadvorny | 26 out, 2019 | Brasil, Política
Eles não sabem ler?
Sei que vou escrever um clichê ao dizer acho que devo estar em um universo paralelo, mas não consigo encontrar outra maneira de voltar ao tema do julgamento da segunda instância.
O Brasil tem uma Constituição e nela está escrito com todas as letras que “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Não existe margem a interpretação, está claro e óbvio o que isto significa, então o que é que este pessoal do STF está julgando?
Mais do mesmo: Artigo 283 do Código de Processo Penal, “Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente. Em decorrência de sentença condenatória transitada em julgado ou, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva.”
Qualquer pessoa leiga em direito, como eu, que saiba ler em português e tenha estudado em algum momento de sua vida, interpretação de texto, poderia compreender o que está escrito e se interpelada a explicar diria simplesmente que não se pode prender ninguém até que tenha sido julgado o último recurso.
Ninguém está pedindo ao STF a opinião dos ministros. Não está em julgamento se as leis estão certas, se elas se aplicam de acordo com a classe social do sujeito, ou se são justas. Não questionamos eles quantas pessoas serão libertadas, ou se elas servem para combater a corrupção. Tampouco a minha opinião sobre a lei, ou a sua, interessa.
Volto ao clichê. Só posso estar em um universo paralelo onde juízes do STF não estudaram interpretação de texto, não sabem ler em português, ou são a raposa tomando conta do galinheiro. Nossa Constituição está nas mãos de juristas que se acham acima dela.
O Brasil está muito doente. Ninguém poderia estar acima da lei, todos deveriam ser iguais perante ela, mas está claro que existem os mais iguais e os menos iguais. Dependendo do que desejam os ministros, e quais são os interesses envolvidos, a lei pode ser descaradamente distorcida, ou o que é pior, totalmente desprezada.
Por mais que procurem esconder, é no presidente Lula que estão pensando. É ele que está sendo julgado quando votam a favor da prisão em segunda instância. Sua sombra está presente em cada argumento que usam para amparar seu voto anticonstitucional. Tudo o mais é confeitaria.
O brasileiro também está doente. Um país com mais de 12 milhões de desempregados e com 30 milhões vivendo na informalidade, não consegue reunir mais do que alguns milhares para protestos contra este governo de lunáticos. Com suas vidas sem a menor perspectiva de melhora ficam em suas casas aguardando por um milagre.
Nos países vizinhos o povo enfrentando o aparato bélico de segurança do estado nas ruas, desafiando toque de recolher, colocando suas vidas em risco para dar um basta a política neoliberal, e o brasileiro incapaz de mostrar sua indignação. Nem o fim de seus direitos, de sua aposentadoria, de seu futuro, nada parece capaz de acordar o gigante adormecido.
Com tudo que estamos assistindo o Brasil aumentou o número de ricos. O capital não desapareceu, ele apenas mudou de mãos. Saiu do bolso dos mais necessitados e foi para o bolso dos mais ricos. Simples assim.
Então, quando estão de fato julgando o Presidente Lula, entenda que está em julgamento o que ele representa, um país mais justo para todos. Um país onde foi dada uma chance para você crescer na vida, ter condições de estudar, trabalhar e se aposentar com dignidade. Um país mais justo socialmente. Cada voto a favor da prisão em segunda instância, em desacordo com a lei, é um voto contra um Brasil mais igual.
por Mauro Nadvorny | 13 out, 2019 | Brasil, Política
A causa
Estava pensando no que mais se pode dizer deste governo que ainda não tenha sido dito. Todos os dias passo pelas notícias e aquela coisa de que nada está tão ruim, que não possa piorar, piora. O inacreditável passa a ser crível numa sequência de nonsense de tirar o fôlego. As redes sociais fazem a síntese dos absurdos e eu me vejo perguntando até quando.
Estou naquele momento Tiririca. Nada contra o personagem, é que me recordo do fato de que a candidatura dele foi vista como um fato grotesco, ou de protesto, dependendo para quem se pergunte. De toda maneira, a candidatura vingou e acho que foi mais ou menos ali, naquele exato momento que fomos desviados no tempo espaço para um mundo paralelo. Desde então, nada mais pode ser definido como absurdo, nem mesmo a eleição de uma família miliciana.
Alguém vai dizer que os absurdos já aconteciam muito antes, que haviam Malufs e similares sendo eleitos mesmo depois de acusados de roubarem e afirmarem que “roubavam, mas faziam”. Concordo que muitos políticos de carteirinha eram reeleitos contra todo e qualquer senso ético e moral, mas os caras eram políticos escolados, sabiam como levar o povo na sua lábia. Tiririca, para mim, foi quem mudou todos os conceitos.
Vejam que depois dele, a palhaçada se tornou coisa comum. O parlamento assumiu ares de um circo e se alguém duvida, lembrem-se do que foi a noite do Impeachment da presidenta Dilma. Nem o Cirque du Soleil seria capaz de montar um espetáculo daqueles. Aquilo foi uma universidade circense com palhaços dando aulas magnas. E ele, o Tiririca, votou sim.
A coisa foi ficando tão ruim que o palhaço percebeu que onde pensava ser professor, era na verdade um mero aluno recebendo lições. Tinha professor para tudo. Logo se tornou o que menos esperavam dele, mais um político no baixo-clero. Encontrou sua teta para mamar e lá permanece.
Neste universo em que ele nos colocou a realidade sofreu um enorme revés. Um governo de histórias em quadrinhos tomou o poder. Só que não eram os heróis, eram os anti-heróis. Não os bacanas, nem os nerds. Quem assumiu foram os caras que sentavam colados na parede das salas de aula. O pessoal que só rezava para o professor esquecer o nome deles. Os caras que foram para Harvard só no currículo fake que fizeram no computador. Aqueles cujos trabalhos escolares eram um “Control C” e “Control V”. Gente que adorava os sites que provavam que o homem nunca foi a Lua. Os aniversários eram comemorados em uma mesa, eu disse UMA mesa do McDonald’s.
No mundinho que foi a sua infância e adolescência, uma bolha resguardada dos seus piores tormentos, não tiveram tempo de conhecer o lado de lá da vida. O lado com ricos e pobres, com os que tem tudo e os que não tem nada. Da natureza nunca ouviram falar, afinal nunca foram para um acampamento na vida. Direitos humanos e direito animal, nenhum significado em suas vidas. Seu mundinho foi quadrado e continua sendo.
Como poderiam acreditar em um mundo melhor para todos, se nunca foram parte do mundo e nem do todos? Em luta de classes, se sua mediocridade foi sempre uma armadura para sobreviverem? O globalismo os amedronta. O socialismo os atormenta. O neoliberalismo os redime. A religião os entorpece. A direita os seduz.
O efeito Tiririca abriu os portões da salvação para todos eles. Mostrou que eles podiam chegar ao poder pelo voto. Claro que uma ajuda do WhatsApp foi benvinda, mas um juiz em conluio com os promotores tirar o principal empecilho do caminho foi quase divino. Isso foi a apoteose do inferno na Terra.
Ele deixou de ser Francisco Everardo Tiririca Oliveira Silva para se tornar uma lenda. Nossa história ficou definitivamente marcada quando ele se tornou deputado e foi reeleito. Nosso carma só vai terminar quando não se reeleger mais. Ele, e aquela lista inominável que está no Congresso Brasileiro. Bolsonaro não é a causa, é apenas a consequência.