por Richard Klein | 19 set, 2020 | Brasil, Crônica, Literatura
Capítulo 18
“Terra…
Por mais distante, o errante navegante,
Quem jamais te esqueceria?”
Caetano Veloso
O novo destino ficava a uma caminhada de duas horas e meia pelas praias desertas. Sob o sol escaldante, encarei aquilo com as tralhas nas costas. Esse era o único caminho possível, não havia estrada nem trilha, e só dava para ir na maré baixa, já que na alta um trecho ficava perigosamente submerso. Já integrado no ecossistema, sabia a que horas ir e me safei do apuro.
O fim da andada era uma estradinha sem sinalização que subia pelo meio do mato até um plateau. A aldeia, cercada pela floresta tropical, consistia de uma formação retangular de cabanas em torno de um campo de gramado enorme e bem tratado. No final do tapete verde em frente do mar, fechando o que todos chamavam de quadrado, havia uma igreja colonial caiada dominando a aldeia.
Foi amor à primeira vista. A tarde já estava começando a cair e as sombras das casinhas estavam começando a cobrir o gramado. O cheiro gostoso de pasto verde foi um refresco depois daquelas horas cansativas, secas e quentes ao lado da agua salgada. A beleza era impressionante, a pureza do ar conferia ao oceano lá embaixo uma tonalidade turquesa profunda que ficava maravilhosa ao refletir o azul marinho do céu. A sofisticação cênica daquela pequena comunidade parecia incompatível com seu isolamento.
Sem saber onde ia passar nem aquela nem as outras noites do resto do mês que planejava ficar ali, parei no único bar de Trancoso, localizado na também única esquina do quadrado, logo na entrada da aldeia. A construção era simples; um balcão estreito de frente para uma pista de dança ampla – certamente de lambada – onde havia algumas mesas espalhadas. O teto era seguro por troncos de madeira. Havia várias pessoas de fora bebendo cerveja e curtindo o fim de tarde ali. Quando viram um violão puxaram assunto na hora.
“E aí? Sai um som dessa viola?”
“Claro que sai! Mas agora não dá, acabei de chegar a pé de Ajuda, só dá para beber uma cerveja.” Não queria tocar mas também não dava para dar uma de antipático. Antes de ir pegar minha gelada e sentar para relaxar falei. “Se tem alguém aí que quiser tocar, à vontade.”
Um cabeludo mais velho sentado com uma estrangeira hiponga bonita, loura de olhos azuis, se levantou e perguntou: “Se importa?”
“Sem problema nenhum!”
Tirei o violão da capa e ele deu uma conferida enquanto fui pegar minha cerveja. “Um Del Vecchio antigo! Isso é artesanal! Tu é doido de trazer um violão desses para cá!”
“A viola está adorando o Sul da Bahia, não se preocupe com ela.”
Sem se impressionar com minha resposta, mas fascinado pelo instrumento o cabeludo intenso sentou num banco, posicionou o violão como quem sabia o que estava fazendo, deu uma verificada na afinação e saiu tocando uma das Bachianas do Villa-Lobos deixando todos de boca aberta.
Quando terminou, o cara que tinha me dado as boas vindas falou: “Caralho, mineiro, tu tava escondendo o jogo! Esmirilhou!”
“Tô meio enferrujado, tava precisando tocar. Esse violão é bom demais! Não resisti.”
Depois da primeira, vieram mais duas Bachianas, todas soando especiais naquele lugar. Quando terminou passou o violão de volta. Antes que tivesse que inventar uma desculpa para não ter que passar o vexame de tocar depois dele, ele perguntou:
“Como é teu nome?”
Disfarçando a pressa em colocar a viola de volta na capa respondi. “Rique.”
“Valeu, Rique, gostei do violão. Meu nome é Carlos, mas me chamam de Mineiro.” Ele olhou em volta como quem busca aprovação e continuou.” A gente está na concentração antes de bater uma pelada, os de fora contra os da terra, você pode jogar? Tá faltando um no nosso time.”
Com todos pressionando, não tinha como dizer não. “Vambora! Só que vou avisando logo: sou pereba ”
“Aqui só tem pereba, vamo nessa!”
Aquela resposta era típica de quem jogava bem e não deu outra. Quando o jogo começou senti o quanto as noitadas, a farra e a caminhada tinham me afetado. Estava numa forma vergonhosa e a cerveja antes do jogo não estava ajudando. A grama e as pedras estavam castigando as solas dos pés. Mesmo assim, tentando não dar vexame, fiquei na “banheira” quase o jogo inteiro e consegui marcar um gol. Contudo, mais competitivos por estar defendendo a honra da terra e bem mais em forma, os nativos venceram de goleada.
Depois do jogo voltamos para o bar para amargar a derrota com mais cervejas. Já estava escuro e menos intimidado pela habilidade do mineiro, mais solto pelo jogo e pelo recarregamento etílico, tirei a viola e comecei a tocar cedendo a pedidos insistentes. Como em Ajuda, não demorou muito para que outros músicos se juntassem e ajudassem a disfarçar minha perebagem musical. Para meu alívio, talvez horrorizado pela minha inabilidade, o mineiro saiu logo com sua estrangeira loira. O dono do bar acendeu a lamparina de querosene e nossa música ficou quebrando o silêncio do resto do vilarejo.
Conforme a noite foi avançando, as pessoas começaram a ir embora. Quando o bar já estava quase vazio, alguém me interrompeu. “E aí, carioca, vai ficar aonde hoje à noite?”
“Ainda não sei, se bobear acho um canto no gramado e estico o saco de dormir lá.”
“Que é isso?! Vai dormir que nem mendigo?! Aqui não tem disso não! A gente te arruma um lugar!” O cara virou para o dono do bar. “Seu Manoel, tem um quarto na aldeia aqui para o violeiro?”
Seu Manoel torceu a cara. “Tem não, nessa época do ano tá tudo tomado.”
“E na casa do Chileno? não tem um quarto sobrando?”
“Chegou um casal de gaúchos lá ontem à noite.”
“E aquelas irmãs de São Paulo, tomaram a casa do Sebastião toda?”
“Só pegaram um quarto. É, talvez lá tenha.” O seu Manoel virou para o filho sentado do lado. “Raimundo, dê um pulo na casa das meninas e pergunte se pode dormir mais um lá.”
Meio desconfortável com tanta cerimônia perguntei: “Para que tanto auê? Onde eu esticar o saco de dormir tá bom. Pode ser no quadrado ou até debaixo de um coqueiro na praia, não tem problema.”
“Fica tranquilo, carioca, a gente vai te descolar um lugar.”
Me lembrando da experiência com as brasilienses, fiquei vendo o moleque desaparecer no campo escuro e depois reaparecer do outro lado em frente às janelas iluminadas por velas e lâmpadas de querosene.
O seu Manoel já tinha simpatizado comigo. “Deixe o Raimundinho voltar, se as paulistas disserem que não, tenho uma ideia.”
Marquinhos, o cara que tinha me dado as boas vindas, falou: “Já sei, a cabana do Pará lá perto da praia!”
“Essa mesmo, e o rapaz vai poder ficar lá de graça. Acho que o Pará já arrumou comprador, faz umas duas semanas que ele sumiu.”
Não demorou muito para o filho do seu Manoel votar: “Elas disse que não quer mais genti na casa.”
“Esquenta não, carioca.” Marquinhos me deu uma olhada maliciosa. “A gente desconfia que elas não são irmãs coisa nenhuma, mas sim um casal de sapatonas, não iam querer um cara estragando a festa, né?!”
Um cara com um sotaque gaúcho que até então estava quieto deu uma risada e falou: “Aê violeiro, vai dizer que tu não ia querer ser o recheio daquele sanduíche?”
Achando a observação despropositada e constrangido pelo esforço do pessoal, não dei trela para a brincadeira e perguntei: “E essa casa do tal do Pará?”
O brincalhão respondeu: “O lugar é até melhor do que aqui em cima, o problema é que é um barraco de palha no meio do mato, não tem nada por perto. Chegar lá a noite vai ser coisa de Tarzã.”
O seu Manoel falou: “Não exagere, Gaúcho, o rapaz chega lá fácil.” Aí ele se voltou para mim. “Nem precisa de chave, é só chegar lá, abrir a tranca de madeira e empurrar a porta. Não se preocupe com bicho, é só deixar a casa fechada que eles num entra.”
“Que tipo de bicho!?”
O dono do bar, um sujeito moreno de meia idade com uma barriga respeitável, deu uma risada. “Aqui só dá galinha e porco, e volta e meia um jegue, não se aperreie!”
Mesmo que soasse roubada, não dava para recusar. Meio envergonhado, aceitei a generosidade e eles passaram a me explicar como chegar lá.
“Você desce a estrada da praia por onde você subiu, essa aqui do lado. Depois de uns trinta metros você vai ver uma trilha à direita. É só seguir toda vida que você vai dar na porta do barraco. Não tem erro.”
O Gaúcho, ainda achando graça, emendou: “Te prepara porque tem um rio no meio.”
De novo não dei muita atenção, mas por via das dúvidas perguntei: “Dá para deixar o violão aqui? Amanhã passo pra pegar.”
“Claro que dá, meu filho!”
Agradeci, botei a viola na capa e dei para ele guardar. Peguei a mochila, dei boa noite para o pessoal e fui encarar o caminho. Noites sem lua como aquela em particular eram excelentes para observar estrelas cadentes, mas faziam a visibilidade nula. Na estrada de terra ainda dava para enxergar alguma coisa, mas no mato estava um breu completo. Fui me guiando pelo barulho da água correndo ao longe, sentindo a areia com os pés e me escorando nos troncos das árvores com a mão.
A visibilidade voltou quando alcancei o rio. Na clareira, percebi que a outra margem ficava a uns seis metros de distância e pensei em desistir. Em vez disso, imaginei o mico que pagaria se voltasse dizendo que tinha ficado com medo e criei coragem e comecei a travessia no leito lamacento da água morna. Conforme a profundidade foi aumentando, barulhos de sapos e de outras criaturas da noite me fizeram pensar em cobras, animais estranhos e peixes carnívoros. Numa dada altura, a água chegou quase a altura do peito e a correnteza tornava difícil equilibrar as tralhas na cabeça.
Do outro lado avistei a porta da cabana no final da trilha de areia. Como o seu Manoel tinha dito, a tranca era fácil de abrir. A claridade criada pela porta aberta revelou uma vela colada numa mesa. Revistei a mochila e achei a caixa de fósforos e liguei a vela. A chama fraquinha iluminou as paredes de madeira com argila, o chão de areia e o telhado de palha. Os únicos móveis eram aquela mesa rústica e uma cadeira feita a mão do lado. Fiquei digerindo aquele cenário e o cheiro acre e úmido. O vento soprando do mar estava uivando alto. Ele tirava o abafado da casa mas fazia a porta, as janelas e as árvores em volta baterem balançarem em uma coreografia sinistra. Estranhamente, a luz da chama pareceu me proteger e fez com que a cabana se tornasse aconchegante. Ainda ensopado, abri meu saco de dormir, o estendi no chão e assim que deitei caí num sono profundo.
*
O sol entrando pelos buracos da janela me acordou de manhã cedo. Ainda dava para ouvir o vento que agora, mais suave, permitia escutar o canto dos pássaros e as ondas quebrando ao longe. Saí do barraco para ver como aquilo era de dia. Fora minhas pegadas deixadas na noite passada, a areia em torno da casa tinha apenas pegadas de caranguejos e de pássaros. A paisagem em volta era densa e estava colorida pelo sol ainda tímido filtrado pela maresia. Naquele momento, o mundo era apenas a cabana, o mato ao redor e a presença da praia ao longe. Aquela paz especial me levou mentalmente ao início dos tempos.
Naquele estado quase místico caminhei até a praia que não ficava longe. Assim que a mata abriu, cruzei a areia, mergulhei no mar e nadei por um bom tempo até chegar a uma distância boa da costa. Na água funda, com aquela paisagem só para mim e com o corpo recomposto pelo exercício matinal, fiquei boiando e apreciando aquele espetáculo. Aquele paraíso ficava a poucos quilômetros de Santa Cruz de Cabrália, onde os primeiros pés europeus haviam tocado o país-continente. Este era o lugar onde aquelas almas ocidentais plantaram as sementes de um novo país. Naquela hora e local ficou fácil imaginar a flotilha chegando. Será que alguém naqueles navios tinha pensado que havia algo a aprender naquela terra linda? Não teria sido uma oportunidade para começar algo novo e melhor? Talvez não fosse tarde demais. Apesar dos horrores que seguiram, a carta de Pero Vaz de Caminha descreve um encontro festivo de civilizações, quem sabe a saga ainda não pudesse terminar bem?
*
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por Mauro Nadvorny | 12 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Israel, Opinião, Política
O voto pelo perdão das dívidas das Igrejas no Brasil de parte do PT e pela totalidade da bancada do PCdoB, e o colapso na gerência da pandemia em Israel, tem muito mais a ver do que parece a primeira vista. É a política mostrando suas incoerências, ou coerências, dependendo da perspectiva de quem lê. É a religião se prosmicuindo com a política.
A nota o PCdoB, para explicar seu voto, entre outras coisas disse o seguinte: ”Para o PCdoB, a ação fiscal do Estado deve estar dirigida ao combate à fraude e ser direcionada prioritariamente aos grandes sonegadores, às pessoas físicas detentoras de grande patrimônio e não mirar ações sociais realizadas por instituições religiosas.”
Em outras palavras, o partido justifica o seu voto ao lado de todos os partidos de centro, direita e extrema direita, com a justificativa de que não se deve cobrar imposto das igrejas, deve-se sim, cobrar dos grandes fraudadores.
Do outro lado do mundo, o governo israelense que havia se saído com mérito no combate a pandemia na primeira onda, se viu obrigado agora a impor um novo lockdown de duas semanas no país depois de chegar a mais de 4500 infectados em um único dia desta semana.
Como é possível tal desastre? Aqui também existe o fator religioso. O Covid-19 impera principalmente nas localidades de judeus ultra-relogiosos e nas árabes. Em ambas, o uso de máscaras, luvas e evitar aglomerações é desrespeitado a luz do dia e a noite. Casamentos com milhares de convidados, desobedecendo as normas, vem sendo uma constante nestes lugares.
O governo tentou uma solução paliativa. Criou o sistema de cores por cidades e aldeias e tentou impor um lockdown nas localidades de cor vermelha. Os partidos religiosos se rebelaram e ameaçaram deixar o governo. Por fim, aceitaram um lockdown a noite, mesmo assim desrespeitado, e que todos sabiam, uma medida inócua.
Com o número de novos doentes diários subindo as alturas, não teve remédio, e a única opção, antes do colapso do sistema de saúde, foi o lockdown geral. Era o que ninguém queria, é o que todos vão ter. Infelizmente, a política da sobrevivência do governo foi imperativa. Se não é possível uma quarentena somente onde é mais necessário, vamos todos entrar nela.
Por trás destes dois eventos, está a relação religião e estado. O fato é que o PCdoB sabe perfeitamente que nem todo religioso é anticomunista e que boa parte do seu eleitorado é composto de crentes. Estas pessoas precisam dos seus templos abertos e, como explicam (sic), o governo não pode cobrar impostos de locais de culto. Nem vou falar da casa do Bispo Macedo.
Em Israel, os partidos religiosos há muito se tornaram partidos ideologicamente de direita. Seus 15 votos em média, são cruciais para a formação de um governo no sistema parlamentarista. Seu peso portanto extrapola em muito os cerca de 12,5% de representatividade que possuem. Mesmo assim, são cortejados e sabem do seu valor para literalmente chantagear o primeiro ministro com suas exigências. Por conta disso, o país inteiro vai parar durante 15 dias e terá enormes restrições nas duas semanas seguintes.
O fato é, que quando se trata de política, a separação dela do estado, vira uma obra de ficção. O estado em ambos os países, Brasil e Israel é laico no papel, na prática o que acontece é uma submissão as necessidades de cada um. Diante da necessidade de angariar votos, ou de formar um governo, é a religião quem dá a última palavra.
Não acredito que caiba uma discussão sobre as questões éticas e morais do que verdadeiramente acontece. Não existe uma solução democrática para isso. Onde ocorrem eleições democráticas, sempre vamos ter este problema. Uma discussão neste sentido não vai levar a lugar nenhum.
O que fica é aquela sensação de ironia no ar. No Brasil, comunistas votando junto com fascistas. Em Israel, uma coalizão formada para resolver o problema da pandemia, não podendo resolver coisa alguma, e portanto, podendo se dispersar e convocar novas eleições.
E assim caminha a humanidade.
por Richard Klein | 12 set, 2020 | Brasil, Crônica
Se esquecêssemos a desigualdade social refletida tão simples e claramente na nossa presença ali, o povo de Ajuda vivia bem e ainda não tinha sido tocado pelo “Brasil Novo”. Sem interesse, malícia, nem conhecimento para explorar turistas, ganhavam a vida usando seus barcos artesanais para trazer seu sustento do mar. Alguns alugavam quartos ou cozinhavam para fora para completar o orçamento. O pessoal da terra era curioso a nosso respeito e nós a respeito deles. Às vezes, nos honravam com convites para conversar e ouvir suas histórias sobre a comunidade, suas lendas, o mar e a natureza que nos cercava.
“Tem vários pescador que viu uma luz branca aparecê de noite no meio da pescaria. Quando eles via de perto, aparecia uma mulher vestida de branco lá de dentro. Todos os que viram aquilo acabaram morrendo no mar de um jeito ou de outro.”
“U mió mês de se pescar é março, a corrente traz muito peixe do Sul para cá, o mar fica mais frio e de vez em quando nóis pega até tainha.”
“Aqui dá cação, principalmente por volta do mês de junho, mas é ruim pras rede. Eles rasga tudo e depois nóis tem que remendá tudo de volta. A gente mata eles com peixeira, mas é, difícil. O bicho é grande, maior que sinhô. A carne nem é muito boa, é dura. A gente tem que cozinhá várias veiz até amassiá, que nem carne de sol.”
“Nos rio daqui tem peixe sim sinhô, mas é tudo pequeno. Tem muçum, o sinhô conhece? Já experimentaste? É feio como a peste, mas é muito saboroso. Tem que saber cozinhá.”
“Nadá?! Nós não sabe nadá não, quando um cai na água, nóis vai lá e traz ele de volta do jeito que dá.”
“Ôceis num pesca no Rio de Janeiro, não? E aprendeu a nadar por quê? Oxente, se eu tivesse o dinheiro que oceis tem, mandava fazê uns três barco e fazia os outro pescá para mim. Que nem aquele minimo de Salvador tá fazeno. Eu ia ficá rico que nem ele!”
Os visitantes mais sortudos que estavam lá há mais tempo eram convidados para sair nas pescarias, mas isso nunca aconteceu comigo.
O pessoal de fora, todos na faixa dos vinte a trinta anos, era uma mistura de estudantes universitários, professores, jornalistas, artistas e profissionais de todos os tipos. As conversas longas e frequentes refletiam a paz e a beleza do lugar e a explosão de liberdade de expressão que se seguiu à repressão do regime militar. Todos faziam questão de dar a sua opinião sobre tudo; de futebol à ecologia, da política ao sexo.
“Quando a eletricidade chegar aqui, vai mudar tudo e para pior. Eu sou do Mato Grosso, lá tem um monte de aldeias como essa. Quando modernizam, o povo mais humilde acaba virando favelado e quem se dá bem é o pessoal das cidades vizinhas maiores que chegaram sabendo como lidar com dinheiro.”
“Pois é, eles são muito ingênuos. Não valorizam o que possuem. Eu sou do interior do Paraná, e lá é igual. Os nativos, não têm parâmetros para comparação. Os caras de fora vêm na malícia e deitam e rolam em cima deles.”
“Vai ser uma pena ver essa natureza toda ser transformada em resorts à lá americana mas pode crer que vai virar.” Profetizou um.
“Pois é, mas ficar aqui sem luz elétrica é bom demais, a gente tem que aproveitar enquanto dá.”
Todos concordaram.
“Mudando de assunto, se vocês querem ver natureza de verdade, têm que ir para Caraíva. No ano passado fiquei lá o verão inteiro. Foi muito, mas muito bom!”
“Caraiva? Os nativos disseram que não dá para chegar lá nem a pé!”
“Que dá, dá, mas é difícil por causa da maré e dos rios no caminho. Teve um maluco de Belo Horizonte que saiu de Trancoso e conseguiu, mas levou dois dias. A gente foi de barco. Tem um que sai de Porto Seguro toda sexta-feira, leva umas três horas.”
“E como é que é lá?”
“Muito louco, parece uma aldeia perdida no meio do Amazonas. Tem uma reserva indígena do lado, os caras nem falam português direito, só que o bicho pega com os nativos. Tem muita briga, principalmente depois que os índios descobriram a cachaça. Quando bebem, enlouquecem.”
“Você entrou em alguma confusão?”
“Ah, não, com o pessoal de fora eles são diferentes. A gente dá roupa, traz ferramentas, facões e isqueiros. Por isso adoram a gente.”
“É contra a lei, não é?”
“É, pela lei eles nem poderiam comprar esse tipo de coisa mesmo se tivessem grana, mas os caras precisam para lidar com o mato. Fiz amizade com um monte deles. Eles são muito doidos, não conhecem o conceito de propriedade privada.”
“Como assim?”
“Tipo assim, você vai para a praia e quando volta tem um monte de índio sentado na tua sala, tranquilos, sem pedir desculpas nem permissão. Teve um dia eu estava transando com a minha namorada e quando a gente acabou, nos demos conta que tinha uns cinco ou seis debruçados na janela olhando para nós em silêncio. Só faltaram aplaudir… minha namorada ficou puta!”
Todo mundo deu risada.
Quando o papo ficava mais sério, todos concordávamos que esses eram os últimos dias de um mundo no qual a natureza era maior do que o homem.
“Épocas de mudanças são um problema, decisões que parecem pequenas acabam tendo consequências enormes.” Falou um cara mais velho que, se não me engano, era professor de universidade. “Essa geração está presenciando toda essa devastação e vai ser cobrada pelo que deixou fazer e pelo que não fez no futuro.”
“Pode crer, vão dizer que deixamos a coisa rolar.” comentou um hippie bom de percussão.
O professor continuou: “Não sou muito otimista, acho que vamos ser vistos como os porcos que estragaram o planeta em nome de farra.”
Uma menina com cara de estudante de mestrado emendou: “É verdade, somos o vírus e a cura, tudo depende das decisões que vamos tomar ou que vão tomar por nós. O xis da questão é acreditar ou não que a gente pode fazer uma diferença.”
Discussões à parte, havia algo de especial no ar. Nenhum de nós jamais havia sentido esse tipo de conexão coletiva antes. Era como se estivéssemos em uma realidade paralela, destilada por séculos de ideais utópicos e pela camaradagem criada na resistência clandestina ao regime. Naquele paraíso tropical, essa proximidade permeava festas, a música, risos, relacionamentos e amizades que aconteciam. Elas tinham uma qualidade e uma sinceridade muito diferentes do que normalmente aceitaríamos como realidade imutável nos grandes centros urbanos.
*
A experiência não tocou Davi como a mim. A meu ver, ele estava se reprimindo ao escolher se misturar com uma galera de universitários mais caretas. Eles eram parte importante das conversas, mas participavam somente marginalmente de nossa “sociedade secreta”. Não estando ligados à erva, perdiam um elemento essencial. Não era uma questão de tirar uma onda ou de se enturmar por estar fumando maconha, mas pelas dimensões e perceptivas que ela parecia abrir nos papos e até na integração com os arredores.
Uma frase de efeito do Gabeira resumia bem a diferença entre nossas perspectivas: “Sem tesão, não há solução.” Esse era o pensamento dos envolvidos naquela microrevolução quixotesca. Nela, as coisas se resumiam a ações ao invés de palavras. Queriamos um mundo onde as pessoas vivessem mais proximas à natureza – a interna e a externa, sem distinções -, sem hierarquias, principalmente a hierarquia da mente sobre o corpo. Ninguém queria saber de dogmas, tanto à esquerda quanto à direita, muito menos as vindas dos altares da vida. Naquele verão utópico, quem precisava do peso da história, da escola, da tradição e da ciência pairando sobre suas cabeças?
O caminho para o fim da nossa amizade culminou quando conseguimos rachar uma cabana maior com três garotas de Brasília que ele havia arranjado perguntando ao pessoal local. Assim que as conheci, as achei feias e certinhas demais e portanto, fora da minha zona de interesse. A antipatia foi mútua: minha atitude de carioca descontraído que não estava nem aí para as praticidades de uma convivência diária contrastava com seus esforços em serem sociáveis e seus pedidos para que dividíssemos as tarefas domésticas. Talvez estivessem certas ao me considerar um riquinho preguiçoso e mimado, acostumado a ter uma mãe e uma empregada sempre correndo atrás dele. Só que com 17 anos, era imaturo demais para compreender isso e as descartei como “mocréias” chatas.
Um dia após a praia, já de saco cheio da minha preguiça, exigiram que eu preparasse a refeição daquele dia. Avisei que nunca tinha cozinhado na vida, mas, talvez achando que isso fosse uma desculpa esfarrapada, se recusaram a ouvir e me forçaram a embarcar na primeira aventura culinária da minha existência. O fogão era uma grelha apoiada em alguns tijolos que ficava na área atrás da casa. Meu primeiro passo procurar por lenha seca e papel para acender o fogo, o que era quase impossível com o vento que estava soprando. Depois que tive a ideia de pegar uma cartolina que encontrei para proteger a chama, finalmente consegui. Quando as chamas diminuíram, seguindo as explicações do Davi, coloquei uma panela velha sobre a grelha, com água, óleo, sal e o espaguete.
Como bom filho de Aries fiquei agachado curtindo as chamas arderem e aproveitei o fogo para acender uma ponta que achei no bolso. Tudo estava correndo bem até levantar para adicionar os ovos. Enquanto afundavam na água fervente, percebi que o resto dos ingredientes não estavam borbulhando como deveriam. Quando cutuquei com o garfo, senti que o macarrão tinha se tornado uma massa uniforme grossa e grudenta. Mesmo para um iniciante era óbvio que aquilo estava errado. Só que quanto mais tentava concertar a coisa, mais ela lutava de volta dificultando os movimentos do garfo. O que era para ser uma refeição à base de espaguete se degenerou em um bloco de massa incomível. Para tornar as coisa ainda pior, percebi que os ovos haviam sumido lá dentro. Comecei a escavar a “coisa” numa tentativa de salvá-los, mas o garfo ficou preso antes de desaparecer naquela deformidade.
Depois de um pânico inicial, achei aquilo engraçado. Respirei fundo e tomei coragem para dar a notícia dentro da casa.
As meninas estavam esperando com fome.
“Aê, vocês não vão acreditar, o macarrão virou um tijolo e engoliu os ovos e até aquele garfo. Vocês querem ver? Tá hilário!”
“Como assim?”
“O macarrão ficou todo grudado e acabou, sei lá, fundindo num bloco de massa sólido. Nem tô conseguindo nem tirar da panela.”
“Não estou acreditando, você sabia que a panela é da casa? Sabe quanto custou a massa e os ovos? Não deve saber? A empregada não foi comprar, né?”
“Olha só, foi um acidente!” Elas estavam sérias e nervosas e eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando. “Está todo mundo de prova que avisei que nunca tinha cozinhado na vida.”
“Como é possível um marmanjo da tua idade não saber cozinhar um macarrão?!”
“Isso não vem ao caso. Eu avisei, foi um acidente, se vocês quiserem eu pago o macarrão de vocês, mas baixa a bola aí, porque gritar não tem nada a ver.”
“Ah, e você vai pagar o nosso jantar?”
“Compra mais macarrão, cozinha um arroz, sei lá, se é para pedir desculpas já pedi, só não enche!”
Havia coisas melhores a fazer do que ouvir aquelas três garotas gritando comigo e saí da cabana, deixando elas falando sozinhas. Mais tarde, naquela mesma noite, caiu a última gota. Estávamos todos num boteco, e depois de beber demais, a mais nova, que era a mais sossegada e a mais atraente das três, me pediu para a trazer de volta para a casa porque estava passando mal. Estava bêbado também e no portão nos beijamos. Quando entramos e já estávamos prestes a finalizar a coisa, as outras duas entraram como um foguete, chegando perto de me agredir fisicamente. No dia seguinte me colocaram para fora. O Davi, que já estava farto das minhas doideiras, também não gostou e ficou do lado delas.
Peguei minhas tralhas resignado e um tanto zangado e fui bater na porta da cabana de uns uruguaios camaradas que me acolheram na hora. Só que não demorou muito para descobrir que o clima na casa dos caras era caótico demais, até para mim. Era gente entrando e saindo da casa 24 horas por dia para zoar e se chapar. Por outro lado, talvez pelo acontecido, o Davi decidiu voltar ao Rio mais cedo do que o planejado. Agora sozinho no Sul da Bahia, carregando o gosto amargo da rejeição, seguindo recomendações, resolvi me mudar para Trancoso, o próximo vilarejo ao sul.
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por Mauro Nadvorny | 5 set, 2020 | Brasil, Comportamento, Protesto
Quando o mundo entrava em plena pandemia com todos entrando em quarentena e as fronteiras sendo fechadas juntamente com todo o comércio e o entretenimento, uma ideia acalentada de muito tempo veio a tona: porque não um festival de canções de protesto?
Sem nenhum patrocínio e com a ajuda de amigos de todas as horas, a ideia se tornou realidade e com mais de 160 canções de todo o Brasil inscritas, o festival entrou na fase da escolha das 10 canções que vão para a final, marcada para 3 de outubro.
São cinco juízes dedicando seu tempo para a difícil escolha entre tanta produção de altíssima qualidade. O país tem uma produção artística e cultural que me surpreendeu. Não imaginava tantos artistas interessados, tampouco fazia ideia de que no Brasil também se produz canções de protesto da mais alta qualidade.
Dia 10 de setembro teremos os finalistas, no que eu sei de antemão, será uma escolha tremendamente difícil, e que vai fazer a audiência pensar muito antes de votar na melhor canção. Sim, o festival será transmitido pelas redes sociais em uma live. Os testes já começaram neste final de semana e está tudo saindo melhor do que a encomenda.
Foram muitas dificuldades que tiveram de ser superadas. Tentamos um autofinanciamento para premiação que não recebeu o apoio desejado. Encontramos outras formas de premiar. Tivemos muito pouco apoio da mídia tradicional e nenhum da mídia de esquerda. Mesmo assim conseguimos envolver uma quantidade expressiva de compositores e intérpretes que acreditaram no projeto. Procuramos parceiros para a transmissão, mas não se interessaram. Vamos transmitir diretamente com a mesma qualidade deles, ou até melhor do que muitos.
A luta na resistência, não é o que muitos acreditam, solidariedade e fraternidade na trincheira da esquerda. A total indiferença e falta de suporte de companheiros da esquerda a este projeto é uma prova de que na esquerda, como na direita, os egos, muitas vezes, falam mais alto do que a razão. Mas também mostra como nós, da esquerda, somos insuperáveis em nossa luta por um Brasil mais justo e um mundo melhor. Mesmo com todas adversidades, vamos mostrar ao mundo pela Internet, que existe resistência e que nosso canto de protesto está aí para todos escutarem.
Eu posso dizer que apesar de tudo sou um cara sortudo. Encontrei parceiros que acreditaram no projeto e dedicaram seu tempo e seu talento para fazer acontecer. Sem a contribuição deles, teria sido muito mais complicado, senão impossível. Cada um deles a sua maneira, com a sua disposição estão dando uma contribuição inestimável que ao mesmo tempo me regozija e me comove. Nem mesmo conheço a todos pessoalmente, e não tenho palavras de agradecimento suficientes para externar o que sinto por eles terem acreditado neste idealista incurável.
O Festival da Canção de Protesto, ou o primeiro Festival da Canção de Protesto, como nós o estamos pensando vai continuar acontecendo nos próximos anos, virá o segundo, terceiro e assim por diante enquanto existirem injustiças para serem denunciadas e clamores para serem cantados aos quatro ventos.
Do fundo do meu coração eu convido a todos, dia 03 de outubro a partir das 20:30 h, assistirem através das nossas páginas no YouTube (https://www.youtube.com/channel/UCbf8UHISaIecsnCfZ_RYiAg), no Facebook (https://www.facebook.com/FProtesto/) ou no Twiter (@Fprotest) ao Festival da Canção de Protesto (https://festivaldacancaodeprotesto.com.br/). Compartilhem muito no dia, escutem, curtam, vibrem e principalmente, votem na sua canção de protesto preferida e elejam as três melhores canções.
Até lá!
por Richard Klein | 5 set, 2020 | Brasil, Crônica
Foto: Gita – Fotografia Profissional
Capítulo 17
“Bom viver graças ao calor do sol
Benfeitor dessa região…”
Gilberto Gil – Cores Vivas.
A situação não podia ser melhor na chegada do verão de 1979. Integrado ao estilo de vida carioca, enturmado graças ao violão, membro titular da turma dos malucos do Colégio Andrews, tinha passado de ano com facilidade. As férias que vinham pela frente prometiam. Como recompensa pela boa atuação escolar – sem ter ideia do que se passava nas horas vagas – Renée e Rafael concordaram em patrocinar mais uma aventura de verão. O plano era ficar um mês e meio no sul da Bahia, a nata dos destinos alternativos na época, novamente na companhia do Davi.
A região ao sul de Porto Seguro era um dos refúgios hippies mais procurados do país. Louvada em musicas por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros filhos da Bahia, aquele ecossistema praieiro, vasto, quente e verde tinha sido poupado do saqueamento que os litorais dos estados do Rio e de São Paulo estavam sofrendo. A área era tão virgem que ainda havia tribos indígenas vivendo em reservas, o que contribuía para a sua aura de paraíso tropical. Somado a isso tudo, era próxima a cidade natal de Jorge Amado, Ilhéus, prometendo, em minha imaginação, uma imersão na cultura afro-baiana.
Desta vez, fomos sozinhos à rodoviária o que fez com que nos sentissemos mais maduros na hora de embarcar. A viagem era “apenas” trinta horas e nossos companheiros eram na sua maioria gente da região voltando para passar os feriados de fim de ano em casa.
Dada a destinação, como era de se esperar, para nossa alegria, havia um grupo de seis ou sete garotas de Ipanema com ar hipongo entre os passageiros. Assim que o ônibus pegou a estrada todas se levantaram para ficar conversando em pé no corredor do ônibus ou de joelhos nos assentos. Felizes por estarem saindo de férias longe da tutela dos pais num lugar da moda, cientes de que estavam chamando a atenção do ônibus inteiro, ficaram horas num papo animado.
“Menina! Você tem que ver o biquíni que comprei na Company. Cheio de detalhes indianos, o máximo!”
“É?! A Marcinha foi lá na semana passada e disse que viu umas cangas de batik lindas, meio sedosas, importadas da Índia. Fiquei morrendo de vontade de comprar, mas não deu tempo.”
“Amo de paixão tudo na Company!”
“Também adoro!”
“Por falar em adorar, você já viu as fotos da pousada onde vamos ficar? Maravilhosa!”
“Vi, o Flávio tirou quando ficou lá o ano passado, uma viagem.”
“E a praia, viu que escândalo?”
“O Flávio mudou muito depois que passou a namorar a Adriana, não acha?”
“É, ele se afastou, mas pudera, ele é um gato, você não faria o mesmo se fosse ela?”
“Não sei, não gosto daquela menina.”
Aquelas vozes altas ficaram abafando qualquer outra possibilidade de conversa entre os passageiros. O problema para nós é que, apesar da superficialidade, eram todas lindíssimas, os corpos torneados por muita academia de ginástica, a pele bronzeada pelo sol de Ipanema e tratada com os melhores produtos disponíveis nas prateleiras das melhores lojas. Com certeza não eram frequentadoras do Nove, burguesas demais para isso. Talvez fossem frequentadoras da praia em frente ao Country Club, onde a galera abonada ia. Mesmo que talvez fossem areia demais para o meu caminhãozinho, pensei comigo que não custava nada tentar.
No dia seguinte, depois da parada para o café da manhã, quando voltaram para seus lugares, a que estava sentada do lado oposto ao meu assento olhou para o meu lado e aproveitei para puxar um assunto.
“E aí? Vocês estão indo para Ajuda também?”
“Não, a gente está indo para Prado, mais ao Sul, é linda! Você conhece?”
Feliz por sentir um sutil desapontamento por a gente estar para um destino diferente continuei. Quem sabe a gente não se esbarrasse depois das férias no Rio?
“Ouvi mararavilhas sobre o Sul da Bahia, mas nunca ouvi falar de Prado. Deve ser muito legal.” Mentira, pelo que tinham me dito era um lugar sem graça, com areia meio estranha e pouca gente de fora.
Já ciente que as amigas estavam antenadas no papo ela falou “Pois é, queria ir pra Ajuda também, mas o ex-namorado da minha amiga ficou numa pousada lá no ano passado e convenceu todo mundo a ir. Não sei como, Ajuda é bem mais legal.”
Desajeitado, tentei dar uma risada madura, “E por que Ajuda é mais legal?”
“O pessoal que vai lá é bem mais interessante, a aldeia é bem mais bonita e além do que, o Gabeira está indo passar o verão lá.”
Aquela notícia me tirou do estado de azaração. “Sério? O Fernando Gabeira, o Rei do Nove, está indo para o Arraial d’Ajuda?” Senti que estava perguntando por um monte de gente ali dentro. “Como é que você sabe?!” soou meio grosso, mas senti que ela curtiu a sensação que tinha causado.
“Minha irmã conhece uma amiga dele. ” ela respondeu com orgulho. “Mas está todo mundo sabendo.”
O Davi se meteu na conversa. “Putz, será que o preço das pousadas vai subir por causa disso?”
A pergunta foi tão cretina que queimou o meu filme por tabela. Foi uma outra que respondeu. “Uma coisa não tem nada a ver como a outra, de qualquer maneira ele vai alugar uma casa lá.”
O único cara do grupo das meninas, desmunhecadíssimo, se levantou e se meteu na conversa com ar de especialista: “A Yara disse que ele está indo primeiro de avião para Salvador e depois vai descer de carro. Ele chega na quinta-feira que vem.”
Aquilo matou o papo, agradeci e, sem ter mais assunto, fiquei em silêncio, ela também.
Na próxima parada, comendo um sanduíche de queijo suado num pão francês duro e bebendo café com leite num copo de vidro brinquei com o Davi.
“Não basta ficar vendo o cara de tanguinha no Nove, vamos ter que engolir ele aqui na Bahia. A culpa é tua, bonitão! Ele está te seguindo!”
As garotas desceram antes de todo mundo, perto de Prado, deixando o ônibus menos florido. Contudo, o efeito da notícia-bomba que largaram seguiu. Mesmo a peonada que só o conhecia da foto entrou na conversa.
“O Gabeira que cês tão falando é aquele homi de tanga na praia?! Iche! Que coisa horrívi!”
Depois que chegamos, descobrimos que dos motoristas de Kombi aos hippies velhos, todos estavam estavam sabendo do visitante ilustre. Não só lá mas no país inteiro. A imprensa tinha uma tradição de dar nomes aos verões. Naquele, quem levou o título foi o ex-demonizado ex-guerrilheiro urbano que depois de ser anistiado tinha se revelado articulado, inteligente e bissexual. Dava um certo orgulho pensar que no auge do verão do Gabeira, o teríamos como vizinho de praia por seis semanas.
*
O ônibus só ia até Porto Seguro, que ficava a poucos quilômetros do Arraial d’Ajuda. Para chegar lá, ainda tinha que pegar uma balsa de madeira tosca que cruzava o largo e lamacento rio Buranhém. De lá, pegariamos uma Kombi/lotação que ia até o nosso destino final.
Quando chegamos na outra margem, parecia que estavamos entrando num outro mundo. Depois que descemos e da balsa ter partido de volta, havia apenas a kombi vazia, mato e silêncio em torno do casebre tornado estação das barcas. O sol estava forte e uma brisa soprava o cheiro do rio misturado com o do mar trazendo consigo o barulho das águas. Ficamos ali pelo menos uma hora esperando pela Kombi que só iria sair depois que todos os lugares estivessem tomados. Era como estivessemos na fronteira da chamada civilização. Nossa companhia eram duas mulas pastando e os dois ou três locais que tinham atravessado conosco sentados olhando para o nada. A balsa que veio a seguir trouxe outros aspirantes a hippie e mais um punhado de locais. O motorista apareceu do nada e com todos os lugares tomados, partimos. A estrada, meio de terra e meio de areia, passava por um mato fechado que abria para uma clareira, que me pareceu um campo de futebol. Logo depois dela subimos um morro e a Kombi parou na praça de terra batida da aldeia.
Já era fim de tarde quando descemos. Não tínhamos lugar para ficar, mas já no caminho um cara de São Paulo que já estava ali a três semanas tinha se oferecido para rachar um quarto naquela noite, já que seus amigos só iam chegar no dia seguinte. Pegamos nossas mochilas e saímos acompanhando ele até a casa. A dona, uma senhora da terra simpática com ar sereno e com cheiro de banho recém tomado, nos deu as boas vindas num sotaque bahiano charmosíssimo. Fomos para o quarto e assim que colocamos as tralhas no chão, agradecemos e saímos par dar uma volta de reconhecimento.
Não havia luz elétrica na aldeia. Nunca tínhamos presenciado um anoitecer assim e ficamos encantados no ato. O fim do dia e a brisa fresca vinda do mar pareciam amalgamar tudo numa coisa só; a vista de praias selvagens que pareciam não ter fim e aquela aldeia encravada no topo do morro.
Não havia carros, asfalto ou lojas propriamente ditas num raio de kilometros. As casas velhas e pequenas eram pintadas com cores vibrantes, fazendo a praça principal e as ruelas a sua volta parecerem uma pintura cubista.
O lado de fora das janelas parecia integrado com a vida acontecendo do outro lado delas. As velas e as lamparinas flamulando nas casas eram bem mais aconchegantes do que as lâmpadas elétricas às quais estávamos acostumados na cidade e cuja agressividade destruiria o zen daquele anoitecer.
*
No dia após nossa chegada, achamos um quarto na área destinada aos visitantes menos endinheirados. Eram cabanas erguidas às pressas em torno de um terreno baldio, logo atrás das construções originais. Seus proprietários eram gente das cidades próximas investindo no futuro da aldeia onde a eletricidade estava programada para chegar possivelmente no ano seguinte. Havia bastante deles começando a perceber o potencial para o turismo do lugar. Alheios a tudo, jumentos, vacas magras e cães de rua pareciam gostar do isolamento dessa parte da vila, talvez porque os veranistas os deixassem em paz.
Conforme fomos conhecendo os moradores do lugar melhor fomos vendo que, tal qual os menos favorecidos nas grandes cidades, tinham dificuldades para colocar comida na mesa. Só que comparados com moradores de favelas, o povo d’Ajuda parecia mais saudável, mais harmonizado às cercanias e em paz com a vida. Já havia sinais de “progresso”. Ao redor da praça tinham aberto um ou dois bares destinados aos visitantes, também pertencentes à pessoas de fora. Mesmo assim, a infraestrutura era básica, não havia água encanada e os preços da hospedagem e da alimentação eram ridiculamente barato.
Na semana seguinte, ficamos sabendo que o Gabeira tinha alugado uma das acomodações caras e isoladas de frente à praia. Apesar de não se misturar conosco, meros mortais, era frequentemente visto com sua tanga fio-dental, às vezes só, às vezes acompanhado por um ou outro seguidor dedicado. Embora vê-lo causasse uma certa comoção, o ex-guerrilheiro-tornado-estrela parecia fazer questão de não interagir com ninguém. Resolvemos ignorá-lo também.
Em contrapartida, depois de alguns dias já éramos amigos – ou pelo menos conhecidos – de todos, tanto os locais quanto os outros visitantes. Nossa rotina diária era divina. Acordávamos no meio da manhã e íamos direto até um restaurante natural para tomarmos um café composto de banana amassada com calda e aveia. Com a barriga cheia e o corpo se sentindo bem do mar e do sol do dia anterior, pegávamos a trilha de areia que levava à praia pelo meio do mato selvagem. Lá, passávamos o resto do dia jogando futebol, frescobol ou vôlei, caminhando pelas praias desertas e conhecendo pessoas novas. Uma das melhores facetas d’Ajuda era que os locais não nos viam como máquinas de sacar dinheiro, mas sim como convidados ilustres e ficavam na sua. Às vezes, um ou outro passava vendendo banana frita, água ou cerveja. Se a gente quisesse comprar com ele, beleza, mas se não, ficava no seu canto curtindo a praia na sombra e apreciando discretamente a beleza generosamente exposta das visitantes da cidade grande.
O sol era tão forte que as poucas nuvens que vinham do oceano eram bem-vindas. Havia pancadas de chuva ocasionais que nunca duravam mais do que quinze minutos. Quando derramavam sua agua, todos na praia corriam para o mar para sentir os pingos doces molharem seus rostos com o resto do corpo protegido pela água salgada, morna e calma.
No fim da tarde, a gente retornava ao vilarejo para se reunir atrás da velha igreja da cidade. O sol se punha devagar no oceano por tras do vale coberto pela mata se transformando em uma gigante bola alaranjada, suas cores colorindo o mar e o céu azul-escuro. Após um dia inteiro de sol forte, o corpo castigado, mas refrescado, pela água salgada recebia com carinho o sopro de ar quase frio do fim de tarde. Às vezes, havia uma roda de capoeira, onde os caras demonstravam suas habilidades enquanto os outros em volta cantavam e batiam palmas ao toque do berimbau.
*
O único lugar com água corrente ficava numa caverna com uma fonte natural cuja existência os vilarinhos atribuíam a um milagre. Na entrada havia uma estátua de Nossa Senhora d’Ajuda em frente da qual os veranistas tinham que esperar sua vez em fila segurando suas toalhas e seus apetrechos de banho. Já o banheiro era o maior do mundo, o mato.
Depois de nos livrarmos do sal grudento nas águas da santa, voltávamos à cabana para colocar um short seco, uma camisa e os chinelos. De lá, com fome, mas nos sentindo ótimos, íamos comer os pratos feitos que as mulheres da aldeia vendiam nas portas de suas casas: peixe frito, arroz, feijão e farinha. Satisfeitos, estávamos animados para as festas improvisadas nos poucos bares e botequins do lugar. Dentro deles, as lamparinas de querosene colocadas nas mesas conferiam uma aura de antiguidade, projetando sombras espessas sobre as paredes e nos clientes. Eu, como vários outros, tinha trazido o violão e nossos sons improvisados eram a trilha sonora que animava as noites. Quem chegava tinha que afinar com quem já estava lá.
“Acho que o Lá não afinou, dá para ouvir de novo? ” Dava uma torcida na ararracha, conferia de novo. “Valeu!”
“Conhece a levada de Frevo Mulher? É fácil, começa assim; em Fá sustenido menor e depois sobe para sol, aí fica num vai e volta e depois desce para mi menor. Entendeu?”
“Acho que sim.”
A percussão não precisava de afinação. “Zinho, a batida é de frevo, tá pronto?”
“Vambora!?”
“Vamo!”
O som começava e a energia entre os tocadores decolava. Não era só frevo, era afoxé, samba, rock, blues, funk e o que mais desse na telha. A gente ficava feliz quando as garotas mais bonitas se levantavam para dançar e isso era a regra. Às vezes, um outro instrumento aparecia do nada com um alguem que tocava muito. Estas novas adições; flautas, saxofones, violões, ou mesmo percussão eram sempre bevindas e faziam com que o som tomasse um rumo especial. Várias sessões terminavam com o povo dançando e cantando músicas que todos haviam criado juntos na hora.
A lua era tão radiante que podíamos descer até a praia como se estivéssemos fazendo uma caminhada à luz do dia. Lá embaixo, a areia clara e brilhante, a espuma branca, o som das ondas e do vento nos uniam à natureza de uma forma intraduzível. O céu limpo, juntamente com a inexistência de luzes elétricas por quilômetros, fazia com que as constelações se destacassem de uma maneira que nunca tinha visto antes. A coisa mais impressionante eram as estrelas cadentes que volta e meia cortavam o firmamento. Sentávamos na areia durante horas, conversando e tocando violão. Quando retornávamos à vila e entravamos de volta nos bares, era como se o calor humano emanando das pessoas lá dentro renovasse a energia colhida na praia.
*
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por Mauro Nadvorny | 5 set, 2020 | Brasil, Direitos Humanos, Opinião
Se hoje a pergunta que não quer calar, dirigida ao presidente Jair Bolsonaro, é: Por que Fabrício Queiroz depositou 89.000 reais na conta de Michelle Bolsonaro, a que pululava nas redes sociais há dois meses era: Onde está Queiroz? A resposta chegou na bucólica manhã do dia 18 de junho, através de uma operação batizada singelamente de “Anjo”. O mistério do paradeiro do policial aposentado, um dos cabeças do esquema de rachadinha do gabinete de Flávio Bolsonaro, do qual foi assessor, foi elucidado.
Como é do conhecimento de todos, o advogado de Flávio e dublê do programa humorístico A praça é nossa, Frederico Wassef, escondeu esse senhor durante um ano numa propriedade sua, em Atibaia, alegando “motivos humanitários”.
O Queiroz ali pego de surpresa em nada lembrava o policial militar conhecido por tocar o terror nas comunidades carentes, a ponto de as ruas ficarem vazias a sua passagem. Estava mais pra tiozão de boteco, daqueles que encostam a barriga no balcão e, entre um gole e outro de cerveja, fala dos saudosos tempos da ditadura. Um entre vários do Brasil.
Enquanto a polícia apreendia os celulares e outros objetos eletrônicos, um detalhe na casa me chamou a atenção. Ao lado de uma faixa exaltando o AI-5, sonho de dez entre dez bolsonaristas, três bonequinhos em miniatura do Tony Montana, o Scarface, ornavam a lareira. Por curiosidade, olhei na internet o preço desse inocente bibelô e concluí que, como os nerds que gastam pequenas fortunas em bonecos de Star Wars e os aficionados nos heróis Marvel que são capazes de vender um rim por um Batman que seja modelo raro de colecionador, Queiroz investiu nesses seus brinquedos, o que mostra a importância que dava ao personagem.
O generoso amigo da família Bolsonaro, aquele que deposita dinheiro na conta da primeira-dama por pura bondade, que paga as escolas das filhas de seu ex-chefe por amor, me revelou duas coisas importantes: Tem como herói esse personagem icônico e tem uma qualidade que deve ser ressaltada: amizade verdadeira se vê ali; meus amigos, quando muito, me pagam um chope. É uma cambada de pão-duro. Olho para a generosidade desse senhor para com seus diletos companheiros e caio na dura realidade: Meus amigos são todos uns fuleiros.
Voltando ao bonequinho de estimação do Queiroz: Scarface é um filme de 1983, roteirizado por Oliver Stone e dirigido por Brian de Palma. O Scarface, interpretado magistralmente por Al Pacino, tem esse apelido por conta de uma marca de navalhada na cara e é mais um dos cubanos que chega aos Estados Unidos em 1980, vindo naquele que ficou conhecido como um dos maiores êxodos migratórios do século XX: O êxodo de Mariel. O evento foi precipitado por uma recessão monstruosa na economia de Cuba, o que levou dez mil cubanos a pedirem asilo político na embaixada peruana. Fidel, num acordo com o então presidente americano Jimmy Carter, anunciou a abertura do porto de Mariel para que cubanos descontentes com o regime fossem viver o sonho americano. Centenas de barcos procedentes de Miami (a organização ficou a cargo dos cubanos exilados após a vitória da Revolução Cubana) ancoraram no porto para levar os insatisfeitos. Durante o período de sete meses (de abril a outubro de 1980), 125 mil cubanos saíram da ilha.
Não estamos falando de qualquer líder de nação, estamos falando de Fidel. Aquele dono de respostas certeiras que, ao ser perguntado por um jornalista argentino se as universitárias de Cuba se prostituíam, respondeu: “Não, as prostitutas de Cuba tem nível universitário”. Querem os cubanos na Flórida? Ok. Ardilosamente, ele despachou, junto aos cidadãos comuns, todos os presos , principalmente aqueles de alta periculosidade, a escória.
O dramático êxodo foi interrompido por Jimmy Carter, pois essa migração em massa teve repercussões inacreditáveis na política doméstica. A criminalidade em Miami cresceu terrivelmente e, com ela, problemas graves ligados à corrupção policial. Esses presos alteraram por completo a chamada “Magic City”. Violência e tráfico pesado de drogas imperavam.
O personagem Tony Montana foi um desses presentes bacanas de Fidel para os EUA. Criminoso comum, passava-se por preso político para conseguir seu lugar na Terra dos Sonhos. Mata sem remorsos, com a luxuosa ajuda de uma serra elétrica, compra uma esposa, roubando-a de outro gângster (Michelle Pfeiffer, lindíssima), constrói uma fortaleza que é um ode à cafonice, monta um império, cheira sem parar. Não vamos julgar Queiroz assim, sem provas. Talvez a admiração pelo personagem (cuja casa é bregaça, mas o terno é de uma estileira que até Álvaro Dias copiou o modelo nos benditos debates de 2018) tenha a ver com o fato de ele representar o imigrante que vence na vida, a tal da meritocracia, e de ser um anticomunista ferrenho. Tony Montana, o empreendedor.
O fato é que as rachadinhas são o mínimo. A proximidade da família Bolsonaro com o fã de Scarface remonta há mais de três décadas e vai muito além da relação profissional. Na realidade, ele era amigo mesmo do nosso presida. A ligação íntima entre Queiroz e o Capitão Adriano, morto na Bahia, também era a mais pura broderagem. Se existe alguma dúvida que a família de ogros é miliciana – tem gente que acha que são meros simpatizantes (não é mistério que o mandatário sempre elogiou a milícia e quis legalizá-la, como uma forma de segurança pública; talvez para ter uma SA pra chamar de sua) – lembrem que o finado Capitão Adriano, CEO do Escritório do Crime, e Queiroz eram amigos de fé irmãos camaradas, tendo inclusive trabalhado no mesmo batalhão. Fabrício, com seu coração generoso, também ofereceu emprego para a sogra e para a ex-mulher do capitão miliciano no gabinete do 01 (a.k.a. Flavio Bolsonaro).
Foi pensando nesse lupanar que o Brasil se transformou (sem querer ofender as prostitutas, visto que qualquer puteiro é mais organizado que isso aqui) que me veio uma rememoração. Se você assistiu o horário eleitoral gratuito com apenas os retratinhos dos candidatos na TV, se enchia o baldinho de tatuí na praia, se usava o merthiolate que ardia de fazer chorar e se foi malandro o suficiente para não sufocar e morrer com uma bala soft, deve lembrar do que vou falar.
Meu pai comprava diariamente o jornal O Globo (para ver mentiras escancaradas: detalhe, o jornaleiro escondia O Pasquim dentro do jornal dos Marinho, para ficar acima de qualquer suspeita.), o Jornal do Brasil e O Dia. Esse último com uma pegada bem popular. Quando falo popular, faço uma ressalva. O Dia era enfeitado por fotos de pessoas que não faziam mais parte do nosso convívio e de como elas se retiraram, ou melhor, foram retiradas, do evento vida. Sim, também sou dada a eufemismos.
Claro que eu não tinha permissão para ler nada que fosse além das tirinhas de Charles Brown e seus amiguinhos. Meus pais liam os três jornais para buscar nas entrelinhas o que acontecia. Vivíamos sob forte censura. Ao folhearem O Dia porém, as palavras sempre, sempre, sempre proferidas pelos dois eram: ”Foi o Esquadrão da Morte”. Não sabia o que era, por quem era formado e, aos 7 anos, esse termo parecia quase uma entidade. Meu pai, numa daquelas maravilhosas aulas de educação infantil, certo dia mostrou o adesivo do carro na frente do nosso e disse: “Olha o Esquadrão da Morte aí”. Ver uma caveira e abaixo duas tíbias cruzadas foi o suficiente para gelar a alma. Após ver o símbolo, entendi sem saber que entendia.
O espírito da desobediência, porém, sempre habitou em mim. Esperava meu pai sair para futucar o Pasquim, não entendia nada, mas gostava dos desenhos do Henfil, mesmo que não soubesse o que era sarcasmo. O JB e o Globo não me interessavam, só as tirinhas. Mas a minha curiosidade mórbida me levava ao Dia. Ali, olhando a criatividade em prol da morte, cheguei a uma conclusão rodriguiana: de que a solidão nasce da convivência humana. O Dia era jornalismo popular, noticiava o que acontecia na periferia, na Baixada Fluminense. Morte de pretos, pobres, periféricos. Pessoas retalhadas, decepadas, muitos tiros na cara.
Quem fala que na ditadura militar não houve violência urbana, ou é jovem demais e repete o que ouve sem refletir ou não passa de um velho canalha. A partir do final da década de 1950, no Rio de Janeiro, ou melhor, nos grandes centros urbanos, começam os acirramentos de problemas devidos às contradições sociais, políticas, econômicas, tendo as cidades como uma de suas vitrines. Consequência direta da urbanização do país.
Nesse contexto, surge a Scuderie Le Cocq (embrião do Esquadrão da Morte). A primeira vítima foi o bandido Cara de Cavalo, em 1964. Sua história obedece a de tantos outros excluídos. Morador da Favela do Esqueleto, iniciou a vida criminosa vendendo maconha ainda criança. Isso faria a alegria de Bolsonaro, que vive enaltecendo o trabalho infantil. Com o tempo, tornou-se cafetão e se ligou ao jogo do bicho. O papel que tomou para si era achacar os pontos dos jogos, digamos, um trabalho quase suicida. Diante do abuso, um bicheiro procurou o detetive Le Cocq, ex-integrante da Guarda de Getúlio e primo do brigadeiro Eduardo Gomes. Le Cocq organizou um grupo clandestino de policiais para caçar o criminoso. A emboscada a Cara de Cavalo não deu certo, e o bandido acabou por matar a tiros o policial.
De bandidinho pé de chinelo, Cara de Cavalo passou a ser o criminoso mais procurado do Rio de Janeiro. Dois mil policiais em quatro estados foram à sua casa. Um mês depois foi encontrado, e o que se seguiu foi uma execução sumária, comandada pela turma da pesada. Foram mais de cem disparos. Enquanto os tiros eram dados, os algozes chupavam pirulito.
Cara de Cavalo (que recebeu homenagem póstuma do artista plástico Hélo Oiticica), foi o primeiro de muitos. A Scuderie Le Cocq tornou-se praticamente uma instituição. Recebeu o apoio extraoficial do governador do estado, Francisco Negrão de Lima, e o secretário de Segurança do Rio, Luis França, escolheu a dedo doze homens com o intuito de “promover uma faxina”, eufemismo para execuções sumárias de ladrões de carro, de táxi, assassinos, assaltantes e afins. Eram “Os Doze Homens de Ouro da Polícia Civil ”. Paralelo a polícia militar, esse esquadrão contava com financiamento de empresários e bicheiros e tinha a simpatia total do regime vigente. Com essa brigada paramilitar, novos tempos se anunciavam. Corpos de marginais torturados e mutilados começaram a pulular pelo Rio de Janeiro, com frequência com marcas de algemas, sem que houvesse o menor indício de que tivessem esboçado alguma reação. O presidente de honra era o jornalista David Nasser, de triste memória, notório apoiador da ditadura. José Gulherme Godinho, o Sivuca, eleito deputado estadual do Rio de Janeiro em 1990, pelo PSC, com o slogan Bandido Bom é Bandido Morto (Bozo que não cita os créditos né?), era um dos líderes mais atuantes. Esse chavão era o lema dos grupos de extermínio e, que surpresa, é uma das expressões preferidas do atual presidente da República.
A história só se repete como farsa, ou a farsa se repete como história, não importa. O fato é que o esquadrão e seus membros, assim como suas táticas dantescas de combate ao crime, recebiam apoio de boa parte da população. Esse é o momento em que temos a resposta para aquela pergunta: “De onde surgiram esses fascistas?”. Sempre existiram. Eis a prova.
A Scuderie Le Cocq (as letras E e M estavam no brasão e queriam dizer “esquadrão motorizado”, ao qual o detetive pertencia) chegou a comportar sete mil membros! Tendo sua origem na polícia, foi fundada no discurso moralista de defesa dos valores da sociedade, contra os elementos indesejáveis e a manutenção da ordem pública. Era apoiada pelo Exército e pela polícia, e seus membros eram considerados heróis. Desde o início, porém, estava ligada a corrupção, venda de proteção a traficantes, associação a grupos criminosos e ao jogo do bicho, prostituição, roubo de carros, furtos, tóxicos além de, obviamente, participação na repressão militar,
Um de seus integrantes permanece muito vivo na minha memória. Era praticamente um bandido celebridade, o famoso Mariel Mariscot. Mariel ingressou aos 17 anos na Divisão Aeroterrestre como paraquedista. Por meio de concurso público, foi ser salva-vidas no Corpo Marítimo de Salvamento. Seu maior desejo era sair de Bangu e morar em Copacabana, o que conseguiu alugando um pequeno apartamento no bairro. Mariscot sonhava com o glamour e tinha o firme propósito de se tornar rico. Foi leão de chácara de inferninho, segurança particular, passou para a Polícia Civil. Matou pela primeira vez um assaltante em flagrante e quando recebeu voz de prisão de um delegado pelo homicídio, rendeu-o com uma 45. Foi aí que recebeu o nome que o acompanharia pela vida “Ringo de Copacabana”.
A partir daí construiu sua trajetória de prisão de bandidos famosos. Boêmio, frequentador da noite, com fama de bonitão, Mariel arrebatou corações cobiçados, como o da atriz Darlene Glória, musa do cinema nacional, com quem teve um filho; a atriz em ascensão Elsa Castro; e a modelo e símbolo sexual Rosi de Primo. Teve também um tórrido romance com a travesti da família brasileira, a inigualável Rogéria. Sempre metido em falcatruas, acabou sendo preso e fugiu da cadeia com a ajuda da sua então esposa Elsa, indo passar um tempo no exterior. Conseguiu o inacreditável na década de 1970: ser expulso da Scuderie Le Cocq por mau comportamento. Mesmo perseguido, aparecia em estádios de futebol com jogos televisionados, ia a boates, se dava com celebridades da época, enfim…
Conseguiu redução de pena e, enquanto ficava albergado num presidio em Niterói, durante o dia trabalhava com o juiz Francisco Horta na Vara de Execuções Penais. Metido com jogo de bicho, Mariel ansiava chegar um dia à cúpula. Em outubro de 1981, ao sair do trabalho, dirigiu-se a uma reunião na fortaleza do contraventor Raul Capitão, onde se encontravam trinta bicheiros. Não chegou lá. Foi alvejado no caminho por oito tiros dentro do seu carro, nas imediações da Praça Mauá. O juiz Horta, seu protetor (e eterno presidente do Fluminense Futebol Clube), ao saber de sua morte, rezou um Pai Nosso com todos os membros do Conselho Carcerário e proferiu: “Foi assassinado aquele que, talvez, foi o maior policial que o Rio de Janeiro conheceu. Era um sacerdote”. Em entrevista posterior, comparou a emboscada que Mariel sofreu ao atentado vivido pelo Papa João Paulo II, na mesma época. Seu enterro foi acompanhado por muitas pessoas, policiais choravam, e eu, menina de dez anos, assistia a tudo pela televisão.
O Esquadrão da Morte teve sua gênese no militarismo truculento de 1964, ódio aos direitos humanos, promoção da cultura de execução primária. Consentimento do Estado, financiamento empresarial, matadores profissionais (fardados ou não), ingredientes que se amalgamaram nos Anos de Chumbo e que renderam frutos. O que é a milícia de hoje senão um esquadrão da morte aprimorado? Nenhuma semelhança é mera coincidência.
Em 2000, a Scuderie foi extinta. Voltou timidamente em 2015, com o nome (não riam, por favor): Associação Filantrópica Scuderie Detetive Le Cocq. Em 2018 eles estavam panfletando para o candidato deles. Possuem página na internet em que tratam o golpe de 64 como Revolução, e os matadores de Lamarca e afins como heróis. Roni Lessa, o assassino de Marielle, é membro de honra. Poderia ser apenas um fim melancólico. Infelizmente, é o recomeço de tudo.