O ciclo da danação eterna

O ciclo da danação eterna

Uma das características marcantes do fascismo e suas recorrências é a uniformidade da estrutura de pensamento de seus líderes e praticantes, marcadamente infiltrada pelo pensamento religioso que se sedimenta no formato de crenças, dogmas e pressupostos sofismáticos e inquestionáveis à luz da razão. Razão, aliás, nascida sim de uma ideologia refletida pelo iluminismo clássico, que no século XVIII ganha o ocidente com a meta de transformar governos absolutistas em democracias, e que, para tanto, tem a necessidade de propor uma nova visão de mundo baseada na liberdade de pensamento, de busca da verdade, do compartilhamento de conhecimento, e de métodos de estabelecimento de verdades desprovidas de personalismos e desejos primitivos, do reconhecimento da igualdade entre os seres e por metas de progresso visando a proteção de todos os cidadãos dos estados-nação.
É muito claro que a compreensão de um mundo de complexidades com vistas ao sacrifício dos desejos e visões pessoais e a formulação de objetivos e métodos que nem sempre (ou quase nunca) serão direcionados aos caprichos do indivíduo depende de um sistema de educação e formação de indivíduos que possa resumir em uma existência – ou melhor, em um período de uma existência – todo o complexo conjunto de acontecimentos transcontinentais que precederam e fomentaram o movimento iluminista.
No cume do processo de transformação iluminista está a ciência, que através de dois ou mais séculos veio conquistando lentamente a confiança de partes da sociedade como fonte de verdades “democráticas”, ou seja, verdades “testáveis” e verificáveis por qualquer um que possa reproduzir um dado experimento nas mesmas condições e assim obter os mesmos resultados.
Como nada é perfeito, as sociedades pós-iluministas cresceram e multiplicaram-se muitas vezes com heranças culturais e físicas dos regimes anteriores. Muitas delas, mormente no oriente médio e oriente sequer fizeram uma transição entre o tribalismo e algo parecido com o medievalismo, e assim, jamais enfrentaram estas questões em um processo de formação de sociedades complexas e eventualmente transnacionais, onde a noção e existência de um estado gestor da nação seria o eixo desse desenvolvimento e diversificação dessas sociedades. Não surpreende, portanto, que essas sociedades hoje em choque cultural com os estados pós-iluministas sejam tomadas por práticas e líderes religiosas vistas pelo ocidente como radicais e fanáticas, mas que curiosamente têm, nos estados-nação ocidentais, visto o renascimento dessa estrutura de pensamento e poder ressurgindo no âmago da sociedade. No caso particular do Brasil, a tomada do poder pelo pensamento religioso é um grave sintoma da desorganização da sociedade obtida pela contínua quebra dos laços de confiança que deveriam nos unir. Esta quebra, por sua vez, alimentada pela contínua frustração gerada pelas desigualdades crescentes em ritmo alucinado e que têm como trágica consequência o progressivo desgaste e desorganização dos sistemas de educação, refletidos em números vergonhosos.
Fechando macabramente esse ciclo, o número de pessoas incapazes de compreender e de se engajar em uma sociedade complexa, verdadeiramente livre, e psicologicamente capaz de converter um certo número de frustrações em modos de ação articulada capaz de induzir transformações sociais progressivamente diminui, e em contrapartida, aumenta o número das que, pelas vulnerabilidades psicossociais e culturais, formam a massa crítica necessária para que as tentações simplificadoras e salvacionistas do fascismo ganhem força, o que tragicamente, e frequentemente, é alimentado pelas grandes mídias e hoje ainda alavancadas pelas redes sociais.
Por este olhar, fica muito claro que a desigualdade é um pathos em si mesmo, no sentido de que a se julgar pelos acontecimentos mundiais das últimas décadas, verifica-se que é uma condição que cria um círculo vicioso que só piora a condição em si mesma, gerando mais concentração de poder político, econômico, e poder de fato.
Felizmente, e espero que não temporariamente, no caso do Brasil a opinião pública revelada nas pesquisas recentemente publicadas vem apresentando forte reação no sentido de rejeitar o sistema político ora no poder, e valoriza um sistema que previamente trabalhou no sentido contrário do atual, mas ainda assim, mostra fragilidades na habilidade de “ligar os pontos” dessa complexa teia de acontecimentos, poderes, mídia e pessoas, e assim elaborar um projeto político que nos vacine de uma vez por todas contra o fascismo e suas mil caras, e que reabilite o ciclo virtuoso de fortalecimento de laços sociais e de confiança.
Do contrário, teremos o ciclo da eterna danação.

A Casa Grande julga como classe social

A Casa Grande julga como classe social

Esta semana, uma mulher de 41 anos, mãe de 5 filhos foi presa pelo furto de mantimentos no valor de R$ 24,69. O pedido de liberdade foi negado duas vezes pela justiça.

No pedido de liberdade, os defensores públicos usaram do princípio de insignificância, um entendimento do STF desde 2004. Três desembargadores negaram o pedido de Habeas Corpus.

Segundo o desembargador Júlio Caio Farto Sales, “Vale dizer, a inexpressividade econômica da lesão ao bem jurídico não pode, por si só, ser invocada para a aplicação indiscriminada do princípio, como verdadeiro beneplácito aos ladravazes que, diante de tamanha impunidade, sentir-se-iam ainda mais motivados à prática reiterada de crimes, tal como ocorre no caso concreto”. Em tradução livre, seria mais ou menos isso: mesmo sendo um valor insignificante, não se pode aplicar este princípio porque seria dar razão aos ladrões que diante de tamanha impunidade, se sentiriam a vontade para continuar roubando.

Os desembargadores acreditam que a decisão de libertar uma mulher pelo furto de cerca de vinte e cinco reais em mantimentos receberia uma divulgação de tamanha magnitude, que massas de ladrões se sentiriam a vontade para tal prática e o fariam de imediato invadindo negócios para tal prática. Em resumo, lugar de pobre e faminto é na cadeia.

Quem for no Google e procurar por casos similares vai encontrar vários casos similares e as decisões são praticamente um copia e cola nesta corte. O entendimento pacificado, ou seja, não tem mais o que se falar, é de que não importa o valor, importa a intenção e a prática do crime, ponto final.

Para o crime de estelionato, obter vantagem ilícita em prejuízo alheio, o Código Penal prevê pena de reclusão de um a cinco anos, e multa. Se o crime for cometido contra pessoa idosa, aplica-se o dobro da pena. Neste caso, não importa se o cara roubar bilhões em uma pirâmide financeira. Se não envolver idosos, vai pegar no máximo cinco anos de reclusão e vai pagar uma multa. Ao sair, vai usufruir do que arrecadou.

Vale aqui recordar o assassinato da jornalista Sandra Gomide. Seu assassino, réu confesso, o também jornalista Antonio Marcos Pimenta no ano 2000 é um exemplo ímpar de como se julga um pobre e um rico no Brasil. Preso somente em 2011, cinco anos depois já estava no regime semiaberto.

Pelo visto, quando um rico e famoso assassina alguém, não é necessário decretar sua prisão provisória, tampouco dar um exemplo para a sociedade afim de que as massas de assassinos ricos e famosos, não saiam as ruas para matar.

Hoje no Brasil, cerca de 20% da população carcerária é de cidadãos que pagam por crimes que não cometeram. Um exemplo que presenciei em uma visita a um presídio no Rio de Janeiro anos atrás mostra o significado do preconceito judicial no Brasil.

Estávamos sentados, eu e o diretor quando um preso que prestava serviços no gabinete dele entrou e nos serviu café. Quando ele se foi, o diretor me contou quem ele era. Um gaúcho do interior de vinte e poucos anos que havia deixado a sua cidade para vir morar no Rio de Janeiro devido ao preconceito contra gays onde vivia. Passado uns meses, um amigo telefonou e disse que vinha para a cidade, se poderia pousar na sua casa. Claro que sim, disse ele, podes vir.

Ao chegar no Rio, o amigo telefonou dizendo que estava a caminho. Ao chegar, deixou sua bolsa de viagem e desceu para comprar cigarros. O que ele não sabia é vinha sendo seguido pela polícia que o deteve, arrombaram a porta do apartamento e encontraram drogas na bagagem que ali havia recém sido deixada.

Para resumir, o jovem pegou 11 anos de cadeia. Como havia estudado, ajudava outros presos em petições a justiça e trabalhava no gabinete do diretor. Todos na cadeia sabiam que ele era inocente, que não tinha envolvimento com drogas e não fazia ideia do que seu amigo transportava na bagagem. Nada adiantou, incapaz de contratar um bom advogado, foi preso, julgado e condenado.

Em dezembro de 2013 um helicóptero da família Perella foi flagrado com 450 quilos de cocaína no Espírito Santo. O culpado foi do piloto que fez uso da aeronave para transportar a droga. Quanto aos Perella, seguem livres, leves e soltos.

Poderia ainda falar das malas de dinheiro do Geddel, mas já seria chover no molhado.

 

 

O bolsonarismo é um tóxico

A mente humana (e talvez não só a humana) pode funcionar como uma verdadeira caixa de ressonância, onde qualquer “onda” pode provocar um colapso. Talvez o exemplo mais claro e simples é a convulsão, onde uma sequência de disparos anormais de pequenos agrupamentos neuronais se propagam, sob o ponto de vista de uma abordagem da mecânica ondulatória, como um processo que reverbera em vizinhanças cada vez mais largas a ponto de que as ondas de impulsos neuronais (referidos grosseiramente como “ondas elétricas”) ganham sucessiva e rapidamente os territórios cerebrais a ponto de suprimir a consciência e provocar uma certa ressonância no corpo inteiro da vítma, levando-a à perda de consciência e aos movimentos tônico-clônicos conhecidos. Como tudo em função neuronal se traduz em “ondas” de despolarização/repolarização que se propagam por circuitos que tem regulagens químicas ponto a ponto (nas sinapses, que são pontos de comunicação entre os neurônios), a função de determinados circuitos pode ser modulada por agentes químicos. Assim, conseguimos com medicamentos modular certas funções neuronais, para por exemplo, “quebrar” as vias de ressonância ou reverberação, impedindo assim, que algo se propague para todo o cérebro, e eventualmente, também estabilizando a função de grupos neuronais “rebeldes”, que geralmente assim o são por pequenas mutações genéticas que afetam a função de bombas e canais de íons (de sódio, potássio, cálcio) nas respectivas membranas celulares.

Substâncias químicas outras podem também induzir alterações de função neuronal/cerebral produzindo sensações de prazer e recompensa e também alterações de consciência (muitas vezes descritas como “expansões”) e que produzem na pessoa compreensões da realidade que normalmente não são atingidas no estado “natural” ou na ausência dessas substâncias. Ocorre que o uso repetitivo de certas substâncias pode (como o álcool, opiáceos, e mesmo certos medicamentos) induzir fenômenos de tolerância e dependência, de modo que as doses necessárias para a obtenção do efeito aumentam progressivamente e estabelece-se um círculo vicioso que causa intenso mal-estar no estado de abstinência da substância, que pode ter consequências fatais.

O conhecimento atual das funções da mente (entendendo “mente” como o “produto” da função cerebral) permite-nos afirmar com segurança que o caminho reverso existe. Ou seja, se usarmos como “entrada” no cérebro apenas certos conjuntos de idéias ou vivências repetitivas e de forma consistente, o sistema progressivamente incorpora modos de função que se refletem fisicamente em modulações químicas e formação de circuitos funcionais que passam a ser uma representação física de uma experiência meramente abstrata. Assim podemos compreender a razão de certos comportamentos que as pessoas tem, e com grande frequência os que vivem sofrimentos mentais ou psíquicos, de se desfazerem de idéias e comportamentos “ressonantes” ou repetitivos em suas vidas, nos mais variados graus de complexidade e peculiaridades individuais. Se por um lado a teoria psicanalítica nos fornece bons substratos para o entendimento da gênese de certas emoções e comportamentos, a ação química sobre o cérebro, modulando a função de certos circuitos pode aliviar muitos sofrimentos e abrir o caminho para o estabelecimento de novos padrões e diminuição da dor psíquica.

Saindo do mundo do indivíduo podemos teorizar e verificar, com as devidas metodologias ao alcance da psicologia das massas e da sociologia, que as ideias circulam na sociedade de forma semelhante à função neuronal em um cérebro. Talvez o exemplo mais clássico seja a presença das “modas”, que são hábitos e práticas que muitas vezes ganham a sociedade de forma verdadeiramente epidêmica e se propagam como uma onda convulsiva, seja por uma simples expressão de linguagem até uma forma de vestimenta ou hábito alimentar, formando um conjunto de mudanças de comportamento coletivo movidas basicamente por desejos individuais que se manifestam coletivamente em um determinado espaço físico e de tempo.

Todos os coletivos humanos (e talvez a maior parte dos não humanos) subsistem por graça das relações de confiança, que fortalecem permanentemente o sentido de que a grande maioria dos membros do grupo têm objetivos comuns e comunicam-se por símbolos (linguagem) aceita e compreendida por uma expressiva maioria. Mas, vez por outra, a história nos ensina, as sociedades chegam a um certo nível de evolução onde um dado conjunto de sofrimentos psíquicos representados por sensações de insegurança, desconfiança, incompletude, podendo evoluir para ideações paranóides, passam a afetar um número progressivo de indivíduos até a formação de uma massa crítica, que funciona como caixa de ressonância e reverberação, a ponto de causar uma verdadeira convulsão social, que dependendo de sua extensão, pode inflingir danos consideráveis a um dado agrupamento.

O Bolsonarismo emerge na sociedade brasileira como uma verdadeira droga capaz de produzir alívio temporário de diversos sofrimentos psíquicos para seus autores, que pelas mais variadas razões não desfrutam de uma conexão confortável com a sociedade. Sua fórmula segue princípios gerais sempre presentes no fenômeno político descrito como fascismo, através de simplificações, personalizações (que exploram os mitos mais regressivos), negações, exclusões, e principalmente, a destruição dos círculos de confiança coletivos para que possa se impor o autoritarismo e uma dada visão de mundo.

Não seria exagero dizer que o bolsonarismo funciona como remédio para seus praticantes assim como certas drogas “ilícitas” o fazem. Já é bem conhecido pela prática psiquiátrica que os dependentes químicos são em sua maioria pessoas que encontraram substâncias químicas antes do psicólogo, do psicanalista ou do médico. Como já vimos acima, ideias em ressonância podem expandir e suprimir consciências, sejam agradáveis ou não. As práticas místicas e religiosas, ainda quando desprovidas de estímulos químicos tradicionais de certas culturas, produzem algum alívio e bem-estar.

Também não seria exagero afirmar pelo que conhecemos sobre os bolsonaristas praticantes, que o bolsonarismo vai além da figura patética de um ignorante e brutal frustrado crônico. Nos últimos anos pudemos observar sem dificuldades a impermeabilidade e a estanquicidade do pensamento desses grupos e de uma extraordinária uniformidade de seus formatos de pensamento, que se fossem traduzidos para um programa executável em computadores não requeresse talvez mais que meia página de código.

Mas, como também já pudemos observar, o bolsonarismo tem um potencial destrutivo para a nossa sociedade talvez inferior apenas ao álcool, funcionalmente e epidemiologicamente enquanto efeito tóxico, indutor de dependência, de violência, destruição e morte, e daí, a sua devida classificação como tóxico, se enxergarmos a sociedade como um organismo vivo em suas relações intrínsecas e extrínsecas.

É claro que sociedades doentes, da mesma forma que indivíduos doentes, são propensos a procurar e eventualmente encontrar soluções rápidas e simples para os seus sofrimentos. O bolsonarismo representa assim, na minha visão, a propagação de uma grande onda de ideias capazes de aliviar sofrimentos de indivíduos dispersos na sociedade e que com grande auxílio da tecnologia e sua rapidez de comunicação despertou com grande velocidade os desejos mais regressivos e primários dessas pessoas, que ora nos ameaçam e aprofundam nossas doenças crônicas enquanto sociedade. E até a chegada de algum “remédio” ou “tratamento”, funcionará como um verdadeiro “crack”. Quem já tratou um dependente de crack sabe do que falo.

Garanta sua vaga na faculdade: mate o japonês que senta a seu lado

Garanta sua vaga na faculdade: mate o japonês que senta a seu lado

Vi esta inscrição algumas vezes, em portas de banheiros de dois cursinhos pré-vestibulares diferentes, em 1977 e 1978. Na face interna da porta e à altura de quem estava sentado, certamente fazia parte do que melhor seus autores conseguiam produzir, em lugar apropriado para excreções e excrescências.  Esta frase ficou registrada em minha memória, e voltou à tona nestes últimos tempos. Brincadeira com fundo elogioso para a competência de muitos orientais (“japoneses”) nos vestibulares? Demonstração potencialmente perigosa de inveja assassina? Ambos?

Vivíamos sob a ditadura, ainda sob o tacão do AI-5, com abertura incipiente sob ameaça da linha dura do exército. Ainda “falando de lado e olhando pro chão” (Chico), pichações e inscrições feitas às escondidas eram formas de expressão frequentes. No Brasil onde o mito da democracia racial era cantado em verso e prosa pela ditadura de modo imperativo, manifestações de intolerância contra minorias eram abafadas. Falava-se de lado do “japonês do Geisel”, o ministro das Minas e Energia Shigeaki Ueki, depositário de preconceitos contra esta minoria. O ministro seguinte da mesma pasta, César Cals, foi questionado por constar em relatório secreto que vazou de seu ministério em 1980, que “setores da comunidade judaica” faziam parte daqueles que orquestravam uma suposta campanha contra o programa nuclear brasileiro. É claro que a imprensa (sempre ela) também foi acusada pelo complô, mas tudo isso era rapidamente abafado naquele Brasil-país-do-futuro. Parafraseando o general-presidente Figueiredo, “quem negar que somos uma democracia racial, eu prendo e arrebento!”

Na esteira destas recordações, vieram outras. Em 1978, quando o professor de História do cursinho falou na política genocida de Hitler, um colega coreano se vira para mim e diz: “se Hitler fez isso com os judeus, é porque alguma coisa eles fizeram”. Retruquei com a mesma violência: “e se o Japão fez o que fez com os coreanos durante a guerra, é porque alguma coisa eles fizeram. É isso?” No ano seguinte, um colega de turma da faculdade, também coreano, quando soube que eu era judeu, abriu um sorriso e falou de sua admiração pelo povo judeu: “90% dos Prêmios Nobel vão para os judeus!” Apenas sorri, sem contestar sua falsa estatística, inflada às alturas. Com pouca diferença de tempo e vindo de duas pessoas do mesmo extrato minoritário e faixa etária, duas falas distintas que se unem pelo preconceito para com outra minoria. Da culpabilização das vítimas à idealização fantasiosa, são faces opostas da mesma moeda. Como não lembrar de Martinho Lutero? Ao iniciar sua Reforma, tinha opinião positiva sobre os judeus. Em “Que Cristo Nasceu Judeu”, disse que, se os judeus ainda não aceitaram Cristo como messias, é porque a Igreja Católica sempre os maltratou e excluiu. Com o tempo, ao constatar que os judeus preferiam continuar como judeus e não adeririam à sua igreja reformada, virou um antissemita furibundo. Textos dele como “Os Judeus e suas Mentiras” foram citações constantes nas campanhas nazistas. Eis um bom exemplo de como, a depender da época e das circunstâncias, o preconceito inicialmente positivo muda de sinal, com consequências funestas. O ódio pode vir embrulhado em belas embalagens. Quando abertas, pode ser tarde.

Ódio este que, com o governo Bolsonaro, saiu do armário. E saiu orgulhoso de sua ignorância e macheza, com armas à mão e munição de sobra, estimulados e acobertados por um sociopata que usa e abusa do discurso violento contra todos que se opõem a ele. Basta abrir os jornais e ver a quantidade de negros, indígenas, transexuais e mulheres que morrem quase todo dia de modo violento, além das ameaças constantes a seus desafetos. Este é o clima. Com a pandemia, veio também o preconceito contra orientais, acusados de disseminar o “vírus chinês” e lucrar com sua “vachina”, discurso de Trump, ídolo confesso de Bolsonaro. O capitão não inventou o racismo e a misoginia, mas joga lenha na fogueira da intolerância quase todo dia. Triste constatar também que tem judeus que ainda se iludem com a face oposta da moeda do preconceito com que o capitão joga. O Bolsonaro “amigo dos judeus”, que empunha a bandeira de um Israel superior, criação de delírios religiosos, é tão sincero quanto o recente “amigo dos índios”, cocar à cabeça, ao lado de índios recrutados para a pantomima. Ainda não perceberam que os únicos amigos de Bolsonaro são seus filhos, e que os aliados de hoje podem ser descartados a qualquer hora. Quanto aos judeus que se sentem lisonjeados pela “amizade” do capitão, certamente inflariam o peito de orgulho com os “90% de Prêmios Nobel” de meu colega de faculdade. Não aprenderam a lição da História, a melhor das professoras, de que vestir a fantasia de Povo Eleito pode, em outras épocas, elegê-los para o pior dos mundos.

Para finalizar, volto às privadas e suas descargas de ódio. Aquelas inscrições sugerem uma meritocracia às avessas, que dispensa esforço: vence quem elimina seu concorrente, literalmente. Hoje, teriam que eliminar também cotistas, algo que só alimenta seu ódio aos diferentes. Cotistas que, aliás, se saem muito bem ao final dos cursos, na comparação com seus colegas não cotistas. Na era das redes sociais, nunca foi tão fácil culpar os diferentes pelas próprias dificuldades, algo bem menos trabalhoso do que, por exemplo, participar da luta pela defesa do ensino público gratuito. O ódio está ao alcance dos dedos. Nas mãos de populistas como Bolsonaro, o ódio é combustível para se manter no poder, ao culpar os bodes expiatórios da ocasião pela própria incompetência. Estejamos atentos para o ódio, em suas mais diversas embalagens e disfarces.

Uma síndrome reveladora

Tenho descrito os fenômenos primários e secundários da pandemia da COVID-19 como uma verdadeira síndrome. Chamamos de síndrome quando um determinado conjunto consistente de sinais e sintomas se apresenta não tendo necessariamente as mesmas causas. A má resposta à pandemia em muitos países ou regiões, embora com os mesmos resultados catastróficos, pode ter raízes variáveis, desde as condições puramente biológicas determinadas por questões geográficas, demográficas, etnográficas, até aquelas que dependem unicamente da ação política de governos. Entretanto, vejo como participante obrigatório, ainda que em níveis diferentes de intensidade, o fator educação.

O que temos visto em diversas sociedades (que de algumas jamais se esperaria isto), é que a vulnerabilidade que populações inteiras tiveram aos fenômenos biológicos e políticos da pandemia foi determinada certamente por verdadeiros abismos desconhecidos nos processos educacionais, no que se inclui a educação médica, infelizmente. Sem estas imensas e profundas falhas na formação dos indivíduos, jamais haveria massa crítica ou caixas de ressonância para o volume de desinformação, na maioria das vezes, criminosa, que levou a perdas vultosas de vidas e tantos prejuízos aos sobreviventes, seus próximos, e à sociedade.

Um dos aspectos mais trágicos é o que se verificou consistentemente por estudos robustos, que encontraram uma correlação linear entre o perfil político de cidades ou regiões e o grau de acometimento fatal e não fatal pela COVID-19. Quanto maior a proporção de votantes no presidente Bolsonaro, maior a incidência e número de mortes, sendo a relação inversa também verificada com clareza.

Estima-se que no Brasil, só no ano de 2020 foram demandados 524 bilhões de reais em custos diretos relacionados à pandemia, número que certamente se repetirá em 2021 com viés de alta. Este número é talvez superior a todo o orçamento da educação de um ano no país.

Será uma tarefa vultosa a dos cientistas sociais, pedagogos, historiadores, jornalistas, filósofos e agentes políticos a de esmiuçar com voracidade o volume de dados e informações sobre este período sindrômico que vivemos, pois a próxima pandemia ou o próximo evento planetário está a caminho, é uma questão de tempo. A geração dos mais jovens e as que virão devem ser providos de vastas doses de novas “vacinas”, estas formadas por uma nova educação que tenha a competência de pelo menos reduzir significativamente a vulnerabilidade intelectual das populações aos embustes produzidos massivamente pelas mídias, por um lado, e por sistemas políticos perversos por outro lado, sob pena de perpetuarmos esses ciclos patológicos que geraram o nazifascismo, que retornaram na década de 1980 com o neoliberalismo, e que pavimentaram a eclosão desse sistema tão destrutivo que nos assola cruelmente no momento.

Janaína e Lindora: a psicopatologia da arquitetura da destruição

Há um fenômeno curioso, descrito no jargão médico como a “lei de Velpeau”, e na visão junguiana como “sincronicidade”, onde coisas de características muito semelhantes e incomuns ocorrem aos pares, ou em trios. Entre ontem e hoje, um claro exemplo deste fenômeno se abateu sobre o Brasil, curiosamente vindo de duas juristas e tratando de coisas distintas mas que compartilham o fundo comum do discurso disruptivo, aquele que se destina a corromper os alicerces das comunicações e dos significados que sustentam a substância abstrata da civilização.

E do que é feita essa substância? Basicamente, do conjunto de relações de confiança. Explico. Quantas vezes você leu ou soube de alguém que observou a queda de uma maçã de sua árvore e iniciou um conjunto de experiências, medidas e formulações teóricas para que se entendesse o fenômeno da queda e as leis da física universal que a determinam? Sabemos apenas de dois episódios, o clássico de Isaac Newton e a vultosa revisão de Einstein, que embora tenha rompido radicalmente com seu antecessor em suas formulações, não causou mudanças práticas nas dimensões em que habitamos como humanos. Em outras palavras, a teoria da gravitação de Newton continua a ser usada na prática do dia a dia, por que é simples e atende às necessidades mundanas.

Assim, ainda que saibamos que a teoria de Newton não é uma explicação válida para o universo das dimensões astronômicas, ela nos abastece plenamente para calcular tudo o que precisamos enquanto humanos terrestres. Temos o conhecimento de tudo isso, e sabemos que podemos confiar, pois é algo amplamente aceito e facilmente verificável, sendo que não temos notícia de que as pessoas ficam observando maçãs caindo e quebrando a cabeça novamente para recriar a teoria ou reverificá-la.

Na minha serara, a prática médica, também valorizamos o conhecimento acumulado pela experiência científica casado com a vivência empírica do dia-a-dia, que constantemente nos informa que as diretrizes da ciência funcionam na prática clínica, de modo que uma boa teoria refletida em bons experimentos cujos resultados são bem conhecidos e facilmente alcançáveis não são cotidianamente reverificados, dado que não se esperam resultados novos com a mera repetição de procedimentos.

Já a prática política, no que tange ao campo da opinião, dos enunciados e das propostas, é hábito saudável que se mantenham no campo dos grandes contratos sociais, entre eles, a Constituição do país, se for o caso de uma república constitucional, ou ao conjunto de valores acumulados pelas jurisprudências e outros códigos. Em síntese, toda sociedade que tem como pretensão a sua evolução, só pode fazê-lo com a confiança nos seus alicerces éticos, morais, científicos, históricos, jurídicos e filosóficos. O emprego de proposições e valores que desarmonizam esses bens abstratos podem sim, em caso de ressonância com algumas estruturas sociais, provocar o solapamento de toda uma sociedade, ou, no mínimo, um trauma grave com enormes perdas humanas, inclusive. Não podemos nos esquecer que todas as catástrofes sociais do século XX – e de outras eras – tiveram como fundamento o domínio das palavras e dos significados. Não se conduz qualquer agrupamento humano sem esse domínio.

Janaína Paschoal e Lindôra Araújo, em um espaço de 24h nos deram uma aula sobre como contribuir para o solapamento das nossas estruturas abstratas que nos mantêm como sociedade. A primeira, em um tweet de hoje, assevera: “Há muitos brasileiros que não concordam com as verdades eleitas pelos formadores de opinião, que são muito fortes, mas não são a maioria! Aliás, penso que o Brasil seja um raro exemplo de país, em que a ditadura é feita pelos que NÃO ganharam a eleição”. A segunda, em parecer exarado pela Procuradoria Geral da República, desincrimina o delinquente da República na sua conduta contumaz de não usar máscaras e promover aglomerações em meio à pandemia de COVID-19, sob a alegação de que “não existe base científica suficientemente robusta que afirme com grande grau de segurança que as máscaras impedem ou diminuem o contágio pelo coronavírus”.

Janaína Paschoal corrompe gravemente e em pouquíssimas palavras, com seu viés patologicamente personalista e autoritário, parte do pressuposto que em uma democracia o eleito pode tudo ao dizer que há uma ditadura dos não eleitos. Nesta formulação sofismática, ela claramente reclama da falta de liberdade dos eleitos imposta por o que ela chama de “não eleitos”, insinuando sutilmente que cada eleição pode (ou deve) fazer de tudo, induzindo o incauto a acreditar que a democracia, regime de instituições estruturadas, estruturantes e estáveis, não é um pressuposto para o exercício de poder por parte de seus eleitos. Quer ela fazer o leitor crer que a vontade do eleito pode facilmente se sobrepor ao conjunto de experiências vividas e praticadas pela sociedade. Assim, chama de “ditadura” o conjunto de forças da sociedade que na realidade são conservadoras, ou seja, as forças que tentam preservar o patrimônio democrático construído até o momento. Aqui jaz um imenso ato corruptor, aquele que pretende através da linguagem sofismática atribuir um valor minoritário, autoritário e individualista a um conjunto que é o que melhor representa o coletivo histórico desenhado por legisladores e cumprido por governantes anteriores, ainda que com qualidades e defeitos que guardam boa distância de danos estruturais graves. O que Janaína nos mostra na realidade é o seu inconformismo com a crítica feita ao seu eleito, que como ela, nutre uma visão peculiar, infantil, paranóica e autoritária de mundo, exibindo pornograficamente a sua estreiteza de visão e sua incapacidade de compreender a nossa Constituição e nossas experiências como nação, dado que não compreende que a Carta Magna é a nossa grande e permanente eleição; que o STF é a instituição que a guarda e que deve ser respeitada; que a ciência é o principal norte de qualquer política pública na nossa civilização, para dizer o mínimo.

Já a Dra. Lindôra, não tão sofisticada em seus métodos e linguagem, ainda que abuse de forma obscena do literalismo na sua compreensão da lei no seu parecer que pretende inocentar um delinquente, (lembrando mesmo o episódio onde o filho de um certo ministro foi absolvido de uma omissão de socorro dado que a vítima morreu no acidente, assim descaracterizando juridicamente a omissão, que só se aplica a vivos!), tenta convencer a sociedade que todo o conhecimento que temos sobre a propagação de vírus respiratórios e suas respectivas medidas de contenção, por mais que secularmente testadas, praticadas, aprovadas e comprovadas, não é válido simplesmente por que ela, com sua douta autoridade de sub-procuradora geral da República, determinou que as informações científicas que temos não são suficientes para caracterizar como infração o seu não uso, ainda que a lei diga o contrário. Em apertada síntese lógica, Lindôra afirmou que a lei é ilegal, tentando justificar sua posição com farta argumentação sofismática e falaciosa.

Tudo isso na mesma semana em que o delinquente da República afirmou que “nossa Constituição é comunista e que isso tem que acabar”, dando a clara impressão de uma ação articulada, o que não seria implausível, dado que estas três pessoas partilham do mesmo projeto de destruição do estado democrático de direito, ardilosamente usando as estruturas constitucionais da República para atingir as suas posições de poder e seus respectivos lugares privilegiadíssimos de fala.

Se há algo a ser aproveitado neste cenário é a compreensão clara dessas mentes doentias, imaturas, deficientes e perversas, eventualmente desonestas (até por que ignoram o significado de honestidade) desfilando agora e à nossa porta, à imagem e semelhança pelo menos simbólica dos desfiles nazistas que adoeceram a sociedade alemã na década de 1930.

As atuais 570.000 mortes e a terra arrasada deixada pela pandemia são indissociáveis desse projeto perverso que infelizmente veio como consequência natural e planejada das manipulações iniciadas já à época do “mensalão” e que se multiplicaram pelo lavajatismo, expressões do moralismo raso que fomenta os projetos fascistas. Caberá aos historiadores, sociólogos, antropólogos e cientistas políticos a tarefa de ligar todos os pontos desse mapa do inferno.