Há pouco mais de 4 anos atrás tomei duas decisões importantes na minha vida. A primeira foi “me livrar” de todos os racistas, homofóbicos, misóginos e antidemocráticos do meu círculo de parentes, amigos e conhecidos reais ou virtuais. A segunda foi deixar o Brasil de vez e me mudar para Israel, um sonho há muito acalentado e adiado.
Hoje olhando para trás vejo que foram decisões acertadas para mim e minha família. Todos estão morando em Israel e pela primeira vez em muitos anos, passamos a festa de ano novo judaico juntos e felizes.
Ao me afastar de pessoas do mal, deixar de discutir com gente sem a menor vontade de trocar ideias, parar de responder aos ataques a civilização, minha vida melhorou muito. Não é que eu tenha deixado de me importar com a barbárie, pelo contrário, coloquei minhas forças e disposição na construção de um círculo de pessoas do bem para lutar contra ela. Assim, por exemplo, nasceu o grupo do FB Judeus Contra Bolsonaro.
Antes dele ajudei a criar os abaixo assinados contra a ida de Bolsonaro na Hebraica-SP e depois na Hebraica-RJ. Sucesso na primeira empreitada e com a ida de dezenas de judeus a porta da Hebraica-RJ para se manifestar contra a presença do mal lá dentro, no que ficou conhecida como a primeira manifestação de rua contra Bolsonaro, posso dizer que foi uma segunda vitória.
O Judeus Contra Bolsonaro, que administro com a parceria de outros companheiros, atraiu aquela parcela da comunidade judaica que percebia o que estava acontecendo naquele momento difícil do golpe e a prisão de Lula, e desejava fazer alguma coisa. O grupo chegou a ter 8 mil membros, o maior grupo judaico do FB brasileiro. Hoje com cerca de 6 mil, ainda é um dos maiores grupos e concentra, em sua maioria, aqueles que pensavam estar sozinhos. Que surpresa boa saber que existem tantos judeus preocupados com o fascismo.
Criei o site A Voz da Esquerda Judaica, um espaço para judeus de esquerda publicarem o que produzem, poesia, contos, crônicas, artigos, reportagens etc. Um verdadeiro blog do que de melhor existe no judaísmo progressista.
Dentro de poucos dias teremos as eleições no Brasil. Todos que me conhecem sabem que voto em Lula. Sempre fui de esquerda e sempre me guiei por linhas humanistas e socialistas. Nestes anos todos procurei superar meus defeitos, aprimorei meus sentimentos e minha forma de ver o mundo, compreendi meus erros passados e procurei me tronar uma pessoa melhor. Nunca vou atingir a perfeição, mas convivo bem com esta limitação.
Acredito que Lula possa ganhar já no primeiro turno. Não tenho dúvidas de que vai voltar a presidência. Logo após o primeiro turno, tenho a frente o Yom Kipur (Dia do Perdão), a data mais importante do calendário judaico. Segundo a tradição, nós judeus temos dez dias depois do inicio do ano para uma introspecção. Como o nome da data sugere, perdoar os que nos causaram mal e pedir perdão pelo mal que possamos ter causado a outros.
Não sou uma pessoa religiosa, respeito os que o são. Acredito que todo ser humano busca à sua maneira de ser feliz e de estar em paz consigo mesmo e o mundo que o rodeia. Se para alguns existe a necessidade de um parceiro nesta jornada, que assim seja.
Dito isto, eu me dou o direito de pelo fato de ainda não ter atingido a perfeição, e fazendo um balanço do meu último ano, acredito que fiz muito mais o bem do que algum mal aos que me são próximos. Meu saldo neste sentido é positivo. Até mesmo aos com quem deixei de conviver, acredito que lhes fiz um favor ao poupá-los de minhas ideias progressistas. Deve ser muito ruim para eles conviver com um sujeito que se importa com o próximo e acredita que somos todos iguais e merecedores de justiça social e das mesmas oportunidades na vida.
Ao mesmo tempo, eu tento me perdoar por haver convivido durante tanto tempo com gente da pior espécie. Amigos de infância, parentes próximos, conhecidos de uma vida toda. Eu não me dei conta do tipo de gente que realmente eram e durante um tempo ri de suas piadas preconceituosas, de seus comentários racistas, de suas atitudes grotescas para com o próximo.
Eu não os perdoo de maneira alguma. Não perdoo pelo que são, pelo que representam e principalmente pelo mal que causam ao mundo. Eu disse antes que não sou perfeito, eis a prova. Lamento, mas sou incapaz de estender minha mão a um fascista. Não durante dez dias em introspecção, nem nesta vida serei capaz de uma coisa destas.
Livre desta espécie de gente, mantive perto os próximos dos meus ideais e conheci centenas de pessoas que pensam como eu. Os tenho todos guardados em meu coração e compartilho com vocês os momentos felizes e os menos agradáveis porque sei que nunca largaram a minha mãe e eu sempre segurei a de vocês.
Peço sim perdão aos que não pude ajudar, aos que possa ter decepcionado por qualquer razão que me é desconhecida dizendo que não foi minha intenção. Perdão pela minha maneira franca de dizer as coisas, de ser prático com as decisões e por um senso de justiça que me guia e nem sempre possa ser compreendido. Gostaria de ter feito mais e melhor.
Também é parte da tradição desejar que sejamos inscritos no Livro da Vida, uma forma talvez até poética de dizer que quero ver a todos vocês, gente do bem, presentes em mais um ano da minha vida. Eles não!
Por Eva Blay, Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP
Nos últimos quatro anos tornou-se ostensivo o desmonte da democracia no Brasil. Como um martelo que quebra estruturas aparentemente sólidas, instalou-se um processo tipicamente fascista. Através das palavras estão sendo inculcadas mentiras nos espíritos, falseiam-se valores, desvirtuam-se comportamentos. Victor Klemperer já mostrara em A Linguagem do Terceiro Reich como, através das palavras, se incutiram racismo, preconceitos, como se destruíra a história factual substituindo-a por uma “nova verdade”.
Ao mudar o sentido das palavras e repetindo-as inúmeras vezes, se inculcam deliberadamente novos sentidos. A repetição mecânica, milhares de vezes, acaba instalando um novo significado. O que se passou no fascismo e no nazismo estamos vendo acontecer diante de nossos olhos. Tomemos o caso do “kit gay”. Observem que nem precisamos explicar do que se trata, pois já ficou em nosso imaginário um apócrifo livro que o candidato que se elegeu presidente da República repetidamente apresentava e distorcia na televisão como sendo um método que pretendia “destruir a moral das crianças tornando-as homossexuais”.
Ora, na verdade, falsificava excelente livro de orientação sexual preparado pelo Ministério da Educação para jovens estudantes. Trabalho importante, cientificamente construído, didático, que tinha como objetivo orientar jovens à entrada na vida sexual cuidando para que não ficassem sujeitos a doenças sexualmente transmissíveis ou a gravidezes precoces. Uma falsa capa desse suposto livro passou a ser apresentada pelo então candidato à presidência da República como o “estimulante à sexualização e à homossexualidade das crianças”! A mentira repetidamente apresentada de forma escandalosa e descarada não encontrou uma resposta contundente e assim prevaleceu a versão falsificada.
Em uma sociedade conservadora, desprovida de informação, a falsificação proliferou e se mantém até hoje! Os resultados foram desastrosos: a educação sexual foi eliminada das escolas (sobretudo das públicas), cresceu a gravidez na adolescência, aumentaram as mortes de meninas que completamente sem orientação tentaram interromper a gravidez, cresceram exponencialmente os estupros e a violência contra aquelas crianças cuja sexualidade ainda despontava.
O caso citado não é aleatório, simboliza a destruição do trabalho científico. Ele revela a intenção de demolir um dos pilares da democracia, o sistema educacional público. Educação é saber, é ciência, é conhecimento crítico. Em seu lugar se propõe uma escola “sem ideologia”, em nome de “proteger” alunos e alunas; na verdade se deseja formatar jovens num modelo autoritário, obediente, usando como instrumento uma educação concorde com a família tradicional e conservadora subordinada a estritos preceitos religiosos. Coerentemente se instalou no Ministério da Educação presbíteros e não professores implantando nele uma orientação estritamente religiosa, mas atenção: não pluralista, uma vertente religiosa única e dogmática. Em lugar de uma escola pública para todos, propõe-se a educação domiciliar, controlada pela família, ou a educação militar, somada à difusão da propriedade privada de armas.
Cortam-se os cursos das ciências humanas, o pensamento crítico, e se difunde a proposta de um saber mecanicista perfeitamente de acordo com a paradoxalmente versão colonial da economia baseada no agronegócio exportador. O processo aqui analisado é persistente, se reescreve o passado. Assim o Ministério da Justiça reclassifica antigos filmes repentinamente considerados pedófilos; o governo não está preocupado com a pedofilia, mas procura desqualificar atores famosos politicamente oponentes. O esquema, como se vê, é o mesmo: distorce-se o conteúdo para criar uma versão midiática.
Criam-se inimigos seja o comunismo ou a “ideologia de gênero”. Em nome do controle do corpo, especialmente do corpo das mulheres, desqualificam-se todas as pesquisas, das mais variadas ciências. Excluir a condição de gênero não vai invalidar a composição genérica de nossas células, mas certamente vai atrasar as descobertas de medicamentos específicos para homens, mulheres, pessoas trans, entre outros.
Ao ignorar as relações sociais de gênero se ocultam as relações patriarcais, a discriminação sexual, racial e as raízes da violência. Assim, ao invés de analisar o crescimento dos homicídios de mulheres, sobretudo de mulheres negras (esses aumentaram 22% com relação às brancas – 2005 /2017, como mostra o Atlas da Violência de 2017), destrói-se a excelente Secretaria das Mulheres substituindo-a por um Ministério da Mulher voltado para perseguir aqueles profissionais que cumpriam a lei em casos de aborto com meninas estupradas.
Paradoxalmente se garante a versão colonial da economia, baseando-a no agronegócio exportador de produtos primários ao lado de uma população sem trabalho e totalmente concentrada em centros urbanos. Cresce o papel do Estado que financia o capital do agronegócio provocando uma profunda contradição entre os segmentos exportadores e o resto da população desprovida de qualificação e emprego, que só consegue sobreviver via comercialização de bens que entram ilegalmente no País ou, por outro lado, se autoempresariando (30,5% dos jovens de 15 a 24 anos estão desempregados; na população em geral, o índice de desemprego é de 12,9%).
Não é preciso repetir a extraordinária concentração da renda e a pobreza da população. Sair do impasse só será possível se mudarmos essa estrutura e garantirmos a igualdade de oportunidades para todos e todas na educação, no trabalho, nos direitos reprodutivos. O caminho é desmascarar e superar os obstáculos alimentados pelo fascismo e pelo nazismo aqui instalados. O alerta deve ser exposto em todos campos. Não podemos cair novamente na carência de respostas. É fundamental recuperar o valor da ciência, do saber crítico, da democracia.
O mundo está mudando na nossa cara, embora muitos pretendam não ver. O problema é que está mudando para pior, muito pior, quebrando alicerces que pensávamos inabaláveis.
Esta semana nos chegou da outrora tranquila Suécia uma notícia que a analista política Teresa de Sousa, do Publico, de Lisboa, chamou de “perturbadora”. Neste país, que muitas vezes idealizamos como um modelo de tolerância, de bem estar e desenvolvimento, o partido de extrema-direita Os Democratas Suecos somou 20% dos votos, sendo o mais votado entre os partidos de direita e superado apenas pelos sociais-democratas da atual primeira-ministra Magdalena Anderson, que obteve 30%. Como sempre, desde 1917 o partido Social-Democrata chegou na frente, o que não significa que tenha governado durante os últimos 105 anos. Em razão do número de partidos e do sistema eleitoral sueco, os mais votados nem sempre levam. Os governos são formados na base de coligações, ora à esquerda, ora à direita.
A alternativa para Magdalena Anderson permanecer no poder é se entender com o líder de centro-direita Ulf Kristersson, do Partido Moderado, como tem acontecido. Só que Ulf também cobiça o cargo de primeiro-ministro e para tanto estaria disposto a negociar com os Democratas Suecos. É o mesmo cenário de 2018, com uma diferença: há 4 anos dois pequenos movimentos – os liberais e os centristas – negaram-se a governar com a extrema-direita. Hoje porém, estariam propensos a negociar. Kristersson precisa dos Democratas Suecos, que por sua vez exigem entrar no governo e, como arma de chantagem, agitam a possibilidade de reivindicar o cargo de primeiro-ministro.
O puzzle é complexo e segundo os analistas não haverá governo tão cedo.
O surpreendente é que se trata de um país rico, com uma qualidade de vida invejável e com um estado social que foi durante muito tempo um modelo para as democracias europeias. Aliás, um palmares que partilha com os seus vizinhos nórdicos, hoje igualmente ameaçados pelos partidos de extrema-direita: Partido do Povo, na Dinamarca, os Verdadeiros Finlandeses e o Partido do Progresso, na Noruega.
Isso leva alguns ideólogos a afirmar que a luta de classes morreu.
O pior é que os países nórdicos estão longe de ser exceção. O mapa europeu está em ebulição.
Dentro de alguns dias, nas eleições gerais, os italianos poderão entregar o governo a uma coligação liderada pelo partido neofascista Irmãos da Itália, de Giorgia Meloni. O que já acontece na Hungria e na Polônia, e se alastra pela França, Holanda, Bulgária, Austria, Grécia, Bélgica, Portugal, Grã-Bretanha; sempre com apoio, inclusive financeiro, de Vladimir Putin.
Além da Itália ter a terceira economia da Europa, a projeção de Meloni já ultrapassou as fronteiras da península. Em 2020 ela foi eleita presidente do Partido dos conservadores e reformistas europeus, que congrega os populistas de direita da União Europeia, de Marine Le Pen a Viktor Orban.
Originalmente, os Democratas Suecos eram um movimento neonazista, criado nas últimas décadas do século XX. Recentemente, o partido mudou de nome e adaptou seu discurso, menos abertamente racista e menos chocante para a maioria da população. O mesmo que aconteceu na França, com Marine Le Pen, que com uma estratégia similar obteve ganhos eleitorais impressionantes.
A onda migratória de 2015 e 2016, com milhões de sírios fugindo para a Europa, traduziu-se num enorme impulso para os partidos nacionalistas e populistas europeus, oferecendo-lhes a bandeira do combate à imigração, sobretudo de origem islâmica. Além da imigração, a insegurança jogou água no moinho dos neofascistas, que com um discurso xenófobo associaram os refugiados ao aumento da violência.
Só este ano, já houve 44 vítimas mortais em tiroteios, 21 das quais em Estocolmo e 11 em Malmo. Assim, ficou fácil ao partido de extrema-direita transformar a campanha numa questão de ordem pública, apontar os imigrantes dedo em riste e acusar o governo de não fazer nada.
Também há, na antes tranquila Suécia, o recrudescimento de redes de tráfico de droga, como não se via há muito.
A Suécia é hoje uma das sociedades mais multiculturais da Europa, com um terço da sua população tendo nascido num outro país. Hoje porém, os “estrangeiros” viraram bode expiatório. Os Democratas Suecos, supremacistas, apresentam-se como “o único partido político que pode salvar a maioria da população sueca de origem branca”.
Os suecos vivem, embora em proporção menor, exatamente os mesmos problemas dos outros europeus: carestia de vida, aumento das filas de espera nos serviços de saúde, resultados escolares em queda. Questões que a extrema-direita quer enfrentar com uma velha receita, aplicada na Europa, como nos Estados Unidos por Trump, como no Brasil de Bolsonaro, e que se resume em duas palavras: ódio e radicalização.
Se você for de direita, fique. Se for de esquerda, fique. Se for anarquista, fique. Se for empresário, fique. Se for assalariado, fique. Se for burguês, fique. Se for proletário, fique. Se for desempregado, fique. Se for professor, fique. Se for estudante, fique. Se for estagiário, fique. Se for israelense, fique. Se for palestino, fique. Se for sunita, fique. Se for xiita, fique.
Se for homem, fique. Se for gay, fique. Se for mulher, fique. Se for assexuado, fique. Se for lésbica, fique. Se for travesti, fique. Se for bissexual, fique. Se for casado, fique. Se for celibatário, fique. Se for poliafetivo, fique. Se for homoafetivo, fique. Se for heteroafetivo, fique. Se for amante, fique.
Se for do PSDB, fique. Se for do PT, fique. Se for do PCdoB, fique, Se for do PSOL, fique. Se for da Rede, fique. Se for do DEM, fique.
Se for religioso, fique. Se for evangélico, fique. Se for muçulmano, fique. Se for católico, fique. Se for judeu, fique. Se for budista, fique. Se for espiritista, fique. Se for pastor, fique. Se for padre, fique. Se for mulá, fique. Se for rabino, fique. Se for pai de santo, fique. Se for ateu, fique.
Se for rico, fique (e pague meu café). Se for pobre, fique (e me faça um bolo de fubá). Se for vegetariano, fique. Se for comedor de carne, fique. Se for Kosher, fique. Se não for Kosher, fique. Se for nordestino, fique. Se for paulista, fique. Se for carioca, fique. Se for baiano, fique…
Se for juiz, fique. Se for promotor, fique. Se for advogado, fique. Se for defensor, fique. Se for universitário, fique. Se for cabeleireiro, fique. Se for santa, fique. Se for puta, fique. Seja o que for e o que quiser ser, fique.
Mas, não fique, se for stalinista, nazista, fascista, antissemita, islamofóbico, homofóbico, machista, misógino, femista, aporofóbico, fundamentalista, antidemocrático, preconceituoso, racista, linchador, fofoqueiro, mexeriqueiro, militarista… não fique!
Naqueles casos, fique. Somos assim, diferentes, plurais e podemos conviver. Nestes casos, não fique, aliás, vá à merda, pois é contra estes que devemos combater, incessante e diuturnamente, enquanto com aqueles, qualquer café é possível e bem-vindo.
Estamos vivendo um mundo cheio de mudanças que nos são anunciadas dia a dia. Enquanto a maioria de nós ainda não pode usufruir das redes de celular 5G, já falam dos benefícios da 6G. Computadores quânticos voltaram a ser tema de vários artigos e o Metaverso parece que vai revolucionar as relações entre o mundo físico e o virtual.
Claro que tudo isto ainda é, ou será inicialmente para poucos. Como todo avanço tecnológico, leva um certo tempo até que a maioria da população possa usufruir. Houve um tempo em que ter uma linha telefônica custava uma fortuna, os primeiros celulares eram proibitivos e as TVs de parede custavam o preço de um carro.
Como tudo neste mundo capitalista em que vivemos, as coisas se resumem entre oferta e demanda. Novos lançamentos começam com pouca oferta e alta demanda. É o momento paradisíaco de todo capitalista, quando ele obtém rapidamente o retorno do seu investimento e depois, quando a oferta aumenta, tudo é lucro.
Isto também vale para o momento em que estamos vivendo. A pandemia mostra perfeitamente a frieza capital do mundo em que vivemos. No começo uma simples máscara custava alguns dólares a unidade! Hoje custam centavos. O mesmo com tudo que se relaciona ao Covid, incluindo aí as vacinas que salvam vidas. Não seria diferente com a desgraça humana.
Se o mundo é assim, temos nossa parcela de culpa. Não importa se vivemos em países democráticos, ditaduras, sob regimes de esquerda ou de direita. A maioria dos seres humanos é consumista e seu desejo por conforto (em todos os sentidos), é igual para todos. O lançamento do último modelo de um aparelho celular atrai multidões. Eventos grandiosos para seu lançamento e pré-vendas do que ainda não chegou ao mercado são anunciadas, as vezes com meses de antecedência, sempre com interessados.
Enquanto tentamos manter o mínimo da vida que tivemos há dois anos atrás, o danado do vírus insiste em nos lembrar quem é o dono do pedaço atualmente. Sem nenhuma vergonha ele vai mudando sua aparência como alguém que troca de roupa, e se faz anunciar com toda pompa que ainda está aqui. Como um vizinho indesejável, ele sabe fazer barulho.
Nem bem acabamos de tomar nossa valiosa dose de vacina e já nos dizem que temos de tomar mais uma dose. Eu tomei a primeira e na sequência a segunda como programado. Então me avisaram que deveria tomar um reforço como terceira dose e agora, como indicado aos maiores de 60 anos, mais um reforço, ou quarta dose. Se continuar assim, serão três doses ao ano, uma a cada quatro meses.
Nada contra continuar tomando picadas de injeção, desde que eu continue prevenindo a doença na sua forma mais grave. As vacinas atuais não previnem totalmente o Ômicron, mas a diferença entre vacinados e não vacinados é grande. Por enquanto, praticamente todos que foram a óbito são não vacinados. Quem se vacinou, tem sintomas leves e passageiros sem sequelas.
Eu continuo fazendo o possível para ser parte do grupo que no futuro vai contar que não ficou doente. Sigo as orientações de vacinação e não saio de casa sem máscara, uso até mesmo para caminhar na rua. Estou trabalhando de casa faz uma semana e pretendo continuar por mais uma ou duas, a depender da situação aqui em Israel. Atualmente nos aproximamos dos 50.000 novos casos ao dia, mas os pessimistas já nos falam de que podemos chegar a 300.000!
Muito já se aprendeu com esta pandemia. Infelizmente ainda não é suficiente, mas para alguém que aprende a dirigir já sentado na direção e acelerando, muito deste aprendizado já ajuda os especialistas e responsáveis na tomada de decisões. O que aconteceu é que se antes o carro andava devagar e permitia um aprendizado mais confortável, agora ele está acelerado a 120 k/h e os experts precisam reagir rapidamente aos percalços do caminho. Eles fazem o que podem.
Estou recebendo notícias de amigos e conhecidos que se infectaram recentemente com esta nova onda. Pessoas vacinadas, que se cuidam e se achavam protegidas. Muitas ainda sem compreender como se contagiaram. O importante é que até aqui, todas elas falam de sintomas leves e plena recuperação. A lição que fica é de que basta dar uma chance ao azar e o pilantra do ômicron te pega! Não vacile.
Em meio a tudo as pesquisas seguem apontando que Lula é líder absoluto em qualquer cenário, com ou sem ômicron, digo, com ou sem qualquer um dos pretensiosos ao cargo. Uma chance muito grande de levar a faixa no primeiro turno. Para que isto não mude, se cuidem, todo voto conta e vamos precisar de todos os votos. Vacinem-se e continue usando máscara.
Pensei no que deveria escrever no primeiro dia de 2022, o ano que não passou. O calendário diz que sim, mas tudo o que vem acontecendo neste ano que passou ainda vai custar a passar.
É verdade que algumas coisas são definitivas, ficamos um ano mais velhos. Perdemos amigos queridos, gente que não vão mais nos dar o ar da sua companhia. A pandemia continua aí, muda o nome da variante, mas é a mesma Covid-19 com uma nova denominação.
Eu acho que todos tivemos bons e maus momentos neste ano que passou. Em outra época recente as comemorações seriam muito mais intensas, muito mais alegres trazendo esperança de dias melhores que imaginamos chegar com a renovação do ano. A gente aguardaria pela virada para abrir a espumante e bater taças com as pessoas queridas, abraçaria até desconhecidos e desejaria de coração um Feliz Ano Novo.
Vivo em um país onde o calendário mostra nesta data a mudança de ano civil, onde não existe feriado e as comemorações são feitas em grande parte por imigrantes de outros países como eu. Os israelenses se juntam pela festa, e ninguém se importa com o trabalho no dia seguinte. Alguns já avisam antes que vão faltar.
A virada de ano é um acontecimento global de fato. Os telejornais mostram os países que já estão em 2022 e todos fazem sua retrospectiva do ano que passou. No que se refere aos que nos deixaram, melhor nem falar. Tivemos menos guerras, mas as tragédias climáticas nos lembraram que este tema continua sendo urgente a ser melhor tratado por nossos políticos.
Neste restinho de ano no Brasil, mais do mesmo. O presidente que não trabalha saiu para passear sem passar a presidência para o vice. Quem já não fazia nada, continuou e quem não apitava nada, continuou também. Nem as inundações na Bahia tiraram o presidente do seu ócio costumeiro. Enquanto milhares de pessoas continuam desabrigadas, ele passeia de Jet-ski da marinha e visita parque de diversão em Santa Catarina, afinal ninguém é de ferro.
Em Israel, no último dia do ano, um assalto espetacular contra uma empresa privada de cofres privados. Assaltantes invadiram o local, amarraram o vigia e saquearam os cofres. Como na maioria deles existia “dinheiro não contabilizado”, acredita-se que pouca gente vá prestar queixa. Alegria de uns, tristeza de outros.
A gente sempre tenta fazer um balanço do que fizemos, nem todos conseguem, nem todos se prestam a isso. Eu Procurei ser solidário com o próximo nos piores momentos, levantar a moral dos companheiros quando tudo parecia perdido, ajudar com uma palavra amiga quem precisava de um agrado e não deixar de escrever. Escrever me faz sentir vivo, ter um propósito.
Todo sábado pela manhã, salvo raras exceções, me sento no computador para escrever meu artigo do final de semana. As vezes já venho com o assunto pronto na minha cabeça, as vezes um comentário sobre algo que passou e eventualmente me sento com a mente limpa, livre para passear por diversos assuntos que vão surgindo como gotas de uma chuva que vai cair.
Espero neste ano que recém nasceu continuar escrevendo e recebendo críticas a cada texto. Sou daqueles que escreve tudo de uma só vez. Em cerca de 30 minutos já coloquei no papel o que tinha para dizer e em seguida publico. Não sou de ficar mexendo no texto, escrevo de supetão e as palavras vão sendo escritas como se estivesse me escutando falar. Este é o meu estilo.
Hoje o dia amanheceu cinza aqui em Hadera, onde moro. Nuvens cobrem o céu. Já choveu durante a noite, parou e deve recomeçar a qualquer momento. Deixo a vocês que me leem um abraço apertado, um desejo que 2022 seja um ano com muita saúde, amor e solidariedade. Que tenham mais um pouco de paciência, não percam a esperança por dias melhores e comecem a contagem para a mudança. Lula vem aí.