O espelho é um objeto sem vida, não sente, não fala, logo é um paradoxo escrever que o espelho tem vida própria. Interessante que desde a Antiguidade se adverte sobre os riscos de se ver no espelho numa encruzilhada. O espelho é sedutor e assusta como escreveu o Padre Antonio Vieira em seu “Sermão do demônio mudo”: “O espelho é um demônio mudo, da pior casta que os outros demônios mudos-pois ele adula”. Todos gostam de ser adulados, e o espelho é surpreendente, como escreveu Érico Veríssimo no seu livro autobiográfico “Solo de clarineta”. Antes dele tem contos marcantes de Machado de Assis, Guimarães Rosa sobre o fascínio do espelho.
Poucos contos sobre o espelho me impactaram mais, e por mais tempo, que o conto “Horla” de Guy de Maupassant. É a história de um homem que vive sozinho com seu mordomo e governanta numa residência confortável. Aos poucos, porém, começa a perceber pequenas alterações em seu cotidiano. Um dia vê seu copo de água que estava cheio só pela metade, se pergunta se alguém havia tomado. Cresce na sua imaginação a presença de alguém no seu quarto, na sua casa. Maupassant cria, vagarosamente, um clima de medo, angústia até chegar ao pavor. Pensa se o ser invisível era um vampiro, um fantasma, que sugava sua energia e um dia ao se ver no espelho, fica chocado, pois não se vê. Entre ele e o espelho está o Horla que tinha devorado seu reflexo. O conto segue, mas imaginem o pânico que o homem sentiu ou qualquer um sentiria.
Jorge Luís Borges teve no espelho uma de suas metáforas preferidas sobre o ser humano, e Fernando Pessoa criou vários nomes próprios. Há uma crônica emocionante de José Saramago: “O espelho de Fernando Pessoa”. O poeta português ao passar diante de um espelho percebeu outra pessoa, deu um passo atrás, e viu um homem a olhar de dentro do espelho, mas não era ele. E escutou: “Chamo-me Alberto Caieiro”. Pessoa ficou paralisado, foi se refazendo, quando surge outro no espelho e diz: “Chamo-me Ricardo Reis”. O poeta não entendia o que estava se passando quando vê um homem forte a dizer do espelho: “Sou Álvaro Campos”. O poeta que sabia perceber a eterna novidade do mundo se cansou e foi dormir. Na madrugada acordou e foi ao espelho ver qual dos três poderia ter ficado lá e se surpreendeu: “Chamo-me Bernardo Soares”.
Fernando Pessoa já estava para morrer quando pediu seus óculos, e nunca ninguém entendeu por que fizera esse pedido. Talvez desejasse se ver no espelho para saber com quem de seus “eus” poderia ver. Para Saramago o poeta nunca chegou a ter certeza exata de quem era. Já a gente, graças aos artistas, analistas, parcerias, aprende quem se é iludida que um dia tudo será conhecido.
Agora, se espelhos espaciais dessem imagens do gigante adormecido em berço esplêndido como ele seria? Muitos livros novos sobre o Brasil vêm revelando o que sempre foi ocultado. Com espanto se conhecem novos retratos, em ensaios, filmes, que permitem vislumbrar o que está debaixo do tapete. O livro “O Soldado Antropofágico-escravidão e não pensamento no Brasil”, do psicanalista Tales Ab’Saber é um surpreendente espelho do nosso país.
Todo mês compro um passaporte para ingressar no paraíso. O paraíso se vincula aos jardins, à beleza da natureza, do clima alegre, suave, e de paz, como os descritos nos capítulos II e III do Gênesis na Bíblia. Sua história, mesmo sendo sagrada, é também o mito dos mitos, tem milhares de anos, anterior até ao Tanach – Velho Testamento –, podendo ter nascido na Pérsia. De criança escutei muitas vezes a história de Adão e Eva, do castigo pela desobediência. As religiões anunciam um paraíso para depois da morte, mas prefiro o paraíso terrestre. Há muitos anos visito um paraíso de nossa cidade, até Porto Alegre tem o seu, pois cada cidade, cada casa, cada um pode inventar seu paraíso.
O paraíso, na verdade, é uma imagem utópica da própria Humanidade; para os que vivem com fé o sagrado, trata-se do paraíso perdido, já os profanos podem ter algum paraíso aqui. Para Kant, por exemplo, o paraíso é o primeiro momento do uso da razão e do progresso na história do homem. Karl Marx, ao descrever o que seria o comunismo parecia um profeta prevendo a revolução e a transformação total da Humanidade. Já Nietzsche o descreve como a expressão do conflito entre a Humanidade e suas crenças. Kafka escreveu que por falta de paciência o homem perdeu o paraíso e por falta de paciência não volta para lá.
Na Bíblia difamaram a querida Eva, pois ela desobedeceu ao Todo-Poderoso. Estimulada pela serpente, que teria sido a Lilith, Eva comeu da árvore do conhecimento, que era o erotismo. Ela e Adão, após comerem os frutos se perceberam nus e sentiram vergonha, e assim se humanizaram. Que seria da vida sem eros, sem erotismo? É melhor nem imaginar, aliás, nada mais erótico que a imaginação, e então, “Viva a Eva!!!”. Ainda bem que Adão aceitou comer o fruto dessa bendita árvore do conhecimento, mas Eva foi maltratada, acusada de ser a responsável da perda do paraíso até hoje pelo autoritarismo machista. Eva deveria ser abençoada, pois graças a ela nasceu a sede de saber, a curiosidade, as artes e as ciências.
Todos temos uma dívida de gratidão com Eva, ela foi atacada injustamente, o paraíso sem erotismo era chato e Adão me contou que a vida lá era entediante até chegar a mulher. O homem sem a busca do conhecimento, é como se fosse um gado de cabeça baixa e obediente. São esses que seguem o primeiro Adão, já o segundo-após comer da árvore do conhecimento- são os seguidores de Eva. O problema do mundo não é o erotismo, ao contrário, é a falta, a falta de amor à natureza e à cultura, os pecadores são os que derrubam árvores, matam os protetores das florestas, só visam lucros acima de tudo e de todos.
Agora, para entrar no Paraíso é só comprar o passaporte que se compra na entrada e custa R$ 14,00 (sim, quatorze reais) e dá direito a dez visitas em um mês. Aí se pode passear por árvores, plantas, flores, caminhos, descampado. Tem até lugar para estacionamento e um pequeno restaurante. Quase sempre está vazio, poucos funcionários, e visitantes quase não há de terça a sexta, e poucos no sábado. Passear pelas alamedas, admirar os lagos, entrar no museu do Jardim Botânico, ver os cisnes negros no lago de cima, tudo num clima de segurança e alegria, é sentir um pouco do paraíso. Sou entusiasmado por esse jardim mesmo tendo visitado o incrível Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que tem quase tudo e mais um pouco.
O nosso é mais simples, mais humilde, mas está muito perto de nós, e a imensa maioria dos cidadãos não vão. Agora, quem conhece e não vai está perdendo, e quem não conhece me choca, pois é um dos espaços vibrantes de Porto Alegre. Em 2009, quando o Jardim fez sessenta anos, foi feito um livro com ensaios da médica Cândida Otero (que relata como o JB salvou sua vida, pois o jardim é um poderoso antidepressivo), e Luís Fischer, que mora ao lado, entre outros e até eu, todos apaixonados pelo nosso paraíso. Um dia marcaremos um passeio pelo JB e terei prazer de ser o guia. Ah, quem me abriu as portas desse jardim/paraíso foi uma descendente de Eva, que se chama Sonia Maria, a quem agradeço por escrito.
P.S.: O paraíso é uma imagem idealizada da utopia. Será lançado no dia 2 de julho no bairro Floresta, rua Visconde do Rio Branco, 744, das 16h até as 19h um livro poético/psicanalítico. Seu autor é um estudioso sobre utopia e psicanálise, nosso amigo Edson Sousa. A obra é fruto de quase vinte anos de estudos com trabalhos apresentados em vários países. É preciso manter o entusiasmo no teatro dos abraços.
Sou o poeta dos torturados/ dos desaparecidos/ dos atirados ao mar
Sou os olhos atentos/sobre o crime
Pedro Tierra
Uma caneta BIC esquecida pelo torturador fez o preso torturado se animar no meio das maiores dores que sofrera em seus 24 anos de vida. Lentamente chegou até a BIC que brilhava na sala meio escura onde se sentia cheiro de suor e sangue, e logo escondeu-a, pois os torturadores voltariam. Quando foi levado a sua cela, dolorido com hematomas e sangrando aqui e ali, se sentia vitorioso com a caneta, era sua taça, seu troféu, e dias depois catava papel de cigarro, papel higiênico, para escrever. Foi assim que começou a nascer o poeta Pedro Tierra, que viveu cinco anos em várias prisões sendo interrogado, torturado, convivendo com mortes de companheiros. Decidiu viver para escrever poesias e homenagear tanto os amigos como os desconhecidos presos e torturados que não tiveram sua sorte de viver. Entrou no cárcere como Hamilton Pereira da Silva e ao sair era Pedro Tierra, o poeta que nasceu na prisão graças a uma BIC esquecida pelo torturador.
Nas poesias estão presentes os choques elétricos, cadeira do dragão, espancamentos e mais e muito mais poesias sobre suplícios, sangue, gritos, coragem, povo, liberdade. É um espanto tudo isso se transformar em poesia. Essa poesia silenciada mais aqui que no exterior começa a ser mais conhecida através de muitos, mas especialmente do professor e poeta Alberto Pucheu. Aliás, agradeço a ele a primazia de ler seu impactante ensaio que será publicado em livro, PEDRO TIERRA: ESTA OBSTINADA VONTADE DE RESISTIR. As poesias de Pedro Tierra começaram a ser publicadas no exterior traduzidas primeiro ao espanhol por Dom Pedro Casaldáliga. Vencedor de muitos prêmios, Pedro Tierra se integrou nas lutas sociais ao sair da prisão, tendo sido um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Ocupou cargos no Ministério da Cultura, em Secretaria de Cultura, integrou o MST, teve a coragem de seguir sua vida na política mesmo após cinco anos de tortura e prisão. Nunca esqueceu seus amigos que morreram, e dedicou suas poesias aos que conheceu e aos que não conheceu. Nome e sobrenomes que precisam ser recordados e que Pucheu nomeia um a um no seu emocionante ensaio com quase oitenta laudas.
Impactante foi o encontro de Pedro Tierra com o imigrante judeu Mayer Kucinski que buscava Ana Rosa, sua filha desaparecida e integrante da ALN como o poeta. “Desejava, para seguir vivendo, ver o rosto de Ana Rosa. Varava meus olhos com o cravo dos seus e me pedia, patético – a mim, que àquela altura cumpria já o terceiro ano de prisão –, uma palavra, ainda que fosse a notícia de sua morte. Eu não tinha nenhuma palavra para lhe dar.” Não tinha palavras para dizer ao velho pai Mayer, pai também do escritor Bernardo Kucinski, que escreveu o romance “K” sobre a busca do pai pela sua irmã Ana Rosa. Minha irmã mais velha, a Bluma, conheceu a adolescente Ana Rosa num Movimento Juvenil Judaico na década de 50 do século passado, e isso me aproximou dessa tragédia.
Escolhi parte do “Poema-Prólogo”, no qual Pedro Tierra sintetiza sua missão:
Fui assassinado.
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.
Meus olhos em sangue
testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.
Tornei-me a mineral
memória da dor.
Para sobreviver,
recolhi das chagas do corpo
a lua vermelha de minha crença,
no meu sangue amanhecendo.
Em cinco séculos
reconstruí minha esperança.
A faca do verso feriu-me a boca
e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.
Fui poeta
do povo da noite.
Se tivesse a capacidade de fazer um filme sobre Pedro Tierra, começaria filmando a sala de interrogatório, os torturadores e a BIC que o torturador esqueceu. Esse foi o momento em que começou a nascer Pedro Tierra, que precisamos conhecer mais, como conhecer nosso Brasil invadido. Invadido por enlouquecidos em busca de lucros. Nesses dias traumáticos que o País vive, será preciso passar o inverno, muitos invernos num só, sabendo que a primavera vai chegar.
“Estava sentada numa cadeira, e diante de mim estava Peter, Peter Schiff. Estávamos olhando um livro de desenhos de Mary Bos. Os olhos de Peter subitamente encontraram os meus, e fiquei olhando durante muito tempo aqueles olhos castanhos aveludados. Então, ele disse em voz baixa: “Se eu soubesse, teria procurado você há muito tempo”. Virei-me bruscamente, esmagada pela emoção. E então senti um rosto macio, cálido e suave contra o meu, e foi tão bom, tão bom.” Anne se acordou lembrando do Peter da escola, seus olhos se encheram de lágrimas. Nas semanas que se seguem ao sonho, Anne escreve o quanto o sonho aumentou sua autoestima. E pouco depois do sonho, estreita suas relações de amizade e de namoro com o seu amigo que estava no Anexo Secreto e também se chamava Peter, que morava num quartinho onde estava a escada para o famoso sótão que Anne tanto gostava. No seu diário ela descreve suas transformações sexuais de adolescente, suas excitações, bem como as rebeldias.
A menina negra encontra a menina judia.
A escritora brasileira Conceição Evaristo e Anne Frank viveram em tempos e espaços distantes. Foram se conhecer como leitora e escritora, gerando uma comovente relação entre quem escreve e quem lê. Ambas usaram armas simbólicas para enfrentar a violência e a crueldade. Evaristo escreve que encontrou Anne como as duas sendo meninas, e o quanto o mundo adulto não deixou viver uma escritora pelo fato de ser judia. Se identifica como menina negra maltratada, rejeitada, podendo construir uma fraternidade com a menina judia. Conceição Evaristo construiu uma ponte com os tempos atuais: “Digo também que estamos em dias vazios de humanos sentimentos. A leitura de “O diário de Anne Frank” se faz necessária mais e mais nesses tempos em que a brutalidade e a prepotência de pessoas e grupos imperam buscando se colocar como donos do mundo”. Tanto Nelson Mandela como Conceição Evaristo viram em Anne Frank um símbolo de luta pela liberdade, contra o racismo com a qual se identificaram.
A última carta:
Sua última carta foi no dia primeiro de agosto de 1944, uma terça feira. Tanto essa carta como as duas últimas mereciam um estudo a parte, como a frase que cita:“Todo filho tem de se criar”. Frase que seu pai dizia e ela reflete sobre como foi educada, faz uma crítica, começa um processo de desidealiazação do ótimo pai, ela já estava com quine anos. Na sua última carta vai mais longe quando reflete sobre a acusação que ela seria um “feixe contradições”. Toma essa expressão e analisa o que isso significa, pergunta o que é contradição e daí entra, sem saber, por uma via em parte filosófica, mas também psicanalítica. “Como já disse muitas vezes, sou partida em duas”. É uma carta de duas páginas e meia, vale a pena ler, e sem Anne saber, foi sua carta de despedida da vida.
Prisão e morte: Dia quatro de agosto de 1944 a casa e o anexo foram invadidos por um sargento da SS uniformado e três holandeses da Polícia de Segurança. Os moradores foram presos e transferidos para Westerbork, um campo de triagem, e em tres de setembro deportados para Auschwitz. A mãe de Anne decidiu dar sua comida para as filhas e as três dormiam juntas, unidas para sobreviver. Em fins de outubro Margot e Anne foram levadas para Bergen-Belsen, campo de concentração perto de Hannover (Alemanha). Ambas contraíram tifo e amigas de Anne, que a viram, descrevem como estava magra, doente e no inverno com neve só enrolada num cobertor. As irmãs Frank morreram entre fevereiro e março de 1945 e foram enterradas em covas coletivas.
Pesadelo:
Durante os estudos do diário tive um pesadelo, despertei quase chorando ao recordar ataques de gente onde eu corria risco de vida e imaginei que seria morto. Logo percebi que estava identificado com os judeus do Anexo secreto, pois o envolvimento com o diário fez com que entrasse no pequeno espaço de cinquenta metros quadrados. O resto diurno do pesadelo fora a leitura da morte de Anne Frank, percebi então minha identificação com os judeus assassinados nos campos de extermínio da Europa.
Confiança no futuro.
O pai Otto Frank, foi o único sobrevivente do grupo do anexo, apesar de estar muito doente conseguiu se recuperar. Foi o responsável pela edição do livro “O diário de Anne Frank” bem como pelo museu de Amsterdam e da Fundação que leva o nome de sua filha. Anne Frank escrevendo o diário se fez escritora, com amor e humor, confiante como na mais famosa de suas frases: “Apesar de tudo ainda creio na bondade humana”. Após oitenta anos que foi escrito o diário, ele continua sendo muito lido por jovens que se identificam com ela e por pessoas de todas as idades. Tres semanas antes de ser presa, escreveu: “Vejo o mundo ser lentamente transformado numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E mesmo assim quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão”.
Precisamos falar da escritora Anne Frank
Anne é a vítima mais conhecida do nazismo, e a crueldade passada reaparece com novas roupagens. O dever da memória é lembrar os seis milhões de judeus mortos, mas também recordar a escravidão brasileira, o assassinato de Marielle Franco, de negros e índios. Não devemos silenciar o passado, nem o presente para construir o futuro. O Diário de Anne Frank emociona judeus, negros, o mundo no amor a liberdade, a bondade e a tolerância, daí seu sucesso.
Muitos perguntam os porquês do sucesso mundial do Diário de Anne Frank, um livro escrito durante o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Traduzido em setenta idiomas com uns quarenta milhões de livros vendidos, tema de filmes e peças de teatro. Editado em 1947 levou alguns anos para conquistar o público, e, aos poucos, algumas personalidades e escritores perceberam que o diário não era só de uma adolescente, mas sim o de uma escritora jovem. Anne ganhou de presente o caderno que escreveria seu diário no dia do aniversário de 13 anos, 12/06/1942.
O humor de Anne Frank:
Uma das primeiras histórias do livro é a do professor de Matemática que passou de castigo à ela por falar muito a redação: “Uma tagarela”. Anne escreveu três páginas argumentando que falar era uma característica feminina, tentaria se controlar, mas sua mãe falava tanto ou mais que ela. O professor riu, mas ela seguia falando, e então deu outra redação: “Uma tagarela incorrigível”. Ela fez e seguiu falando, logo recebendo uma terceira redação: “Quac, quac, quac, tagarelou e dona pata”. Riram na aula, ela também, mais aí pensou que devia fazer algo diferente e pediu ajuda à sua amiga Sanne para escreverem em versos. Fizeram um poema sobre uma mãe pata e um pai cisne com três patinhos que grasnavam muito e foram bicados até a morte pelo pai. O professor gostou tanto que leu o poema em várias salas de aula.
Anexo Secreto:
No dia 09/07/1942 Anne e sua família se
esconderam pois os judeus estavam sendo presos por serem judeus. No diário descreve o sofrimento dos judeus, pois deviam usar uma estrela amarela, proibidos de andar nos bondes, carros, comparecer aos teatros, cinemas entre outras proibições. Esse espanto de Anne leva a pergunta ainda viva de como foi possível o nazismo que buscou matar todos os judeus da Europa. Parêntesis: poucos traçaram um painel mais amplo dos porquês do assassinato de seis milhões de judeus que o historiador Saul Friedländer, em seu livro “A Alemanha nazista e os judeus”.
No dia 21 de setembro escreveu: “Atualmente papai e eu estamos trabalhando em nossa árvore genealógica, e ele me conta alguma coisa sobre cada pessoa”. Seus antepassados marcaram a vida na comunidade judaica e na Alemanha. Ler e acompanhar a vida de uma adolescente, através de seu diário, é conviver com medos, sonhos, suas transformações na luta contra a solidão. Já tinha escrito no diário sobre a experiência de escrever: “o papel tem mais paciência do que as pessoas”, e inventa uma amiga imaginária que chamou de Kitty, para quem passa a escrever. Descreve as tensões e discussões com sua mãe Edith, e a irmã Margot que era mais amiga da mãe que dela. Elogia seu pai escrevendo que é o “mais adorável que já vi”, era o que mais tinha paciência com sua aceleração criativa.
Nelson Mandela: prêmio Nobel da Paz e Presidente da África do Sul disse que Anne Frank é a prova da invencibilidade do espírito humano. Durante os dezoito anos que passou na Ilha de Robben exortou seus companheiros de prisão a lerem o diário. Quando as páginas do único exemplar do livro na prisão começaram a cair, os presos se revezaram, clandestinamente, a copiar o livro a luz de velas. Todos os presos leram o “Diário de Anne Frank”, de como uma jovem viveu dois anos escondida no sótão de uma casa. Muitos anos depois, em 1994, Mandela foi homenageado pela Fundação Anne Frank, e visitou a Casa de Anne Frank. Antes, em um discurso para uma multidão em Johanesburgo, relembrou ter relido o livro enquanto estava na prisão, com o qual afirma ter “extraído muito incentivo” na luta contra o “apartheid”. Comparou a luta contra o Nazismo com a travada contra o Apartheid, expressando que ambas “são crenças evidentemente falsas e sempre serão desafiadas por pessoas como Anne Frank e estão fadadas ao fracasso”.
A casa na qual o diário foi escrito hoje é um museu visitado por um milhão e duzentas mil pessoas anualmente, mais de três mil por dia. Visitei a casa de Anne Frank em fevereiro de 1968 num inverno rigoroso em Amsterdam, com um grupo de estudantes do Colégio Israelita Brasileiro. Chegar ao Canal Prinsengracht número 263, emocionante entrar na casa, subir os degraus de dois andares por corredores estreitos, até ultrapassar uma biblioteca atrás da qual se escondia o anexo secreto. Oito judeus viveram dois anos em 56 metros quadrados, e pude ver tudo que é descrito no livro, sentindo emoções e tensões que agora recordo. Minha maior curiosidade era conhecer o lugar aonde foi escrito o diário, o sótão da casa, que se chega após subir uns dez degraus de uma pequena escada íngreme. Só se podia olhar o amplo espaço desde o último degrau, e ver uma janela inclinada, a única que não tinha cortina e da qual Anne podia ver uma grande árvore-uma castanheira- os pássaros, o céu, as nuvens e onde sonhava com a liberdade.
Quando corto o cabelo, aproveito para matar as saudades de folhear um jornal. São uns vinte minutos nos quais olho mais de um jornal, e aí li que Porto Alegre é a cidade mais tristonha do País, ao ter 17,5 por cento de deprimidos. Belém do Pará tem 7,2 por cento, menos da metade, e o País tem uma média de 11 por cento, mais ou menos. São números, e sempre se pode duvidar de como foi feito um trabalho assim, mas parece certo que aumentou o número de depressivos aqui e no Brasil. O primeiro fator apontado é a pandemia, pois o trabalho foi feito no ano passado, mas me chamou atenção que não há referência ao clima social e político que se vive. Nada também sobre o desemprego, nada sobre a fome, nada sobre o empobrecimento real e o empobrecimento humano que se vive nos últimos anos. Um país em que predomina o ódio, um país dividido.
As lágrimas podem ser mais frequentes em Porto Alegre, mas as depressões aumentaram no País e no mundo, com lágrimas secas que não lavam a alma. As depressões são no plural, as maiores e as menores, por causas psíquicas e também de origem orgânica. Nesse mundo de lágrimas secas é preciso ir devagar, como são em geral os deprimidos, lentos diante dos desafios, pois carregam pesos nas costas, o peso da existência. Os tristes sofrem com uma lista de desgraças, e muitos não levantam os olhos, perderam os horizontes. Os dias são de desânimo, perda de interesse pelo mundo, perda da capacidade de amar, com uma baixa autoestima, recriminações tanto aos demais como a si mesmo. Suas energias de viver foram perdendo sua carga como as velhas baterias de carros, e assim não podem sair do lugar.
Aprendi sobre depressões não só atendendo, estudando, mas vivendo meses intermináveis em que acordar pela manhã era um sacrifício. Viajei a Buenos Aires após concluir a faculdade de medicina, sem perceber, minha vida acelerada e, após um semestre, ocorreu a desaceleração, que era a depressão. Percebi que um mundo tinha terminado e outro começava, e não me senti à altura, a queda foi dura. As árvores da capital portenha não eram familiares, muito menos os costumes, eu era um estranho no mundo dos “hermanos”. Falei muito do sofrimento em cada sessão de análise e, após um longo tempo, me acostumei a uma nova realidade e aprendi as maravilhas da cultura portenha, os coletivos, as novas amizades. Saí do poço e vi o Sol, as nuvens, os novos horizontes.
O psicanalista francês André Green escreveu um ensaio sobre as depressões a partir do que definiu como “A mãe morta”, uma mãe com tendência depressiva, dificuldades de cuidar do bebê, gerando o que se definiu como clínica do vazio: bebês que não recebem investimentos libidinais eróticos suficientes. Quando essas crianças crescem, são vulneráveis, em especial na vida amorosa, e às vezes também na vida profissional. Na vida adulta, o desafio de construir um sentido da vida se depara com o sentimento depressivo de um vazio de sentido. Diante de pessoas tristonhas, de baixa autoestima, são dois os caminhos principais: um é o de repetir na análise um sentimento de aborrecimento fúnebre, de fracasso, uma desilusão entre analista e analisando. Outro caminho, o indicado por Green, é o de criar um espaço na dupla psicanalítica de vitalidade, com laços em que o analisando perceba um investimento libidinal do analista. Construir esse vínculo leva tempo, e aos poucos se gera uma nova vitalidade, uma relação com um movimento criativo. O guardião do túmulo de uma mãe morta pode se desprender do seu lugar fúnebre, sair da sombra de viver morrendo, construindo um sentido de ser. Recordemos sempre: “Umuntu ngumuntu ngabantu” – “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas”.