por Mauro Nadvorny | 8 mar, 2020 | Comportamento, Política
Para inaugurar minha colaboração neste Blog, que tem como objetivo ser uma Voz da Esquerda Judaica, apresento meu primeiro Texto, na verdade, Notas introdutórias.
Começo por afirmar que o Anarquismo não se implanta!
Trata-se de um movimento crítico, emancipatório, libertário, constante, irresistível, que tem suas raízas no Judaísmo mais antigo. Tudo o que for unidimensional, autoritário ou perversamente dogmático fica, e ficará, para trás, seja de caráter religioso, econômico, jurídico ou político. O Anarquismo anda primordialmente de mãos dadas com Educação e Liberdade. Cito alguns bons autores anarquistas: Godwin, Proudhon, Bakunin, Tolstoi, Oscar Wilde, Emma Goldman, Martin Buber, Gustav Landauer, Paulo Freire, Noam Chomsky, entre outros…
O Anarquismo é pluridimensional, horizontal, solidário e, sobretudo, destaca o indivíduo em seu aspecto integral sem permitir, de modo algum, que se perca em um coletivismo destrutivo (usei aqui um pleonasmo expressivo!)
O Anarquismo é, portanto, movimento – não sistema. Jamais haverá fim para o Movimento Anarquista, mas fases cada vez mais emancipatórias! Na filosofia de Gustav Landauer, judeu anarquista, e amigo próximo de Martin Buber, é o próprio espírito da “revolução”, não no modelo de uma dialética comunista (ou marxiana, se quisermos), mas na dialética proudhoniana (Landauer era um leitor e estudioso profundo de Proudhon), ou seja, a relação constante entre utopia e topia nas pluralidades que coexistem.
Muitas das conquistas contemporâneas devem-se realmente ao Movimento Anarquista. Por exemplo, conquistas trabalhistas, sindicais, emancipação da mulher, divórcio, superação do gênero, liberdade sexual, reconhecimento dos vários núcleos familiares, inclusão, movimentos sociais emancipatórios, movimento de luta por terra e tantas outras experiências.
Uma questão que vem sendo debatida refere-se ao anarquismo capitalista ou, em outras palavras, “anarquismo de direita”. Não há de modo algum anarquismo de direita ou capitalista, exatamente porque o anarquismo é movimento emancipatório das prisões e alienações produzidas pela direita e pelo capitalismo. Por outro lado, não se pode confundir anarquismo com caos, bagunça, quebradeira, violência e assassinatos, pois estas são características capitalistas. Se houve na história alguém que praticou assassinatos em nome do anarquismo, fê-lo por conta própria, em seu próprio nome, não do movimento.
Em outras palavras, o anarquismo é libertário e, por isso mesmo, não pode ser de Direita. Libertário é muito diferente do conceito de liberal e, de modo abissal, diferente do neoliberal. Aliás, o anarquismo combate o neoliberalismo, mas pode dialogar com o Liberalismo, mas mantém-se irmão do Socialismo. Dialogar não é a mesma coisa de pertencer! O liberal pretende o Estado mínimo para seu proveito, sem se importar com o restante da sociedade, enquanto o libertário pretende uma sociedade emancipada, plural, não dirigida, não condicionada, em que o indivíduo se encontre com outro indivíduo em caráter solidário.
O anarquismo é, sim, individualista, e isso é um tópico inegociável. Entretanto, ele não é egoístico. É individualista no sentido de respeito ao indivíduo em sua integridade e singularidade. Por isso mesmo, o anarquismo combate o fascismo, o militarismo, a massificação, a coletivização e as ditaduras, sejam comunistas ou capitalistas.
O anarquismo defende e promove o amor livre – não a promiscuidade, embora não tenha regras morais. É importante que se diga: o anarquismo não é moralista, mas é, em tudo, ético. Ética e Moral são dois conceitos distintos no anarquismo! Porque a promiscuidade é capitalista, machista, dominadora e sexista. O anarquismo defende o amor e o amar em todas as suas formas (adultas e conscientes), menos o domínio patriarcal e fálico (coisas da Direita).
Enfim, não esperemos que um anarquista carregue uma bandeira nacional, ou a foto de um político e sequer um emblemático “A” tatuado em seu corpo. Anarquistas não pregam e não doutrinam, mas provocam, e muito, o debate crítico. O anarquismo é, em tudo, a raiz do pensamento crítico! Ademais, o anarquista não cultua, mas apenas tolera o Estado, desde que “essa coisa” esteja a serviço de todos e todas, não a serviço de alguns, sejam eles comunistas ou capitalistas. Por isso mesmo, o anarquista tende a dialogar com sociais democratas.
(Pietro Nardella-Dellova)
por Mauro Nadvorny | 8 mar, 2020 | Brasil, Comportamento
Cerca de 13 a 14 milhões de pessoas estão desempregadas no Brasil. O cenário tem cada vez mais se tornado pessimista para empregos formalizados, levando as famílias buscarem uma saída para o sustento ou renda complementar, esse novo modelo espoliativo é visto por uns como solução após as sequentes Revoluções Industriais, hoje com a automação e inteligência artificial.
A Uberização sendo alternativa para os desempregados, como pode ser aplicado um dos prós, que é “A liberdade de escolher horário e tarefas…” Bem, é algo que soa aos meus ouvidos e entendimento como paradoxal. A exemplo de um ou uma supridor ou supridora das despesas familiares básicas: aluguel, condomínio, energia, água, alimentação etc.
Pensemos, se a pessoa que está nesse formato de trabalho para atender as necessidades com as ofertas do mercado uberizado, pode se dá ao luxo dessa escolha, se no final do mês tem suas entradas e saídas que não são compatíveis e o que se deve fazer é trabalhar até a exaustão, então, como vai ter mais tempo para vida pessoal e o lazer que se faz necessário a saúde?
Sendo esse um dos argumentos favoráveis que normalmente é postulado pelos “empregadores” enaltecendo essa flexibilidade de serviço como algo bom e positivo… Aí, o meu pensamento voa para antes e pós 13 de maio, aqui na terra brasis, ou seja, é ou não um formato de escravidão moderna? Os grilhões são os aplicativos, que oferecem tudo ao consumidor para o tempo, vilão da liberdade moderna, ser CAPITAL.
Não sou cientista do mercado e direito do trabalho. Sou proletária aposentada com vivência de dois regimes trabalhistas: CLT e Estatutário, o que rege hoje meu contra cheque. Me lembro as terríveis perdas na transição de um modelo para o outro, as adequações e depois fui me acostumando e reorganizando as despesas. Então, imaginemos agora esse novo “estandarte” trabalhista… O trabalhador ou trabalhadora sem legislação, sem salário fixo, sem nada, apenas o seu esforço ativo de trabalhador ou trabalhadora… Se adoece a criatura, como vai trabalhar e se a escolha é não faltar, por não pode agora “escolher” o seu tempo flexibilizado, pois as contas chegam a cada fim de mês. É vida? É liberdade? É moderno? Ou lembra os tempos de fábrica e minas de carvão, antes da primeira greve por direitos trabalhistas, que Émile Zola bem retratou em sua obra prima O Germinal… Estamos retroagindo em tempos tão modernos? Vejo com olhos de um passado/presente, o capitalismo enfurecido engolindo o homem e demais criaturas. Me faz refletir a dor do trabalho incerto…
Conheci um jovem que tem por primazia cuidar da mãe e das irmãs, que trabalham em contratações pontuais em eventos de formatura. Ele é o arrimo da casa, a mãe faz pão e bolos para vender. No dia que conversamos vi a exaustão em seu olhos, um número de entregas absurdo, mal tinha tempo de mastigar um sanduiche. Ele estava estudando para um concurso quando a empresa que trabalhava enxugou os “cooperadores,” ele e mais três, sem muitos critérios, perderam o trabalho fixo com a legislação trabalhista. O tempo passou, seguro desemprego, bicos, um contato aqui e outro ali, mas chegou a hora necessária para uma atitude produtiva: se uberizar para o sustento maior familiar. 16, 17, 18 horas dia trabalhadas, horários flexíveis para os patrões, ele que se vire e se adeque ao novo modelo como gestor e empregador de si mesmo, de suas horas, de seus dias e de sua morte, talvez, de exaustão ou no trânsito infernal e assassino.
Gigi Pedroza
por Mauro Nadvorny | 7 mar, 2020 | Brasil, Comportamento
O fenômeno Olavo (Olavo de Carvalho e seus seguidores) me intriga já a alguns anos. Recentemente, um artigo da escritora Elaine Brum publicado no El País, tendo como tema a ascensão de Bolsonaro como representante do homem mediano brasileiro ao poder inspirou-me a um paralelo que deixei delineado em um prefácio que escrevi para o livro “Mistérios da Lua”, de Antonio Farjani.
A história começa cedo, na minha adolescência e termina em um passado relativamente recente, quando eu tive acesso a um conjunto de informações científicas e históricas que preencheram gigantescas lacunas nos meus campos de conhecimento em uma ciência que muito prezo, a saber, a Física. Em um curtíssimo espaço de tempo, tive a percepção do quanto fui (e somos) maltratados na nossa formação escolar geral, que por muitos anos nos despeja quantidades irracionais de conhecimento tido como científico (e de fato, na maioria das vezes o é) mas desacompanhadas de qualquer ferramental que nos permita avaliar o peso e o valor desses conhecimentos. Uma determinada fórmula, uma ferramenta de cálculo, uma tabela periódica de elementos químicos, a imagem teórica de um átomo ou de um cromossomo, tudo isso, nos é apresentado como um simples fato, quando na realidade resultam muitas vezes de décadas de pesquisa ou da vida inteira de um(a) certo(a) cientista. O conhecimento é apresentado desprovido de humanidade, de conexão histórica, de contexto e quase sempre de significado e aplicabilidade prática.
A consequência de todo esse destrato com a ciência e com o conhecimento é que ele passa a ser tratado como banalidade, como peça de consumo, descartável, reciclável, inútil muitas vezes. Quantas vezes, como médico, observei esta confusão entre conhecimentos sólidos e baseados em fortíssimas evidências, e conhecimentos derivados até do folclore mais picaresco, trazidos às vezes à mesa em estado de equivalência.
Por outro lado, para aqueles que não frequentam a academia mas de alguma forma tem alguma sede de conhecimento, o confronto com o volume de informação que se produz a cada segundo no mundo pode produzir experiências frustrantes, trazendo ainda a sensação de distância, de exclusão dessas fontes de geração de conhecimento e uma total falta de controle e compreensão. Junte-se a isso alguns exageros e distorções do cientificismo, que chegam mesmo a desprezar qualquer conhecimento que não tenha sido obtido pelos métodos cartesianos, levando muitas pessoas a sentirem-se massacradas pela não militância acadêmica, esta, acessível a uma fração muito pequena da população.
Esses “excluídos” do mundo científico existem em todas os extratos sociais, inclusive entre aqueles com diploma superior sem pós-graduação sensu strictu (formação de pesquisador/docente). O que não faltam são médicos, engenheiros, advogados, historiadores, farmacêuticos, clérigos, etc., sem qualquer noção de filosofia da ciência e metodologia científica, e que habitam essas zonas de desconforto nos campos da intelectualidade.
Para esses excluídos, surge um “igual”, um homem sem formação acadêmica, mas inteligente, articulado, e certamente com muita cultura, mas com grande grau de oportunismo e capacidade de formar esse forte vínculo com seus “semelhantes”, entitulando-se autodidata, apresentando-se como bem sucedido. Com ideias bizarras e que se contrapõem a quase tudo e a quase todos, transforma-se em verdadeiro herói e mito, dando vazão a todas as fantasias que os aterrorizados exilados da ciência cultivam para suprir suas carências e necessidade de afirmação. Para estas pessoas, um homem com a capacidade de explorar habilmente as contradições de um mundo complexo e eventuais fragilidades da ciência é um verdadeiro sacerdote, que sabe explorar muito bem as questões de fé.
Assim, Olavo de Carvalho é sintoma de um mundo (ou país) onde o conhecimento mal transmitido e o ferramental insuficiente para compreendê-lo gera legiões de apavorados em busca de um porto seguro “intelectual”, que funcione ainda, nesta fúria contestatória, como uma espécie de “vingança” contra toda essa complexidade, aliando-se a isso a incapacidade que temos hoje de construir uma necessária crítica ao cartesianismo e ao racionalismo quase desumano que em certos territórios faz hoje da ciência algo próximo de religião e da academia, quase um “Vaticano”.
O tamanho do sintoma e suas nefastas consequências políticas só nos dá a dimensão da doença que habita nossa sociedade. Ela é sistêmica, adquiriu caráter contagioso e pode ainda tornar-se genética, transmitindo-se à próxima geração. Paradoxalmente, apenas a abordagem histórica e científica pode nos permitir observar que tudo isso é apenas repetição. Já ocorreu e tem um ciclo a percorrer. Paciência, é o que precisaremos para atravessar esta onda.
por Mauro Nadvorny | 7 mar, 2020 | Israel, Política
Quem diria que Bibi, um político de primeira linha, conhecedor de todos os meandros desta nobre atividade, tenha comemorado uma vitória que não aconteceu. As pesquisas davam ao seu campo da direita, 60 cadeiras, o que com os votos itinerantes poderia fazer com que chegassem a 61, o número mágico para formar um governo. Teve festa da vitória durante a madrugada antes da contagem final dos votos.
Bem, as urnas foram abertas e o campo da direita chegou a 58 cadeiras. Nenhuma chance de formarem governo, nenhuma possibilidade de conseguirem convencer outro partido a se somar a eles. A direita perdeu as eleições pela terceira vez e a maioria dos israelenses disseram não a Bibi.
Tudo muito bom, mas o campo oposto também não tem votos suficientes para formar governo, a menos que aceitassem compor com a Lista Árabe Unificada que chegou as incríveis 15 cadeiras e se tornaram a terceira força política do parlamento, atrás apenas do Likud e do Azul e Branco. O Azul e Branco não quer realmente formar um governo, não agora, prefere apostar suas fichas em outra manobra.
Agora começa o jogo político. Se todos os partidos contra Bibi indicarem o Azul e Branco para formar o governo, ele terá durante este período, força para mudar a presidência do parlamento e indicar uma maioria na comissão que pode criar uma nova lei. Pode-se chamar de Lei da Ética, da Moral e dos Bons Costumes, da Ficha Limpa como no Brasil, mas no final ela vai ser conhecida mesmo como Lei Bibi. Por esta lei nenhum parlamentar sendo processado criminalmente, poderá concorrer como indicado a primeiro ministro. Ele com três processos em andamento, no caso de novas e prováveis novas eleições, estaria impedido.
Todos os partidos anti-Bibi já apoiam a iniciativa e ela vai se tornando possível e muito provável. A direita diz que ela é antidemocrática. É o povo quem deve escolher o primeiro ministro. Que o povo é soberano. A voz do povo deve ser respeitada. Ninguém é culpado sem ter sido condenado com trânsito em julgado. Em outras palavras, vão gritar muito.
Sem Bibi, as eleições serão outras. Tudo muda dentro do campo da direita e já se escutam o rosnar das hienas políticas pela herança do seu legado. Candidatos não vão faltar, mas nenhum com o carisma dele. O Likud tende a perder cadeiras. A dúvida é se elas permanecem no campo da direita fluindo para os partidos acessórios, ou se revertem para o centro beneficiando assim o Azul e Branco.
Uma outra possibilidade que se abre é um governo formado pelos dois maiores partidos. Sem Bibi, o Azul e Branco já diz que aceita formar governo. Talvez sequer precisem dos partidos acessórios como os religiosos e a esquerda.
Não posso deixar de mencionar Liberman e seu partido Israel Nossa Casa. Fizeram somente 7 cadeiras, mas são eles que vão ajudar a jogar Bibi no ostracismo. Justamente o partido da direita que não compõe com Bibi. Chegaram a um ponto irreconciliável. E olha que Liberman foi o Ministro da Defesa dele.
Neste momento ele é a pá de cal do governo do Likud. Sem ele, não formam a maioria necessária para indicação de formação do governo pelo presidente. E se desta vez a Lista Árabe der todos os seus votos para indicarem Benny Gantz, a chapa de Bibi começa a esquentar.
A mídia aqui de Israel está dividida entre o Corona e a política. Neste momento parece que o vírus está mais famoso. Cancelamento de voos para diversos países, 20 pessoas oficialmente infectadas, 7 mil em quarentena, filas intermináveis nos supermercados para comprar alimentos. O Corona está liderando as manchetes.
Bibi, assim como o vírus é bastante resistente e sempre soube quando deveria mutar. Nada que a oposição tentou deu certo para tirá-lo do poder, agora tudo pode mudar. Nenhuma mutação vai melhorar a situação dele. Penso que a era Bibi pode estar chegando ao fim. Quando falarem deste momento, todos vão recordar que tudo aconteceu naquele ano antes da Páscoa quando Israel derrotou duas pragas ao mesmo tempo.
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2020 | Brasil, Política
As semanas se sucedem e a única coisa que muda é o roteiro do bestialógico presidencial. Temos de convir que a imaginação do ex-capitão é infinita e que a nossa (ou pelo menos a minha) capacidade de suportar já passou do limite. É inacreditável a faculdade de Bolsonaro de se prestar ao ridículo. Colocar um humorista de terceira classe, vestido da faixa presidencial, para distribuir bananas aos jornalistas e “responder” às perguntas sobre os medíocres resultados econômicos é um tapa na cara, não somente da imprensa como de todos os brasileiros, mesmo daqueles que votaram nele e aplaudem esse tipo de insulto. É usar um bobo da corte para divertir o povo, no caso os fanáticos apoiadores do presidente, que se sentem no direito de rir e proferir palavras de cunho sexual para os repórteres (aprenderam com o mito).
Junto à sua claque, Bolsonaro dava gargalhadas escancaradas. Aquelas que fazem com que ele se pareça com um misto de Hitler e Joker.
Por seu lado Márvio Lúcio, aliás Carioca, gritava o nome do Posto Ipiranga – Guedes, Guedes!!! – para explicar o pibinho.
Não era para menos, pois é de conhecimento de todos que ali nem o falso nem o verdadeiro presidente sabe o que é o PIB.
Simultaneamente, nas redes sociais, jornalistas próximos do Palácio, na sua imensa má fé, minimizavam o resultado ruim da economia brasileira, ressaltando a conjuntura internacional desfavorável e aplaudindo o fato de que o Brasil fechou 2019 com um crescimento positivo pelo terceiro ano consecutivo.
Ora, com relação à conjuntura internacional, não há do que se orgulhar, é bom lembrar alguns números e comparar: os Estados Unidos cresceram 2,3% e o desemprego foi de 3,8%; a França registrou aumento de 1,2%, apesar dos coletes amarelos e da maior greve de transportes da história, que literalmente paralisou o país; a Inglaterra cresceu 1,2% em pleno Brexit; Portugal 2,2%; Canadá 1,5%.
Mas vale a pena lembrar que o que importa não é a honestidade intelectual, pois os bolsonaristas presentes nas redes estão dispostos a engolir tudo, desde que se fale bem do chefete. A verdade sobre o PIB é secundária. Eles aplaudem sempre, qualquer que seja o descalabro, até mesmo quando o anúncio do filhote 01 diz respeito à liberação de navios de cruzeiro e criação de zonas de pesca e recifes artificiais em Fernando de Noronha. Aplaude-se. A palavra de ordem é ser descerebrado.
Quanto a nós, que insistimos em pensar (algo tão fora de moda), está difícil navegar nesse mar de lama.
Dias atrás, lancei um modesto apelo à união de todos os democratas, ao meu ver a única forma de se opor de maneira eficiente ao populismo de ultradireita e se preparar para o momento em que pudermos, juntos, lutar para restabelecer a democracia. Na minha imensa ingenuidade, acreditei que esse fosse o caminho. Enganei-me. Líderes como FHC e Lula reagiram contra o ato anti-Congresso apoiado por Bolsonaro. O tucano de forma até mais contundente que o petista. Mas nem Lula, nem FHC, nem Ciro Gomes, nem ninguém parece disposto a deixar de lado as suas verdades e vaidades em nome da unidade das forças de oposição.
Em meio à crise, como se a manifestação do dia 15 fosse um episódio anódino, Lula veio à Paris, receber o título de cidadão honorário. Depois de um discurso chocho, em que pela enésima vez dedicou-se a atacar Moro por tê-lo colocado na prisão, deu entrevistas. Que decepção! Numa delas, Lula deu a entender que não havia razão para abrir um procedimento de impeachment ao encontro de Bolsonaro, pois “não podemos destituí-lo só porque não gostamos dele”. Só porque não gostamos dele??? Razões existem às pencas para destituí-lo; pode-se optar por levar a situação em banho-maria por motivos de estratégia política ou pragmatismo, já que não há maioria no Congresso para votar o impeachment. Mas daí a minimizar a quebra de decoro, as mil e uma violações da Constituição, os ataques reiterados à imprensa etc, etc, etc, pelo amor de deus! as palavras de Lula nos insultam, são uma desfeita àqueles que tentam no dia-a-dia brigar para salvar o Brasil da ditadura depois de terem conseguido tirar o ex-presidente provisoriamente da prisão.
Para o novo cidadão honorário de Paris, Bolsonaro tem todo o direito de permanecer os quatro anos de seu mandato no Planalto. Faça o que fizer. Eu respondo NÃO, a continuar nos tratando como palhaços ele deveria partir. Admito porém que não temos condições de destituí-lo. Então, baixemos a crista, mas continuemos a cantar de galo a cada investida presidencial contra a sensatez, a inteligência , o respeito e sobretudo a Constituição. É o nosso direito, é a nossa obrigação.
Em tempo, Lula: Maduro não é democrata, nem foi democraticamente eleito.
Milton Blay
por Mauro Nadvorny | 5 mar, 2020 | Literatura, Poesia
Uma tarde qualquer!
Estar só, não é o mesmo que solidão.
Quando estou comigo mesma, não me sinto só.
Há um confraternizar com as minhas ideias.
E as linhas que escrevo, são compostas de palavras molhadas pelo néctar do paraíso.
Os pensamentos que possam parecer turvos
Estão cheios de uma clareza particular
Vim de lá, e cá estou.
Aqui me encontro
E contemplo as vidas que passam pela minha frente
Transeuntes, que diante de meus olhos, se tornam indefensos.
Eu os observo, e faço deduções secretas.
Uns tomam um sorvete
Outros saboreiam uma Coca-Cola
Sinto que eles não me veem a degustar esse Chopp
E o trem da vida, corre na velocidade do pensamento.
E imagino o meu cérebro pousado na mesa à minha frente
Pulsando na força das artérias…
Não existe solidão, quando seu cérebro faz tantos registros.
São tantos rostos
Cheio de sonhos desconhecidos
Imagino que neles existam amores não vividos
Mas será que isso importa?
Um bebê agora me sorri
E um homem deixa transparecer um desejo carnal
E esse Chopp encorpado?
Lá vem uma garota, que corre com um sorvete na mão.
São imagens fugazes
E não há tristeza nessa solidão
Apenas fragmentos de despedidas
E lembranças que serão guardadas
Em memórias jamais esquecidas.