Terceira eleição em Israel

Uma colheradinha sobre mídia israeli e politica, pra quem pensa que só no Brasil acontece.

Depois de passar mais de 2/3 de minha vida na minha amada “Entidade Sionista”, aprendi alguma coisa sobre eleições. Uma delas é não comemorar boca de urna. Você pode ir dormir com Peres e acordar com Bibi. (Veja 1996). Desde então, meus cabelos brancos sempre aumentam entre 91 e 100% da contagem. E um fator importantíssimo nesse momento seria receber analises comedidas, de bom senso e de quem? Da mídia, correto? Mas…

Infelizmente, a mídia israelense simplesmente não cumpre seu dever, ela é bajuladora e se encolhe, confusa e sem noção. Novamente. Começou já ontem com a promoção de uma consciência completamente equivocada, como se os resultados fossem uma “vitória arrebatadora” para Benjamin Netanyahu. Foi assim com os canais de TV, com jornalistas rinocerontes, e tambem na maioria dos sites de notícias e jornais. O problema é que isso é factualmente incorreto. O objetivo declarado de Likud e Netanyahu era chegar a 61 no bloco de direita para formar facilmente uma coalizão, mas isso provavelmente não acontece (supondo que a situação permaneça a mesma depois de contar os envelopes duplos e os votos dos soldados). Netanyahu fracassou nas pesquisas de opinião pública pela terceira vez em menos de um ano para alcançar a maioria da coalizão. Então, o que resta para ele nesse meio tempo? Assumir o controle da consciência do cidadão como se fosse vitorioso, e isso é feito através dos meios de comunicação, cuja grande maioria é submissa, hipnotizada, e serve a ele e à falsa consciência que ele difunde, como se fosse a Torá do Sinai.

O que vemos é obviamente um jogo de consciência e Bibi o joga com arte. Impossível não admirar sua genialidade midiática, funcionou até pra mim ontem, quando a mídia se apressou a afirmar que era uma vitória definitiva e “acachapante”.

Então, quando vi que não havia 61, me lembrei de quem se trata, uma pessoa que se apossa de todo “sucesso” seja relacionado a ele ou não, e todo fracasso ou, no caso aqui, lodo jogado sobre outros é derrota de outros, e ele simplesmente declara isso como fato.

Por exemplo, vimos dois dias antes da eleição, quando declarou que Galant não havia sido eleito chefe de gabinete por causa de Ashkenazi e Barak, para jogar lodo no adversário, quando de fato, o que aconteceu foi que ele não o nomeou por conta do relatório do controlador estatal, e claro, esqueceu-se de mencionar que quase não houve um oficial sequer do Tzahal, do Shaba”k ou do Mossad nos últimos vinte anos que não o criticasse de maneira aguda. Caramba, onde estava a mídia para contestá-lo e coloca-lo em seu lugar?

Quando ele vence a luta com o Kaholavan, “o povo disse o que tinha a dizer”, mas quando o Kaholavan teve maioria, foi “tentativa de derrubar o bloco da direita”. Entendem?

Tudo isso é um jogo que brinca com nossas mentes, e a mídia em seus programas de noticias o ajudam trazendo tudo quanto é groupie sem nenhuma formação jornalística e políticos que dirão que o povo decidiu que não há confiança no Sistema Judiciario, apesar de que por enquanto, de acordo aos resultados atuais,a maioria dos cidadãos decidiu que não quer presentear Bibi com a concessão de imunidade. E o MK Amsalem (likud) ainda declarou que a maioria do povo acredita em Bibi e que é claro que a maioria dos árabes serão contra Bibi, mas “quem se importa com o que eles pensam?”

Tudo uma perfeita produção de falsa consciência, com total apoio da mídia, inclusive de representantes da esquerda que ou cooperam com ele ou ele conseguiu que seus truques funcionassem sobre eles também até esgotá-los.

Porem – se a situação atual (Bibi 35 – Gantz 33 – bloco da direita 58) continuar, a direita e Netanyahu não conquistaram nenhuma vitória, nem mesmo pequena. Eles falharam pela terceira vez na urna e não têm nem maioria e nem governo. Nos países civilizados, os líderes já pagariam por isso com sua cadeira, principalmente se estivessem na situação legal de Netanyahu. Mas em Israel? Bibi é o rei. O rei está nu, mas todo mundo está sob hipnose e não vê nada. O principal é que “a mídia é de esquerda”. Acordem!

Bordando a Realidade

Tenho lido muitos artigos de opinião. Todos bons e com um tom de denúncia, convocação para o pensamento crítico e qualquer coisa de metáforas. Todos opinando e mostrando possibilidades para mudarmos o discurso com o que está a se espalhar pelo Brasil: o bosonarismo e suas moléculas, que em sua estupidez tem tentado varrer a Constituição Federal do cotidiano brasileiro.

Hoje, conceituados ou não, jornalistas, blogueiros, faceboockeanos e demais entidades ligadas à escrita se posicionam em suas bolhas, arquétipos de segurança e respostas ao que foi dito com inteligência, sarcasmo, aforismo etc. e tal. Eu sou um desses partícipes no faceboock.

Mauro convidou-me por duas vezes para colaborar no seu Blog tão necessário nesse tempo que de bicudo já não é mais, pois extrapolou o mínimo de civilidade. Estamos em tempos perversos: antissemitismo, xenofobia como regra, preconceitos em todas as sequências, institucionalização dos horrores: a morte tem cor e etnia. A cor é do negro, do índio, de quem está à deriva, à margem do lema presidencial: DEUS, PÁTRIA, FAMILIA. Um Estado teocratizado. Sabemos que hoje a Democracia é a boneca sem braços e pernas da criança abandonada.

O que de novo há no front desse DESgoverno? Absolutamente nada! Nenhuma via é observada a favor do coletivo, do povo. Somos atropelados diuturnamente por atitudes distópicas do presidente ao soldado raso. O que fazer?

Dia 8 de março, um dia emblemático e historicamente cheio de significados, aqui, no Brasil, relacionamos ao incêndio ocorrido em Nova York no dia 25 de março de 1911 na Triangle Shiirtwaist Company, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens [na maioria, judeus], que trouxe à tona as más condições enfrentadas por mulheres na Revolução Industrial, iremos às ruas pelejar. Não sei o que nos espera, mesmo com a proposta dialógica de nossas manifestações. Só sei que queremos um país vestido de dignidade para os seus cidadãos e cidadãs sem medo dos becos escuros e livremente andando de mãos dadas sem a abordagem inescrupulosa e arrogante de quem se veste de servidor público, ornado de uma farda com a truculência como diálogo.

Não estou pedindo o Brasil de volta, pois descobri que havia nessa linda colcha de retalhos muitos armários do fascismo e neonazismo. Quero sim, um país civilizado respeitando a carta da Constituição. Quero sim, um país que sabe votar com letramento e não em currais de opressão seja por quem for, não importa de onde emana esses podres poderes de anular a liberdade de quem quer que seja. O voto é a maior carta de alforria de um povo.

Bordo de realismo esse inapto governo, pois sua biografia era aberta aos 57, 5 milhões de eleitores, nos 28 anos como parlamentar. Todos conheciam o seu discurso acéfalo e cruel. Todos!  Erraram por ódio, por se sentirem no direito, através do voto, jogaram no obscurantismo toda a Nação. O que reverbera é o estúpido mantra: “TIRAMOS O PT!” Isso falando em eleitores… E os representantes políticos, que egoicamente foram abandonando o round, e, cá deixaram o “destino” da Nação em nossas fragmentadas mãos. Lutamos não exatamente pelo PT, mas pelas asas da liberdade, que sabíamos estar por um fio e a barbárie seria instalada sem piedade.

O dialogismo tem que haver em mares revoltos, essa é a grande lição de 2018. Espero que reflitam com o rigor da maturidade política este ano e para 2022. Caso contrário, a amada Pátria será um jazigo sem epitáfio legada aos vermes. O NÓ do bordado está dado. Obrigada!

 

Gigi Pedroza

 

Montevideanas

al sur al sur/está quieta esperando/Montevideo (Mario Benedetti)

Lá tantas vezes que não me sinto turista. A Montevidéu que encontrei desta vez se chama memória.

Numa rua típica, baldosa persistente, argamassa quieta, estava a Fundação Mario Benedetti. Do lado de fora, como em tantas outras casas montevideanas, não se suspeita os tesouros que esconde. O grande intelectual, que não teve filhos, nem deixou herdeiros, deixou ordens claras do que fazer com seu imenso legado. Um conselho de curadores, todos voluntários, respeitam a vontade do Mario, preservando sua imensa biblioteca, as obras de arte que ganhou, seus móveis mais significativos. No fundo, um pátio cálido, que convida ao silêncio. Este é o ano de seu centenário de nascimento. As comemorações já começaram e têm a cara do uruguaio universal, identificado com a cidade e suas gentes. Muitas atividades ao ar livre, em forma de diálogo e acolhimento. Polindo, em suma, a memória de um tempo fora do tempo.

No centro da cidade, uma taberna vasca. Preferia uma flamenga, mas resolvemos arriscar. Mais uma vez, uma casa-surpresa. Do lado de fora, apenas a fachada meio ferida pelo tempo. Sobe-se a escada, e … voilà ! Corrimões de madeira centenários, uma porta com vitral colorido que dava acesso ao ginásio de pelota vasca. E tinha gente praticando. Na taberna, boa comida e pessoas conversando sem celular (gente estranha aquela, sem pescoço torto e de olho atento). A construção celebra a imigração do País Basco. Memória viajante.

Afastado do centro, está o Museu da Memória. Criado para lembrar o período ditatorial (1973-1985), que, como no Brasil e em outros países da América Latina, institucionalizou o terrorismo de Estado, fica num casarão que pertenceu a um general. No século XIX, era sua casa de veraneio e, conta-se, lá os adversários eram servidos aos leões que mantinha enjaulados. É um lugar impressionante (embora um tanto maltratado por falta de manutenção e de informações mais detalhadas sobre o acervo impactante). Quem assistiu o filme Uma noite de 12 anos, que reconstitui a situação dos chamados reféns da ditadura uruguaia (entre eles, Pepe Mujica), não tem como ficar indiferente. Lá estão os uniformes reais dos presos políticos (dá calafrios a semelhança com os de campos de concentração), portas das celas, objetos produzidos pelos prisioneiros, fotos dos que foram assassinados e os corpos desapareceram. O objetivo do museu não é clamar por vingança, mas, tal como fazem os judeus com o Holocausto e os japoneses com a barbárie nuclear em Hiroshima e Nagasaki, lembrar para que não volte a acontecer. Memória de dor e de luta.

Não pude evitar um certo desconforto com dois aspectos. O museu fica muito afastado da região central. Talvez por isso, tenha poucos visitantes. Éramos os únicos quando lá fomos. Seria essa uma evidência de desapreço pela história recente do país ? Foi quando lembrei das Marchas del Silencio, que acontecem todos os anos no mês de maio. São grandes manifestações de massa, que reivindicam a localização dos que, sob a custódia do Estado, desapareceram durante a ditadura. Esquecimento ou permanência ? Em qual ponta estaria a verdade ?

Foi quando me deparei com a fotografia de um desaparecido, em exposição numa estrutura em forma de viveiro. Próxima do chão, ela estava quase encoberta por um galho de árvore. Percebi que havia duas formas de apreciá-la. A primeira, projetando o crescimento das folhas do galho. Fatalmente cobrirão a foto, fazendo desaparecer pela segunda vez, simbolicamente, o fotografado. A segunda seria enxergar as folhas como uma proteção da imagem, perpetuando-a.

Qual das visões prevalecerá ? A resposta está no povo uruguaio. Memória em construção.

Israel, terceira rodada de eleições

E Israel chega novamente as eleições com o mesmo impasse das duas anteriores. Nenhum bloco, segundo as pesquisas, tem chance de formar maioria no parlamento para constituir o governo. Em sendo este o caso, vamos para a quarta eleição dentro de alguns meses.

O que impressiona a todos aqui, é de que mesmo diante do inicio do julgamento de Netanyahu em três casos criminais, entre eles a acusação de receber suborno, o Likud, liderado por ele, se mantém firme nas disputa empatado com seu maior adversário, Beny Gantz do partido Azul e Branco.

A Lista Árabe Unida, uma espécie de Frente Ampla dos árabes de Israel, pode chegar a 14 cadeiras, enquanto que Liberman, do partido Nossa Casa, majoritariamente formado por judeus russos, deve fazer de 7 a 8 cadeiras. Ele seria o fiel da balança para que a direita formasse o governo, mas sua ojeriza aos partidos religiosos que formam o bloco de Netanyahu, impede, hoje, que ele se junte a eles.

O bloco de centro-esquerda também tem um grande problema. A esquerda que entra unida como Emet (Verdade em Hebraico), chega a 8 cadeiras, segundo as pesquisas. Somados ao 34 do Azul e Branco, eles têm somente 42 cadeiras. Se a lista árabe os apoiar, mesmo de fora do governo, ainda assim chegariam só a 56 cadeiras. Sem Liberman, não conseguem formar governo. Neste caso a bronca dele é com a lista árabe que ele chama de Quinta Coluna. Não aceita fazer parte de um governo de minoria com o apoio dela de fora.

A polarização é muito grande aqui. Se escuta muito, Rak ló Bibi, menos o Bibi, (lembra algo no Brasil?), e acusações rasteiras contra o Gantz. Em política, quando se aproxima o dia das eleições, se abrem os esgotos. Isso acontece no mundo inteiro.

Talvez as pesquisas estejam enganadas. Talvez um dos blocos não faça o número de cadeiras que elas estão projetando. Isto costuma acontecer e até mesmo as pesquisas de boca de urna não são assertivas. Já teve muita festa de comemoração de vitória de um bloco partidário durante a noite que se transformou em velório na manhã do dia seguinte.

Todos aqui estão descontentes com este impasse. O país está paralisado a praticamente um ano e pode continuar assim por mais 6 meses, no entanto, quase a metade da população acredita que vamos ter sim uma quarta rodada.

Se isto acontecer, vamos ter um primeiro ministro, que continua no poder, sendo julgado pelo cometimento de vários crimes. Ele além de se governar, terá de lidar com a sua defesa. Não é pouca coisa. Ele está bastante enrolado e existe uma chance muito grande de que seja condenado a cumprir pena. Imaginem a situação.

Netanyahu sabe disso tudo. Não conseguiu aprovar imunidade, mas pode tentar passar a Lei Francesa, como é conhecida aqui, a lei que impede o julgamento de um primeiro ministro na função. É só o que resta a ele fazer para ganhar mais tempo. Para que isso aconteça, teria de ganhar as eleições e ter certeza de que dentro do seu bloco todos votariam a seu favor.

Por mais que se especule diante dos resultados apontados nas pesquisas, precisamos aguardar mais dois dias para saber o resultado das urnas. Vamos deixar elas falarem para termos certeza do que vai acontecer no dia seguinte.

Aqui em Israel existe todo um protocolo para formação do governo. O presidente dá esta incumbência para aquele que tiver o apoio de uma maioria, mesmo que não chegue a 61 cadeiras. Ele recebe a incumbência de tentar convencer outros partidos a entrarem no governo. Se não tiver sucesso, passa a tarefa para o segundo melhor colocado. Se ele também não tiver sucesso, qualquer parlamentar que apresentar uma lista de que possui o apoio de 61 congressistas, forma governo.

Se tudo isso fracassar, como nas duas últimas eleições, uma quarta será marcada. Sim, o parlamentarismo tem seus problemas. A democracia não é um regime perfeito, ainda assim, é o melhor que existe.

 

 

O Fim da Ditadura Insidiosa

Qualquer pessoa com um mínimo de informação e bom senso sabe: o golpe está em marcha, o objetivo é passar da ditadura insidiosa que vivemos a uma ditadura institucionalizada, com leis de exceção e todo o aparato repressor. O clã Bolsonaro, os militares, evangélicos, mulheres que defendem a falocracia e outros fascistas que integram o governo, estão em plena campanha pelo endurecimento do regime, com apelos ao AI5, pouco importa qual seja o seu futuro nome, e o consequente fim do período democrático. Os sinais são claríssimos, transparentes.

Não foi por acaso que no Nordeste, região que não aderiu ao bolsonarismo, os policias militares, muitos dos quais encapuzados, escondendo o rosto de milicianos, entraram em greve, numa evidente violação da Constituição Federal. Foram além, passaram a não mais respeitar as autoridades estatais, referindo-se diretamente à Brasília, como se fossem subordinados diretos de Jair Bolsonaro. O movimento se alastrou e hoje engloba metade dos Estados brasileiros.

Não foi tampouco por acaso que nos últimos meses Bolsonaro trocou ministros e responsáveis civis do segundo escalão por militares, inclusive da ativa.

Ao reconhecer que o presidente da República flerta com os motivos legais de impeachment, o general Augusto Heleno decidiu agir, declarando guerra ao Congresso. Afinal, a segurança institucional é o seu setor. Inventou uma chantagem do Parlamento e concluiu com um sonoro “Foda-se”. Foi então que se articulou uma manifestação em defesa dos militares, contra os inimigos do Brasil que são  o Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal. O general pôs fogo no circo, numa manobra muito bem preparada. As principais palavras de ordem, o fechamento do Parlamento e do STF, receberam o apoio do presidente da República, através do WhatsApp.

Vale sempre a pena lembrar:  Quando o general Augusto Heleno era chefe da Minustah, as forças da ONU enviadas ao Haiti, os soldados sob seu comando cometeram inúmeros atos de violência ao encontro da população, milhares de mulheres foram estupradas, 70 favelados mortos, 20 desaparecidos e 300 feridos na maior operação militar no país. Os mortos foram assassinados com tiros na cabeça, à queima roupa. Mais de 23 mil cartuchos foram detonados. Demitido do cargo pelo então presidente, por exigência da ONU, o general passou a considerar Lula seu inimigo mortal.

Agora, Jair Bolsonaro e seus filhos, sob o estímulo original do general Heleno, pregam que os militares intervenham no Congresso e no Supremo.

Apesar do absurdo do apelo, não se pode dizer que haja surpresa nessa atitude abertamente antidemocrática, que por si só justificaria a abertura de um procedimento de impeachment. Há 20 anos, o então deputado declarou que se um dia chegasse à presidência fecharia o Congresso e mataria 30 mil, dentre os quais o chefe de Estado da época, Fernando Henrique Cardoso. Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral, em 2018, reincidiu, ao dizer que “se caísse uma bomba H (de hidrogênio, muitas vezes mais potente que uma bomba atômica) no Parlamento, pode ter certeza, haveria festa no Brasil.” Agora, foi apoiado pelos filhotes 01, 02 e 03.

Dependendo do número de bolsonaristas presentes, a manifestação programada para 15 de março poderá ser o preâmbulo da instauração de uma nova ditadura, assim como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi uma espécie de prólogo do golpe de 64. Diante dessa possibilidade, até mesmo alguns jornalistas ultradireitistas, mas que conservaram um mínimo de respeito à democracia, pedem que seus leitores não compareçam ao ato. Uma prova de responsabilidade tardia.

Quanto a nós, que sabíamos muito antes o que aconteceria caso o abominável fosse eleito – o pior, a hora é de esquecer as desavenças e formar uma compacta aliança democrática, congregando todos aqueles que são contra o autoritarismo fascista. Todos, sem exceção, a começar pelas lideranças políticas, que poderiam ou melhor deveriam esquecer por dois minutos a vaidade que os desune para elaborar um manifesto da Frente Unida pela Democracia. É o mínimo que se espera deles em nome da biografia. Caso contrário, amanhã, serão chamados, com razão, de cúmplices da barbárie.

 

Sionismo é Racismo?

(escrito há muitos anos mas ainda atual)

SIONISMO É RACISMO?

 

Não, Claro que não é. Da mesma forma que Islamismo não é terror nem sexo é promiscuidade nem dinheiro é necessariamente o produto da exploração do homem pelo homem.

O que sim é verdade é que existem sionistas racistas, e muçulmanos terroristas, e não poucos degenerados sexuais, e não menos capitalistas sem entranhas.

No saber e querer diferenciar a uns dos outros, os doentes de ódio dos sãos de espírito, os inimigos mortais dos amigos leais, é onde reside a principal qualidade que nos faz diferentes dos irracionais. Hitler e Torquemada, Mussolini e o Mufti al-Husseini, não o souberam nem o quiseram, e por isso nos legaram como herança a ignomínia das suas idéias, a sem-vergonhice dos seus atos, e bastantes páginas negras da nossa História escritas com o sangue inocente das suas vítimas.

Hoje e agora, as minorias fundamentalistas islâmicas, judias e cristãs, tropeçando de novo na mesma pedra, transitam por igual caminho em direção ao mesmo precipício.

O fundamentalismo islâmico, com os seus ataques suicidas, que além de matar judeus inocentes da forma mais covarde concebida pela mente humana, salpicam com esse sangue a honra e a imagem da sua própria religião, já que o nome de Alá fica irremediavelmente associado a essa barbárie cometida em seu nome.

O fundamentalismo judeu, organizado em seitas religiosas e gangues laicas, ao tentar impor suas loucas idéias de um deus vingativo e exclusivo, e de um Grande Israel Bíblico do ponto de vista territorial, ao qual o povo judeu renunciou expressamente ao assinar a partição da Palestina, usando para tal fim não apenas o discurso ou a propaganda, mas as armas e o assassinato dos líderes do Estado de Israel (começaram com Rabin e agora até Sharon – seu aliado natural até uns meses atrás – está na mira deles).

O fundamentalismo cristão, incitando ao ódio às outras religiões e apoiando e aplaudindo a tortura dos inimigos de seu deus todo-poderoso, transformando o conflito numa guerra santa contra o Islã, e o exército dos Estados Unidos em Soldados do Cristianismo (por analogia, os novos cruzados).

Compete a todos os que não nos deixamos arrastar por slogans pré-fabricados ou por medos manipulados pelos porta-vozes do além, enfrentar-nos a esse tudo ou nada que eles propõem, construindo uma estrada transitável que conduza à concórdia e não ao cemitério; a bom porto e não ao naufrágio da esperança.

Visto isso, só resta então formular a pergunta do milhão: afinal, o que é sionismo?…

A minha modesta resposta a esse enorme interrogante começa no início do túnel do tempo, quando o povo judeu abandonou a terra prometida por razões alheias à sua vontade (ou sumir ou sucumbir).

Durante milênios então, o sionismo hibernou no útero de uma frase simples, representando apenas a verbalização de um desejo irreprimível, um sonho condensado em poucas e premonitórias palavras: no ano que vem em Jerusalém (be shaná haba’á birushaláim, em hebraico).

E assim o sionismo, que nem mesmo sabia que esse era o seu verdadeiro nome, vivia e sobrevivia em estado latente dentro dessa simples frase que foi passando de geração em geração, de boca em boca, de coração a coração, até um dia qualquer do um ano qualquer do século XIX, em que alguns judeus decodificaram a vontade de grande parte da diáspora de voltar para casa, considerando que havia chegado a hora de traduzir a mensagem genética contida na pequena frase herdada, à linguagem dos fatos, propondo táticas e estratégias que permitissem transformar o exílio imposto em retorno; a prece milenar em pátria.

E foi assim que esse sionismo ganhou nome próprio, sobrenome comum e um projeto de viabilização, começando então a construção de uma ponte que unisse o sonho herdado à realidade possível.

Era o começo do fim do desarraigamento para todos aqueles que assim o quisessem, ainda que as resistências não fossem poucas nem banais, já que a maioria do Establishment religioso se opunha (e ainda o faz depois de 57 anos de independência) esgrimindo argumentos paridos na diáspora, sem qualquer relação com os livros sagrados, segundo os quais o retorno só será permitido com a chegada do Messias.

Essa foi a razão pela qual o Sionismo pioneiro foi fundamentalmente laico, e ainda o é, apesar de ter deixado de ser um projeto virtual para transformar-se no Estado de Israel real. Não o Israel maximalista dos fundamentalistas, mas sim o Israel possível dos realistas.

Indivíduos primeiro e grupos depois, foram pouco a pouco desembarcando do navio do tempo nos portos da velha pátria, e iniciaram a empreitada, plantando famílias no deserto e nas cidades; secando pântanos e sobre eles implantando produtivas fazendas coletivas; erigindo escolas para todos os alunos, hospitais para todos os doentes e prisões para todos os criminosos.

Isso é sionismo: o puro e simples direito de reconstruir a casa nacional sobre parte do território primitivo e nela acolher a todos os que desejarem fazer a viagem de volta (as fronteiras – não o esqueçamos – foram democraticamente aceitas pelos representantes do povo de Israel, renunciando a qualquer reivindicação de territórios fora dos limites aprovados).

Hoje, entretanto, constatamos com pesar e temor, que no corpo do Estado de Israel crescem e se multiplicam pequenos tumores malignos cujas metástases comprometem seriamente a saúde do país. É o tal do hiper-sionismo ou mega-sionismo, inspirado no fundamentalismo religioso radical, aliado a uma visão fundamentalista laica de extrema-direita, de ignorar todo o trabalho feito para a construção do Estado de Israel, das suas leis, das suas fronteiras, das assinaturas nos acordos internacionais, do respeito aos direitos humanos de todos os humanos, com a malsã intenção de implantar a pátria bíblica dos contos de fadas, tanto no que respeita à sua dimensão territorial (expulsando a milhões de palestinos de suas terras e anexando-as) quanto à imposição de um Estado clerical ao estilo das repúblicas islâmicas mais retrógradas. E isso – que não caiba nenhuma dúvida ao respeito – não é sionismo. Isso é pura e simplesmente anti-sionismo, e deve ser combatido por todos aqueles que vêm no Estado de Israel (e não na terra de Israel) a tradução fidedigna do sonho gerado e gestado pelo povo judeu ao longo dos séculos no seu caminhar diaspórico.

O sionismo é um direito e não um dever, e o Estado de Israel é o fecho de ouro dessa travessia de ida e volta do povo judeu.