Por que Impeachment

Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido respeitável) defenda o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.

O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.

O papel do presidente da República não é apenas propor reformas através da lei. Longe disso.

Todos os líderes populistas atuais, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. E pior, dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve muitas internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.

Isso mostra o grau de responsabilidade que tem um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, têm enorme valor simbólico. Governa-se através deles.

Em outras palavras, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower”. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial uma assinatura que não seja a sua.  Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas.  Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.

Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e até obediência.

O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet,  Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).

O presidente não pode responder E daí, quando escolhe para diretor geral da PF um amigo do filho que está sendo investigado, nem para comemorar as vítimas da Covid-19; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque o seu apoiador incondicional desrespeita o isolamento e corre solto rumo ao risco de morte. Ele não pode se negar a apresentar o resultado do teste do coronavírus, o que faz até hoje com o teste realizado pela Fiocruz. Ele não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid-19.

Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro têm enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.

Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso. Se o ministro da Educação pode ser racista, eu também posso.

Acontece que o capitão comete crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.

Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país.

Hoje temos no Brasil uma situação de quase guerra civil: de um lado fanatismo e ódio, de outro angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar para o abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse fascista descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. Pouco importa que seja pela via do impeachment, pela condenação da chapa pelo TSE, ou pelos crimes comuns que correm no STF. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia.

 

O olho que não quer ver

Diz o velho adágio que “o pior cego é o que não quer ver”. Pois é certo que por vezes temos a impressão de que o próprio olho, apenas um órgão no complexo sentido da visão, passa a ter vontade própria na rebelde perversidade da cegueira voluntária. É o que transpareceu na entrevista de ontem que o Ministro Luis Roberto Barroso, no programa Roda-Viva, da TV Cultura de São Paulo.
O Ministro Barroso constituiu-se, à época de sua indicação, como uma grande esperança para o setor progressista. Em entrevista pouco anterior à sua posse, descrevia o “Mensalão” como “um ponto fora da curva”, o que dava a impressão de ser uma visão crítica sobre os óbvios arroubos meramente moralistas do STF pelos quais a corte se conduziu, dando a impressão à sociedade de que aquilo que ali se julgava era algo realmente extraordinário e novo na política brasileira, nascida corrupta, crescida corrupta, e consolidada corrupta, sob as barbas longas e grisalhas no nosso sistema de justiça e dos órgãos fiscalizadores.
Se o Ministro exibe ao longo da entrevista um extenso cabedal filosófico pertencente ao mundo humanístico e iluminista, permeado de prudência, racionalidade, amor à ciência e devoção à democracia, escorrega pateticamente no “lavajatismo”, chegando a rezar o credo daquela classe média bem descrita pela filósofa Marilena Chauí, peça litúrgica que pretende nos levar a acreditar, nas suas próprias palavras, que “a eleição de 2018 foi uma resposta da sociedade que acreditou ser o certo o caminho do combate à corrupção”.
Nada pode ser mais contraditório e paradoxal do que em poucos minutos ouvir, da mesma pessoa, um discurso humanista e cientificista e o discurso raso do “o que aconteceu na Petrobrás foi crime”, como se a empresa fosse a sede das eventuais atividades criminosas e como se o tempo destas práticas fossem restritos aos governos do PT. Mas tudo pode piorar. O Ministro prossegue na sua exegese histórica afirmando que “a sociedade mudou depois da Lava-a-Jato, tornou-se menos leniente com a corrupção, e que os costumes mudaram”.
Temos então o tal olho que parece ter vontade própria de não querer ver, conectado a um cérebro que parece não ter processado adequadamente tudo o que o olho viu e ainda sem condições ou vontade de processar tudo aquilo que continua vendo.
Uma rápida passada de olhos no que está acontecendo hoje na gestão das OSS (Organizações Sociais de Saúde), aqueles monstrengos nascidos da maior fábrica de corrupção e corruptos da história recente da República, a Lei 9637/98, considerada constitucional pelo STF (já na presença do Min.Barroso, julgada 14 anos depois da instauração da ADI 1923) bastaria para se enxergar o contrário. A sociedade tornou-se ainda mais cega e leniente com a corrupção, e seus agentes ainda mais ousados, como se a crença na impunidade tivesse mesmo se ampliado aos múltiplos. Numerosos alertas foram feitos desde a sanção daquela lei, e não faltaram alertas de ministros mais antigos da corte (4 votos pela inconstitucionalidade) entre os quais o desesperado voto memorável do Min.Marco Aurélio Mello, que certamente já podia olhar a paisagem devastada pelo retrovisor, dado o alargado prazo entre a impetração da referida ação e seu julgamento.
Como ex-procurador do Estado do Rio de Janeiro, o direito de ignorar as práticas sistemáticas nas relações entre o público e privado que já levaram à prisão de 4 ex-governadores do RJ, de juízes, procuradores, de conselheiros do Tribunal de Contas do RJ, deveria ser algo não digno de ostentação, se não bastasse ainda o cenário do Estado de S.Paulo, onde quase nada se investiga e o pouco que se acha é arquivado sem prossecução criminal dos agentes em troca de acordos de indenização e leniência que poucas mães ofereceriam aos seus filhos.
Assim, a estreita visão espacial e temporal do Min.Barroso não combina com a amplitude e o estofo que exibe ao discorrer sobre as virtudes do iluminismo e do estado moderno, deixando-nos a árdua tarefa de buscar as raízes profundas do comportamento de um sistema ótico que na obsessão de formar uma imagem desejada perde-se nas aberrações cromáticas e geométricas próprias das lentes de má qualidade.
Estas contradições, embora humanas, não nos ajudarão a curar as doenças sistêmicas do Brasil. O Ministro Barroso frustrou-nos, definitivamente. Ingênuos fomos nós, que assistimos ao programa na esperança de algo realmente novo.

Maracanã, 70

Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra (Eliane Brum)

Dava para ir a pé, a excitação do jogo começava na caminhada. Passava pelo quartel da Polícia do Exército, de triste memória, margeava o muro do Colégio Militar, desembocava numa avenida sangrada por um rio anêmico. Metros adiante e a agitação de torcedores mergulhava em bilheterias precárias. Em dia de clássico, contorcionismo para comprar o ingresso. Subida rápida pela rampa, primeiras gozações dos adversários, entrada num pequeno túnel, geralmente impregnado de odores suspeitos, e, por fim, o manto verde que abraçava o Menino e abria as portas da arquibancada. Chega pra cá, empurra pra lá, desvia do Mate Leão, da Kibon e da Geneal, e o balé de chuteiras começava no Maracanã.

O velho estádio completa 70 anos. Nasceu como abre-alas de um projeto ufanista, a provar que estávamos prontos para entrar na primeira divisão das nações. Sediar uma Copa do Mundo, e sobretudo ganhá-la, seria a senha para dar-nos o status que supostamente merecíamos. Sabemos no que deu. Pois é, no dia 16 de julho de 1950, uma tarde ensolarada, quase dez por cento da população do Rio testemunharam ao vivo o Maracanazo. Fruto de uma combinação azeda de soberba, intoxicação política e de uma atuação técnica impecável da seleção uruguaia, comandada por “El Jefe” Obdulio Varela, o onze brasileiro caiu por dois a um. Parecia confirmar-se a maldição de que este país jamais poderia dar certo. José Lins do Rego, que, à diferença de seus contemporâneos escritores, adorava futebol, disse: “Vai um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse do enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais do que derrotado, sem esperança”. O Maraca nasceu violentado por uma tragédia, batizado de silêncio. A história seguiria outros caminhos.

Minhas memórias do estádio são em preto e branco. Sempre frequentei a arquibancada, espaço simbolicamente reservado ao pessoal remediado, que não precisava se espremer nas gerais e não tinha como pagar o preço das cadeiras numeradas. Quase nunca o Menino foi acompanhado aos jogos. O Pai jamais falava de futebol. A única vez em que senti sua presença na arquibancada foi num memorável Fla x Flu, talvez ainda nos anos 50. É dele a lembrança de uma jogada genial do Dida, atacante do Flamengo e titular da seleção de 1958 até a erupção de Pelé. O jogador estava na intermediária rubro-negra, levantou a bola, dominou-a na cabeça e, esperança equilibrista, foi quicando com ela até quase a área adversária, sem ser abalroado por um carniceiro, como seria nos dias de hoje. Pequena obra de arte, que gostaria de comemorar com um abraço no Velho. Que não aconteceu.

Afonsinho, pioneiro da luta pelo passe livre, dizia gostar de jogar na chuva. Era quando podia sentir o cheiro de terra molhada. No dia 15 de novembro de 1963, ano em que o Flamengo saiu da fila de 8 anos sem ganhar o campeonato carioca, choveu muito. Os planos do Menino ir ao Maracanã assistir o Clássico dos Milhões pareciam naufragar nas poças. Resolveu encarar o aguaceiro. Na arquibancada, desfalcada pelo mau tempo, viu um dos melhores jogos de sua vida. O Flamengo virou um jogo quase perdido e venceu o Vasco por quatro a três. Placar de pelada, grama amigável, alma e pés lavados. O cimento da arquibancada, quem diria, nunca foi tão confortável.

Impossível dissociar as imagens do jogo das vozes que o transmitiam. O torcedor com radinho de pilha grudado no ouvido tem destaque na galeria de tipos que frequentavam o Maraca. Não bastava olhar a partida, era necessário confirmá-la pelas ondas do rádio. Nas cabines, os caras que inventavam o que estava acontecendo. Inventar no espírito poético do Manoel de Barros. Ary Barroso, Flamengo roxo, com sua gaitinha, narrava as jogadas sem esconder a paixão clubística. “Ih, não quero nem olhar !”, exclamava quando o ataque adversário dava sinal de vida. “Graças a deus foi pra fora !”, suspirava aliviado quando o chute saía pela linha de fundo. Waldir Amaral e Oduvaldo Cozzi, dois lordes, discretos, não enfeitavam a locução, mas lhe conferiam um ar respeitoso sem esquecer o terreno boleiro que pisavam. Waldir foi craque na criação de bordões. O meu preferido: “Está deserto e adormecido o gigante do Maracanã”, que dizia ao final de cada partida e após os comentários do João Saldanha ou do Luiz Mendes.

O estádio acessível a qualquer um, embora com níveis muito diferentes de comodidade, desapareceu. Os geraldinos foram banidos, soterrados por ingressos com preços inacessíveis. Com visão limitada do campo, faziam da partida uma festa que transcendia a competição. Tipos folclóricos, fantasiados, gaiatos, sentiam-se parte da celebração geral, sentimento interditado na sociedade excludente fora do estádio. Minha sensação é de que o Maracanã envelheceu mal. Fez algumas plásticas, engrenou um jeito boutique de ser, tornou-se distante das grandes massas que justificaram sua construção. Torcedores vindo de subúrbios distantes, saindo do trem e correndo eufóricos para o estádio, talvez a única alegria da semana, é agora imagem de museu. A arte e a beleza da comunhão entre torcidas e times deram lugar a um padrão elitizado, utilitário, monetizado, gourmetizado.

E havia um vírus no caminho

Nem o pior pesadelo se compara ao que estamos passando com o Covid-19. Ele supera em realidade o que muitos filmes de ficção tentaram mostrar em situações semelhantes. Tudo isso porque somos nós os atores do dia a dia nesta pandemia.

Muitas teorias conspiratórias foram criadas, e provavelmente outras virão à tona enquanto não tivermos a maldita vacina para este vírus, o que se espera para o ano que vem. Enquanto isso, os números de infectados e mortos aumentam no mundo inteiro, especialmente em países que ousaram fazer pouco caso da ameaça, como o Brasil.

Parece que não aprendemos nada com a Gripe Espanhola que em dois anos de pandemia, não havia ainda vacina, infectou um quarto da população mundial da época (1918 a 1920), 500 milhões de pessoas e deixou 50.000.000 de mortes no seu caminho. Teve também uma segunda onda, muito mais mortal do que a primeira neste período.

É fato que os cientistas de nossos dias não presenciaram o que aconteceu, muita informação médica foi perdida. Como hoje, muitos governos maquiaram os números e a gravidade do que aconteceu. A quantidade real de mortes varia entre 17 e 100 milhões, dependendo onde se procure a informação, por isso a estimativa de 50 milhões seja a mais realista.

Com toda a nossa capacidade de informação, os acontecimentos que começaram na China no início do ano, logo chegaram ao mundo inteiro. Todos os países tiveram a chance de fechar suas fronteiras, todos tiveram a chance de se prepararem com o abastecimento dos hospitais e a compra de máscaras e luvas. Estes procedimentos teriam impedido a maioria das mortes, mas foram negligenciados pelos governantes, em maior, ou menor intensidade.

A gravidade da situação podia ser percebida pelas medidas que o governo Chinês tomou. Só não viu quem não quis. Hospitais tiveram de ser construídos as pressas, e o isolamento social radical adotado. Uma cidade inteira entrou em lockdown. O vírus se mostrava altamente contagioso e extremamente mortal.

A falta de bom senso, de precaução, ou mesmo a ignorância de alguns governantes levaram as tragédias sociais que ainda estamos assistindo. Os números de infectados, que não para de crescer, já se aproxima de 8 milhões e o de mortos em 430 mil. Hoje os EUA e o Brasil lideram estas estatísticas.

Quem olhar para o mapa mundial verá que a pandemia veio do oriente para o ocidente. A contaminação foi crescendo na medida que as fronteiras permaneceram abertas e os viajantes doentes foram voltando para casa, ou fazendo turismo onde era permitido. O vírus foi sendo transportado pela aviação no ar, por navios no mar e por terra por seres humanos.

Tanto os EUA, como o Brasil tiveram tempo para impedir o que era uma tragédia anunciada. Ao contrário do resto do mundo que já pagava por seus erros, poderiam ter fechado as fronteiras e não o fizeram. Poderiam ter preparado o sistema de saúde com a compra de material médico, preparação de UTIs com ventiladores, e não o fizeram. Quando foi imperativo, era tarde demais.

No Brasil a situação é ainda pior. O presidente até hoje não acredita na doença e contraria todas as medidas de contenção que a ciência recomenda. Despreza veementemente o isolamento social e o fechamento do comércio em geral. Se dependesse exclusivamente dele, o país teria mantido tudo funcionando. Até hoje não existe um Gabinete de Crise para tratar do Covid-19, algo que todos os países criaram integrando todos os envolvidos com a pandemia, seja pelo lado médico, social e até financeiro.

O ano de 2020 será um ano perdido. Em alguns países o ano escolar não vai contar. Companhias de aviação vão desaparecer, negócios vão falir, empregos serão perdidos, sonhos destruídos. Mas principalmente vidas serão levadas para sempre. Avós, pais, irmãos, primos, amigos, conhecidos que não vão mais estar entre nós.

O Brasil já vinha de uma péssima escolha para presidente e como nada está tão ruim que não possa piorar ainda mais, havia um vírus no caminho.  Espero que a história seja implacável com Bolsonaro e Trump. O americano provavelmente não se reelege nas próximas eleições previstas para novembro deste ano. O brasileiro, que seja impedido de continuar governando, seja pelos crimes eleitorais que sua chapa cometeu, seja pelos inúmeros crimes que vem cometendo enquanto presidente.

Que ambos tenham seus nomes jogados no lixo da história.

 

Geração 20

Talvez esteja nascendo a “Geração 20”, uma geração de jovens antifascistas e antirracistas. Dia 7 de junho houve manifestações em pelo menos vinte capitais brasileiras, é a sétima manifestação seguida, e a cada semana se ampliam. Creio que a divulgação é ainda pequena, afinal, pode estar nascendo o mais importante movimento contra o conservadorismo do século XXI. Interessante como os jovens começaram a se organizar em plena pandemia com capacidade de ir à luta por eles e por nós. Vão à luta nas ruas com máscaras, cuidando-se, porque entenderam que as ruas não podem ser dominadas pelos automóveis que apoiam o desgoverno. Esses são os indiferentes a morte de mais de quarenta e um mil brasileiros pelo covid 19, porque falta um Ministério de Saúde competente. É chocante ver Trumpete e seu pai Trump dizerem que os jovens defensores da democracia são terroristas. Eles odeiam as lutas desta geração, que fortalece o frágil humanismo em tempos mortíferos.

Lembro a geração de 68 que em 2018 foi motivo de recordações pela passagem dos seus cinquenta anos. Aqui em Porto Alegre, essa geração não tinha mais do que centenas de jovens, sem apoio das mídias, pelo contrário. Portanto, a vanguarda de uma geração faz história, são os que sonham, não se adaptam à vida como ela é. Nas passeatas daqueles tempos não era fácil reunir gente. A reunião era na frente da velha faculdade de Filosofia, liderada pelo “DCE Livre”, e a caminhada era para o centro da cidade com cânticos como: “Povo unido jamais será vencido”. Numa das passeatas gritamos: “É pacífica, “É pacífica”, mas a Brigada não escutou, estava condicionada a bater e terminar com as manifestações de qualquer forma. Foram tempos de luta, poesia e amor; valeu a pena viver a vibração daqueles dias, mais sonhadora que hoje, mas mais distante da realidade.

Já são sete semanas seguidas de manifestações, cresce o entusiasmo dos jovens que caminham com bandeiras e máscaras na defesa de uma sociedade mais justa. Ao mesmo tempo nos Estados Unidos, o assassinato de George Floyd desencadeou um intenso movimento antirracista. Lá também nasce a Geração 20, que aos poucos se acorda e vai à luta. Talvez ainda sejam escritos livros dessa geração cuja energia de frente ampla com grupos democráticos está marcando a História. Os jovens lutam por uma sociedade mais justa e mais humana porque senão o amanhã será mais sombrio. São grupos das torcidas de futebol, de universitários, jovens de esquerda, de centro. Alguns dos cartazes estampam: “Todos pela Democracia”, “Bolsonaro terrorista é você”, “Preto unido Preto vivo” vão às ruas todos domingos.

Aplaudo a rebeldia da “Geração 20”. Essa juventude segue uma velha tradição histórica da rebeldia dos profetas bíblicos que lutaram pela justiça e pelo amor do “Cântico dos Cânticos”. São os que não atacam a natureza, defendem a educação, a saúde para todos, e são contra o racismo e o autoritarismo crescente. Têm lado, não estão do lado das milícias, nem dos que dão condecorações a elas. São contra o terror, por isso são atacados pelas Forças Desalmadas, mas sonham em recuperar o Brasil que vem sendo destruído. São sonhadores sim, pois sem imaginar o amanhã, sem sonhar que outro país é possível, não haverá chances de um futuro melhor. Tinha concluído a Geração 20, mas faltava um relato fidedigno do que vem ocorrendo exatamente nas ruas. Felizmente encontrei no site e no face do “Psicanalistas pela Democracia”, um artigo sobre o dia sete de junho de 2020 em São Paulo. Foi escrito pelo amigo Psicanalista Paulo Endo professor da USP:
“Estive em muitos cenários que levaram ao ato do último domingo e, para mim, em nenhum momento tal ato pareceu suicida, intempestivo e inventor de mártires. Foi um ato espontâneo que começou com trinta pessoas e, semanas depois, tomou o Brasil”.

O racismo de cada dia

Não é novidade que o futebol, no Brasil, teve raiz elitista. Dela, ramificou-se a tentativa de afastar os negros dos clubes. Nas primeiras décadas do século passado, dirigentes não aceitavam jogadores que desempenhavam funções braçais (bombeiros hidráulicos, pedreiros, carroceiros, etc.). A maioria destes trabalhadores eram negros, o que mostra a conotação racista, disfarçada de discriminação social. Em 1920, durante a visita do rei da Bélgica ao Brasil, o presidente Epitácio Pessoa sugeriu à CBD que não se convocassem atletas negros entre os que desfilariam em homenagem ao monarca. Estendeu a “sugestão” para o Campeonato Sul-Americano de Futebol, em 1922.

Dando um salto de seis décadas. Era setembro de 1982. A Polícia Militar fazia uma blitz na estrada Grajaú-Jacarepaguá. Passava por ali Luiz Morier, repórter-fotográfico do Jornal do Brasil. Teve a intuição de que algo estranho estava acontecendo. Aproximou-se e tirou a foto que lhe garantiria o Prêmio Esso no ano seguinte. A PM tinha prendido vários homens, todos negros, e os conduzia amarrados pelo pescoço. “A sensação que tive quando os avistei era de que a Lei Áurea não valeu de nada. Estavam sendo carregados pelo pescoço como escravos”, disse Morier. Mais tarde, constatou-se que os presos eram moradores de uma comunidade próxima, todos trabalhadores com carteira assinada. Foram liberados.

Novo salto, tempo presente. Manifestantes negros protestam contra o racismo em frente ao Palácio Guanabara, sede oficial do governo do Rio de Janeiro. Chega a polícia e age com a truculência habitual. Em meio à confusão, um policial aborda um manifestante, apontando-lhe um fuzil para o rosto. Para muita gente, tratava-se de cena trivial, quase natural, repetição do comportamento rotineiro da PM quando invade bairros periféricos. No entanto, é importante perguntar-se: o policial agiria da mesma forma se o manifestante estivesse, por exemplo, na orla do Leblon, bairro dos ricos e da classe média alta ? Que sociedade está por trás da farda ? Por que a indignação contra este tipo de violência se dilui em notas nas redes sociais ?

Desde sempre, ouço falar que no Brasil não há racismo, que somos uma “democracia racial”. A “sociedade cordial” não admite suas digitais discriminatórias, violentas. A herança perversa da escravidão, que se reproduz num sistema educacional que não reconhece as peculiaridades da população de origem africana, alimenta o olhar racista. O resultado está aí, tentando arrombar a porta. Três em cada quatro pessoas mortas pela polícia no Brasil são negras. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a chance de um jovem negro ser assassinado é 2,7 vezes maior do que a de um jovem branco. Casos como o do menino João Pedro, morto aos 14 anos com um tiro nas costas durante uma operação policial, viraram uma triste rotina carioca.

Tudo isso me veio enquanto assistia as manifestações antirracistas nos Estados Unidos, desencadeadas após o assassinato de George Floyd. Duas coisas me chamam particularmente a atenção: a presença maciça de jovens e brancos e a capacidade de mobilização sem uma liderança aparente. Parecem sinais de que um limite foi ultrapassado.  Sobra uma pergunta para nós: por que, apesar de termos em comum um racismo estrutural, somos tão negligentes quando os negros assassinados são os “nossos” ?

Por fim, um convite à reflexão. É preciso avaliar o tanto de racismo e discriminações várias que temos dentro de nós. Claro que nos julgamos pessoas bacanas, defendidas contra essas perversidades. No entanto, cercados por um ambiente que pratica esses ódios todo santo dia, é difícil imaginar que, ao longo da vida, não nos tenhamos contaminado. Mesmo que de forma inconsciente. Pois conto meu caso. Durante alguns anos, fui professor no curso de Engenharia Química da Universidade Federal Fluminense. Numa turma muito grande, não sabia identificar os alunos pelos nomes. Certa vez, resolvi dar os resultados de uma prova fazendo uma chamada nominal. Entre as melhores notas tinha alguém que se distinguia claramente. Sem perceber, fiz uma espécie de retrato falado mental, imaginando quem seria aquele aluno. Quando chamei o campeão, quase desmoronei. Era justamente o único negro da turma, que meu inconsciente havia descartado pelo racista que me habita as profundezas. Fiquei tomado de vergonha, mas a vergonha é insuficiente. Minha diferença com os racistas explícitos é que eu luto contra esse módulo abjeto das minhas entranhas, tenho que derrotá-lo sempre e tenho sido bem sucedido. E você, o que tem feito com o seu lado sombrio ?