por Mauro Nadvorny | 20 out, 2020 | Brasil, Comportamento, Opinião, Política
Ainda há aqueles que, como o presidente do PSDB (outrora um partido de aparência respeitável), defendem o diálogo com o capitão, em nome da concórdia. Como se isso fosse possível. Conversar seriamente com Bolsonaro é o mesmo que negociar com o Estado Islâmico, como havia proposto Dilma Rousseff, na tribuna da ONU.
O presidente é a encarnação do mal, pelo que faz, pelo que não faz, pelo que diz, pelo que silencia.
O papel do presidente da República não é apenas fazer, ou seja propor reformas através da lei. Longe disso. A comunicação talvez seja hoje ainda mais importante.
A respeito, todos os líderes populistas, de Trump a Bolsonaro, passando por Modi, Orban, Salvini, Le Pen, não se comunicam pelas regras clássicas. Ignoram os canais tradicionais para se dirigir diretamente ao povo, ou melhor ao seu eleitorado, sobretudo através das redes sociais. O pior é que dizem tudo o que lhes vêm à cabeça. E temos aí um problema seríssimo. Por que? esqueçamos por um minuto Bolsonaro, hors concours. Falemos de Trump. O presidente dos USA, tempos atrás, lançou uma ideia que lhe veio à cabeça no meio de uma coletiva de imprensa: injetar desinfetante no corpo para limpar os pulmões do coronavírus. Lembram-se? Dois dias depois, vendo que a loucura que disse afetava a sua campanha eleitoral, voltou à público dizer que se tratava de “sarcasmo”. Pois bem, nesse meio tempo, muitos americanos, acreditando no presidente, tomaram desinfetante; houve inúmeras internações em hospitais (que já estavam abarrotados) para salvar os seguidores cegos de Trump.
Isso mostra o grau de responsabilidade de um presidente da República. Ele não é um cidadão comum, não tem o direito de dizer o que lhe vem à cabeça, sua palavra não tem o mesmo peso da palavra dos polemistas de mesa de bar. Sua palavra, como os seus atos, tem enorme valor simbólico. Governa-se através deles.
Em bom português, um presidente da República não pode colocar nas redes sociais um vídeo de “golden shower“. Não é que ele não deva, ele não pode, não tem esse direito. Não tem o direito de dizer que para combater o aquecimento climático vamos fazer cocô um em cada dois dias. Ele não pode mandar publicar no Diário Oficial um ato com assinatura que não seja a sua. Ele não pode dar banana para os jornalistas, mandar a imprensa calar a boca, dizer que tal jornalista é gay, ameaçar enchê-lo de porrada, fazer brincadeira de cunho sexual com uma jornalista, nem colocar os jornalistas num cercadinho disputando a palavra com os seus apoiadores. Simplesmente não pode, pois agindo dessa maneira desrespeita uma instituição – a imprensa – sem a qual a democracia não existe. E assim, desrespeita a Nação. Um presidente não pode escolher quais os veículos que participam das coletivas nem reservar a publicidade oficial para os amigos do rei. Não pode transformar uma mídia de serviço público em estatal a serviço do Planalto. Isso é, sim, violação da liberdade de imprensa.
Não pode atacar o Congresso nem a Corte Suprema, a quem deve respeito e obediência, afinal o STF, como bem disse Rui Barbosa, é a última autoridade com direito a errar.
O presidente não pode dizer que a facada que levou deve ser investigada e a morte da Marielle não; não tem o direito de defender milicianos, cuja atividade é ilegal; não pode nomear um nazifascista para ministro da Cultura nem um ministro da Saúde que não entende nada do assunto em plena pandemia; não pode tecer elogios rasgados ao general Pinochet, Alfredo Stroessner, nem a Carlos Brilhante Ustra. A apologia à ditadura militar é crime no Brasil, previsto na famigerada Lei de Segurança Nacional (Lei 7.170/83), na Lei dos Crimes de Responsabilidade (Lei 1.079/50) e no próprio Código Penal (artigo 287).
O presidente não pode responder E daí, dando de ombros, quando é indagado sobre a escolha, para diretor geral da PF, de um amigo do filho que está sendo investigado; não pode indicar para o Supremo um farsante plagiador recomendado pelo mesmo filho; não pode ignorar que a primeira-dama recebeu em sua conta dinheiro suspeito; não pode dizer que a pandemia é um resfriadinho, porque os seus apoiadores incondicionais passam a desrespeitar o isolamento correndo soltos rumo ao risco de morte; não pode mostrar desprezo para com os mortos da Covid 19.
Esses e centenas de outros atos e palavras de Bolsonaro tiveram e continuam tendo enorme influência na vida das pessoas, na forma delas pensarem e agirem. Isso também é governar. Ele cometeu e comete diariamente atos de violação à Constituição. O exemplo que dá é o pior possível, menosprezando a exemplaridade, que faz parte da governança. Assim como os ritos, que foram jogados na lata do lixo.
Por que o problema, meu amigo, é que milhões de pessoas acreditam nele, se identificam com ele e saem por aí, em nome dele desrespeitando a lei, promovendo a desobediência civil, o Estado de Direito e as regras básicas da vida em sociedade. Essas pessoas dizem – e com certa razão – Se o presidente pode, eu posso.
– Se o presidente da Fundação Palmares pode chamar o movimento negro de “escória maldita”, eu também posso ser racista.
– Se o general Heleno pode lançar apelo ao golpe, eu posso defender a ditadura.
-E se o general Mourão pode defender o torturador Ustra, eu posso sair por aí distribuindo porradas.
Acontece que o capitão e seus asseclas cometem crimes cotidianos, até agora impunidos. Enquanto o cidadão comum corre o risco de ser seriamente sancionado.
Bolsonaro considera que só tem de prestar contas ao seu eleitorado cativo. Também acredita que membros nomeados de seu governo, servidores públicos, deputados e senadores eleitos em sua esteira devem lealdade a ele, e não ao país. Para tanto, conta com um cúmplice de peso na pessoa do Procurador Geral da República, fiel dentre os fiéis.
Hoje temos no Brasil dois lados: um movido a fanatismo e ódio, outro a angústia e desespero. Perdemos a racionalidade. Estamos num vale-tudo, que pode nos levar ao abismo. Nesse Brasil enclausurado só há uma porta, que indica a saída, o mais rapidamente possível, desse descerebrado chamado Jair Messias Bolsonaro que, apesar do nome, como ele próprio indicou, não faz milagres. O importante é que vá embora o quanto antes e que assim possamos tentar salvar a democracia. Se assim não for, como parece que não será, que ao menos seja derrotado, de preferência fragorosamente, daqui a dois anos. É o mínimo que os democratas, inclusive de direita, devem esperar. Mas será que em 2022 o capitão, os militares, os evangélicos, a bancada da bala e do boi, os milicianos largarão o osso por uma simples questão matemática do número de votos nas urnas?
É sempre bom lembrar que o poder tem gosto de mel e quem se lambuza fica viciado.
por Mauro Nadvorny | 19 out, 2020 | Crônica
Floresce um novo umbigo na barriga do artista (Wislawa Szymborska)
Difícil sonhar cercada pelas carências da Baixada Fluminense. Com horizonte estreito em Belford Roxo, o desejo de compreender e sentir o mundo da arte parecia muito distante. Silvia Schiavone enfrentou transporte precário, livros caros, violências real e presumida. O bacharelato em Artes pela UERJ veio, finalmente, tão suado que parecia um delírio. E então o pesadelo. O mercado, sempre ele, não a queria. Arte ? Cultura ? Quem precisa disso ? Viu-se forçada a trocar sonhos e sensibilidades por vassoura, detergente, balde, sobrevive fazendo faxinas. Semeou sutilezas, aterrissou asperezas.
Sei da falta que faz a invenção da realidade que a arte proporciona. Cresci com pouca música ao redor. Dois discos de vinil, Tchaikovsky e Schubert, eram meu ralo minifúndio. Vitrola de segunda mão na casinha de vila. A pintura flagrada por meus olhos famintos era um quadro imenso, medíocre, na casa dos avós. Uma família aristocrática saudando a chegada do bebê: C’est um fils, monsieur ! Levou tempo para me descolar daquele academicismo barato. Para compreender, como percebeu o poeta Ferreira Gullar, que a arte existe porque a vida não basta. E também que não existe apenas para ocupar espaço numa parede nua.
As celebrações pelo 250º aniversário do nascimento de Beethoven foram abortadas pela pandemia. Ele, um dos maiores gênios de todos os tempos, foi salvo pela arte. Literalmente. Aos 32 anos, atormentado pela surdez progressiva, escreveu um testamento, encaminhado aos irmãos Carl e Johann. É um documento dramático. Fala da angústia de não poder se comunicar, de se ver condenado à solidão, da perda do sentido mais importante para dar vazão à criatividade. Lamenta não poder ouvir a flauta de um camponês ou o canto de um pastor. Pensa várias vezes em se suicidar. No entanto, e é ele quem o diz, deveu “à virtude e à arte o fato de não ter terminado minha vida com o suicídio”. Alguém concebe o mundo, a galáxia, os buracos negros, sem as sinfonias de Beethoven ? Ou seus concertos e sonatas para piano ? A arte não apenas o salvou, mas nos redimiu neste mundo que demanda sentidos.
Quem assistiu o documentário Wild man blues lembrará da cena final. Woody Allen, clarinetista amador, acompanhado de sua banda de jazz tradicional, tinha acabado de voltar de uma excursão à Europa. Lá, seu talento sempre foi mais reconhecido do que nos Estados Unidos. Pois bem, junto com a namorada Soon-Yi Previn vai almoçar com os pais, em New York. O encontro parece ter sido dirigido pelo ectoplasma de Salvador Dali. Papai e mamãe tratam Woody como uma criança deficiente. O pai insiste que ele, cineasta consagrado, teria sido mais bem-sucedido como … farmacêutico ! A mãe subitamente incorpora todas as ídishe mames e critica a escolha amorosa do constrangidíssimo Woody. Seria melhor escolher uma boa moça judia, sentencia a senhora Nettie. A conclusão não pode ser outra: Woody Allen foi salvo pela sétima arte, que lhe deu régua e compasso para fugir daquele universo limitado. À custa de muita terapia e invenção. Taxímetro, ou egoímetro, sempre ligado.
Com a intensificação da saída de judeus da União Soviética, aí pelos anos 80, aconteceu em Israel uma história interessante. Numa repartição pública, um funcionário estava na lanchonete tomando café. De repente, leva a mão ao peito e cai no chão. Imediatamente o balconista o socorre e salva-lhe a vida. Era um cardiologista soviético, que não tinha conseguido se empregar em sua especialidade. Trocou jaleco e bisturi por avental e canudinhos. Como Silvia Schiavone, a moça de Belford Roxo, não conseguiu exercer sua arte.
Antigamente, os adultos ralhavam com as crianças que faziam arte. Era sinônimo de travessura. Pois acho que hoje precisamos, mais do que nunca, de arteiros, de sonhadores barulhentos, do improviso anti-coturno. Há, como bem sabemos, um morcego na porta principal. E ele não está para brincadeira.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 18 out, 2020 | Brasil, Justiça, Opinião
Moralidade sexual, termo que foi usado pela Advocacia Geral da União – AGU, para cobrar do STF respostas sobre a decisão de junho de 2019, que enquadra atos de homofobia e transfobia, como crimes de racismo.
A AGU se pauta em bases medievais para argumentar sobre esse tema, trazendo dúvidas sobre a legitimidade da Constituição Federal de 1988, que concede igualdade de direitos entre todos os cidadãos brasileiros, e também a liberdade religiosa, sem ressalvas, sem parênteses, sem dubiedades, apenas, liberdade e direitos iguais para todos!
Diante das informações acima, faço-me uma pergunta: de onde vem o respaldo para esse tipo de colocação? Quando começamos a mergulhar no obscurantismo? Quando deixamos de ser um Estado laico?
Estabelecer ou restringir leis com bases teocráticas é um terreno deveras perigoso, pois não sabemos o que isso pode acarretar. O Brasil é um país com uma cultura diversificada, e com diversas vertentes religiosas, e sendo assim, estabelecer direitos e deveres baseados em uma só tendência religiosa, por mais que ela seja maioria, será uma ferida aberta na nossa tão valiosa constituição. Atualmente estamos assistindo um festival de horrores no Brasil, são tantos acontecimentos esdrúxulos, que já não sabemos como administrar de forma racional, e diante disso, volta a pergunta, de onde veio tudo isso? Quando foi aberta a porta do inferno? O que tornou possível esse tipo de colocação de um órgão tão importante como a AGU?
Há mais de dois anos estamos vendo um enxurrada de acontecimentos dantescos no Brasil, e não adianta alguém querer fazer a defesa do indefensável, pois o atual mandatário da nação, desde sua campanha, sempre fez questão de vomitar impropérios dos mais inusitados, e com isso, fez surgir uma legião de “cidadãos de bem”, que são providos de hipocrisia, e se acham donos de uma verdade absoluta e particular.
Qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento sabe que todo absolutismo é danoso, a liberdade é fundamental para a alma humana, sem isso, não conseguimos viver, no máximo, sobrevivemos. É chegado o momento de darmos um basta nessa sanha conservacionista do povo brasileiro, vamos dizer NÂO a instalação de um Estado teocrático neopentecostal, vamos elevar a nossa voz de indignação, e lutar com todas as nossas forças para manter a nossa Constituição, vamos gritar, vamos fazer o que for possível para manter a democracia e o direito a liberdade de ser e estar aonde se queira, independente de etnia, credo ou ideologias!
por Mauro Nadvorny | 17 out, 2020 | Comportamento, Mundo, Opinião
As Fake News já se tornaram uma indústria. Podem ser encomendadas de acordo com a necessidade do cliente. Em breve vamos ter aplicativos que por um valor mensal, o cliente ganha o direito de utilizá-lo criando suas próprias notícias. Provavelmente até templates vão estar disponíveis, o que numa situação curiosa, será possível receber a mesma notícia falsa de campos ideológicos diferentes e em vários idiomas.
Esta semana, o presidente americano retuitou uma mensagem onde informava que o Bin Laden, morto em maio de 2011, era um dublê e que naquela ação, Obama e Biden teriam escondido a morte de 6 Seals, uma tropa de elite da marinha estadunidense que de fato matou o verdadeiro Bin Laden sem nenhuma baixa.
A notícia é tão bizarra, que até mesmo os canais de mídia favoráveis a Trump se arrepiaram. O presidente, confrontado, disse que apenas retuitou e que cabe as pessoas decidirem se acreditam, ou não.
O papel aceita qualquer coisa, quem nunca escutou isto? Todo dia milhares de currículos são manipulados para terem mais peso. Quem faz isso cria uma informação falsa para maquiar sua vida pregressa. O fazem desde o mais simples dos cidadãos, passando por profissionais renomados chegando a nomeados para assumirem uma cadeira no STF. Seria o caso de as pessoas decidirem se acreditam ou não?
As teorias conspiratórias sempre existiram, não são nenhuma novidade, a Internet deu a elas a visibilidade que antes era restrita a poucos idiotas. Agora todos tem acesso a todo tipo de conspiração secreta, e quanto mais secreta, ou seja, não ser divulgada pela mídia tradicional, mais verdadeira ela se torna. Assim, o homem nunca pisou na Lua, a Terra é Plana, os Judeus dominam o mundo, Soros é dono do Partido Democrata Americano, os Maçons estão por trás de grandes eventos, os Templários existem até hoje e por aí vai.
Eu sou da época em que os primeiros computadores eram do tamanho de um elefante. Lembro da IBM, um símbolo da indústria de computadores que não acreditavam em computadores caseiros. Ken Olson que presidia a Digital Equipment Corp em 1977 dizia então “Não há nenhuma razão para alguém querer um computador em casa”. Ainda bem que alguns jovens usando a garagem de suas casas pensaram diferente.
Com a chegada dos computadores alguém teve a ideia de interligá-los e nascia a Internet. Agora era possível interagir com outras pessoas e receber de graça o que antes era pago: a informação. Quem desejava se manter informado precisava ler os jornais, agora não mais, a informação chegava em tempo real. O que antes era somente possível pela TV ou pelo rádio, agora se tornava livre.
Junto com os computadores, chegaram os vírus de computador. É impressionante, mas a popularização da computação trouxe consigo uma nova maneira de prejudicar as pessoas. Os vírus de então simplesmente se multiplicavam ocupando todo o HD, acabando por travar a máquina. Era preciso chamar um técnico para “desinfetar” e ter de volta o espaço perdido. As pragas de então se proliferavam através de disquetes infectados que passavam de máquina para máquina. Logo surgiram os antivírus profissionais para ajudar a combater este mal, que se antes eram apenas uma diversão de alguns nerds, se tornou hoje uma indústria de extorsão. As Fake News de hoje são a nova praga da vez.
Tudo vem com preço. A informação, mais do que nunca, se tornou manipulável de acordo com os interesses de quem as divulga. E não se trata de perspectiva, quando um mesmo fato pode ser explicado de maneiras diferentes de acordo com a perspectiva de cada um. Se trata de intencionalmente distorcer, ou mesmo criar do zero, informações que vão se tornar notícias e viralizarem nas redes sociais. Usando inicialmente robôs, logo a seguir os idiotas de sempre, vão se propagando.
E elas são disseminadas até mesmo por presidentes de países como o Brasil e os EUA. Se um presidente está divulgando, deve ser verdade, afinal de contas um presidente é uma pessoa de conduta exemplar. E eles fazem isso quase que de maneira articulada. Desta maneira podemos a mesma notícia falsa de que a “oposição de esquerda” é composta de pedófilos, aqui, nos EUA, em Israel, na Hungria, na Polônia etc. É a universalização criminosa das Fake News vinda do mais alto escalão de cada país.
O custo desta nova indústria é coberto por figuras ligadas a extrema direita. Eles possuem bilhões de dólares a sua disposição e fazem uso deste capital com propósitos muito claros. Difamar, demonizar a esquerda e abrir caminho para os neoliberais se acomodarem, tomarem de assalto as grandes empresas nacionais pagando muito menos do que valem. Assim eles vão se “adonando” do petróleo, da energia, das aposentadorias, da saúde, da educação e da água. O que antes era patrimônio do povo, agora é patrimônio de poucos.
A verdade é que o Covid-19 é uma criação deliberada dos neoliberais para estancarem as economias mundiais reduzindo o valor das empresas governamentais. Com a economia arrasada elas vão sendo adquiridas por valores irrisórios. Eles pagaram milhões de dólares para um laboratório chinês criar o vírus. De quebra, vão ganhar bilhões com a venda das vacinas.
Atenção: este parágrafo acima é uma Notícia Falsa! Mas é assim que eles as criam. Uma boa notícia falsa é composta de um fato verdadeiro, de uma meia verdade e da mensagem mentirosa que se deseja passar.
O Covid-19 está tirando vidas, mas os neoliberais com suas Fake News estão matando o futuro. A vacina é o voto na esquerda!
por Mauro Nadvorny | 17 out, 2020 | Crônica
A vida está tensa, meio sem graça, a máscara dificulta a respiração. Nem a primavera trouxe o alívio sonhado, diante das angústias na pandemia e da devastação que vive o País. A comunicação é virtual, os amigos não se abraçam, muito menos se beijam, os solitários inventam rotinas, as redes sociais buscam aplacar o tédio. O coração está tristonho, cansado. “Cansado” foi a palavra que um amigo distante escreveu, logo ele, velho sonhador de um mundo melhor e mais justo. Há certa exaustão na luta com poucos resultados, e um sentimento de retrocesso. Entretanto, em algum momento, o céu cinzento se abre, o Sol sorri e o dia se encanta ao som de Mozart. Antes, Kant escreveu sobre a importância que Epicuro deu ao coração alegre e satisfeito. Em francês, tem a expressão “savoir-faire”, que é poética, é a arte do bem dizer.
A grande artimanha da arte de viver é o aprendizado de um refinamento do sentido de humor, e da capacidade de brincar.
Alegria é uma questão essencial na vida e é tão pouco pensada em comparação à tristeza, à dor e às angústias. Quem tem a sorte de conviver com crianças percebe, facilmente, que riem e se divertem muito mais que nós, os adultos. Alguns mantêm a sabedoria da alegria, mas em geral, precisamos reaprender a alegria da infância. Ajuda estar entre as artes ou próximo da criatividade onde é possível encontrar o entusiasmo que dá um colorido especial à vida. Alegria é o deleite, é o gozo diante de algo que ocorre, por isso o poeta William Blake perguntava: “Diga-me o que é uma alegria? E em que jardins crescem as alegrias?”. As crianças dão aulas diárias de risos, desfrutam de suas brincadeiras. Crianças sofrem, choram, mas ainda assim constroem jardins floridos que vibram o cotidiano. A vida adulta é mais séria, os problemas tendem a abafar os sons dos sorrisos.
Conheci em Buenos Aires, na clínica em que atendia, uma mulher marcada pela tensão e um sofrimento sem fim.
A primeira vez em que vi Adela fiquei espantado com seu rosto todo pintado, sua pele branca marcada por cores fortes como o vermelho e o roxo, parecendo uma bruxa. Sentou e começou a contar que se sentia louca, estava isolada em casa, muito abatida, sem ânimo para nada. Falava de forma lenta, suas palavras eram pesadas, um tom tristonho, um semblante sofrido. Era uma mulher obesa, parecia ter saído de uma peça de teatro de terror. Fiquei inquieto, e, ao terminar a primeira consulta, senti um alívio. Foram muitos meses até Adela melhorar aos poucos. Bem aos poucos, foi se animando, acompanhada nos seus labirintos que pareciam sem saída. Entretanto, ao melhorar, ela começou a expressar sua intensa brabeza e uma desconfiança que a levava a estar sempre brigando. Então, começou a interromper o tratamento por suas desconfianças, mas após meses ela voltava, e assim foi durante anos. Quando vinha, estava sempre braba com familiares, perdera o pai cedo, filha única, sem contato com tios e primos, não tinha amigas. Suas dificuldades de convivência eram acentuadas, não lembro de uma só pessoa com tanta dificuldade de estabelecer laços afetivos. Vivia num mundo enlouquecido, a luta foi para não piorar.
Algumas vezes, pensei em dar por terminado o tratamento, mas Adela sempre voltava e não tinha mais ninguém. Um dia foi mudar de telefone e me fez um pedido estranho, que na agenda de pacientes não pusesse seu nome, que não gostava, mas outro. Perguntei qual ela desejava, e me disse o nome de uma avó. Na hora me ocorreu pedir um nome que iniciasse com a mesma letra do seu, pois assim seria mais fácil lembrar que era dela. Então me respondeu: “Alegria, pois quem sabe eu possa me sentir alegre com esse nome”. Fiquei com o coração alegre naquela hora… e também agora.
por Mauro Nadvorny | 13 out, 2020 | Poesia
Ah… se teus ouvidos pudessem saber desse sentimento
Ele é tao parecido com o amor
Porém, não consigo decifrar
É encantamento
Um sentimento ainda indefinido.
Disseram-me que o meu olhar se perde no teu
Temi, por ser tão transparente
Mas o teu sorriso faz-me tremer
A tua gentileza faz-me estremecer
Olhar-te pura ebulição
Turbilhão de emoções
Nada é pequeno
É tudo tão intenso
Ainda que não seja consciente
Tu pouco sabes
Mas, quisera eu contar-te
Sobre esse amor que anda brotando
Que se expande e me invade
E por ele, eu ficaria nessa cidade
Sem pré-conceito
Sem contar a idade
Eu só iria mergulhar na felicidade
E então, eu gostava de te falar desse amor
Que anda a florescer.