Um debilóide

Muita coisa já foi escrita sobre o Holocausto. Um evento desta magnitude, quando uma máquina estatal foi criada para aniquilar um povo, deixou marcas de todo tipo. Existem heróis e covardes, combatentes e apoiadores, erros e acertos. Tudo já foi escrutinado.

Um acidente da natureza como um terremoto, um tsunami deixam marcas visíveis. Vidas perdidas, casas destruidas, quase o efeito de uma guerra. A diferença é que são eventos naturais e por mais dor e destruição que causem, existe uma explicação, o que se não serve como conforto, ao menos compreendemos a inevitabilidade do que aconteceu.

Quando falamos do Holocausto estamos falando de um evento acontecido em meio a uma guerra mundial. Uma guerra declarada por um país que culturalmente se encontrava em um nível acima da maioria das nações vizinhas. Que possuía um sistema de governo democrático e que supostamente havia aprendido os erros da guerra anterior.

Havia desemprego e uma crise econômica herdada da guerra e dos acordos assumidos com os vencedores. Judeus conviviam em harmonia dentro da sociedade e muitos casamentos mistos aconteciam juntamente com uma boa parcela de assimilação (judeus não praticantes que nem mais se reconheciam como tal).

A Alemanha, apesar da primeira guerra, ainda era um país plenamente desenvolvido. Nada disso foi suficiente para evitar o que aconteceu e a transformação para um sistema militarizado, antidemocrático, xenófobo, homofóbico e antissemita foi uma consequência do desejo do povo alemão daquela época.

Mas foi principalmente o cidadão comum, aliado com uma elite burguesa, que viram naquele líder carismático e pouco simpático, a oportunidade de ascensão social e econômica. Inicialmente não estavam tão preocupados com os judeus. Os socialistas e comunistas eram o principal inimigo. A democracia um regime a ser substituído por um autoritário.

A sociedade alemã fez então a sua escolha, assim como a brasileira o fez agora. Todos os sinais de que era um erro, de que nada deveria substituir a democracia, de que uma nova guerra viria eram visíveis. Nada foi capaz de mudar o destino. A Alemanha sucumbiu ao canto da sereia, as promessas de uma grande nação, de um futuro brilhante, livres do comunismo e também dos judeus. Uma Alemanha de alemães puros.

Hitler se mostrava um orador brilhante. Sua oratória aliada ao magnífico espetáculo cenográfico levava as pessoas ao delírio. Tudo era bem coordenado e muito bem executado para criar o máximo efeito visual possível. E deu certo. Líder nato ele sabia exatamente o que deveria ser feito e executou seu plano metodicamente. As consequências para o mundo em geral e os judeus em particular, foi catastrófica. Sem falar para a Alemanha.

Ao contrário do líder alemão Bolsonaro se fosse um orador, já seria alguma coisa. Para nossa sorte ele nem chega a isso. Elevado a presidência também por uma elite burguesa, ele não tem a menor ideia do que isso representa. Parece o novo rico, um cidadão humilde que ganha na loteria e se torna milionário da noite para o dia. Pode fazer qualquer coisa, mas não tem a menor ideia de como fazer.

Bolsonaro não tem classe para ser presidente do Brasil. Não tem envergadura, não possui as mínimas condições que o cargo exige. Nem sabe o que o cargo significa, o que exige e o que pode fazer como presidente. Está brincando de novo rico.

Usa os filhos como uma extensão de seu cargo. Distribui medalhas para seus amigos. Coloca gente em cargos totalmente fora de suas áreas de atuação e faz do Twitter seu palanque. O cara é um verdadeiro debiloide. Não o digo com a intenção pejorativa que a palavra carrega, mas como forma de definir com mais precisão o tipo de pessoa que ele é.

Felizmente Bolsonaro nunca será um Hitler. Mas em comum possui a mesma arrogância, a mesma fantasia homofóbica, o mesmo discurso de atribuir os males da nação a um grupo específico, no caso o Partido dos Trabalhadores. Ao contrário da besta alemã que subjugou povos para baterem continência a bandeira nazista, Bolsonaro é uma besta que voluntariamente bateu continência a bandeira americana.

Hitler destruiu a Alemanha. Foi o responsável pela divisão do país, de todo o sofrimento causado as nações que se envolveram na guerra e principalmente pelo assassinato de 6 milhões de judeus, entre eles inúmeros familiares meus. O que ele fez é imperdoável.

Bolsonaro vai destruir apenas o Brasil. Diariamente de uma maneira atarantada, ele vai derrubando os pilares das conquistas sociais que ajudaram a diminuir as diferenças sociais, que acabaram com a fome, que levaram a mais educação, que aprimoraram o respeito aos direitos humanos, que tornaram o Brasil um pais respeitado no cenário mundial. Em breve, possivelmente vai cobrar proteção da população como todo bom miliciano.

Nesta data de recordação do Holocausto, não podia deixar de continuar alertando meus leitores das consequências de uma má escolha. A maioria assim o quis e todos vão pagar por ela. Enquanto não for dado um basta, o país vai continuar ladeira abaixo e diferentemente da Alemanha que teve ajuda para sua reconstrução, o Brasil vai custar muito a se recuperar.

 

 

Chag Sameach, Feliz Páscoa

A comemoração da Páscoa Judaica, o Pessach, ou a Festa da Liberdade, como a chamamos, faz muito que me é complicada. Como comemorar uma festa da liberdade quando nos tornamos opressores de outro povo que luta pela sua?

Esta dicotomia entre alegria e tristeza, certo e errado, liberdade e escravidão me assombram todo ano nesta época e invariavelmente me torno repetitivo escrevendo sobre ela como forma de expiação.

Todo ano repetimos uma história de vida que é passada de geração a geração sobre o valor da liberdade. Eu a escutei de meus avós, de meus pais e passei para minhas filhas. Nunca esquecer que um dia fomos escravos no Egito e lutamos por nossa liberdade e o direito de ser uma nação livre na Terra de Israel.

Não escutei de meus avós, tampouco de meus pais, que nos tornamos um povo colonialista que nega ao Povo Palestino seu direito a uma nação. Eu vivi esta história, aprendi com ela e a passo todos os anos na mesa do Pessach. Justiça tem que ser para todos.

Israel é o Lar do Povo Judeu e isto nunca vai mudar. Somos uma terra de incríveis contrastes e aqui se vive diariamente os problemas de um país de enormes conquistas na ciência e na medicina, por exemplo, e ao mesmo tempo de vergonhosas cenas de um verdadeiro Apartheid.

Não se enganem, Israel não é exatamente uma democracia e dependendo do ângulo que se queira olhar, somos uma verdadeira ditadura. As leis não são iguais para todos os cidadãos, elas são aplicadas de acordo com a cor, religião e nacionalidade. As penas para crimes similares cometidos por cidadãos israelenses são aplicadas conforme estas distinções. Assim, um assassino muçulmano de um cidadão judeu terá uma pena 3 vezes maior do que um cidadão judeu que mate um muçulmano.

É legal que um israelense compre uma terra de um palestino, mas não o contrário. É legal a demolição de casas palestinas construídas a dezenas de anos sem autorização (eles raramente conseguem uma), mas casas de judeus dificilmente serão colocadas abaixo. Terras de proprietários palestinos são expropriadas e nelas se estabelecem novos colonos. Estradas são construídas na Cisjordânia ocupada somente para o trânsito de israelenses. Para os palestinos existem barreiras a cada tantos quilômetros, desvios e bloqueios.

Se alguém estava pensando que o estado só persegue os palestinos, não está a par da política de exceção aos judeus que concordam com o BDS, ou que simplesmente apoiam a ideia de um Estado Palestino, que fazem trabalhos humanitários nos territórios, ou que pedem respeito aos direitos humanos.

Qualquer grupo judaico, ou individuo judeu que apoie o BDS, tem sua entrada barrada no aeroporto. Judeus que vem a Israel fazer trabalhos humanitários são interrogados pelas forças de segurança na sua entrada, e quando não são enviados de volta imediatamente, podem ter pertences como Computadores e celulares apreendidos na sua saída.

Ainda assim, e apesar de todos os reveses que enfrentamos, existem israelense que respeitam e enaltecem o espírito de liberdade do Pessach. Indivíduos e grupos que lutam diariamente para mudar este estado de coisas. Pessoas que fazem a diferença e mostram com o seu sacrifício que o verdadeiro sionismo é o socialista, não este que foi usurpado por fanáticos da extrema direita.

A esquerda israelense vive atualmente seu maior dilema. Permanecer dividida ou se unir em um único partido. Esta união deve ser entre os partidos judaicos, ou finalmente vamos ter um partido que não faça distinção entre judeus e árabes, uma a esquerda formada por cidadãos israelenses de todas as etnias. Um partido que lute pela igualdade de todos os habitantes de Israel.

Por isso, nesta data, quando o direito a liberdade está sendo enaltecido, quando as famílias judaicas estiverem sentadas à mesa lendo a Hagadá de Pessach (a história da saída do Egito), levantem um copo de vinho pela Paz e a Reconciliação com o Povo Palestino pela criação de seu Estado, o que permitirá a Israel continuar sendo um país judaico e democrático,  pertencente a todos os seus cidadãos com os mesmos direitos e deveres.

Amém.

Eleições em Israel, mais do mesmo.

Eleições em Israel, mais do mesmo.

As eleições em Israel chegaram ao fim com a contagem final dos votos e o Likud de Binyamin Nethanyau é o grande vencedor com 36 cadeiras (30 na Knesset anterior). Como o partido Kulanu com 4 mandatos (10 na Knesset anterior) se integrou ao Likud no dia de ontem, eles terão 40 cadeiras no parlamento.

A antecipação das eleições foi uma decisão do primeiro ministro depois que o partido Israel Beiteinu do ex-ministro da Defesa Avigdor Liberman, decidiu sair da coalizão deixando o governo com uma maioria apertada de 61 cadeiras. O partido dele recebeu agora 5 mandatos (6 na Knesset anterior).

Os religiosos saíram em massa para votar. Cerca de 82% dos votantes nesta comunidade foram as urnas e deram aos dois partidos deles, Shas 8 mandatos e Yadut Hatorá mais 7 (tiveram 13 na Knesset anterior).

Se alguém estiver contando, a direita já chegou a 60 cadeiras. Quem se soma a eles é o Yadut Haiemin com mais 5 mandatos (formado por dois partidos, um deles, Ha Bait Haieudi, com 8 mandatos na Knesset anterior, o outro não tinha representação) para formar uma coalizão com 65 cadeiras.

Do outro lado, a oposição com 55 mandatos formada pelo Kachol Lavan com 35 mandatos, o Avodá com 6 (24 na Knesset anterior), o Meretz com 4 (5 na Knesset anterior) e os dois partidos árabes com mais 10 (13 na Knesset anterior quando concorreram unidos). A maioria da comunidade árabe não foi votar.

Quem ficou de fora foi o novo partido do ex-ministro da Educação Naftali Bennett e da ex-ministra da justiça, Ayelet Shaked, o Haiemin Hachadash. Menos dois fascistas no parlamento.

O atual primeiro ministro vai ser em breve réu em diversos processos que correm na justiça. Portanto existe uma probabilidade muito grande de que aconteçam novas eleições no ano que vem. Este governo, se não acabar antes do indiciamento formal dele, tem um prazo de validade já conhecido.

Neste momento vão começar as negociações para a formação do novo governo. Nestes casos, partidos com uma pequena representação se tornam gigantes, uma vez que sem os votos deles não existe governo. Se o Likud não consegue formar o governo, provavelmente vamos a novas eleições, uma vez que o centro esquerda não tem mandatos suficientes.

Uma outra possibilidade é de em um desacordo político entre os membros da coalizão, um dos partidos abandonar o governo como aconteceu agora. Qualquer um que o faça, leva a novas eleições antecipadas.

Uma coisa é certa, o Bibi não terá vida fácil. A oposição já promete infernizar o atual governo de todas as formas possíveis e não lhe dar trégua até que ele caia.

O maior partido da oposição é o Kachol Lavan com apenas dois meses de existência. Formado por 3 ex-generais e um ex-apresentador de TV, é o resultado da união de 3 partidos. Ele atraiu os votos tanto da esquerda como da direita que não queriam a reeleição do Bibi. Se dizendo de centro, tem entre os deputados eleitos, gente de ambos os campos. É muito provável que o Bibi use isso para minar o partido e tentar levar a sua desintegração.

O grande vitorioso foi o primeiro ministro. Mesmo com fortes acusações de aceitação de propinas e ganhos financeiros escusos através do uso do cargo, seu carisma continua inabalável e levou seu partido a uma grande vitória. No entanto cabe ressaltar que o Likud se tornou dependente dele. Em uma eleição sem Bibi, dificilmente vão receber este número de cadeiras.

O grande perdedor, para quem não conhece a história, foi o Partido Avodá, que já foi o maior partido de Israel, o de Bem Gurion, o pai do Estado. Hoje, com apenas 6 mandatos, parece que chegou ao fundo do poço. Seu líder atual, Avi Gabay, anunciou sua renúncia para depois da Páscoa. Talvez com uma nova liderança o partido consiga se reerguer.

O cenário a frente é bastante confuso e ainda um pouco nebuloso até a formação do novo governo. Será preciso muita habilidade por parte do Bibi para agradar a todas as partes envolvidas, não que lhe falte alguma. Mas as demandas em alguns casos se chocam. Por exemplo, o partido Israel Beiteinu quer que os religiosos sirvam ao exército, o que o Yadut Hatorá, um dos partidos religiosos, não admite.

Transporte público no Shabat vai continuar não existindo e casamentos civis nem pensar. O divórcio continua sendo uma regalia do homem a mulher, se, e quando ele quiser. Milhares de mulheres vão continuar não podendo se casar novamente até o receberem.

Em relação ao processo de paz, ele fica como está, ou seja, parado. O Bibi chegou a dizer antes das eleições que pensa em anexar partes da Cisjordânia, o que elevaria a temperatura e teria o mesmo resultado de uma faísca em um tanque de gás.

Nada vai mudar na política externa e este governo vai continuar procurando companhia junto a outros países com governos de direita e alinhado com os Estados Unidos.

A esquerda israelense parece que compreendeu rapidamente o que a levou a este resultado e vários grupos já começam a falar em começar a trabalhar desde agora com vistas às próximas eleições. Um alento em meio a tristeza.

 

 

 

O Assassino da História

Não está sendo fácil para os brasileiros que vivem no exterior. Ter que tentar explicar as besteiras que são ditas pelo presidente do país está sendo cada vez mais difícil.

Eu conheço muita gente que defende o fato da história ter sido escrita pelos vencedores para fabricar novas narrativas, até aí algo compreensível. O problema é quando a total falta de conhecimento histórico leva uma criatura a dizer que o Partido Nazista era de esquerda porque tinha “socialista” no nome (Partido Nacional Socialista). Não qualquer criatura, o Presidente do Brasil ao sair de uma visita ao Museu do Holocausto.

O fato de não saber falar outros idiomas é perdoável. A falta de informação sobre o lugar que está visitando, não ter ideia do motivo da construção do monumento onde está depositando uma coroa de flores e não saber a razão deste local ser incluído nas visitas de dignitários estrangeiros, isso é imperdoável.

A situação foi tão vexatória que assim que sua declaração chegou aos canais de mídia, a imprensa israelense que estava fazendo uma cobertura morna, passou a ataca-lo sem piedade. Vídeos de suas declarações homofóbicas e misóginas surgiram nos noticiários das TVs e o próprio Museu do Holocausto foi questionado, acabando por emitir uma nota onde afirmou que a declaração do presidente brasileiro era equivocada.

Existem muitos assassinos da memória, os conhecidos negadores do Holocausto. Pessoas que afirmam que os nazistas não mataram seis milhões de judeus e que as mortes de alguns milhares nos campos de concentração se deveram a doenças e outros fatores naturais.

Estamos agora diante de um novo conceito, o de assassinos da história. Pessoas que tentam reescrever fatos históricos baseados na linguística, na maneira como de denominavam os movimentos envolvidos. Se um deles tem a palavra Democrata no nome, ele é democrata, se tem a palavra Nacional, ele é nacionalista, e assim por diante. Em sendo assim, Socialista no nome, só pode ser de esquerda.

Se para uma pessoa comum isto é um absurdo, imaginem para nós judeus termos de escutar uma barbaridade destas. Ele, o presidente do país, dando uma declaração estapafúrdia em Israel, na porta do Museu do Holocausto, que afirma em seu site ao explicar a frustração do povo alemão após a Primeira Guerra que “junto a intransigente resistência e alertas sobre a crescente ameaça do Comunismo, criou solo fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, gerando entidades como o Partido Nazista”.

A visita de Bolsonaro não será lembrada aqui pelo fato de não cumprir sua promessa de mover a embaixada do Brasil para Jerusalém. Tampouco pela abertura do escritório comercial em Jerusalém. Muito menos pela visita não protocolar ao Muro das Lamentações e assinar o livro de visitante a um grupo extremista que deseja derrubar as Mesquitas do Monte do Templo para lá construir o Terceiro Templo de Israel. Nem falar dos acordos de intenção que não servem para nada. O que ficou marcado para os israelenses foi “o que aquele presidente idiota do Brasil disse antes de ir embora”.

Interessante mencionar que as entidades judaicas brasileiras representativas da comunidade ficaram em silencio. Somente os grupos judaicos na resistência emitiram nota de repúdio e escreveram artigos contra tamanho absurdo.

O silêncio das entidades oficiais, Federações e Confederação ao oficialmente se omitirem, ou ressaltando o aspecto positivo de que ele ao menos visitou Israel, mostra bem o lado trágico da nossa história. Não foi muito diferente na Alemanha antes da ascensão de Hitler. O fenômeno do fascismo judaico sempre foi uma mancha negra no nosso passado que volta para nos assombrar.

Felizmente existe o outro lado. Vários grupos de resistência judaica democrática existem neste momento fazendo um trabalho fantástico de oposição a este governo fascista. Cada um contribui à sua maneira. Todos somam diariamente ações de vigília e de esclarecimento sobre os acontecimentos. Eles são o verdadeiro espírito judaico humanista. Assim foi também na Alemanha Nazista.

O Grito do Silêncio

O Grito do Silêncio

Yad Vashem é solo sagrado. Nele está preservada a memória de seis milhões de judeus assassinados pelo Nazismo e seus simpatizantes. Um crime tão hediondo que recebeu um nome único, Holocausto.

O regime nazista foi uma ditadura militar e como todas elas, um regime sanguinário. Nunca existiu um regime militar pacifista. Militares no poder são sempre responsáveis por guerras internas e externas. Milicos são preparados para a vida do quartel, não para controlarem populações civis.

A ditadura militar brasileira não foi diferente. Perseguiu e assassinou seus opositores. Impôs uma censura prévia sobre tudo que podia ser visto, lido ou escutado. Criou a maior dívida externa do Brasil.

Entre aqueles que combateram a ditadura estavam jovens judeus idealistas. Perseguidos, quando capturados foram torturados e mortos por serem de esquerda e lembrados até o fim de que eram judeus.

Entre muitos torturadores, um em especial é lembrado por ter escrito um livro: A Verdade Sufocada – A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça, foi lançado em 2006 e narra principalmente como os militares venceram o que chamam de guerra contra terroristas. Seu autor, o coronel reformado do Exército brasileiro, Carlos Alberto Brilhante Ustra, foi primeiro militar brasileiro condenado por praticar torturas durante a ditadura militar no Brasil.

O que ficou de fora do livro foram suas técnicas de tortura que incluíam inserir ratos e insetos na vagina das prisioneiras. Foi ele um dos torturadores da Presidente Dilma.

As editoras brasileiras se negaram a publicar seu livro e ele teve de ser bancado pela própria família e ficou no esquecimento até que um de seus adoradores passou a mencioná-lo: Jair Bolsonaro, o atual presidente do Brasil em visita a Israel.

Bolsonaro não apenas se refere ao livro como uma obra prima, mas enaltece seu autor e seus métodos de tortura. Claro que ele não unicamente um adorador de torturadores, ele também é racista, homofóbico e misógino.

A pergunta que não pode calar é como Yad Vashem permite a visita de um ser tão desprezível. Sua presença neste solo sagrado envergonha não somente a memória dos seis milhões de judeus que morreram sob o regime militar nazista, mas todos os brasileiros, judeus e não judeus que morreram sob o regime militar brasileiro.

Diante desta situação é que nós vamos estar presentes para que ele saiba que não é bem-vindo pelo povo de Israel. Que uma embaixada em Jerusalém não compra nossa consciência.

Com certeza neste dia será possível escutar o grito do silêncio da vergonha de todos que lá estão eternizados como um símbolo do direito à vida de todo ser humano.

Convocamos a todos que venham amanhã a tarde, 15:30 h para se manifestar contra a presença de Jair Bolsonaro em Yad Vashem.

Não em nosso nome

Não em nosso nome

Se você concorda que todo ser humano nasce igual, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que homens e mulheres têm os mesmos direitos, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que todos merecem receber as mesmas oportunidades, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que não é o gênero, mas o caráter do individuo o que realmente importa, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que a tortura é um crime contra a humanidade, você é contra Bolsonaro.

Não é uma questão ideológica, não se trata de esquerda ou de direita. Ser contra Bolsonaro é respeitar nossa diversidade e ter a consciência de que podemos viver em harmonia como seres humanos que chegamos ao mundo e partimos dele da mesma forma.

Como judeus temos uma responsabilidade com a humanidade. Somos o povo mais antigo na Terra. O povo do livro, aquele que trouxe ao mundo os 10 Mandamentos, as primeiras leis conhecidas pelo homem.

Nossa história é pautada por grandes acontecimentos, alguns de grande alegria, outros de imensa tristeza. Nenhum deles impediu que chegássemos aos dias de hoje em nossa terra. Aqui estamos para dizer ao mundo que o Povo de Israel Vive. E aqui vivemos com toda nossa bagagem ancestral de conhecimento e lições de vida.

Infelizmente algumas destas lições, as vezes parecem esquecidas e é preciso relembrá-las. Podemos ter pontos de vista diferentes, maneiras distintas de alcançar os mesmos objetivos, mas nunca podemos deixar de acreditar que somos o povo que deve ser um Farol de Luz para a humanidade.

A presença de Jair Bolsonaro em Israel é uma ofensa a todo ser humano, judeu ou não. Sua visita a Yad Vashem é ainda pior e não condiz com o que este lugar representa. Este presidente do Brasil enaltece a Ditadura Militar Brasileira que perseguiu, torturou e matou jovens de esquerda lembrando a cada um deles de que eram judeus. Entre eles: Ana Rosa Kucinski SilvaMauricio e André Grabois (pai e filho), Chael SchreierGelson ReicherPauline Philipe Reischtuhl, Vladimir Herzog e Yara Iavelberg.

Quando nosso primeiro ministro se acerca deste tipo de líder para tentar obter exclusivamente mais uma embaixada em Jerusalém, temos de nos questionar se ele realmente nos representa. Para ele os fins justificam os meios, e apertar a mão de um ser tão desprezível como este, serve aos seus objetivos particulares de se perpetuar no poder.

Nenhum poder é eterno, os governantes passam e as nações permanecem. No entanto, são nossos governantes atuais que trocam afagos e sorrisos, cada qual com a sua agenda. A de Bolsonaro é agradar aos seus parceiros evangélicos que sonham com uma Israel convertida ao cristianismo para permitir a volta do seu Messias, Jesus Cristo.

O Brasil é muito maior que Bolsonaro, o que ele representa e aqueles que o apoiam. Nós todos que amamos a liberdade, a democracia e o respeito aos direitos humanos, estamos unidos em todo o mundo contra o fascismo. Nossa união é a nossa voz e ela jamais será calada.

Um mundo melhor é possível e somos aqueles que apontam o caminho. Somos a esperança que não morre, a alegria da vida, a beleza do ser humano. Nós somos o futuro.

Somos persistentes, somos obstinados, nunca desistimos porque somos movidos por amor ao próximo. Nossa unidade é consequência do que de melhor representamos no mundo. Nossa força é perene e nossa causa é justa.

Nós israelenses de origem brasileira que voltamos para nossa casa em Israel não esquecemos o Brasil. Não nos permitimos abandonar o povo brasileiro nas mãos deste presidente com ideais fascistas e chamamos a todos os cidadãos de Israel para que se manifestem contra a sua presença.

Jair Bolsonaro você é uma Persona Non Grata em Israel.