Cúmplices

Algumas notícias para começar o ano:

  • A Argentina (aquele país odioso e primitivo que tem Oscar, tem Papa, tem Nobel, tem imposto sobre grandes fortunas, e teve Maradona) agora tem aborto legal. O monstro desqualificado que outros 57 milhões de desqualificados colocaram no poder, neste paraíso chamado Brasil, criticou a medida, sob o surrado argumento de ser a favor da vida. Diz apiedar-se dos embriões. Trata-se da mesma pessoa que, no ano recém findo, não apenas causou a morte, por ação e omissão, de dezenas de milhares de brasileiros, como debochou acintosamente delas (as mortes e as pessoas) e das famílias enlutadas.
  • O jornal O Estado de São Paulo, cúmplice proativo, explícito e protagonista, dos desmandos, ilegalidades e arbitrariedades que atiraram o país ao abismo em que está metido, começa seu editorial de hoje, 01/01/2021, dizendo que os brasileiros contam as horas para o final do governo Bolsonaro, tido pelo centenário periódico conservador como, de longe, o pior da história do Brasil.
  • O nosso Ministério da Saúde, liderado pelo maior especialista em logística do mundo, atravessou o ano da maior tragédia sanitária global, em um século, mais perdido do que cego em tiroteio. É o mais atrasado do planeta. Não sabe qual vacina utilizará, não se sabe quando vai possuir alguma, e, muito embora disponha da mais completa, sofisticada e experiente infraestrutura de vacinação do mundo, não tem a menor ideia de como imunizará nossa população contra o vírus. Deixou vencerem, sem utilizar, vários milhões de testes diagnósticos de COVID-19, arma sabidamente eficaz no manejo da pandemia. Fármaco e dinheiro foram pro lixo. Para não deixar cair a peteca, e fechar o ano com chave de outro, fracassou miseravelmente na tentativa de simples compra de seringas. O pregão, destinado a adquirir 330 milhões delas, não comprou sequer 10 milhões. Não dá nem pra vacinar a população da cidade de São Paulo.

Estou tentando heroica e estoicamente encontrar palavras com as quais possa construir uma reflexão minimamente coerente em relação ao contexto capaz de gerar semelhantes fatos. Deixo ao(à) eventual leitor(a) a tarefa de, se quiser, também pensar sobre o respectivo significado e os desdobramentos, tanto independentes, de cada um deles, como do conjunto interconectado.

Confesso que pra mim está muito difícil. Chegamos a um ponto em que a barbárie foi  naturalizada de tal forma que desconfio que se um brasileiro comum se deparar com um cão de duas cabeças e seis patas, na rua, não vai achar nada de mais.

Afinal, pouco se lhe importa a hipocrisia demagógica de um presidente que, ao tempo em que mata diariamente milhares de pessoas, vem a público, movido pela conveniência política mais abjeta, afirmar-se a favor da vida.

Tampouco se apercebe, nosso prezado concidadão, da manipulação canalha a que é submetido pela mídia oligárquica todo santo dia. Culpado direto, doloso e premeditado da própria existência de Bolsonaro, o Estadão agora, ao condená-lo, adota o tom de um terceiro desinteressado. No que, aliás, não é nenhuma exceção.

Igualmente, não faz cócegas intelectuais ao brasileiro comum a inépcia colossal justamente das autoridades mais importantes no dia de hoje, para o destino da sua vida e da dos seus. Lé é lé, cré é cré, e tudo bem.

Lembro-me com impressionante nitidez do terror que me tomou de assalto no momento exato em que soube da eleição de Donald Trump.

Aquilo era simplesmente inconcebível. Como podia ser? Uma caricatura de ser humano, cuja simples figura era um atentado civilizatório, iria liderar o mundo? Como poderíamos ser tão imbecis, tão irresponsáveis, tão inconsequentes? Qual destino nos aguardava?

A mesma sensação, agora multiplicada ao infinito (seja porque dizia respeito direto ao meu dia-a-dia como brasileiro, seja porque a repetição poderia indicar uma tendência), sobreveio na proclamação da vitória de Bolsonaro, este uma caricatura daquela caricatura. Uma perplexidade sem limite, sem medida, sem explicação.

Felizmente estamos prestes a nos livrar do primeiro, muito embora não tenha decepcionado no que tange aos estragos que causou, cujos efeitos custarão gerações para serem amenizados.

O segundo, porém, ainda está aí. E tampouco decepciona. Ao contrário. Não apenas concretiza todo o horror que previmos (nós, os milhões que não o elegemos), como se esmera todos os minutos de todas as horas de todos os dias em piorá-lo ao limite do intolerável.

Nós, os milhões que não elegemos esse monstro, sabíamos que ele o era. O que, diga-se, não constitui nenhum mérito, porque ele jamais teve a menor preocupação em esconder ou mesmo disfarçar a sua monstruosidade. Ao contrário, ostentou-a sempre com o orgulho de um sociopata ordinário.

É preciso admitir, porém, que nem o mais realista, ou o mais pessimista, poderia imaginar que chegaríamos tão fundo, sob o nariz apalermado de um povo incapaz de qualquer reação.

E assim aporto à única reflexão que me é possível.

O Brasil carece de pessoas de caráter em posições decisórias.

A serpente que hoje o devora não é fruto de geração espontânea ou de maldição divina. Ela nasceu de um ovo que foi posto, gestado e chocado à vista de todos.

E que poderia ter sido aniquilado em todas as suas etapas evolutivas, antes de dar o mal puro à luz.

À História caberá, com o necessário distanciamento temporal, compreender e explicar as razões pelas quais não o foi.

Arrisco, entretanto, algumas hipóteses.

O povo brasileiro, manipulado, enganado, cegado e manietado pelas elites e seus fantoches midiáticos, foi reduzido a uma patética impotência, ou tangido à destruição de moinhos de vento.

Os políticos de todo o espectro ideológico jamais foram capazes de dar uma resposta minimamente digna porque jamais tiveram a decência de olhar um centímetro além de seus próprios umbigos.

Restavam os juízes. Alguns analistas, escorados nos precedentes históricos, nunca apostaram neles um níquel furado; outros eram menos céticos.

A meu ver, a História, essa dama implacável, dará razão aos primeiros.

Todos os olhos conscientes deste país viram quando a elite, pela enésima vez, colocou as mangas de fora para abortar um incipiente e insignificante processo de equalização da cidadania brasileira.

Impune, sentiu-se encorajada para levá-lo adiante, nas barbas passivas dos que podiam evitar.

Nem nós nem a História esqueceremos que os Ministros do STF ficaram desgostosos quando Dilma lhes negou indecente aumento salarial.

Tampouco esqueceremos que, mesmo instados a agir, pelos meios próprios, eles ficaram inertes diante do boicote liderado por Eduardo Cunha nas pautas-bomba do Congresso.

O Brasil jamais deixará de sentir o impacto que sofreu quando os representantes da mais putrefata dessa elite escancararam a cumplicidade dos ministros da Suprema Corte no acordo espúrio “com Supremo com tudo” para atirar as instituições – e com elas, a democracia – no esgoto.

Nós cobraremos, em algum momento, a comprovação desse processo escabroso pela omissão criminosa do STF em decidir que não havia crime de responsabilidade a embasar o  impeachment. O processo é político, mas a base que o sustenta é jurídica.

O judiciário é – ou deveria ser – o último refúgio da cidadania. Ela a ele acorre quando tudo o mais não a socorreu.

Os juízes do STF tinham nas mãos, naquele momento, o destino do Brasil. Mas lavaram-nas.

Tinham o poder, e mais, o dever, de impedir o conluio, a trama, o golpe. O crime de responsabilidade, único evento capaz de gerar o impedimento de um presidente da república, está definido na Constituição. É, portanto, uma figura jurídica, cuja existência no caso concreto depende de exame e interpretação. Ambos cabem, privativamente, ao Supremo Tribunal Federal.

Entretanto, provocado inúmeras vezes, ele nunca o fez. Jamais se pronunciou se crime houve, tal como previsto, ou não. Omitiu-se. Tinha poder de mudar a História, e não o fez. Abriu mão desse poder, em nome de interesses menores e mesquinhos.

Tiraram o corpo fora. E ali selaram nossos destinos. O ovo da serpente, ainda frágil, estava exposto a céu aberto. Quem poderia destruí-lo esquivou-se. Permitiu que fosse chocado. Como a boa e velha História não se cansa de ensinar, sempre se sabe quando e como um golpe contra o Estado de Direito começa, mas nunca quando ou como termina. Hoje, diante do caos que provocaram, tratam do assunto como se não tivessem nada com isso.

Já nem falo das lavajatos da vida, conduzidas num nível primário por notórios fraudadores, obscurantistas, fundamentalistas e retrógrados adoradores da barbárie.

Porém não poderemos, nós e a História, esquecer-nos de que também tais aberrações só puderam florescer e adquirir peso capaz de influir nos destinos da Nação, à sombra das mesmas omissões de quem deveria coibi-las.

Afinal, se a presidência da república é tão frágil que pode ser mortalmente ferida por quase nada, ao sabor de conveniências de ocasião, qual o problema de fraudar uma eleição através de lawfare, para ali colocar um “amigo” e impedir o acesso a um inimigo?

Tanto problema não há, que foi feito despreocupadamente. E com absoluto sucesso.

Mas nem mesmo a consumação do dano formidável foi capaz de sacudir a letargia. Na semana que vem completar-se-ão nada menos do que 19 meses da vinda à luz, através do site The Intercept Brasil, daquela que é possivelmente a maior e mais grave fraude judiciária da história mundial, e até agora não houve absolutamente nenhuma consequência.

Alguns Ministros do STF até se escandalizaram e deram declarações contundentes reconhecendo a falcatrua jurídica. O mais notável foi Gilmar Mendes, que, entre muitas outras coisas,  cunhou a expressão irônica “Direito Penal de Curitiba”, e invocou o Espírito Santo para que, se não pudesse fornecer aos Ministros um pouco de senso de justiça, que ao menos lhes preservasse o senso de ridículo.

Mas mesmo assim…nada. A escancarada e escandalosa parcialidade do julgador em inúmeros casos ainda não foi sequer apreciada. Nem um único dos processos viciados pelo conúbio criminoso entre juiz e procuradores foi anulado. Periga de tudo simplesmente cair no esquecimento.

Moro continua sem sofrer uma punição sequer. Ao contrário, leve e fagueiro, acaba de subir na vida. Dallagnol, idem.

E lá se vão dezenove meses. Dezenove!

Não nos enganemos, portanto. Enquanto povo, temos culpa, sim. A pequenez e o mau caráter de nossa classe política, também.

Mas não olvidemos os Ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, como ninguém, tiveram o destino do Brasil na mão, e o jogaram aos lobos.

A História, Excelências, esconde-se logo ali, dobrando a esquina, e está de olho em vocês. Ela sabe o que vocês fizeram no verão passado.

 

 

 

 

 

 

Sou Jacaré

Reações alérgicas (hipersensibilidade) como asma, reações leves a moderadas que potencialmente afetam a pele, o trato respiratório, o trato gastrintestinal e o sistema cardiovascular, com sintomas tais como erupções na pele (rash cutâneo), urticária, inchaço (edema), coceira (prurido), rinite, congestão nasal, alterações cardiorrespiratórias e, muito raramente, reações graves, como choque anafilático;

Eu não sei quem de vocês, toma remédio prescrito, ou não, por médicos. Não precisa ser nada de muito especial, nem com tarja preta, pode ser um simples remédio para dor de cabeça. Vamos pegar uma Aspirina, algo que todos estão acostumados.

Com certeza, 99% dos que estão lendo este artigo nunca leram a bula da Aspirina. Bem, o primeiro parágrafo aí em cima, apesar de muitos acharem que fosse sobre as vacinas contra o Covid-19, se refere exatamente as reações adversas que uma simples  Aspirina pode causar. Eis outra: Comprometimento dos rins e alteração da função dos rins (insuficiência renal aguda)“.

A verdade é que a bula de qualquer remédio vai conter advertências que fariam qualquer um desistir imediatamente dele. No entanto, são eles que salvam vidas e os responsáveis por fazer com que a nossa expectativa de vida chegasse nos dias de hoje aos 100 anos.

As advertências se referem a casos que podem ser definidos como raríssimos, mas precisam constar. Os casos adversos normalmente possuem tratamento, mas as consequências de não se medicar, provavelmente não.

O mesmo se pode dizer sobre as vacinas. Foram elas que acabaram com as mais graves doenças que vitimavam milhares de seres humanos ao longo da nossa história. Muitas levando ao óbito e outras deixando sequelas por toda a existência.

Escutar nos dias de hoje, diante de uma epidemia que já vitimou cerca de 3 milhões de pessoas, que está destruindo economias, arruinando negócios e causando uma onda de pesar internacional, da boca de um presidente da nação de que não vai tomar a vacina porque ela pode “transformar” a pessoa em um Jacaré, é de virar do avesso a Terra Plana.

Tive de assistir ao vídeo mais de uma vez para me certificar de que não se tratava de uma Fake News. Na primeira vez tive certeza de que era um daqueles vídeos alterados para parecer que o presidente estava dizendo algo que não era real. Assisti mais uma vez e procurei confirmar nos portais de notícias mais conhecidos, e pqp, ele realmente disse isso com estas palavras: “Se tomar vacina e virar jacaré não tenho nada a ver com isso“.

Por alguns instantes fiquei atônico e incrédulo com tamanha bizarrice. A seguir percebi um certo sarcasmo que estava fluindo em minha mente. Talvez a fala dele cause uma seleção natural no Brasil. Dentro em breve o Covid-19 só vai poder infectar os que não se vacinarem, os que seguem esta coisa que está presidindo o país, sem nenhum questionamento. Vai ficar fácil saber quem é bolsonarista, basta o cara se infectar.

Logo me veio a lembrança de que alguns cientistas diziam de que em uma hecatombe nuclear só sobreviveriam as baratas, e eu logo imaginei que no nosso caso, vão sobreviver somente os Jacarés.

Claro que não desejo a morte de ninguém por tamanha estupidez. Nem o gado merece tal destino. Estamos diante da luz no fim do túnel. As vacinas são o nosso passaporte para retomar nossas vidas, uma chance de um novo recomeço.

Em todo lugar estamos vendo os presidentes e primeiros países dos países que estão iniciando a vacinação sendo os primeiros da fila para darem o exemplo. Algo importante que transmite confiança e que deveria ser a norma, menos no Brasil, onde  o presidente se nega a tomar a vacina e faz questão de colocar dúvidas a eficácia delas.

Sua postura vai condenar milhares de brasileiros a se infectarem com muitos deles indo a óbito. É de uma ignorância desprezível. Não fosse a certeza de que é exatamente isso que vai acontecer, ficaria sendo mais uma de tantas bobagens saídas de sua boca. No entanto e para espanto geral, vai ficar por isso mesmo.

Só me resta apelar aos meus amigos: na história do Brasil recente sejam lembrados como Jacarés.

 

 

O fascismo judaico existe e nós lutamos contra ele

Pelo visto, para parte da comunidade judaica no Brasil as eleições para prefeitos e vereadores no Brasil, virou um caso diplomático. Uma parte da comunidade acha que os problemas de suas cidades não são nada se comparados ao que acontece com relação a Israel. A questão não é saúde, educação e segurança, isso tudo fica em segundo plano. O que interessa a eles é o que pensam os candidato com relação a Israel. E não apenas eles, seus partidos, os membros dos seus partidos e todos que um dia passaram por ele.

Umberto Eco, intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de “O pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, morreu em 19 de fevereiro, aos 84 anos, mas nos deixou uma fabulosa contribuição para identificar o fascismo e seus apoiadores no texto “Ur-Fascismo”, produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa. São 14 características que em parte, ou na sua totalidade, nos permitem compreender que ele está batendo a porta, ou já entrou.

Eco os convencionou “Ur-Fascismo”, fascismo eterno. Eu adaptei estas características para as convencionar de  “J-Fascismo”. Veja a seguir estes pontos que identificam parte da comunidade judaica como fascista, aquela que apoia o governo Bolsonaro. São eles:

1.   A primeira característica de um “J-Fascismo” é o culto da tradição. Os fascistas judeus são apegados  a uma Israel que um dia no passado distante reinou nas duas margens do Rio Jordão. Um reino há muito desaparecido que permanece vivo no seu imaginário. Nesta Israel, não existe lugar para o Povo Palestino e a própria existência da Jordânia é contestada.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Esta parte da comunidade, vive do passado e do que foi um dia Israel e da sombra permanente do Holocausto. Não se importam com nada além da fantasia de que o mundo é antissemita, e quem for a favor de um estado Palestino, é contra a existência do Estado de Israel.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. Estes judeus chamam os demais judeus de traidores, de comunistas e até de antissemitas.  Nas palavras de Eco fazem uso  frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”. Por isso, agem de maneira atabalhoada, intempestiva e açodada.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. Ninguém pode criticar o Estado de Israel, nem mesmo a ONU. Eles são incapazes de aceitar a crítica, mesmo que construtiva ou vinda daqueles que se dizem amigos de Israel. Toda crítica é uma forma de traição e todo inimigo deve ser tratado como tal.

5O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade.  São solenemente contra a diversidade, preconceituosos convictos. A comunidade precisa ser uníssona e rezar a sua cartilha. As vozes discordantes são consideradas de desgarrados da comunidade e sua identidade judaica é colocada em dúvida.

6. O “J-Fascismo” provém da frustração individual ou social. Os fascistas judeus em boa parte são excluídos sociais da sociedade, seja por sua fé incompreendida, por sua cor, por sua etnia e em muitos casos por sua condição econômica nos dois extremos, muito pobres, ou muito ricos. Seu mundo é a sua comunidade e só ela importa. Em algum momento de suas vidas foram chamados de judeus de maneira ofensiva e isto os marcou para sempre.

7. Privação de qualquer identidade social. Se dizem brasileiros patriotas, mas se identificam com Israel e com tudo que esteja relacionado a este país. Assim sendo, qualquer pessoa, incluindo especialmente candidatos a cargos eletivos, precisa declarar explicitamente seu apoio incondicional a Israel. Uma xenofobia exacerbada  que torna seu inimigo quem não o fizer.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. O fascismo judaico é doentio na sua contradição sociológica. O fato de existirem judeus integrados na sociedade onde vivem, de se importarem com suas comunidades e se identificarem com ela, faz deles traidores de seu povo original, algo inaceitável, principalmente quando se dizem não sionistas, ou pior, antissionistas.

9. Para o “J-Fascismo” não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Pacifismo é coisa de maricas. Eles acreditam que a batalha pela vida é uma luta diária contra o antissemitismo que assola o mundo e está a espreita em cada esquina pronto para atacar. Todo candidato de esquerda em uma eleição é um inimigo a ser combatido juntamente com seus apoiadores, especialmente se forem judeus.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. Para os “J-Fascistas”, aqueles judeus que não se identificam com a sua causa, são a escória da comunidade. Eles sequer tem o direito de se intitularem como judeus, não sendo dignos de pertencerem a elite.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Para o “J-Fascismo”, Israel é motivo de idolatria permanente. Todo israelense é um herói que luta pela sobrevivência do país para que os judeus tenham um lar nacional e um porto seguro onde chegar quando o antissemitismo vingar. Sendo assim, defender Israel é uma razão para viver e para morrer.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o “J-Fascista” transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Como os “Ur-Fascistas”, eles também são misóginos e sentem prazer em atacar as judias de esquerda. Machistas, não aceitam as mulheres da comunidade que lutam por igualdade social e direitos humanos.

13. O “J-Fascismo” baseia-se em um “populismo qualitativo”. A comunidade judaica precisa ter um formato monolítico onde o pensamento é único, o deles. Não podem existir diferenças e a imagem que deve ser passada é aquela de uma comunidade que comunga dos mesmos ideais. Com o advento da Internet e das mídias sociais, isto tornou-se impossível, portanto os grupos dissonantes precisam ser combatidos.

Por fim, transcrevo na íntegra a última característica, apenas substituindo o “Ur-Fascismo”, por “J-Fascismo”.

14. O “J-Fascismo” fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de “J-Fascismo” são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Como podemos observar o fascismo judaico, por mais absurdo e contraditório que seja, existe e está presente na comunidade judaica brasileira. Onde nas manchetes da semana escreveram sobre os rachas de grupos judaicos em favor e contra o voto em Boulos, leia-se, os esclarecimentos a sociedade brasileira sobre a existência de fascistas judeus que em nada se diferenciam de seus congêneres não judeus.

A esquerda judaica brasileira está presente nestas eleições apoiando os candidatos progressistas. Estamos engajados em eleger Boulos em SP e Manu em Porto Alegre. Aos fascistas, judeus e não judeus a mesma mensagem: Não Passarão!

Somo a voz dissonante, aquela com um raciocínio complexo e crítico. Somos a luz do judaísmo humanista, orgulho de nossos profetas. Aqueles que lutam por um mundo melhor, por uma sociedade mais justa e combate o fascismo onde ele estiver.

O Capitão é Racista, o General é Racista e o Brasil é Racista

Racismo? Não existe, é pura invenção.

Na visão do capitão-presidente e de seu vice, que obviamente só poderia ser um general, a existência de racismo no Brasil é uma falácia criada por traidores da pátria. Jair Bolsonaro deixou isso muito claro na reunião dos líderes do G20, no final de novembro, ao comentar os protestos contra a discriminação racial  após o assassinato do negro João Alberto Freitas, por seguranças de um supermercado Carrefour no Rio Grande do Sul. Espancado até a morte, Beto Freitas ficou como triste exemplo, na véspera do Dia da Consciência Negra, de como os negros continuam a ser os maiores alvos da violência no Brasil.

Como de hábito, o capitão não achou necessário prestar solidariedade à família da vítima, ignorando assim, pela enésima vez, o papel de um chefe de Estado. Desavergonhadamente, jogou a responsabilidade dos protestos sobre aqueles que querem “colocar a divisão entre raças” no Brasil. “Aqueles que instigam o povo à discórdia, fabricando e provocando conflitos, atentam contra a nação e contra a nossa própria história”.

Do seu ponto de vista, o presidente tem razão, já que para ele não apenas inexiste racismo no Brasil como tudo não passa de uma montagem com o objetivo de desestabilizá-lo. Obra de comunista, claro. Numa publicação no Facebook defendeu que “o Brasil tem uma cultura diversa”, um “povo miscigenado”, “uma única família”, mas “há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre classes”.

Para o chefe de Estado brasileiro, “problemas como o da violência são vivenciados por todos, de todas as formas” e quem pretende dividir “o sofrimento do povo brasileiro” com questões de raça, apenas quer jogar uns contra os outros, porque “um povo vulnerável é mais fácil de ser controlado”.

“Como homem e como Presidente, sou daltónico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus”, garantiu.

Jair Bolsonaro pode ser acusado de todos os males do mundo, mas não de ser opaco. Foi, é e sempre será transparente. Ninguém tem a desculpa de dizer que não sabia quem era o personagem ao apertar a tecla 17 da urna eletrônica. Durante uma entrevista no programa Roda Vida, da TV Cultura, o então candidato, num caso exemplar de revisionismo histórico, chegou a negar a responsabilidade do homem branco no passado escravocrata do país; amenizou o papel de Portugal e responsabilizou os próprios negros pelo tráfico negreiro que perdurou do século 16 ao 19, levando de forma forçada cerca de 12 milhões de africanos às Américas, mais de 4,8 milhões dos quais para o Brasil.

“O português nem pisava na África,  disse Bolsonaro. Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.

Ao ser indagado pelo diretor da ONG Educafro, Frei David, sobre a política de cotas raciais, o candidato se declarou contra, argumentando que as cotas visavam “dividir o Brasil entre brancos e negros”. Foi questionado sobre de que forma pretendia reparar a dívida histórica existente diante da escravidão, no que respondeu: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida”.

Dias antes da entrevista, Jair Bolsonaro comparou os negros que vivem nos quilombos a gado e disse que eles não servem nem para procriar.

Ao contrário do presidente, o vice Hamilton Mourão chegou a lamentar a morte de  Beto Freitas, mas atribuiu-a apenas ao despreparo dos seguranças e não ao fato da vítima ser negra, até porque, como ele próprio sublinha, não há racismo no Brasil. “Eu digo para você com toda a tranquilidade: não tem racismo aqui”, sublinhou o general em declarações à imprensa. “Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui.”

O vice continuou então dizendo que racismo existe em outros países, como nos Estados Unidos. Acrescentou ter morado naquele país na década de 1960 e, com base nessa experiência, pode concluir que não existe um problema racial no Brasil.

Acontece que Mourão, a exemplo de seu chefe, é racista.

Após conversar com jornalistas ao desembarcar no aeroporto de Brasília, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, o general elogiou seu neto, afirmou que ele representava o “branqueamento da raça”. “Gente, deixa eu ir lá que meus filhos estão me esperando. Meu neto é um cara bonito, viu ali. “Branqueamento da raça”, afirmou no fim da conversa, dando gargalhada.

É salutar abrirmos um parêntese: A tese do “branqueamento” teve origem na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, quando vigoraram em várias partes do globo as teses eugenistas, que defendiam um padrão genético superior para a “raça” humana. Argumentava-se que o homem branco europeu tinha o melhor padrão de saúde, beleza e maior “competência civilizacional” em comparação às demais “raças”: amarela, referindo-se aos asiáticos, vermelha, relativa aos povos indígenas, e a negra, africana.

Foi então que intelectuais brasileiros incorporaram essas teses e delas derivaram outra, aplicável ao contexto do continente americano: a “tese do branqueamento”, que partia da ideia de que, dada a realidade do processo de miscigenação na história brasileira, os descendentes de negros passariam a ficar progressivamente cada dia mais brancos.

O antropólogo e médico carioca João Baptista de Lacerda foi um dos expoentes da tese do branqueamento, tendo participado, em 1911, do Congresso Universal das Raças, em Londres. Esse congresso reuniu intelectuais do mundo todo para debater o tema do racialismo e da relação das raças com o progresso das civilizações. Baptista levou ao evento o artigo “Sur les métis au Brésil” – Sobre os mestiços no Brasil, em que defendia o fator da miscigenação como algo positivo no caso brasileiro, por conta da sobreposição dos traços da raça branca sobre as outras, a negra e a indígena.

Em um trecho do artigo, ele afirmava: “A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro.

A partir dessa teoria, felizmente desmentida, temos condições de saber quem é de fato o general Hamilton Mourão.

O Brasil é racista. Talvez, como disse a ex-consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, em debate na Flip de Paraty com a antropóloga Lilia Schwarcz, seja um dos países mais racistas do mundo. Ela conta que nas recepções dadas em sua casa, os convidados sistematicamente a confundiam com a empregada doméstica.

A realidade se apresenta em números. De acordo com os dados do Atlas da Violência 2020, os assassinatos de negros no Brasil aumentaram 11,5% na última década, enquanto as de não negros caíram 12,9%. Em 2018, 75,7% das pessoas assassinadas no Brasil eram negras.

Na pandemia, a cada dez brancos que morrem vítimas da Covid-19 no Brasil, morrem 14 pretos e pardos, que representam a categoria de brasileiros negros. Os dados são resultados de uma análise da reportagem da CNN com base nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. No caso das internações pela doença, há um equilíbrio: negros representam 49,1% dos internados, enquanto brancos representam 49%. Mas na análise das mortes, o descompasso aparece, pretos e pardos representam 57% dos mortos pela doença enquanto brancos são 41% dos mortos.

“As pessoas negras são maioria no mercado de trabalho informal, tendo muito mais dificuldade de procurar os serviços de saúde no tempo adequado, já chegando em condições piores. São pessoas que também têm uma localização geográfica que não favorece a busca por hospitais, ficando geralmente em pronto socorros e serviços de saúde periféricos, que vão ter o maior tempo de espera para a transferência para uma vaga de UTI, por exemplo, além desses serviços serem serviços de qualidade inferior”, segundo a médica Denize Ornelas.

Outro fator que os especialistas afirmam poder explicar esses números é o perfil de quem está na linha de frente e tem contato direto com os infectados pela doença. “Dentre os profissionais de saúde, com exceção  dos médicos, os auxiliares de enfermagem e técnicos de enfermagem  são majoritariamente pessoas negras e isso também os coloca em maior risco de contaminação, adoecimento e óbito”, diz Alexandre da Silva, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí.

Entre os profissionais de enfermagem brasileiros, 42,3% são brancos e 53% pretos e pardos, de acordo com a Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, de 2013, feita pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem.

Em São Paulo, apenas um em cada dez alunos de escolas privadas (via de regra melhores que as públicas) é negro.

E a diferença salarial entre brancos e negros, é de 45%, de acordo com a Pnad, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, de 2019.

Essa diferença não pode ser atribuída apenas à falta de oportunidade de formação para pessoas negras. Segundo cálculo do Instituto Locomotiva, a diferença continua a ser significativa, de 31%, mesmo quando comparados os salários de brancos e negros com ensino superior. Sobra apenas a cor da pele; diz um artigo do jornal Folha de S. Paulo, de 6 de janeiro de 2020.

“Trata-se de uma desigualdade persistente que só pode ser explicada pelo racismo estrutural. Por um lado, ele se expressa no preconceito racial. Por outro, no maior capital social dos brancos: o famoso ‘quem indica’ um branco é outro branco que está em um cargo alto”, afirma Renato Meirelles, presidente do Locomotiva.

Apesar da realidade fria dos números, apenas 5% dos brasileiros consideram que o racismo é um problema no país. Entre estes não estão os membros do governo civil-militar liderado pelo capitão.

Como escreveu Fernanda Mena, mestre em sociologia e direitos humanos pela London School of Economics e doutora em Relações Internacionais, “os protestos antirracistas em algumas capitais do país indicam que, assim como muitos americanos diante do caso George Floyd, muitos brasileiros não estão mais dispostos a se calar sobre as violências que ceifam vidas negras no país. Se os protestos são o início de uma onda, só o tempo o dirá, mas parece cada vez mais difícil fechar os olhos para o fato de que o racismo finalmente caminha para ser compreendido como um problema de todos.”

Samba Perdido – Capítulo 22

 Capítulo 22

” … dizer que o pior aconteceu,

Pode guardar as panelas

Que hoje o dinheiro não deu.”

Paulinho da Viola – Pode Guardar as Panelas

 

Os ônibus que partiam de Ipanema rumo ao centro cruzavam primeiro por Copacabana para depois sair da Zona Sul pelo Túnel Novo. Do outro lado, passavam pelo Shopping Rio Sul, pelo teatro do Canecão e pelo campo do Botafogo antes de virarem à esquerda em direção à praia de mesmo nome. De lá, beiravam a Baía de Guanabara seguindo em direção a um mundo de escritórios e de repartições públicas. No meu primeiro dia como estudante universitário me senti bem pegando o ônibus 511 que seguia a mesma rota, mas que depois do Túnel Novo pegava a direita para entrar na pacífica Praia Vermelha, terra do Iate Clube e dos quartéis mais ilustres do exército.

Enquanto o ônibus enfrentava o eterno congestionamento da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, comecei a pensar sobre o ciclo que estava prestes a começar. Nas minhas divagacões, me dei conta de que não sabia o que esperar de um curso de Economia nem dos meus colegas. Fiquei curioso. Foi estranho saltar do ônibus em frente à Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, e entrar no campus. Já tinha passado por ali milhares de vezes mas nunca imaginei que um dia fosse estudar naquele lugar bonito. 

Ao cruzar o portão descobri um lugar tranquilo, com árvores bem cuidadas margeando ruazinhas sem trânsito separando construções bem preservadas do século passado. Originalmente, o prédio da faculdade tinha servido como um hospício, agora transferido para um prédio mais moderno dentro do campus, o famoso Pinel. Em pouco tempo estaria me deparando com enfermeiros correndo atrás de pacientes em fuga entre os carros estacionados e nos corredores da faculdade.

As salas eram maravilhosas, amplas e bem preservadas. Elas tinham sido o ninho da resistência estudantil à ditadura militar nos anos 60. A União Nacional do Estudantes (UNE) havia organizado muitos dos seus encontros cruciais em um dos patios internos daquela faculdade, num anfiteatro semiaberto, o Teatro de Arena. A maioria dos estudantes que haviam optado pela resistência armada tinham tomado suas decisões ali nos mesmos corredores e salas que estavam prestes a nos receber.

O legado político do prédio ainda estava vivo. Mesmo em 1981, ainda circulavam rumores de que alguns colegas eram policiais disfarçados – a carapuça servia, mas não dava para saber. O diretório central dos estudantes, o DCE, era agitado. Suas assembleias eram frequentadas por trotskistas, leninistas, maoístas e anarquistas, bem como membros dos partidos recém-formados, como o PT e o PDT, herdeiro do histórico PTB de Getúlio Vargas. Havia também gente ligada a movimentos mais antigos e barra pesada como o MR-8 e o Partido Comunista bem como aqueles militando pela ecologia, pelas nações indígenas e pela diversidade sexual.

O pau quebrava no centro acadêmico. Havia arranca-rabos sérios por quase tudo; como, por exemplo, qual deveria ser a postura do diretório dos estudantes perante a invasão soviética no Afeganistão? qual partido comunista representava de verdade as massas, o PCB ou o PCdoB? quem melhor expressava as aspirações do povo, Lenin, Trotsky, Mao, Bakunin ou Marx? Essas divergências teóricas insuportáveis faziam com que a experiência de se envolver em política estudantil parecesse com a de se pertencer ao clero. 

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Longe das questões teóricas da faculdade, a situação política do país era assim: A utopia revolucionária dos Cubanos estava morta. Ninguém mais acreditava nela, nem a queria e seu pai rico, a União Soviética, estava falido e há muito tinha parado de investir em levantes populares. Seu envelhecido arqui-inimigo, o regime militar, estava em seu leito de morte. Apesar de tudo isso, depois de quase duas décadas de regime militar e com uma situação econômica em declínio, havia um descontentamento generalizado nas ruas e a sensação de que uma reviravolta estava por vir.

O objetivo das militâncias ainda era o de transformar ou mesmo substituir o capitalismo. O problema era que o arcabouço teórico da esquerda, que havia inspirado múltiplas gerações antes e depois das duas guerras mundiais, já não fornecia respostas suficientes para a situação atual. O sistema econômico e tecnológico tinha se tornado muito mais complexo do que quando aquelas obras tinham sido escritas. As antigas teorias não explicavam o fracasso dos regimes ditos comunistas, tanto a nível de apoio popular quanto a nível de prover um nível de vida satisfatório. Em contraste, havia o inexplicado sucesso estrondoso das democracias liberais no pós-guerra que, além de fornecer liberdade de expressão, trouxe melhorias substanciais para todas as classes sociais. Ademais, havia várias questões que passavam ao largo do tema central da esquerda: a luta de classes, como o equilíbrio ambiental, as relações humanas, a saúde física e mental da população, entre outras. 

Essa paralisação teórica continuou afetando as forças progressistas até o dia em que estas palavras foram escritas.

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Embora impopular e praticamente inexistente no Brasil na época – principalmente na faculdade de Economia da UFRJ – a ideologia de direita estava se apresentando como uma alternativa ideológica inovadora. Seus novos defensores queriam levar o mundo a um estágio de desenvolvimento radicalmente avançado, parecido com o que se via em ficções científicas. Para conseguir isso acreditavam que se deveria deixar o terreno livre para o mercado; uma máquina irretocável, impessoal, apolítica e por isso extremamente dinâmica.

A frase que melhor definia sua visão era a da Margaret Thatcher: “a sociedade não existe.” Para eles, o egoísmo era a mola mestre do mundo. Se esquecessemos que o ser humano é um animal social e nos concentrassemos no “necessário” – sobreviver e ficar rico – estariamos livres para levar nossos talentos até o limite, sem impedimentos. Uma lei da selva benévola cuidaria para que cada um recebesse a porção merecida dependendo da sua capacidade e do seu esforço. Apostando na concorrência e na vitória da competência, todos sairiam ganhando já que todos dariam o melhor de si e obteríamos os melhores resultados possíveis. De quebra, nos veríamos livres da ineficácia dos Estados.

É claro que nessa corrida a maioria correria descalça enquanto uma minoria correria de Ferrari. As grandes corporações sairiam na frente e, sem ninguém para confrontá-las nem se preocupar com o bem comum, teriam liberdade completa. Imporiam os salários que entendessem, poluiriam o que quisessem, desalojariam, demitiriam e abusariam quem bem entendessem. Não haveria escolas públicas, hospitais públicos, políticas de desenvolvimento, ou qualquer outro esforço para o interesse da população em geral, apenas o mercado e a geração irrefreável de lucro. 

Em 1973, essa escola tinha tomado o poder na ditadura do Pinochet, no Chile, e nos anos 80 estava se espalhando como fogueira no dito mundo civilizado. Seus principais expoentes estavam sendo homenageados por governos e ganhando prêmios Nobel. Choques neoliberais estavam sendo introduzidos no Reino Unido e nos Estados Unidos enquanto regimes comunistas na Europa do Leste, o bloco soviético e o regime chinês se estavam sendo asfixiados econômicamente. Uma reviravolta parecida estava acontecendo no mundo acadêmico onde em breve as palavras socialismo, e principalmente comunismo, se tornariam como sinônimos de lepra, completamente rejeitados em faculdades “respeitáveis”.

Alem das grandes corporações e do mercado financeiro, agraciados com grandes reducões de impostos para se tornarem mais competitivos, a desregulação econômica agradaria a muitos nas classes médias. Com privatizações pipocando a torto e a direita fazendo as bolsas dispararem, muitos enriqueceram com isso. No Reino Unido, por exemplo, o governo vendeu conjuntos habitacionais e muitos dos antigos inquilinos conseguiram se tornar proprietários pela primeira vez em gerações.

Mesmo assim, pelos quatro cantos do planeta, a maioria da população foi sugada para dentro da pobreza. Países periféricos interessados em manter suas “vantagens comparativas” passaram a oferecer mão de obra com salários de fome como seu principal atrativo econômico às grandes corporações. Essa política criaria bolsas gigantescas de gente que não conseguia manter o seu sustento apesar de trabalhar o mais duro que podiam. Todos na ilusão de um dia ficarem ricos. Grande parte da população nos paises ocidentais veria seus empregos irem para recantos com salários mais “competitivos” no outro lado do mundo. Por outro lado, a diferença entre o que os executivos ganhavam e o que os escalões mais baixos ganhavam saltaria de 12 para 700 vezes. Com balanços positivos nas grandes corporações e suas ações subindo nas bolsas mas com o poder de compra muito reduzido devido aos arrochos salariais as economias neoliberais se acabariam se tornando menos competitivas que as economias mais planejadas como a russa, a chinesa e mesmo a Alemã. 

Conforme a verdade foi demonstrando que o dinamismo prometido pelos profetas do liberalismo era inexistente, a manipulação e até a fabricaçāo da realidade se tornariam cruciais. O principal inimigo do sistema se tornaria o pensamento crítico, nossos sonhos, nossa vontade de sermos livres da opressão do mercado, o índio nu na floresta que não sabia o que era dinheiro, a solidariedade a quem não trazia vantagem nenhuma e tudo mais o que não endeusasse o lucro privado. 

Para eles quem tinha que mudar éramos nós, não o sistema. Para nós, não havia nada de errado com ninguém, o que tinha que mudar era justamente o sistema. O conceito mais pernicioso do agora discurso oficial era a mentira de que nada poderia ser feito diferente. Tal como os indígenas brasileiros ensinados pelas missões evangelizadoras que seu mundo era errado e que para salvar suas almas precisavam aceitar o seu fim em prol do cristianismo e do mercantilismo por trás dele, os defensores do novo pensamento diziam que população tinha que se adaptar a Moloch ou desaparecer.

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A Faculdade de Economia e Administração da UFRJ – a FEA – não era de esquerda própriamente dita. Sua linha era desenvolvimentista com conexão direta à CEPAL, Centro de Estudos Para a América Latina, erguida pelos governos democráticos no pós-guerra para achar soluções para o continente. Nossos professores mais influentes eram Keynesianos e defendiam uma aliança entre governo e capital privado para desenvolver o país. Os Estados Unidos tinham escolhido esse caminho nos anos 1930 para sair da recessão econômica através do New Deal implantado pelo presidente Roosevelt e era a que os aliados também adotaram para reerguer a Europa no pós-guerra com o plano Marshall. Para nossos professores o empresariado brasileiro era descapitalizado e despreparado demais para levar adiante um projeto de desenvolvimento e só um empurrão forte do Estado poderia, no jargão dos economistas, alavancar a economia brasileira.

Apesar de nunca ter apoiado a Revolução Cubana, esta escola se tornou um dos principais alvos da sua contrapartida criada pelo Departamento de Estado Norte Americano, a Escola das Américas. Seguidora fiel da Escola de Chicago e financiada por grupos interessados em assegurar seu predominio no continente, ela formaria vários ditadores e diversos personagens estadounidenses que teriam peso no futuro do continente. 

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Os militantes de esquerda viam nossa turma como burgueses alienados. Por outro lado, os estudantes sem interesse em política viam quem se interessava em militar por avanços progressistas como playboys perdidos tirando uma onda infantil de revolucionários. Esta turma, a grande maioria mesmo naquela época, focava em se tornar histórias de sucesso depois que se formassem. Sem dúvidas, era uma postura lógica no contexto de uma faculdade de primeira linha. Porém, eu não estava no momento certo, nem na faculdade certa, para adotá-la. A verdade é que assim que entrei para a aula introdutória e vi meus novos colegas e professores tive a sensação clara de que aquilo era uma contingência e não o início de uma carreira.

O curso de economia da UFRJ visava preparar quadros para agências de desenvolvimento do governo e para companhias estatais: BNDES, IPEA, Eletrobrás, Petrobrás entre outras. Depois que as aulas começaram, descobri que muitos professores eram fascinantes e inteligentíssimos, alguns sobreviventes dos anos de chumbo da ditadura. Os professores mais engajados nos viam como uma nova espécie de estudante: um dos primeiros contingentes livres das amarras dos militares. Os que haviam voltado recentemente do exílio, estavam entusiasmados por poder lecionar livremente em seu próprio país.

O lugar e o ambiente eram estimulantes e, por isso, resolvi ignorar os pensamentos negativos iniciais e dar uma chance ao curso. Não dava para comparar aquelas aulas com o que víamos nas fábricas de passar no vestibular. Quem sabe não tivesse tomado a decisão certa e viesse a gostar do curso?

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Tudo ia bem até que contraí uma hepatite em Mauá que me forçou a passar um mês e meio de cama. Aquela pausa marcaria o começo de uma reviravolta pessoal e, estranhamente, o início de uma reviravolta muito maior no país. A liberdade política estava garantida, as eleições diretas para presidente eram uma questão de tempo, porém uma era de inferno econômico estava despertando.

Era um acontecimento global; ao redor do planeta fundamentalistas religiosos cristãos, judeus e muçulmanos estavam desbancando a esquerda em termos de atrair a opinião pública. A AIDS estava se espalhando e Ronald Reagan e Margaret Thatcher estavam consolidando suas políticas conservadoras. Um ciclo neoliberal e careta estava iniciando um reinado de pelo menos quatro décadas.

Confinado à cama, me sentindo fraco, comendo e bebendo em pratos e copos separados para que minha infecção não se espalhasse em casa, presenciei o Fundo Monetário Internacional começar seu ataque ao Brasil. Representando as economias centrais ele decretou que dívidas contraidas em empréstimos concedidos a ditadores e antigos aliados – empréstimos realisados com fins políticos e, por isso, com facilidades especiais – eram agora uma ameaça à estabilidade mundial. As taxas de juros, agora muito mais altas, fizeram com que a dívida externa brasileira chegasse a níveis inimagináveis. As exigências do FMI e as condições para seu refinanciamento sufocaram não só a economia brasileira, mas também a economia de todos os outros países em situações parecidas.

A gestão de dívidas sempre foi uma das principais formas de subjugar. No Brasil, como de costume, a corda arrebentou para o lado dos mais fracos. O governo aumentou impostos e subiu a taxa de juros que, por sua vez, dificultou empréstimos e fez com que empresas fechassem ou diminuíssem os seus quadros de funcionários. Por outro lado, obrigado pelo FMI a cortar gastos, o governo também passou a demitir gente e a fazer menos contratos com companhias privadas. Quando essas fechavam as portas, engrossavam o exército de desempregados sem nenhuma forma de assistência social.

Devido à incompetência ou talvez à inexperiência com condições tão adversas, o próximo passo das autoridades foi apelar para a emissão de moeda para honrar suas obrigações internas e externas, um caminho certo para a inflação. A inflação, que em pouco tempo se tornou galopante, diminuia ainda mais o poder de compra da população. A crise foi se alastrando como uma dor de dentes piorando a cada dia.

Com uma média mensal entre vinte a trinta por cento durante os 15 anos seguintes, a inflação no Brasil chegou ao acumulado de 20.759.903.275.651 por cento, um recorde mundial absoluto. Para se ter uma ideia do tanto que a situação ficou feia, caso meu pai não tivesse resguardado seu patrimônio, pelo mesmo preço que havia comprado nosso confortável apartamento em Ipanema no boom da bolsa nos anos 1970, alguns anos depois só poderia ter comprado um cafezinho num boteco de esquina.

No entanto, na FEA, professores e alunos viam essa turbulência de uma maneira diferente. Acontece que o seu departamento de Economia estava na linha de frente da oposição às políticas governamentais muito antes da crise começar. Vários de nossos professores haviam dado o alerta sobre os perigos à frente. Muitos brasileiros acreditavam que aqueles acadêmicos poderiam ser a salvação para o país naquela bagunça. Por isso, eles se tornaram figuras públicas, aparecendo direto em entrevistas e debates na televisão, publicando livros e escrevendo artigos de página inteira para os principais jornais do país.

 

A Bússula Ideológica

Há vários instrumentos físicos que podem nos fornecer referenciais para orientação. Por exemplo, temos a bússola, que indica o norte magnético da Terra, algo que varia muito pouco, e serve como referência para navegação aérea, marítima e terrestre. Por outro lado, temos a biruta de aeroporto, que indica a direção do vento, algo que com frequência altera um plano de pouso ou decolagem, independentemente do que aponta a bússola magnética.

Os debates sobre orientação ideológica que tenho visto no Brasil parecem mais guiados por birutas do que por bússolas.

Ora, qual o referencial de hoje para dizermos o que é “esquerda” e “direita”?

Tenho para mim que o marco referencial para o debate nacional é a Carta Magna. Ela é o “centro”, e as diferentes vertentes devem ser confrontadas com o seu espírito.

Ocorre que a nossa Carta, em relação ao que predominou no Brasil no século XX é um texto social democrata, que no grande espectro histórico se coloca na centro-esquerda. Privilegia o bem-estar social, a função social da propriedade, a distribuição de riqueza, as liberdades fundamentais e garantias individuais, a socialização da saúde pública, da educação, entre outros princípios distributivos.

Mas, uma vez colocada como nosso grande contrato social, ela passa a ser o centro. Opiniões mais contrárias às liberdades privadas e ao capital seriam à esquerda da nossa Carta. Opiniões mais anti-estado, mais favoráveis às desregulamentações e liberdades individuais, privilégios ao capital, são à direita da Carta. Uma extrema esquerda seria algo que romperia com o conceito de propriedade privada ainda que por meios de ruptura institucional. Uma extrema direita, no sentido oposto, promoveria a ruptura dos compromissos sociais e das regulações do estado pelos meios autoritários e violentos.

Assim, no contexto atual, ser CONSERVADOR no Brasil significa PRESERVAR os valores de nossa Carta, o que no contexto global geográfico e histórico significa ser PROGRESSISTA e de centro-esquerda. Sim parece um paradoxo, mas não é.

Tudo isso para se explicar que as forças que se definem hoje como “conservadoras” não são conservadoras, e sim, REACIONÁRIAS, pois querem retroagir nossa vida ao período pré-constituição de 1988. São foças retrógradas e violentas, pois praticam a política de rupturas institucionais e pregam contra as instituições democráticas e sociais tal qual definidas na nossa Carta. A própria tentativa de se definirem como “conservadoras” já caracterizam uma CORRUPÇÃO ideológica e filosófica, pois tentam se definir como algo que não são.

E tudo isso para explicar, que o que se chama atualmente de CENTRO, não é centro, é DIREITA, pois vai na direção do capital e do poder individual em detrimento do coletivo e social.

É claro que na complexidade de nossa Carta há pequenos devaneios ora de esquerda, ora de direita, dado que foi um instrumento construído de forma muito plural, com qualidades e defeitos intrínsecos. Assim, o exegeta pode, como na leitura da Bíblia, “puxar a sardinha” um pouco para lá ou para cá, sem fugir do campo democrático de debate, já que neste campo as janelas são retangulares, e o Sol, redondo. O dia é claro, e a noite, escura. Não há a corrupção dos significados, esta que vem sendo a ferramenta fundamental da extrema direita, que depende disso para atacar a ciência e confundir incautos.

Acertem, portanto, suas bússolas para não ficarem tontos com as birutas.

Nelson Nisenbaum