Ele não

Estamos assistindo dentro da comunidade judaica do Rio de Janeiro o descalabro de mais uma instituição que ao contrário da Hebraica que é apenas um clube social, desta vez tem a autoridade representativa da comunidade carioca, a FIERJ (Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro).

No Brasil, a entidade máxima da comunidade é a CONIB (Confederação Israelita do Brasil), e a ela estão filiadas as federações israelitas dos estados, que por sua vez representam as comunidades locais.

A CONIB achou por bem encaminhar um documento aos dois concorrentes à presidência da república, onde em resumo, fazia a defesa do respeito à democracia. Em nenhum momento, como era de se esperar, a CONIB expressou qualquer agravo, ou desagravo a nenhuma das candidaturas.

Eis que, o Sr. Ary Bergher, presidente da FIERJ, encarregado de fazer a entrega da manifestação ao representante do PSL, faz disso um ato de apoio da comunidade judaica ao candidato do partido.

Esta atitude combina um ato de falsidade ideológica com apropriação indébita. Ele não recebeu mandato da CONIB para apoiar um candidato e tampouco era o dono do manifesto. O que assistimos foi o mensageiro se assumindo o responsável pela mensagem.

Como nada está tão ruim que não possa piorar este mesmo senhor em meio a um evento na já famigerada Hebraica-RJ, agride uma senhora de 88 anos por banalidades e ofende outros tantos membros da comunidade que lá estavam.

De certa forma já estamos assistindo no Brasil atos de violência inomináveis, inclusive com mortes e todos relacionados com a campanha política do PSL.

O que ainda não havia acontecido, e talvez seja esta a grande novidade, é que eis que nas nossas próprias instituições, a violência já bate a porta vinda justamente daquele que foi eleito para representar toda uma comunidade.

O Sr. Ary Bergher é apenas o primeiro a colocar as mangas de fora, mas certamente não será o último, principalmente se a comunidade carioca não tomar as providências cabíveis dentro do que está previsto no estatuto da federação.

Também é preciso que a CONIB não se omita e se manifeste em favor do respeito à democracia, objeto de seu manifesto, e da dignidade que dirigentes comunitários precisam ter respeitando a todos.

Nós, judeus brasileiros agradecemos.

 

 

 

 

Sionismo socialista para leigos, uma história do movimento socialista judaico.– segunda parte.

A história do Sionismo Socialista não estaria completa sem mencionar a figura de Moses Hess , um filósofo franco-judeu e um dos fundadores do Sionismo Trabalhista. Nascido em 1812 e morto em 1875, influenciou dois dos maiores personagens da história do comunismo e com eles conviveu, Marx e Friedrich Engels com quem acabou entrando em conflito.

O pai de Hess era um rabino, mas nunca exerceu a profissão. Recebeu uma educação religiosa de seu avô e foi estudar filosofia na Universidade de Bonn, não concluindo o curso.

Ele se casou com uma pobre costureira católica, Sibylle Pesch, “para corrigir a injustiça perpetrada pela sociedade”. Apesar de permanecerem felizes no casamento até a morte de Hess , ela teria tido um suposto caso com Friedrich Engels quando ele a contrabandeou da Bélgica para a França para se reunir com o marido. O incidente pode ter sido uma das razões para Hess se separar do movimento comunista .

Hess foi um dos primeiros proponentes do socialismo e precursor do que mais tarde seria chamado sionismo. Como correspondente do Rheinische Zeitung, um jornal radical fundado por empresários liberais renanos (Renania), morou em Paris. Como amigo e colaborador de Karl Marx (que também trabalhou no Rheinische Zeitung) e Friedrich Engels. Foi Hess quem introduziu Engels, no comunismo no início da década de 1840.

Mas Marx e Engels se tornariam bem conhecidos por sua abordagem inconstante e combativa de colegas socialistas que demonstraram insuficiente concordância com sua própria forma de socialismo. No final da década de 1840, eles haviam rompido com Hess. Eles zombaram dele, primeiro pelas costas e depois abertamente. O trabalho de Hess também foi criticado em parte pela The German Ideology por Marx e Engels.

Este rompimento teve como origem o fato de Hess relutar em basear toda a história nas causas econômicas e na luta de classes (como fizeram Marx e Engels), e ele passar a ver a luta das raças, ou nacionalidades, como o fator primordial da história. Hess seguiu contemporizando com Marx em várias questões.

Entre  1861 a 1863, ele viveu na Alemanha, onde se familiarizou com a crescente onda de antissemitismo alemão. Foi então que ele voltou ao seu nome judaico Moses (Moisés), depois de aparentemente ter adotado o nome de Moritz Hess  em protesto contra a assimilação judaica. Ele publicou Roma e Jerusalém em 1862, onde interpreta a história como um círculo de raça e lutas nacionais. Ele contemplou a ascensão do nacionalismo italiano e a reação alemã a ele, e a partir disso chegou à ideia do renascimento nacional judaico e ao seu entendimento precavido de que os alemães não seriam tolerantes com as aspirações nacionais de outros e seriam particularmente intolerantes com os judeus. Seu livro pede o estabelecimento de uma comunidade judaica socialista na Palestina, alinhada com os movimentos nacionais emergentes na Europa como única maneira de responder ao antissemitismo e afirmar a identidade judaica no mundo moderno.

Apesar de previsão de Hess, a imensa maioria dos judeus alemães estava empenhada na assimilação cultural e não atendeu aos seus avisos. Seu trabalho não estimulou atividade política ou discussão.

Quando Theodor Herzl leu Roma e Jerusalém pela primeira vez, escreveu que “desde Espinosa que os judeus não tinham um pensador maior do que aquele esquecido Moses Hess”. Ele disse que talvez não tivesse escrito Der Judenstaat (O Estado Judeu) se tivesse conhecido Roma e Jerusalém de antemão.

Causa espécie o fato da esquerda desconhecer Hess. Até mesmo o recente filme “O Jovem Marx” não o menciona.

Depois de ter escrito sobre o inicio do Sionismo Socialista e alguns de seus precursores, como Ber Borochov, Nachman Sirkyn e Moses Hess, é preciso contar um pouco da vida e da obra de Berl Katznelson, um dos fundadores intelectuais do Sionismo Socialista, que instrumentou o estabelecimento do moderno Estado de Israel.

Nasceu em 25 de janeiro de 1887 em Babruysk, Império Russo (atualmente Belarussia) e faleceu em 12 de agosto de 1944 em Israel vítima de aneurisma. Filho de um membro de Hovevei Sion (Amantes de Sion), ele sonhava em se estabelecer na pátria judaica desde cedo. Na Rússia, ele era bibliotecário em uma biblioteca hebraico-iídiche e ensinava literatura hebraica e história judaica. Acabou fazendo aliá (termo hebraico que significa subida) para a Palestina Otomana em 1909, onde trabalhou na agricultura e assumiu um papel ativo na organização de federações operárias baseadas na idéia de “trabalho comum, vida e aspirações”.

Juntamente com seu primo, Yitzhak Tabenkin, Katznelson foi um dos fundadores do sindicato dos trabalhadores israelenses, a Histadrut. Nesta função, juntamente com Meir Rothberg do Kibutz Kinneret, fundou em 1916 a cooperativa de consumidores conhecida como Hamashbir (que anos mais tarde viria a se tornar uma rede de lojas do movimento kibutziano) com o objetivo de suprir as comunidades judaicas da Palestina com alimentos a preços acessíveis durante os terríveis anos de escassez no mercado durante a Primeira Guerra Mundial. Ele ajudou a estabelecer o Serviço de Saúde Klalit que provia as necessidades médicas para a população (algo similar ao INSS no Brasil) que se tornou um importante dispositivo na rede de medicina socializada de Israel. Em 1925, juntamente com Moshe Beilinson, Katznelson estabeleceu o jornal diário Davar, e tornou-se seu primeiro editor, cargo que ocupou até a sua morte, além de se tornar o fundador e primeiro editor-chefe da editora Am Oved.

Katznelson era bem conhecido por seu desejo de coexistência pacífica entre árabes e judeus em Israel. Ele era um opositor declarado do plano de partição da Comissão Peel para a Palestina. Disse ele:

“Eu não desejo ver a realização do sionismo na forma do novo estado polonês com os árabes na posição dos judeus e dos judeus na posição dos poloneses, o povo governante. Para mim, isso seria a completa perversão do ideal sionista … Nossa geração tem sido testemunha do fato de que nações aspirantes à liberdade que se livraram do jugo da subjugação apressaram-se em colocar este jugo sobre os ombros dos outros. Ao longo das gerações em que fomos perseguidos, exilados e massacrados, aprendemos não apenas a dor do exílio e do domínio pela força, mas também o desprezo pela tirania. Isso era apenas um caso de uvas azedas? Estamos agora alimentando o sonho de escravos que desejam reinar?”

Katznelson também falou de auto-ódio judaico, dizendo:

“Existe outro povo na Terra tão emocionalmente distorcido que eles consideram tudo o que sua nação faz desprezível e odioso, enquanto todos os assassinatos, estupros, roubos cometidos por seus inimigos enchem seus corações com admiração e reverência?”

Muito do que foi realizado por Katznelson moldou a sociedade israelense até 1977 quando a direita assumiu o poder e ali permanece até os dias de hoje.

Quando a esquerda sionista fala de Israel, fala com conhecimento e direito a manifestação. Como aqueles no passado, defendemos a coexistência com os palestinos e lutamos pelo estabelecimento de seu estado nas linhas de fronteira de 1967.

Somo favoráveis a um acordo de paz que traga justiça e convivência pacífica entre nossos povos e apoiamos os companheiros palestinos que têm a mesma visão.

A esquerda sionista desafia a esquerda tradicional nos países em que vivemos a se libertar do ranço antissionista e nos ajudar a combater o antissemitismo em todo espectro político, compreendendo finalmente que somos uma força política considerável.

Nossa luta é travada no dia a dia contra todos aqueles que desrespeitam a existência de Israel e confundem, seja por ignorância, seja por convicção a política de estado atual com a existência política do estado que está fazendo 70 anos.

Conclamamos todas as forças de esquerda a se unirem sem discriminação na luta contra o golpe, pelo exercício pleno da democracia e o fim da politização no judiciário que atropela a constituição e exerce um quarto poder.

Nós estamos na luta independentemente dos grupos sectários e radicais que tanto mal causam a esquerda.

Ao falar dos precursores do movimento sionista socialista tive em mente esclarecer os fatos históricos e demonstrar de uma vez por todas que nem todo sionismo corresponde à doutrina religiosa ou de direita. Que o sionismo como movimento nacional judaico, sempre teve suas diversas correntes de pensamento, como todo movimento nacionalista.

Nós não somos nem melhores, nem superiores aos nossos pares da esquerda, somos iguais e como iguais exigimos sermos tratados.

Nós somos sionistas! Nós somos socialistas! Eleição sem Lula é Fraude!

 

Sionismo socialista para leigos, uma história do movimento socialista judaico. – primeira parte.

Recentemente, ao responder a um artigo de um jornalista e membro do PSOL do RS sobre o sionismo socialista, percebi o enorme desconhecimento daqueles que, mesmo convivendo na mesma trincheira conosco, insistem em nos menosprezar, duvidando da nossa existência.  A partir daí, resolvi escrever um artigo divido em 2 partes para contar de onde viemos, o que somos e o que representamos. Esta é a primeira parte.

Ao contrário do que muita gente imagina, o sionismo não surgiu com Theodor Hertzl, o sionismo teve inicio em 1881, com o inicio do movimento chamado de Primeira Aliá (aliá significa subir e é como os judeus denominam aqueles que imigram para Israel).

O que levou estes primeiros jovens judeus de origem russa e iemenita a partirem para a Palestina Otomana, um lugar até então apenas conhecido por eles pela ligação judaica histórica com Israel? A resposta não é outra senão o forte antissemitismo do século XIX.

É sabido que, desde a destruição do Segundo templo de Jerusalém pelos Romanos em 70 DEC, teve início a Diáspora (dispersão) com a maioria dos judeus passando a viver fora de Israel, conhecida também como Palestina, embora continuasse havendo ali uma constante presença de judeus também.

Saltando para o século XIX, em 1850, a Palestina tinha cerca de 350.000 habitantes. Aproximadamente 85% eram muçulmanos, 11% eram cristãos e 4% apenas eram judeus.

Em 1854, Judah Touro, um negociante e filantropista judeu deixou, após a sua morte,uma quantia em dinheiro para financiar assentamentos residenciais para judeus na Palestina. Sir Moses Montefiore (um banqueiro italiano naturalizado britânico, que foi considerado um dos mais famosos judeus do século XIX) foi nomeado executor de sua vontade e usou os fundos para uma variedade de projetos, incluindo a construção do primeiro assentamento residencial judaico e um asilo fora das muralhas da cidade de Jerusalém em 1860, que é hoje conhecida como Mishkenot Sha’ananim.

No Império Russo, as ondas de pogroms (palavra russa que significa “causar estragos, destruir violentamente”, mas que historicamente refere-se aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países) de 1881-1884 (alguns supostamente patrocinados pelo Estado), bem como as Leis de Maio antissemitas de 1882, introduzidas pelo czar Alexandre III da Rússia, tiveram um efeito devastador nas comunidades judaicas russas. Mais de 2 milhões de judeus fugiram da Rússia entre 1880 e 1920. A grande maioria deles foi para  os Estados Unidos, mas alguns decidiram realizar aliá.

E foi assim que em 1882, um grupo de Hovevei Tsion (Amantes de Sion)  fundaram Rishon Le Tsion (Primeiro Tsion), o primeiro assentamento sionista na então Palestina, apesar dos obstáculos colocados pelo governo turco, que impediam a compra de terras.

Um outro grupo do Movimento Bilu formado por quatorze estudantes universitários de Kharkov na Rússia, liderados por Israel Belkind, que mais tarde se tornaria um proeminente escritor e historiador, também chegaram a Palestina Otomana. Depois de uma curta estadia na escola de agricultura judaica em Mikveh Israel, eles se juntaram aos membros de Hovevei Tsion na criação de Rishon LeTsion (Primeiro Sion), uma cooperativa agrícola em terras compradas da aldeia árabe de Ayun Kara.

Atormentados por escassez de água, doenças e dívidas financeira, o grupo abandonou o local em poucos meses. Eles então buscaram ajuda do Barão Edmond James de Rothschild e Maurice de Hirsch, que forneceram os fundos necessários para o estabelecimento da primeira indústria vinícola local. Em 1886, começou a construção de uma vinícola em Rishon LeTsion, que se tornaria uma empresa de sucesso exportadora de vinho.

No inverno de 1884, um outro grupo de pioneiros Bilu fundou Gedera que foi estabelecida num terreno comprado da aldeia árabe de Qatra por Yehiel Michel Pines, do Hovevei Tsion, sob os auspícios do cônsul francês em Iafo.

Desta forma a primeira aliá que teve início em 1881 e durou até 1903, levou algo entre 25.000 e 35.000 judeus para a Palestina.

A maioria dos que chegaram pertenciam aos movimentos Hovevei Tsion e Bilu. Esses imigrantes criaram muitas comunidades agrícolas, assentamentos, e cidades como Petach Tikva, Rishon Letsion , Rosh Pina e Zihron Yaakov. Nenhuma delas em terras invadidas ou expropriadas.

Enquanto chegavam os primeiros imigrantes na Palestina em 1881, nascia na Ucrânia, Ber Borochov. Sua mãe e pai eram ambos professores. Quando adulto, ingressou no Partido Trabalhista Social-Democrata da Rússia, mas foi expulso quando formou uma União Sionista de Trabalhadores Socialistas em Yekaterinoslav. Depois de ser preso pelas autoridades russas, ele partiu para os Estados Unidos. Posteriormente, ajudou a formar o partido Poalei Tsion e dedicou sua vida à promoção do partido na Rússia, Europa e América. Quando O Partido Operário Social Democrata russo chegou ao poder, Borochov retornou à Rússia em março de 1917 para liderar o Poalei Tsion. Ele ficou doente e morreu em Kiev de pneumonia em dezembro de 1917.

Borochov tornou-se altamente influente no movimento sionista porque explicou o nacionalismo em geral e o nacionalismo judaico em particular sob a ótica da luta de classes marxista e do materialismo dialético. Ele via a si mesmo como um marxista, e expôs sua filosofia em sua primeira grande obra publicada em 1905, “A Questão Nacional e a Luta de Classes”. Borochov previu que as forças nacionalistas seriam mais importantes na determinação de eventos do que considerações econômicas e de classe, especialmente no que se referia aos judeus. Ele argumentou que a estrutura de classe dos judeus europeus se assemelhava a uma pirâmide de classes invertida onde poucos judeus ocupavam as camadas produtivas da sociedade como trabalhadores. Para ele, os judeus que até então migravam de país para país quando eram forçados a sair de suas profissões escolhidas por um “processo estético” acabariam sendo forçados a imigrarem para a Palestina, onde formariam uma base proletária para levar adiante a luta de classes marxista.Em novembro de 1905 ele se juntou e logo se tornou um líder do movimento Poalei Tsion (Trabalhadores de Sion). Ele se tornou um ávido defensor de um sionismo baseado na Palestina após o VI Congresso Sionista, durante o qual foi debatida a questão de Uganda como um possível refúgio temporário para os judeus.

Uma parte fundamental da ideologia de Borochov era que as classes trabalhadoras árabes e judias tinham um interesse proletário comum e participariam juntas da luta de classes quando os judeus retornassem à Palestina. Em seu último discurso gravado, ele disse:

“Muitos apontam os obstáculos que encontramos em nosso trabalho de colonização. Alguns dizem que a lei turca dificulta nosso trabalho, outros argumentam que a Palestina é insignificantemente pequena, e ainda outros nos acusam do odioso crime de desejar oprimir e expulsar os árabes da Palestina .

Quando as terras devastadas são preparadas para a colonização, quando a técnica moderna é introduzida e quando os outros obstáculos são removidos, haverá terra suficiente para acomodar tanto os judeus quanto os árabes. As relações normais entre os judeus e os árabes prevalecerão e deverão prevalecer”.

Após a morte de Borochov o movimento russo Poalei Zion dividiu-se em duas facções sobre que atitudes tomar em relação à Revolução Bolchevique de outubro de 1917. O Poalei Sion Esquerda formou a “Brigada Borochov” que se uniu ao Exército Vermelho durante a Guerra Civil Russa e, por fim, se separou do partido principal Poalei Sion para se tornar o Partido Comunista Judeu em 1919 e se unindo à seção judaica (Yevsektsiya) do Partido Comunista da União Soviética, enquanto a chamada direita social-democrata do Polalei Sion foi proscrita.

Outro expoente do sionismo socialista foi Nachman Sirkyn, nascido em 11 de Fevereiro de 1868 e morto em 6 de Setembro de  1924 na cidade de Mogilev, Império Russo (atual Belarussia). Ele foi influenciado na sua juventude pelo Movimento Hovevei Zion e pelo socialismo e se dedicou a sintetizar os dois conceitos. Nesta tarefa ele foi acompanhado por Ber Borochov, embora, ao contrário de Borochov, Syrkin não fosse um marxista ortodoxo. Ele foi um dos líderes da facção sionista socialista no Primeiro Congresso Sionista em 1897 e foi um dos primeiros proponentes do Fundo Nacional Judaico. Ele também foi a primeira pessoa a propor que os emigrantes para a Palestina formassem assentamentos coletivos. Estes assentamentos foram a origem dos Kibutzim (fazendas coletivas), cuja ideologia propunha que cada membro trabalhasse de acordo com as suas possibilidades e recebesse de acordo com as suas necessidades.

Ao contrário de muitos outros pensadores socialistas da época, Syrkin estava bastante à vontade com sua herança judaica e, embora ele não o diga explicitamente em seu ensaio “O Problema Judaico e o Estado Socialista Judaico” (1898), alguns pensadores acham ele tinha em mente a ênfase bíblica na justiça social estrita, independentemente de riqueza, poder ou privilégio. No entanto, ele viu o sionismo como um substituto para o judaísmo tradicional:

“O novo judaísmo sionista está em total contraste com o judaísmo do exílio … O sionismo arranca o judaísmo religioso de uma forma mais forte que a reforma ou assimilação, criando novos padrões de “judaísmo” que constituirão uma nova ideologia que pode ser elevada ao status de uma religião”.

Syrkin trabalhou para estabelecer grupos sionistas socialistas em toda a Europa Central. Depois de estudar e trabalhar na Alemanha e na França e depois de ser banido da Alemanha em 1904, retornou à Rússia após a Revolução Russa de 1905. Ele participou do Sétimo Congresso Sionista de Basileia em 1905 como delegado do novo Partido Sionista dos Trabalhadores Socialistas. Em 1907 ele se mudou para os Estados Unidos, onde se tornou um dos líderes do partido Poalei Sion na América.

Em 1919, Syrkin foi membro da delegação judaica americana na Conferência de Paz de Versalhes. Ele também foi uma figura importante na conferência Mundial do Poalei Sion naquele ano e recebeu a tarefa de visitar a Palestina para desenvolver um plano para o assentamento de kibutzim. Ele pretendia se mudar para a Palestina, mas morreu de um ataque cardíaco em 1924 na cidade de Nova York.

Em 1951, seus restos mortais foram enterrados no Kibbutz Kinneret, ao lado dos outros fundadores do Sionismo Trabalhista. Kfar Sirkin (fundado em 1933) perto de Petach Tikva tem o nome de Nachman Syrkin.

A experiência das fazendas coletivas em Israel, talvez tenha sido o mais próximo do socialismo utópico que a humanidade já conheceu. Estes assentamentos, além do acolhimento de novos imigrantes revolucionaram a forma como os judeus eram vistos desde muitos séculos. Esta imagem estava associada a usura, religião e todas as formas de trabalho mais elitista. Com o Kibutz, um judeu proletário e ligado a terra tomou forma.

Todas as decisões nestas fazendas eram tomadas em assembleias gerais das quais tinham direito a palavra e ao voto qualquer um dos seus membros, homens e mulheres. Desde a aprovação de novos membros até a compra de bens para serem distribuídos, tudo era discutido nas assembleias.

O Partido Poalei Sion em Israel se dividiu em duas correntes, o Mapan que era marxista e o Mapai que era socialista não marxista. O mesmo aconteceu com o movimento kibutziano que se dividiu para cada lado. Alguns Kibutzin se dividiram ao meio, indo cada parte para um lado.

Esta experiência nunca foi copiada pelos árabes de Israel, nem por qualquer outro país árabe da região.

Antissemitismo, quando os extremos convergem

O antissemitismo não é nenhuma novidade no Brasil, mas ele tem sido mais contundente a partir de grupos e partidos que supostamente deveriam combatê-lo com mais vigor. Estou falando da esquerda brasileira.

Um recente artigo publicado e logo retirado no site Vermelho, do PC do B, com um pedido de desculpas, de autoria de Thomas de Toledo, é o fato mais recente que reascendeu o questionamento de parte dos judeus de esquerda, e causou a ira dos judeus de direita.

O texto em questão muito lembra o conhecido Protocolos dos Sábios de Sião, um livro apócrifo que atribui a dominação do mundo pelos judeus. Os protocolos serviram de inspiração para gerações de antissemitas, tanto de direita como de esquerda.

Thomas de Toledo possui belas credenciais: historiador formado pela USP, com mestrado em desenvolvimento econômico pela Unicamp, secretário geral do Cebrapaz e membro do PC do B.

Não é nenhuma novidade a associação ente Judeus/Israel/Sionismo, como se fossem tudo a mesma coisa quando se deseja atacar o Estado de Israel, e a associação Judeus/Religião/Brasileiros, quando se pretende justificar o não antissemitismo.

Quando afirma que Israel passou a controlar três ministérios chaves do governo golpista de Temer, nominando os ministros com sobrenomes supostamente judeus, Toledo está flertando com os Sábios de Sião. Ele não se distingue daqueles que afirmavam que na Páscoa os judeus faziam a Matzá (pão ázimo) com o sangue de crianças cristãs e os consequentes pogroms e mortes de judeus.

O Estado de Israel não somente foi criado por sionistas-socialistas, como sobreviveu inicialmente graças a ajuda da União Soviética. A representação de esquerda em Israel e os movimentos pacifistas pela criação de um Estado Palestino são formados em sua maioria por pessoas de esquerda. Este mesmo quadro praticamente não existe nos demais países do Oriente Médio. No entanto os movimentos e partidos de esquerda no Brasil são, em sua maioria, favoráveis a destruição do Estado de Israel. Não se contentam posicionar-se contra o atual regime político, claramente fascista e combatido pela esquerda israelense. Muito menos serem solidários com esta esquerda duramente combatida, não apenas pelo regime, como por inúmeros movimentos de extrema direita que os tratam como traidores da pátria.

O conceito de uma conspiração judaica para dominação mundial, como já disse antes, não é novo, tampouco no Brasil. Nos anos 80 e 90 até mesmo uma editora de livros antissemitas se estabeleceu no RS. Chamava-se Editora Revisão (sic) e tinha como proprietário Siegfried Elwanger, um notório revisionista que dizia possuir inúmeros amigos judeus.

O posicionamento contrário a Israel por parte da esquerda também não é novidade no Brasil. O que sim vem surgindo como uma novidade é o famigerado antissemitismo disfarçado de uma política anti-Israel.

Quando um Partido Político de esquerda dá guarida a um texto inequivocadamente  antissemita, ele fere de morte todo o preceito básico da ideologia socialista. Ele se contradiz em si mesmo e se assemelha ao fascismo e todas as suas matizes.

Ironicamente os judeus sempre estiveram ligados a esquerda em nosso país mantendo intensa atividade política com movimentos e partidos de esquerda.

A participação nos anos 20 e 30 foram significativas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte. No Rio de Janeiro a esquerda judaica se reunia em torno da Biblioteca Scholem Aleichem (que mais tarde se transformaria na ASA), na Brazkcor, Sociedade Brasileira Pró-Colonização Judaica na União Soviética, e no Centro Operário Morris Vinchevsky. Em São Paulo eram conhecidos os grupos Cultura e Progresso e, já em 1954, o Instituto Cultural israelita Brasileiro (Icib), a Casa do Povo, de tendência comunista, junto ao Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib). Por curiosidade, a língua e a cultura idiche foram um aglutinador importante destes movimentos.

Na era Vargas os judeus participaram intensamente dos movimentos sindicais, universitários, organizações populares e centros culturais comunitários. Haviam judeus membros da Aliança Nacional Libertadora e no Partido Comunista Brasileiro. Um nome não pode deixar de ser mencionado: Olga Benário.

Nos dias de hoje existem judeus em todo o espectro partidário de esquerda.  Portanto em nada se justificaria no Brasil a intrínseca associação entre esquerda e antissemitismo, no entanto ela existe.

Eu concluo que independentemente de ideologias, a esquerda tem em seus quadros pessoas preconceituosas que diferentemente do que se poderia esperar, afrontam os preceitos ideológicos de sua formação. Não creio que a esquerda brasileira seja antissemita, mas acredito que em seu seio existem militantes que em dada diferem dos membros de organizações fascistas quando o tema é o judeu.

O antissemitismo, muito mais do que ideológico, é um estado doentio de natureza humana e de ordem privada.

OBS: Alguns dados foram obtidos em A História dos Judeus no Brasil – CONIB e no Livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, O anti-semitismo nas Américas: memória e história.