Estado de Direito, ou Direito de Estado?

Quando o Estado de Direito não existe, a sociedade como um todo se torna refém de um regime de exceção cujo poder está alheio aos princípios constitucionais e a lei se torna uma mera referência legal para perseguir seus opositores e perpetuação do regime.

Quem pensou que eu me referia a Venezuela, se enganou. Me refiro ao Brasil, onde não existe mais estado nem direitos. O que aconteceu com Jean Wyllys não é a ponta do Iceberg. É o Iceberg saindo fora d’água.

Um parlamentar eleito ter que deixar o país por falta das garantias constitucionais ao seu direito ao exercício do cargo por temos a sua vida escancara para o mundo o que está acontecendo no país. Com sua atitude, que muito nos entristece, Jean está dizendo em alto e bom tom: socorro!

Creio que uma vez resolvida a situação na Venezuela, o Brasil tem tudo para ocupar o seu lugar. Talvez não cheguemos aos níveis de verdadeiro desespero econômico que passam seus cidadãos com mais de dois milhões deles já tendo abandonado o país. Mas é certo de que com este governo e esta justiça atual, aquilo que conhecemos como democracia, direitos constitucionais, cidadania etc, deixarão de existir tal.

A esquerda precisa urgentemente reavaliar sua atuação neste novo cenário. Não é preciso muito conhecimento político para perceber que não haverá uma paridade de armas neste Congresso e tudo será feito de forma a mostrar clara e indubitavelmente quem são os novos donos do poder. Aos amigos a complacência e a benesse, aos inimigos o rigor do estatuto.

Já se nota uma guerra nos bastidores dos serviçais midiáticos. A rede de comunicação hegemônica não aceita ser relegada ao lugar que antes ocupavam seus concorrentes. Não são mais eles os donos de entrevistas exclusivas, tampouco os que recebem em primeira mão, ou com exclusividade as melhores notícias. Ainda esperneia mostrando que é capaz de colocar o dedo nas feridas da família real, mas também mostra o quanto pode ser subserviente se o rei assim o desejar, desde que lhe dê de volta seu lugar ao sol.

Para quem ainda não percebeu a gravidade da situação, eu sugiro abrir bem os olhos enquanto é tempo e podemos acessar informações livremente. Até isso pode mudar em breve e as informações disponibilizadas serão aquelas que agradam ao poder. Existem meios de bloquear sites e serviços na Internet e inúmeros regimes totalitários, ou muito próximo disso, já o fazem. Todos têm uma boa desculpa para isso.

A ida deste energúmeno a Davos foi risível de um lado, mas trágico de outro. O cara fez um discurso de mensagem de WhatsApp, ou de Twitter, como queiram. Fugiu da imprensa como o Diabo foge da cruz e seu melhor momento foi convidar todo mundo para passar férias no Brasil. Eis aí de presente cenas para filmes de comédia.

Eu não gosto de fazer prognósticos, aquelas previsões do que vai acontecer. Prefiro fazer uma leitura do que está acontecendo e mostrar onde isso pode levar. Desta maneira, ainda é possível tentar reverter alguns avanços fascistas e montar trincheiras para as batalhas que virão.

Nem tudo é só desgraça e o Carnaval está chegando. Nossa maior festa popular onde ainda é possível expressar nossa arte e nossa alegria. Esta é uma verdadeira festa do povo e todos ainda podem participar sem preconceito. Tomara continue assim.

O Aroeira da vez

O Aroeira da vez

Charges preconceituosas em geral, e antissemitas em particular sempre me causaram indignação. São uma forma muito simples e bastante eficaz de disseminar o ódio.

Existe muito material deste tipo que foi utilizado na Alemanha nazista e outros países europeus destacando sempre um judeu com nariz grande, barba, chapéu preto e roupa preta. Era sempre colocado em meio a dinheiro e situações que o mostrava como um ser vil e contra a pátria.

Como se sabe, o Holocausto foi um evento único. Os nazistas criaram uma máquina de aniquilação humana e nela sucumbiram 6 milhões de judeus, entre eles alguns parentes que não pude conhecer. Graças a esta ameaça, nasci no Brasil depois que meus avós maternos fugiram da Polônia dando ouvidos as ameaças que vinham do país vizinho.

Nós judeus não gostamos quando utilizam a palavra Holocausto para definir massacres e genocídios cometidos nos anos seguintes. O que aconteceu conosco é incomparável a qualquer outro evento. Ele se diferencia porque foi um ato institucional, uma política de governo, uma tentativa de exterminar homens, mulheres e crianças de todas as nacionalidades até a terceira geração anterior. O que se pretendeu foi acabar com a existência do povo judeu na Terra.

Então, quando alguém se utiliza do termo para atacar Israel com sua política contra os palestinos, ou os Turcos com sua política contra os Curdos, ou mesmo o que aconteceu em Ruanda no ano de 1994 contra os Tutsis e outros mais recentes na África, nós costumamos dizer que é um erro. Chamem de tudo, menos de Holocausto.

Há poucas semanas tivemos a visita do primeiro ministro de Israel, Benjamin Nethanyau, Bibi, como ele gosta de ser chamado na posse de Bolsonaro. Não foram poucas as reações contra ela, até mesmo no seio da comunidade judaica que viu o ato como um abraço entre fascistas.

Bibi liderou um governo de extrema-direita e vai tentar seu quinto mandato consecutivo nas próximas eleições em Israel marcadas para o dia nove de abril. Ele está em meio vários processos contra ele por conta de troca de favores entre amigos, alguns com o recebimento de “presentes”.

Em uma charge recente, o desenhista Renato Aroeira mostra Bolsonaro e Nethanyau representando uma suástica, o símbolo mais conhecido do Nazismo. Apesar do Fascismo e do Nazismo terem convivido juntos e terem muito em comum, são duas ideologias diferentes. Isto causa uma certa confusão e como o Fascismo não possui um símbolo internacionalmente conhecido, a suástica acaba sendo utilizada para dizer que alguém é de extrema direita, um fascista.

A charge causou um furor entre muitos judeus, especialmente os que se alinham com os dois nela representados, e gerou processo na justiça contra o autor. Na esquerda judaica, ela ficou no patamar do mal gosto, mas em geral ninguém viu nela nada de antissemita.

A discussão que se abriu, é recorrente. Pregar contra Israel ou seu primeiro ministro é antissemitismo? Ser antissionista é ser antissemita?

A resposta para estas perguntas costuma definir entre nós judeus, quem é de esquerda e quem é de direita. Os judeus progressistas dirão que não existe antissemitismo, os de direita o contrário.

A explicação não é fácil. O governo Israelense possui um afiado sistema de propaganda conhecido como Hasbará (Relações Públicas). Existe muito antes de Bibi subir ao poder, e hoje é utilizado magistralmente por ele e seus seguidores.

A Hasbará mostrava, por exemplo, o mapa do Oriente Médio em uma proporção onde Israel aparecia como um ponto cercado por dezenas de países árabes superiores em habitantes e terras. Era um pedido de simpatia para a única democracia do Oriente Médio que era atacada militarmente por seus vizinhos que queriam destruir o estado judaico.

A Hasbará dos nossos dias, insiste em mostrar o antissionismo como uma atividade antissemita. Uma forma inteligente de dizer em outras palavras, que na realidade todo aquele que ataca Israel está na verdade atacando os judeus. Todo aquele que critica a política israelense, na verdade está atacando o povo judeu. Todo aquele que se alinha com os palestinos e prega a necessidade da criação de um Estado Palestino, na verdade deseja a destruição do Estado de Israel e como consequência o desaparecimento dos judeus.

A charge do Aroeira cai como uma luva para eles. Primeiro, ela mostra um judeu sendo chamado de Nazista, uma ofensa grave. Segundo, ela mostra um ataque a Israel expressa na figura de seu primeiro ministro, o que seria na verdade um ataque aos judeus em geral. Portanto, na compreensão deles e do que prega a Hasbará, um ato antissemita que deve ser punido de acordo com a lei.

Eu fui um dos que levaram o Ministério Público do RS a processar Siegfried Ellwanger, o dono da Editora Revisão que publicou no final dos anos 80 toda a coleção de literatura antissemita conhecida. Começou com um livro de sua autoria intitulado Holocausto, judeu ou alemão? Seguido dos Protocolos dos Sábios de Sião e todos os livros de Gustavo Barroso, Henry Ford etc. Toda literatura antissemita foi promovida por ele e sua editora.

A condenação só foi possível depois da Lei 7716/89 que definiu especificamente o crime de apologia ao Nazismo. O que eu quero ressaltar é que a lei proíbe o uso da suástica quando utilizada em apologia ao regime. Ela também abrange os “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, com pena de reclusão de 1 a 3 anos, e multa.

A charge com a suástica não foi feita com o intuito de promover o nazismo. A questão é se ela é discriminatória ou preconceituosa contra os judeus. De acordo com a Hasbará, sim. Uma vez atacando Bibi, ele está atacando os judeus. Este é o argumento de acusação que provavelmente está no processo.

É bastante óbvio que a intenção da charge, como outras similares criadas por diversos artistas no mundo inteiro, foi mostrar que o Brasil está se alinhando com os representantes da extrema-direita conhecidos mundialmente. Apesar do uso da suástica nesta, e em diversas outras charges, ninguém de bom senso pode ver outra coisa, senão a intenção de mostra uma guinada para a aliança com regimes fascistas.

Em um Estado de Direito, ele não teria a menor chance de vingar e provavelmente seria descartado em primeira instância. No Brasil de hoje, Aroeira corre risco, uma vez que a justiça está a serviço do poder Executivo e a segunda figura na charge é ninguém menos que o atual Presidente da República.

Um caso destes tem outras consequências. A questão econômica é uma delas. Aroeira vai precisar pagar um advogado em sua defesa e ela pode passar da primeira instância e começar a se tornar cara.

A outra, obviamente, é a intimidação. Aqui se deseja acabar com o direito da livre expressão e da crítica jornalística. O intuito é de causar pavor a outros jornalistas e chargistas para que não usem de nenhuma forma de linguagem contra o atual poder de estado.

Este é o resultado de uma situação criada depois da eleição do governo mais medíocre que o Brasil já teve. Uma mistura de milicos inexpressivos com evangélicos goiabeiros acobertados pela justiça, o que torna este caso o prenúncio do que aguarda a liberdade de expressão enquanto eles estiverem no poder.

Mais uma

O juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal abriu uma ação penal contra Lula, Dilma, Palocci, Mantega e Vaccari. Eles são acusados de terem recebido cerca de 1,5 bilhão de reais em dinheiro desviado dos cofres públicos. Se fossem compadres e dividiram irmanamente o botim, cada um ficou com 300 milhões de reais.

Convenhamos que estamos falando de muito dinheiro. O Geddel, por exemplo, escondeu 51 milhões de reais em caixas e malas em um quarto de um apartamento. Onde seria possível esconder 300 milhões? Eu poderia sugerir vários lugares, como um apartamento com 6 quartos, uma piscina, um avião desativado etc.

Quem rouba, o faz com um propósito. O ladrão de galinhas, para comer. O ladrão de rua para comprar drogas e assim por diante. Todos tem uma justificativa para roubar, ninguém rouba por roubar.

Um assaltante de bancos já está em outro nível. Ele rouba para sustentar a família. E quer sustentar em alto estilo. Vai comprar imóveis, carros e fazer investimentos.

Os grandes sonegadores também roubam com um propósito. Não querem dividir o lucro do seu trabalho com o governo e preferem gastar o dinheiro destinado ao pagamento de impostos com eles próprios e suas famílias. Também vão ostentar com imóveis, carros, viagens etc.

Em comum a todo mundo que rouba, um propósito que seja. Mas no fim das contas, todos, sem exceção, buscam satisfazer as suas necessidades e sabem que trabalhando honestamente elas não serão satisfeitas. Não no prazo de tempo que gostariam.

Então vamos admitir que os acusados, amicíssimos de longa data, agora no alto escalão do poder tivessem se sentado um dia e, de acordo com seu líder, decidido roubar uma merreca de 1,5 bilhão de reais. Simples assim. Trezentos pra cada um e vida que segue.

O problema quando se lida com uma quantia destas é exatamente o tamanho dela em todos os sentidos. Como se movimenta uma fábula destas? Graças ao Rodrigo Rocha Loures todos nós ficamos sabendo que 500 mil reais é o que cabe em uma mala de mão. Então eles trouxeram cada um 600 malas, dividiram a grana, colocaram a sua parte nelas e saíram andando pela porta da frente.

Tudo bem, trouxeram 200 malas maiores e acomodaram o dinheiro. Ainda assim, convenhamos que seja muita mala.

Voltando então para o propósito. O que dá para fazer com 300 milhões de reais para gastar? Muita coisa, com certeza. Mas têm alguns problemas. Como o dinheiro não tem origem lícita, não dá para sair gastando a “La loca”. Vai ser preciso comprar tudo em dinheiro vivo e não declarar nada. Quando se vem de um berço de ouro, isso se dilui em meio à fortuna original, mas quando a origem não é tão nobre, é como ascender um farol no meio da sala para todo mundo ver de longe.

No caso do suposto líder da quadrilha, sua vida já foi todinha revirada. Tudo que a PF tentou e não conseguiu nestes anos todos desde que ele deixou a presidência, foi tentar encontra um real que não tivesse origem. Tanto assim que acabaram tendo de condenar o homem por um apartamento que quiseram dar para ele. Ou seja, não existe na vida dele, nada que não seja fruto de seu trabalho.

Ainda assim, acusações estapafúrdias continuam surgindo e parecem não ter fim. Outras muito mais fáceis de comprovação e com provas materiais não interessam, ou não merecem atenção quando se tratam de “homens de bem” como Aécio Neves, por exemplo.

O judiciário brasileiro está politizado ou nas mãos de incompetentes. Talvez as duas coisas juntas. São atualmente o espelho no qual o futuro presidente eleito parece olhar para escolher seus ministros. Se for de extrema direita e estiver sendo acusado de algo pelo qual a justiça não se interessa, está aprovado.

Sandice parece ser a bola da vez. Na Idade Média a igreja dizia que a terra era o centro do nosso sistema e que tudo mais orbitava a nossa volta. Muitos morreram ao tentar provar o contrário, outros para não acabarem mortos admitiram a bobagem.

Chegamos ao mesmo patamar. Ainda não estamos sendo jogados na fogueira por dizer o que é certo e lógico, mas em continuar assim logo vamos ser obrigados a admitir que a Revolução Francesa de 1789 foi marxista, mesmo com Marx tendo nascido somente em 1818.

Sem noção

Sem noção

Sabe quando a gente está entre amigos, alguém contando uma coisa muito triste e chega aquele amigo que sem perguntar nada fala a coisa mais inconveniente e inapropriada  possível? Este é o chamado “sem noção”.

De repente estamos nos descobrindo cercados de sem noção por todos os lados. O Nelson Rodrigues disse que os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela capacidade, mas pela quantidade. Desculpe, mas ele errou pelo menos em relação ao Brasil. Nosso país está sendo tomado pelos sem noção, e eles são a maioria.

Já tem gente que votou naquele arremedo de milico para presidente e 24 horas depois já está postando que se arrependeu! Isso é um bando de sem noção.

Uma professora eleita deputada em Santa Catarina, manda os alunos gravarem as aulas para fazerem denúncias e posa em uma foto de espingarda cor de rosa nas mãos! Isso é uma sem noção.

Uma mãe fantasia seu filho branco de escravo negro para uma festa de Halloween e diz que os livros de história estão errados, nunca houve escravidão no Brasil! Isso é uma sem noção.

Um estudante de direito faz um vídeo no dia da eleição dizendo que agora a negraiada vai morrer, viva o capitão. Feliz da vida posta nas redes sociais. Isso é um sem noção.

Um astronauta nomeado ministro da Ciência e da Tecnologia diz que vai combater o mesmo inimigo, interno ou externo com o sacrifício da própria vida! Isso é um sem noção.

Um juiz que julgou os adversários do capitão presidente foi convidado para ser o Ministro da Justiça e aceitou! Isso é um sem noção.

A cada hora aparece mais um, e mais um numa tsunami sem noção que vai tomando conta do país e é impossível de ser contida.

Claro que não falta inspiração para todos estes sem noção. E ela vem do agora eleito, sem noção, para a presidência do Brasil. Ele é o mito deles, justamente por representar o que eles foram à vida inteira e estavam contidos. Agora saíram do armário, mas todos ao mesmo tempo.

Estamos chegando a um ponto sem volta e eles em breve neste ritmo vão se tornar a norma, e nós, simples mortais os inconvenientes que temos educação, que lemos livros, que nos informamos e sabemos a hora de se calar, não vamos ter outra saída, senão entrar no armário que ficou vazio.

Quando isso acontecer, talvez a onda comece a retroceder. Aos poucos ela vai retornando para o seu ponto inicial e o sem noção irá perceber que o seu mundo sem noção é o caos.

Ninguém mais compreende nada e tudo parece estar do avesso. Então nós os normais vamos passar a ser notados novamente. Vão nos abrir as portas e nos pedir para sair.

Eu não sei se o sem noção mor assume na virada do ano. Talvez uma tempestade de bom senso se abata sobre o TSE e o STF e aquele caixa 2 da campanha de disseminação de fake news, para qual existe lei, mele as eleições.

Se isso não acontecer, percebam que é sem noção um General bater continência para um Capitão que foi expulso do exército por planejar um atentado terrorista.

Talvez no primeiro semestre do ano que vem depois de implementar todas as maldades prometidas, com um estafe de corruptos no primeiro escalão do governo, e todos estiverem sentindo as consequências de terem votado num total sem noção, a gente acorde deste pesadelo sem noção.

 

A História que os Pariu

Sempre gostei de História. Muito devo ao meu pai que sempre me incentivou a leitura. Desde pequeno sou um devorador de livros e assim vou lendo um depois do outro. Não consigo ficar sem ler.

Um dos horrores desta última eleição foi a disseminação de notícias falsas. Algumas sobre fatos absurdos, mas muitas simplesmente sobre fatos históricos falsificados. Coisas passíveis de se informar em qualquer livro, ou mesmo na Internet.

Alguns destes fatos me dizem respeito como judeu progressista. Um exemplo disso foi de que o partido Nazista seria de esquerda. Seus defensores argumentaram que o nome do Partido era Nacional Socialista. De nada adiantou a própria embaixada alemã desmentir. Nem mesmo as pregações nazistas contra os comunistas mudou a opinião dos que acreditaram nisso.

Outro fato marcante é que o governo do PT teria dado milhões de dólares ao Hamas, algo como dizer para um judeu que financiaram terroristas assassinos. Na mesma linha, afirmavam que os governos petistas seriam contra Israel. A verdade é que a política externa brasileira sempre foi favorável as resoluções da ONU contra Israel. Durante a ditadura militar votaram a favor da equiparação do Sionismo com Racismo e receberam a representação diplomática da OLP no país. Nada mudou nos governos civis até hoje. O que sim foi omitido é que o Presidente Lula foi o único presidente brasileiro a visitar Israel, e que ele sim, depositou flores no Museu do Holocausto como o fazem todos os líderes que chegam aqui pela primeira vez.

Com relação ao dinheiro para o Hamas, também querem falsificar a história. O governo brasileiro fez uma doação de 25 milhões de dólares para um fundo das ONU que lidou com a reconstrução daquele território. Dezenas de outros países o fizeram, muitos com somas muito superiores.

Todas estas informações estão acessíveis a qualquer um que tenha vontade de conhecer a história. Tudo pode ser esclarecido a um clique em qualquer computador, ou até mesmo em um celular. Não se trata de informação confidencial, ou de difícil acesso.

Qual é o problema então? A conclusão que se chega é que em uma guerra a verdade é a primeira baixa e que de fato, sem exagero, esta eleição foi uma guerra. Assistimos como nunca antes visto a disseminação massiva de informações falsas que foram sendo assimiladas como verdadeiras e criminosamente utilizadas para vencer a guerra. Tanto assim, que passada a eleição ainda recebo informações falsas todos os dias.

No meio judaico existe a convicção de as relações Brasil e Israel serão como uma lua de mel. O embaixador israelense no Brasil já teria visitado o presidente eleito. Este teria dito que visitaria Israel depois dos EUA (antes era o primeiro lugar a ser visitado, mas quem está contando). O primeiro ministro de Israel já teria confirmado sua vinda para o dia da posse. É muito amor incontido.

Tudo isto já faz com que se alvorocem empresários pensando que os negócios entre os dois países terão um grande incremento e já fazem as contas de quanto vão ganhar com isso. Talvez fosse o momento de contar que inúmeros acordos já foram firmados entre os dois países e o que sempre faltou foi liberação de financiamentos para investimento do lado brasileiro, talvez pelos números desfavoráveis na balança comercial. O acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel está em vigor desde 2010.

O comércio bilateral entre os dois países mostra que Israel importa do Brasil cerca de 400 milhões de dólares e exporta cerca de 900 milhões de dólares, mais que o dobro.

Então vale saber que o Brasil exporta para o mundo árabe mais de um bilhão de dólares e importa cerca de 600 milhões de dólares. Para quem sabe fazer contas, o comércio com Israel é deficitário para o país, enquanto que o comércio com o mundo árabe é favorável.

Nesta situação, desejar adquirir mais produtos israelenses, é aumentar o déficit comercial. Afinal, Israel é um país com 8 milhões de habitantes e o Brasil não tem muito o que nos oferecer.

Claro que de um presidente eleito, declaradamente fascista, podemos esperar qualquer coisa. Entre elas uma decisão contrária à lógica econômica onde o equilíbrio comercial entre as nações não seja relevante. Se assim for, sorte de uns, azar de outros quando mais empregos forem perdidos no Brasil.

Tudo que está informado neste texto se encontra documentado, seja em livros sobre a história, seja em informes oficiais que estão a disposição de qualquer um que deseje conhecer a finada verdade.

 

A escolha dos Kapos

A escolha dos Kapos

Durante o Holocausto quando 6 milhões de judeus foram exterminados, existiram nos guetos e campos de extermínio a figura dos chamados Kapos. Para quem não sabe, a origem da palavra é italiana e significa líder. Na Itália ela designa até hoje os líderes mafiosos.

Nem todos os Kapos eram judeus e sua função consistia em ajudar as SS no dia a dia dos campos e costumavam ser mais violentos que os próprios alemães, recebendo em troca alguns privilégios como roupas, comida, cigarros e bebidas.

Depois da guerra muito se discutiu sobre o papel dos Kapos judeus no processo de extermínio já que graças à cooperação deles na manutenção da ordem, o trabalho era facilitado e assim funcionava melhor a indústria da morte.

A questão ética era de que estas pessoas tentavam sobreviver a todo custo como qualquer outra e diante daquela situação aproveitaram a chance que tiveram ao serem escolhidas para aquelas tarefas e graças a esta decisão, muitas sobreviram. Alguém tinha que fazer o trabalho sujo.

Se pensarmos naqueles dias e diante daquela escolha que fizeram, sabendo que a recusa significava a morte certa, então compreendemos porque estas pessoas aceitaram se tornarem Kapos.

Hoje estamos próximos de uma eleição onde um candidato, diferentemente de Hitler antes de sua ascensão ao poder, diz abertamente ser favorável a tortura de seres humanos. Mais do que isso ele demonstra seu apreço por um torturador que levava os filhos das suas vítimas para assistirem as mães sendo torturadas com ratos na vagina.

Diferentemente daqueles dias onde podemos aceitar que muita gente não sabia o que Hitler pretendia, hoje não restam dúvidas com tudo que foi dito por este candidato estando documentado e acessível para qualquer um confirmar.

Creio que chegou a hora de se fazer uma reflexão sobre qual é o verdadeiro caráter dos que pretendem manter seu voto nesta pessoa. Vocês escutaram nestes dias o que ele e seus filhos pensam da democracia, do STF, do TSE, da imprensa e de todos que discordam deles. Isto não foi criado em estúdio, tampouco inventado por alguém. Está lá dito palavra por palavra para quem quiser ver novamente.

Se você é a favor da prisão ou exílio de seus amigos que não votam nele e no fechamento das instituições que são à base da democracia, você está se oferecendo para ser um Kapo dele. Mas desta vez existe uma escolha que não é uma sentença de morte e ela está sendo  oferecida para que tudo isso possa ser evitado.

Não se constrói uma sociedade plural com justiça social sem programas de governo. Como se alcançar estes objetivos é o que disputam os partidos, cada um de acordo com a sua ideologia. Qual o programa de seu candidato? O que ele pensa sobre o futuro de nosso país como a pátria de todos os brasileiros? Pode procurar que não vai achar nada, todo o discurso dele é tão e somente de ódio, de exclusão e de segregação entre nós.

Ainda há tempo para evitar tudo isso. Somente a democracia com a preservação das diferenças é que nos garante um futuro e um lugar entre as nações. Não troque o que conquistamos com duras lutas para seguir um falso profeta que nos fará retroceder a um passado que já superamos. Que está colocando irmãos contra irmãos por puro sadismo.

Os Kapos que sobreviveram a guerra tiveram de conviver com as suas escolhas. Muitos se suicidaram, outros negaram serem judeus e ouve ainda aqueles que fugiram para bem longe, constituíram família e esconderam seu passado.

Hoje eu peço que escolham o que é certo enquanto ainda podemos escolher.