Farda, fralda e fraude

Farda, fralda e fraude

“Tempos estranhos”, a forma que com alguma frequência, gradualmente mais alta, o quase ex-ministro Marco Aurélio Mello define as quadras históricas que vivemos, é uma forma definitivamente corolária se quisermos definir as almas que habitam nestes mesmos tempos e lugares, onde qualquer tentativa de ordenamento e compreensão lógica sobre as trajetórias e narrativas sucumbe escalafobeticamente. Tanto que para dar um pouco mais de sentido a este texto, tive que inserir este primeiro parágrafo que nem trata do tema principal para justamente estabelecer um corolário ao descrever o estranho e ilustre personagem acima, que permite a compreensão daquilo que ele mesmo chama de estranho a partir de sua perspectiva civil sobre assuntos mais atinentes ao polo militar da sociedade brasileira.
Mello, o campeão absoluto de votos vencidos no STF, talvez até em escala global se feito o devido comparativo ponderado com outras supremas cortes ocidentais, pelo menos, parece mesmo querer “encher a fralda” daquilo que jocosamente se diz da “cabeça de juiz”, que por sua vez encontra fundamentos na história das sentenças escatológicas que permeiam a história jurídica brasileira, em especial, quando, nos últimos estertores de seu mandato na suprema corte, dá a Sérgio Moro o status de herói nacional e ao golpe militar de 64 a alcunha de salvação nacional, apoiando-se para esta tese na ideia de uma “possível instalação de uma ditadura comunista”, à época, sobre a qual, ainda que sem qualquer apoio em evidências concretas ou razoáveis, não deveria-se correr o “risco”.
Nem de todo o caos vem a ordem, ou alguma ordem, para ser mais preciso, já que caótico seria um elogio ao “corpus” filosófico do ilustre ministro, que com essas esdrúxulas assertivas finalmente revela a ordem subjacente de seus pesos e contrapesos internos, esta por sua vez marcada pela necessidade intestinal de ser exótico (e de conquistar fama e notoriedade por esta via) e de personalizar uma visão de mundo e de país em uma escala e método antagônicos aos princípios republicanos delineados pela Carta de 1988, a qual nitidamente impôs-lhe um trauma do qual parece não ter se recuperado, e que talvez tenha mesmo sido o ordenador de sua conduta, que a título de exemplo, no passado recente pôs em liberdade um dos mais perigosos e violentos traficantes por questões de formalidade processual, causando um imenso prejuízo ao aparato do estado na medida em que altos recursos são hoje mobilizados para a recaptura, dado que este aparentemente fugiu rapidamente do país, e pelo seu brilhante diagnóstico sobre a atuação do juiz que talvez tenha sido o maior usurpador de direitos fundamentais e não fundamentais de nossa história recente, pelo menos.
Tudo isso para dizer que Hamilton Mourão não habita solitário nestes estranhos tempos onde as reputações são tratadas como fardas e fraldas, ou seja, como objetos de uso temporário, sujeitas a lavagens e descartes sistemáticos como se necessário fosse. O por muitos admirado general é tido como pessoa bem formada, articulado, disciplinado e culto, o que de imediato estabelece um paradoxo com seu perfil político de primeira viagem embarcado nesta nau autoritária e obscurantista que certamente ajudou a projetar, tendo o cardo de vice-presidente como prêmio de consolação a alguém que dificilmente alcançaria esta posição pelas vias civis e partidárias comuns.
De fato, Mourão é dotado de algo que em algum tempo e lugar poderia ser chamado de fino senso de humor, mas que hoje não ultrapassa as fronteiras do simples exacerbar preconceitos, abusar dos falsos pressupostos e abandonar os verdadeiros à própria sorte. Quem viu ou ouviu suas últimas entrevistas e tem uma mínima formação em lógica, história, economia e ciência política pode observar a patética desarticulação entre ideias, valores, objetivos e dos elementos da realidade, curiosamente recheadas de um otimismo cínico, de justificativas que fariam corar um adolescente ainda que inundado de hormônios, e do tal senso de humor que no contexto atual só pode ser percebido como as chacotas que seu chefe propaga quando fala das vítimas da COVID-19.
Ao tentar justificar-se com os princípios da obediência, da hierarquia e de um “patriotismo”, Mourão esquece-se que não está na ativa e que a vida civil não submete-se primariamente a estes princípios, e sua resistência a entender sua função e lugar é sintoma de perfil psicológico. Isto para não dizer de seu desprezo pela soberania nacional na medida em que serve a um governo entregacionista e sabujo do capital internacional mais selvagem em circulação. Suas justificativas em relação à sua submissão sumária, rasa e vergonhosa ao verdadeiro maluco que ocupa o Planalto tentam convencer o ouvinte de que é o caminho a ser seguido, e tenta dizer isso por uma boca sorridente e relaxada, tentando trazer ao interlocutor a sensação de ser um netinho no colo do vovô aprendendo sobre a vida com os ditos em voz doce, amorosa e paciente. Também a título de exemplo, na mesma entrevista dada a Roberto d’Ávila na GloboNews, lamenta as imensas desigualdades que nos definem e adoecem como se o projeto político que abraçou nada tivesse de responsabilidade histórica e atualíssima com o fenômeno, e aprofunda o destrato com sua farda e patente ao se colocar como cumpridor fiel e acrítico das ordens emanadas pelo seu superior hierárquico, olvidando-se do antigo adágio militar fundacional que reza pelo não cumprimento de ordens absurdas.
Fraude também seria elogioso se como adjetivo dos comportamentos que vimos observando por parte daqueles que teriam que primar pela coerência interna de suas proposições e atos. Isto por que até a fraude exige uma arquitetura intelectual e uma metodologia passível de exame e desmonte pelo ferramental lógico, jurídico, filosófico e ético que nossa civilização tenta construir e sustentar. A estrutura do comportamento destas figuras é tão absurda que nos faz sentir como que se areia tivesse sido jogada nos nossos olhos. A cada assertiva, uma rajada, e a cada rajada, a nossa cegueira reflexa e temporária. Parece mesmo não haver ferramenta ou método para desarmar essa gente. O que revela-se nesses tempos estranhos é por demais vil, covarde, cínico e aterrorizante, deixando-nos às vezes com o amargo desejo de tempos ainda mais estranhos como forma de sairmos disso que mais parece um horizonte de eventos dos buracos negros.

Bolsonaro tua hora está chegando

O que mais se pode dizer sobre Bolsonaro que ainda não foi dito? As notícias e publicações começam a se tornar repetitivas, praticamente todos concordam no desastre de sua presidência, na intimidade com as milícias, na inépcia para o cargo, na incapacidade de gerir crises, na incoerência de seus pronunciamentos, enfim um sujeito que perdeu o respeito dos brasileiros.

Por muito menos do que isto, dois presidentes foram afastados, Collor e Dilma. Ambos sofreram processos de Impeachment quando perderam o apoio político que os sustentavam. As razões alegadas eram mera razão para abertura do processo. Condenados já estavam desde o dia Zero. Afastar um presidente no Brasil obedece um processo teatral, não exige a comprovação do cometimento de nenhum crime.

Bolsonaro não teve ainda a abertura de um processo contra ele por que ainda conta com apoio político, crimes comprovados não faltam. A lista de razões para um Impeachment é longa e todo dia se somam novos pedidos. Já faltam gavetas para guardar tanto papel.

Pelo andar da carruagem, não se espera que ele deixe o cargo pela porta da humilhação. Talvez a próxima eleição em 2022 seja a única via de retirar do cargo máximo da nação o pior presidente da história do Brasil. Isto se houverem eleições já que o flerte com as forças armadas segue de vento em popa.

A sociedade brasileira que elegeu Bolsonaro está dividia. Existem os que votaram contra e os que votaram a favor. Entre estes últimos, os que mantém sua adoração e os arrependidos. Neste grupo os que dizem agora votar em Lula e os que dizem votar em qualquer um, menos nos dois prováveis nomes em um eventual segundo turno.

Desde a última eleição que falo em uma Frente Ampla. Aqui em Israel foi o que aconteceu depois das últimas eleições. Os partidos que compõe o novo governo concorreram de maneira independente, mas o resultado mostrou que uma união da esquerda, centro e direita de partidos anti-Netanyahu era possível. Foi graças a perseverança e a capacidade de compreender o momento histórico que seus líderes foram capazes de chegar a um acordo para formar um governo sem o Likud e sem os partidos religiosos.

Depois de 12 anos com um fascista no poder, Israel respira novos ares. Quem está dizendo que o novo primeiro ministro é um extremista de direita e trocamos alhos por bugalhos, não entende nada de política, menos ainda da política israelense. O que acaba de acontecer aqui é histórico em vários sentidos e deve servir de exemplo para o Brasil. Forças políticas antagônicas podem se unir em nome do bem maior, relevar suas ambições ideológicas para que o país possa reconhecer que é possível ser governado por outro líder.

Existe uma geração que não conheceu outro primeiro-ministro que não fosse Netanyahu. Seus seguidores estão em pânico, inconformados. Para muitos deles a ficha ainda não caiu e sua família ainda segue morando na residência destinada ao primeiro-ministro em exercício. Ainda repetem para quem quiser escutar que tiveram a eleição roubada e que vão voltar em breve. Trump deixou discípulos por todo lado.

Os americanos se livraram de Trump. Nós em Israel nos livramos de Netanyahu, falta os brasileiros se livrarem de Bolsonaro. A eleição americana deixou uma lição, o mesmo aqui em Israel. É preciso aprender com elas e escolher o melhor caminho para se livrar desta chaga.

As manifestações, como a programada para este sábado dia 19, são muito importantes e precisam crescer cada vez mais. As entidades civis e os partidos políticos de oposição a Bolsonaro precisam estar afinados para levar cada vez mais manifestantes as ruas. Cada vez ter mais cidades participando e mostrando que o fim de Bolsonaro está próximo e é apenas uma questão de tempo.

O « pas-de-deux » do capitão e Lula

As estratégias eleitorais para a presidencial 2022 se precisam, partido e candidaturas potenciais se posicionam. Por enquanto, a mais clara é a do ocupante do Palácio, que está em campanha desde o primeiro dia de seu mandato, usa e abusa da máquina do Estado e ultimamente vem desafiando a pandemia ao acelerar à frente de seus fanáticos seguidores motoqueiros. Como é sabido de longa data, ele não admite perder, o que só lhe deixa uma opção: vencer custe o que custar. Ou, em bom português, vencer pelo voto ou tentar o golpe. Que não haja dúvidas quanto à determinação do capitão, que a um ano e meio da eleição avança suas peças no tabuleiro e busca encurralar o adversário com vistas ao xeque-mate , usando e abusando de golpes baixos. Se ele vai ter força e cacife para conseguir são outros quinhentos. Mas que vai tentar, isso vai. 
Com 25 a 30% de apoiadores cegos e surdos Jair Messias é um candidato fortíssimo à sua própria sucessão. Tem todas as chances, senão a quase certeza, de estar no segundo turno e então novamente jogar a carta do antipetismo que, a despeito da massa de decepcionados, sobrevive. Apesar das provas de descaso no combate à pandemia colhidas na CPI da Covid  e de sua responsabilidade direta na morte de cem mil brasileiros, o impeachment não avançou, nem avançará enquanto Augusto Aras for o Procurador Geral da República. O relatório da CPI do Senado, com um eventual pedido de indiciamento do presidente, dependerá de seu crivo para seguir adiante. O que ele não dará. Nunca. Aras é tão responsável pela permanência de seu chefe no poder quanto Moro o foi no resultado eleitoral de 2018, ao  tirar Lula do páreo. Descartado de uma eventual indicação para o STF na vaga do ministro Marco Aurélio , que se aposenta em 5 de julho, o PGR busca desesperadamente assegurar um novo mandato no cargo, a ponto de jogar no lixo, de forma descarada, a Constituição, que deveria ser seu livro de cabeceira.  Em defesa dos “amigos do rei”, ultimamente pediu o arquivamento do inquérito sobre os atos antidemocráticos,  a rejeição da ação de advogados contra a lei de Segurança Nacional, que serve aos interesses autocráticos do governo, e agora quer que os juízes do Supremo sejam obrigados a consultar o Ministério Público antes de atuar em investigações, medida cujo primeiro beneficiado seria o ministro do Meio Ambiente, pego em flagrante de cumplicidade de contrabando de madeira extraída ilegalmente. Sua lealdade ao criminoso é admirável. Aras tem se mostrado um escudo intransponível. 
Quem aposta na fragilização do “Messias que não faz milagres” daqui até a eleição se engana. Ele poderá contar com a vacinação, que tanto combateu, e com o crescimento da economia, puxada pelo resto do mundo. A situação portanto deverá ser um pouco melhor e muitos esquecerão todo ou parte do incomensurável mal que ele fez ao país. Os brasileiros não praticam o exercício da memória, como demonstraram ao eleger um sujeito que defende a ditadura e tem por ídolo um torturador. 
Se mesmo assim não for reeleito, hipótese mais provável, ele imitará seu amigo Trump, a quem jurou amor eterno num rompante linguístico em que gastou seu inglês limitado a três palavras : I love you.
Só que Jair não é Donald e Washington não é Brasília. Trump tentou o golpe alegando fraude maciça e reclamando a anulação do voto; contou para tanto com os supremacistas brancos  e outras organizações neonazistas, mas não teve o apoio das forças armadas nem das polícias. O brasileiro fará a mesmíssima coisa : alegará fraude maciça e reclamará a anulação da eleição. Preparando o caminho, já defendeu o fim da urna eletrônica, de longe o sistema mais seguro e transparente, e sua substituição pelo voto em papel, facilmente manipulável. 
A diferença fundamental no entanto está no fato de que o capitão conta com o apoio de ao menos parte das Forças Armadas (que se negaram a punir o general Pazuello por violação das regras militares), das polícias militares de inúmeros estados, das polícias civis e das milícias, que agem a céu aberto tanto no combate ao crime organizado como no apoio político à família presidencial. Esses grupos paramilitares matam indiscriminadamente traficantes, líderes comunitários, políticos de esquerda como Marielle Franco e até crianças. As chamadas forças de segurança, que foram presenteadas com armas ao bel prazer e impunidade, fecham com o capitão.
Quanto às Forças Armadas, recentes episódios deixaram claro que entre a obediência à Constituição, caucionada pelo ex-ministro da Defesa e pelos então comandantes das três armas, e a submissão ao presidente, os quartéis hesitam. 
As cenas que virão a ser filmadas no Brasil pós-eleitoral serão infinitamente mais chocantes que aquelas do Capitólio, em janeiro de 2021. O golpe poderá desembocar num confronto mais amplo e sangrento. A previsão é de que 2022 será um ano violento. 
A cultura autoritária, que estava dispersa após a ditadura, convergiu em direção de Bolsonaro, se organizou em torno do bolsonarismo. É forte e não desaparecerá tão cedo, mesmo que não haja reeleição. 
Para derrotar o fascista adorador da morte e tentar evitar o golpe, o caminho parece ser a formação de uma Frente Ampla, da direita à esquerda, unindo todos os antibolsonaristas. 
Essa estratégia está sendo aplicada com sucesso em Israel, onde se constituiu uma coalisão heteróclita para varrer Bibi Netanyahu, agregando  partidos de extrema-direita, centro, esquerda e até um Partido árabe muçulmano israelense. 
Também na Hungria, uma frente ampla se formou para vencer o direitista radical Viktor Orban, com relativo sucesso. Nas municipais do ano passado, a mais estranha coligação de partidos jamais vista elegeu prefeitos de uma dezena de cidades importantes, inclusive a capital, Budapeste. 
No entanto, a situação nesses dois países governados por hipernacionalistas de direita amigos do capitão (ambos estiveram em sua posse) é muito diferente da brasileira.
Em Israel, o líder centrista Yaïr Lapid, que costurou a união da oposição como uma colcha de retalhos, abriu mão do cargo de primeiro-ministro nos dois primeiros anos do mandato em favor de Naftali Bennett, sionista religioso do partido nacionalista Nova Direita, apesar das diferenças ideológicas entre ambos e do fato de Lapid ter maior número de deputados na Knesset.
Quanto à Hungria, a nova coalisão tem conseguido apresentar candidaturas únicas em todos os níveis . Já está definido que em 2022 haverá um só candidato oposicionista para enfrentar Orban. Hoje, as pesquisas apontam empate.
No Brasil essa estratégia não vinga. Nenhum presidenciável parece disposto a abrir mão da candidatura em prol da união por uma vitória incerta. Pelo menos não no primeiro turno. A recente reaproximação entre Lula e FHC são provas cabais da dificuldade que nos espera. O tucano admitiu publicamente votar no petista no segundo turno e mostrou-se arrependido de não tê-lo feito com Haddad. Mesmo assim, o PSDB apresentará um candidato à presidência, que poderá ser Tasso Jereissati, Doria ou outro que, como os dois primeiros, não terá chance de se eleger. 
No primeiro turno haverá, quando muito, a constituição de federações de partidos de uma mesma família política e não a formação de uma ampla frente antibolsonarista com candidaturas únicas.  As negociações de hoje só serão concretizadas entre os dois turnos, mesmo que a missão seja salvar a democracia.  
No campo progressista, o PSOL se radicaliza, puxa ainda mais para a esquerda em busca do impeachment, sonhando com uma mudança na correlação de forças. Esta estratégia levou à saída de Marcelo Freixo do partido. Ao anunciar sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro, ele busca formar ao menos uma aliança dos partidos de esquerda. Missão mais que difícil. 
Ao contrário, o PT quer manter essa correlação, que colocaria face a face Bolsonaro e Lula, com vantagem para o ex-presidente, conforme as pesquisas. Lula conta com seu poder negociador e lança pontes para a direita. Paradoxalmente, esse também é o cenário preferido do capitão, que acredita ainda ser possível capitalizar em cima do antipetismo entre os dois turnos. O « pas-de-deux » é a coreografia mais provável desse balé eleitoral. 
Enfim, Ciro Gomes parece ter se dado conta que não tem nem terá espaço à esquerda. Por isso ataca Lula e o PT, espera ganhar a direita não bolsonarista e entrar na disputa como um candidato híbrido, metamorfoseado em Terceira via. É uma aposta improvável, mas o cearense não tem opção. A direita, também por falta de melhor, ver-se-ia disposta a abrir-lhe os braços. Terceira via é uma falácia.
De qualquer maneira, não veremos no ano que vem Lula e Ciro dividindo palanques, lembrando porém que em política a palavra nunca há muito foi excluída do dicionário.
Assim, tudo leva a crer que a Frente Ampla, se houver, só sairá do papel após o primeiro  turno, com negociações e negociatas de último minuto. Tempo sempre haverá  para uns e outros bandearem para Paris.

Precisamos falar sobre o Antissemitismo na Esquerda

Depois de um artigo publicado a cerca de 20 dias, “Meu amigo judeu”, para instigar o debate sobre o antissemitismo na esquerda, fui mencionado em uma publicação apócrifa no site www.causaoperaria.org.br. O linguajar do autor não deixa dúvidas de que se trata de um pretenso comunista de biblioteca burguês. De operário não tem nada. Aquele tipo que a direita chama de comunista caviar.

O artigo é um festival de clichês que me remeteu aos anos 70. De inicio uma foto do que seriam soldados israelenses prendendo um jovem palestino. Existem milhares de fotos como esta, mas o autor escolheu justo uma que não é o caso. Os soldados em questão não são israelenses, e o preso provavelmente não é palestino. Seria um erro involuntário, mas ele continua errando quando diz que o grupo que administro no Facebook, “Resistência Democrática Judaica” é de sionistas socialistas. Agora já não se trata de erro, mas de interesse na crítica. Na verdade trata-se de um grupo judaico com membros de todo espectro político que em comum são antifascistas e portanto antibolsonaro. Nele existem membros até mesmo antissionistas.

Já de início o autor chama o Estado de Israel de Nazista, uma ofensa inominável a qualquer judeu. Todos nós perdemos familiares no Holocausto. O nazismo pretendeu nos exterminar da face da Terra. Montou uma indústria de morte com esta finalidade que chamaram da “Solução Final”. Israel comete crimes de guerra, mas dizer que se trata de um regime nazista é encerrar qualquer debate viável e civilizado.

Ele distorce minhas palavras em relação as vítimas do recente conflito de Gaza. Usa dos mesmos números que menciono, mas monstruosamente trata as mães que perderam seus filhos de forma diferente. Para ele as mães das 66 crianças palestinas são diferentes das duas mães israelenses. Talvez ele não tenha ouvido falar do atentado de Maalot. Em 15 de maio de 1974, três palestinos da Frente Democrática para Libertação da Palestina se infiltraram vindos do Líbano, tomando de assalto a escola de Maalot, uma pequena cidade ao Norte de Israel. No caminho para a escola os três palestinos mataram duas árabes israelenses, entraram em um apartamento de um prédio e mataram o casal e seu filho de 4 anos. Deixaram o prédio e foram para a escola Netiv Meir fazendo lá 115 reféns, entre eles 105 crianças. O resultado desta ação foi de 25 reféns assassinados, sendo 22 crianças e 68 feridos. Os três palestinos foram mortos pelas forças de segurança. Neste caso, as mães palestinas também eram diferentes das mães israelenses?

A extrema direita israelense tenta sempre desumanizar os palestinos, uma tática que dá ao opressor uma justificativa moral para manter a ocupação. Parte da esquerda faz a mesma coisa com os israelenses, mas neste caso trata-se de uma justificativa moral para expressar seu antissemitismo.

A intenção do autor não foi discutir o antissemitismo de esquerda proposto por mim.

Para ele o Estado de Israel não deveria existir. Para os nazistas não deveriam existir judeus. Percebem a semelhança? Eu utilizei o conflito recente em Gaza para mostrar como os antissemitas na esquerda se aproveitam do conflito para externar seu preconceito. Ele, vestindo a carapuça, se aproveitou do conflito para demonstrar que tenho razão.

Ele desdenha minha solidariedade, como sionista socialista, a causa de um Estado Palestino  e exalta os milhões de árabes que seriam solidários. Um momento de reflexão: além do Qatar, quem mais se preocupa com eles atualmente? O Irã que não é árabe e pensa como o autor, em destruir Israel. A União Europeia que não é árabe, e é a favor de uma solução de dois Estados. Em que país árabe os refugiados palestinos receberam cidadania? Vamos ser realistas, a tragédia palestina está perdendo o trem da história e isto não pode acontecer. Para constar, esta parte doentia da esquerda tem culpa neste processo.

E por fim temos o Hamas. Eu menciono em minha tréplica ao artigo inicial, que o Hamas é um regime totalitário onde não existe o menor respeito aos direitos humanos e que em muitos outros países árabes, não é diferente. Como um bom cidadão do mundo ele concorda com estes fatos, mas na sua ótica, tais desrespeitos são menos importantes no momento, afinal estão lutando contra o inimigo sionista e toda violência é justificável, inclusive contra seu próprio povo em Gaza. Diferentemente dele, eu acho que são parte do problema. O Hamas é uma organização que, diferentemente da Autoridade Palestina, não aceita a existência do Estado de Israel. Sua pretensão é a mesma do Irã, exilar os israelenses, trazer de volta os refugiados palestinos e criar um Estado Palestino em substituição ao Estado de Israel. Ainda assim, temos de encontrar uma maneira de sentar com eles a mesa de negociações.

Dado a um problema de interpretação de texto, ele me acusa de comparar Bibi e o Hamas, como Lula e Bolsonaro. Coisas incomparáveis. Eu concordo, tanto que não foi o que eu escrevi. Não há comparação em meu texto. Na verdade, digo e repito que o recente conflito foi do interesse de Bibi e o Hamas, serviu aos interesses de ambos.

Eu me permito aqui sugerir ao autor do artigo alguns temas para novos artigos: por exemplo, a invasão da Criméia e sua anexação ao território da Rússia. Outro tema , não menos importante para nós de esquerda são os Campos de Concentração na China, ou de Reeducação, como eles preferem, em que milhares de muçulmanos da etnia Uigur são mantidos. São fatos também recentes que parecem não sensibilizar a esquerda em geral e especialmente a parte antissemita, talvez por não envolverem judeus.

Ao contrário desta parte da esquerda, a direita é mais explícita em seu antissemitismo. Não se importa em desfraldar a bandeira nazista, de publicar obras antissemitas como os Protocolos dos Sábios do Sião, de apontar os judeus como donos da mídia internacional, de dominarem o sistema financeiro mundial e há entre eles quem diga, inclusive, serem os judeus os verdadeiros criadores do Covid-19 para ganharem dinheiro com as vacinas. Claro que não soa nada estranho algumas pessoas de esquerda que pensam a mesma coisa, afinal de contas, em matéria de antissemitismo, eles concordam uns com os outros.

Que tal vocês saírem deste mundinho e ajudarem de fato famílias palestinas que necessitam? Ajudem famílias palestinas clicando aqui.

Novamente o velho

Há certas coisas que parecem mesmo não quererem evoluir. As cenas brutais do conflito Israel-Palestina repetem-se mais uma vez com um quase cânon histórico, um pesadelo repetitivo, um refrão de um mau e inacabado poema humano.
A imutabilidade de sua forma e conteúdo reflete invariavelmente a rigidez da estrutura subjacente que no plano do indivíduo chamaríamos de neurose no modelo freudiano de estudo do inconsciente. No modelo coletivo, embora o termo neurose fosse difícil de aplicar, certamente a análise baseada nos mitos fundadores dessas duas sociedades certamente se aplica.
A história das nações em geral traz no seu passado às vezes não tão longínquo cenas semelhantes e estruturas de pensamento e ação dentro desse padrão. Será difícil encontrar um país moderno que não tenha passado por conflitos das mais variadas formas físicas e temporais, com as mais variadas formas de interferência externa ou como frutos de conflitos internos mal ou não resolvidos. Voltando ao plano do indivíduo, a prática médica nos ensina que os conflitos internos mal sanados levam os indivíduos à doença, à disfunção, e às vezes a desfechos violentos sejam eles auto-inflingidos ou hetero-inflingidos, traduzidos na realidade como sofrimento pessoal, automutilação e eventualmente suicídio por um lado, e por outro lado, as cenas horripilantes que afrontam a dignidade de nossa espécie e que recheiam o noticiário dioturnamente envolvendo feminicídios, homicídios, infanticídios e ataques em massa a escolas e outros agrupamentos de vítimas escolhidas pelo seu peso simbólico e capacidade de gerar terror.
As sociedades, assim como os organismos humanos, adoecem seguindo uma somatória de modelos individuais de patologia, ação e dano. A atual pandemia é um bom modelo de estudo. Talvez metade das mortes pelo coronavírus seja causada por um sistema imunológico disfuncional, onde a “turma do deixa disso” falha ou a turma da “tropa de choque” não tem medida de ação, reproduzindo fielmente os fenômenos do macrocosmo social, seguindo um modelo quase espelho.
A etiologia do conflito Israel-Palestina é de compreensão difícil pela sua complexidade que talvez derive de um sem fim de narrativas em disputa, todas aparentemente válidas, que exigem a resolução de um paradoxo que confronta o ínfimo tamanho do território em que se dá com a significância simbólica que toma nossas almas em mais que óbvia desproporção se comparado com processos de territorialidade, sofrimento e dano infinitamente maiores.
Infelizmente essa complexidade não recebe o devido investimento intelectual por parte de setores da sociedade que terminam por formar juízo por um conjunto de valores carente das devidas ponderações contextuais que deveriam ser aplicadas. Por exemplo, Israel é acusado de ser “genocida” sem se considerar que a população palestina só cresce incessantemente desde o início do conflito em 1948, e também sem se considerar por exemplo, que fosse a guerra de 1973 perdida por Israel teríamos certamente uma guerra de extermínio com medidas reais de genocídio e destruição.
Que Israel e seus últimos governos cometem erros graves na sua política para o conflito é inegável e constrangedor para judeus como eu, que enxergam a existência desse estado como um resgate histórico e simbólico que poderia ter seguido outros caminhos. Mas a grande questão em curso atual é que não foi Israel o único a cometer erros nessa condução, e de um lado, pelo menos, todas as narrativas excluem do radar as brutais disfuncionalidades da sociedade palestina que sustentam no poder, através de meios que aqui consideraríamos ilegítimos, um aparato bélico e um sistema de governo corrupto e que preocupa-se apenas com o status quo em detrimento dos legítimos interesses de seu povo.
O olhar brasileiro, em especial, o da esquerda brasileira sobre o conflito Israel-Palestina poderia se enriquecer pelo estudo profundo das raízes dos conflitos internos brasileiros que levou à eleição de Jair Bolsonaro e que não obstante o amplo espectro de crimes e genocídio praticado não sofre deposição ou sanção minimamente significativa. Outros conflitos crônicos e de territorialidade infinitamente maior, como o recente massacre em Jacarezinho também oferecem oportunidade para uma reflexão sobre como esses fenômenos são difíceis e complexos em sua resolução, estando seus vetores profundamente arraigados em nossa sociedade, desde a viela da comunidade periférica até as mais altas esferas de poder, institucional ou não.
Como judeu de esquerda, confesso-me também constrangido pela postura de setores dos diversos partidos de esquerda brasileiros frente ao conflito Israel-Palestina, que abraçam uma narrativa unilateral sem qualquer ponderação ou crítica sobre os métodos de instituições como o Hamas, Hezbollah e suas conexões externas com outras nações e grupos que explicitamente pregam “apagar Israel do mapa”. Ou, que deliberadamente abraçam a tese indefensável de “extermínio” do povo palestino, que se dotada de mínima realidade seria levado a cabo com facilidade e rapidez entorpecedoras. Deveria sim a nossa esquerda recorrer à sabedoria de quem esteve lá de fato e dedicou-se a estudar de forma isenta a realidade como o deputado Jean Wyllys, ou mesmo o Presidente Lula que sentou à mesa com Ahmedinejad e seus assessores e experimentou as dificuldades locais.
Argumentando com o absurdo para fins meramente ilustrativos, como seria se em um espaço de dois dias a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, disparasse mais de mil foguetes com bombas sobre os prédios do Leblon e Copacabana? Seríamos capazes de romantizar o ato sob uma narrativa de resistência? Seríamos capazes de nenhuma tentação de reação e neutralização da capacidade bélica daquela comunidade? O que temos visto recentemente diz que não. Por muito menos que mil foguetes com bombas promovemos massacres proporcionalmente ainda mais brutais. O número de vítimas e a brutalidade do recente episódio em Jacarezinho são também constrangedores e nos denunciam como incapazes de promover a paz aqui ou no Oriente Médio, e com este humilde reconhecimento deveríamos quedar-nos silentes, talvez em prece por um mundo melhor onde ninguém se arrogue a estabelecer acusações e culpas estando completamente fora do contexto e repetindo, neuroticamente, os comportamentos determinados também pelos nossos mitos fundadores, por nossas crenças pessoais e eventualmente grupais, o que apenas sustenta o velho onde deveria surgir o novo.

De saco cheio estamos nós

Nesta sexta-feira, pela enésima vez, o capitão genocida se arrogou o direito de criticar, com palavras de baixo calão, um instrumento legal de um outro Poder, no caso o Legislativo. Alguém disse que o presidente deve respeitar a independência dos Poderes ? Ora, ele não tem a menor ideia do que isso venha a ser. Ele só entende a linguagem do « eu faço o que quero », como uma criança mimada. O inominável voltou a atacar, como sempre nas redes sociais (onde é mais fácil escrever em razão de um número limitado de palavras), a CPI da Covid, respondendo aos membros da Comissão que criticaram medicamentos rejeitados categoricamente pela Organização Mundial da Saúde : a cloroquina e a ivermectina, dos quais o presidente da República, que nunca frequentou uma aula de primeiros socorros, transformou-se em garoto propaganda. Para ele, de nada servem seis estudos científicos internacionais, que reuniram mais de 6 mil pacientes, concluirem que os medicamentos não trazem benefícios no tratamento da Covid 19.

Desde julho do ano passado, a OMS informa que o antimalárico não tem nenhum efeito positivo contra o coronavirus, sem falar dos efeitos secundários perigosos, que podem inclusive levar à morte. Mais recentemente, o painel de especialistas do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS foi ainda mais claro, rejeitando o uso da hidroxicloroquina no tratamento preventivo da Covid e dando por encerrados os testes com o medicamento.

Mesmo assim, o fascista que se instalou no Planalto insiste : « Não encham o saco ! » ; médico e paciente são livres para escolher como querem se tratar.

Como responder a essa asneira sem tamanho ? Então se um oncologista decide tratar seu paciente com câncer no fígado com Novalgina, tem todo o direito. E se o paciente morrer ? E daí, médico não é coveiro, não é mesmo ?

Quinta-feira o capitão já tinha defendido novamente o uso da hidroxicloroquina, chamando de « canalhas » os que se opõem à sua prescrição e afirmando que a CPI é mera « xaropada ».

Um dia antes, nesse circo de horrores, o presidente rasgou uma vez mais a Constituição diante do olhar impassível do Procurador Geral da República, Augusto Aras, cúmplice do genocida, para ameaçar o STF e publicar um decreto para impedir que governadores e prefeitos fechem o comércio ou limitem a atividade durante a pandemia. Afirmou que não aceitaria contestação dos tribunais. Acusou o ministro Luis Roberto Barroso de ter feito “politicalha” ao mandar o Senado instalar a CPI, embora sabendo que errado estava o presidente da Câmara Alta, que para proteger o capitão empurrou com a barriga a abertura da Comissão de Inquérito, cujo pedido preenchia todos os requisitos constitucionais. Errado estava Rodrigo Pacheco e não o STF, que confirmou a decisão de Barroso por 10 votos contra 1.

Dizem alguns que Bolsonaro é como o cão, que ladra mas não morde. A verdade não é bem assim, mesmo se as declarações insanas têm o objetivo de animar a sua base política. O país vive em clima de queda de braço permanente e, enquanto não é governado, as pessoas, dezenas de milhares de pessoas, vão morrendo feito moscas.

Face à tragédia, a solução proposta é a privatização do SUS, ou seja do alicerce da saúde pública no Brasil.

O único compromisso do presidente é consigo mesmo, com a sua ninhada e com a promessa de tudo destruir à sua passagem. É a política da terra arrasada. Dentro desta lógica, nessa mesma quarta-feira, investiu contra a China, nosso maior parceiro comercial e principal fornecedor de insumos para vacinas.

“É um vírus novo, disse, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?”

O presidente brasileiro parece não ter se dado conta de que Donald Trump perdeu as eleições, continua a repetir o discurso anti-China do ex-ocupante da Casa Branca. Para tanto, é apoiado pelo filhote Eduardo, aquele do hambúrguer, e pelo ex-chanceler olavista Ernesto Araújo, dois arautos da guerra contra Pequim.

Bolsonaro fechou a semana ignorando as regras sanitárias e gerando aglomeração com motoqueiros em Brasília; estava sem máscara e disse que pretende realizar atos semelhantes em outras cidades. Como se a CPI realmente não passasse de mera “xaropada”.

Por ter provocado aglomeração, o líder da extrema-direita portuguesa, André Ventura, está sendo investigado e poderá ser condenado a 4 anos de prisão.

Fora do Brasil, Jair Bolsonaro é visto como o pior mandatário do mundo na gestão da pandemia, título concedido pelos jornais e cientistas mais conceituados. Nesse início de maio, o Parlamento Europeu debateu a gestão da pandemia pelo presidente brasileiro, taxada de “necropolítica, negacionista e irresponsável”.

“Por ação ou omissão, a necropolítica de Bolsonaro constitui um crime contra a humanidade que deve ser investigado”, disse em plenário o eurodeputado espanhol Miguel Urbán Crespo, aplaudido por seus pares.

Artigos são publicados diariamente na grande imprensa, que nada tem de esquerdista, escritos por gente estupefata com o inferno dantesco em que se transformou o país.

O que muitos não conseguem entender, sendo portanto incapazes de explicar, é por que o presidente tem o apoio incondicional de um terço do eleitorado. O correspondente da Deutsch Welle no Brasil, como bom jornalista, passou um ano entrevistando pessoas que votaram em Bolsonaro, para explicar o fenômeno aos seus seguidores. Mas finalmente baixou os braços e confessou : – Decidi parar de falar com bolsominions ; não aguento mais, é uma loucura !

De fato, a visão que o Brasil projeta hoje é deplorável. Em 43 anos de vida na França jamais vi nada igual. Na Europa, a opinião (até entre alguns políticos de extrema-direita) é que Jair Bolsonaro e sua gangue são psicopatas perversos, dignos de usar camisa-de-força, de serem interditados. Não se consegue compreender o que acontece, nem a passividade popular e muito menos ainda a atração exercida pelo « mito », que com a ajuda de pastores evangélicos, olavistas, militares, milicianos, empresários do tipo Havan, formou uma verdadeira seita em torno de si, recriação do Templo do Povo do reverendo Jim Jones.

Para a loucura do presidente parece não caber interdição e sim cadeia, onde deverá terminar os seus dias caso sobre um resquício de Justiça após a sua passagem.

Minha intuição diz que seu grande sonho nunca foi se tornar presidente da República (o que exige um mínimo de preocupação com o Brasil), mas ser comandante-em-chefe das forças armadas, que em várias ocasiões afirmou lhe pertencerem. Autoritário, candidato a ditador, adorador da tortura, ele quer mandar, certo de que o Brasil é uma caserna e os brasileiros, seus soldados. Saboreia a revanche da sua expulsão do Exército. Os únicos livros que folheou na vida foram para os exames da Academia de Agulhas Negras. A Constituição, só segurou na hora da transmissão da faixa presidencial. E olhe lá! Aposto que nunca abriu.

Um dos poréns é que os militares próximos do presidente cabularam a aula magna da Academia Militar sobre os direitos e deveres em tempo de guerra, fazendo com que passasse batida a Convenção de Genebra. Formaram-se portanto sem saber que até no conflito armado há regras. Os soldados da ativa e de pijama que circulam pelo Palácio desconhecem limites e consideram que a palavra do comandante é lei, mesmo que contrária à própria lei. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”; plagiando o general ex-ministro da Saúde. Nesse universo não reina a força da lei, impera a lei da força, sobretudo contra pretos e pobres.

Natural portanto que com Bolsonaro os gastos militares tenham superado os da ciência e da diplomacia. O Ministério da Defesa gastou 572 milhões de reais com ações da pasta e das Forças Armadas na pandemia. Os gastos militares superam as despesas do governo federal com ciência e tecnologia, segurança pública, direitos humanos e diplomacia no combate à Covid-19.

Bolsonaro declarou guerra à ciência, à medicina e à vida. Ao invés de ter o vírus como alvo, declarou guerra ao STF, guardião do Direito, Poder que tem ousado desafiar a sua autoridade para fazer cumprir a Carta Magna e a lei, do direito dos índios a comer durante a pandemia e terem vagas em hospitais públicos à abertura da CPI da Covid no Senado.

A chacina do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que completou a semana, é corolário dessa ideologia: 27 favelados mortos, acusados de tráfico. Bolsonaro, desde o primeiro dia de seu mandato, defendeu o excludente de ilicitude, abrindo caminho ao uso da força letal indiscriminada pelos policiais. Assim, protegidas pela palavra presidencial, as polícias (seriam milícias?) abrem fogo e matam ao arrepio da lei, contra o que estabeleceu o STF. Há um ano, o Supremo determinou limites para ações de policiais nas comunidades durante a pandemia. Em vão.

O massacre, que incluiu execuções sumárias de acordo com testemunhas, embora cometido pela polícia civil do Rio de Janeiro se insere na ideologia de morte pregada pelo Executivo federal. Ordem de prisão é coisa do passado, a regra é atirar para matar. A polícia entra na casa de uma família, vê uma pessoa deitada, desarmada, e metralha.

Bolsonaro criou a figura da “pena de morte informal”, sem necessidade de condenação.

Na operação, quatro habitantes da favela foram presos e torturados. Mas preferiram não relatar as agressões aos médicos do Instituto Médico Legal, pois ao contrário dos procedimentos, os policiais permaneceram na sala enquanto os peritos trabalhavam. Depois, foram encaminhados para o presídio de Benfica, sem direito à audiência de custódia, muito embora obrigatória. O laudo da perícia das drogas apreendidas tampouco seguiram as normas legais. Nada mais normal, pois afinal, como diz o vice-presidente general, « É tudo bandido ! » Ou como diz o capitão, “traficantes que roubam e matam”; ambos referindo-se, obviamente, sem nenhuma prova, aos favelados mortos. Dos 27 mortos, apenas 3 eram alvos de mandado de prisão.

Para eles, bandidos são os manifestantes presos por chamarem o genocida de genocida, Rodrigo Pilha, torturado por agentes penitenciários, os mineiros detidos, falsamente acusados de terem atirados ovos nos bolsominions. Ou ainda os trabalhadores sem terra, que Bolsonaro (no dia da chacina) recomendou o assassinato, ao comemorar a autorização para que os fazendeiros possam circular armados dentro de seus latifúndios e atirar para matar sem somação: ”Se encontrar o ilícito lá mete fogo, porra!”

« Algo está errado » ; replicou o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, reclamando a abertura de investigações imparciais internacionais sobre Jacarezinho. « O uso da força deve ser o derradeiro recurso, o combate à criminalidade precisa ser equilibrado e proteger a população. »

Palavras ao vento…Gato escaldado, o Alto Comissariado não confia na objetividade das autoridades brasileiras, incapazes de levar adiante uma investigação imparcial. Com toda razão.

Na visão bolsonarista de mundo, a vida (dos outros) não tem importância. E se o outro for preto e pobre, menos ainda. No combate ao crime como na luta contra o coronavirus, 420 mil mortes após o início da pandemia, o fascista mor não muda uma vírgula em sua forma de ser e de agir. O que faz de seus seguidores, cúmplices.

A chacina do Jacarezinho e a morte de milhares de vítimas da “política sanitária” são duas faces da moeda bolsonarista.

O fato de que 30 % ou mais sigam cegamente o « mito » e estejam prontos a reelegê-lo diz muito sobre quem somos. Dezenas de milhões de brasileiros parecem ter se despido da aparência humana para abraçar o que de pior marcou a humanidade : de Mussolini a Hitler, passando pelas Cruzadas, pela Inquisição, pela escravidão. Outros 30 % estariam dispostos a ficar em cima do muro, como os poloneses de Cracóvia, que fingiam não ver o que acontecia do outro lado da cerca de arame farpado que os separavam dos fornos crematórios (certamente mal cheirosos) de Auschwitz.

Isso me leva a pensar que trazemos em nós o que há de mais abjeto. Um dia a sociologia explicará esse desatino. Hoje, o que vemos não faz sentido. Na pandemia foram os pobres que mais perderam empregos e renda, as crianças que ficaram sem merenda nem estudos, os que mais morreram de Covid sem direito sequer a oxigênio, que foram as principais vítimas dos preços que subiram 29% nos alimentos básicos. Mesmo assim, segundo o DataFolha, a decepção com Bolsonaro é muito maior entre os mais ricos. Quase um terço dos pobres considerariam o governo Bolsonaro bom ou ótimo.

Machismo, racismo, homofobia, autoritarismo, discriminação de gênero, revolta contra o “sistema”, fundamentalismo religioso, medo do futuro e necessidade do herói salvador, talvez sejam um início de explicação para essa mixórdia fétida em que nos transformamos.

O mundo implora para que o Brasil comece enfim a combater seriamente a pandemia, usando os utensílios científicos à disposição, abandonando definitivamente os kits, os falsos tratamentos preventivos. Nós parecemos não estar nem aí, mesmo se a estratégia de Bolsonaro, ou falta de, venha a deixar caminho livre à circulação do vírus e a consequente multiplicação de variantes, sob pena de colocar em perigo o resto do planeta.

Agimos na pandemia da mesma maneira irresponsável como fazemos contra o aquecimento climático ; dando de ombros, tentando jogar a nossa parcela de culpa sobre os ombros de terceiros, que insistem em não colaborar com alguns bilhões de dólares.

A diferença agora é que o mundo começa a acordar e rechaçar a chantagem de Bolsonaro, Salles e o rebanho.

No dia 29 de abril, uma equipe internacional publicou um estudo alarmante na revista Nature Climate Change: nos últimos dez anos a Amazônia brasileira rejeitou mais gás carbônico do que absorveu.

Segundo os cientistas, esse dado constitui uma mudança maior e inédita na história da humanidade. Por causa da atividade humana, a Amazônia, que fornecia 20% do oxigênio do planeta, está literalmente morrendo. E nós com ela.

O que fazer antes que seja tarde demais, que tenhamos atingido o “point de non retour”? Por onde começar?

Num primeiro momento, ambientalistas, economistas, e políticos europeus sensibilizados com a causa ecológica propõem o abandono imediato do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Por duas razões:

Antes de mais nada porque não se assina um acordo com um país cujo dirigente viola os direitos humanos e não dá a mínima para os seus próprios engajamentos ambientais. Depois, porque o conteúdo desse acordo é em si uma catástrofe climática, que de acordo com um estudo dirigido pelo economista Stefan Ambec irá acelerar o desmatamento da Amazônia em ao menos 25% nos próximos seis anos, ou seja, de 30 mil quilômetros quadrados de floresta por ano. Isso sem falar na destruição da biodiversidade, explosão das emissões de gazes de efeito estufa, ameaça sobre as populações autóctones e morte de camponeses e pequenas plantações.

Em outras palavras, o acordo provocaria um etnocídio acompanhado de um ecocídio, razões pelas quais Jair Bolsonaro já é acusado no Tribunal Penal Internacional de Haia.

O capitão, encurralado e pressionado, reage da única maneira que sabe: desrespeitando tudo e todos, xingando, dando porrada pra’ tudo quanto é lado. O império da lei, o Estado de Direito, não faz parte da sua definição de Democracia, que começa e termina na eleição. Eu ganhei, logo eu mando. Genocida, nazifascista, um dia responderá por seus crimes, mesmo que um terço do Brasil seja cúmplice da matança e da destruição.

Como disseram os eurodeputados, Bolsonaro não é apenas um perigo para o Brasil, é o inimigo número 1 do mundo