Lágrimas de Chico Buarque

Lágrima é o símbolo da dor, tristeza, compaixão, portanto não é para se envergonhar, como diz a velha frase: “homem não chora”. Quando um compositor tímido, que nunca tinha chorado diante do público, percebe rolarem lágrimas ao falar de tristezas sobre nosso país, isso é inquietante. Chico Buarque assegura que o golpe na democracia já está ocorrendo, e os armados estão integrados, bem com a complacência de muitos. Uma previsão pode estar errada, mas, se for certa, o panorama é sombrio.
Chico foi entrevistado na TV 247, junto com a filha de Zuzu Angel, a jornalista Hildegard Angel, no centenário do nascimento de sua mãe. Zuzu já era uma estilista famosa quando teve seu filho Stuart torturado brutalmente pela ditadura militar em 1971. Poderia ser preso, mas foi massacrado na Aeronáutica, e ainda atiraram o seu corpo no mar. Zuzu escolheu o Chico como um de seus confidentes e amigo das dores e lutas, e entregou a ele um bilhete no qual antecipava seu provável assassinato pelos mesmos militares que tinham matado seu filho. As lágrimas do compositor de “Construção” ocorreram ao recordar histórias dos tempos da ditadura militar sobre a Zuzu e seu filho Stuart que não pode enterrar.
Chico se indigna com a impunidade passada e atual e diz: “Eles se pensam os donos do Brasil, mas não são donos porra nenhuma. Teve generais no passado que tinham dignidade, mas agora onde está a dignidade? Não estão interessados em proteger o povo brasileiro”. São palavras de desabafo, e novas lágrimas rolam ao mencionar o massacre do Jacarezinho, onde foram mortas 28 pessoas sem julgamento. As lágrimas foram pelas mortes e a dor de um sonho, temporariamente, desfeito, com o “Amanhã será outro dia”. Suas lágrimas são as nossas lágrimas diante das mortes da pandemia, da morte de Marielle, que, segundo ele, ficará sem se saber os mandantes.
Chico afirmou que a situação é perigosa, pois o país está tutelado pelo fascismo e o nazismo. Os ataques à democracia aumentaram devido à persistente impunidade, e a palavra impunidade tem destaque no seu pensamento. Assim, o hoje é sequela do ontem, dos anos de ditadura, e o amanhã está ameaçado, daí o desamparo. Em 1976 um caminhão empurrou o Karmann-Guia de Zuzu para fora da estrada, e só em 1998 o Estado Brasileiro reconheceu que ela tinha sido morta e não fora um acidente, como as autoridades apregoaram na época. Chico fez a música “Angélica” em sua homenagem, cujo estribilho é “Quem é essa mulher?”. Zuzu Angel é a Antígona brasileira que escolheu morrer lutando para enterrar seu filho, pois a tumba e a cerimônia fúnebre são expressões da cultura, da humanidade. Ao longo dos tempos, a “Antígona” de Sófocles simbolizou a rebeldia contra o poder autoritário, a luta pelos Direitos Humanos diante do Estado arbitrário. Antígona passou a representar a rebeldia, e escreveram sobre ela Rousseau, Kant, Hegel, Brecht, Lacan, entre outros.
As lágrimas de Chico Buarque de Holanda expressam também a tristeza diante de quinhentos mil mortos pela covid num ato criminoso. Chico é um combatente democrata desamparado, e revela nosso desamparo diante da arrogância cruel dos milhões de armados. Diante de tantas angústias, recordei as palavras do poeta espanhol Miguel Hernández, que escreveu uma carta desde a prisão franquista em 1942: “Voltaremos a brindar por tudo que se perde e se encontra: a liberdade, a alegria, e esse carinho oculto que nos leva a buscar uns aos outros através da Terra”. Caminhamos na construção de um amanhã ou, se for o caso, por um depois de amanhã, onde o povo todo possa se reencontrar com a democracia e a justiça social.

Remédio do tédio

O remédio do tédio é mais que uma rima, e, se não é uma solução, pode abrir uma janela para conversar sobre esse sentimento. O tédio é um sentimento, e a vida pode ser tediosa seja por momentos ou muito mais tempo. Além do que, com a falta de encontros, a falta de abraços, a carência dos amigos, em um país onde os cientistas são chamados de canalhas, diminuem as luzes do Cruzeiro do Sul. Entretanto, há surpresas, e há anos aprendi uma das mais importantes lições sobre um dos remédios ao tédio. Era uma mulher que tinha a tendência de queixar-se de seu passado, queixas de que fora injustiçada, desprezada, e repetia as mesmas histórias. Tinha dias que me entediava, pois quando ela começava a falar eu já imaginava o script. Um dia (ainda bem que tem esses dias), recebi um e-mail dela sobre uma consulta em que falou quase sem respirar. “Tu não imaginas o quanto tu me ajudaste escutando, mesmo quando falo de situações que já passaram, pois me faz bem lembrar e saber que tenho força e sonhos com a graça de Deus. E com tua ajuda NÃO desabo, e quando envio pensamentos positivos estou dividindo contigo”. O “não” em maiúsculas foi dela mesmo, então fiquei surpreso e entendi que estava me pedindo para não desanimar. A paciência é um remédio ao tédio e a vida toda.
É frequente um analisando ser grato por ter alguém que o escute, ainda mais estando angustiado, carente de alguém. Recordo quando em 1972 em Buenos Aires esperava os minutos para ir até a calle Arenales, no “barrio Norte”, para deitar e falar à minha analista. Sou grato por ela ter aturado as minhas repetições e os choros de estar em um mundo tão diferente do velho Bom Fim. Uma das etapas da vida em que mais se fala em tédio é na adolescência, mas as crianças também falam em se sentir entediados, assim como os adultos e velhos.
Meu neto José, de cinco anos, ia passar um fim de semana fora de casa e pediu, muitas vezes, que fossem levados seus brinquedos. Perguntei por que precisava tanto deles se iria passear na natureza, e ele logo respondeu: “Se precisar ficar no quarto do hotel, quero ter com o que brincar, pois senão fico entediado”. Perguntei o que é se sentir entediado, e ele concluiu: “É não ter nada o que fazer”. O tédio é um sentimento que expressa angústia, sensação de desgosto, vazio, aborrecimento, tristeza.
O Rodrigo falava pouco, e, quando perguntado por qualquer coisa, respondia sempre: “Mais ou menos”. Passar com ele uma consulta inteira era sempre um desafio de paciência, de suportar o tédio dele e o meu. Um dia, perguntei-lhe com o que brincava na infância e me contou que tinha um carrinho que adorava e andava nele desviando dos pilares do edifício. Então observei como antes ele brincava tanto, inventava o dia a dia e tinha alegrias só com um carrinho, e agora estava sempre no mais ou menos. Vi seu espanto e ao mesmo tempo o meu, por ter levado tantos meses para sair do tédio semanal do mais ou menos. Não recordo quanto tempo passou para dizer que comprara a melhor caixa para bateria da cidade, pois ele era músico. Disse então: “Enfim saíste do mais ou menos”.
O tédio não ocorre só em alguém, pois há reuniões familiares tediosas, e uma partida de futebol pode ser chata. Também um país tem tempos autoritários, mentalidade negacionista (quase meio milhão de mortos), tempos entediantes. Incrível como aqui tem danças e músicas empolgantes, uma natureza de rara beleza (sendo queimada) e gente que só pensa em destruições e lucros. Já anunciaram os clarins a invasão dos armados amados pelo agropop e os donos do poder. Importante é não perder a poesia, não perder o humor, não perder a memória, que são alguns dos remédios para diminuir o tédio e elevar a dignidade.

Quem somos nós?

“Eu É Nós” é uma peça teatral escrita e dirigida pela amiga artista Suzana Saldanha. O título é uma ponte entre o quem eu sou e o quem é nós. A ponte tem nas identificações sua sustentação, pois expressa a incorporação de fragmentos do mundo transformados pelo indivíduo que assimila atributos do outro e os transforma. Logo, cada um de nós se constitui, através das identificações, em cada um há uma pluralidade de pessoas psíquicas.
Para que a gente possa se entender consigo surgem questionamentos diante as encruzilhadas. Durante anos busquei responder perguntas sobre as identidades ilusórias e necessárias. Na adolescência, perguntei o que é ser judeu, o que é ser homem; já na faculdade o que era ser de esquerda (geração 68) e o que seria na vida. Na formação profissional irrompeu sobre o que é ser psicanalista. Percebi o quanto essas perguntas integram identidades, e como a evolução das interrogações contém certa rebeldia diante das certezas.
Pensar em nós é perceber que se nasce em uma família, indispensável para crescer, e logo vem a construção das amizades, os apoios indispensáveis para dar amparo e afastar a morte. Aliás, há uma história entre dois poetas amigos e a morte, que ocorreu numa manhã cedinho. Thiago de Melo (“Faz escuro mas eu canto”) chegou na capela do cemitério, e logo viu Maria Julieta, filha do Drummond, dormindo coberta de flores, e cabisbaixo, num canto, o pai velava sua única filha. –“Poeta. Você veio…” disse o amigo surpreso. Ambos ficaram de mãos dadas por um bom tempo. Quando Thiago ia se indo, Carlos ainda disse:- “Amigo…”. Nessa cena distante se evidencia o quanto cada morte importa e o quanto o número de mortos impacta, mas se perde o humanismo. É triste também imaginar o cotidiano sem os amigos, sem os laços que se constroem entre palavras e mãos dadas.
Quem somos nós? Não sei, mas lembro do quanto uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas segundo a tradição africana do Ubuntu. Uma vez por semana estamos aqui reunidos, somos fãs dos trabalhadores da saúde, dos artistas, dos cientistas, que em tempo recorde inventaram tantas vacinas. Também os vejo como democratas de raiz, contra a tortura e todas as formas de genocídio. São diferentes formas de ser humanista, enriquecer com a alteridade e caminhar em busca de um país mais justo. As fotos escritas que fiz sobre nós, não revelam os sintomas, os conflitos que na verdade expressam que somos humanos.
Imagino a gratidão aos que lutaram e lutam por um país melhor para todos e não só para alguns. Não ser indiferente às mortes, defender que os crimes contra a humanidade sejam julgados. É preciso entender os apoiadores do governo, e torcer por um despertar e o afastamento do mais cruel dos presidentes do Brasil. Além do que um governo justo deveria gastar muito menos com as Forças Armadas, o Congresso, o Judiciário, o Executivo, e muito mais na ajuda ao povo sofredor.
Os sonhos se fortalecem com manifestações públicas lideradas por jovens. Elas revelam que um gigante adormecido potente para se levantar contra o autoritarismo. Entre um encontro de dois poetas, uma manifestação pública liderada por jovens entusiasmados estão também grupos como esse. Todas as semanas a gente se encontra nas esquinas do Face formando pontes entre nós. As redes sociais amparam, são frágeis redes de segurança, apoio no luto pelos mortos e na luta para manter o humanismo. Viver é aprender, somos aprendizes de uma travessia por desertos e labirintos infinitos, por um amanhã melhor.

Quem sou eu?

A pergunta sobre si cresce diante da solidão na pandemia. E foi na realidade virtual onde se encontram consolos de espelhos que diminuem as incertezas. Na verdade, cada pessoa se conhece e desconhece, entre sonhos e pesadelos. O exemplo do nome próprio revela o quanto a gente se conhece pouco, pois não sabe os desejos inconscientes dos pais na escolha de um nome. À medida que o tempo passa e aumentam as experiências de vida, se percebe que seu “eu” é mutante, complexo, conflitivo nas várias facetas. Na verdade, o EU não é senhor em seus domínios, devido o inconsciente, e aí ocorre um ferimento narcisista, um golpe na autoestima. A busca por quem se é passa por espelhos que oscilam entre a frágil ilusão da plenitude e o vazio.
Um exemplo de espelho hoje é quantas vezes por dia a gente olha o celular como se fosse um Narciso diante do lago. A tela do celular é na pandemia a esperança de ser restaurado naquilo que a gente é, ou sonha ser.
Conta-se que após Narciso morrer o lago que ele tanto olhou sua imagem passou de doce a ter águas salgadas. Então disseram à lagoa que ela chorou muito porque Narciso era tão bonito. A lagoa fica surpresa e pergunta sobre essa beleza e dizem a ela: “Quem poderia saber melhor do que você?”. E a lagoa responde: “Mas eu amava Narciso porque, quando ele se deitava em minhas margens eu via no espelho dos seus olhos a minha beleza refletida”. Narciso amava a imagem dele na lagoa e a lagoa via no espelho dos olhos dele sua beleza. Um depende do outro para se sentir amado, desejado, e por isso o amor é narcisista, mas, felizmente, ocorrem as feridas nesse amor.
Graças as feridas e cicatrizes a gente pode crescer entre ilusões e desilusões. Narciso e o lago se amavam, um se espelhava no outro nessa bela história escrita por Oscar Wilde, que tanto sofreu em sua busca desesperada do outro. Não faltam dependências mortificantes e há ainda os que se sentem dominados pelo dinheiro, “tempo é dinheiro”, ou se jogam em “tudo pelo poder”, num consumo empobrecedor.
Montaigne, no final dos “Ensaios”, no capítulo “Da experiência”, escreveu: “Nossa vida, como a harmonia dos mundos, é composta de elementos contrários e tons variados: doces e estridentes, agudos e surdos, frágeis e graves”. A vida é mutante, complexa, cada pessoa é constituída de pedaços costurados, sendo que há pedaços melhor costurados que outros. Cada pessoa é formada por uma rede de identificações que envolvem os familiares, os educadores. Portanto, de uma forma ou outra, todos perguntam aos espelhos quem é cada um. São diferentes forma de aliviar o desamparo que marca a condição humana e constitui nosso mal-estar.
“Quem sou eu?” é uma pergunta curiosa sobre si, o lugar que se ocupa na vida, no amor de quem se ama, enfim na relação com os demais. E há ainda as encruzilhadas de escolhas que a gente faz quanto aos amigos, os amores românticos, estudo, casamento, trabalho, solidão. A vida transcorre entre alegrias e angústias, o ânimo e o desânimo, um diante dos conflitos: familiares, institucionais e políticos.
Sempre gostei das interrogações, escrevo para responder as perguntas que me faço desde muito cedo na vida. Já entendi que estou ao lado dos que aceitam a complexidade do “eu”, do “nós”, importante para enfrentar os nós da vida. Diante dos nós da nossa solidão, é indispensável manter o humanismo como postura digna e existencial. Desprezar a morte hoje de quase meio milhão de brasileiros é uma expressão da frieza cúmplice da maior das crueldades de nossa história. Por isso uma ode aos humanistas diante um sábado esperançoso, de luto e luta. Enfim, merecemos um poema renascentista:
“Venho não sei de onde/Sou não sei quem/Morro não sei quando/Vou não sei aonde/Espanto-me de ser tão alegre”.