Farda, fralda e fraude

Farda, fralda e fraude

“Tempos estranhos”, a forma que com alguma frequência, gradualmente mais alta, o quase ex-ministro Marco Aurélio Mello define as quadras históricas que vivemos, é uma forma definitivamente corolária se quisermos definir as almas que habitam nestes mesmos tempos e lugares, onde qualquer tentativa de ordenamento e compreensão lógica sobre as trajetórias e narrativas sucumbe escalafobeticamente. Tanto que para dar um pouco mais de sentido a este texto, tive que inserir este primeiro parágrafo que nem trata do tema principal para justamente estabelecer um corolário ao descrever o estranho e ilustre personagem acima, que permite a compreensão daquilo que ele mesmo chama de estranho a partir de sua perspectiva civil sobre assuntos mais atinentes ao polo militar da sociedade brasileira.
Mello, o campeão absoluto de votos vencidos no STF, talvez até em escala global se feito o devido comparativo ponderado com outras supremas cortes ocidentais, pelo menos, parece mesmo querer “encher a fralda” daquilo que jocosamente se diz da “cabeça de juiz”, que por sua vez encontra fundamentos na história das sentenças escatológicas que permeiam a história jurídica brasileira, em especial, quando, nos últimos estertores de seu mandato na suprema corte, dá a Sérgio Moro o status de herói nacional e ao golpe militar de 64 a alcunha de salvação nacional, apoiando-se para esta tese na ideia de uma “possível instalação de uma ditadura comunista”, à época, sobre a qual, ainda que sem qualquer apoio em evidências concretas ou razoáveis, não deveria-se correr o “risco”.
Nem de todo o caos vem a ordem, ou alguma ordem, para ser mais preciso, já que caótico seria um elogio ao “corpus” filosófico do ilustre ministro, que com essas esdrúxulas assertivas finalmente revela a ordem subjacente de seus pesos e contrapesos internos, esta por sua vez marcada pela necessidade intestinal de ser exótico (e de conquistar fama e notoriedade por esta via) e de personalizar uma visão de mundo e de país em uma escala e método antagônicos aos princípios republicanos delineados pela Carta de 1988, a qual nitidamente impôs-lhe um trauma do qual parece não ter se recuperado, e que talvez tenha mesmo sido o ordenador de sua conduta, que a título de exemplo, no passado recente pôs em liberdade um dos mais perigosos e violentos traficantes por questões de formalidade processual, causando um imenso prejuízo ao aparato do estado na medida em que altos recursos são hoje mobilizados para a recaptura, dado que este aparentemente fugiu rapidamente do país, e pelo seu brilhante diagnóstico sobre a atuação do juiz que talvez tenha sido o maior usurpador de direitos fundamentais e não fundamentais de nossa história recente, pelo menos.
Tudo isso para dizer que Hamilton Mourão não habita solitário nestes estranhos tempos onde as reputações são tratadas como fardas e fraldas, ou seja, como objetos de uso temporário, sujeitas a lavagens e descartes sistemáticos como se necessário fosse. O por muitos admirado general é tido como pessoa bem formada, articulado, disciplinado e culto, o que de imediato estabelece um paradoxo com seu perfil político de primeira viagem embarcado nesta nau autoritária e obscurantista que certamente ajudou a projetar, tendo o cardo de vice-presidente como prêmio de consolação a alguém que dificilmente alcançaria esta posição pelas vias civis e partidárias comuns.
De fato, Mourão é dotado de algo que em algum tempo e lugar poderia ser chamado de fino senso de humor, mas que hoje não ultrapassa as fronteiras do simples exacerbar preconceitos, abusar dos falsos pressupostos e abandonar os verdadeiros à própria sorte. Quem viu ou ouviu suas últimas entrevistas e tem uma mínima formação em lógica, história, economia e ciência política pode observar a patética desarticulação entre ideias, valores, objetivos e dos elementos da realidade, curiosamente recheadas de um otimismo cínico, de justificativas que fariam corar um adolescente ainda que inundado de hormônios, e do tal senso de humor que no contexto atual só pode ser percebido como as chacotas que seu chefe propaga quando fala das vítimas da COVID-19.
Ao tentar justificar-se com os princípios da obediência, da hierarquia e de um “patriotismo”, Mourão esquece-se que não está na ativa e que a vida civil não submete-se primariamente a estes princípios, e sua resistência a entender sua função e lugar é sintoma de perfil psicológico. Isto para não dizer de seu desprezo pela soberania nacional na medida em que serve a um governo entregacionista e sabujo do capital internacional mais selvagem em circulação. Suas justificativas em relação à sua submissão sumária, rasa e vergonhosa ao verdadeiro maluco que ocupa o Planalto tentam convencer o ouvinte de que é o caminho a ser seguido, e tenta dizer isso por uma boca sorridente e relaxada, tentando trazer ao interlocutor a sensação de ser um netinho no colo do vovô aprendendo sobre a vida com os ditos em voz doce, amorosa e paciente. Também a título de exemplo, na mesma entrevista dada a Roberto d’Ávila na GloboNews, lamenta as imensas desigualdades que nos definem e adoecem como se o projeto político que abraçou nada tivesse de responsabilidade histórica e atualíssima com o fenômeno, e aprofunda o destrato com sua farda e patente ao se colocar como cumpridor fiel e acrítico das ordens emanadas pelo seu superior hierárquico, olvidando-se do antigo adágio militar fundacional que reza pelo não cumprimento de ordens absurdas.
Fraude também seria elogioso se como adjetivo dos comportamentos que vimos observando por parte daqueles que teriam que primar pela coerência interna de suas proposições e atos. Isto por que até a fraude exige uma arquitetura intelectual e uma metodologia passível de exame e desmonte pelo ferramental lógico, jurídico, filosófico e ético que nossa civilização tenta construir e sustentar. A estrutura do comportamento destas figuras é tão absurda que nos faz sentir como que se areia tivesse sido jogada nos nossos olhos. A cada assertiva, uma rajada, e a cada rajada, a nossa cegueira reflexa e temporária. Parece mesmo não haver ferramenta ou método para desarmar essa gente. O que revela-se nesses tempos estranhos é por demais vil, covarde, cínico e aterrorizante, deixando-nos às vezes com o amargo desejo de tempos ainda mais estranhos como forma de sairmos disso que mais parece um horizonte de eventos dos buracos negros.

O lado da ciência

Em compasso afinado com diversas áreas de atraso evolucionário do Brasil, volta, em uma atávica ressonância um debate supostamente superado entre ciência e política, materializado pelas submáximas do tipo “ciência não tem partido”, ou, “ciência não tem lado”.

Este tipo de assertiva traz um denso sofisma em seu corpo. Para aquele bem versado em história da ciência, história da filosifia e história geral, a ciência cartesiana (matriz de pensamento cientificista há 5 séculos) traz no seu íntimo o racionalismo como guia de construção do conhecimento e ainda uma metodologia procedimental e matemática que representa uma luta contínua contra tudo aquilo que vindo do indivíduo e de seus desejos pessoais possa interferir no resultado de um experimento ou de uma estatística sobre dados existentes. Além disso, o tratamento matemático estatístico é uma luta constante para que se identifique, nos achados produzidos ou nos dados apurados sobre qualquer realidade, os elementos do acaso que possam obnubilar a percepção da realidade.

Obviamente, quando falamos em “percepção” estamos partindo do pressuposto que qualquer percepção é obra da consciência do indivíduo, e portanto, sujeita aos viéses deste indivíduo, também pressupostamente sempre existentes. Na perspectiva coletiva, esta percepção pode formar conjuntos distintos sobre os mesmos dados de realidade, e assim, o tratamento estatístico persegue também o objetivo de uniformizar esta percepção de forma que a informação ou o conhecimento apurado seja palatável e “aceitável” pela maioria.

Não sou daqueles que cultiva a verdade científica como único ou absoluto critério de verdade. Mas também não sou daqueles que desacreditam nas verdades produzidas pela ciência. Tenho no meu íntimo a plena noção de que muitos conhecimentos não estão ao alcance do método científico ou de certa visão determinista. Exemplos clássicos desta divisão remontam à grande ruptura imposta pela física quântica, que não obstante alicerçada em princípios antideterminísticos (e às vezes, verdadeiramente fantasmagóricos) foi a mais bem sucedida teoria do século XX, cujos frutos entranham-se em cada aspecto de nossa vida cotidiana, e em breve, será incorporada ao mundo da informática no maior salto tecnológico jamais visto nesta área. Ainda assim, a física quântica jamais fracassou em no critério cartesiano da reprodutibilidade, algo que “democraticamente” dá chances verdadeiramente iguais aos que repetirem os experimentos que deram um certo resultado de obter o mesmo resultado.

Toda a construção científica cartesiana, querendo ou não, traz em seu bojo a desconstrução da ligação entre o poder político, ou ainda, o poder de fato, com os critérios de verdade e a determinação dos campos de conhecimento de uma sociedade. Ainda que o cientificismo possa (e deva) receber com dignidade as cáusticas críticas de Paul Feyerabend (“Adeus à Razão), a adoção de seus critérios pelos sistemas culturais e sociais deu-se de forma quase inabalável desde suas origens. Isto chega ao ponto de que a carreira científica traz ao seu ator as sucessivas titulações acadêmicas que na prática terminam por designar posições de poder sobre a verdade, que no limite, servirão de base para as decisões políticas nos respectivos níveis de estado. Assim, o agente de estado moderno faz um pacto implícito com a ciência, pois caso assim não proceda, estará sob o risco de ser classificado como autoritário, totalitário ou obscurantista.

Pobre do cientista que não expande para todos os campos do seu conhecimento e percepções a essência da ciência cartesiana. O que temos visto é um patético espetáculo de suicídio de reputaçãoes perpetrados por pessoas sobre as quais jamais se esperaria isso. Mas, como humanos que são, não são imunes às perversas manifestações dos arquétipos de poder e dominação outrora tão sinônimos de grandeza. E nesta esteira, fazem do seu ego a principal propulsão de suas carreiras que naturalmente os levam às posições de fama e conexão ao poder.

No outro polo, o cientista que no seu amadurecimento consegue incorporar à sua visão de mundo a sabedoria e a humildade que a ciência naturalmente provê, afasta-se cautelosamente de qualquer estrutura totalitária de pensamento, de qualquer sistema de conhecimento simplista, e mais ainda, de qualquer discurso restritivo ao pensamento e à crítica. Ao contrário, engaja-se em um projeto permanente de construção do pensamento crítico (e de sua divulgação) com viés coletivo e não individual ou pessoal. Assim, as visões de mundo providas pela ciência têm uma tendência natural de levar seus praticantes a uma visão mais altruísta, pelo menos muito clara na minha experiência pessoal que confirma a história até onde a conheço.

Quando observo agentes da ciência com suas respectivas titulações aproximarem-se de correntes políticas que reúnem as clássicas características do fascismo, sinto um imenso desgosto pelo fracasso que a academia teve em identificar essas pessoas que não estão prontas para a ciência. Há muito tempo que critico as pós-graduações feitas por gente muito jovem. Acredito mesmo que formação científica exige alguma maturidade, um critério que reconheço difícil de aplicar. E em um círculo vicioso, sabemos o quanto um mestrado e um doutorado são capazes de consumir um jovem estudante e de isolá-lo de diversas vivências de realidade, especialmente a política, transformando assim a carreira acadêmica em uma via de reafirmação de certos valores impregnados nas suas estruturas que abrem o apetite para a sede de poder em sua forma bruta.

No contexto atual brasileiro, temos um fertilíssimo terreno para a análise destes fenômenos sobre os quais porcurei trazer aqui alguns elementos de reflexão. Que no meu sentimento, deixam claro que se a ciência não tem um “lado” como aquele do ideal partidário, ela fundamenta sim uma visão de mundo que predomina nas sociedades verdadeiramente democráticas ou que assim desejam ser. Pelo menos, no nosso caso particular, uma visão profunda sobre nosso texto constitucional deixa claro que a ciência é um valor em si mesmo fortemente introjetada nos valores do constituinte de 1988, e que no cenário atual, aglutina-se fortemente contra a força de oposição aos seus valores que atua com a técnica da destruição da linguagem, algo que deveria alarmar desesperadamente qualquer pessoa com mínima formação científica, o que claramente não ocorre com alguns, que diligentemente são atraídos ao poder atual.

Assim, se a ciência não veio ao mundo para constituir-se explicitamente como um “lado”, as circunstâncias momentâneas do Brasil a obrigam a assumir um, sob pena do seu próprio fim.

As lições da Dra. Nise Yamaguchi

As lições da Dra. Nise Yamaguchi

O patético depoimento da Dra. Nise Yamaguchi na CPI da COVID-19 ocorrido ontem no senado é uma síntese de rara riqueza sobre o período que vivemos. Muito mais que um retrato do movimento dos discursos disrutptivos dos quais o atual governo é useiro e vezeiro, consolida-se mesmo como o discurso intempestivo de uma época onde o ego exercia influência desproporcional no progresso de carreira de um profissional da medicina. Explico. Venho de uma formação que marcou um final de era na medicina, era na qual as condutas médicas que levavam alguém à fama, não obstante a diversidade de talentos que a profissão exige e que passam longe do puro conhecimento científico, era a famosa “experiência pessoal” ou “opinião” sobre o assunto. Advogando em defesa da hoje tão temida “opinião”, assevero que opinião é uma categoria intelectual que faz uma escolha dentro de um campo de validade construída por diversos níveis de conhecimento sobre um assunto, e não aquele juízo que para sua admissibilidade exige o solapamento de todo o edifício conceitual e experimental prévio, que é o que aqui chamamos de discurso destrutivo.
Confesso que durante o curso médico cheguei a bater continência ao modelo egóico de conhecimento e prática médica, mas ao mesmo tempo, acuso o aparelho formador (que ultrapassa as fronteiras das escolas médicas) de não me prover o ferramental necessário para que o personalismo pudesse ser identificado e removido dos radares do conhecimento. Posteriormente, na pós-graduação que fiz na área de Histologia na USP pude me alimentar dos alicerces filosóficos e metodológicos da produção científica, e ainda mais posteriormente, já no início do meu amadurecimento como médico aos tardios 16 anos de formado, comecei a estudar e aprender sobre a medicina baseada em evidências, à qual dirigi muitas críticas ainda válidas (não à sua natureza, mas ao seu mau uso), mas que sem a menor sombra de dúvida é o norte de qualquer profissional de saúde que assim queira ser chamado.
De fato, a capacidade da medicina baseada em evidências de prover respostas precisas e definitivas é pequena como uma formiga e lenta como um mastodonte. Mas uma vez que a pergunta correta e metodologicamente bem organizada obtém uma resposta, os céus fazem uma festa, da qual, ainda que na condição de míseros mortais, podemos participar e desfrutar.
Mas há lugar para festas também no inferno, quando determinadas criaturas em determinadas circunstâncias, como a da atual pandemia de COVID-19 e o atual pandemônio político resolvem dar lugar às forças atávicas das falsas e frágeis mitologias que na realidade são meras idolatrias, como bem lembra o Prof.Dr. Ricardo Timm de Souza em sua magistral obra “Crítica da razão idolátrica”, que recomendo a todos.
O momento atual foi propício para que túmulos de um passado de pedestais que muitas vezes serviram mais como cadafalsos aos seus imponentes e eretos próceres se revirassem e fizessem assim ressurgir sob as vestes da farsa esses verdadeiros zumbis que hoje protagonizam o discurso destrutivo que parece exercer mesmo um efeito hipnótico e bestificante sobre seus portadores. Sim, por que duvido que cada um de nós tenha uma boa teoria sobre o que faz pessoas como a Dra. Nise Yamaguchi, que carrega o peso de tradições de sua própria cultura familiar e étnica, da Universidade de São Paulo, do Hospital Albert Einstein e talvez de outras que eu aqui desconheça mas não menos respeitáveis, derrapem na curva da estrada da vida nas proximidades de seu ápice e exponha ao mundo a ridícula cena de rolar montanha abaixo, colidindo com todo o tipo de obstáculo no caminho, deixando um rastro de pedaços e partes tão miseravelmente reduzidos que talvez ao mais experimentado perito não permita identificar o que ali aconteceu.
A questão fundamental a ser aprendida no momento, é que pessoas com esta incrível capacidade propriamente pornográfica de expor suas entranhas mentais existem, e ocupam espaços que não conseguiram se proteger de um “vírus” ardiloso e oncogênico (homenageando aqui a especialidade da nossa “homenageada”) transportado nos seus cérebros. O cenário de barbárie atual, bem análogo ao quanto produzido na década de 1930 na Alemanha, jamais seria possível sem esse “vírus” dormente em segmentos da sociedade, que de tempos em tempos e em lugares diferentes do planeta desperta do seu túmulo como o mito do vampiro e põe em ação o arquétipo do sedutor sugador de sangue humano.
A Dra. Nise nos alerta para o fato de que a ciência e as instituições não bastaram, nas últimas 4 décadas pelo menos, que comigo foram compartilhadas em termos de tempo e lugar na profissão médica, para vacinar a sociedade contra tipos egóicos que na hora certa e lugar certo irão se agarrar a algo que nossa consciência moral mediana nos mantém bem distante para alcançar a fama e o poder. E a falta dessa “vacina”, por sua vez, é certamente por ação deliberada de um grande movimento negacionista anterior cujas sementes agora frutificam. Mas são frutos de árvore podre.

Violência Gourmet

Há cerca de 20 anos publiquei um texto (na época, via e-mail!) entitulado “Mielina e Hemoglobina”. Era um texto analisando os fenômenos violentos da sociedade, onde eu criticava a tese de que pobreza e miséria geram violência, tese esta sustentada no contexto da criminalidade vulgar das quadrilhas, assaltantes e outros agentes “de campo”. Preliminarmente, eu estabelecia que este tipo de criminoso ou violento poderia até ser pobre, mas não miserável, pois crime é algo suficientemente elaborado e necessita de inteligência, estratégia, e na maioria dos casos urbanos, capacidade física e algum treino. Em outras palavras, para se ter um cérebro suficiente para estas façanhas e a capacidade física de executá-las seria necessário ter mielina e hemoglobina, coisa que só os minimamente nutridos desde a infância têm. Por fim, argumentava no sentido de demonstrar que se pobreza fosse determinante de comportamentos violentos, nosso país estaria de cabeça para baixo, se houvesse sobrado algo.

Mais adiante, eu explorava no texto o outro tipo de violência, aquela produzida nos gabinetes, onde covardes protegidos fisicamente pelas estruturas de concreto e mobiliário empunhando suas canetas produzem a farta gama de violência institucional sistêmica, esta sim, corrupta (não no sentido barato da gatunagem), fria, e também praticada por gente que além de mielina e hemoglobina teria todos os pressupostos culturais e sociais para não fazê-lo.

O momento atual brasileiro reforça a minha já antiga tese. Nunca uma caneta Bic (com todo o respeito pela marca, que não responde pelos atos que criminosos cometem com sua tinta) matou tanto em nossa história, pelo menos. E nunca um criminoso tão violento e brutal foi amplamente apoiado por um congresso que parece insensível à tragédia brasileira, ressalvando-se uma minoria que conseguiu, diante da não menos criminosa omissão de Rodrigo Pacheco, presidente do senado, um mandado do STF para que se instalasse a CPI da COVID-19.

Esta forma de violência, a institucional, é limpinha e cheirosa, além de bem temperada ao gosto de setores da sociedade. É uma violência gourmet, sorvida pantagruelicamente pelos Pazuellos, Bolsonaros, Salles, e outros agentes de destruição social.

Eu me preocupo mais com a “caneta Bic” do que com os fuzis. Pois é ela que mata muito mais que as armas.

O verdadeiro perigo da Cloroquina

Não pensem, leitoras e leitores que trata este texto de um fármaco e seus usos terapêuticos. Vamos falar sobre linguística, comunicação e técnicas fascistas. Nesta perspectiva, a cloroquina, bem como suas coirmãs no também metastático “tratamento precoce” vieram a fazer parte da desconstrução de toda a racionalidade da nossa civilização democrática, ainda que esta esteja longe daquela utopia grega. Lembrando-se bem, obviamente, que “tratamento precoce” é um sofisma em si mesmo no caso da COVID-19 pois não há tratamento precoce reconhecido definitivamente pela ciência em uso. O que há é uma falsa panaceia, um charlatanismo precoce. Para ter no título de tratamento, é necessário o reconhecimento científico. Esta é apenas uma das armadilhas do discurso bolsofascista em seu esforço equivalente ao feito pelo nazismo na década de 30, que deformou a língua alemã em velocidade sem precedentes. Há inclusive um grande e célebre livro do linguista Viktor Klemperer sobre a linguagem do III Reich, onde aborda em detalhe histórico e estrutural toda a estratégia nazista de desorganização da linguagem e da ciência, além das artes, costumes e padrões políticos.
O debate em torno da cloroquina tem nela apenas o detalhe. O pano de fundo é uma poderosa e eficaz estratégia de desconstrução da ciência como valor ou como eixo estruturante das políticas de saúde e de outras também, sendo o mais gritante exemplo a demissão de Ricardo Galvão da presidência do INPE no ano passado, quando aquela instituição começou a noticiar a devastação amazônica.
Para qualquer ente civilizado a pandemia de COVID-19 é um verdadeiro flagelo. Para o atual governo brasileiro, uma oportunidade de ouro e muito bem aproveitada para promover a normalização da morte, o genocídio dos pobres, idosos e combalidos, sob uma promoção de “bravura” contra o vírus e em prol da economia e do progresso por estas vias, e também sob a “vontade de Deus”, tida como assertiva do principal slogan de Bolsonaro.
Nesta linha, chega na CPI o momento de senadores da base do governo ostentarem “informações” advindas de dirigentes bolsonaristas relatando em uma folha de papel os dados de cidades e locais onde o “tratamento precoce” foi adotado, e pretensamente bem sucedido, sendo esta comunicação recheada de vontade de convencer o público de que se reveste de verdade científica, afinal, trazem “números” construídos sem qualquer critério, fiscalização, planejamento, revisão e devido tratamento estatístico, revisão e publicação em veículos de prestígio. Sim, o grande objetivo desta estratégia e fazer com que o público acredite que a ciência é construída desta forma, colocando em pé de igualdade um trapo trazido por um prefeito leigo de cidade interiorana e uma informação provida pela Organização Mundial de Saúde ou outros grandes veículos de disseminação de informação qualificada.
Nem seria necessário tanto esforço, e muito menos no foro qualificado da CPI e sua audiência. Pesquisas realizadas pouco antes da CPI já revelaram um perfil político conspiracionista afetando metade da população brasileira, que acredita que o novo coronavírus é criação do governo chinês; 22,5% acreditam que a Terra é plana; 56% acreditam que os hospitais recebem dinheiro para aumentarem artificialmente os números da COVID-19; e que 62% dos brasileiros não confiam na grande mídia e usam outras fontes de informação.
Os números são assustadores e mostram o amplo esgarçamento das redes de confiança que mantêm a sociedade unida e estável. As grandes crenças nos valores científicos e democráticos estão ruindo, dando lugar à cultura do “eu acho”, “eu quero”, em uma crescente identificação da população com o perfil autoritário de liderança semeado longamente na última década através de figuras exóticas que obtiveram exposição exacerbada por essa grande mídia que sem dúvida participou do processo da qual ora é vítima.
Assim, muito mais que um fármaco, a cloroquina é a porta-voz de um complexo movimento de comunicação com a sociedade que tem o objetivo de, sob o apelo de uma doença incomumente contagiosa e letal, impor o modelo de soluções simples baseadas em crenças individuais, contrapondo-se a um modelo de conhecimento (a ciência e seus métodos) que prima pela filtragem rigorosa de todo e qualquer componente ou viés pessoal na construção de suas verdades. Tal movimento, como disse acima, reforça a cultura do individualismo pelo qual os menos favorecidos, carentes de formação cultural e política, identificam-se com o perfil autocrático de Bolsonaro e seus seguidores.

O imbróglio político-sanitário

Advertência: o texto abaixo reflete a opinião do autor e não pretende monopolizar qualquer verdade, e sim, através da experiência pessoal vivida, contribuir para o debate e a compreensão dos temas abordados. Críticas aos argumentos são bem-vindas, críticas pessoais nem tanto, para os fins desta matéria.
Vamos sintetizar alguns pontos para melhor compreensão do debate em torno da atuação da ANVISA no campo das vacinas contra a COVID-19.
1) A Rússia começou mal com a Sputnik-V. Fez o registro em sua agência sanitária sem testes de fase 3 e propagandeou isso pelo mundo na voz de Putin. Aliás, o próprio nome Sputnik resgata a simbologia da guerra-fria. Mau caminho.
2) A Rússia não tem sido transparente, na voz do Instituto Gamaleya e isto vem sendo apontado em diversos locais.
3) A Rússia nunca foi um exemplo de transparência. Mas apontar a falta de transparência com base na negativa de se fiscalizar, filmar, fotografar e interagir com todo o aparato técnico-industrial do Gamaleya não me parece honesto. Duvido que qualquer indústria de biotecnologia compartilhe de boa vontade todos os detalhes de seus processos.
4) Foi relatada a presença de adenovírus replicante na Sputnik-V. Fato.
5) Tudo isto faz da vacina Sputnik-V uma vacina ruim? Aparentemente não. Até o momento, pelo menos por parte de Argentina, Chile e México, para nos atermos aos vizinhos mais próximos, não foram reportados efeitos adversos importantes desta vacina. O que podemos afirmar sem muita margem para equívocos é que os moldes técnicos e comerciais da Rússia não se amoldam aos do lado de cá, por sua vez, muito guiados por políticas do FDA, não necessariamente os melhores se examinarmos os problemas que os EUA enfrentaram com fármacos nas últimas décadas.
6) O que eu penso sobre a Sputnik? Penso que é uma vacina no mínimo tão boa quanto qualquer outra. Não fosse assim, já saberíamos pela quantidade de doses já aplicadas no mundo. Se eu tomaria esta vacina? Sim.
Sobre a ANVISA
1) A ANVISA é um órgão de estado com poder e dever de regulamentar tudo aquilo que se refere ao mundo sanitário de nossa República, com poder de polícia.
2) A ANVISA adota parâmetros técnicos rigorosos e tem um corpo técnico altamente experiente e qualificado.
3) O conjunto de normas e regulamentos é fruto de escolhas de humanos organizados em coletivos, e portanto, é uma instância política que usa a ciência como ferramental de trabalho, como deve ser. Mas a ciência não faz escolhas, ela informa sobre o melhor conhecimento disponível. As pessoas fazem escolhas.
4) A ANVISA, infelizmente, não é uma agência independente, como se desejaria. Ela sofre pressões políticas e administrativas de seus dirigentes, indicados pelas instâncias políticas eleitas pelo voto popular. No momento, a ANVISA é presidida por uma indicação pessoal do Presidente da República, no caso, e de forma inédita, um militar e fanático religioso, sem experiência no campo sanitário. Não há que se duvidar que lá está para cumprir um papel político e prestar contas ao seu chefe.
5) Até hoje, o Brasil não enfrentou, desde o nascimento da ANVISA, uma catástrofe sanitária do porte da pandemia de COVID-19. Assim, enquanto “exército”, nunca enfrentou uma guerra. E a pautar-se pelos regulamentos elaborados em tempos de paz e para a paz, não está preparada para a guerra.
6) A ANVISA acerta sempre? Tem o monopólio da verdade? Seus regramentos oferecem sempre o melhor para toda a sociedade? Como médico atuante, penso que nem sempre, com todo o respeito pelo patrimônio já construído.
7) A ciência acerta sempre? Tem solução para tudo? Evidentemente não. A ciência só responde ao passado, sobre o que já foi feito e estudado. Há situações onde o futuro demanda respostas que a ciência pode no máximo prever com alguma margem de precisão. Prova disso é que muitos medicamentos e produtos médicos desenhados e aprovados por agências reguladoras foram retirados do mercado depois de caírem no “mundo real”, algo bem maior do que o pequeno campo de provas que fomenta a informação científica. Uma coisa é testar alguma coisa em 30.000 casos ou pessoas. Outra coisa é o produto cair no mercado de milhões de consumidores. Então, as agências falharam ao autorizar produtos que depois foram banidos? Não. Fizeram o certo. Aprovaram com a informação DISPONÍVEL no momento da aprovação e perseguiram resultados posteriores com a VIGILÂNCIA.
😎 A ANVISA criou problemas só para a Sputnik-V? Não. Todas as vacinas que fizeram submissões não obtiveram o resultado positivo de início. Isto causa estranheza, pois, instituições como o BUTANTAN certamente sabem como fazer a requisição. As sucessivas idas e vindas mostram que algo não dá certo na comunicação da ANIVSA com as indústrias.
9) A ANVISA errou com a Sputnik? Tecnicamente penso que não, mas politicamente sim. Alegam falta de informação. Ora, com falta de informação hábil o correto é a REJEIÇÃO “DE PLANO”, ou seja, sem análise de mérito. A ANVISA fez análise de mérito com informação incompleta.
10) A presença de vírus replicante é justificativa para a rejeição? Ao meu ver, em se tratando de um adenovírus humano conhecido que será injetado em território diferente de seus alvos naturais, não representa ameaça significativa à saúde humana, o que se verifica pelo fato de não haver relatos de efeitos adversos importantes em milhões de vacinados.
11) O que deveria ser feito? Na minha modesta opinião, já que no documento oficial da ANVISA consta o termo “NÃO RECOMENDAMOS A IMPORTAÇÃO”, a vacina deveria ser importada por quem se interessar, pois “não recomendação” não significa proibição. Só não se pode fazer o que a lei proíbe, no estado democrático de direito. Eu importaria a vacina e a submeteria a um estreito programa de vigilância farmacológica, produzindo assim os estudos e informações que talvez os Russos, por excesso de confiança no seu produto, ou por terem uma política de segurança mais frouxa que o FDA (que norteou a ANVISA).
12) Devemos confiar na ANVISA? Sim, mas não como bem absoluto e sagrado. Certamente, para o momento que vivemos, a ANVISA vem trazendo atrasos a problemas mais que urgentes. Se certos procedimentos no momento representam RISCOS, o atraso representa MORTE CERTA, e como disse anteriormente, a ANVISA não tem protocolo de guerra, só de paz.
13) Por último minha sentença de condenação à ANVISA. Enquanto poder de polícia sanitária, a ANVISA deixou de cumprir o seu papel na CENSURA PÚBLICA, VEEMENTE, acompanhada de INTERDIÇÃO dos poderes da República que promoveram, propagandearam e comercializaram o KIT COVID, que certamente produziu prejuízos irreparáveis em termos de VIDAS, custos pessoais e danos aos sistemas de saúde do Brasil, constituindo-se como o maior crime sanitário de nossa história.
Conclusão:
“Tudo é física. O que não for física, pertence ao campo da política”. (o autor)
“That’s all physics. If it’s not physics, it’s about politics”.