por Mauro Nadvorny | 25 fev, 2020 | Comportamento, Israel
Durante um par de milênios o povo judeu levou a pátria pendurada nas retinas da memória; implícita em qualquer projeto de futuro; locatária vitalícia dos sonhos de todos e de cada um. Ano que vem em Jerusalém era a consigna unânime, o desejo explícito, a esperança sempiterna.
Com a fundação do Estado de Israel num tempo em que as feridas do Holocausto ainda sangravam em todas as manchetes dos jornais e no peito aberto do povo de Israel, essa pátria virtual transformou-se em algo tangível, no chão nosso tão cantado e esperado, e pouco a pouco as preces foram transformando-se em campos semeados, e em ruas asfaltadas, e em largas avenidas, e em modernos hospitais, e em excelentes escolas, e em magníficas universidades, e em casas de oração para todos os gostos e para todos os povos, e o hebraico redivivo transformou-se no idioma comum a todos, servindo de ponte entre todas as ilhas culturais chegadas da longa e sangrenta diáspora.
Os sonhos milenares então, cansados de serem apenas sonhados, saíram a caminhar pelos campos e cidades, pelos vales e desertos, criando História a cada passo, gerando trabalho e riqueza em cada canto, reconstruindo o futuro a cada dia.
Sim, era nem mais nem menos do que a tão desejada normalização do povo judeu na sua terra de origem.
Hoje, entretanto, neste primórdio do terceiro milênio cheio de mortos inocentes e de culpas mútuas e de sonhos fuzilados e de promessas não cumpridas e de ódio recíproco e de sangue derramado em vão e de desejos de vingança sem sentido, alguns fundamentalistas religiosos judeus, e outros poucos fanáticos laicos da extrema-direita judia, esquecidos da partilha da Palestina e da fundação do Estado de Israel e da renúncia a qualquer reivindicação territorial com a única exceção de Jerusalém, tentam descaracterizar e apossar-se dessa pátria de todos, transformando-a num gueto próprio, num simples degrau da grande “pátria” bíblica dos contos de fadas, pondo em perigo mortal – com tal atitude – a esse pequeno, único e insubstituível referente do povo judeu, que é o Estado de Israel.
A todos aqueles que ainda cultivam nos seus sonhos e orações a grande Israel que jamais existiu, fica-lhes apenas a alternativa de aceitar a realidade e trocá-la na prática pelo único e possível Israel (o Estado das fronteiras de 1967 retocadas de comum acordo com os palestinos, e a transformação de Jerusalém na capital indivisível de dois povos e dois Estados), ao mesmo tempo em que poderão mantê-la dentro do universo memória, da prece e da fé, tão grande quanto o desejarem, porque caso contrário, se insistirem em insurgir-se contra o desejo da maioria do povo judeu, chegando até a apontar armas contra o exército e/ou incitando ao assassinato das lideranças democraticamente eleitas, transformar-se-ão – ainda que não seja esse o seu desejo – nos verdugos do Estado de Israel.
Tomara a sensatez seja a dona e senhora da última palavra.
Bruno Kampel, Suécia, 2005 e em plena vigência em 2020.
por Mauro Nadvorny | 25 fev, 2020 | Israel, Oriente Médio
Quando não se sabe identificar o verdadeiro inimigo, ocorre o que acontece sistematicamente com a direita judia: transforma a todos os adversários ideológicos em inimigos, e então o cético passa a ser antissemita, e o crítico vira nazista, e o humanista transforma-se em traidor.
Sim. A direita política intolerante e caolha que hoje até convida os soldados de Israel a desobedecer as ordens da superioridade e abster-se de participar na eventual desocupação dos assentamentos ilegais, e os seus sócios religiosos fundamentalistas que pela boca dos seus rabinos (pisquéi halakhá/decretos divinos) “sentenciam” que as terras são “nossas” e que os árabes são invasores que devem ser expulsos (transferidos a outros países), consideram que:
Quem acusa a Netaniahu e seu “entourage” de haver traído com palavras e com atos o espírito e os princípios sobre os quais se fundou o Estado de Israel, é antissemita.
Quem se opõe a que se anexem os territórios ocupados na Guerra de 1967 (única das guerras desde a criação do Estado que foi iniciada por Israel), exigindo a retirada dos mesmos (com os necessários retoques cosméticos de fronteira e um status especial para Jerusalém), é antissemita.
Quem protesta frente às tentativas dos fundamentalistas fanáticos judeus de acabar com o atual Estado de Israel para em seu lugar erigir o inviável Israel bíblico dos contos de fadas, é antissemita.
Todo judeu ou gentil que repete o que disseram os fundadores do Estado de Israel (que a soberania é humana e não divina, e que ao aceitar a partilha da Palestina fecharam-se as contas com o passado no que a território se refere) é antissemita.
E é assim que amigos fieis do povo judeu e do Estado de Israel como Mario Vargas Llosa, e judeus do porte de um Daniel Barenboim ou de um Iossi Beilin ou de um Shlomo Ben-Amí ou de um Itzhak Rabin, e movimentos progressistas/humanistas – alguns multitudinários como Shalom Achshav/Paz Agora, e outros menores porém igualmente humanistas, como B’Tselem ou Iachad (Méretz) – são ou foram acusados de quinta-colunistas; de inimigos do seu próprio povo, sendo que um desses próceres (Rabin) caiu vítima de um revólver carregado com os discursos inflamatórios (hassatá pruá, em hebraico) da direita e extrema-direita israelense, com Benjamin Netaniahu (atual primeiro-ministro) como seu maior expoente e estandarte).
Essa direita que não economiza palavras para acusar os suicidas palestinos de terroristas (o que de fato são), e a muitos líderes religiosos muçulmanos de incitar à destruição de Israel (o que de fato acontece), mas cala e olha para outro lado quando o governo de Israel bombardeia seletivamente mas mata coletivamente a muitos inocentes por cada culpado, ou cala num gesto de cumplicidade quando tantos líderes religiosos ou não mas todos eles fundamentalistas judeus, exigem a expulsão de três milhões de palestinos das suas casas decretando como mitzvá (obrigação moral) de todo judeu praticante a ocupação da terra dos outros, ou exigem peremptoriamente que os palestinos suspendam a luta contra a força ocupante (definida e permitida pelas Convenções de Genebra assinadas por Israel), mas se omitem na hora de exigir a Israel que cumpra com as resoluções 224, 338 e seguintes do Conselho de Segurança das Nações Unidas que, com a assinatura incluída dos Estados Unidos, determina que Israel deve abandonar os territórios “conquistados” em 1967.
É por isso que todas essas campanhas publicitárias orquestradas pelo governo de Israel e implementadas nas satrapias da diáspora, transformam-se em bumerangue, pois geralmente a realidade não demora muito para desmentir a propaganda, aumentando assim o grau de desconfiança e desconforto dos amigos de Israel por um lado, e o antissemitismo dos inimigos pelo outro.
Enquanto a direita israelense, associada aos fanáticos religiosos, procurar demonizar a todos os judeus que não aceitam suas premissas como se elas fossem “torá mi sinai” (as tábuas da lei), a fratura dentro do povo judeu será cada vez mais difícil de consolidar. E isso, que ninguém duvide, atende aos interesses dos antissemitas, porque a História ensina que um povo dividido pelo ódio é presa fácil dos seus inimigos.
Bem fariam, portanto, os apologistas do tudoparanósnadaparavós se contratassem gente que entende do “metier”, para que a sua “defesa” dos interesses de Israel não produza o resultado contrário ao desejado, como vem acontecendo com excessiva freqüência. Existem bons e sérios argumentos para utilizar, sem necessidade de tirar da cartola acusações sem fundo, porque como bem diz o ditado, a mentira tem pernas curtas.
Proibido esquecer – na hora de sair em defesa do atual governo de Israel – que para o mundo (e não sem parte de razão) Israel é o agressor, já que a ocupação é a alma mater de quase toda essa dor. O mal chamado povo palestino – é bom lembrar – não era o inimigo a derrotar, já que o governo jordaniano era o alvo. E curiosamente por um lado, após o fim dos combates firmou-se a paz com esse governo, e desgraçadamente pelo outro, o preço dessa paz inter pares o está pagando o mal chamado povo palestino, sendo que o troco desse pagamento o recebe a gente inocente em Israel quando é explodida dentro de um ônibus ou enquanto come um faláfel na porta da escola.
Espero e desejo que ninguém se apresse a tirar conclusões sobre nada do que escrevi. Peço que primeiro comparem o dito com o ideário da esquerda israelense em particular e com o discurso moderado das forças humanistas em geral, e também com o que disseram os fundadores do Estado em relação aos pilares sobre os quais deve repousar um Estado de Israel livre, laico, soberano e democrático.
Finalmente, peço a todos os judeus que – por favor – não esqueçam que Israel se encontra perto das portas que conduzem a uma guerra fratricida. O fundamentalismo religioso mais extremista e o fundamentalismo político de igual teor dispõem de armamento pesado e, o mais aterrador de tudo, ambos fazem gala de uma declarada disposição de usá-lo inclusive contra o exército de Israel.
De uma coisa temos todos que estar muito, mas muito cientes: ou somamos, ou sumimos.
por Mauro Nadvorny | 22 fev, 2020 | Brasil, Comportamento, Imprensa, Política
Um ano atrás, segundo turno chegando e eu fazia um vídeo onde contava a fábula do escorpião e o sapo. Em resumo, o sapo não acreditou que a natureza do escorpião pudesse falar mais alto.
Eis que a Folha de São Paulo nesta semana, publica um editorial onde em resumo, nos dá a entender que não acreditou na natureza do Bolsonaro. Achavam que ele como presidente honraria o cargo, deixaria de ser misógino, racista, homofóbico, extremista de direita, e passaria a respeitar a imprensa.
Ora, sejamos francos, vocês da FSP não podem ter sido ingênuos a este ponto. Vocês sabiam exatamente o que estavam fazendo quando apoiaram o golpe contra a Presidenta Dilma, elevaram o Temer a presidência e apoiaram este que agora lhes dá uma banana por dia em praça pública e xinga sua repórter no nível de uma roda de bêbados nos confins do Brasil.
Por uma suposta ilegalidade que se mostrou uma completa farsa, vocês pediram o Impeachment da Dilma. O que está faltando para vocês começarem a mesma campanha contra Bolsonaro. A total falta de decoro para o cargo que ocupa, envergonhando a todos os brasileiros parece que não é suficiente. O país sendo governado aos trancos não importa. A falta de apoio político no Congresso não lhes diz respeito. A humilhação a que ele submete a imprensa e seus repórteres vocês respondem com editoriais de lamentação e o nomeiam “chefe de um bando”. Façam o favor, tenham vergonha na cara!
É lamentável que não tenham aprendido com a história. Tudo o que a ditadura fez com a imprensa não lhes ensinou nada sobre o que significa uma imprensa livre em uma democracia. Ninguém deveria estar acima da lei, mas este Bolsonaro como presidente, assim se sente e vocês contribuem muito para isso. Quanto mais ele os defenestra, mais vocês se submetem.
Para sorte de vocês chegou o Carnaval. Ao menos por uma semana vão poder se lavar das bananas que receberam. Tomara pudessem aproveitas estes dias para fazerem também um exame de consciência e terem a decência de se posicionar ao lado do povo brasileiro, saindo de uma vez, desta fantasia corporativista que tão bem os protege.
O Brasil vai parar para a folia do Carnaval, mas a falta de decoro deste presidente promete não silenciar. Não deve nos dar sossego nem mesmo neste feriado e a qualquer momento virá mais uma barbaridade.
Por enquanto deixo com vocês aquela marchinha antiga que não me sai da cabeça nestes dias, “Doutor, eu não me engano, o Bozonaro é Miliciano”.
Bom carnaval a todos.
por Mauro Nadvorny | 22 fev, 2020 | Brasil, Justiça, Política
Para completar a “semana jurídica” onde tivemos o juiz federal Bretas (RJ) adulando Bozo em cerimônias públicas, o que fere o código da magistratura, e Moro jogando Lula no alçapão da lei de segurança nacional (até onde sei a PF rejeitou a queixa), a presidenta da 1a. câmara do TRT Região 15, Dra. Olga Aida Joaquim Gomieri disse ser ‘fãzona’ do presidente, que ‘está brilhando’, ‘com muita garra’, fato que foi filmado em plena sessão de julgamento, algo que em uma visão nem tanto alargada fere também o código da magistratura além de ferir o princípio constitucional da impessoalidade na função pública e da isenção na jurisdição.
Não há muito tempo, a desembargadora Dra. Marilia Castro Neves, do RJ, ofendeu gravemente Marielle Franco, acusando-a de ser “engajada com bandidos”, o que lhe valeu a condição de ré por crime de caúnia.
A densidade crescente de maus comportamentos de magistrados, sua ousadia, e a natureza das lesões aos códigos públicos, à Constituição e a qualquer código de ética de um regime democrático de direito, mostram que está em curso uma verdadeira epidemia de algum tipo de desordem cognitiva caracterizada pela incapacidade de compreensão e adequação de comportamentos e instintos atávicos dessas senhoras e senhores.
É claro que o número de ocorrências deste tipo que vêm a público não é em si mesmo alarmante. Mas temos que considerar, como em qualquer dinâmica sócio-cultural, que a aberração que chega à observação plena da sociedade é um mero sintoma de uma condição subjacente de dimensões difíceis de se avaliar.
Como exemplo comparativo, o recente episódio do ex-secretário da cultura do governo federal entoando Goebbels ao som de Wagner postado em imagem rigorosamente construída à semelhança do regime nazista é também sintoma do aparato ideológico subjacente que criou todas as condições para que aquilo ocorresse, o que envolve um grande número de pessoas dos mais variados níveis hierárquicos.
E se temos que nos lembrar do passado nazista, temos que também lembrar que a máquina nazista apoiou-se fortemente no judiciário alemão da época. Em outras palavras, toda a construção nazista foi feita rigorosamente dentro da lei e julgada inocente.
Para muito além do caráter picaresco ou ridículo das cenas que vimos observando, o cenário mostra que pessoas investidas do poder de dizer à sociedade o que é certo e o que é errado, o que é legal e o que é ilegal, o que é criminoso e o que não é, estão com seus sistemas internos de pesos e contrapesos bastante desregulados, o que é um risco gravíssimo à democracia, o que não é tão novo. Talvez a Operação Lava-a-Jato possa ser mesmo vista aos olhos da história como verdadeira inauguração de era.
por Mauro Nadvorny | 21 fev, 2020 | Poesia
Gostar…
Palavra tão profunda, tão densa
Do que gosto, não tenho medidas
Gostar é coisa de momento
De tesão
De sentimentos
Eu gosto da vida
Gosto da arte
De permitir que em fumaça se dissipe o verde
Para então, conseguir vislumbrar Marte
Eu gosto de sonhar
E navegar em mares desconhecidos
Gosto da luta, porque nela me sinto útil
Da cevada em espuma, que transforma tudo em poesia
Enfim, gostar é saber guardar um amor que se foi
Sem se lamentar
Gostar também é amar sabendo que não é pra agora
Nem pra amanhã
Gostar é manter-se vivo
Na mais pura essência de ser!
por Mauro Nadvorny | 21 fev, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Quando eu soube que o Mauro Nadvorny havia criado este novo e muito importante espaço na internet destinado à voz da Esquerda Judaica, e estava convidando outros ativistas a produzir para este juntamente com ele, me perguntei sobre como eu poderia colaborar. Refletindo sobre isto, e levando em consideração que já escrevo artigos e gravo vídeos para outros jornais e canais da Resistência Brasileira, surgiu-me a ideia de produzir aqui textos mais espontâneos, que relatem passagens interessantes ocorridas aqui na Europa (vivo em Hannover, Alemanha), ou opiniões menos analíticas e minuciosas, e mais despretensiosas e instintivas.
Vamos ver no que dá?
Pois bem, hoje eu gostaria de contar a vocês sobre o “desafio” que enfrento todas as vezes que procuro descrever a um alemão (ou a algum europeu de modo geral) a respeito da absurdez dos fatos que ocorrem no campo político do Brasil hoje em dia.
Quando estou em vias de começar a explicar a colegas sobre algum evento brasileiro, já suspiro, pois sei o que me espera. Além dos choques culturais que nunca permitirão que um europeu compreenda que movimentos políticos inventariam e promoveriam mentiras tão baixas como “kit gay” e “mamadeira de p…”, há também no cidadão do velho mundo uma completa incapacidade de assimilar alucinações em um nível que – aparentemente – só ocorrem no Brasil. “Jesus na goiabeira”, “menina de rosa, menino de azul”… É demais para os gringos. “Empregada doméstica ia à Disney”… Eles nem ao menos sabem o que é empregada doméstica (e nem o que é a neo-escravidão ou escravidão moderna).
Desta forma, após algumas tentativas desesperadas de relatar a colegas sobre os inacreditáveis eventos que começaram a se intensificar no Brasil em 2018, desisti de tentar “impressioná-los”. Escrevi entretanto uma formal carta aberta, lida em público na Universidade de Música de Hannover (onde sou professor e pesquisador), carta esta que continha as declarações mais palpáveis do atual presidente (“negros pesados por arroba”, “não te estupro porque você não merece”, “filho gay é melhor morto” e por aí adiante). Esta carta pareceu surtir algum efeito nos ouvintes. Ainda assim, meu trabalho de conscientização do povo daqui sobre o terror que o Brasil vive, é realizado a passo de formiguinha. Mas sigo em frente, pois sei que não haveria de ser diferente.
Enfim, no mês passado, decidi contar aos colegas o mais recente “causo” brasileiro, afinal este teve tudo a ver não somente com a história dos judeus, mas com a dos alemães também. Dispus-me então a explicar que o então Secretário de Cultura, escolhido pessoalmente pelo presidente, havia se filmado proferindo um discurso copiado de Goebbels de forma praticamente literal.
O rosto de meus colegas sugeria que por suas cabeças passava algo do tipo:
-“Acho que o Jean está gozando de nossa cara… Ele acha que somos bobos de acreditar em algo assim?”
Acrescentei então que no cenário do vídeo, cuidadosamente preparado, havia também a foto do Führer brasileiro e a bandeira nacional, exatamente como mandava o figurino hitlerista.
-“Talvez o Jean esteja confuso… Deve ter sido um vídeo de sátira, um esquete… E o Jean provavelmente não saca nada de comédia…”
Prossegui e relatei a cereja do bolo, mencionando que a trilha sonora era a música de Wagner.
-“Ah, o Jean está querendo impressionar a gente, pintando o terceiro mundo como um lugar selvagem, onde políticos podem emular Hitler em plena luz do dia…”
-“Nem o Trump (este nós conhecemos!), que é completamente lunático, fez coisas assim… Todas estas histórias que o Jean nos conta são meio mal contadas…”
-“Além do mais, o Jean é judeu, sul-americano e artista! Com esta combinação, dá para esperar histórias doidas mesmo!…”
Bem, ninguém me disse nada disso, mas é a impressão que tive, rs. Só ficaram me olhando com uma expressão de ponto de interrogação misturada a um ceticismo do estilo “essas histórias não pertencem ao nosso mundo”.
Diante da reação deles, acabei sorrindo/rindo de maneira genuína, mas ainda assim um pouco irônica e desesperançosa. Posso culpá-los por não entender o que ocorre no mundo paralelo e distópico que é hoje o Brasil? Talvez um pouco, pela conhecida alienação “primeiro mundista”. Mas não muito, afinal, a realidade do país de fato não é crível. Parece um pesadelo maluco todos os dias.
Enfim, eu já devo ter escrito isto em algum outro texto, mas cabe escrever aqui novamente, já que estamos falando de europeus, judeus, nazistas, distopias, incompreensões, etc. Sempre penso muito em Stefan Zweig, tanto por ser um de meus pensadores preferidos, quanto por questões pessoais que fazem com que eu me identifique muito com ele. Pois bem, em 1941 ele escreveu o livro ‘Brasil: Um país do futuro’. É um livro que julgo “problemático”, com traços da ingenuidade e da incompreensão europeia sobre o Novo Mundo. Ainda assim, há nele pontos reais, foi escrito por uma grande mente, e fez com que por muito tempo perguntássemos a nós mesmos se a premissa seria verdadeira em algum momento.
Pois é, hoje o Brasil caminha em direção à sua consolidação como a capital mundial do Neonazifascismo. Parece que a intuição de Zweig estava mesmo muito errada. E espero de coração que os europeus – e todos os estrangeiros do mundo – comecem realmente a compreender o que está ocorrendo no Brasil e ajudem a Resistência Brasileira nesta luta que está sendo perdida. Afinal, em breve será tarde demais. E os “causos” que hoje conto por aqui serão compreendidos no futuro apenas como antigas passagens de uma irreversível história de destruição.