por Mauro Nadvorny | 24 abr, 2020 | Crônica
Se as palavras são prata, o silêncio é ouro. Essa frase integra a sabedoria mundial, pois o silêncio é essencial. Já numa análise é preciso também uma atenção que flutue mesmo em tempos de atendimento por watts. Escutar quem fala de forma descontraída, sem impor, nem interromper. Aprender a escutar é um desafio e tanto, mas só assim se pode irromper uma palavra-chave. Um exemplo ocorreu quando um amigo falava de suas dificuldades e de como, às vezes, ficava desesperado. Num momento da conversa, reagindo a algo relacionado à palavra “fundações” de uma casa, ele acrescentou a palavra alicerces. O alicerce é o maciço de alvenaria, sobre o qual se assentam as estruturas externas de uma construção. O alicerce foi como um “Abra-te, Sésamo”, porque começamos a falar dos alicerces da personalidade. Alicerces podem ser pensados como as identificações com os progenitores, por exemplo.
Tem pais que não acreditam muito em si mesmos e não passam confiança, segurança aos filhos. Então, eles podem desenvolver uma baixa autoestima, ter alicerces pouco seguros. Ao contrário, quando os filhos se sentem mais amparados, mais festejados, adquirem mais confiança. Quando os alicerces não são bem construídos nos primeiros anos, isso pode criar dificuldades, mas eles podem ser edificados ao longo da vida. Quando escutei a palavra “alicerce” percebi que ela me tocou, e disse ao amigo que aí estava uma palavra essencial. Ele conectou a palavra “alicerce” a como sua casa da infância, ao ser reformada, ficara pela metade. Não completaram os alicerces da obra, seus pais se desentenderam, e aí se abriram as portas de histórias meio esquecidas.
Às vezes, uma frase toca a alma, não como alívio, mas como um maltrato. O neurologista escritor Oliver Sacks, em seu livro autobiográfico “Sempre em movimento”, nunca esqueceu uma condenação de sua mãe. Ela, ao saber que ele tinha inclinações homossexuais, disse: “Quisera que você nunca tivesse nascido”. Essa frase o perseguiu por anos, e às vezes essas palavras sangravam no jovem Oliver. Tentou entender o conservadorismo de sua mãe, e no final da vida pôde se aliviar e ainda ser grato a ela pelo que fez de bem a ele, bem como ser grato a seu pai e à vida em geral. Precisou de quase meio século de tratamento psicanalítico, mas conseguiu escrever, trabalhar, amar.
Poucas passagens do Hamlet de Shakespeare me tocaram tanto como a conversa entre os amigos e o príncipe no III ato, cena 2 da peça. Os amigos foram enviados pelo rei para investigar o que sabia Hamlet sobre o assassinato de seu pai. Este percebe que eles desejavam extrair dele seus segredos. Então, ao escutar o som de uma flauta, o príncipe propõe a um deles que a toque, e este disse não saber. Hamlet insiste dizendo que é fácil, e, frente a nova recusa, exclama: “Pensais que sou mais fácil de tocar que uma flauta?”. Tocar a alma de alguém, deixar-se tocar em sua alma, é essencial nas relações humanas. Ser grato aos que somam na vida faz bem e assim aceitar que a gente é uma pessoa por meio de outras pessoas.
Criar um clima descontraído numa conversa facilita a difícil existência. Por exemplo, numa análise, a pessoa vai descobrindo alguns dos mistérios da história dos seus desejos. Na análise, como numa odisseia, vai-se em busca de aprender quem se é e como se amar e amar. A viagem é atravessada por desejos inconscientes, as identificações, o ontem, hoje e amanhã. Há muito para se conhecer, e as viagens para seu interior requerem tempo e paciência. Aos poucos se pode mudar um ponto de vista marcado pelo peso para uma visão com mais leveza. A palavra “alicerce” ajudou esse amigo a revisar sua história e assim ver mais claro a existência. Um dia estava limpando os vidros de meu carro e um analista ao ver disse: “Querendo ver mais claro”. Essa frase me tocou, na verdade foi uma boa interpretação. Enfim, o título no gerúndio “Aprendendo a escutar” é porque na vida se aprende sempre; a não ser os que pensam já saber tudo.
P.S. Dia 26 domingo, às 16 horas, farei a última live sobre o “Humor é coisa séria”.
por Mauro Nadvorny | 23 abr, 2020 | Comportamento
O problema com Bolsonaro é que ele age como um ioiô : ele vem e vai ,sempre criando polêmica e fazendo provocações , com suas bravatas.
As pessoas caem como patinhos .Perdem seu precioso tempo discutindo os disparates que ele diz ou ameaça fazer.
No dia seguinte, Bolsonaro pede desculpas para ,em seguida, fazer novas provocações ….
São versões da mesma ladainha.
Será que Bolsonaro quer acabar com a Democracia?
Faz sentido ,que Bozo queira acabar com a Democracia , regime no qual ele vem se elegendo regularmente há trinta anos?
E não apenas isso: seus três filhos também foram eleitos ,dentro da Democracia!
Bolsonaro precisa alimentar seus apoiadores mais fiéis e fanáticos, dizendo- lhes o que amam escutar: ” Vamos promover outro AI 5, acabar com STF ,etc….”
Bozo faz sua encenação : os bolsominions aplaudem e ficam felizes….
Parte grande da oposição e das esquerdas ficam indignadas.
Bozo pede desculpas….
Nada acontece.
Enquanto isso Bolsonaro, vai destruindo toda a organização do país e vai transformando o Brasil num tipo particular de Democracia caricata e caótica, algo dantes nunca visto.
Enquanto a maioria continua ,fixada em experiências passadas de ditadura militar, Bolsonaro vai gestando seu faroeste, miliciano tupiniquim!
Para enfrentar Bolsonaro a oposição e as esquerdas precisam perceber a particularidade e a novidade, implícitas no ” Projeto “.do Bolsonaro.
Enquanto os opositores de Bolsonaro se deixarem iludir, afirmando que a situação atual é um repeteco do que foi 1964 (ou reprise de alguma ditadura conhecida) , continuarão dançando em círculo como tolos, tal qual mariposa em torno da lâmpada.
Um diagnóstico preciso é o primeiro passo para o sucesso do tratamento!
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Poesia
Voou como um pássaro
Naquela manhã de abril
Num tempo de restrições
Ela encontrou a liberdade
E não se deixou prender naquela cidade
Onde os sonhos sucumbem
E os sorrisos são esmagados,
Quando as dores transpassam os corações.
Mas, antes de voar, ela cantou sua fé
Também cantou o amor em forma de fado
E fez do fado um hino ao amor
Sobreviveu á sua dor
Fez do amor próprio, ferramenta de resistência
Ela era apenas um arquétipo do passado
Mas sempre soube sorrir
Apesar dos dias estarem nublados!
E naquela manhã de abril…
Ela partiu, voando como um pássaro.
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Brasil, Crônica
Às vezes ficamos um tempão sem nos encontrar com um amigo próximo, um poeta camarada, um músico que sempre esteve na raiz da nossa sensibilidade. Como se bastasse saber que eles existem, estarão sempre por perto, para cá do arco-íris.
Nas últimas semanas, parece que a Indesejada das Gentes resolveu sabotar o jogo gentil das presenças distantes. Levou de vez muitos passageiros desse barco tão espaçoso e que nunca cansei de ampliar. Pois se foram, de Tantinho da Mangueira a Manu Dubongo, de Ellis Marsalis a Lee Konitz, de Moraes Moreira a Rubinho Barsotti. Do Rubinho, baterista do Zimbo Trio original, lembro do programa O fino da bossa. O Zimbo acompanhava Elis Regina e Jair Rodrigues no palco da TV Record, biscoito fino que não se encontra mais, nem nas boas casas do ramo. Em 1968, lá estava Rubinho, junto com Luis Chaves e Amilton Godoi, tocando no show que reuniu, no teatro João Caetano, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro.
Insaciável, a Indesejada anda rondando Aldir Blanc, internado em estado grave para tratar de encrencas várias. Meu coração tijucano geme com ele. Aldir é cria da Grande Tijuca, se me permitem a gula imperialista de incorporar Estácio, Usina e Muda ao bairro da zona norte. Mãe generosa e opulenta, a dona Tijuca.
O Menino teve seu momento Usina. Cortado dos treinos de futebol de salão do clube Monte Sinai, foi convidado a jogar no time da fábrica Souza Cruz, na Usina. A quadra ficava no alto de uma ladeira sinuosa, cercada de mato pelos dois lados. Os treinos eram à noite, o caminho mal iluminado. Sem problema, a gente vivia tempos amenos, medo mesmo só do céu sem estrelas e das provas de álgebra. As coisas corriam bem, o Menino se adaptou à lateral esquerda e se podia considerá-lo titular. Um acidente ofídico cortou a carreira promissora. Correu à boca pequena que cobras tinham sido vistas atravessando a ladeira. Boato ou não, nunca mais apareceu por lá. Cobra, só aceitava o Dida. Eu, hem, Rosa !
Aldir é mais conhecido pelas letras primorosas das músicas com vários parceiros. É, no entanto, um senhor cronista. Quando soube disso, devorei todos os seus livros, impregnados pelo bairrismo que alegremente compartilho. Morar na Tijuca ou adjacências sempre foi sua opção de vida. Mesmo o bairro que foi se degradando, como aliás boa parte da cidade. Os bares com serragem no chão, os bebuns folclóricos, as referências visuais e afetivas, a fábrica da Brahma, tudo engolido e transplantado para as memórias. Dormiram ruínas, acordaram literatura.
Mesmo à distância, torço para que ele se recupere logo. Não vejo melhor forma de agitar minha bandeira torcedora na arquibancada – rubro-negra, para horror do vascaíno Aldir – do que dividir com vocês uma crônica extraída do livro Direto do balcão. Trata-se de Cura no ventilador. Para quem não sabe, Aldir é formado em medicina, com especialização em psiquiatria. Mas doutor mesmo ele é com as palavras. Volte logo, ô cara.
CURA NO VENTILADOR
Há perguntas das quais você não consegue se libertar. Costumo dizer que ninguém faz medicina impunemente. Problema meu. Agora, responder, nos últimos 20 anos, como a medicina influenciou as letras de música, puxa, é doloroso. Uma variante dessa pergunta é o “conta um caso engraçado que te aconteceu no tempo de médico”. Vejam vocês: eu passei por maternidades miseráveis, hospitais de subúrbio, prontos-socorros sem recursos, enfermarias psiquiátricas de fazer Dostoiévski dar um chilique … O que poderia acontecer de engraçado nesses lugares ?
Para que não me acusem de má vontade, escarafunchei na memória um tropeço que é a cara do sujeito, qualquer um, partindo para uma atividade nova.
Tive, depois de formado, um pequeno consultório (entre outros), na Praça da Bandeira, que poderia fazer parte do programa Sai de baixo, por causa do meu vizinho de sala. Era um ginecologista escrupuloso, obcecado por seu trabalho. Sabia dos riscos da profissão e era um puro, desses ginecos nelson-rodrigueanos, “como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro”. Invadia meu consultório sem bater, sentava-se num sofazinho preto e suspirava:
– Acabei de ver um mioma do tamanho de um abacate …
Isso não teria nada de errado se eu estivesse sozinho na sala. Mas geralmente eu me encontrava no meio de uma consulta. Vocês podem imaginar o efeito que uma frase explícita sobre ginecologia provocava em algumas pessoas sensíveis. E foi assim até o último dia de minha atividade naquela maldita sala quando fechei tudo e dei o fora, graças a Deus, para sempre.
Mas vamos contar, de preferência pela primeira e última vez, o “fato engraçado”. O consultório era modestíssimo, para não dizer pobre. Mesa, duas cadeiras, uma pia do tempo do onça. O sofá já descrito. Num verão de induzir pinguim a cortar os pulsos, coloquei um ventilador verde no chão, perto da porta, onde ficava a tomada. A paciente seguinte, uma primeira vez, moça delicadíssima, não pôde deixar de sorrir com a precariedade daquele artefato zumbindo no chão, sem sequer uma pequena mesa ou banco. Mas o ventinho, mesmo artificial, compensava. Trocamos um sorriso cúmplice. Ela me explicou que se considerava a mais desajeitada das pessoas. Tudo lhe caía das mãos e quebrava. Uma simples troca de objetos poderia provocar catástrofes tremendas.
Naquela época a “formação psiquiátrica” era a seguinte: você ficava de manhã apartando briga em enfermarias superlotadas sem remédios, fazia um “curso” obrigatório de noite na Escola Militar de Medicina, no Moncorvo Filho (a CIA havia tachado psiquiatria, no Cone Sul, de “assunto de segurança nacional”) e tentava abrir um consultório para exercer a papoterapia e ganhar algum. Era isso.
Voltando: a moça contava suas dificuldades quando a porta se abriu com violência e o ginecologista, aos gritos de “nunca vi nada pareci …”, tropeçou no fio do ventilador, voou feito o homem bala por cima da minha mesa e me atirou no chão de pernas pro ar.
A moça nunca mais voltou. Segundo seus familiares, ficou completamente curada.
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Brasil, Comportamento, Política
Hoje pela manhã reli em algum lugar a famosa frase de Winston Churchill: “A democracia é o pior regime que há, à exceção de todos os outros.”
Também li no blog do Reinaldo Azevedo que o assim dito “presidente” do Brasil comete todos os dias inúmeros crimes, e que nada disso provoca o menor incômodo no Procurador Geral da República, Augusto Aras, único cidadão no mundo com atribuição legal para iniciar um processo judicial por tais atos.
Lembrei-me de uma preocupação que me acometeu há uns 17 anos atrás, quando era Chefe de Gabinete recém-nomeado, da Secretaria de Segurança do Paraná.
Surgiu uma denúncia de que o Delegado Geral da Polícia Civil do Estado apresentava à instituição notas fiscais frias, para ser “reembolsado” de despesas que não fizera. Foi encaminhada ao Corregedor Geral, que detinha competência exclusiva para abrir sindicância em face daquela autoridade.
Novato na área, descobri que o Corregedor era cargo de confiança do próprio chefe da polícia, o denunciado. Escolhido e nomeado por ele, e por ele demissível ad nutum (sumariamente, sem necessidade de qualquer justificativa).
Nunca fiquei sabendo se o cara era culpado ou inocente. Nem eu nem ninguém. O Corregedor, que não era bobo, obviamente engavetou o caso.
Volto ao início. Concordo que a democracia é o que há de melhor. Só tem um problema, meio esquecido. O que é, exatamente, essa tal de democracia?
Comecemos pelo próprio Churchill, seu arauto, um defensor empedernido da mais cruel e abjeta opressão imperial exercida por seu país sobre inúmeros povos ao redor do mundo. Democracia? Pra quem, cara-pálida?
Mas não para por aí. Debrucemo-nos sobre aquela que é chamada de a maior e mais sólida democracia do mundo, a dos Estados Unidos da América do Norte. Sério? Ela é governada no dia de hoje – nada menos do que no dia de hoje!! – por um cidadão que recebeu, nas urnas, menos votos do que sua concorrente! Irrelevante? Não acho. Chamar de democrático um regime em que a maioria não governa, pra mim, é uma contradição absoluta. Mas ok, vá lá.
Podemos concordar que um dos elementos que faz parte da essência da democracia é a diversidade? E que, do ponto de vista do exercício político dela, cada ramo tem uma visão de mundo e de País? E que a melhor maneira de implementar tal visão é chegando ao poder, e que o melhor caminho para isso é um partido político?
Bem. Nos Estados Unidos da América do Norte só existem dois partidos políticos reais. Todos os demais, somados, são de tal forma insignificantes, que ninguém deles sequer ouve falar. Ora, é possível acreditar que a esmagadora maioria dos zilhões de pessoas que habitam um país daquelas dimensões e complexidade tenha apenas dois pontos de vista sobre o mundo e o seu país? Tem quem ache que sim. Eu, não. Pra mim, o que determina isso responde pelo nome de dinheiro. Poder econômico. Em uma palavra, manda quem pode, obedece quem tem juízo. A antítese da democracia.
Tem mais. É democrático ser o país mais rico de todos os tempos, e tolerar a existência, em seu território, de milhões de miseráveis destituídos dos mais elementares direitos de cidadania? Ou privar uma pessoa de assistência médica porque não tem meios de pagar (e são também milhões, mesmo além dos miseráveis)? Tem quem ache. Eu, não.
Não chega? Tá bom. É democrático um país que, por séculos afora, intervém militarmente em qualquer lugar do mundo onde um povo ou um governo não seja de seu agrado, matando, no processo, outros tantos milhões de pessoas, sem distinção de sexo ou idade? Respeito quem acha que sim. Mas eu, não.
Pra mim, o nome disso é hipocrisia. Simplesmente hipocrisia. Olhar, ver e fingir que não viu. Ou, pior, admitir que viu mas não achar importante.
E o Brasil? Nem vou me estender muito pra falar de um país que em 520 anos de história conta, somados, com menos de 50 nos quais conviveu com alguns (poucos) elementos democráticos. Quero apenas, e para ficar em um fato atual e marcante, chamar a atenção para o que disse Reinaldo Azevedo. Como chamar democrático um sistema no qual a única pessoa que pode levar o chefe de estado às barras da justiça é nomeada por ele? Considere-se a quantidade de arranjos e conchavos necessários para se alcançar tal nomeação.
Alguém já disse – e com razão! – que, enquanto projeto, o ser humano é o maior e mais espetacular fracasso da história.
Como espécie, somos monstruosos em uma escala espantosa. Não é possível ignorar isso minimamente, se se olha qualquer aspecto de nossa aventura terrena, mesmo que com um mísero fiapo de boa-fé.
Como seríamos, então, capazes de criar um sistema político cujos pressupostos são escancaradamente o oposto absoluto daquilo que nos constitui biológica, mental e culturalmente?
Democracia implicaria, entre tantas outras coisas impossíveis para o homem, em respeito à diversidade, liberdade para todos, honestidade, solidariedade, espírito público e generosidade. Alguém pode citar uma única sociedade e/ou um único momento na história humana em que – digamos – ao menos três entre esses elementos conviveram por um tempo razoável?
Cartas para a redação.
Eu não posso. E olha que – embora amador – sou um estudioso insaciável de história.
Então, deixemos de hipocrisia. Democracia não há, e nem nunca houve, em lugar algum. Ela é uma contradição intransponível com a própria natureza humana.
Essa é uma verdade, para mim, clara e insofismável.
Resolvi escrever sobre isso hoje porque a leitura da frase do Winston Churchill, mais cedo, foi a gota que transbordou o copo da minha paciência.
Vivemos sob a ditadura das “narrativas”. Ao mundo global hiperconectado pouco importam os fatos ou sua análise. O que vale é a imagem que se consegue instalar deles na mente do maior número possível de pessoas.
Há miríades de exemplos contundentes. Mas o propósito deste texto é focar em um deles, a meu ver dos mais graves.
O que pretendem aqueles poucos que exercem o verdadeiro poder global, e que não por acaso são os grandes capitalistas é, utilizando-se dos infinitos meios de comunicação de massa hoje disponíveis, fazer com que a humanidade aceite a mentira de que democracia é sinônimo de capitalismo. Ou seja, que sob qualquer outro tipo de organização econômica, nenhuma sociedade será verdadeiramente livre.
Trata-se de um embuste de proporções gigantescas. A existência ou não de democracia independe do sistema econômico sob o qual funciona a respectiva sociedade.
Nenhuma delas, capitalista, socialista, ou qualquer outra, é genuinamente democrática. Nem mesmo a anarquista, pretensamente a mais libertária de todas.
Essa constatação, a meu juízo, desloca o eixo do debate para outra direção, mais realista em relação às limitações humanas.
Considerando que absolutamente todos os regimes do mundo são, em alguma medida, e inevitavelmente, autoritários, qual o critério comparativo que se deve adotar entre eles para um melhor julgamento de suas virtudes ou defeitos?
Simples: a justiça.
Sob qual sistema econômico são melhor e mais igualitariamente garantidos os direitos humanos elementares dos cidadãos em geral?
A resposta não é nada fácil. Eu tenho cá uma opinião e muitas dúvidas. Acho que para a grande maioria é difícil definir qual é tal sistema. Mas, de minha parte, tenho certeza absoluta de qual não é. Justamente o capitalismo. Basta olhar.
por Mauro Nadvorny | 21 abr, 2020 | Comportamento, Crônica
Madrugada. As nuvens pesadas prenunciam chuva. As ruas caladas por falta dos transeuntes davam a sensação de abandono. Apenas um uivo longe de um cachorro solitário espantando os medos. Marcos debruçado sob a máquina de escrever, que era de seu avô, tentava redigir a crônica do domingo para o Jornal do Povo. Uma inquietude o atormentava, pois seu texto, mesmo com humor e trocadilhos, iria mexer com a intimidade do homem mais importante daquelas paragens. Dono de um latifúndio e rede de farmácias e supermercados. O homem era excêntrico e sua vida era marcada por muitos mistérios. Vivia sozinho, apenas um serviçal e dois pequenos lagartos eram suas companhias. Usava sempre a mesma cor cinza. Até sua casa suntuosa tinha essa cor dando ao lugar um ar de solidão e tristeza. Só em alguns dias e noite especiais, como natal, páscoa e dia de todos os santos ele contratava as floriculturas da cidade para enfeitar todos os cantos e recantos do jardim e da casa. As boleiras e confeiteiras eram levadas para a grande cozinha que ficava ao fundo da mansão e passavam a manhã inteira a fazerem bolos, doces e iguarias deliciosas para serem servidas as crianças de toda a cidade e redondeza. A cidade ficava em festa. Os presentes para a criançada era escolhidos com esmero e parece que ele adivinhava cada desejo e sonho de cada uma. Era mágico aquilo. Ninguém sabia explicar o milagre das festas e o lúgubre tempo de silêncio da mansão. Quando as crianças entravam tudo era lindo: brinquedos, piscinas, as iguarias, tudo perfeito. O homem ficava de sua sacada olhando toda alegria e folia da meninada e seu olhar sempre sério e frio ficava doce e terno. Parecia que certa juventude tomava conta dele e por pequenas horas ele se tornava vivaz e fagueiro. Era algo lindo de se reparar. Os comentários perduravam por dias e dias e o homem voltava para o seu mundo desconhecido. Apenas falava com os homens de sua confiança de negócios e nada mais. Nenhuma palavra. Nenhuma revelação. Marcos queria escrever sobre um fato que ouvira em um dos bares da cidade sobre o misterioso dono do “mundo”. Era assim que o chamavam. Os homens entre um carteado e outro, comentavam sobre uma noite de chuva que o haviam visto se dirigindo para o bosque que cercava a cidade e ao voltar carregava algo como se fosse um corpo em seus braços. Com tantos carros ele andava a pé. Era isso que estranhava e fomentava os fuxicos daquele lugar. E os longos e profundos gritos de dor que se ouvia dos muros daquele lugar de estranheza. A crônica seria sobre o imaginário mundo dos ricos, e, por recorte, ele escreveria sobre as esdruxulas manias do homem em questão. Mas sabia que correria o risco de ser cruel e sarcástico com alguém que pouco sabia e aparentemente era inofensivo. Mas abana a cabeça e inicia a escrita como sempre. Um fato espantador… O homem guardava em um porão a alma de sua filhinha e precisava das crianças para senti-la viva e correndo pelo jardim, assim diziam os homens daquele bar e caiam na gargalhada já embriagados pela cachaça caseira. Marcos fumou mais um cigarro e sem reler o seu texto leva-o ao jornal para divertir e provocar a curiosidade das pessoas que o acompanhava domingueiramente as suas crônicas cheias de picardias e poucas verdades. Era a sua marca. Verdades absolutas só em seus escritos nunca publicados em que caminhos eram cruzados de dor e abandono.
Gigi Pedroza