Nós somos a peste

Existe uma coisa mais perigosa que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem? (Yuval Harari)

Quando se fala em Primo Levi, a primeira associação que se faz é com o sobrevivente de Auschwitz, que se tornou cronista do campo de extermínio e das sequelas da guerra. Foi com surpresa que encontrei, num sebo de New York, o livro Dialogo. Trata-se da reprodução de uma série de encontros entre Primo e o físico italiano Tullio Regge, renomado especialista em mecânica quântica. Os dois conversam sobre o fascínio pela ciência, a sede interminável de descobrir a origem de tudo, o prazer estético da experimentação, o interesse comum pelo hebraico antigo (!), a literatura de ficção científica.

Como penetra naquele diálogo, tive especial interesse na parte da ficção científica. Criado a bordo da nave de Flash Gordon rumo ao planeta Mongo – que mais parecia um buscapé –, viciado nos filmes B que desembarcavam nos poeiras da Tijuca e pós-graduado no curso 2001: uma odisseia no espaço, li as especulações de Primo e Tullio sobre uma viagem a Proxima Centauri, estrela mais próxima da Terra depois do Sol.

Antes de mais nada, convém perguntar: para quê serve este tipo de especulação? Mesmo que o homem não complete o serviço antes, a Terra tem seus dias contados. Pelo nível de conhecimento atual, calcula-se que, em cerca de 3 a 4 bilhões de anos, o Sol sofrerá transformações radicais, que elevarão drasticamente sua temperatura e resultarão na evaporação completa de toda a água da Terra. A vida como a conhecemos será extinta, a esfera azulada ganhará tonalidade mortiça. Ninguém mais terá o privilégio de ouvir Bach ou ler Drummond. A solução para a humanidade seria colonizar corpos celestes, usando matérias-primas e fontes de energia presentes neles.

Tullio descreve, com razão científica e excitação colegial, o passeio até Proxima Centauri. Quarenta trilhões de quilômetros de estrada, equivalentes a quase 267 mil viagens ao Sol. Seria necessária uma nave descomunal, impulsionada pela energia de bombas de hidrogênio (daqui a uns trezentos anos, supõe o físico, controlaremos as explosões e a expansão da energia que daí resulta). Duzentas delas permitiriam que se alcançasse um por cento da velocidade da luz. Em modestos quatro séculos, a viagem estaria concluída. Os problemas deste tipo de deslocamento são monumentais e, hoje, insolúveis.

Em 1902, Georges Meliès imaginou a viagem à Lua através de um supercanhão. Era o possível na época. Menos de sete décadas depois, o primeiro homem pisava na Lua, usando uma tecnologia inimaginável para Meliès. Assim, o que hoje parece, no mínimo, improvável, pode se transformar em rotina pela ciência. Não há prazo de validade para a imaginação e as fronteiras do conhecimento são permanentemente fluidas.

O que aconteceria no Cosmos se o homem se espalhasse em poeiras de estrelas? Não duvido que, em pouco tempo, se organizasse a máfia dos anéis de Saturno. Lá, pelo que se sabe, há cerca de um milésimo de toda a água dos oceanos terrestres. Para ter acesso, as quadrilhas cobrariam pedágio. Em pouco tempo, multidões de sem-água vagariam desesperadas pelos desertos gelados de Júpiter.

Com a experiência acumulada pelos humanos na aniquilação de espécies, iniciada no século dezessete com os dodôs das ilhas Maurício, estariam ameaçados de extinção os incas venusianos e, se não tomassem cuidado, os rockymarcianos.

Todo tipo de preconceito se espalharia pela galáxia. A atleta Chú Santos, atacante do Palmeiras e da seleção brasileira de futebol, teria sua foto gravada nas aeronaves da ponte aérea Terra-Lua. Ela disse que, morto pelo coronavírus, o ator Paulo Gustavo iria “para o inferno”. A homofobia conheceria dias gloriosos.

Agora, falando sério, meus caros Primo e Tullio, não seria melhor apenas esperar os próximos 3 bilhões de anos e depois acompanhar a piedosa extinção de uma espécie que faz de tudo para não merecer o planeta belo em que vaga com apetite predatório?

Abraço. E coragem.

Sobre amizade, sincronicidades e resistência

Já chegou a hora quem lá no mato mora
É que vai agora se apresentar
No chão do terreiro, a flecha do Seu Flecheiro
Foi que primeiro zuniu no ar

Vi Seu Aimoré, Seu Coral, vi Seu Guiné,
Vi Seu Jaguará, Seu Araranguá,

Tupaíba eu vi, Seu Tupã, vi Seu Tupi,
Seu Tupiraci, Seu Tupinambá

Vi Seu Pedra-Preta se anunciar,
Seu Rompe-Mato, Seu Sete-Flechas,
Vi Seu Ventania me assoviar
Seu Vence Demandas eu vi dançar
Benzeu meu patuá

(Linha de Caboclo)

 

Assisti com décadas de atraso, por indicação de um amigo, o premiadíssimo filme argentino A História Oficial. Lançado em 1985, dois anos após o final da ditadura  mais sanguinária da América Latina, as feridas estavam abertas e em carne viva. A protagonista é uma professora de História, pertencente a burguesia portenha, cujo marido é um empresário beneficiado pelo governo militar, conservadora e alienada ao que acontecia em seu país. Em uma cena marcante, ela lecionava em uma escola só para meninos, numa classe composta por adolescentes, é confrontada por um aluno que dá uma versão diferente para determinado fato do passado. Diante da afirmativa dela, de que ele está distorcendo o que está registrado nos livros de história, ele responde:”A história é escrita por assassinos”.

Essa passagem me remeteu a época que fui aprovada na seleção de Mestrado em Literatura Portuguesa. O programa que abrangia literatura clássica e medieval, me atraiu por ser uma forma de entender o início de tudo, da língua, da nação, de seus desdobramentos no meu próprio país. Passei dois meses indo religiosamente ao Gabinete Português de Leitura, onde tive acesso a livros como As Crônicas de Fernão Lopes em português arcaico, e a impaciência do bibliotecário português, por ser uma das primeiras a chegar, pedir livros de difícil acesso  e invariavelmente ser  a última a sair. Ao saber dessa antipatia gratuita, minha avó separou uma latinha de biscoitos feitos pela D. Genoca,sua amiga doceira, as famosas madeleines e mandou um bilhetinho agradecendo a paciência (ou a falta dele) para com minha pessoa. Não consegui por mais que me esforçasse ler Proust e Em Busca do Tempo Perdido, mas uma coisa eu sei: madeleines tem poder. Se não for para recordar o passado, ajudam a melhorar o presente. E a partir daí ele passou a me chamar de Ceuzinha e a mandar recomendações para D. Lucila.Vovó sabia das coisas.

Preparada para a prova eu estava. Porém, como postou Constantino num de seus twittes idiotas: ” Não honrei a liturgia do cargo”. Meus colegas eram, em sua maioria, professores universitários há anos, estavam lá por uma exigência do MEC, que passou naquele ano  a cobrar diploma de mestrado para docentes de ensino superior. Era um ambiente sisudo, sério, de camisas abotoadas no punho e echarpes esvoaçantes .Não me sentia a vontade nem no figurino e nem preparada a altura. Meu primeiro seminário foi sobre o livro Os Bichos, de Miguel Torga. Foi sorteio e caiu para mim o Cachorro Nero. Fui a primeira a falar.  Preparei um seminário sobre o autor, que muito admiro, sobre as características do cão, sobre a narrativa, sobre os cães na literatura e sobre meu convívio com eles na vida real. Terminei minha explanação e o colega ao lado iniciou sua exposição, falou sobre  outro animal (no livro Torga em cada conto trata de um animal diferente) que não me lembro qual foi, só sei que ele começou assim:”Torga me lembra aqueles realistas russos, tem a maestria de um Tchechov… e pôs- se a falar em teoria literária. Mais em teoria literária do que no personagem?  Pensei: O que eu to fazendo aqui?  A professora, nada mais nada menos que D. Cleonice Berardinelli, elogiou minha abordagem do conto, mas minha autocrítica me chicoteia até hoje. Doida pra meter um realismo russo num artigo sobre o autor e acabar com esse trauma.

Eu me vestia como era. Cabelos soltos, compridos, vestido indiano, sapatilhas boneca chinesas de veludo compradas no Largo do Machado a vinte contos cada uma. Uma profusão de colares, adorno que sempre amei. E foi exatamente por esse estilo de vestir que uma das poucas pessoas que não me olhava torto, tornou-se minha amiga e guardiã. Ela se aproximou porque, nas palavras dela, eu fazia com que ela recordasse de seu tempo de UFRJ, da década de setenta. Seu nome era Icléia, foi de uma turma de graduação em que quase todos os nossos professores da pós foram seus colegas. Entrou no mestrado com eles, cumpriu os créditos, já estava com a dissertação encaminhada, mas a contragosto de seu orientador jogou tudo para cima para viver um grande amor. Foi viver em Paris , casou-se e passou por  situações surreais, que envolvia uma sogra cafetina, horário de visitação a coroa, para não ser confundida com uma das Belas da Tarde. O romance terminou depois de quase duas décadas, ela regressou ao país, o pai estava adoentado e dava aulas numa faculdade da Região dos Lagos. Como ela dizia firme: ”Estou vivendo um recomeço. Recomeços não me assustam”.

Ela era a mão que me guiava naquele mundo acadêmico cheio de códigos e que ser sincera era quase que uma sentença de morte. Numa matéria que fiz sozinha, ela não se matriculou, passei quarenta minutos ouvindo o professor e alunos exaltando uma biografia de uma certa autora. Como não sou de falar o que não conheço, não apenas havia comprado como tinha lido o livro.  Acreditando ingenuamente que o canal estava aberto, ergui as mãos e pedi licença para falar: ” Desculpem, acho que sou uma exceção. Achei esse livro pretensioso, sem informações novas, só não fiquei totalmente decepcionada por causa das fotografias,  muitas são inéditas e lindas”. Fez-se silêncio. Alguns colegas vieram me elogiar depois pela coragem, mas hoje acho que foi falta de noção mesmo. O professor me fuzilou com os olhos. Chamei o livro que ele incensava  praticamente de álbum de fotos. E olha que Caio Castro ainda não tinha iniciado essa moda. O que eu não sabia, sequer desconfiava e Icléia me contou isso dividida entre a vontade de rir e dar uma bronca a altura, é que a autora, que praticamente chamei de embuste, era uma das melhores amigas do mestre. Isso me valeu um semestre de perseguição. E a lição de nunca mais falar mais de um acadêmico para outro.

A história que ficou inscrita na minha vida, para sempre, foi o dia que Icléia me telefonou e fez uma estranha pergunta: ”Seu pai foi aluno da artista Giorgina de Albuquerque?”. Para quem não sabe Giorgina é considerada pioneira na pintura nacional e uma das primeiras mulheres a se firmar nacionalmente como artista. Diante da afirmativa do meu pai, Icléia explicou. Sua irmã, que trabalhava no Arquivo Municipal, que abrigava vários desenhos de alunos de Georgina, se encantou com uma aquarela. Décadas atrás. Como esses trabalhos seriam descartados, ela levou para a casa esse em especial, com o intuito de colocá-lo numa moldura. O tempo foi passando, a pintura ficou lá, guardada. Nesse dia específico, da ligação, as duas vasculhavam o armário procurando antigos documentos do pai. A irmã de Icléia desenrolou a pintura e disse: ”Olha que lindo, estou para emoldurar faz tempo”. No canto da pintura um escrito com letra infantil: LCMBahiense, nove anos de idade. Sabendo da inclinação artística do meu pai e do sobrenome, achou grande a possibilidade de ser dele. Sim, era a aquarela do meu pai. Não consigo descrever a emoção do homem de mais de 50 anos se encontrando com o menino de 9 que foi um dia. E as voltas que o mundo deu para que por vias tortuosas fosse parar de novo em suas mãos. Hoje ela está emoldurada, na sala de estar.

Icléia faleceu precocemente. Mas por que estou falando dela? Natural de Palmeiras dos Índios, neta direta de uma indígena com quem conviveu, me falava de uma infância de chás curativos, de lendas que ouvia como grandes verdades ( e quem há de dizer que não eram) de simplicidade e sabedoria. No seu pequeno apartamento no Grajaú, onde comíamos camarão frito e encharcávamos a alma de cerveja, ela me falava desse elo tão forte. Não eram só alguns traços físicos herdados geneticamente , mas uma imensa desconfiança. De tudo. De caráter, de intenções, estava sempre na retaguarda. Muitos dos nossos colegas sequer lembram dela, pela vida corrida de dar aula em outra cidade e porque paciência não era sua maior virtude. Mas a mim adotou. Conversávamos muito sobre o fazer a história,  e como ela era contada. Ou como não era contada. E aí que aporto na frase do rapaz do filme: todo cuidado é pouco quando a história é escrita pelos assassinos.

Todas essas rememorações me chegaram através de um artigo do professor Ronaldo Vainfas que li recentemente. Os índios brasileiros , pelo menos na época que eu frequentava os bancos letivos, apareciam como figuração daqueles cadernos escolares em que a capa era a Primeira Missa e a contracapa o Hino Nacional. Sobre eles sabíamos que caçavam, pescavam, dormiam em ocas, eram figurantes no grande  acontecimento do Descobrimento do Brasil  e saíam de cena. Só reapareciam magistralmente no episódio do Bispo Sardinha, sobre o qual já discorri , esse era o palmo que lhes cabia nesse latifúndio. Com a lei promulgada em 2008, numero 11645, instituiu-se a obrigatoriedade de ensino e culturas indígenas na educação básica. Algo que transcendesse as carinhas pintadas das crianças no dia 19 de abril. Tenho informações que alguns professores se esforçaram nesse sentido. Discorrendo sobre a participação indígena em alguns episódios da História Brasileira, como Confederação dos Tamoios, Guerra Guaranítica, Cabanagem, entre outros.

O movimento mais expressivo, de resistência sociocultural indígena, que só fui ter ideia agora, foi  A Santidade de Jaguaripe. Vários movimentos foram chamados de Santidades, pelos próprios jesuítas, o que é um paradoxo, O primeiro a descrevê-lo foi Padre Manoel da Nóbrega, era uma cerimônia comandada por um pajé, em que os nativos em transe se comunicavam com seus ancestrais e eram rogados a batalhar contra seus inimigos ou migrar buscando outras terras.A cerimônia era associada ao pajé açu ou caraíba, o poderoso pajé que tinha como dom se comunicar com os mortos e muitas vezes de encarná-los.

Nada porém supera a Santidade de Jaguaripe, localizada no sul da Bahia. Ela surgiu em 1580, liderada por um índio que viveu num aldeamento em Ilhéus , aprendeu o básico da catequese jesuítica , foi batizado pelo nome de Antonio e fugiu. Quatro anos depois o movimento já estava organizado, nos sertões de Jaguaripe e sua função era estimular revoltas e fugas dos engenhos em toda a capitania. Incontáveis portugueses foram mortos e engenhos queimados. Segundo Vainfas: “Os pregadores da Santidade  exortavam os fiéis a fugir dos brancos e atacá-los, acenando que o triunfo total estava próximo e com ele viria uma nova era de prosperidade a abundância. Os índios não precisariam mais trabalhar porque as flechas caçariam sozinhas nos matos, os frutos brotariam sem que ninguém plantasse. As índias velhas voltariam a ser jovens e os homens se tornariam imortais. Todos os portugueses seriam mortos ou tornar-se-iam escravos dos mesmos índios que também escravizavam. O triunfo seria a Terra dos Sem Males, o paraíso tupi”.

O crescimento da revolta apavorou os portugueses. O governador Teles Barreto até tentou organizar uma expedição no sertão, mas não conseguiu atingir o núcleo onde estava o líder Antonio. Aí que entra um personagem que acaba sendo protagonista desse evento. Um senhor poderoso de Jaguaripe, Fernão Cabral de Taíde, fidalgo, natural do Algarve, de confiança do governador. Fernão combinou com o governador que mandaria mamelucos de sua confiança, que falavam a língua dos nativos,  que deveriam atraí-los para as suas terras, prometendo que o lema seria liberdade: Os homens poderiam possuir varias mulheres, poderiam bailar e fumar a vontade, teriam toda a liberdade de cultuar seus ídolos, sem a presença de padre e nem cativeiro. O governador concordou achando que era a preparação de uma emboscada.

O que Teles não contava era que esse senhor Fernão não valia um pequi roído. Ele não tinha intenção alguma em devolver os índios. Ainda que se tenha sérias desconfianças que ele estava mesmo era formando trabalho braçal para ele, o que se sabe de sua biografia é que tinha tara por índias, assediou a própria cunhada, foi um senhor de escravos violentíssimo, mas gostava mesmo era de festa, orgia , birita e gandaia. Transe, sexo a vontade, cauim liberado,  música, muito maracá, igreja própria sem seguir ritual, só indo na onda do hibridismo que se formou entre a catequese e as crenças indígenas, ajudando inclusive a estimular fugas e rebeliões em todas as capitanias , numa escala muito superior que antes. A fazenda do homem foi transformada numa rave indígena, principal refúgio de índios aldeados ou cativados da Bahia. Foi assim que durante seis meses esse senhor construiu a primeira sociedade alternativa que se tem ideia no Brasil Quinhentista.

O fim da História é que o Governador cansou do abuso, organizou uma nova expedição, na minha humilde opinião tava todo mundo tão chapado que não houve resistência a prisão, os índios  foram reescravizados e devolvidos as antigas missões , os principais líderes desterrados e o líder Antonio, que não era bobo nem nada, sumiu sem deixar rastro. Em 1591, a Inquisição de Lisboa aqui esteve e prendeu o festeiro dono da taba.Foi encarcerado, denunciado, passou um ano fechado no Colégio dos Jesuítas. Sua condenação foi sair em auto público, ouvir a leitura de sua sentença, pagar uma grana bem elevada e foi desterrado  da Bahia por dois anos. Dessa visitação  resultam inúmeros documentos, que estão em Lisboa, sobre os seis meses mais lokos e bem vividos de toda a História do primeiro século do Brasil dominado por Portugal. Há coisas que por mais que tentem, não se apagam. E precisam, muito, ser contadas.

 

PS: Segue uma pequena bibliografia com os pormenores da história, para quem tiver interesse. Para quem quiser entender essa mitologia paralela entre a teologia cristã e a transposição para as crenças tupis, Alfredo Bosi e a sua Dialética da Civilização é essencial. ”Anchieta ou As Flechas Opostas do Sagrado”  é leitura Indispensável. O Dicionário do Brasil Colonial , de Vainfas, cita nome por nome, acontecimento por acontecimento, direcionando melhor a leitura e o entendimento. Mas é na obra A Heresia dos Indios: Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial, de Ronaldo Vainfas, São Paulo: Cia das Letras , 1995, que o autor esmiúça todo esse movimento, traçando ligações que vão do imaginário europeu medieval a seus desdobramentos no Brasil recém descoberto.

Mar e Teatro

O domingo amanhecia quando comecei a caminhar na beira do mar, sem saber o que estava por acontecer. A imensidão do mar acalma, há um cheiro de liberdade, que aumenta a coragem num movimento constante. Por mais belos os rios, as planícies e as montanhas, nada se iguala as emoções do mar quando se trata de liberdade. Li relatos de presos, falei com prisioneiros que me falaram das saudades do mar. Não me canso de caminhar na praia, de ver as ondas, a imensa bondade do ir e vir da maré. O mar está sempre em movimento, e foi olhando esse ir e vir que pensei sobre as pessoas. Tem as que são meio paradas, com pouco entusiasmo, se arriscam pouco. Há os que se movimentam para trás, os saudosistas, os que adoram os tempos autoritários, com pais idealizados que autorizam um outro a tudo. Também há os que vão em busca de sonhos desejantes, vivem entre o ânimo e o desânimo, mas tendem a ter o dom do humor. Brinco na caminhada sem máscara acompanhado pelo música das ondas e o som de pássaros felizes.
Divaguei junto ao mar, observei o sol despontando no horizonte, e começo a voltar e, de repente, uma miragem, onde há muita gente de máscara. São grupos de dez que formam umas vinte fileiras distantes uma da outra, logo nem abrindo os braços era possível se tocar. Os amigos do face estão na praia e o encontro é uma festa, após tanta solidão. Todos juntos na invisibilidade, pois ninguém via, mas estávamos juntos, e logo começaram os cantos. Parecíamos fiéis que vão às praias no dia dois de fevereiro para saudar Iemanjá, rainha do mar. Grande Dorival Caymi o poeta do mar recordou uma outra vida, outro Brasil, gente humana, solidária, espirituosa. Alguém propôs que num domingo pela manhã em Porto Alegre fôssemos todos ao Jardim Botânico, e assim nos despedimos na leveza da imaginação.
Domingo reencontrei gente no mar e no sábado seguinte reencontrei o teatro. Assisti pela primeira vez no zoom um espetáculo cujo palco era o rosto do ator Pedro Osório do Rio de Janeiro. Ele apresentou o espetáculo « A Peste » baseado no livro de Albert Camus durante uns quarenta minutos, pouco mais, e após teve comentários. Foram duas horas grudado na tela do computador, não imaginava que seria possível um teatro assim. Também não imaginei no ano passado que uma análise pudesse se desenvolver via celular. Diante dos obstáculos está sendo preciso criar novos caminhos, que requerem conviver com o invisível, uma outra realidade.
A novela « Peste » é uma metáfora do nazismo que invadiu a Europa, onde os ratos são os nazistas que tanta crueldade fizeram ao mundo. Impressionante como ocorre a negação, o desprezo pela medicina e a ciência pelas lideranças políticas. A « Peste » foi publicada dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, um êxito de público impressionante. Camus alerta ao final do livro que as epidemias terminam mas voltam, e aí se pode associar ao tempo atual em nosso país na pandemia está dominado pela mentalidade miliciana. Depois do espetáculo falaram Julia Alexim do Rio de Janeiro, Ângela Lângaro Becker e Edson Luiz André de Sousa da APPOA que promoveram um sábado de arte e alegria.
Reencontros com o teatro, o mar, gente querida e as palavras de Albert Camus : « A imaginação oferece às pessoas consolação pelo que não podem ser e humor pelo que efetivamente são ». Revelou em sua vida, na sua obra e nas entrevistas sua crença na humanidade, mesmo diante do absurdo. Porque hoje é sexta e amanhã é sábado um viva ao humor, às artes que aceleram a imaginação, e ainda erotizam o amanhã.
Bibi e o Hamas, mais unidos do que nunca

Bibi e o Hamas, mais unidos do que nunca

Mais uma vez a violência explodiu em Israel. Desta vez o conflito começou em Jerusalém e arrastou o resto do país e Gaza com ele. O que aconteceu agora, diferente das outras vezes é que estivemos muito próximos de ter um governo sem o Likud e seus aliados religiosos.

Os problemas com Gaza são conhecidos. O Hamas governa a região e diferentemente da Autoridade Palestina que governa a Cisjordânia, não aceita a existência do Estado de Israel e se compromete com a sua destruição para a criação do Estado da Palestina.

A cada par de meses o Hamas, ou a Jihad Islâmica, lançam esporadicamente foguetes contra Israel. De tempos em tempos a coisa sai do controle e temos um conflito de maiores proporções, como em 2014.

O ano passado tivemos o verão dos balões incendiários jogados contra Israel, antes disso, as manifestações diárias na linha de fronteira com dezenas de palestinos mortos. A crise com Gaza é constante e a fronteira abre e fecha a todo momento. Israel mantém o território como uma grande prisão a céu aberto.

Israel até agora tinha evitado uma escalada maior de violência, mesmo diante de disparos de foguetes por parte do Hamas ou seus aliados. As respostas aos disparos eram pontuais contra postos de observação e alvos sem grande importância. De repente tudo mudou. Estamos vendo o desenrolar de um novo conflito de grandes proporções.

Para se compreender como chegamos a este ponto é preciso voltar um pouco no tempo. Israel depois de 4 eleições em 2 anos, não consegue formar um governo estável. A proporção de forças de direita e esquerda não permitem. A direita tem mais votos, mas não se acertam entre eles. Bibi criou tantos desafetos que eles, junto com a esquerda, acabam formando um bloco que não permite a Bibi constituir um governo.

Desta vez, ele bem que tentou, mas foi incapaz de juntar uma maioria de pelo menos 61 apoiadores. Precisava incluir um partido de extrema direita radical e obter o apoio de um partido árabe para chegar a 61 mandatos. Algo como tentar misturar água e óleo de soja. Não conseguiu e teve de entregar a incumbência para seu inimigo político, Yair Lapid.

São três partidos de direita que se tornaram desafetos do Likud de Bibi. O Israel Beiteinu de Avigdor Liberman com 7 mandatos, Tikvá Chadashá de Guidon Saar com 6 mandatos e o Iemina de Naftali Bennett com 7 mandatos.  Os dois primeiros prometeram aos seus eleitores, antes das eleições, que não se sentariam com Bibi. O terceiro prometeu aos seus eleitores, antes das eleições, que não se sentaria com Yair Lapid, mas que também não desejavam sentar com o Likud.

Ao receber do presidente a tarefa de tentar formar um governo, Lapid foi em busca de parceiros. Os partidos tradicionais de oposição como o Avodá e o Meretz fecharam com ele. O Kachol Lavan de Gantz também. Isarel Beiteinu e Tikvá Chadashá também se somaram. Faltava o Iemina de Bennett que foi contemplado com a indicação de se tornar Primeiro Ministro por dois anos, cedendo o lugar depois para lapid. Contudo, somados todos os mandados, Lapid chegou a 58. Faltavam pelo menos mais 3.

Começaram as tratativas com o partido Árabe Raam de Mansur Abaas que até pouco tempo fazia parte da Lista Árabe Unida, com seus 4 mandatos. Lapid tratou de aproximar Abaas de Bennett e tudo indicava que o Raam apoiaria o governo de fora em um esquema assinado entre as partes. Os cargos e ministérios já estava sendo divididos e a formação do novo governo era coisa de dias.

Enquanto isso Bibi incitava seus apoiadores a pressionarem Saar e Bennett para não aceitarem fazer parte de um governo de “esquerda”, como são chamados qualquer um que não seja do Likud. Manifestações em frente as casas dos parlamentares eleitos se tornaram uma rotina. Um deles eleito pelo Iemina cedeu e anunciou que não votaria a favor do Governo da Mudança. Ainda assim, com o apoio da Abaas era possível formar a coalizão.

O que vai acontecer a seguir pode parecer uma teoria conspiratória, mas quem conhece Benjamin Netanyahu, sabe que do que ele é capaz para se manter no poder. Bibi é conhecido como um gênio na arte da política, ótimo em prometer, péssimo em cumprir. Não é por nada que ele sobrevive há cerca de 20 anos como primeiro-ministro.

Este ano o final do Ramadan coincidiu com o Dia de Jerusalém, uma comemoração pela unidade da cidade e sua indivisibilidade. Normalmente uma festa com paradas e manifestações nacionalistas xenófobas levadas a cabo pelos partidos de extrema direita e seus apoiadores.

Pouco antes do Ramadan, jovens árabes de Jerusalém começaram a postar no Tik Tok, vídeos onde cometiam algum ato violento contra um judeu, ou grupo de judeus. Empurrões, tapas na cara, derramamento de café, tudo valia para aparecer no aplicativo e logo estes fatos começaram a esquentar os ânimos entre jovens judeus.

A festividade do Ramadan dura um mês quando os muçulmanos jejuam durante o dia. A noite uma janta comemorativa depois das orações e tudo se repete nos dias seguintes. Em Jerusalém as orações são feitas principalmente nas Mesquitas do Monte do Templo. Após a janta, as pessoas se reúnem para confraternizar e não foi diferente em Jerusalém. Porém agora, a polícia começou a intervir chegando a invadir o Monte do Templo com toda violência típica de qualquer polícia do mundo.

Ao mesmo tempo, um longo processo de desocupação de 4 casas no bairro árabe de Sheick Jarrad, em Jerusalém Oriental, chega ao final com a decisão a favor dos demandantes. Sem entrar no mérito, famílias judias moravam e tinham a propriedade das casas neste local antes de 1948. Com a guerra de Independência em 1948, elas foram expulsas e famílias árabes as ocuparam. Em 1967 Israel retoma este território e uma lei israelense passa a aceitar que judeus que possuam certificados de propriedade de terras nestes territórios, possam retomá-los. Cidadãos árabes israelenses que vivem em Israel e foram expulsos de suas casas em Yafo, Tel Aviv, Haifa etc, no mesmo período, mesmo possuindo os certificados de propriedade, não podem pedir a retomada delas.

Para colocar mais gasolina onde já havia fogo, grupos nacionalistas extremistas resolvem se manifestar em Jerusalém e o partido Kahanista monta uma barraca na rua em frente ao local do despejo eminente. Para coroar, a famosa Marcha das Bandeiras é liberada, desde que não passe pelo portão de Shchem na Cidade Velha. Esta marcha lembra em tudo a Marcha de Orange em Belfast na Irlanda, quando grupos protestantes passam por bairros católicos em pura provocação.

O tribunal israelense resolveu adiar a ação de despejo e os kahanistas foram atacados a pedradas e expulsos do local. No entanto, no Monte do Templo, no local das Mesquitas a polícia continuou agindo chegando a invadir El Aqsa atrás de manifestantes.

Tudo o que está acontecendo, tem uma ação da polícia claramente mais violenta contra os grupos de manifestantes árabes. Ela passa a agir de maneira displicente. Parece que a ordem é deixar acontecer e se envolver minimamente quando se trata de judeus contra árabes. Quando se trata do oposto, agir com todo o rigor da lei.

Então o Hamas chega para completar o quadro de violência. Intima Israel a retirar a polícia do Monte do Templo, ou aguentar as consequências. Ao final do ultimato, cumpre o que prometeu e lança a primeira saraivada de foguetes contra Israel, escalonando a violência e acendendo o pavio do conflito.

Os foguetes atirados pelo Hamas são dirigidos as cidades israelenses, ou seja, para matarem civis. Eles têm uma autonomia de quilômetros antes de caírem, não possuem um alvo fixo. O sistema de defesa israelense é capaz de barrar 90% do que é disparado. Os que passam, na maioria das vezes, caem em campos abertos, mas alguns atingem seu propósito. O disparo destes foguetes constitui crime de guerra.

Israel por sua vez também ataca cidades. Com a desculpa de que algum morador é membro do Hamas, ou simpatizante, todo o prédio onde ele reside é destruído. Antes do bombardeio os moradores são comunicados para que deixem o local. Israel já derrubou pelo menos cinco prédios altos deixando centenas de famílias desabrigadas. Isto também constitui crime de guerra.

Bibi a tudo assistia e foi premiado com sua ação belicosa. O Raam se retirou das negociações enquanto durar o conflito e agora Naftali Bennett também deixou as negociações para formação do governo e se reuniu novamente com Bibi. Por enquanto, nem Gantz e nem Saar aceitaram se juntar a ele. Tudo leva a crer que vamos ter novas eleições em novembro.

No entanto, uma outra violência eclodiu em Israel, muito mais destrutiva e nunca vista antes. Nas cidades de população mista de judeus e árabes, grupos de jovens passaram a se enfrentar diariamente. Linchamento, apedrejamento e incêndios de automóveis, casas e sinagogas acontecem sem que a polícia seja capaz de impedir. Reservistas foram convocados para tentar conter os ânimos, sem sucesso até aqui. Esta nova ferida será de difícil cicatrização.

Toda esta violência favorece diretamente a Bibi e ao Hamas. Bibi porque conseguiu impedir a formação do Governo da Mudança, e o Hamas que se destaca como o defensor de Jerusalém e do Estado Palestino, enquanto a Autoridade Palestina permanece longe de intervir no conflito.

Obviamente que este artigo não tem a pretensão de explicar isoladamente tudo o que está acontecendo. É tão somente a opinião de um observador dos fatos mostrando a realidade sob a minha ótica e a minha percepção dos acontecimentos.

Toda violência atrai mais violência. Enquanto Bibi e o Hamas se deleitam em alcançar seus objetivos políticos de poder, os dois povos estão pagando a conta. A crueldade acontece de ambos os lados. Nenhum lado respeita a vida de civis.

Em 3 dias já fui 5 vezes para o abrigo quando as sirenes de aviso de ataque de mísseis tocaram. Quando ela começa a tocar, temos 1,5 minuto para nos abrigar. É o tempo para a queda do foguete. Devemos permanecer 10 minutos no abrigo para ter certeza de que é seguro sair.

Em Gaza o Hamas não construiu abrigos para a população. Eles sabem que Israel não bombardeia diretamente os civis, e as mortes acontecem como eventuais efeitos colaterais. Aparentemente, o dinheiro é investido somente na fabricação de foguetes para matarem civis do outro lado da fronteira.

Espero que esta sandice termine o quanto antes. Que Bibi não consiga formar nenhum governo, mesmo nas próximas eleições. E que o povo palestino perceba que o Hamas não está trazendo nada de bom para eles.

Somos todos seres humanos. Já foram mais de 100 mortes até agora, incluindo mulheres e crianças. Basta de violência.

Tomara possamos conviver em paz com um Estado de Israel e um Estado Palestino lado a lado em um futuro próximo.

 

Novamente o velho

Há certas coisas que parecem mesmo não quererem evoluir. As cenas brutais do conflito Israel-Palestina repetem-se mais uma vez com um quase cânon histórico, um pesadelo repetitivo, um refrão de um mau e inacabado poema humano.
A imutabilidade de sua forma e conteúdo reflete invariavelmente a rigidez da estrutura subjacente que no plano do indivíduo chamaríamos de neurose no modelo freudiano de estudo do inconsciente. No modelo coletivo, embora o termo neurose fosse difícil de aplicar, certamente a análise baseada nos mitos fundadores dessas duas sociedades certamente se aplica.
A história das nações em geral traz no seu passado às vezes não tão longínquo cenas semelhantes e estruturas de pensamento e ação dentro desse padrão. Será difícil encontrar um país moderno que não tenha passado por conflitos das mais variadas formas físicas e temporais, com as mais variadas formas de interferência externa ou como frutos de conflitos internos mal ou não resolvidos. Voltando ao plano do indivíduo, a prática médica nos ensina que os conflitos internos mal sanados levam os indivíduos à doença, à disfunção, e às vezes a desfechos violentos sejam eles auto-inflingidos ou hetero-inflingidos, traduzidos na realidade como sofrimento pessoal, automutilação e eventualmente suicídio por um lado, e por outro lado, as cenas horripilantes que afrontam a dignidade de nossa espécie e que recheiam o noticiário dioturnamente envolvendo feminicídios, homicídios, infanticídios e ataques em massa a escolas e outros agrupamentos de vítimas escolhidas pelo seu peso simbólico e capacidade de gerar terror.
As sociedades, assim como os organismos humanos, adoecem seguindo uma somatória de modelos individuais de patologia, ação e dano. A atual pandemia é um bom modelo de estudo. Talvez metade das mortes pelo coronavírus seja causada por um sistema imunológico disfuncional, onde a “turma do deixa disso” falha ou a turma da “tropa de choque” não tem medida de ação, reproduzindo fielmente os fenômenos do macrocosmo social, seguindo um modelo quase espelho.
A etiologia do conflito Israel-Palestina é de compreensão difícil pela sua complexidade que talvez derive de um sem fim de narrativas em disputa, todas aparentemente válidas, que exigem a resolução de um paradoxo que confronta o ínfimo tamanho do território em que se dá com a significância simbólica que toma nossas almas em mais que óbvia desproporção se comparado com processos de territorialidade, sofrimento e dano infinitamente maiores.
Infelizmente essa complexidade não recebe o devido investimento intelectual por parte de setores da sociedade que terminam por formar juízo por um conjunto de valores carente das devidas ponderações contextuais que deveriam ser aplicadas. Por exemplo, Israel é acusado de ser “genocida” sem se considerar que a população palestina só cresce incessantemente desde o início do conflito em 1948, e também sem se considerar por exemplo, que fosse a guerra de 1973 perdida por Israel teríamos certamente uma guerra de extermínio com medidas reais de genocídio e destruição.
Que Israel e seus últimos governos cometem erros graves na sua política para o conflito é inegável e constrangedor para judeus como eu, que enxergam a existência desse estado como um resgate histórico e simbólico que poderia ter seguido outros caminhos. Mas a grande questão em curso atual é que não foi Israel o único a cometer erros nessa condução, e de um lado, pelo menos, todas as narrativas excluem do radar as brutais disfuncionalidades da sociedade palestina que sustentam no poder, através de meios que aqui consideraríamos ilegítimos, um aparato bélico e um sistema de governo corrupto e que preocupa-se apenas com o status quo em detrimento dos legítimos interesses de seu povo.
O olhar brasileiro, em especial, o da esquerda brasileira sobre o conflito Israel-Palestina poderia se enriquecer pelo estudo profundo das raízes dos conflitos internos brasileiros que levou à eleição de Jair Bolsonaro e que não obstante o amplo espectro de crimes e genocídio praticado não sofre deposição ou sanção minimamente significativa. Outros conflitos crônicos e de territorialidade infinitamente maior, como o recente massacre em Jacarezinho também oferecem oportunidade para uma reflexão sobre como esses fenômenos são difíceis e complexos em sua resolução, estando seus vetores profundamente arraigados em nossa sociedade, desde a viela da comunidade periférica até as mais altas esferas de poder, institucional ou não.
Como judeu de esquerda, confesso-me também constrangido pela postura de setores dos diversos partidos de esquerda brasileiros frente ao conflito Israel-Palestina, que abraçam uma narrativa unilateral sem qualquer ponderação ou crítica sobre os métodos de instituições como o Hamas, Hezbollah e suas conexões externas com outras nações e grupos que explicitamente pregam “apagar Israel do mapa”. Ou, que deliberadamente abraçam a tese indefensável de “extermínio” do povo palestino, que se dotada de mínima realidade seria levado a cabo com facilidade e rapidez entorpecedoras. Deveria sim a nossa esquerda recorrer à sabedoria de quem esteve lá de fato e dedicou-se a estudar de forma isenta a realidade como o deputado Jean Wyllys, ou mesmo o Presidente Lula que sentou à mesa com Ahmedinejad e seus assessores e experimentou as dificuldades locais.
Argumentando com o absurdo para fins meramente ilustrativos, como seria se em um espaço de dois dias a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, disparasse mais de mil foguetes com bombas sobre os prédios do Leblon e Copacabana? Seríamos capazes de romantizar o ato sob uma narrativa de resistência? Seríamos capazes de nenhuma tentação de reação e neutralização da capacidade bélica daquela comunidade? O que temos visto recentemente diz que não. Por muito menos que mil foguetes com bombas promovemos massacres proporcionalmente ainda mais brutais. O número de vítimas e a brutalidade do recente episódio em Jacarezinho são também constrangedores e nos denunciam como incapazes de promover a paz aqui ou no Oriente Médio, e com este humilde reconhecimento deveríamos quedar-nos silentes, talvez em prece por um mundo melhor onde ninguém se arrogue a estabelecer acusações e culpas estando completamente fora do contexto e repetindo, neuroticamente, os comportamentos determinados também pelos nossos mitos fundadores, por nossas crenças pessoais e eventualmente grupais, o que apenas sustenta o velho onde deveria surgir o novo.

De saco cheio estamos nós

Nesta sexta-feira, pela enésima vez, o capitão genocida se arrogou o direito de criticar, com palavras de baixo calão, um instrumento legal de um outro Poder, no caso o Legislativo. Alguém disse que o presidente deve respeitar a independência dos Poderes ? Ora, ele não tem a menor ideia do que isso venha a ser. Ele só entende a linguagem do « eu faço o que quero », como uma criança mimada. O inominável voltou a atacar, como sempre nas redes sociais (onde é mais fácil escrever em razão de um número limitado de palavras), a CPI da Covid, respondendo aos membros da Comissão que criticaram medicamentos rejeitados categoricamente pela Organização Mundial da Saúde : a cloroquina e a ivermectina, dos quais o presidente da República, que nunca frequentou uma aula de primeiros socorros, transformou-se em garoto propaganda. Para ele, de nada servem seis estudos científicos internacionais, que reuniram mais de 6 mil pacientes, concluirem que os medicamentos não trazem benefícios no tratamento da Covid 19.

Desde julho do ano passado, a OMS informa que o antimalárico não tem nenhum efeito positivo contra o coronavirus, sem falar dos efeitos secundários perigosos, que podem inclusive levar à morte. Mais recentemente, o painel de especialistas do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS foi ainda mais claro, rejeitando o uso da hidroxicloroquina no tratamento preventivo da Covid e dando por encerrados os testes com o medicamento.

Mesmo assim, o fascista que se instalou no Planalto insiste : « Não encham o saco ! » ; médico e paciente são livres para escolher como querem se tratar.

Como responder a essa asneira sem tamanho ? Então se um oncologista decide tratar seu paciente com câncer no fígado com Novalgina, tem todo o direito. E se o paciente morrer ? E daí, médico não é coveiro, não é mesmo ?

Quinta-feira o capitão já tinha defendido novamente o uso da hidroxicloroquina, chamando de « canalhas » os que se opõem à sua prescrição e afirmando que a CPI é mera « xaropada ».

Um dia antes, nesse circo de horrores, o presidente rasgou uma vez mais a Constituição diante do olhar impassível do Procurador Geral da República, Augusto Aras, cúmplice do genocida, para ameaçar o STF e publicar um decreto para impedir que governadores e prefeitos fechem o comércio ou limitem a atividade durante a pandemia. Afirmou que não aceitaria contestação dos tribunais. Acusou o ministro Luis Roberto Barroso de ter feito “politicalha” ao mandar o Senado instalar a CPI, embora sabendo que errado estava o presidente da Câmara Alta, que para proteger o capitão empurrou com a barriga a abertura da Comissão de Inquérito, cujo pedido preenchia todos os requisitos constitucionais. Errado estava Rodrigo Pacheco e não o STF, que confirmou a decisão de Barroso por 10 votos contra 1.

Dizem alguns que Bolsonaro é como o cão, que ladra mas não morde. A verdade não é bem assim, mesmo se as declarações insanas têm o objetivo de animar a sua base política. O país vive em clima de queda de braço permanente e, enquanto não é governado, as pessoas, dezenas de milhares de pessoas, vão morrendo feito moscas.

Face à tragédia, a solução proposta é a privatização do SUS, ou seja do alicerce da saúde pública no Brasil.

O único compromisso do presidente é consigo mesmo, com a sua ninhada e com a promessa de tudo destruir à sua passagem. É a política da terra arrasada. Dentro desta lógica, nessa mesma quarta-feira, investiu contra a China, nosso maior parceiro comercial e principal fornecedor de insumos para vacinas.

“É um vírus novo, disse, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?”

O presidente brasileiro parece não ter se dado conta de que Donald Trump perdeu as eleições, continua a repetir o discurso anti-China do ex-ocupante da Casa Branca. Para tanto, é apoiado pelo filhote Eduardo, aquele do hambúrguer, e pelo ex-chanceler olavista Ernesto Araújo, dois arautos da guerra contra Pequim.

Bolsonaro fechou a semana ignorando as regras sanitárias e gerando aglomeração com motoqueiros em Brasília; estava sem máscara e disse que pretende realizar atos semelhantes em outras cidades. Como se a CPI realmente não passasse de mera “xaropada”.

Por ter provocado aglomeração, o líder da extrema-direita portuguesa, André Ventura, está sendo investigado e poderá ser condenado a 4 anos de prisão.

Fora do Brasil, Jair Bolsonaro é visto como o pior mandatário do mundo na gestão da pandemia, título concedido pelos jornais e cientistas mais conceituados. Nesse início de maio, o Parlamento Europeu debateu a gestão da pandemia pelo presidente brasileiro, taxada de “necropolítica, negacionista e irresponsável”.

“Por ação ou omissão, a necropolítica de Bolsonaro constitui um crime contra a humanidade que deve ser investigado”, disse em plenário o eurodeputado espanhol Miguel Urbán Crespo, aplaudido por seus pares.

Artigos são publicados diariamente na grande imprensa, que nada tem de esquerdista, escritos por gente estupefata com o inferno dantesco em que se transformou o país.

O que muitos não conseguem entender, sendo portanto incapazes de explicar, é por que o presidente tem o apoio incondicional de um terço do eleitorado. O correspondente da Deutsch Welle no Brasil, como bom jornalista, passou um ano entrevistando pessoas que votaram em Bolsonaro, para explicar o fenômeno aos seus seguidores. Mas finalmente baixou os braços e confessou : – Decidi parar de falar com bolsominions ; não aguento mais, é uma loucura !

De fato, a visão que o Brasil projeta hoje é deplorável. Em 43 anos de vida na França jamais vi nada igual. Na Europa, a opinião (até entre alguns políticos de extrema-direita) é que Jair Bolsonaro e sua gangue são psicopatas perversos, dignos de usar camisa-de-força, de serem interditados. Não se consegue compreender o que acontece, nem a passividade popular e muito menos ainda a atração exercida pelo « mito », que com a ajuda de pastores evangélicos, olavistas, militares, milicianos, empresários do tipo Havan, formou uma verdadeira seita em torno de si, recriação do Templo do Povo do reverendo Jim Jones.

Para a loucura do presidente parece não caber interdição e sim cadeia, onde deverá terminar os seus dias caso sobre um resquício de Justiça após a sua passagem.

Minha intuição diz que seu grande sonho nunca foi se tornar presidente da República (o que exige um mínimo de preocupação com o Brasil), mas ser comandante-em-chefe das forças armadas, que em várias ocasiões afirmou lhe pertencerem. Autoritário, candidato a ditador, adorador da tortura, ele quer mandar, certo de que o Brasil é uma caserna e os brasileiros, seus soldados. Saboreia a revanche da sua expulsão do Exército. Os únicos livros que folheou na vida foram para os exames da Academia de Agulhas Negras. A Constituição, só segurou na hora da transmissão da faixa presidencial. E olhe lá! Aposto que nunca abriu.

Um dos poréns é que os militares próximos do presidente cabularam a aula magna da Academia Militar sobre os direitos e deveres em tempo de guerra, fazendo com que passasse batida a Convenção de Genebra. Formaram-se portanto sem saber que até no conflito armado há regras. Os soldados da ativa e de pijama que circulam pelo Palácio desconhecem limites e consideram que a palavra do comandante é lei, mesmo que contrária à própria lei. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”; plagiando o general ex-ministro da Saúde. Nesse universo não reina a força da lei, impera a lei da força, sobretudo contra pretos e pobres.

Natural portanto que com Bolsonaro os gastos militares tenham superado os da ciência e da diplomacia. O Ministério da Defesa gastou 572 milhões de reais com ações da pasta e das Forças Armadas na pandemia. Os gastos militares superam as despesas do governo federal com ciência e tecnologia, segurança pública, direitos humanos e diplomacia no combate à Covid-19.

Bolsonaro declarou guerra à ciência, à medicina e à vida. Ao invés de ter o vírus como alvo, declarou guerra ao STF, guardião do Direito, Poder que tem ousado desafiar a sua autoridade para fazer cumprir a Carta Magna e a lei, do direito dos índios a comer durante a pandemia e terem vagas em hospitais públicos à abertura da CPI da Covid no Senado.

A chacina do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que completou a semana, é corolário dessa ideologia: 27 favelados mortos, acusados de tráfico. Bolsonaro, desde o primeiro dia de seu mandato, defendeu o excludente de ilicitude, abrindo caminho ao uso da força letal indiscriminada pelos policiais. Assim, protegidas pela palavra presidencial, as polícias (seriam milícias?) abrem fogo e matam ao arrepio da lei, contra o que estabeleceu o STF. Há um ano, o Supremo determinou limites para ações de policiais nas comunidades durante a pandemia. Em vão.

O massacre, que incluiu execuções sumárias de acordo com testemunhas, embora cometido pela polícia civil do Rio de Janeiro se insere na ideologia de morte pregada pelo Executivo federal. Ordem de prisão é coisa do passado, a regra é atirar para matar. A polícia entra na casa de uma família, vê uma pessoa deitada, desarmada, e metralha.

Bolsonaro criou a figura da “pena de morte informal”, sem necessidade de condenação.

Na operação, quatro habitantes da favela foram presos e torturados. Mas preferiram não relatar as agressões aos médicos do Instituto Médico Legal, pois ao contrário dos procedimentos, os policiais permaneceram na sala enquanto os peritos trabalhavam. Depois, foram encaminhados para o presídio de Benfica, sem direito à audiência de custódia, muito embora obrigatória. O laudo da perícia das drogas apreendidas tampouco seguiram as normas legais. Nada mais normal, pois afinal, como diz o vice-presidente general, « É tudo bandido ! » Ou como diz o capitão, “traficantes que roubam e matam”; ambos referindo-se, obviamente, sem nenhuma prova, aos favelados mortos. Dos 27 mortos, apenas 3 eram alvos de mandado de prisão.

Para eles, bandidos são os manifestantes presos por chamarem o genocida de genocida, Rodrigo Pilha, torturado por agentes penitenciários, os mineiros detidos, falsamente acusados de terem atirados ovos nos bolsominions. Ou ainda os trabalhadores sem terra, que Bolsonaro (no dia da chacina) recomendou o assassinato, ao comemorar a autorização para que os fazendeiros possam circular armados dentro de seus latifúndios e atirar para matar sem somação: ”Se encontrar o ilícito lá mete fogo, porra!”

« Algo está errado » ; replicou o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, reclamando a abertura de investigações imparciais internacionais sobre Jacarezinho. « O uso da força deve ser o derradeiro recurso, o combate à criminalidade precisa ser equilibrado e proteger a população. »

Palavras ao vento…Gato escaldado, o Alto Comissariado não confia na objetividade das autoridades brasileiras, incapazes de levar adiante uma investigação imparcial. Com toda razão.

Na visão bolsonarista de mundo, a vida (dos outros) não tem importância. E se o outro for preto e pobre, menos ainda. No combate ao crime como na luta contra o coronavirus, 420 mil mortes após o início da pandemia, o fascista mor não muda uma vírgula em sua forma de ser e de agir. O que faz de seus seguidores, cúmplices.

A chacina do Jacarezinho e a morte de milhares de vítimas da “política sanitária” são duas faces da moeda bolsonarista.

O fato de que 30 % ou mais sigam cegamente o « mito » e estejam prontos a reelegê-lo diz muito sobre quem somos. Dezenas de milhões de brasileiros parecem ter se despido da aparência humana para abraçar o que de pior marcou a humanidade : de Mussolini a Hitler, passando pelas Cruzadas, pela Inquisição, pela escravidão. Outros 30 % estariam dispostos a ficar em cima do muro, como os poloneses de Cracóvia, que fingiam não ver o que acontecia do outro lado da cerca de arame farpado que os separavam dos fornos crematórios (certamente mal cheirosos) de Auschwitz.

Isso me leva a pensar que trazemos em nós o que há de mais abjeto. Um dia a sociologia explicará esse desatino. Hoje, o que vemos não faz sentido. Na pandemia foram os pobres que mais perderam empregos e renda, as crianças que ficaram sem merenda nem estudos, os que mais morreram de Covid sem direito sequer a oxigênio, que foram as principais vítimas dos preços que subiram 29% nos alimentos básicos. Mesmo assim, segundo o DataFolha, a decepção com Bolsonaro é muito maior entre os mais ricos. Quase um terço dos pobres considerariam o governo Bolsonaro bom ou ótimo.

Machismo, racismo, homofobia, autoritarismo, discriminação de gênero, revolta contra o “sistema”, fundamentalismo religioso, medo do futuro e necessidade do herói salvador, talvez sejam um início de explicação para essa mixórdia fétida em que nos transformamos.

O mundo implora para que o Brasil comece enfim a combater seriamente a pandemia, usando os utensílios científicos à disposição, abandonando definitivamente os kits, os falsos tratamentos preventivos. Nós parecemos não estar nem aí, mesmo se a estratégia de Bolsonaro, ou falta de, venha a deixar caminho livre à circulação do vírus e a consequente multiplicação de variantes, sob pena de colocar em perigo o resto do planeta.

Agimos na pandemia da mesma maneira irresponsável como fazemos contra o aquecimento climático ; dando de ombros, tentando jogar a nossa parcela de culpa sobre os ombros de terceiros, que insistem em não colaborar com alguns bilhões de dólares.

A diferença agora é que o mundo começa a acordar e rechaçar a chantagem de Bolsonaro, Salles e o rebanho.

No dia 29 de abril, uma equipe internacional publicou um estudo alarmante na revista Nature Climate Change: nos últimos dez anos a Amazônia brasileira rejeitou mais gás carbônico do que absorveu.

Segundo os cientistas, esse dado constitui uma mudança maior e inédita na história da humanidade. Por causa da atividade humana, a Amazônia, que fornecia 20% do oxigênio do planeta, está literalmente morrendo. E nós com ela.

O que fazer antes que seja tarde demais, que tenhamos atingido o “point de non retour”? Por onde começar?

Num primeiro momento, ambientalistas, economistas, e políticos europeus sensibilizados com a causa ecológica propõem o abandono imediato do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Por duas razões:

Antes de mais nada porque não se assina um acordo com um país cujo dirigente viola os direitos humanos e não dá a mínima para os seus próprios engajamentos ambientais. Depois, porque o conteúdo desse acordo é em si uma catástrofe climática, que de acordo com um estudo dirigido pelo economista Stefan Ambec irá acelerar o desmatamento da Amazônia em ao menos 25% nos próximos seis anos, ou seja, de 30 mil quilômetros quadrados de floresta por ano. Isso sem falar na destruição da biodiversidade, explosão das emissões de gazes de efeito estufa, ameaça sobre as populações autóctones e morte de camponeses e pequenas plantações.

Em outras palavras, o acordo provocaria um etnocídio acompanhado de um ecocídio, razões pelas quais Jair Bolsonaro já é acusado no Tribunal Penal Internacional de Haia.

O capitão, encurralado e pressionado, reage da única maneira que sabe: desrespeitando tudo e todos, xingando, dando porrada pra’ tudo quanto é lado. O império da lei, o Estado de Direito, não faz parte da sua definição de Democracia, que começa e termina na eleição. Eu ganhei, logo eu mando. Genocida, nazifascista, um dia responderá por seus crimes, mesmo que um terço do Brasil seja cúmplice da matança e da destruição.

Como disseram os eurodeputados, Bolsonaro não é apenas um perigo para o Brasil, é o inimigo número 1 do mundo