Da minha aldeia vejo o quanto de Terra se pode ver no Universo
Por isso a minha aldeia é tão grande
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura”
(Alberto Caeiro)
Não sei se todo mundo tem a lembrança da primeira noção de que a morte existe, mas eu me lembro perfeitamente da minha. Tem gente que acha a infância uma fase linda e idílica, teimo em não concordar. Porque é o momento que você se sente existindo e tudo, todos os sentimentos, inclusive o estranhamento a vida e perguntas que depois você descobre que nem seus pais podem responder, te atormentam. As brincadeiras e as fantasias, para mim pelo menos, eram uma forma de não pensar naquilo que nem eu, nem ninguém, tinha respostas. Um interlúdio.
Eu tinha uma cachorra, a Petit. Ela acabou cruzando com o cachorro da vizinha e eu via sua barriga crescendo, sabia que em breve teríamos cachorrinhos. Petit pariu debaixo da cama. E eu, que nada sabia sobre a ferocidade das mães, ao protegerem seus rebentos, mesmo quando são doces, como era Petit, quis pegar um dos filhotinhos recém-nascidos e por pouco não levei uma mordida. Um adulto me explicou que enquanto eles fossem pequenininhos, era para deixá-la amamentando em paz. Mas minha vontade era tão grande de pegar um filhote que desobedeci. Fui devagarzinho para a toca, e vi que havia um filhote a parte dos outros. Sozinho, largado num canto, enquanto os irmãos mamavam avidamente Senti um misto de pena, pelo abandono do bichinho, de alegria , porque poderia ver e acariciar o filhote e uma certa raiva da Petit, como se ela estivesse excluindo um filho da ninhada por não gostar dele. Então me aproximei devagar, ela não rosnou e peguei esse filhote. Só que alguma coisa estava errada. Fiz carinho, ele não se mexia. Estava rígido. Tentei abrir os olhos e só vi opacidade. Tentei colocar em pé e ele caía. Ele permanecia imóvel.
Chamei meu pai , nem liguei que podia levar uma bronca , mostrei o cachorro e perguntei o que era. Eu deveria ter uns quatro anos, porque minha irmã era bebê e a Petit foi me dada exatamente pra aplacar meu ciúme. Meu pai, gravemente, do jeito que mantém até hoje quando quer falar de coisas sérias, me colocou sentada na janela. Eu era tão pequena que minhas pernas passavam pela grade de ferro e eu ficava balançando-as. Nervosa, queria uma resposta e aí veio uma explicação que nunca vou esquecer. ”Não tem jeito filha, ele nasceu doente, não tem mais conserto, isso que é morrer”. Aquilo bateu forte em mim e lembro de ter chorado. Porque mesmo não entendendo muito bem, se isso aconteceu com o cachorrinho, acontecia com todo mundo. Achei injusto. Porque eu mal estava me acostumando com a vida, que sempre me causou estranheza e descobria, como já escreveu Clarice:” que também se morre”. Comovido com minhas lágrimas, o céu estrelado, ele apontou pra cima e falou: ”Ele agora virou aquela estrela ali, tá feliz.” Fiz de conta que acreditei. Mas no fundo senti uma enorme pena do meu pai, porque o ceticismo nasceu comigo e achava realmente que ele cria naquilo. Nunca que um cachorro ia virar estrela assim, sem mágica, sem nada. Esse foi o dia que descobri que a vida tinha fim.
Aos poucos fui me acostumando a essa realidade. E com a idade fui vendo os mais velhos da família seguindo o curso natural da vida, outros indo mais cedo do que deveriam, mas há de se encarar. Nunca fui religiosa, nunca tive a experiência do religare, por mais que tenha me esforçado. Não creio em vida após a morte, mas claro que é assunto instigante. Como diz a sabedoria popular: ”Ninguém voltou para contar”. Eis que outro dia caí num documentário da Netflix cujo tema era: pessoas que passaram pela experiência da morte por alguns minutos e voltaram. Um caso que me despertou a atenção foi o de uma gringa, que praticava canoagem com o marido e estava atravessando um rio perigoso em algum país da América Latina. Sei que apesar da perícia dela, não era amadora no esporte, acabou indo pelo outro lado do rio e foi jogada muito longe. Essa moça passou horas debaixo d’água com grande parte dos ossos quebrados. E ela falou que naquele momento, que não conseguia se mover, nem respirar, ter visto os avós, sobre uma luz aconchegante e se lembra da hora de um deles dizer após abraçá-la :”Ainda não é a sua hora”. Foi encontrada ,rolaram varias coincidências como uma ambulância estar passando naquele lugar ermo quando retiraram ela do fundo e tudo foi documentado. Sua longa recuperação para readquirir os movimentos e tal . Aquilo me intrigou, porque eu estive perto da morte. Muito perto. Tive uma pneumonia, logo depois da minha filha nascer, na verdade já era sinal da artrite reumatoide, ainda não diagnosticada. E a bactéria me derrubou. Duas semanas de UTI, com o pneumologista, a infectologista e meus pais tendo certeza que dali eu não escaparia. Sono profundo, soube depois que passei por vários procedimentos invasivos, tudo que vocês estão vendo acontecer nas UTIs agora, passei por coisa semelhante.
Eu fui caindo em mim de uma forma muito estranha. Eu achava que estava numa casa dos anos 70, com tacos de sinteco, e grandes samambaias choronas penduradas no teto. O que me incomodava era o barulho incessante do pi, pi, pi. Aquele barulho que me fez ter consciência de que era um monitor de UTI. Consegui abrir os olhos, vi que estava num lugar asséptico, com uma velhinha nas ultimas ao meu lado. Eu estive a a beira de uma septicemia. Mas assim como a Petit , em dado momento, lembrei que tinha uma cria. E que precisava viver. E surpreendentemente, para espanto de todos, principalmente do pneumologista, fui ganhando força. A minha ferocidade era comigo mesma. Uma parte de mim lutando com a outra. Mas não vi luz, não vi meus avós, porque ate minha experiência de quase morte é fuleira , D’us não capricha no meu roteiro, é incrível. Ao invés de tuneis, abraços saudosos dos antepassados, festas do Grande Gatsby eu caí num cenário daquela série da década de setenta-oitenta, Ciranda Cirandinha. Faltou só a Lucélia Santos de polaina e collant, dançando jazz ao som de Pai, tocada e cantada pelo Fabio Junior, o pai do Fiuk. Vai que cada um tem o que merece né?
O fato é que cá estou para contar a história. Acredito que viva, embora muitas vezes ache que estou penando em algum umbral, tal a nossa dose diária de surrealismo. Tudo isso me veio a mente porque encontrei, em uma caixa antiga de livros, uma edição de 1945, que ganhei de presente em 1994, do livro Novos Contos da Montanha do Miguel Torga. Esse autor, que tanto prezo, nasceu numa aldeia transmontana, vindo de uma família muita humilde. Seu verdadeiro nome era Adolfo Correia da Rocha. Como era normal acontecer em famílias com poucos recursos, aos 10 anos saiu da casa dos seus pais e foi trabalhar num casarão de gente rica no Porto. Era obrigado a usar roupa branca, polir corrimão, ser garoto de recados, todas essas explorações de trabalho infantil que infelizmente conhecemos tão bem nesse nosso Brasil.
Permaneceu um ano nessa função. Até ser demitido. Motivo: INSUBMISSÃO. O outro destino para um garoto pobre , naquele inicio do século XX, para levar uma vida minimamente decente, era entrar para a vida religiosa. Foi para um seminário, onde aprendeu latim, português, literatura, filosofia. Dois anos depois avisou ao pai que essa vida não era para ele. Hierarquia, dogmas, não era esse o seu caminho.
Em 1920 finalmente veio morar no Brasil, na fazenda de um tio em MG e esse tio teve sensibilidade para entender que, pode não ser via de regra, mas insubmissos tendem a ser inteligentes. Ele fez o ginásio e o secundário em Minas e o tio, pelos 5 anos que ele trabalhou na fazenda, custeou seus estudos de medicina na Faculdade de Coimbra. O primeiro doutor da família, mas que nunca, nunca, nunca , abandonou suas raízes. Além de exercer a medicina, atendendo sempre os mais pobres, pessoas sem posses, em seu pequeno consultório, foi no mundo das letras que se encontrou. Como ele escreveu no prefácio dessa minha edição: ”Poeta, prosador, é na letra redonda que tem descanso as minhas angustias”
Navegou por todas as formas literárias, mas a que mais me encanta, talvez por eu achar o gênero mais difícil, é o conto. Seu pseudônimo é uma homenagem a Cervantes (Miguel) e Torga é uma planta que nasce nos lugares mais secos de Portugal. Ela desafia as possibilidades e floresce no meio das pedras. Mais uma vez a palavra ferocidade.
Torga é antes de tudo um humanista. Nesse livro em questão, encontramos personagens com defeitos e qualidades, capazes dos gestos mais vis, mas também dos mais ternos e generosos. Ele dá vida a pessoas simples, que bem poderiam ser de sua aldeia. Não sei de quem é a autoria dessa frase, mas me lembro de um professor proferi-la numa aula, o que me levou a usar a epígrafe do Caeiro. Quanto mais particulares formos, mais universais seremos. E da aldeia do Torga, dá pra se ver o mundo.
Tudo isso na verdade é uma introdução para falar de um dos contos, na minha opinião, mais singulares da Literatura Portuguesa e que inicia o livro. O Alma Grande. A primeira frase do texto é:” Riba Dhal é terra de Judeus”. Uma pequena aldeia, que por motivos óbvios finge assimilar o catolicismo, onde o padre de quando em quando vai visitar, para ensinar o catecismo, falar sobre o Novo Testamento, ensinar o Pai Nosso, a Ave Maria. No entanto, como diz o autor: ”Na destreza com que se desvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar, que por detrás da sagrada Cartilha está plantado em sangue o Pentateuco”. Na hora da morte porém, que é o momento que já nenhum segredo importa, a comunidade é tomada pela aflição de que o doente , na extrema unção, faça a confissão de sua verdadeira crença. E aí que surge o personagem que dá o titulo ao conto: O Abafador. Desses servos de Moisés, palavras do autor, o maior de todos era o Alma Grande. Quando alguém adoecia e sabia-se que a morte era iminente, antes que o padre aparecesse, o Alma Grande era chamado. Ele afastava as pessoas do quarto do doente, passava o braço pelas costas e aplicava o joelho sobre o tórax, ate asfixiá-lo. Era um acordo tácito. Não falado. Mas sempre que havia um moribundo, a preocupação de salvaguardar a comunidade ia além de todo e qualquer princípio e o Alma Grande era chamado. Torga pinta-o como um homem grande, forte, de nariz adunco, solitário, que morava no alto de uma ladeira.
Um dia, o Isaac, um rapaz jovem, adoece. Sua mulher Lia faz de tudo para que ele melhore de uma febre altíssima. O médico da comunidade diz que não vai poder fazer nada, quinze dias febris, a morte era certa. E a Lia, chorosa, pede para que o filho deles, o pequeno Abel, vá chamar o Alma Grande. O menino sobe a ladeira e diz que a mãe quer vê-lo, porque o pai está doente. Na inocência, Abel pergunta :”Mas o que o tio vai fazer com ele?”. Alma Grande, homem de poucas palavras, segue em silencio. Na casa, as pessoas estavam na sala, a Lia desolada e o Abafador adentra no quarto do doente. Mas aí é que tudo muda :”Quando o Alma Grande entrou, o Isaac estava no auge de um combate que quase sempre se trava de corpo estendido. O inimigo era uma parte de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e agradecido a seiva, corajosamente defendia o resto da muralha (…) De nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, a solenidade de tal hora.” Mas por desgraça, o Alma Grande não conseguia enxergar aquilo. Insensível aos mistérios da vida, ele avançou para o leito, com as mãos ao pescoço, com o joelho a arca do peito”, para depois se retirar com sua missão cumprida.
E aí o combate se inicia. O embate entre dois homens. Um a saber que ia matar, outro a saber que ia morrer. Por mais que o Isaac gritasse “Ainda não”, o Alma Grande queria cumprir sua missão. Nessa situação, a porta do quarto se abre. Era o Abel. Ele , o Abafador, não queria testemunhas. “E sem coragem para encarar os arregalados e aflitos olhos do pequeno, que o varavam, silenciosamente, saiu. Atravessou a sala cabisbaixo, longe da grandeza trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida e a vida não lhe dava grandeza”.
O Issac se curou, os dias seguiam normalmente, mas “Só os três sabiam que o drama fora mais negro e mais profundo”. O Isaac queria vingança, o Alma Grande pela primeira vez sentiu medo e o Abel, via apenas a angústia de não entender. Ate o momento que Isaac fez uma tocaia para o Abafador , e sendo mais novo e mais forte, com os olhos implacáveis que viu no Alma Grande na hora da agonia, asfixiou-o. O Abel , que tinha seguido o pai, assistiu a tudo atrás de um penedo. E assim Torga termina:” E, com mais um estertor apenas, estavam em paz os três. O Isaac tinha a sua vingança, O Alma Grande já não sentia medo , e a criança compreendera, afinal”.
Li muitos artigos sobre esse conto, alguns bem equivocados falam sobre eutanásia, outros do Alma Grande como salvaguardor daquela comunidade, mas não é sobre isso que quero falar. É sobre o Alma Grande, sua função e o desprezo pela vida .Muitas vezes, especialmente no episódio de Manaus, com pessoas morrendo asfixiadas por falta de oxigênio, pessoas amarradas as macas por falta de sedativos e o genocida que nos governa conseguindo fazer piada e achar graça disso tudo, esse personagem me veio a mente. Como eu sempre falo, ele tem um verdadeiro apetite por cadáveres. Assim como o Alma Grande, a vida não lhe traz grandeza.
Torga não era religioso. Era humanista. Na sua introdução, pede a nós leitores, que não julguemos seus personagens. Só que além de escritor, libertário, ele era médico e honrava seus juramento. Respeitava a vida. Falava de sua gente que não tinha voz. No prefácio dessa edição, ele escreve sobre sua ida a cidade natal: ”Encontrei tudo como o deixei ano passado. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero”. Se eu não tivesse indicado vocês teriam certeza que foi algum escritor falando desse Brasil distópico de 2021.
Eu respeito a vida. E tenho lisura diante da morte. Não acredito em D’us e todos que me conhecem bem sabem, mas creio , ainda, no humano. Existem pessoas que se esforçam para ser gente, no sentido mais bonito da palavra.. Porque se eu não pensar isso prefiro parar de viver. É necessário um pouco de esperança.
Estamos atravessando uma tempestade sem fim. Desculpem a melancolia do texto, mas perdi gente amada e próxima essa semana, algo que poderia ser evitado. E revolta e angústia são péssimas companheiras. Termino esse texto com algo que constatei hoje. O nosso novo ministro da Saúde, do qual minha única opinião é o fato de integrar esse governo vergonhoso, portanto cúmplice desse horror, tem o sobrenome de Queiroga. Queiroga e Torga são as mesma planta, mesmíssima. A mudança de nome é regional. E ambos, além dos sobrenomes que se assemelham , são médicos. Mas as coincidências acabam aí. Entre um insubmisso anti-salazarista e um capacho de um genocida não tem nem o que dizer.
Uma majestade estranha desprendia-se deste titânico monte de escombros (Victor Hugo, em Os miseráveis)
Na pandemia, andar de metrô virou atitude kamikaze. Os usuários acabam sendo transmissores involuntários da Peste. Lamentando muito, fui obrigado a usar táxi para me locomover. Vou sempre com um motorista conhecido, cuidadoso. Dá para viajar sem muita neura.
Numa das conversas com o taxista, comentamos sobre o contraste entre os dois lados da orla carioca. De um, a maravilha do horizonte azul, enfeitado com ilhas. Do outro, os paredões de concreto, despersonalizados, testemunhas da ocupação predatória dos espaços na cidade. Passando em frente a uma escola municipal na avenida Atlântica, ameaçada de demolição pelo prefeito, para orgasmo dos especuladores imobiliários, ensaiamos um dueto de palavrões em homenagem ao janota que ocupa o Piranhão.
Perguntei ao ilustre motorista se já tinha ouvido falar de Marc Ferrez. Ante a resposta negativa, deitei falação. Marc, brasileiro descendente de franceses, foi um dos mais importantes fotógrafos deste país. Registrou paisagens e gente nos séculos XIX e XX. As imagens da antiga avenida Central, atual Rio Branco, mostram uma beleza arquitetônica de tirar o fôlego. Pois bem, com poucas exceções, foi tudo demolido para dar lugar a prédios comerciais projetados por arquitetos que, pelo mau gosto, mereciam ganhar um bacalhau do Chacrinha.
Com o passar dos anos, os arredores da Rio Branco, ainda em parte habitados (a família de Carmen Miranda, emigrada de Portugal, morou um tempo na região do SAARA), foram sendo abandonados. Muitos prédios de interesse histórico ou de nobreza arquitetônica viraram pouco mais do que ruínas. Hoje, mais de 500 imóveis que contam parte da história carioca no centro estão abandonados ou não passam de cascas na iminência de desabar. Desamor criminoso pela memória urbanística, a consagrar a estética da desolação.
Os escombros do centro ameaçam sentar praça no campus da UFRJ. Há um processo de asfixia orçamentária da instituição, que vem desde 2011. Em 2021, a universidade pode parar. Os recursos disponíveis não serão suficientes para cobrir sequer as despesas obrigatórias básicas. O resultado já se vê nas imagens melancólicas de abandono.
Quando entrei para a Escola de Química, o campus da ilha do Fundão ainda cheirava a tinta. Restos de obra e andaimes eram visíveis. A gente sentia enorme orgulho de estar ali, instituição pública de excelência. Um de nossos professores, Horácio Macedo, foi eleito, anos depois, para a reitoria. Certamente o primeiro reitor comunista das universidades brasileiras. Horácio, professor brilhante, trabalhou para aproximar a comunidade acadêmica do entorno do Fundão. Para os que não moram no Rio, digo que, cercando os prédios da UFRJ, existia uma enorme favela horizontal, a Maré, com barracos assentados em palafitas. Quem frequentava o campus, convivia diariamente com aquele exemplo da obscena desigualdade social brasileira.
Fotos mostram o Bloco A, portão de entrada para os cursos de engenharia, inteiramente degradado. Como estarão os laboratórios que me viram como protótipo do professor Pardal, de jaleco, a sentir aromas inusitados e a me encantar com as cores mutantes que habitavam tubos de ensaio e erlenmeyers?
Navegava nestas divagações, quando ouvi um som familiar. Surpreso, percebi que um vizinho ouvia a rádio MEC. Será possível? Era a Valsa triste, de Sibelius. Não podia ter melhor trilha sonora para o que escrevo. Esta cidade, que esconde minhas pegadas, maltrata minhas memórias, abraça meus descaminhos, rima beleza com tristeza. Ou, como diria Monsueto, “mora na filosofia, pra quê rimar amor e dor?”.
Todo antissemita tem um amigo judeu. É uma característica deles. Se dizem contra o Estado Nazista de Israel, contra os judeus que lá vivem, são sempre antissionistas fervorosos. Os de esquerda em especial não sabem que foi graças as armas fornecidas pela Checoslováquia, um satélite comunista da então União Soviética, que Israel pode vencer a guerra da Independência. Mas isto já é outra história.
Mal acabou mais um conflito entre Israel e Gaza e novamente os antissemitas de plantão fizeram a festa carregando consigo os que de boa fé apoiam um Estado Palestino. Foram 219 mortos em Gaza e 10 em Israel, o suficiente para acusar o Estado Sionista de genocídio. O fato de que desta vez tudo explodiu com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, é apenas um detalhe. Que o conflito interessava politicamente o atual governo israelense e o Hamas, outro mero detalhe.
Vejamos entretanto o que está acontecendo no mundo para se ter uma ideia da desproporção dos ataques que inundaram o Twitter com a hashtag #hitlertinharazão. Sim, muita gente de esquerda que se diz apenas antissionista, ajudou a subir esta hashtag.
De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, PMA da ONU, Mais de 31 milhões de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar na África Ocidental e Central. Ela pede uma ação imediata para evitar que a falta de comida cause uma situação de catástrofe
A agência alerta que a temporada de escassez vai de junho a agosto deste ano, antes da próxima colheita. Vocês sabiam disso? Estão ajudando a evitar a fome deste contingente humano?
Ainda na África, centenas de moçambicanos estão tentando escapar da violência dos recentes ataques de grupos armados extremistas islâmicos, em Palma. Eles estão encontrando abrigos temporários com apoio do governo de Moçambique, da ONU e parceiros internacionais.
A Organização Internacional para Migrações, OIM, informou que até a quinta-feira, quase 14 mil pessoas foram cadastradas num Centro de Trânsito e Acolhimento em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. As chegadas aumentam a cada dia. Algum antissemita, ou antissionista está apoiando os grupos extremistas islâmicos contra o governo de Moçambique?
Seis anos de conflito no Iêmen já deixaram 80% da população abaixo da linha da pobreza. O país enfrenta a maior crise humanitária do mundo: 66% da população precisa de assistência para sobreviver e 16 milhões de pessoas sofrem com a fome. O conflito armado já matou e feriu mais de 100.000 pessoas. Vocês que atacam os judeus, estão ajudando a população do Yêmen?
Vamos falar de Myanmar. Segundo o El País, “Mergulhado há décadas em várias guerras civis com guerrilhas formadas por minorias étnicas, Mianmar vê aumentarem as possibilidades de um conflito maior ante a espiral de violência e anarquia gerada após o golpe de Estado de fevereiro passado. Com mais de 500 mortos pelos ataques de policiais e militares contra os manifestantes que pedem a volta da democracia, e a fuga de milhares de birmaneses a países como Tailândia e Índia, o país enfrenta um dilema impossível: ou se opor ao Tatmadaw ―o Exército birmanês― ou se render ante os golpistas. A segunda opção tem sido descartada por algumas das guerrilhas mais poderosas da antiga Birmânia, que, em diálogos com o Governo civil na clandestinidade, concordam em se unir para formar um exército federal que possa afastar do poder as forças armadas do general golpista, Min Aung Hlaing.” Onde está a esquerda para apoiar o povo de Mianmar na sua luta por democracia?
E a Síria onde o conflito deixou em 10 anos mais de 380 mil mortos e levou 1,5 milhão de refugiados Sírios a abandonarem o país? Nas eleições presidenciais desta semana, Bashar Al-Assad ganhou com incríveis 95% dos votos. Posso estar equivocado, mas penso não ter visto nenhuma manifestação de qualquer partido político brasileiro, ou de seus líderes contra esta fraude.
Para fechar, que tal a gente falar da Bielorrússia? Lá, Alexander Lukashenko tem sido o seu presidente desde 1994. Em todas as eleições ele ganha sempre com ampla maioria dos votos. Na última, realizada em 2020, venceu com 80% . A população bem que tentou protestar, mas não recebeu nenhum apoio internacional contundente. Esta semana o país voltou as manchetes ao sequestrar um avião da Ryanar para deter um jornalista de oposição e sua companheira. Novamente preciso perguntar aqui quantas manifestações da esquerda contra este ato de terrorismo de estado foram vistas?
Hora de voltar a falar do “Meu Amigo Judeu”. É verdade que existem comunidades judaicas em quase todos os países do mundo, em maior ou menor número. Elas costumam ser organizadas e atuantes em seus países. Os judeus são sempre uma pequena parcela da população, mas parecem representar muito mais do que são de fato. No Brasil são cerca de 100 mil, mas há quem diga que foram eles que elegeram Bolsonaro.
Como todo grupo social, existem judeus de todo tipo: religiosos e laicos; sionistas e não sionistas; de esquerda e de direita; ricos e pobres; torcedores dos mais variados times de futebol; de todos os gêneros; enfim, são iguais a todos os grupos sociais que compõe a sociedade. No entanto, a direita antissemita tradicional e a esquerda antissemita de ocasião enxergam somente o judeu rico que apoia o Estado de Israel que por sua vez estaria cometendo um genocídio contra o Povo Palestino.
Antes de apontarem o dedo para Israel com uma ilação destas, me falem dos Yanomami, dos povos indígenas dizimados por vocês. Amoin Akuká, o último indígena da tribo Juma, morreu aos 86 anos por Covid-19 no início do ano. Milhares de outros indígenas morrem por doenças levadas por garimpeiros que invadem suas terras. Uma tribo inteira deixou de existir. Onde vocês estão enquanto estas coisas acontecem?
Nunca escutei amigos da esquerda me dizerem que tem um amigo índio. Nem que tenham um amigo moçambicano, nem que tenham conhecidos do Yêmen, ou da Síria, tampouco da Bielorrússia. Mas já tive vários que diziam ter “um amigo judeu“, que no caso era eu! Abandonei a amizade de todos eles quando acusaram os judeus pelo genocídio do povo palestino. Uma mentira repetida ao estilo nazista de Joseph Goebbels. E há quem acredite. E de esquerda!
Siegfried Elwanger, o famigerado dono da Editora Revisão dedicada a publicação exclusivamente de literatura antissemita e autor do livro “Holocausto, Judeu ou Alemão:”, em sua defesa no processo em que fui parte contra ele, alegava não ser antissemita e que inclusive tinha “amigos judeus“.
A esquerda antissemita é igual a direita islamofóbica. Muda apenas para quem o preconceito é dirigido. A mesma retórica. O racismo é da natureza humana, não importa a ideologia. Nisto, esquerda e direita, direita e esquerda, são a mesma coisa para quem sofre os ataques. Não existe país no mundo que não sofra deste flagelo.
Para deixar claro: genocídio cometeu a Turquia contra os Armênios com 1,5 milhão de assassinatos. Os Tutsis contra Utus com 800 mil assassinatos em Ruanda. O Kmer Vermelho no Camboja contra seu próprio povo com cerca de 3 milhões de mortos. Os nazistas contra os judeus com 6 milhões de mortos. E mais recentemente, Bolsonaro contra seu próprio povo com 450 mil mortos.
A despeito de tudo, eu sigo acreditando em um futuro Estado Palestino em Gaza e na Cisjordânia. Temos de retomar o diálogo, pois só ele pode trazer a solução para o conflito. A violência só trás mais violência e o ciclo precisa ser quebrado. Precisamos de parceiros para sentar a mesa. Países que não escolhem lado, que não apontam o dedo, que mostrem o que pode nos unir, não o que nos divide.
Estamos cansados de tudo isso. Não queremos mais seguir enterrando nossos mortos a cada nova batalha de uma guerra que nunca terá um vencedor. Nós israelenses não vamos desaparecer. Eles, os palestinos não vão sumir. Estamos condenados a uma vida em comum, temos uma única escolha a fazer, se ela será em paz, ou em guerra.
A maioria dos dois povos sempre escolheu o caminho da paz. Então nos ajudem a encontrá-la. Nos mostrem o caminho e permitam que o tempo do ódio fique no passado e o futuro seja de convivência em harmonia para os dois povos.
Talvez semana que vem surja um novo governo em Israel e Bibi finalmente vá para a oposição. Um governo de união nacional com partidos de esquerda, de centro e de direita apoiados por um partido árabe que vai dar sustentação. Se somos capazes de reunir forças tão distintas, tão diferentes, acredito que sejamos capazes de retomar as negociações de paz em um futuro próximo.
Esta é a melhor resposta para vocês e o seu preconceito.
“Existem no Brasil apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o Carnaval”
(Barão do Rio Branco)
Em maio de 2020, quando contávamos com aproximadamente 23000 mortos pela Covid, o Ministro Celso de Mello liberou o acesso ao vídeo da reunião ministerial ocorrida no do dia 24 de abril desse mesmo ano, no Palácio do Planalto. Tal resolução se deu por conta do quiproquó do então Ministro da Justiça Sérgio Moro com Jair Bolsonaro. Moro acusou o presidente de tentar interferir na Polícia Federal e o vídeo seria uma prova disso, portanto o que aconteceu nessa caterva foi liberado para todo o cidadão brasileiro.
Movida por meu estoicismo patológico, não apenas assisti a reunião inteira, como escrevi, na época, sobre as minhas impressões. Um Ricardo Salles achando que a covid era uma ótimo negócio para, segundo ele, passar a boiada. Naquele momento apenas um projeto, mas parabéns, seu plano de destruição em todos os sentidos tem dado super-certo. Vi uma Damares histérica falando sobre seringais (o que me despertou o tiozão adormecido no centro do meu ser, o que o seringueiro fica fazendo na mata?…o resto vocês completam), os planos do então Ministro do Turismo Marcelo Alvaro Antonio (nome fantasia, o verdadeiro é Marcelo Henrique Teixeira Dias),de transformar o Brasil numa terra de jogatina, ministro este que acabou rodando por corrupção das brabas, daquelas que não dá pra botar glacê em cima e por mandar bilhetinho malcriado para o General Ramos. Na época eu, inocente, me queixei dele arrebentar meus tímpanos de tanto falar SEJE. Não imaginava que algo pior pudesse atingir meus sensíveis ouvidos. Mas Bozo nunca decepciona né? Entrou em seu lugar Gilson Machado, o ministro sanfoneiro, aquele mesmo que a cada tecla que aperta do acordeom Gonzagão e Dominguinhos se reviram no túmulo e que ao tocar Asa Branca numa live do presidente para homenagear os mortos, acabou por torturar os vivos.
Teve de um tudo naquela reunião. Tarcísio comparando Bozo a Churchil e Roosevelt, Bozo explicando para o médico e morto-vivo Teich sobre a cloroquina e como usa-la, Weintraub antes da fuga falando em prender os Ministros do STF, Paulo Guedes revelando que tem o dom da profecia ao falar “o Brasil vai surpreender o mundo”, entre outras coisas observadas que agora já não fazem muito sentido repeti-las. De todos ali, porém, só livrei a cara de certa maneira do ex na época Chanceler, Ernesto Araújo, aqui repito minhas palavras: Tivemos a prova que o Chanceler merece verdadeiramente o título de Ministro das Alucinações Exteriores, o caso ali é grave e sem querer ofender os loucos, passível de internação. O papo do Brasil sentar a mesa com as nações mais importantes para definir os rumos da nova ordem mundial foi a coisa mais delirante que ouvi nessas minhas quase duas horas de sofrimento. E olha que o páreo ali estava duro.”
Passado um ano , destituído do cargo, quatrocentos mil mortos depois, o ex-chanceler foi chamado a depor na CPI da covid. Até então eu não havia tido a oportunidade de vê-lo falando ao vivo. Ernesto muito tinha a responder, principalmente no que se refere a intrigas com o embaixador chinês , o que acabou por prejudicar a nós brasileiros pelos atrasos dos insumos para a produção da vacina. Com o carisma de uma cama enferrujada abandonada em um quintal, suas respostas eram evasivas, levava o nada a lugar nenhum, gaguejava, tropeçava, não completava o raciocínio. Levou uma bela carcada da Senadora Katia Abreu, sendo chamado por ela de bússola para o caos. Teve um momento que ele (acredito que num delírio) disse “Minha gestão atendeu perfeitamente os interesses brasileiros no que se referiu a pandemia”. Ali minha certeza se confirmou, ele não deveria estar sendo inquirido por uma CPI e sim por uma Junta Psiquiátrica.
Resolvi então saber um pouco mais sobre esse senhor e o que o levou a ocupar o posto de chanceler de nosso país. Em abril de 2019 a Revista Piauí fez uma longa reportagem sobre ele. A gagueira e as falas irresolutas não foram provocadas pelo nervosismo de estar numa CPI. O autor da matéria, ao traçar ser perfil, diz ”Tem modos inseguros, voz discretamente desafinada, forma hesitante de se expressar, com emprego sistemático de eeee, perfeito, exato, ótimo, ou exato, após ser questionado por qualquer pergunta. “
Seu pai foi procurador da República do RS, mas mesmo com sua carreira no MP, foi eleito quatro vezes como deputado estadual .Apoiador do golpe de 64 foi nomeado Procurador Geral da Republica de Ernesto Geisel em 1975. Ernesto estudou em colégios católicos tradicionais de Brasília, na matéria diz que seu refúgio era a literatura e tinha facilidades com línguas. Aos dezessete anos lançou um livro de poemas: Ocidente. Pensava em ser professor de grego, para nosso azar optou pela carreira diplomática e para a sorte da poesia brasileira parou de cometer versos.
Seus antigos chefes,, embaixadores de renome, elogiam seu trabalho enquanto a função que escolheu exercer. Escrevia relatórios, se aplicava com afinco a questões comerciais internacionais, ainda que as achasse tediosas. Cumpridor de horários, de serviço, um homem culto e que nunca havia misturado sua vida pessoal a sua vida profissional. Casado com uma secretária filha de embaixador respeitado, que veio a conhecer em Berlim, nada a se falar sobre ele.
Contudo em 2018 publicou um artigo: ”Trump e o Ocidente”, na revista semestral do IPRI, de mais de trinta páginas. .Uma exaltação ao trumpismo, onde questões como imigração (ser um absurdo), investidas contra a Revolução Francesa, a defesa fervorosa a nacionalidade e se colocar contra o que ele chama de globalismo, foram o cerne dessa ode ao Cabelo de Cenoura . Aí fica fácil. Pelas mãos de Felipe Martins, o falso judeu cujo tio trambiqueiro vendeu uma rocha dizendo ser um pedaço de terra na Escócia para Uri Geller, o suposto paranormal da década de setenta que costumava entortar garfos e colheres usando a força do pensamento e Dudu Bolsonaro, Ernesto chegou ao astrólogo de churrascaria na Virginia. E POR ELE foi indicado ao presidente da República para ser nosso chanceler.
Não sei se já comentei em alguma crônica anterior, mas em 1967 a Globo fez uma novela chamada Anastácia, a Mulher Sem Destino. Escrita inicialmente por Emiliano Queiroz, por conta da profusão de tramas paralelas e pela quantidade de personagens, nem a audiência, nem os atores entendiam mais nada. Alguém da direção gritou: ”Chama a Janete Clair, que ela resolve qualquer coisa!” Como a história se passava numa ilha vulcânica, a idéia foi fazer uma erupção monumental, assim todos os personagens morreram, sobrando só uns três para Janete recomeçar a novela do nada. Quando me vejo falando de falso judeu assessor internacional da presidência, tio barão estelionatário, Olavo de Carvalho comandando os destinos de uma nação, tenho ímpetos de gritar: Chama a Janete!
Ernesto quis mexer com uma instituição, que mesmo nos piores momentos brasileiros, sempre teve como conduta a ponderação e o diálogo. Ele, no seu texto trumpista, diz que o globalismo quer destruir os valores cristãos, da família, da Sociedade Brasileira”. O que acharia disso o Barão do Rio Branco…. Aquele que contrariando os desejos da família, de fazer um bom casamento e ascender socialmente, lutando contra um destino traçado, afinal era nada mais que filho do Presidente de Conselhos de Ministros, apaixonou-se por Marie Philomene Stevens, moça belga chegada sozinha no Brasil, solteira e sem família , e que se virava sendo corista secundária num espetáculo de can can can num Cabaré do Rio de Janeiro??? ..Com ela teve vários filhos e casou-se.. Gostaria de saber a opinião do diplomata sobre isso.
Não sei o que será resolvido no caso do ex-Chanceler. Por mais que acreditasse nas suas ideias paranoicas, o estrago que causou ao país, ao próprio Itamaraty, foi irreparável. Que foi cúmplice dessa infâmia, não tenho a menor dúvida e carregar quatrocentos mil mortos nas costas por loucura ou não, não livra a cara de ninguém. So espero, sinceramente, que ele não dê continuidade a sua carreira de escritor ficcional. Para quem não sabe, depois de cometer poesias, esse senhor lançou três obras ficcionais:” A Porta de Mogar” (1998), Xarab fica ( 1999) e Quatro 3 (2001).Lançados pela editora Alfa Ômega. São livros de poucas páginas, porém os enredos são ininteligíveis. Amigos, na maior boa vontade, me mandaram resenhas sobre eles, para enriquecer meus conhecimentos. Tentei. Até li trechos. Mas, como falei em uma postagem, não são obra para uma simples professora. Eles devem ser encaminhados a quem tem formação psiquiátrica. Pura psicose. E esqueçam Artaud, ao contrário do francês, ele não tem o menor talento. Fica aqui, para finalizar, uma frase do brioso diplomata na CPI: “Quem não sabe para onde está indo, não pode escolher o melhor caminho”. E a minha resposta para ela: Foi assim que você nos meteu nesse poço fundo. Sem mais.
Entre os livros sobre a Segunda Guerra Mundial, há os que narram histórias incríveis ocorridas na retaguarda, como o Kaputt. Livro escrito pelo jornalista italiano Curzio Malaparte, que esteve presente na invasão alemã da Europa Oriental. Numa obra com mais de quatrocentas páginas, repleta de acontecimentos dramáticos, a mais famosa do livro, ocupa quatro páginas. É uma história sobre um oficial nazista que tinha um olho de vidro, que comandava um pelotão em 1941 na Ucrânia. Transcorreu durante a ofensiva alemã que deu início à derrocada do poderoso Terceiro Reich.
Havia bandos de guerrilheiros nos bosques e nos brejos ao longo do rio Dniepre e se escutavam tiros e, às vezes, rajadas de metralhadoras. Uma coluna de artilharia alemã percorria uma aldeia silenciosa, com cavalos mortos, alguns amarrados num clima sinistro. Um oficial cavalgava a frente de seu grupo num entardecer cinzento, quando se escutaram tiros de fuzis. Os tiros dos guerrilheiros desencadearam reação imediata do oficial, cuja ordem foi de pôr fogo em toda a aldeia.
As casas de madeira começaram a queimar e logo tudo foi dominado pelo fogo, os tiros foram diminuindo de intensidade. Havia muitos mortos estendidos no chão, alguns alemães tombaram, e de repente, no meio da fumaça, aparece alguém correndo com as mãos para cima. Logo o guerrilheiro é agarrado e percebem que é um menino, de não mais de dez anos, magro, sujo, com a roupa esfarrapada e o rosto preto de fumaça. O oficial olha o menino e lembra que em Berlim tem um filho com uma idade parecida, e chama um intérprete que fala russo e pergunta:
– Por que atiraste contra os meus soldados?
O menino fica quieto e a pergunta é repetida algumas vezes até que ele responde com calma, sem medo, com certa indiferença, em posição de sentido.
– Já o sabes, por que me perguntas?
– Sabes quem são os alemães? – pergunta o oficial.
– Acaso tu também não és alemão? – replica o preso.
O oficial, irritado com as respostas, decide matar o menino, mas de repente muda de ideia e, incomodado, diz ao prisioneiro:
– Eu não quero fazer-te mal, és uma criança, eu não faço guerra às crianças, mesmo que tenhas atirado contra os meus soldados. Escuta, eu tenho um olho de vidro. Se souberes dizer, sem ficar pensando, qual dos dois olhos é o de vidro, ponho-te em liberdade.
– O olho esquerdo.
– Como conseguiste percebê-lo?
– Porque, dos dois, é o único que tem qualquer coisa de humano.
Essa história revela a coragem e a sagacidade de um menino de dez anos que vale a pena conhecer. E a humanidade do oficial, que deu uma chance para o jovem guerrilheiro viver, portanto, há militares capazes de humanismo. Malaparte conclui assim o capítulo: – Todos os alemães têm um olho de vidro.
O Brasil está sendo atacado tanto pela pandemia como pelo governo mais olho de vidro da sua história. O passado elitista do país retornou com uma frieza mortífera assustadora. Um povo abatido começa expressar seu desejo humanista, em busca de justiça, numa sociedade em que a liberdade e a segurança nacional sejam para todos. A história do menino corajoso em plena guerra, me fez lembrar que há vida no meio das dores e mortes. É preciso despertar da letargia, lentamente nos levantaremos para não sucumbir a mediocridade. A construção de uma vida poética passa das decepções a imaginação de novos horizontes.
O Brasil teve um governo progressista por 8 anos com o Presidente Lula. Não se pode dizer que o sistema tenha sido socialista, mas pode-se afirmar sem medo de errar, que não foi nada próximo do neoliberalismo. A ele se seguiu o governo de Dilma Rousseff que foi retirada do poder em um golpe branco dado por ex-aliados.
O golpe não só tirou o Partido dos Trabalhadores do poder, como foi responsável pela ascensão e fortalecimento da operação Lava Jato que culminou na prisão de Lula e na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições que se seguiram.
Tanto o golpe, como as ações da Lava Jato tiveram o apoio incondicional da mídia brasileira. Mesmo baseado em fatos de duvidosa comprovação, a Presidente Dilma foi deposta com a ovação das ruas. A Lava Jato foi elevada ao patamar da Operação Mãos Limpas na Itália, seus membros aclamados como heróis e o Juiz Sergio Moro proclamado como o Super-Homem no combate a corrupção e endeusado quando da prisão de Lula, sob os aplausos da população. Não foi necessária provar nada, bastaram convicções.
A seguir vocês elegeram Jair Bolsonaro como novo presidente e abraçaram o fascismo como sua bandeira. Ninguém poderia dizer que desconhecia as intenções de Bolsonaro. Elas eram todas conhecidas desde há muito. Sua expulsão do exército e sua carreira como parlamentar inepto eram de conhecimento público, assim como o que pensava sobre os negros, mulheres e LGBTs. Todos sabiam que ele é um apoiador da tortura.
Ainda assim, vocês optaram por colocar no poder uma família miliciana e se orgulham de tê-lo feito. Bolsonaro não existe como presidente, faz o que quer, descumpre as leis, incentiva o uso de medicações perigosas e sem nenhum efeito prático para combater a pandemia, ri dos mais de 400 mil mortos, ataca o poder judiciário e ainda assim vocês o adoram.
Em outros países, políticos eleitos que tiveram atitudes parecidas foram derrubados do poder. Mesmo em meio a pandemia, multidões lutam por seus direitos, mas não no Brasil. Aí as ruas são ocupadas por vocês para apoiar Bolsonaro. O presidente pede, e vocês saem para pedir um golpe militar com ele presidente.
Em todas eleições os mesmo políticos conhecidamente corruptos voltam a ser eleitos. É patético como vocês aceitam com placidez aquela frase de políticos de Repúblicas das Bananas: “Eu roubo, mas faço”. Mesmo aqueles que nada fizeram além de roubar os cofres públicos, são reeleitos.
Por incrível que pareça os abusos policiais são apoiados por vocês. Ações policiais como a do Jacarezinho são admitidas como legítimas. Todo pobre e favelado já foi, é ou será um ladrão. Sendo assim, ladrão bom é ladrão morto. Ninguém se importa com isso e não se vê nenhuma manifestação nas ruas exigindo que os responsáveis sejam punidos.
O Brasil é fascista. O mundo hoje trata o país com desdenho, e por conta do descontrole sobre a pandemia, como um pária internacional. Nenhuma nação quer receber vocês. O seu passaporte se tornou um sinônimo de vergonha.
Aquele país do samba, futebol e carnaval não existe mais. Multinacionais com anos de investimentos no Brasil estão indo embora, e com razão. Elas planejam seu futuro com antecedência e o Brasil não tem nenhum. Hoje todos querem distância de vocês.
Um país que ataca seu principal parceiro comercial e fornecedor de insumos para produção das vacinas contra a Covid-19, não se dá o respeito. Mesmo com a perda de seu principal mentor, Donald Trump, Bolsonaro continua se “pavoneando” como se tivesse alguma relevância no trato diplomático internacional.
O brasileiro é fascista. Um povo que elege e mantém no poder um Jair Bolsonaro, não tem outra denominação que não esta. Vocês o elegeram, vocês o veneram, vocês são o suporte para todos seus devaneios. Ele não teria saído do esgoto de onde veio não fosse com o seu apoio.
O mundo não vai perdoar vocês. Não vai perdoar o que vocês estão fazendo com a Amazônia, não vai perdoar com o que vocês estão fazendo com os povos indígenas, não vai perdoar vocês por assassinarem os que defendem os Direitos Humanos.
Em breve vamos assistir ao surgimento de movimentos que inicialmente vão iniciar o boicote aos produtos brasileiros para logo boicotarem as universidades, os artistas, os times de futebol e tudo mais que tenha relação com o Brasil. O mundo livre não suporta fascistas.
Não concorda?
Se você, leitor de esquerda chegou até aqui, se acalme. Sei que a esta altura deva estar indignado, afinal de contas você não votou nele, não coaduna com suas ações e muito provavelmente participa de ações contra o seu governo.
Agora você deve fazer uma ideia de como é que nós, israelenses sionistas socialistas, que toda nossas vidas combatemos o fascismo nos sentimos quando você fala de Israel de maneira generalizada. Aqui também combatemos o governo fascista de Benjamin Netanyahu, somos a favor de um Estado Palestino e contra todo tipo de violência.
Quando você acha que Israel está fazendo algo errado, saiba que é muito provável que nós também achamos . Mas nós combatemos o governo, não o país que é composto de cidadãos de todo espectro político.
Assim como existem brasileiros de esquerda resistindo ao governo fascista de Bolsonaro, existem israelenses de esquerda resistindo ao governo de Bibi. Quando Israel é bombardeada, nós também sofremos com isso, somos parte da população. Compreendemos perfeitamente que do outro lado da fronteira o sofrimento é o mesmo.
Não seja mais um antissemita que usa seu discurso antissionista para verbalizar todo seu racismo e seu ódio aos judeus.
Pense nisso na próxima vez que se manifestar contra o conflito. Precisamos de vozes que compreendam os dois lados, que sejam parceiros dos dois povos, que levem as lideranças dos dois povos a buscarem um acordo de paz com justiça. Todos nós deploramos a violência e temos direito a vida.
Finalmente temos um cessar fogo e torcemos para que ele seja permanente. Basta de mortes, basta de terror e destruição. Somos de esquerda, somos antifascistas.