Muitos antissemitas acusam os judeus de tentarem monopolizar o Holocausto, como se outros não tivessem perecido na segunda grande guerra mundial. Quem faz esta afirmação não tem a menor ideia do está falando. Por isso, hoje, vou tentar colocar um pouco de ordem nesta história.
Sim é verdade que os nazistas mataram também ciganos, comunistas, LGBTs, deficientes e membros de outras minorias. Também é verdade que o número total de mortos é algo entre 70 e 80 milhões. Neste número estão incluídos mais de 20 milhões de soviéticos. Estes números incluem soldados, civis e outros em decorrência da guerra. Em todos os países envolvidos no conflito existem vítimas.
Aqui a primeira lição: a guerra envolveu países, Israel não era um país. Os mortos eram soldados e/ou cidadãos de países que combateram os alemães, ou se aliaram a eles. Foram 2000 brasileiros que perderam a vida. Sim, o Brasil entrou na guerra.
Os nazistas criaram vários tipos de campos: de prisioneiros, de concentração e de extermínio. Os campos de prisioneiros, como o próprio nome diz, abrigavam combatentes capturados em batalhas, ou que se renderam. Os campos de concentração abrigavam civis para trabalhos forçados. Já os campos de concentração serviam para exterminar pessoas.
Os nazistas resolveram que os judeus do mundo inteiro teriam o que denominaram de “Solução Final”. Criaram uma indústria para exterminá-los da face da terra. Tudo foi planejado para funcionar metodicamente de maneira a matar o maior número possível de homens, mulheres e crianças no menor tempo possível. Havia o transporte, chegada, preparação, entrada nas câmaras de gás, recolhimento dos corpos e sua incineração. Isto é o que acontecia nos Campos de Extermínio. Trabalho industrial.
Ao final da guerra, 6 milhões de judeus haviam sido mortos, entre eles, 1,5 milhão de crianças. Parte da minha família entre eles. Se salvaram antes da guerra, minha avó materna com seu marido e um de seus irmãos. Depois da guerra encontram um sobrinho e ninguém mais.
Nunca antes na história da humanidade houve algo assim. Nunca um regime criou uma máquina de matar voltada a extinguir da face da terra uma população dispersa pelo mundo. Os judeus não tinham seu país, eram parte das populações de diversos países e onde se encontravam foram perseguidos para abate pelos nazistas.
Para este acontecimento, único e indescritível não existia uma palavra que o pudesse descrever. Assim foi denominado de Holocausto. Ela significa tudo o que aconteceu, ela não pode ser utilizada para nenhum outro acontecimento pela simples razão de que nada se iguala a ele. Não dizemos Holocausto Judeu, a simples menção da palavra significa a tragédia judaica na segunda guerra.
Os alemães se achavam uma raça superior, mas não pretendiam exterminar outros povos além dos judeus. Não havia uma máquina trabalhando para aniquilar membros de outras minorias. Ao invadirem um país, os alemães perseguiam os judeus e não membros de outras minorias.
Outra grande mentira disparada pelos antissemitas é de que o Holocausto foi a razão da criação do Estado de Israel. Ora o movimento sionista surgiu no século XIX, antes ainda da primeira grande guerra mundial. O Holocausto ajudou na luta pela criação e independência do Estado de Israel, sim contribuiu também, mas não foi o acontecimento derradeiro.
É por tudo isto que nós não apreciamos quando se tenta banalizar o Holocausto. Praticamente não existe família judaica no mundo que não tenha perdido parentes mortos pelos nazistas. Não aceitamos que o termo seja comparado a outros acontecimentos, pelas razões expostas acima. Holocausto nunca mais.
Existe uma prática abominável de antissemitas tentarem equiparar o termo com a tragédia de outros povos, como a do povo palestino com a qual me solidarizo completamente. Alguns comparam sionismo a nazismo e gritam sobre o Holocausto Palestino. No fundo é o ódio aos judeus, o mesmo ódio que levou um idiota ao poder e depois a uma guerra com todas as consequências conhecidas.
Nestes últimos dias houve um surto de manifestações antissemitas por influencers e políticos. Em comum a defesa de uma pessoa ser nazista. Todos tentaram remediar o que disseram. Alguns negando que sejam nazistas ou antissemitas, outros alegando seu apoio incondicional ao Estado de Israel. Para um deles a culpa foi do álcool. Em comum o fato de que suas manifestações foram amplamente combatidas por entidades judaicas e não judaicas. A sociedade já consegue discernir o que existe por trás de tais afirmações.
O Holocausto nos trouxe muitas lições, a maior delas é de que sabemos reconhecer o preconceito de longe e não compactuamos com ele. Somos solidários com os negros e todas as minorias perseguidas.
Não existe meio nazista. Quem acredita que dar voz a eles é liberdade de expressão é um sem noção do que seja democracia e do que diz a constituição brasileira, como a de centenas de outros países. Todas condenam a apologia ao nazismo por representar um regime que não aceita a democracia nem a liberdade de expressão. Dar voz a um idiota, sempre acaba mal.
Por isso, vale a pena chamar atenção para as próximas eleições no Brasil. Já vimos o que acontece quando elegemos um idiota tupiniquim. Felizmente os tempos são outros, no entanto, as consequências para o país serão difíceis de serem reparadas. Que ele seja varrido de volta para o esgoto de onde nunca deveria ter saído.
Eu escrevo artigos há muitos anos. Já fui censurado, sofri inúmeras tentativas de me impedirem de escrever, mas resisti a tudo e a todos. Continuarei escrevendo enquanto sentir prazer em fazê-lo. No dia que perder esta vontade incontida de colocar as palavras no papel e publicá-las, paro e vida que segue. Mas será uma decisão minha, não uma imposta por alguém.
Quando escrevo, sinto que compartilho meu pensamento. Não tenho nenhum objetivo além de dar a quem me lê uma oportunidade de saber o que me passa na mente naquele momento. Diferentemente de muitos outros companheiros das letras, eu escrevo de supetão. Todo sábado pela manhã, reservo um tempinho para isso. Escolho um tema e as palavras vão sendo tecladas no computador. Concluído, eu o publico. Sei de outros que o fazem com muito mais tempo e dedicação, maturando a ideia, escrevendo, apagando e reescrevendo até que estejam felizes com o resultado para publicação. Não é o meu caso.
Eu não diria que meu “estilo” seja melhor ou pior que os demais. Apenas conto a vocês que me leem. Acho que merecem saber como crio meus artigos e que toda crítica é bem-vinda, ou quase todas. Escrevo sobre muitos temas. Em uma semana posso falar de política brasileira, em outra de política israelense. Posso tratar de um assunto específico ou ser genérico. O que existe em comum, é que meu campo é o de esquerda, minha ideologia é de esquerda, minha visão de mundo é de esquerda.
Nos anos 80 eu tive a experiência de viver em uma fazenda coletiva de Israel, um Kibutz. Vivi o socialismo na prática, uma vida onde o bem maior é o coletivo, onde todos trabalhavam, na medida do possível onde desejavam, mas recebiam o mesmo salário e tinham os mesmos direitos. Nas assembleias gerais tudo era votado e decidido de acordo com a vontade da maioria.
Eu participei de todas as campanhas a presidência de Lula. Ajudei a eleger o primeiro vereador do PT de Porto Alegre, Antônio Hohlfeldt. Trabalhei voluntariamente nas campanhas de Flávio Koutzi para deputado, entre outros. Sempre votei em candidatos do PT em todas eleições para todos os cargos eletivos.
Falo tudo isto para esclarecer que se somarem 1 + 1 será possível compreender que sou judeu, sou sionista e sou socialista. Isto é o que me define como ser humano. E claro que esta definição atrai a ira de muita gente. Por ironia do destino, tanto da direita como da esquerda. Uma espécie de Geni, como na canção de Chico Buarque.
Muita gente lê minhas publicações no Brasil 247 onde sou colunista. Tenho inclusive leitores fanáticos que aguardam ansiosamente pelos sábados. São assíduos comentaristas de tudo o que escrevo, mas seus comentários tem um teor agressivo e antissemita. Eu nunca respondo e, no entanto, toda semana eles estão lá.
Um deles, não importa o tema, sempre escreve que Israel não tem o direito de existir porque somente judeus recebem a cidadania. Ele repete isto como um mantra toda a semana mesmo que eu tenha falado sobre o sexo dos anjos. O interessante é que trabalho com um israelense muçulmano. Meu genro que é católico, acaba de chegar em Israel e deve receber a cidadania em cinco anos, que o tempo que leva todo o processo para aqueles que não são judeus e desejam a cidadania israelense. Nada diferente de outros países com relação aos estrangeiros que buscam se naturalizar em outros países. Israel aceita a dupla cidadania, ao contrário de outros países como o Japão, por exemplo.
As vezes também recebo comentários assim: “O anti semitismo vem desde os tempos dos faraós.
Quem dava golpes, que tipo de cabeça da comunidade dava golpes nos faraós, nos sacerdotes, nos comerciantes e outras classes ricas daqueles tempos?
O que resultou no primeiro Holocausto e na expulsão de toda a comunidade do país dos faraós, praticamente TODOS inocentes das canalhices perpetradas pelos cabeças gananciosos e doentios.
Que tipo de cabeça deu o golpe da Bolsa de 1929/30, jogando na miséria mais de 60% do povo americano e demais países capitalistas?”
Também existem os que escrevem: “Judeu de merda, me dá teu endereço, que eu covardemente vou te visitar com 5 amigos armados, cada um com duas pistolas carregadas, quando botar duas pt na tua cara, e meus comparsas na cara dos teus filhos pequenos e esposa, aí tu vai entender o que um palestino sente contra um inimigo armado e covarde.”
São comentários pontuais que não representam o conjunto dos leitores. Eu os trago neste artigo para ilustrar o que existe dentro da esquerda. Uma amostra do sectarismo na nossa trincheira. Eles se dizem de esquerda, há quem concorde. Felizmente uma minoria que extrapola toda a nossa humanidade como esquerdistas que lutam por um mundo melhor.
Neste ano teremos finalmente a chance de trazer Lula de volta a presidência e eu, mesmo de longe vou estar fazendo mais uma vez campanha para ele e candidatos do PT. E vocês?
Se existe uma coisa capaz de unir a esquerda e a direita, é o antissemitismo. No entanto, o combate ao antissemitismo não unifica a esquerda e a direita judaica. O episódio Lúcia Helena Issa é um bom exemplo.
O negacionismo empregado pela jornalista no programa Um Tom de Resistência, em nada se difere de outros utilizados em programas de direita. São os mesmos termos, a mesma narrativa, o mesmo propósito. Só que desta vez, foi em uma mídia de esquerda.
Como os antissemitas fazem isso, está descrito no meu artigo da semana passada, onde mesmo sem nominar o antissemita de ocasião, mostrei como eles se expressam, sempre generalizando e sempre procurando meios de parecerem empáticos. O método é conhecido.
Claro que não poderia faltar a solidariedade da Fepal, uma entidade palestina que sacrifica uma postura representativa dos palestinos brasileiros em nome da defesa das teses antissemitas e conspiracionistas que foram expostas por Lúcia. Mas não foram somente eles, também houve judeus que se manifestaram a favor dela. Talvez aqui a prova maior da diversidade comunitária judaica.
Para quem não sabe, muitos judeus lamentaram a morte de Olavo de Carvalho, um antissemita notório. Ou seja, eles não são a regra, mas a exceção. Todas as entidades judaicas progressistas, ou não, até mesmo a Conib, a entidade máxima, foram unanimes na condenação do que foi ao ar.
O Brasil 247, depois de haver retirado preventivamente o programa do catálogo, manteve a decisão de não trazer de volta. Mais do que isto, além de publicarem as notas de repúdio das entidades judaicas, promoveram um programa com Michel Guerman e Beatriz Kushnir. Nele foram explicadas didaticamente as posições antissemitas que haviam sido colocadas por Lúcia no programa anterior.
Como bem explicaram os convidados, os termos utilizados pela convidada eram antissemitas. Um mix de verdades com meia verdades. Uma confusão de números sem nenhuma prova de sua veracidade. Informações descontextualizadas e pérolas do preconceito contra judeus.
O mote do programa original era uma suposta máfia judaica israelense com 150 anos de atuação no tráfico de mulheres. Aqui já se percebe onde isto vai dar. Se Israel tem 73 anos, como é que já existia uma máfia judaica israelense 77 anos antes? Tudo bem, ela se confundiu, mas onde? Na idade da máfia, na sua composição, na sua atuação, onde está a confusão? E dali em diante, tudo é uma trama conspiratória, digna dos Protocolos dos Sábios do Sião.
Pelo que disse Lúcia, uma máfia judaica israelense formada por judeus russos que receberam a cidadania em Israel, seriam responsáveis pelo tráfico de mulheres com a finalidade de as prostituírem. Assim sendo teriam enviado ao Brasil as Polacas, judias polonesas trazidas para o Rio de Janeiro. E no sentido contrário, brasileiras para Israel. Tudo acobertado pela comunidade judaica brasileira e pelo governo de Israel. Em meio a isto e aquilo, nomeou dois judeus pedófilos, um brasileiro e outro americano, para mostrar que esta seria uma característica judaica.
Fora do tema do programa, mas dentro do conceito antissemita geral, adentrou para a questão do sionismo com exemplos de atrocidades cometidas contra os palestinos, cuja crueldade seria outra característica dos judeus. Nenhum antissemita que se preze vai deixar de atacar Israel, isto é uma norma.
Claro que ela não poderia deixar de mencionar seus amigos judeus, outra norma em qualquer exposição antissemita. Também falou sobre o respeito pelos judeus mortos no Holocausto, afinal era preciso mostrar um pouco de humanidade. Pelos judeus vivos, nenhuma empatia, ou em outras palavras para quem ainda não compreendeu: judeu bom é judeu morto.
Cabe então um questionamento óbvio sobre os amigos judeus da Lúcia. Se eles não são religiosos, porque ela os chama de “judeus”? O antissemita é cheio de contradições. Elas existem por sua incapacidade de conectar suas ideias em mundo real. Seu mundo é constituído de uma visão distorcida da realidade que só faz sentido na cabeça deles. Neste mundo, os judeus são uma unidade na qual todas as mazelas humanas existem e por isso lhes deve ser negada a existência.
Mas a cereja do bolo é sua crença de que não existe uma nacionalidade judaica, judaísmo é uma religião. Este é um ponto importante na narrativa dela, pois se assim fosse, Israel não poderia existir e todos nós, judeus ateus, somos uma aberração antropológica. Fora assim e os nazistas não teriam se dado ao trabalho de tentar extirpar o povo judeu da face da terra. E como judeus, entendiam como sendo aqueles descendentes de até 3 gerações, mesmo os convertidos a outras religiões, ou totalmente agnósticos.
Somos apenas 0,2% da população mundial. Mas o antissemita nos faz parecer 99,8%. Para eles, este número ínfimo tem a capacidade e os meios para dominar o mundo. Nos atribuem uma importância desproporcional e disforme. Não existe precedente como este na história da humanidade.
Eu vivo em Israel e posso garantir que é um país como qualquer outro. Aqui existem coisas maravilhosas e outras nem tanto. Corrupção de políticos, temos. Assassinos, temos. Ladrões, temos. Pedófilos, temos. Tráfico de drogas, temos. Cidadãos de segunda categoria, temos. Racismo, temos. Extremistas de direita, temos. E a lista segue.
Mas existe muita coisa boa também. Eleições livres, temos. Preocupação com o meio ambiente, temos. Maior número de veganos no mundo por habitantes, temos. Invenções que beneficiam a humanidade, temos. Tratamento médico universal, temos. Saneamento básico e água tratada para quase toda a população, temos. Tratamento do lixo, temos. Educação gratuita, temos. ONGs e entidades civis por um Estado Palestino, temos. Judiciário independente, temos. E a lista segue.
Tudo isto para dizer que somos um povo como qualquer outro e um país com gente maravilhosa que vive e deixa viver, que se importa com o próximo, com a paz com justiça para o povo palestino e os árabes israelenses. Gente que é militante nos grupos pela conciliação e convivência entre todos os habitantes deste território.
No imaginário da maioria das pessoas, o antissemita é quele sujeito branco, de cabeça raspada, de baixa escolaridade, supremacista que ataca judeus, negros gays etc. Tudo que não esteja de acordo com a sua visão de mundo.
Escutar uma senhora letrada, que escreve para diversos jornais, viajada, escritora etc., falando dos judeus, deve ser verdade o que ela diz. No entanto, quando se presta atenção a suas falas, percebe-se que algo está errado, não se encaixa, não faz sentido.
Um bom exemplo é o que fez o Estadão há poucos dias em seu editorial atacando Lula. O jornal atacou p ex-presidente de maneira torpe, senão vejamos um trecho:
“Considerando tudo o que o PT fez e deixou de fazer ao longo de seus 40 anos de existência –muito especialmente, no período em que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estiveram no Palácio do Planalto–, uma nova candidatura petista à Presidência da República não deveria suscitar entusiasmo na população. A legenda que supostamente seria progressista, ética e renovadora da política percorreu um caminho muito diferente, colecionando casos de corrupção, aparelhamento do Estado, apropriação do público para fins privados e políticas econômicas desastradas” …
Vejamos agora desta maneira:
“Considerando tudo o que os judeus fizeram e deixaram de fazer ao longo de seus 3000 anos de existência –muito especialmente, no período recente em que foram aceitos para viver em diversos países–, um novo crime cometido por eles deveria suscitar repúdio na população. Os judeus que supostamente seriam progressistas, éticos e renovadores da ciência percorrem um caminho muito diferente, colecionando casos de corrupção, tráfico de mulheres, pedofilia, apropriação de bens públicos para fins privados a fim de tirarem proveito de políticas econômicas desastradas” …
Como é simples manipular as palavras em proveito próprio. O Estadão “esqueceu” tudo de bom que aconteceu nos governos petistas, e a lista é longa. Poderiam até minimizar parte delas, mas nunca poderiam deixar de mencionar dados que são fatos comprovados.
Da mesma maneira agiu Lúcia. Ela mirou em fatos por vezes verdadeiros, por vezes lendas urbanas para atacar os judeus. Não menciona o que pode ser tomado como algo positivo, e a lista também é longa, para fixar seu ódio na ação de um grupo judeu que representa todos os judeus do mundo. Ela faz com os judeus o que o Estadão fez com Lula e o PT.
Lúcia Helena Issa representa muito bem este papel de uma nova geração antissemita que se encontra na esquerda, mas que poderia muito bem estar do lado de lá. Faz muito tempo que o ódio aos judeus deixou de ser característico da direita e passou a ser parte da esquerda também. Nós, judeus de esquerda vivenciamos isto todos os dias.
Temos os mesmos ideias de mundo e ansiamos por um Brasil livre de Bolsonaro. Lutamos por justiça social, contra as políticas neoliberais que aumentam o fosso entre ricos e pobres. Sonhamos retornar o país ao seio das nações em desenvolvimento. Mas ainda assim, não somos aceitos por uma parcela da esquerda.
Existe um longo caminho ainda a ser percorrido para que o antissemitismo seja compreendido como o preconceito mais antigo do mundo.
Falar do Brasil e de brasileiros é falar de um país racista e de um povo preconceituoso. A última eleição onde 57 milhões de brasileiros votaram em um presidente que nunca escondeu o que pensa dos negros e dos índios, escancara porque o Brasil foi o último país das Américas a acabar com a escravidão. Acabar só no papel, é claro.
Brasileiros são bolsonaristas e o bolsonarismo é primo irmão do nazifascismo. Uma ideologia que levou a morte mais de 40 milhões de civis durante a segunda guerra mundial.
No Brasil existe um verdadeiro apartheid contra os índios, um genocídio de estado, uma verdadeira limpeza étnica que vai levar ao desaparecimento da população original, os verdadeiros donos do país.
De acordo com a Funai, no ano de 1500, quando os Portugueses encontraram a América do Sul (não se pode falar em descobrimento de um território já habitado), haviam 3.000.000 de índios divididos em 1000 povos diferentes. Em 1650, apenas um século e meio depois, eram 700.00 e em 1957, 70.000.
Os brasileiros destruíram aldeias, escravizaram índios, que preferiam a morte a viver como escravos, tomaram terras e continuam as invadindo. Até os dias de hoje continuam tratando os índios como cidadãos de segunda classe.
E o que dizer com relação aos negros? Trazidos da África, vendidos para se tornarem escravos no Brasil, permanecem até os dias de hoje baixo um regime racista e opressor. Nas cadeias brasileiras dois em cada 3 presos, são negros. Entre a população pobre, eles representam 75%, 3 em cada 4 brasileiros em situação de pobreza é negro.
Somente no Brasil um dos maiores jornais publica artigo sobre Racismo Reverso, uma tentativa torpe de um brasileiro escrevendo que existe racismo de negros contra brancos.
O Brasileiro é o povo mais racista do mundo. Não me entendam mal, nem todos são racistas. Tenho vários amigos brasileiros que discordam desta situação, pessoas maravilhosas. Eles próprios concordam que a maioria dos seus pares, são racistas e denunciam esta situação.
Mas como se não bastasse, a quantidade de pedófilos brasileiros é assustadora. Toda semana a polícia descobre novas quadrilhas de brasileiros molestadores de crianças com ramificações internacionais. Isto sem falar na Igreja Católica Brasileira, um antro de pedofilia com milhares de padres envolvidos em abusos de crianças. Brasileiro, cristão e pedófilo, uma bela combinação.
Não posso deixar de mencionar os crimes contra a comunidade LGBT. O brasil é o país que mais mata pessoas LGBT e trans no mundo. Segundo o Grupo Gay da Bahia, um LGBT é morto a cada 19 horas e segundo a Rede Trans Brasil, uma pessoa trans é morta a cada 26 horas (dados de 2021).
Também não vamos esquecer da exploração de bolivianos trazidos para trabalhar no Brasil em situação de escravidão. São milhares de imigrantes atraídos por salários melhores que vivem como sub-humanos trabalhando até 16 horas por dia, sete dias por semana em troca de comida e acomodação entre ratos.
O brasileiro também pratica o tráfico internacional de mulheres. Elas são atraídas principalmente a partir da Venezuela e da Guiana. É em Roraima onde mais ocorre esta atividade trazendo mulheres em situação de vulnerabilidade para se tornarem prostitutas, escravas sexuais e obrigadas a se drogarem.
Milicias, crime organizado, tráfico de drogas e venda de proteção são típicas do Brasil. Ali se mata uma vereadora e o crime fica insolúvel. Policiais invadem favelas matando civis inocentes e não existe punição. Um juiz prende e condena um ex-presidente sem provas para tirá-lo da disputa de uma eleição. Ele se torna Ministro da Justiça do candidato vencedor. Seu julgamento é anulado pela suprema corte por parcialidade. Este brasileiro continua livre, leve e solto e candidato a presidência da república.
Existem atualmente 118 brasileiros sendo procurados pela Interpol, onde quer que se encontrem, acusados dos mais variados crimes. Destes, 59 por crimes hediondos como estupro de vulnerável. É realmente de chorar.
Vejam o caso do jogador Robinho. Um brasileiro que participou de um estupro coletivo contra uma jovem que lutou por justiça. Foi condenado a nove anos de prisão e parece que vai ficar impune vivendo no Brasil, o paraíso dos estupradores.
O Brasil destrói a Amazônia, o pulmão do mundo sem a menor cerimônia. Está condenando o mundo a um cataclisma e ajudando no aquecimento global que altera o clima com consequências já a vista de todos.
Mesmo diante de uma pandemia global com milhões de mortos, mais de 600 mil no país, o brasileiro prefere escutar seu presidente negacionista a escutar a ciência. Tratam o Covid como uma gripezinha e ajudam a disseminar novas variantes pelo globo que vão causar mais mortes e manter o ciclo da doença.
Com tudo isto, é incrível como esta situação não é discutida nos órgãos internacionais, nem mesmo na ONU. O Brasil consegue esconder embaixo do tapete toda esta nojeira que envolve desde o brasileiro comum, até autoridades civis, militares e eclesiásticas. Mostra para o mundo o futebol, carnaval e samba. Mas ali dentro o que se vê é de horrorizar qualquer defensor dos direitos humanos. O Brasil deveria ser varrido do mapa.
Quem chegou até aqui já deve estar com o estômago embrulhado, e não é para menos. Todos os dados contidos no artigo são verdadeiros e podem ser confirmados. Alguns dados foram propositadamente omitidos para permitirem uma “coerência” na narrativa. Meias verdades, linguajar apelativo e alguns exageros também foram utilizados, como fazem os antissemitas.
O que me fez escrever este texto foi o antissemitismo praticado tanto na direita, como na esquerda que generaliza tudo o que acontece com um judeu, como sendo a norma entre os judeus. Como eu acabo de fazer com relação aos brasileiros.
Claro que também existem judeus racistas, homofóbicos, a favor de uma Grande Israel, contra os palestinos, pedófilos, traficantes etc. Esta é a norma em todos os povos do mundo. Mas isto não faz todo judeu um deles, assim como não faz todo brasileiro um igual entre os descritos acima.
O fato de generalizarem quando se trata de judeus, é típico dos antissemitas. Pode-se ser contra a política de um país e até discordar em quem votaram para presidente, mas isto não me faz odiar os habitantes do país, ou desejar que seja destruído. O antissemita é uma praga, um ser desprezível como todo racista, homofóbico e misógino e como tal deve ser tratado.
Quando escrevo que tenho amigos brasileiros, uso de sarcasmo. É por que todo antissemita diz ter amigos judeus. Faz parte da sua justificativa moral para o ódio e faz com que o interlocutor o veja como um ser humano normal. Nada pode ser mais falso do que isso.
Procurei utilizar em relação “aos brasileiros”, a mesma linguagem dos antissemitas contra os judeus. A mesma forma de generalização, de acusar, de expor o ódio. Posso trocar Brasil e brasileiros, por Israel e judeus na maioria das menções como consta, ou com pequenas alterações de lugares e tudo ficaria igual. O discurso de ódio deles é o mesmo.
A verdade é que não se trata de brasileiros ou de judeus. Em todas as sociedades vamos encontras pessoas do bem e pessoas do mal. Nenhum país é perfeito e em todos os lugares existem problemas locais. Cada povo tenta superar seus males e vencer seus problemas para que se possa viver em paz com dignidade e justiça. No fim das contas somos todos humanos, com tudo que existe de bom e de ruim.
Cabe a nós, socialistas e humanistas progressistas nos unir contra todo tipo de discriminação, não permitir a disseminação da política de ódio entre nós e combatê-la com toda a nossa força. Um mundo melhor é possível.
Estamos vivendo um mundo cheio de mudanças que nos são anunciadas dia a dia. Enquanto a maioria de nós ainda não pode usufruir das redes de celular 5G, já falam dos benefícios da 6G. Computadores quânticos voltaram a ser tema de vários artigos e o Metaverso parece que vai revolucionar as relações entre o mundo físico e o virtual.
Claro que tudo isto ainda é, ou será inicialmente para poucos. Como todo avanço tecnológico, leva um certo tempo até que a maioria da população possa usufruir. Houve um tempo em que ter uma linha telefônica custava uma fortuna, os primeiros celulares eram proibitivos e as TVs de parede custavam o preço de um carro.
Como tudo neste mundo capitalista em que vivemos, as coisas se resumem entre oferta e demanda. Novos lançamentos começam com pouca oferta e alta demanda. É o momento paradisíaco de todo capitalista, quando ele obtém rapidamente o retorno do seu investimento e depois, quando a oferta aumenta, tudo é lucro.
Isto também vale para o momento em que estamos vivendo. A pandemia mostra perfeitamente a frieza capital do mundo em que vivemos. No começo uma simples máscara custava alguns dólares a unidade! Hoje custam centavos. O mesmo com tudo que se relaciona ao Covid, incluindo aí as vacinas que salvam vidas. Não seria diferente com a desgraça humana.
Se o mundo é assim, temos nossa parcela de culpa. Não importa se vivemos em países democráticos, ditaduras, sob regimes de esquerda ou de direita. A maioria dos seres humanos é consumista e seu desejo por conforto (em todos os sentidos), é igual para todos. O lançamento do último modelo de um aparelho celular atrai multidões. Eventos grandiosos para seu lançamento e pré-vendas do que ainda não chegou ao mercado são anunciadas, as vezes com meses de antecedência, sempre com interessados.
Enquanto tentamos manter o mínimo da vida que tivemos há dois anos atrás, o danado do vírus insiste em nos lembrar quem é o dono do pedaço atualmente. Sem nenhuma vergonha ele vai mudando sua aparência como alguém que troca de roupa, e se faz anunciar com toda pompa que ainda está aqui. Como um vizinho indesejável, ele sabe fazer barulho.
Nem bem acabamos de tomar nossa valiosa dose de vacina e já nos dizem que temos de tomar mais uma dose. Eu tomei a primeira e na sequência a segunda como programado. Então me avisaram que deveria tomar um reforço como terceira dose e agora, como indicado aos maiores de 60 anos, mais um reforço, ou quarta dose. Se continuar assim, serão três doses ao ano, uma a cada quatro meses.
Nada contra continuar tomando picadas de injeção, desde que eu continue prevenindo a doença na sua forma mais grave. As vacinas atuais não previnem totalmente o Ômicron, mas a diferença entre vacinados e não vacinados é grande. Por enquanto, praticamente todos que foram a óbito são não vacinados. Quem se vacinou, tem sintomas leves e passageiros sem sequelas.
Eu continuo fazendo o possível para ser parte do grupo que no futuro vai contar que não ficou doente. Sigo as orientações de vacinação e não saio de casa sem máscara, uso até mesmo para caminhar na rua. Estou trabalhando de casa faz uma semana e pretendo continuar por mais uma ou duas, a depender da situação aqui em Israel. Atualmente nos aproximamos dos 50.000 novos casos ao dia, mas os pessimistas já nos falam de que podemos chegar a 300.000!
Muito já se aprendeu com esta pandemia. Infelizmente ainda não é suficiente, mas para alguém que aprende a dirigir já sentado na direção e acelerando, muito deste aprendizado já ajuda os especialistas e responsáveis na tomada de decisões. O que aconteceu é que se antes o carro andava devagar e permitia um aprendizado mais confortável, agora ele está acelerado a 120 k/h e os experts precisam reagir rapidamente aos percalços do caminho. Eles fazem o que podem.
Estou recebendo notícias de amigos e conhecidos que se infectaram recentemente com esta nova onda. Pessoas vacinadas, que se cuidam e se achavam protegidas. Muitas ainda sem compreender como se contagiaram. O importante é que até aqui, todas elas falam de sintomas leves e plena recuperação. A lição que fica é de que basta dar uma chance ao azar e o pilantra do ômicron te pega! Não vacile.
Em meio a tudo as pesquisas seguem apontando que Lula é líder absoluto em qualquer cenário, com ou sem ômicron, digo, com ou sem qualquer um dos pretensiosos ao cargo. Uma chance muito grande de levar a faixa no primeiro turno. Para que isto não mude, se cuidem, todo voto conta e vamos precisar de todos os votos. Vacinem-se e continue usando máscara.
Pensei no que deveria escrever no primeiro dia de 2022, o ano que não passou. O calendário diz que sim, mas tudo o que vem acontecendo neste ano que passou ainda vai custar a passar.
É verdade que algumas coisas são definitivas, ficamos um ano mais velhos. Perdemos amigos queridos, gente que não vão mais nos dar o ar da sua companhia. A pandemia continua aí, muda o nome da variante, mas é a mesma Covid-19 com uma nova denominação.
Eu acho que todos tivemos bons e maus momentos neste ano que passou. Em outra época recente as comemorações seriam muito mais intensas, muito mais alegres trazendo esperança de dias melhores que imaginamos chegar com a renovação do ano. A gente aguardaria pela virada para abrir a espumante e bater taças com as pessoas queridas, abraçaria até desconhecidos e desejaria de coração um Feliz Ano Novo.
Vivo em um país onde o calendário mostra nesta data a mudança de ano civil, onde não existe feriado e as comemorações são feitas em grande parte por imigrantes de outros países como eu. Os israelenses se juntam pela festa, e ninguém se importa com o trabalho no dia seguinte. Alguns já avisam antes que vão faltar.
A virada de ano é um acontecimento global de fato. Os telejornais mostram os países que já estão em 2022 e todos fazem sua retrospectiva do ano que passou. No que se refere aos que nos deixaram, melhor nem falar. Tivemos menos guerras, mas as tragédias climáticas nos lembraram que este tema continua sendo urgente a ser melhor tratado por nossos políticos.
Neste restinho de ano no Brasil, mais do mesmo. O presidente que não trabalha saiu para passear sem passar a presidência para o vice. Quem já não fazia nada, continuou e quem não apitava nada, continuou também. Nem as inundações na Bahia tiraram o presidente do seu ócio costumeiro. Enquanto milhares de pessoas continuam desabrigadas, ele passeia de Jet-ski da marinha e visita parque de diversão em Santa Catarina, afinal ninguém é de ferro.
Em Israel, no último dia do ano, um assalto espetacular contra uma empresa privada de cofres privados. Assaltantes invadiram o local, amarraram o vigia e saquearam os cofres. Como na maioria deles existia “dinheiro não contabilizado”, acredita-se que pouca gente vá prestar queixa. Alegria de uns, tristeza de outros.
A gente sempre tenta fazer um balanço do que fizemos, nem todos conseguem, nem todos se prestam a isso. Eu Procurei ser solidário com o próximo nos piores momentos, levantar a moral dos companheiros quando tudo parecia perdido, ajudar com uma palavra amiga quem precisava de um agrado e não deixar de escrever. Escrever me faz sentir vivo, ter um propósito.
Todo sábado pela manhã, salvo raras exceções, me sento no computador para escrever meu artigo do final de semana. As vezes já venho com o assunto pronto na minha cabeça, as vezes um comentário sobre algo que passou e eventualmente me sento com a mente limpa, livre para passear por diversos assuntos que vão surgindo como gotas de uma chuva que vai cair.
Espero neste ano que recém nasceu continuar escrevendo e recebendo críticas a cada texto. Sou daqueles que escreve tudo de uma só vez. Em cerca de 30 minutos já coloquei no papel o que tinha para dizer e em seguida publico. Não sou de ficar mexendo no texto, escrevo de supetão e as palavras vão sendo escritas como se estivesse me escutando falar. Este é o meu estilo.
Hoje o dia amanheceu cinza aqui em Hadera, onde moro. Nuvens cobrem o céu. Já choveu durante a noite, parou e deve recomeçar a qualquer momento. Deixo a vocês que me leem um abraço apertado, um desejo que 2022 seja um ano com muita saúde, amor e solidariedade. Que tenham mais um pouco de paciência, não percam a esperança por dias melhores e comecem a contagem para a mudança. Lula vem aí.