Eleições em Israel

Eleições em Israel

“Precisamos manter este governo até o fim de sua cadência. Diante dos desafios de segurança que enfrentamos, não podemos ter eleições agora”. Benjamin Netanyahu há cerca de 10 dias.

“Em maio do próximo ano vamos concluir os indiciamentos do Primeiro Ministro Benjamin Nathaniel”. Procuradorgeral Avichai Mandelblit, há uma semana.

“Vamos para as eleições em 9 de abril do próximo ano”. Benjamin Netanyahu, há poucos dias.

Israel está indo para novas eleições e tudo está em aberto. Dizem que Bibi vai conseguir mais um mandato, mas muita água está passando por baixo desta ponte e em política, as alianças se formam e se desfazem conforme sopram os ventos.

Bibi, como ele é chamado aqui, é um articulador nato e um político de carteirinha. Um sujeito que escreve seus discursos com a pausa para os aplausos. Sabe manipular os desejos do povo como ninguém e faz a mesma coisa com seus parceiros de coalizão.

Uma das maiores preocupações dos israelenses é com a sua segurança. Bibi sabe muito bem disso e cria os monstros de acordo com a sua necessidade. Desta maneira, o Iran se tornou a principal ameaça, seja pela possibilidade de ter uma Bomba Nuclear, seja por uma invasão por terra através da Síria e assim aparece nos nossos pesadelos.

Ainda não inventaram uma Bomba Atômica seletiva, assim sendo, jogar uma bomba destas em Israel, significaria aniquilar também a população árabe a palestina. Uma invasão por terra através da Síria não teria a menor chance de sucesso pela distância para reabastecimento de suprimentos para as tropas.

Também temos os túneis do Hezbolah que seriam teoricamente usados para invadir Israel. Também algo um pouco exagerado. Os túneis poderiam permitir a passagem de uns quantos guerrilheiros, mas o quanto isto seria efetivo em uma batalha, é a grande questão.

Enquanto o Bibi nos mostra os monstros no armário, ele tenta esconder os problemas que está enfrentando com vários prováveis indiciamentos por recebimento de propinas em troca de favores. Crimes que podem leva-lo para a prisão, e para evitar que isso aconteça, ele precisa ganhar a eleição e dar em troca sua alma para que os partidos de sua futura coalizão não o abandonem depois dos indiciamentos.

O cara é muito popular. Mesmo com o grande descontentamento de suas bases que achavam que ele devia jogar duro com o Hamas em Gaza e o desgaste natural de quem está muito tempo no poder, diante da possibilidade de os partidos de centro-esquerda voltarem ao poder, são capazes de votarem nele.

Ele tem as mãos sujas com o sangue de Rabin. Foi ele quem permitiu o clima que se criou e acabou levando um jovem extremista a cometer o crime. Ele poderia ter evitado isso se tivesse o pudor de separar sua ambição política do clima de incitação contra a esquerda vivido no país. Isso faz lembrar outro lugar?

Estamos diante de várias possibilidades. Sem indiciamento Bibi vence as eleições com provável facilidade, segundo os analistas políticos. Com indiciamento a coisa muda completamente. Se ele vencer, o povo vai estar dizendo que a lei é que está errada e isso seria algo com consequências dramáticas para a democracia.

O jogo vai durar cerca de 100 dias e neste período muita coisa vai acontecer. Novos e antigos líderes estão se movimentando e um fato qualquer pode significar a glória ou a decadência. Muito cedo para se dizer com certeza quem vai acabar sentando na cadeira de primeiro ministro.

O Inverno está chegando

Dois jovens soldados acabam de ser enterrados. Cenas da despedida da família e dos amigos são de rachar o coração. Por que isso acontece, é a pergunta que precisa ser respondida.

Os dois soldados foram mortos surpreendidos pelo o que Israel chama de terroristas palestinos do Hamas. Estavam nos territórios ocupados. Lá existem cerca de 600 mil colonos que ocupam terras palestinas e precisam de segurança. É o exército que provem esta segurança.

Semana passada, em outro episódio de violência, uma mãe grávida perdeu seu bebe que precisou ser retirado depois que ela foi baleada em uma parada de ônibus.

Estas foram as vítimas mais recentes do nosso lado. Os palestinos contam as suas no que é um círculo de violência sem fim.

Aqui as coisas funcionam da seguinte maneira: o governo reclama que a Autoridade Palestina não ajuda a manter a segurança, e por segurança entenda-se a dos colonos que já passam de 600 mil ocupando terras palestinas. Querem que os palestinos vivam e deixem viver, como se nada mais fosse importante.

Quando a situação está calma, o governo planeja mais construções nas terras palestinas e reclama que a Autoridade Palestina não quer a paz.

A liberação de construções faz o caldo ferver e logo surgem episódios de violência. Então o governo reclama que a Autoridade Palestina não quer a paz.

Em resumo, nada do que a Autoridade Palestina fizer, ou deixar de fazer vai mudar o cenário e eles já se deram conta disso. O governo israelense quer que o problema palestino desapareça. Que seja ignorado a qualquer custo.

Isso faz com que o Hamas tire proveito da situação. Foi uma célula deles que cometeu os últimos atendados. Fazem isso, não para provocar Israel, mas para desacreditar a Autoridade Palestina perante a população, mostrando que somente eles são capazes de manterem a resistência frente a ocupação e que somente através da força os palestinos podem chegar a um estado independente. O problema no caso é que para o Hamas a Palestina substitui o Estado de Israel.

O Hamas acha que não há com quem conversar em Israel e mostram os fatos como eles se apresentam hoje em dia. Em Gaza o território liderado por eles é uma espécie de Prisão a céu aberto. Tudo o que entra, ou sai, passa pelo crivo de Israel. Aqui pode-se escolher quem veio primeiro ao mundo, se o ovo, ou a galinha. Israel vai dizer que precisa manter esta política de restrição para evitar a violência. O Hamas vai dizer que precisa da violência para se libertar das restrições.

Voltando para a Autoridade Palestina, eles estão diante de dois grandes problemas: precisam enfrentar Israel de um lado e o Hamas de outro. Em meio a isso tudo, uma população dividida entra aqueles que querem levar uma vida normal, viver em paz e buscar seu estado pacificamente, e aqueles que sofrem com a ocupação e querem lutar pelo seu estado por todos os meios possíveis.

Do lado de cá da fronteira, onde existe uma Israel de fato, a população já quase não se preocupa mais com a questão palestina e parece que são os problemas do dia a dia que realmente irritam os israelenses.

Está uma gritaria geral por conta do aumento de preços da luz, dá água, do pão, do leite etc. Já começaram as manifestações contra o governo que prometem se repetir nos próximos dias.

Como curiosidade, os manifestantes estão usando coletes amarelos como os franceses. Os mesmos coletes que utilizam parte dos manifestantes antissemitas na França.

O governo está usando o que mais gosta: das ameaças à segurança do país. Estas ameaças costumam chegar sempre ao nível de sobrevivência nacional. Para isso revelou a existência de 3 túneis construídos pelo Hizbolah, um deles já tendo atravessado a fronteira do Líbano para Israel.

Os túneis estão sendo utilizados para evitar novas eleições, uma espécie de necessidade de união nacional em torno do perigo a nossa existência. Uma desculpa risível que não convence ninguém, mas que serve ao primeiro ministro para tentar se manter no poder em meio aos escândalos de corrupção que vão se somando contra ele.

Enquanto isso nos aproximamos do inverno e uma coisa é certa: não existe guerra nesta estação. Por enquanto, é vida que segue.

Mais uma

O juiz Vallisney Oliveira, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal abriu uma ação penal contra Lula, Dilma, Palocci, Mantega e Vaccari. Eles são acusados de terem recebido cerca de 1,5 bilhão de reais em dinheiro desviado dos cofres públicos. Se fossem compadres e dividiram irmanamente o botim, cada um ficou com 300 milhões de reais.

Convenhamos que estamos falando de muito dinheiro. O Geddel, por exemplo, escondeu 51 milhões de reais em caixas e malas em um quarto de um apartamento. Onde seria possível esconder 300 milhões? Eu poderia sugerir vários lugares, como um apartamento com 6 quartos, uma piscina, um avião desativado etc.

Quem rouba, o faz com um propósito. O ladrão de galinhas, para comer. O ladrão de rua para comprar drogas e assim por diante. Todos tem uma justificativa para roubar, ninguém rouba por roubar.

Um assaltante de bancos já está em outro nível. Ele rouba para sustentar a família. E quer sustentar em alto estilo. Vai comprar imóveis, carros e fazer investimentos.

Os grandes sonegadores também roubam com um propósito. Não querem dividir o lucro do seu trabalho com o governo e preferem gastar o dinheiro destinado ao pagamento de impostos com eles próprios e suas famílias. Também vão ostentar com imóveis, carros, viagens etc.

Em comum a todo mundo que rouba, um propósito que seja. Mas no fim das contas, todos, sem exceção, buscam satisfazer as suas necessidades e sabem que trabalhando honestamente elas não serão satisfeitas. Não no prazo de tempo que gostariam.

Então vamos admitir que os acusados, amicíssimos de longa data, agora no alto escalão do poder tivessem se sentado um dia e, de acordo com seu líder, decidido roubar uma merreca de 1,5 bilhão de reais. Simples assim. Trezentos pra cada um e vida que segue.

O problema quando se lida com uma quantia destas é exatamente o tamanho dela em todos os sentidos. Como se movimenta uma fábula destas? Graças ao Rodrigo Rocha Loures todos nós ficamos sabendo que 500 mil reais é o que cabe em uma mala de mão. Então eles trouxeram cada um 600 malas, dividiram a grana, colocaram a sua parte nelas e saíram andando pela porta da frente.

Tudo bem, trouxeram 200 malas maiores e acomodaram o dinheiro. Ainda assim, convenhamos que seja muita mala.

Voltando então para o propósito. O que dá para fazer com 300 milhões de reais para gastar? Muita coisa, com certeza. Mas têm alguns problemas. Como o dinheiro não tem origem lícita, não dá para sair gastando a “La loca”. Vai ser preciso comprar tudo em dinheiro vivo e não declarar nada. Quando se vem de um berço de ouro, isso se dilui em meio à fortuna original, mas quando a origem não é tão nobre, é como ascender um farol no meio da sala para todo mundo ver de longe.

No caso do suposto líder da quadrilha, sua vida já foi todinha revirada. Tudo que a PF tentou e não conseguiu nestes anos todos desde que ele deixou a presidência, foi tentar encontra um real que não tivesse origem. Tanto assim que acabaram tendo de condenar o homem por um apartamento que quiseram dar para ele. Ou seja, não existe na vida dele, nada que não seja fruto de seu trabalho.

Ainda assim, acusações estapafúrdias continuam surgindo e parecem não ter fim. Outras muito mais fáceis de comprovação e com provas materiais não interessam, ou não merecem atenção quando se tratam de “homens de bem” como Aécio Neves, por exemplo.

O judiciário brasileiro está politizado ou nas mãos de incompetentes. Talvez as duas coisas juntas. São atualmente o espelho no qual o futuro presidente eleito parece olhar para escolher seus ministros. Se for de extrema direita e estiver sendo acusado de algo pelo qual a justiça não se interessa, está aprovado.

Sandice parece ser a bola da vez. Na Idade Média a igreja dizia que a terra era o centro do nosso sistema e que tudo mais orbitava a nossa volta. Muitos morreram ao tentar provar o contrário, outros para não acabarem mortos admitiram a bobagem.

Chegamos ao mesmo patamar. Ainda não estamos sendo jogados na fogueira por dizer o que é certo e lógico, mas em continuar assim logo vamos ser obrigados a admitir que a Revolução Francesa de 1789 foi marxista, mesmo com Marx tendo nascido somente em 1818.

Uma empresa chamada Brasil

Finalmente chegara o grande dia do julgamento. As coisas na justiça são muito demoradas, mas dizem os advogados que precisam ser assim mesmo. Eu não podia reclamar porque comigo ela andava a galope.

Meu caso deveria ser muito simples. Eu trabalhei oito anos em uma empresa chamada Brasil e ela pagava o meu salário. No entanto a empresa afirma nos últimos meses que havia me pago a mais, ou seja, além do que eu deveria receber.

Como podiam dizer isso, eu ainda não entendia. Explico: durante o processo, conseguiram uma ordem de busca e apreensão na minha casa, desbloqueio dos meus sigilos bancários, escutas nos meus telefones e o escambau. Reviraram a minha vida de cima abaixo, de trás para frente, dos meus parentes, dos meus amigos, dos meus cachorros etc. Ainda assim depois de nada encontrarem, lá estava eu sentado como réu.

Confesso que ainda hoje quando penso nisso, me passa na cabeça que aquilo tudo ia acabar em pizza numa grande confraternização entre promotores e advogados. Eu e o juiz repartindo fatias para todo mundo. Não foi bem assim.

Interrogado eu expliquei que nunca havia recebido um centavo a mais do que deveria. Que não tinham uma única evidência disso e achei, sinceramente, que o ônus da prova ainda era da acusação. Claro que me imaginava em um tribunal normal, num julgamento real como manda a lei. Não era bem isso.

Trouxeram uma testemunha, o novo contador da empresa. Ele afirmava que além do salário normal, haviam me pago valores a mais e que eu apesar de saber que estava errado, os recebi sem chamar atenção. Que todos na empresa, desde que ele fora admitido nela, sabiam que aquele dinheiro a mais era destinado a minha pessoa.

Assim que ele terminou, meu advogado perguntou o óbvio: como é que ele pagava além do que devia sem nenhum questionamento? Como é que ele contabilizava estes valores? Bem, segundo ele, quando assumiu o cargo na empresa, foi dito a ele que assim era. Que teria inclusive conversado com a minha esposa já falecida, e na conversa questionado  se ela estava feliz com o que eu trazia para casa no final do mês, ela respondeu que sim.

Neste ponto o juiz me questiona se eu estava a par disso. Minha esposa foi até bem objetiva na sua resposta, mas agora já não podia falar por si. Disse ainda que até onde eu me recordava, ela só poderia ter respondido que estava feliz com o valor do meu salário, que era o que eu levava para casa todo final de mês.

Então veio a maior surpresa. O juiz mostra um holerite encontrado na minha residência, preenchido com o meu nome, com o valor do meu salário e onde deveria constar o valor, havia uma rasura com outro valor. Perguntava ele, se eu reconhecia o tal holerite.

Examinei o papel e perguntei, devolvendo-o ao juiz, se havia alguma assinatura nele. Não esperei pela resposta e falei que se não existe assinatura não tem valor nenhum. Além disso, eu não me lembro dele.

Com isso, o julgamento foi se encaminhando para o final. Na minha ótica, e do resto do mundo, a empresa não foi capaz de comprovar aquela acusação. Não tinham uma única prova cabal do que alegavam. Nem poderiam porque eu nunca havia recebido nada mesmo.

Hoje, sentado na minha cela, lembrando aquele dia, vejo que eu estava enganado. Minha condenação foi publicada poucos dias depois. Eu deveria cumprir pena por apropriação indébita de valores recebidos além do meu salário, mas preciso explicar melhor para que seja compreendido.

Segundo o juiz, eu teria que pagar pelo crime de intenção de receber valores que não recebi. De acordo com ele, o testemunho do contador alegando que havia dinheiro destinado a minha pessoa, mesmo que de fato nunca tenha me sido depositado, além do holerite sem nenhuma assinatura, eram suficientes para comprovar minha intenção de receber dinheiro a mais e, portanto de cometer um crime. E por esta intenção aqui estou.

Eu estava cotado para assumir a presidência da empresa e com a minha detenção isto não foi possível. O novo presidente acaba de tomar posse e já convidou o juiz que me condenou para um alto cargo, prontamente aceito por ele.

Já estava suficientemente indignado quando vieram me informar que ganhei uma cozinha nova daquela empresa, mas como mandaram entregar no lugar errado, um sítio de um amigo, resolveram me processar outra vez. Agora dizem que foram induzidos a erro porque havia um guarda-chuva de minha propriedade no local e exigem que eu restitua tudo.

PS: Meu carcereiro acaba de me avisar que tem um visitante querendo falar comigo sobre a compra do prédio onde sou mantido. Disse que sou o dono porque estou aqui há sete meses sem pagar aluguel com comida e roupa lavada.

Coisas incríveis acontecem nesta empresa.

Quando a realidade superou a ficção

Hoje eu acordei em mundo completamente estranho. Não sabia disso até pegar meu voo para a mesa redonda sobre o Holocausto que eu havia me comprometido a participar.

Tudo parecia normal. Entrei no avião, tomei meu assento e como de costume, coloquei meus fones para ir escutando música e liguei meu leitor de livros para me entreter. Sim, eu me entretenho lendo um livro enquanto estou viajando, e foi aí que tudo começou.

Quando a gente se aproximava do destino, a aeromoça avisou que teríamos um pouco de turbulência porque estávamos próximos da borda do planeta. Achei que não tinha escutado bem devido aos fones com a música, que se referia aquela turbulência normal que acontece às vezes com a mudança de altitude. Então tirei os fones e brinquei com a pessoa ao meu lado, que se a gente continuasse seguindo reto acabaria caindo no espaço. Ela me olhou e respondeu que isso não aconteceria porque o piloto conhecia a rota e que depois de último acidente deste tipo, os aviões haviam sido adaptados para prevenir este tipo de incidente.

Voltando aquele momento, acho que fiz cara de quem não estava entendendo nada, como de fato não estava. Primeiro achei que havia escutado mal, depois achei que tinha feito uma brincadeira, mas ninguém estava achando engraçado e definitivamente o cara do meu lado me olhava com cara de poucos amigos.

O avião finalmente desceu e me dirigi ao local da mesa redonda. Depois de recebido e apresentado aos demais, nos dirigimos ao auditório onde fomos recebidos pelo público. O tema me era próximo e eu o único judeu da mesa. Fui o primeiro a falar e durante os primeiros dez minutos tudo corria bem quando a coisa desandou. Eu falava das origens do Nacional Socialismo e como um país extremamente desenvolvido e com uma democracia plena havia aderido ao regime de extrema direita, mais conhecido como nazismo. Um furor percorreu a sala e meus colegas de mesa, entre consternados e surpresos, se apressaram em tomar a palavra e pedir perdão pelo meu mal entendido.

Achei que era eu quem  não estava entendendo nada, mas o colega que sentava ao meu lado me explicou que, equivocadamente, eu havia mencionado que o nazismo era de direita, quando todo mundo sabia que era de esquerda. Como assim, disse eu, agora já me beliscando para ter certeza de que estava acordado, olhando o calendário do relógio para ter certeza do ano em que estava e olhando ao redor para ter certeza de que estava no lugar certo.

O público se acalmou, e eu achei que o melhor seria informar que estava com uma baita dor de cabeça e que passava a palavra aos demais. E assim fui escutando a confirmação de que os comunistas haviam matado seis milhões de judeus. Não foi um, foram todos a dizer a mesma coisa. Definitivamente, algo estava fora do lugar e era eu.

De volta para casa fui logo percebendo que muita coisa não fazia o menor sentido. Um ex-presidente havia sido condenado sem nenhuma prova. Pior, chamado de chefe de uma quadrilha do tipo máfia narcotraficante, ele ia receber um apartamento no Guarujá e uma cozinha no sítio do amigo em troca de favores de bilhões de dólares. Eu não entendia como é que uma pessoa podia ser condenada por ser dona do que não recebeu, mas era bem isso que acontecia. Assim o cara foi em cana e não pode participar das eleições.

Logo vieram as eleições e ganhou um ex-capitão que foi afastado do exército por ato de indisciplina e tinha como vice um ex-general que se gabava de ter um neto branquinho, já que ele tinha a pela mais escurinha. Ganhou bem ganhado com a ajuda de amigos que pagaram milhões para explicar a população que o país estava à beira do caos.  Disseram se o tal capitão não fosse eleito, as crianças seriam obrigadas a tomar mamadeira  com um bico que lembrava um pênis. Que nas escolas seriam distribuídos Kits Gay, uma espécie de conversor de gênero, todo mundo  viraria gay e o mundo iria acabar por falta de procriação.

Normalmente isso seria considerado Caixa 2, algo que havia sido proibido, mas parece que algumas leis valiam, outras não, dependendo de quem as descumpria. Para confirmar, o juiz que havia condenado aquele ex-presidente foi convidado e aceitou ser o ministro da justiça. Será que eu estava perdendo a razão?

Aí lembrei que o cara apresentado como futuro chefe da casa civil havia confessado ter recebido Caixa 2, mas pedido desculpas por sua atitude. Seria o caso então de quem tivesse praticado um crime destes fizesse o mesmo. Um senador da república até propôs que assim fosse, pediu desculpas, ganharia o perdão. Nada mais justo.

Meu mundo parecia mesmo deturpado e nada fazia mais sentido. Então os médicos cubanos anunciaram que estavam abandonando o programa pelo qual atendiam as populações mais necessitadas nos lugares onde nenhum médico brasileiro aceitava trabalhar. Aí achei que era impossível. Ninguém em sã consciência mandaria este pessoal embora deixando tanta gente desassistida. Ledo engano meu.

Com tanta coisa impossível acontecendo ao meu redor, achei que havia mesmo acordado em uma espécie de mundo paralelo, mas não. Tentei pensar que era algo do tipo “Matrix”, e que eu tinha tomado a pílula da cor errada.

Aos poucos percebi que as linhas que separam a ficção da realidade estavam cheias de nós, uma quantidade de nós difíceis de desatar. Mas não impossíveis.

Assim me vi tentando desatar esta confusão, nó por nó, um a um, aos poucos, um de cada vez. Logo outros se somaram e começamos a resistir aos que distorceram a realidade e a cada dia mais gente foi se somando a esta tarefa.

Em breve a Terra voltará a ser redonda, o Nazismo de direita, Kits Gays e Mamadeiras de Piroca vão ser considerados notícias mentirosas, Caixa 2 crime, com ou sem arrependimento, o ex-presidente será libertado e terá seu nome limpo e ninguém mais vai se lembrar do dia em que elegeram um abjeto (que ou o que é desprezível, baixo, ignóbil) inepto (que denota falta de inteligência,desprovido de sentido; absurdo, confuso, incoerente) para presidente do Brasil.

Para refletir

 

É incrível como aparecem historiadores, filósofos e opinantes genéricos para falarem do conflito árabe-israelense, que agora foi reduzido ao conflito palestino-israelense.

Em geral, os ditos de esquerda, sejam por assim se considerarem, seja porque costumam publicar em sites e blogs de esquerda, logo são tratados como porta vozes de toda a esquerda, algo do tipo, chefes da casa civil do governo de esquerda na oposição. Até parece que já temos uma Frente Ampla e eles são os que falam pela frente em relação a Israel.

Hoje existem de fato, duas situações distintas e é preciso diferenciá-las. Um governo palestino chamado de Autoridade Palestina, liderado pelo Fatah na Cisjordânia. A Fatah era o maior grupo terrorista palestino e comandava a Organização para Libertação da Palestina (OLP) que ficou conhecida pelos inúmeros atentados que causaram a morte de centenas de israelenses. Seu líder já falecido foi Yasser Arafat. A OLP desistiu de promover a destruição do Estado de Israel.

A Autoridade Palestina é reconhecida por muitos países como o governo palestino que já possui embaixadas em muitos países, inclusive no Brasil. A Cisjordânia é divida em 3 áreas e cada área tem um tipo de autonomia diferenciada. Existe um parlamento palestino eleito. A AP é conhecida por inúmeros casos de corrupção e apropriação de ajuda monetária em benefício de poucos. A sociedade é laica e as mulheres possuem um alto grau de liberdade e direitos. O homossexualismo não é aceito e os membros desta comunidade precisam esconder seu gênero para não serem perseguidos.

Existe também Gaza, um território pequeno espremido entre Israel, Egito e o mar onde vivem cerca de 1,5 milhão de pessoas governadas pelo Hamas. Diferentemente da AP, o Hamas não é reconhecido por nenhum país como um governo palestino e consta na lista de organizações terroristas. Israel controla tudo o que entra e sai de Gaza, mas é a AP quem paga o que eles recebem. A eletricidade é um bom exemplo. A usina elétrica de Gaza funciona a Diesel e ele precisa ser comprado e pago. Quem paga por ele geralmente é a AP, e quando ela não paga, ou dependendo do que ela está disposta a pagar, isso se traduz no número de horas de eletricidade disponíveis para a população. O Qatar acaba de fazer uma doação para aumentar o número de horas com luz.

O Hamas nos últimos meses tem permitido manifestações violentas na fronteira. Não vou entrar no mérito da justificativa para que elas aconteçam. O fato é que invariavelmente tentam atravessar a fronteira, jogam pedras e pequenos artefatos explosivos contra os soldados postados do lado de Israel e por fim a reação militar acaba em mortes do lado palestino. Foram centenas de mortes e um número maior de feridos e inválidos evitável.

Não são somente manifestações. Os palestinos de Gaza se deram conta que os ventos procedem do Mar para o Continente e por isso soltam balões com um artefato incendiário que provoca chamas ao cair no solo. Foram milhares de incêndios com enormes prejuízos tanto financeiros, como a natureza com a perda de árvores e a morte de animais silvestres. O Hamas nada faz para impedir isso.

Ao contrário da AP, o Hamas luta pela destruição do Estado de Israel. Nesta semana assistimos ao confronto que durou 24 h. Uma operação secreta de Israel em Gaza foi descoberta e levou a morte de um Coronel do exército israelense e de sete palestinos, entre eles, um comandante do Hamas. Logo começaram a chover foguetes sobre Israel. Estes foguetes são jogados para caírem nas cidades próximas. Possuem somente propulsão para voarem por cerca de 5 km até caírem. Quando atingem o solo causam uma explosão suficiente para causar enorme estrago em um raio de 50 metros e a morte de pessoas que estiverem próximas. O objetivo é este.

Israel também bombardeou Gaza, mas de maneira a não causar vítimas civis. Os prédios que estão listados como objetivo militar são marcados e os moradores do local avisados por telefone para deixarem suas casas. Antes do ataque, explosivos de pequeno poder são lançados antes do bombardeio final. Assim, por exemplo, aconteceu com o prédio da TV.

Nas eleições legislativas de 2006, o Hamas ganhou e formou um governo de unidade com o Fatah. Em 2007 o Hamas em Gaza resolve expulsar o Fatah e assume o poder do território. A AP em contrapartida remove o cargo de primeiro ministro do Hamas na Cisjordânia.

Não existem santos neste conflito. Todos fazem vista grossa ao desrespeito dos direitos humanos e o fazem em nome de um nacionalismo xenófobo.

Israel mantém uma política de colonização onde já existem cerca de 600.000 colonos convivendo com cerca de cinco milhões de Palestinos na Cisjordânia. Num eventual acordo de paz que leve a criação de um Estado Palestino de fato, a ideia é de troca de territórios, com Israel cedendo terras para compensar aquelas onde vivem colonos.

Ataques de atropelamentos, com armas de fogo ou esfaqueamento de civis e soldados, tanto nos territórios ocupados da Cisjordânia, como dentro de Israel, perpetrados por palestinos continuam ocorrendo. Israel trata os perpetuadores como terroristas, mas muitos sequer têm afiliação política. Em todos os casos, as casas onde vivam são destruídas. Quando os ataques partem de colonos envolvendo vítimas fatais palestinas, nada acontece com as casas onde viviam. A destruição de propriedade de palestinos de parte de radicais religiosos (não são considerados terroristas) é constante e nenhuma investigação séria é realizada.

Existe uma política totalmente diferenciada no que concerne a penas para o cometimento de crimes por parte de judeus e palestinos. Assim, um judeu que mata um palestino terá uma pena de alguns meses de prisão. Já um palestino que cometer o mesmo crime será condenado à prisão perpétua. Da mesma maneira um judeu que escrever morte aos árabes na sua página do Facebook, não será incomodado. Já um palestino que escreva morte aos judeus, poderá pegar uma pena de 10 anos de prisão.

Ainda assim, existem muitos movimentos pela paz e a reconciliação. Ironicamente eles são em grande maioria formado por israelenses, alguns com participação de árabes israelenses, e quase nenhum no campo palestino.

Existe muita injustiça, mas também existe muita gente tentando mudar isso. A quase totalidade delas está no campo da esquerda. São elas as principais lideranças do Campo da Paz. Este é o meu campo.