O Bezerro de Ouro dos Tolos

Nos conta a Biblia de que Moisés havia subido no Monte Sinai para falar com Deus. O povo cansado de esperar por seu retorno a achando que ter saído do Egito poderia ter sido uma má ideia, forçam  Arão a criar um ídolo e assim forjam um Bezerro de Ouro para adoração.

Moisés retorna com os Dez Mandamentos e revoltado com o povo quebra a pedra com os 10 Mandamentos, dá um esporro geral, detona o Bezerro e coloca ordem na casa.

Eu sempre achei esta história interessante por diversos aspectos e gostaria de compartilhar com quem me lê.

A figura de Moisés é singular. Adotado pela rainha ele foi criado como um egípcio e até descobrir sua verdadeira origem, agiu como tal. Mas aconteceu e um belo ele descobre que é judeu.

Os judeus viviam inicialmente livres no Egito mas acabaram sendo transformados em escravos, mão de obra para construções. Como nada que está ruim não possa piorar, um decreto do Faraó mandou matar todos os bebês nascidos do sexo masculino. Incapaz de cometer tal ato sua mãe o entrega a Miriam, sua irmã mais velha que o coloca em uma cesta no Rio Nilo. Ele é achado pela rainha que passa a criá-lo.

Ao se descobrir judeu, Moisés percebe que a vida para ele e seu povo não vai melhorar nada. Um dia falando com Deus ele é convocado a tirar os judeus do Egito e levá-los para Israel, um terra que lhes é prometida. Depois de muita briga e 10 pragas, finalmente o Faraó resolve libertar o povo judeu e eles para não dar chance ao azar, partem rapidamente esquecendo de levar farinha para fazerem pão, mas isso é outra história.

O Faraó de fato se arrepende e sai em perseguição aos judeus para trazê-los de volta. Na fuga Moisés consegue abrir uma passagem pelo mar, os judeus chegam do outro lado, mas o exército egípcio que os perseguia acaba sendo engolido pelas águas.

Os judeus começam a sua saga em direção a Terra Prometida, o que não foi fácil. Então acontece o episódio do Bezerro de Ouro e como castigo, são condenados a vagar por 40 anos no deserto para que uma nova geração de libertos nasça e seja ela a entrar na Terra Prometida.

Independentemente de se tratar de uma história verídica, ou não, afinal não existe nenhuma prova destes acontecimentos, a figura de Moisés é o centro de tudo.

Moisés ao conhecer sua orígem, imediatamente passou a defender o povo judeu e seu direito de ser um povo livre. Esta luta pela liberdade e a conquista de um lugar que pudessem chamar de sua nação é épica e nós a repetimos todos os anos na nossa páscoa para que todo judeu saiba que um dia fomos escravos e lutamos por nossa liberdade como um exemplo para todos os povos.

Ele foi o responsável pelas primeiras leis escritas e normas de civilidade com os 10 Mandamentos. Pela primeira vez um povo passa a ter um dia de descanso. Não matar e não roubar passam a ser preceitos básicos, coisa que não acontecia até então. Estas leis passam a dar um sentido de civilidade a humanidade.

Muita coisa aconteceu desde então, mas como seres humanos, nos custou muito colocar em prática coisas tão simples como estas.

No Brasil de hoje o povo recebeu um novo Bezerro de Ouro para adoração. Uma elite ultrajada com a perda de sua supremacia racial, inconformada com as conquistas das castas inferiores e sobretudo incomodada com a concorrência e convivência nas universidades, aeroportos e supermercados, deu ao populacho um símbolo para idolatrarem.

Assim como o Bezerro de Ouro, este novo ídolo veio incubido de dar ao povo um sentido de participação nos destinos da nação, seja lá qual destino cada um entendeu para si. O fato é que a maioria das pessoas foi levada a crer que ele vai trazer felicidade e desenvolvimento e que na próxima Copa do Mundo vamos fazer 8 X 0 na Alemanha.

Mais provável que o futuro resultado deste hipotético jogo, é a tragédia que está desabando sobre o país. Estamos com um ministério de uma República das Bananas, me desculpem as bananas. Ministros de uma mediocridade nunca vista, com uma verborragia vergonhosa que se supera a cada dia.

Este Bezerro ungido presidente é de longe, incomparável ao que de pior o Brasil já teve a frente de um governo. Ele é tão ruim que a mídia golpista já se pergunta como chegamos neste ponto e como vamos sair disso. Isso tudo com menos de 100 dias.

Na minha opinião, somente as ruas mudam este quadro. Enquando a esquerda continuar apontando dedos, não repensar seu erros, entre eles ter nomeado os piores juízes que este STF já teve antes do Alexandre de Moraes que é “Hors Concours” e não ter aparelhado devidamente o estado como faz muito bem a direita, ter sido complacente com a bandalheira entre tantas outras burrices, o Brasil não vai tomar jeito.

As ruas agora são dos blocos de carnaval, depois disso precisam ser ocupadas para derrubar este Bezerro.  Sem o clamor das ruas nada vai acontecer de bom e nada salva o país de retrocessos históricos e da perda de árduas conquistas sociais populares.

Este é um Bezerro de Ouro feito com Ouro dos Tolos.

Vamos pacificar os ânimos

Tenho percebido que para muita gente a ficha ainda não caiu. O fato de que bandeiras de Israel foram utilizadas abertamente em favor do candidato que ganhou as eleições é um fato nunca antes acontecido. Não lembro em todos os anos de vida no Brasil de uma unica eleição onde bandeiras de Israel fossem utilizadas politicamente.

Este fato traz consigo o que pode vir de bom, mas principalmente o que vem de ruim. A superexposição de judeus como apoiadores dele e de Israel como suporte a sua candidatura e política de governo já está trazendo consequências.

Na minha opinião, por enquanto os ataques se fazem contra Israel, logo mais vão começar contra os judeus e não deve demorar muito.

As charges que atacam Israel, não tem cunho antissemita, ainda, e quem está fazendo esta conexão serve aos propósitos do atual governo de extrema-direita de Israel. Foi este governo quem criou a conexão antissionismo com antissemitismo da mesma maneira que os árabes fizeram com racismo e sionismo na ONU.

Eu como israelense, me sinto muito mal com charges que atacam Israel. No entanto não posso tapar o sol com a peneira e fingir que não mostram a dura realidade dos anos de ocupação dos territórios. Posso dizer que são inapropriadas ao momento, que são de mau gosto etc. A realidade continua a mesma.

Na minha opinião, não são os chargistas os nossos inimigos. Nossos inimigos continuam sendo aqueles que apoiaram este fascista e não se importando, e até incentivando o uso político da bandeira de Israel para atrair votos de judeus e evangélicos.

Sempre estivemos presentes nas eleições brasileiras como brasileiros judeus. Desta vez acharam que nossa participação deveria ser como judeus brasileiros e o preço começa a ser cobrado. E vai sair caro.

As críticas feitas em nada diferem das críticas feitas por organizações judaicas e israelenses que são a favor de uma solução de dois estados. Seriam todas elas antissemitas?

Várias organizações também são a favor do BDS como forma de pressão para alcançar um acordo de paz. Seriam todas antissemitas?

O   instituto Simon Wiesenthal é um antro de direita. Não me surpreende que coloquem o Latuf como um dos 10 maiores antissemitas do mundo. Me surpreende alguém acreditar nisso. Para eles até o Soros é um antissemita.

Israel perdeu apoio internacional há muitos anos. Os crimes que são cometidos diariamente nos territórios com a ocupação de terras palestinas é o combustível que alimenta esta onda antissionista e não o antissemitismo como eles querem que acreditemos. É isso que eles querem que seja verdade para encobrir o que acontece lá.

Juntem isso com a superexposição que tivemos nos últimos meses e o resultado não podia ser outro. Lamentável, porém previsível.

Acho que é hora de baixar os ânimos e a discussão passional. Precisamos de mais bom senso, pé no chão e pensar em saídas para este clima que só vai se acirrar sob pena de ficarmos totalmente isolados pela direita e pela esquerda. Muita calma nesta hora.

 

Estado de Direito, ou Direito de Estado?

Quando o Estado de Direito não existe, a sociedade como um todo se torna refém de um regime de exceção cujo poder está alheio aos princípios constitucionais e a lei se torna uma mera referência legal para perseguir seus opositores e perpetuação do regime.

Quem pensou que eu me referia a Venezuela, se enganou. Me refiro ao Brasil, onde não existe mais estado nem direitos. O que aconteceu com Jean Wyllys não é a ponta do Iceberg. É o Iceberg saindo fora d’água.

Um parlamentar eleito ter que deixar o país por falta das garantias constitucionais ao seu direito ao exercício do cargo por temos a sua vida escancara para o mundo o que está acontecendo no país. Com sua atitude, que muito nos entristece, Jean está dizendo em alto e bom tom: socorro!

Creio que uma vez resolvida a situação na Venezuela, o Brasil tem tudo para ocupar o seu lugar. Talvez não cheguemos aos níveis de verdadeiro desespero econômico que passam seus cidadãos com mais de dois milhões deles já tendo abandonado o país. Mas é certo de que com este governo e esta justiça atual, aquilo que conhecemos como democracia, direitos constitucionais, cidadania etc, deixarão de existir tal.

A esquerda precisa urgentemente reavaliar sua atuação neste novo cenário. Não é preciso muito conhecimento político para perceber que não haverá uma paridade de armas neste Congresso e tudo será feito de forma a mostrar clara e indubitavelmente quem são os novos donos do poder. Aos amigos a complacência e a benesse, aos inimigos o rigor do estatuto.

Já se nota uma guerra nos bastidores dos serviçais midiáticos. A rede de comunicação hegemônica não aceita ser relegada ao lugar que antes ocupavam seus concorrentes. Não são mais eles os donos de entrevistas exclusivas, tampouco os que recebem em primeira mão, ou com exclusividade as melhores notícias. Ainda esperneia mostrando que é capaz de colocar o dedo nas feridas da família real, mas também mostra o quanto pode ser subserviente se o rei assim o desejar, desde que lhe dê de volta seu lugar ao sol.

Para quem ainda não percebeu a gravidade da situação, eu sugiro abrir bem os olhos enquanto é tempo e podemos acessar informações livremente. Até isso pode mudar em breve e as informações disponibilizadas serão aquelas que agradam ao poder. Existem meios de bloquear sites e serviços na Internet e inúmeros regimes totalitários, ou muito próximo disso, já o fazem. Todos têm uma boa desculpa para isso.

A ida deste energúmeno a Davos foi risível de um lado, mas trágico de outro. O cara fez um discurso de mensagem de WhatsApp, ou de Twitter, como queiram. Fugiu da imprensa como o Diabo foge da cruz e seu melhor momento foi convidar todo mundo para passar férias no Brasil. Eis aí de presente cenas para filmes de comédia.

Eu não gosto de fazer prognósticos, aquelas previsões do que vai acontecer. Prefiro fazer uma leitura do que está acontecendo e mostrar onde isso pode levar. Desta maneira, ainda é possível tentar reverter alguns avanços fascistas e montar trincheiras para as batalhas que virão.

Nem tudo é só desgraça e o Carnaval está chegando. Nossa maior festa popular onde ainda é possível expressar nossa arte e nossa alegria. Esta é uma verdadeira festa do povo e todos ainda podem participar sem preconceito. Tomara continue assim.

Eleições em Israel se aproximam

Eleições em Israel

Estamos há menos de 90 dias das eleições gerais em Israel e o clima de inverno, bastante chuvoso, não convida as pessoas para comícios de rua por enquanto.

Tivemos esta semana a primeira assembleia do Partido Trabalhista Israelense, que nem de longe lembra mais aquele partido responsável pela criação do Estado e que já teve 44 mandatos dos 120 da Knesset, como o nosso Congresso é mais conhecido. As pesquisas dizem que deve receber entre 5 e 9 mandatos.

Do outro lado, o Likud que com Nethanyau já está há 20 anos no poder, as pesquisas apontam entre 28 e 32 mandatos. Porém, o Procurador Geral deve indiciá-lo por diversos crimes no mês que vem. Este indiciamento pode não mudar os votos de seus seguidores, mas certamente pode mudar o ânimo de outros partidos para não entrarem em uma coalizão com ele.

Esta semana ele chamou a imprensa para a sua residência e no horário da maioria dos noticiários televisivos, entrou ao vivo com o que seria um discurso dramático. depois de alguns minutos a maioria dos noticiários o deixou falando sozinho e voltaram a transmissões de seus estúdios. De dramático não havia nada além de ataques a polícia, a procuradoria, testemunhas etc. Seria um amplo complô contra ele. Pedia uma acareação ao vivo pela TV com as testemunhas do estado, num ataque ao sistema legal processual. Recebeu uma chuva de críticas por conta disso.

O efeito real do que acontecerá com o seu indiciamento ainda é uma grande interrogação. Uma coisa é seus eleitores responderem hoje que vão votar nele mesmo assim. Outra é terem de responder desta maneira depois que ele for indiciado. Na minha opinião, ele vai perder votos e com certeza alguns aliados.

É preciso reconhecer que Nethanyau é uma raposa. Com certeza a melhor delas na política israelense. Ninguém sobrevivi tanto tempo como líder sem conhecer profundamente o sistema e o manipular de acordo com o que lhe favorece no momento certo.

Assim ele aponta para o Irã, o Hezbola e o Hamas como os grandes monstros que estão a ponto de nos destruírem a qualquer momento e somente a liderança dele vai nos salvar a todos. Estes monstros precisam ser alimentados na medida ideal e assim, ataques pontuais as suas bases nos lembram deles.

Bem, se todos sabem disso, como é que ele continua lá e com chances de continuar Primeiro Ministro?

Existem várias respostas para isso. Algumas delas é de que não aparece nenhum outro líder com o seu carisma. Os cidadãos de Israel se preocupam muito com a sua segurança, e não entregam suas vidas nas mãos de qualquer um. A economia está estável, temos pleno emprego e a população se sente de bem com a vida.

Isto não quer dizer que não existam problemas. Sim existem e são muitos. O custo de vida vai subir com a alta anunciada do Gás que faz o preço de uma longa cadeia aumentar em efeito dominó, como a eletricidade e a água, por exemplo. Por enquanto os salários vão continuar os mesmos e isso é sempre crítico para os que recebem o salário mínimo, hoje em torno de R$ 5.000,00 reais. Não se sabe o impacto disso nos eleitores.

Para estas eleições, vários partidos vão se apresentar. O bloco de centro-esquerda, por enquanto está recebendo em torno de 48 mandatos. Vamos aguardar os acontecimentos e torcer por más notícias para o bloco de direita e extrema-direita.

 

O Aroeira da vez

O Aroeira da vez

Charges preconceituosas em geral, e antissemitas em particular sempre me causaram indignação. São uma forma muito simples e bastante eficaz de disseminar o ódio.

Existe muito material deste tipo que foi utilizado na Alemanha nazista e outros países europeus destacando sempre um judeu com nariz grande, barba, chapéu preto e roupa preta. Era sempre colocado em meio a dinheiro e situações que o mostrava como um ser vil e contra a pátria.

Como se sabe, o Holocausto foi um evento único. Os nazistas criaram uma máquina de aniquilação humana e nela sucumbiram 6 milhões de judeus, entre eles alguns parentes que não pude conhecer. Graças a esta ameaça, nasci no Brasil depois que meus avós maternos fugiram da Polônia dando ouvidos as ameaças que vinham do país vizinho.

Nós judeus não gostamos quando utilizam a palavra Holocausto para definir massacres e genocídios cometidos nos anos seguintes. O que aconteceu conosco é incomparável a qualquer outro evento. Ele se diferencia porque foi um ato institucional, uma política de governo, uma tentativa de exterminar homens, mulheres e crianças de todas as nacionalidades até a terceira geração anterior. O que se pretendeu foi acabar com a existência do povo judeu na Terra.

Então, quando alguém se utiliza do termo para atacar Israel com sua política contra os palestinos, ou os Turcos com sua política contra os Curdos, ou mesmo o que aconteceu em Ruanda no ano de 1994 contra os Tutsis e outros mais recentes na África, nós costumamos dizer que é um erro. Chamem de tudo, menos de Holocausto.

Há poucas semanas tivemos a visita do primeiro ministro de Israel, Benjamin Nethanyau, Bibi, como ele gosta de ser chamado na posse de Bolsonaro. Não foram poucas as reações contra ela, até mesmo no seio da comunidade judaica que viu o ato como um abraço entre fascistas.

Bibi liderou um governo de extrema-direita e vai tentar seu quinto mandato consecutivo nas próximas eleições em Israel marcadas para o dia nove de abril. Ele está em meio vários processos contra ele por conta de troca de favores entre amigos, alguns com o recebimento de “presentes”.

Em uma charge recente, o desenhista Renato Aroeira mostra Bolsonaro e Nethanyau representando uma suástica, o símbolo mais conhecido do Nazismo. Apesar do Fascismo e do Nazismo terem convivido juntos e terem muito em comum, são duas ideologias diferentes. Isto causa uma certa confusão e como o Fascismo não possui um símbolo internacionalmente conhecido, a suástica acaba sendo utilizada para dizer que alguém é de extrema direita, um fascista.

A charge causou um furor entre muitos judeus, especialmente os que se alinham com os dois nela representados, e gerou processo na justiça contra o autor. Na esquerda judaica, ela ficou no patamar do mal gosto, mas em geral ninguém viu nela nada de antissemita.

A discussão que se abriu, é recorrente. Pregar contra Israel ou seu primeiro ministro é antissemitismo? Ser antissionista é ser antissemita?

A resposta para estas perguntas costuma definir entre nós judeus, quem é de esquerda e quem é de direita. Os judeus progressistas dirão que não existe antissemitismo, os de direita o contrário.

A explicação não é fácil. O governo Israelense possui um afiado sistema de propaganda conhecido como Hasbará (Relações Públicas). Existe muito antes de Bibi subir ao poder, e hoje é utilizado magistralmente por ele e seus seguidores.

A Hasbará mostrava, por exemplo, o mapa do Oriente Médio em uma proporção onde Israel aparecia como um ponto cercado por dezenas de países árabes superiores em habitantes e terras. Era um pedido de simpatia para a única democracia do Oriente Médio que era atacada militarmente por seus vizinhos que queriam destruir o estado judaico.

A Hasbará dos nossos dias, insiste em mostrar o antissionismo como uma atividade antissemita. Uma forma inteligente de dizer em outras palavras, que na realidade todo aquele que ataca Israel está na verdade atacando os judeus. Todo aquele que critica a política israelense, na verdade está atacando o povo judeu. Todo aquele que se alinha com os palestinos e prega a necessidade da criação de um Estado Palestino, na verdade deseja a destruição do Estado de Israel e como consequência o desaparecimento dos judeus.

A charge do Aroeira cai como uma luva para eles. Primeiro, ela mostra um judeu sendo chamado de Nazista, uma ofensa grave. Segundo, ela mostra um ataque a Israel expressa na figura de seu primeiro ministro, o que seria na verdade um ataque aos judeus em geral. Portanto, na compreensão deles e do que prega a Hasbará, um ato antissemita que deve ser punido de acordo com a lei.

Eu fui um dos que levaram o Ministério Público do RS a processar Siegfried Ellwanger, o dono da Editora Revisão que publicou no final dos anos 80 toda a coleção de literatura antissemita conhecida. Começou com um livro de sua autoria intitulado Holocausto, judeu ou alemão? Seguido dos Protocolos dos Sábios de Sião e todos os livros de Gustavo Barroso, Henry Ford etc. Toda literatura antissemita foi promovida por ele e sua editora.

A condenação só foi possível depois da Lei 7716/89 que definiu especificamente o crime de apologia ao Nazismo. O que eu quero ressaltar é que a lei proíbe o uso da suástica quando utilizada em apologia ao regime. Ela também abrange os “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, com pena de reclusão de 1 a 3 anos, e multa.

A charge com a suástica não foi feita com o intuito de promover o nazismo. A questão é se ela é discriminatória ou preconceituosa contra os judeus. De acordo com a Hasbará, sim. Uma vez atacando Bibi, ele está atacando os judeus. Este é o argumento de acusação que provavelmente está no processo.

É bastante óbvio que a intenção da charge, como outras similares criadas por diversos artistas no mundo inteiro, foi mostrar que o Brasil está se alinhando com os representantes da extrema-direita conhecidos mundialmente. Apesar do uso da suástica nesta, e em diversas outras charges, ninguém de bom senso pode ver outra coisa, senão a intenção de mostra uma guinada para a aliança com regimes fascistas.

Em um Estado de Direito, ele não teria a menor chance de vingar e provavelmente seria descartado em primeira instância. No Brasil de hoje, Aroeira corre risco, uma vez que a justiça está a serviço do poder Executivo e a segunda figura na charge é ninguém menos que o atual Presidente da República.

Um caso destes tem outras consequências. A questão econômica é uma delas. Aroeira vai precisar pagar um advogado em sua defesa e ela pode passar da primeira instância e começar a se tornar cara.

A outra, obviamente, é a intimidação. Aqui se deseja acabar com o direito da livre expressão e da crítica jornalística. O intuito é de causar pavor a outros jornalistas e chargistas para que não usem de nenhuma forma de linguagem contra o atual poder de estado.

Este é o resultado de uma situação criada depois da eleição do governo mais medíocre que o Brasil já teve. Uma mistura de milicos inexpressivos com evangélicos goiabeiros acobertados pela justiça, o que torna este caso o prenúncio do que aguarda a liberdade de expressão enquanto eles estiverem no poder.

Eleições em Israel

Estamos há menos de 90 dias das eleições gerais em Israel e o clima de inverno, bastante chuvoso, não convida as pessoas para comícios de rua por enquanto.

Tivemos esta semana a primeira assembleia do Partido Trabalhista Israelense, que nem de longe lembra mais aquele partido responsável pela criação do Estado e que já teve 44 mandatos dos 120 da Knesset, como o nosso Congresso é mais conhecido. As pesquisas dizem que deve receber entre 5 e 9 mandatos.

Do outro lado, o Likud que com Nethanyau já está há 20 anos no poder, as pesquisas apontam entre 28 e 32 mandatos. Porém, o Procurador Geral deve indiciá-lo por diversos crimes no mês que vem. Este indiciamento pode não mudar os votos de seus seguidores, mas certamente pode mudar o ânimo de outros partidos para não entrarem em uma coalizão com ele.

Esta semana ele chamou a imprensa para a sua residência e no horário da maioria dos noticiários televisivos, entrou ao vivo com o que seria um discurso dramático. depois de alguns minutos a maioria dos noticiários o deixou falando sozinho e voltaram a transmissões de seus estúdios. De dramático não havia nada além de ataques a polícia, a procuradoria, testemunhas etc. Seria um amplo complô contra ele. Pedia uma acareação ao vivo pela TV com as testemunhas do estado, num ataque ao sistema legal processual. Recebeu uma chuva de críticas por conta disso.

O efeito real do que acontecerá com o seu indiciamento ainda é uma grande interrogação. Uma coisa é seus eleitores responderem hoje que vão votar nele mesmo assim. Outra é terem de responder desta maneira depois que ele for indiciado. Na minha opinião, ele vai perder votos e com certeza alguns aliados.

É preciso reconhecer que Nethanyau é uma raposa. Com certeza a melhor delas na política israelense. Ninguém sobrevivi tanto tempo como líder sem conhecer profundamente o sistema e o manipular de acordo com o que lhe favorece no momento certo.

Assim ele aponta para o Irã, o Hezbola e o Hamas como os grandes monstros que estão a ponto de nos destruírem a qualquer momento e somente a liderança dele vai nos salvar a todos. Estes monstros precisam ser alimentados na medida ideal e assim, ataques pontuais as suas bases nos lembram deles.

Bem, se todos sabem disso, como é que ele continua lá e com chances de continuar Primeiro Ministro?

Existem várias respostas para isso. Algumas delas é de que não aparece nenhum outro líder com o seu carisma. Os cidadãos de Israel se preocupam muito com a sua segurança, e não entregam suas vidas nas mãos de qualquer um. A economia está estável, temos pleno emprego e a população se sente de bem com a vida.

Isto não quer dizer que não existam problemas. Sim existem e são muitos. O custo de vida vai subir com a alta anunciada do Gás que faz o preço de uma longa cadeia aumentar em efeito dominó, como a eletricidade e a água, por exemplo. Por enquanto os salários vão continuar os mesmos e isso é sempre crítico para os que recebem o salário mínimo, hoje em torno de R$ 5.000,00 reais. Não se sabe o impacto disso nos eleitores.

Para estas eleições, vários partidos vão se apresentar. O bloco de centro-esquerda, por enquanto está recebendo em torno de 48 mandatos. Vamos aguardar os acontecimentos e torcer por más notícias para o bloco de direita e extrema-direita.