Em novembro de 1945, George Orwell publicou no semanário Tribune um texto chamado Revenge Is Sour, a vingança é azeda. Meses antes, como correspondente de guerra, tinha visitado um campo de prisioneiros no sul da Alemanha, onde viu um jovem judeu vienense, interrogador do exército americano, chutar um oficial da SS. A cena lhe ensinou, escreveu, que a ideia de vingança e punição é um devaneio infantil. A vingança, na visão dele, é o ato de quem se sente impotente, e o desejo evapora assim que a impotência acaba. Orwell, convém lembrar, era um otimista.

A vingança é uma afirmação de controle sobre uma situação em que um dia nos sentimos impotentes. Israel, que tem poder de sobra, deveria provar que o poder cura o desejo. Não prova. Três anos depois de 7 de outubro, o desejo de vingança resistiu a todo esse poder e virou política. E essa política ganhou um beneficiário, que vocês insistem em manter na Rua Balfour.

Roni Eshel tinha 19 anos e era observadora na base de Nahal Oz, a menos de um quilômetro da fronteira de Gaza. Passava os turnos diante de telas voltadas para o outro lado. Meses antes do ataque, contou ao pai que o Hamas estudava as observadoras e conhecia quase cada canto da cerca. Na quarta-feira, 4 de outubro de 2023, foi mais direta. Eles sabiam tudo. Ela e as colegas repetiram o aviso aos superiores, que o desprezaram. No sábado de manhã, Roni foi uma das primeiras a ver os invasores. Quinze observadoras da base morreram antes do almoço, e seis foram levadas para Gaza. A família esperou 34 dias para saber que ela não voltaria.

Naquele sábado, eu estava em casa, catatônico, sem acreditar que o exército que nos acostumamos a chamar de mais ético do mundo tinha abandonado o nosso povo. Poder não nos faltava. Tínhamos tanques, aviões e um serviço de inteligência famoso por saber tudo. Em Be’eri, os terroristas controlaram o kibutz por cerca de quatro horas, e nove meses depois o porta-voz militar admitiu que as tropas não tinham estado lá durante boa parte do combate. Nenhuma das ofensivas que vieram depois, em Gaza, no Líbano e no Irã, devolve aquelas horas. Por isso o desejo não evaporou. A impotência que o alimenta continua viva num sábado que nenhum tanque alcança. Orwell acertou o mecanismo e errou o prazo.

Sobre o que aconteceu naquela manhã, o único controle ainda ao nosso alcance é o conhecimento. Precisamos saber por que os avisos de Roni morreram na mesa de alguém, por que Be’eri esperou sozinha e quem decidiu o quê nas semanas anteriores. Para isso, Israel tem um instrumento testado, a comissão estatal de inquérito. A vingança oferece uma imitação desse controle, voltada para fora, com uma vantagem que nenhum governo despreza. Ela não faz perguntas a quem governa.

A escolha bíblica de Netanyahu é instrutiva. Três semanas depois do ataque, ao anunciar a entrada por terra em Gaza, ele citou o Deuteronômio e mandou o país lembrar o que Amaleque lhe tinha feito. O versículo seguinte conta que Amaleque atacou os que tinham ficado para trás. Para os israelenses de 2023, a imagem dispensava explicação. O mandamento tem também uma utilidade política. Enquanto o país se ocupa de Amaleque, não pergunta o que o governo deixou de fazer.

Israel já soube fazer a outra pergunta. Em 1973, Golda Meir não queria uma comissão de inquérito. No entanto, menos de sete semanas depois do início da guerra, em 21 de novembro, o governo dela nomeou uma, chefiada por Shimon Agranat, presidente da Suprema Corte. As conclusões parciais, publicadas em 1º de abril de 1974, derrubaram o chefe do Estado-Maior, David Elazar, e pouparam a primeira-ministra. Nove dias depois, Golda renunciou assim mesmo. A lei não exigia isso. Exigiram os protestos.

Desta vez, os generais fizeram o que Elazar tinha feito, sem esperar comissão nenhuma. Aharon Haliva, chefe da inteligência militar, saiu em abril de 2024. Avi Rosenfeld, comandante da Divisão de Gaza, saiu em junho e escreveu que tinha falhado na missão da sua vida. Herzi Halevi, chefe do Estado-Maior, e Yaron Finkelman, chefe do Comando Sul, anunciaram em janeiro de 2025 que sairiam. Finkelman escreveu à mão que aquela falha o acompanharia pelo resto da vida. O primeiro-ministro saiu em campanha.

Netanyahu resiste há três anos e vinte e cinco dias. É a única autoridade daquele sábado que nunca endossou uma comissão estatal. No lugar dela, a coalizão propôs um colegiado escolhido por políticos para investigar políticos, mas o projeto não passou da primeira leitura. Em setembro, 71% dos judeus do país disseram ao Instituto Israelense de Democracia que queriam uma comissão estatal, inclusive a maioria dos que se declaram de direita. Não adiantou.

Na falta de uma comissão, os jornais fazem o trabalho dela. Segundo o Haaretz e, semanas depois, o New York Times, o presidente dos Emirados Árabes Unidos telefonou a Netanyahu cerca de dez dias antes do ataque para avisar que o Hamas preparava uma grande operação. Os então chefes do Shin Bet e do Estado-Maior disseram ao jornal que nunca tinham sido informados. Na terça-feira passada, o Likud voltou a ser o partido mais votado do país.

Há várias teorias para isso. Há a Teoria do Medo, segundo a qual, num ano de guerra com o Irã e o Hezbollah, o eleitor se agarra ao nome que conhece. Há a Teoria da Tribo, pela qual o israelense vota no próprio campo, e o campo não muda de lado por causa de uma comissão que nem existe. Há a Teoria do Sobrevivente, cuja premissa é que um homem que atravessou três casos de corrupção no tribunal, cinco eleições entre 2019 e 2022 e dois anos de guerra parece capaz de atravessar qualquer coisa. Todas têm alguma verdade, e nenhuma exclui as outras. Eu também tenho a minha. A vingança fez por Netanyahu o que nenhuma campanha teria feito. Deu a um país humilhado a sensação de recuperar o controle, e essa sensação se mostrou mais forte nas urnas do que a vontade de saber quem o perdeu.

Eyal Eshel, o pai de Roni, fundou com outras famílias de vítimas e de reféns o Conselho de Outubro. Recebeu ameaças de morte por acusar o Estado e o exército de mentir aos enlutados. Costumava ir a Nahal Oz mais ou menos uma vez por mês, e numa dessas visitas os passos dele ecoaram entre os restos queimados da sala onde a filha trabalhava. Diz que vai lutar por uma comissão estatal até o último dia de vida. Orwell tinha razão ao dizer que a vingança é azeda. Só não disse que, na política, alguém sempre fica com a parte doce.