Ocorreu-me outro dia que a frase mais desagradável já publicada sobre privilégio está no título de um artigo científico, e que a demonstração dela custou aos autores um Banco Imobiliário usado, uma moeda e um saco de pretzels.

O artigo é de 2012 e se chama Higher social class predicts increased unethical behavior, o que dispensa comentário. O laboratório era em Berkeley, o desenho era de Paul Piff e Dacher Keltner, e tinha aquela simplicidade que costuma preceder as descobertas irritantes. Dois voluntários que não se conheciam sentaram frente a frente. Jogou-se uma moeda para o alto, à vista dos dois, e o vencedor do cara ou coroa recebeu o dobro do dinheiro inicial, dois dados em vez de um e o dobro cada vez que completasse a volta. Nada foi sussurrado. O pesquisador anunciou as regras em voz alta e saiu da sala. No meio da mesa ficou uma tigela de pretzels, servida para os dois.

Quinze minutos bastaram. Os favorecidos passaram a bater a peça no tabuleiro casa por casa, subiram o volume da voz, comeram mais pretzels e, ao final, explicaram a vitória pela maneira como haviam avaliado o risco de cada compra. Do relato desapareceram o dado extra, o dinheiro dobrado, o salário em dobro a cada volta e a moeda que distribuiu tudo aquilo. Foi cortado da história como o parente que não entra no álbum de família. Ninguém mentiu. Eles acreditavam, e acreditavam porque a alternativa era admitir que estavam esmagando alguém que nunca teve como reagir, o que nenhum de nós admite antes do almoço.

Em outras palavras, mérito.

Dois rapazes de dezesseis anos moram a quatro quilômetros um do outro, na mesma colina, e são presos na mesma semana por atirar pedras na mesma estrada. Os dois vão a tribunal de menores, e é aí que a semelhança termina. Um responde diante do tribunal de menores militar, pode passar dias antes de ver um juiz, é interrogado em hebraico sem advogado e sem os pais, e suas audiências de prisão preventiva, que são o essencial do processo, correm no tribunal militar comum, porque a jurisdição do tribunal de menores não alcança justamente essa parte. O outro responde diante do tribunal de menores civil, com prazos curtos, oficial de condicional e a mãe sentada na terceira fileira.

Os números da própria polícia israelense, no período em que ela ainda os divulgava por completo, mostram como termina cada trajeto. Mil cento e quarenta e dois menores palestinos presos por atirar pedras, cinquenta e três menores israelenses pelo mesmo ato. Quarenta e seis por cento dos palestinos indiciados, contra onze por cento dos israelenses. Entre os palestinos indiciados, cem por cento condenados. Entre os israelenses, quatro considerados culpados sem que a condenação fosse registrada, um absolvido, e um último cujo desfecho ninguém sabe informar. Ao final de dezembro havia trezentos e cinquenta e um menores palestinos sob custódia israelense por motivos que o Estado classifica como de segurança.

Ninguém que hoje discute o assunto jogou a moeda. Nossos avós chegaram fugindo de gente empenhada em matá-los, e chegar foi, para quase toda família que conheço, a diferença entre existir e não existir. É um argumento forte.

Votei contra em quase todas as eleições desde que cheguei, o que mostra que não sou a melhor referência, mas mesmo assim vou ousar. Também eu abro a torneira e sai água, também a minha placa passa nas duas estradas, e o meu voto acrescenta a isso apenas a sensação agradável de que o vencedor é outro. Ninguém em Berkeley pediu o segundo dado. O vencedor o encontrou na mão e jogou, e no fim explicou o resultado por si mesmo, e é aqui que peço um acordo entre nós. Você pode ser uma boa pessoa. Eu acredito que seja, do mesmo modo que acredito nos rapazes daquele laboratório. Mas enquanto cinco milhões de pessoas do outro lado  jogarem com um dado só para que o nosso lado siga ganhando, não venha me falar em mérito.