Samba Perdido – Capítulo 31 – parte 02

Foto: arquivo O Globo

O Asdrúbal herdou a posição de abelhas rainhas da malucada carioca que tinha pertencido antes aos Novos Baianos e depois ao revolucionário chique Fernando Gabeira. Aproveitando essa onda, o grupo resolveu virar promotor cultural e, com a ajuda da prefeitura do Rio, abriu um espaço próprio na forma de um circo de verdade no Arpoador, um minibairro entre Copacabana e Ipanema. O nome que deram foi “Circo Voador”, copiado dos Rolling Stones que tinham feito algo parecido na psicodélica Londres dos anos sessenta. 

Enquanto isso, os cursos do Asdrúbal viraram um tremendo sucesso. Havia umas cinco ou seis turmas de cerca de trinta alunos. Quando terminavam, faziam apresentações de peças que eles mesmos tinham escrito com a ajuda de seus mentores. Todas eram boas e falavam diretamente às plateias abarrotadas de jovens. Todo mundo queria vê-las e os alunos mais dedicados continuavam de uma forma ou outra atrelados ao grupo.

Depois de montado o Circo se tornou o palco principal dessas apresentações. Só que a proposta da turma do Asdrúbal ia além do teatro; a ideia era criar um espaço alternativo para todas as formas de expressão. No tocante a música, o circo mudou tudo; com ele veio uma enxurrada de bandas de rock novas. Para a nova geração, as outras casas de shows, além de caras, só se interessavam em cabeludos esquisitos do Nordeste com os quais não se identificavam, bichos grilo, e as já antiquadas estrelas da música popular brasileira.

A piada que corria na boca do pessoal que ia ao Circo era que sob aquela tenda só tocavam dois gêneros: o “rock” e o “roll”.

As bandas que surgiram lá não tinham na a ver com as dos cabeludos viciados barra-pesada dos anos setenta. Agora elas podiam ser, e às vezes eram, de colegas da escola ou da faculdade, amigos e vizinhos. Para nós, não eram estrelas, eram conhecidos, ou conhecidos de conhecidos, eletrisando a moçada com seus instrumentos amplificados. Se o que motivava os shows nos anos setenta era passar algumas horas sem o peso da ditadura e da pressão da família, agora o que motivava essas guitarradas era dar um tempo da crise e o caos curti9ndo uma noitada com bandas sem nenhum conteúdo intelectual mas com muita energia. Aquele espírito se espalhou pelo país e definiu o rock como a expressão cultural da classe média jovem nos anos oitenta. 

Olhando para aquele momento em retrospecto, o Circo Voador marcou o fim de uma época em que a Zona Sul do Rio ditava os gostos musicais e culturais para o resto do Brasil. O centro logo se mudaria para São Paulo, onde o mercado era muito maior e a indústria fonográfica era mais estruturada. Como o rock daquela época era umbilicalmente ligado ao que acontecia no Reino Unido e nos Estados Unidos com sua estética urbana, o estilo de vida paulistano tinha muito mais a ver. Brasília também era e marcou presença fornecendo um monte de bandas boas, entre elas carros chefes como a Legião Urbana e os Paralamas do Sucesso. O contato direto de filhos de funcionários públicos de alto escalão com diplomatas de fora e com estadias no exterior, e o tédio inerente à cidade certamente ajudando na formação daqueles talentos.

*

Se pertencer a grupos de teatro não tinha me apetecido, o mesmo não valeu ao sonho de formar uma banda. Depois de ir a alguns shows no Circo, tive certeza que tinha condições de tocar para aquele público e decidi ir em frente. Para o desespero dos meus pais, comprei um amplificador barato e uma guitarra elétrica com o pouco dinheiro que tinha sobrado da venda do Blues Boy. Com ela, estava pronto para uma carreira na ribalta do rock.

A mudança do violão para a guitarra elétrica foi como trocar uma bicicleta por uma moto. Agora podia balançar as paredes do meu quarto com uma simples palhetada numa corda. Devido a ninguém em casa estar feliz comigo tinha que segurar o volume, mas nos finais de semana quando meus pais iam para Teresópolis, minha irmã ia para a casa do namorado e Dona Isabel ia para a casa dela, as coisas eram diferentes. Com o apartamento só para mim, me sentindo como um rei louco num castelo miserável, a fera surgia. Ligava a guitarra no apmlificador, colocava o volume no máximo e saía atazanando os ouvidos dos pobres vizinhos.    

Comecei a escrever músicas. Usava momentos que aconteceram nos sons que levei durante minhas viagens e novas ideias que foram surgindo. Por um breve momento tive certeza de que esse era meu destino. Tentava misturar rock com ritmos brasileiros. Esse tipo de mistura tinha causado controvérsia nos dias dos festivais quando Caetano Veloso tocou Tropicália com uma banda de rock argentina e foi vaiado. A receita continuou a ser utilizada por artistas nordestinos como os Novos Baianos e Alceu Valença que faziam a versão roqueira das suas culturas regionais e deu certo. Agora, aqui estava eu, um garoto de Ipanema de origem judaica e britânica, trabalhando com a ritmos regionais brasileiros e tentando fazê-los soar como rock pesado. O problema foi que nos anos 1980, o rock e a música brasileira tomaram caminhos divergentes, ambos se tornando mais “puristas” e antagônicos. Bandas fazendo esse tipo de música somente conseguiriam se estabelecer uma geração mais tarde, com artistas como Chico Science e a Nação Zumbi, mas na época minhas fitas cassete com gravações caseiras foram rejeitadas por todas as gravadoras e produtores que as receberam.

*

Talvez devido à sua experiência no Nordeste, Pedro também havia abandonado a Economia e resolveu seguir o seu chamado para ser artista plástico. Para tal, se inscreveu no curso de artes do Parque Laje. Foi uma boa decisão. O curso era excelente. As turmas eram pequenas o que permitia uma atenção especial dos professores. Além disso, depois do Circo, esse era o lugar mais badalado da Zona Sul do Rio de Janeiro. A sede do parque, onde davam o curso, era uma mansão enorme em estilo italiano clássico que parecia surreal nos seus arredores tropicais. O palacete tinha sido construído por um milionário no século 19 e era tão bem conservado que atrás dele ainda havia as ruínas de uma senzala, agora transformada numa gruta com camas de pedra cobertas de musgos que causavam calafrios em quem entrasse.

As aulas eram no pátio interno da mansão. Famoso, ele tinha aparecido em alguns dos mais importantes filmes do Cinema Novo, como a obra-prima de Glauber Rocha, Terra em Transe e em Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. Nos anos 1970, também havia sido palco de shows e de peças de teatro memoráveis mas por causa da reclamação de vizinhos, tinha fechado. Só que agora, depois de alguns anos de silêncio, o local foi reaberto mais uma vez como um lugar para shows. Nos finais de semana, ele passou a competir com o Circo Voador para atrair os maiores talentos e os melhores corações e mentes daquela geração de cariocas. Na minha adolescência tinha visto shows excelentes ali: Alceu Valença, Zé Ramalho, a Barca do Sol, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, o Terço, entre vários outros. Nos anos 1980 iria ver Ultraje a Rigor, Ira, Legião Urbana, Camisa de Vênus, Cazuza, Lobão e muitos outros. Por ser da casa, a Blitz só se apresentava no Circo. 

Uma das apresentações mais marcantes que aconteceu no Parque Lage, unindo as duas gerações do rock, foi uma do Raul Seixas. Junto com a Rita Lee, Raul era o padrinho musical da nova geração. Os seus temas libertários conferiam aos seus shows uma aura anárquica, quase satânica. Naquela noite, a casa estava lotada. Seu público era especial; havia muitas figuras estranhas que pareciam ter saído do passado, mais a ver com os hippies de Mauá do que com a galera bronzeada do Posto Nove. 

Quando Raul subiu no palco uma hora atrasado todos foram ao delírio com a lenda viva. Só que depois das primeiras músicas ficou patente que a idade e as coisas que tinha tomado haviam tido um efeito negativo. Ele estava esquecendo as letras no meio das músicas e parecia meio letárgico. Mesmo assim, o teatro quase veio abaixo quando tocou clássicos como Mosca na Sopa e Gita. O show terminou com a canção Sociedade Alternativa. Como de costume, no final da música Raul recitou as leis que regeriam a tal sociedade alternativa, todas muito legais e cabeça aberta. A última lei, no entanto, foi para causar efeito.

“Na sociedade alternativa o homem terá o direito de matar aquele que o incomode.”

Após mandar a bomba, saiu​ do palco. A banda parou de tocar logo depois e também foi para os camarins. Aquela frase continuou no ar de uma forma meio incômoda. Um cara com ar de ativista político universitário subiu ao palco e, inconformado com o que o Raul tinha dito, pegou no microfone ainda ligado e protestou. 

“Companheiros, descordo do que o Raul disse. Não estamos aqui para cultuar o assassinato, deveríamos estar celebrando a vida numa noite maravilhosa dessas!”

Aquele minidiscurso caiu mal com o público do Raul e veio vaia de tudo quanto é lado.

 “Sai daí, seu veado!”

“Vai falar merda pra tua mãe!!!”

“Desce daí, seu filho da puta!”

O cara, um sujeito franzino de óculos e com cabelo black power, continuou: “Podem vaiar, vocês ouviram bem o que o Raul disse? Isso é coisa de animal!”

As vaias aumentaram e alguém jogou uma lata de cerveja nele. 

“Isso mesmo, podem jogar lata, mostrem que vocês são um monte de ignorantes.”

Depois do convite, latas, garrafas e tudo mais em que o público conseguiu pôr às mãos literalmente choveram no palco. O teatro era a céu aberto e quando olhava para cima parecia que tinha uma mangueira jorrando projéteis. O cara desceu correndo, o Raul não voltou para dar o bis, mas, mesmo assim, a galera ficou gritando o seu nome como num ritual primitivo.

“Raul! Raul! Raul!”

*

Apesar da cena dantesca, a Escola de Artes Visuais do Parque Laje (EAV) era uma das melhores da cidade. O reconhecimento aconteceu quando o curso que Pedro estava fazendo decidiu juntar forças com a faculdade de Belas Artes da Universidade Federal e com alguns pintores já consolidados, para pintar os muros de concreto do parque. Todos contribuíram com criações incríveis. Aquele exercício ganhou uma cobertura ampla na imprensa e acabaria definindo quem seria quem na “Geração 80”, o movimento mais importante da década nas artes plásticas. O muro do Parque Lage foi a porta de entrada para muitos artistas se estabelecerem como profissionais. Para os convidados já estabelecidos em gerações anteriores, o evento os colocaria sob a égide daquele movimento.

O Pedro pintou um dos pedaços do muro e com isso se tornou um membro oficial da “Geração 80”. Aquilo abriu as portas para que circulasse de cabeça erguida entre as “pessoas interessantes” com as quais sempre desejou se relacionar. Com o seu novo status, agora era o Pedro quem passou a me introduzir a círculos sociais que eram de fato interessantes. Nunca consegui curtir, nem respeitar, muito menos usar cortes de cabelos chamativos e artificiais e roupas vanguardistas. A despeito disso, com o preconceito fora da equação, descobri muita criatividade e contestação por trás das máscaras, apesar da superficialidade das comitivas. Dessa forma, me tornei um participante periférico da nata da estética dos anos oitenta que me haviam estragado o Nordeste.

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Samba Perdido – Capítulo 19 – Parte 01

Capítulo 19

 

“E aqueles que foram vistos dançando

Foram considerados loucos por aqueles que não conseguiam ouvir a música.”

 Friedrich Nietzsche

 

O último ano no Colégio Andrews era dedicado cem por cento a nos preparar para o vestibular. As aulas foram transferidas para um prédio separado com os alunos agrupados em quatro turmas – duas para ciências exatas, uma para área biomédica e uma para humanas. Agora, transformada em cursinho pré-vestibular, a escola era puro stress. Os métodos eram intensos, com professores nos bombardeando com segredos infalíveis para saltar a barreira colossal posta a nossa frente.

O programa da escola tinha uma boa reputação. Estudantes vindos de outras instituições no Rio bem como de mais longe se transferiam para. Um dos novos alunos que conheci tinha vindo do Chile. Ele tinha ido viver lá com a mãe quando os pais se separaram. Agora, na casa do pai, queria voltar a morar na sua terra natal e fazer faculdade lá.

Alguns dias depois do início das aulas, pegamos o mesmo ônibus e começamos a conversar. Por algum motivo, o papo acabou em Teresópolis e descobrimos, para nossa completa surpresa, que ambos tínhamos casas de campo vizinhas no fim de mundo do Jardim Salaco. Isso foi coincidência demais para a cabeça de qualquer um e ajudou a nos tornar melhores amigos instantaneamente.

Kristoff era de descendência alemã, parecia com o ator Jack Palance, só que de cabelo comprido e loiro. Além da origem europeia, tínhamos em comum o gosto pela música, ele tocava flauta transversal e se tornaria saxofonista profissional. Além  disso, de alguma forma inexplicável, apesar de pertencermos à infame “esquadrilha da fumaça”, conseguíamos nos manter nos top quinze por cento quando havia testes preparatórios. Não demorou muito para que ele se juntasse à irmandade musical da escola, e em pouco tempo seu apartamento no final do Leblon se tornou o quartel general dos músicos marginalizados e afins. 

Como aspirantes a instrumentistas, para nós, os gigantes do rock dos anos 1970, Pink Floyd, Led Zeppelin, Jethro Tull e Yes reinavam supremos nos nossos gostos, assim como os Beatles, os Rolling Stones e o Jimi Hendrix. Só que além deles curtíamos o jazz-rock mais recente, representado por uma geração de músicos brilhantes como a Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin, Focus, Jean-Luc Ponty, Jeff Beck, Stanley Clarke e Weather Report entre tantos outros. 

Tal como era o caso com outros aspectos da cultura jovem no Brasil, estávamos cerca de cinco anos atrás do que estava acontecendo na Inglaterra e na América do Norte, desconhecendo tanto o punk como o reggae. Não fazíamos ideia do que representavam em termos de resistência ao sistema, ao racismo e à caretice que tinham tomado conta do mundo anglo-saxão a partir de meados dos anos 70. De qualquer forma, suspeito que mesmo que tivéssemos tido conhecimento, ainda assim teríamos continuado ligados naqueles grandes mestres nos nossos instrumentos.

Havia vários talentos musicais locais de alto calibre surgindo. Nossos ouvidos estavam abertos para gênios como Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti que pareciam ser um fio condutor para o tipo de energia que tinha experimentado no sul da Bahia. 

Se a bossa nova tinha sido o reflexo do otimismo do pós-guerra brasileiro, essa nova geração musical refletia um momento de autodescoberta e de renascimento vindo com o ressurgimento da liberdade política. Ainda que fossem exclusivamente instrumentistas, eram populares; seus shows lotavam e, por um curto tempo, eram os mais vendidos entre os consumidores mais antenados.

Dos três, Egberto era meu favorito. Seu talento começou a se manifestar na loja de instrumentos musicais de seu pai onde, ainda criança, demonstrava pianos aos clientes. Mais tarde, Egberto foi para a França estudar música clássica. Quando regressou, aplicou o conhecimento adquirido e seu talento à música brasileira, indo muito além da bossa nova. Entre outras coisas, Egberto mergulhou a fundo na música indígena, a ponto de ir aprender música sagrada com um pajé na região do Xingu onde usava música como forma para curar. A história conta que para Sapaim, o xamã-músico, aceitá-lo, Egberto teve que acampar do lado de fora de sua maloca isolada na selva por cerca de um mês até ser convidado a entrar. Talvez por causa do que aprendeu lá, os sons nos seus shows eram como uma entidade palpável que hipnotizava o público.

Hermeto Pascoal foi um menino albino nascido no sertão nordestino. Devido à sua condição, não podia trabalhar sob o sol escaldante, daí seus irmãos o trancavam em um estábulo onde canalizava sua frustração furiosa para a música. Os seus cabelos e barba brancos, longos e encaracolados e seus traços marcantes cobertos por óculos fundo de garrafa, conferiram a ele o merecido apelido de “Bruxo”. Sua banda, que mais parecia uma seita de instrumentistas fanáticos, morava na sua casa no bairro afastado de Bangú, no Rio de Janeiro. Quando tocavam, faziam sons insanos, não só com instrumentos, mas também com objetos do dia a dia como garrafas quebradas, serrotes e panelas. Em meio a essa loucura, entretanto, havia o gênio que criava sons celestiais lindíssimos nascidos dos mistérios de índios, africanos e europeus.

Desses três instrumentistas, o que alcançou maior sucesso internacional foi Naná Vasconcelos. A revista Down Beat, a mais importante do mundo do jazz, iria elegê-lo oito vezes como o melhor percussionista do mundo; ele também receberia oito Grammies. Vindo de Pernambuco, era o único afrodescendente dos três. Exalando ritmo por todos os poros, mestre no berimbau, tinha uma ligação íntima com a espiritualidade do Maracatu. Depois de uma contato rápido com os mineiros ligados a Milton Nascimento, o clube da esquina, conheceu o rock e a mistura acabaria levando sua percussão a níveis psicodélicos nunca antes imagináveis.

Egberto, Naná e Hermeto não eram, de forma alguma, as únicas expressões da música instrumental e experimental brasileira nos anos 1970. Havia também bandas como a Uakti, conhecida por usar instrumentos feitos à mão, pelos próprios membros do grupo. O nome Uakti vindo de um mito dos índios Tucano sobre um homem-instrumento. Haviam os jazzistas como Victor Assis Brasil, Hélio Belmiro e Wagner Tiso, além de bandas mais elétricas como A Cor do Som e o guitarrista Pepeu Gomes, ambos com origem nos Novos Baianos. Para qualquer um minimamente interessado em música essa foi uma época abençoada.

Após sua curta popularidade no Brasil, os três principais expoentes daquela geração sairiam de moda mas surgiriam como estrelas na cena do jazz internacional.

*

O interesse pela música instrumental era tão grande, que promotores de eventos enxergaram a oportunidade. O Rio Jazz Festival, irmão carioca do Festival Internacional de Jazz de São Paulo, começou em 1978, apresentando nomes consagrados internacionalmente como o guitarrista Joe Pass, o trompetista Dizzy Gillespie e o saxofonista Dexter Gordon, o guitarrista da Mahavishnu Orchestra, John MacLaughlin bem como músicos brasileiros que estávamos ouvindo. 

O problema era o local: o Maracanãzinho, o mesmo lugar que tinha acolhido os festivais da canção no fim dos anos 1960 e início dos 1970. A acústica era péssima. Grandes nomes do rock, como Alice Cooper, Rick Wakeman e Genesis haviam tocado lá, mas o eco tinha transformado a música deles em ruído.

Apesar dos problemas de qualidade, a “esquadrilha da fumaça” tinha que estar presente. Como os ingressos eram caros, só tínhamos dinheiro para um show. Escolhemos a noite de encerramento, com o Weather Report, a banda do melhor baixista de todos os tempos, Jaco Pastorius, seguidos por outra estrela do baixo, Stanley Clarke. O grandfinale ficaria a cargo de Jorge Ben junto com a bateria da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, a melhor do Rio de Janeiro, e convidados especiais.

Os assentos eram divididos entre os mais em conta, na desconfortável arquibancada na parte de cima, e os mais caros perto do palco. Lá, o público mais endinheirado podia ouvir o show com mais clareza sentado em cadeiras numeradas. Claro que tínhamos os ingressos mais baratos. Só que assim que entramos no ginásio, percebemos que era fácil pular para a parte de baixo. Todos fizeram isso, só que quando chegou a minha vez, um policial bateu nas minhas costas e me mandou voltar para meu lugar. Ainda que tenha ficado só, estava com nosso precioso baseado reservado especialmente para o show, sobrevivente das dificuldades financeiras do mês anterior. Quando sentiram sua falta, me chamaram lá de baixo e ficaram implorando para que jogasse o bagulho. 

Falei que não ia rolar: “Os caras agora estão de olho em mim, não vou pular e o beck fica comigo.”

“Rique, deixa de ser veado e joga essa merda!”

“Cara, essa é a minha compensação por ficar sozinho aqui na roubada.”

“Porra! Todo mundo comprou junto e você vai ficar com ele sozinho!?”

“Grita mais alto que é pros “homi” ouvirem melhor.” 

Voltei para o meu lugar nas arquibancadas e deixei os caras reclamando, provavelmente se segurando para não me chamar de judeu ruim de transa.

*

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Samba Perdido – Capítulo 8

Capítulo 08

“Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento…”

Caetano Veloso – Alegria, Alegria

Célia era a amiga bonita e magricela do andar de baixo. Foi ela que tinha chamado a Sarah para ver a copa do mundo na sua casa. As duas eram coladas. Um dia entrou como um foguete no apartamento.

“Sarah! Sarah!” Quando minha irmã apareceu, ela precisou retomar o fôlego. “Sarah! Minha mãe acabou de dar de presente de aniversário dois ingressos para o Festival Internacional da Canção, você quer vir comigo?!!”

As duas comemoraram animadíssimas, mas logo Sarah se lembrou.

“Vou ter que perguntar para minha mãe.”

Acompanhando a conversa do quarto, pensei a mesma coisa na mesma hora; a dona Renée não ia liberar essa nem a pau. Sem motivo para inveja, me fingindo de morto, fiquei ouvindo as duas fazerem planos para convencê-la.

Quando minha mãe chegou, não deu outra.

“Você no Maracanãzinho à noite?! Nem pensar, é muito perigoso!”

Os festivais aconteciam no Maracanãzinho, o irmão menor do Maracanã, uma arena ao lado do estádio para eventos não futebolísticos.

“Mas mãe, o Maracanãzinho fica do lado de uma universidade e de um hospital! A gente vai de carro com os dois irmãos dela, qual o problema?”

“Todo mundo sabe que aquela área é cheia bêbados e de assaltantes! Aqueles dois franguinhos não vão conseguir defender vocês de nada! E imagina se você se perder no meio daquela gentalha?! Nem pensar! Você não vai e acabou!”

Sarah não se deu por vencida. “Mãe, pode ser que seja assim quando tem jogos de futebol no Maracanã, mas no dia do festival só vai ter gente de nível da Zona Sul. Não vai ter perigo nenhum! Por favor mãe, me deixa ir!”

“Para que? Para assistir músicos de segunda categoria fazendo um barulho ensurdecedor e tocando canções horríveis para um monte de comunistas emaconhados?” Dona Renée fez um gesto dramático e decretou “Você não vai e pronto!” Daí ela foi para a cozinha dar ordens à empregada.

Mais tarde, precisou a mãe da Célia subir para implorar que a dona Renée mudasse de ideia. Dona Dindinha garantiu que seus filhos – um estudando para ser médico e outro estudando para ser padre – conheciam bem o lugar e que a Sarah estaria segura com eles. Afinal ela estava deixando sua filha na mão deles. Além disso, o presente era muito especial para a Célia, que ia ficar de coração partido se fosse sem a melhor amiga no dia do seu aniversário. Os argumentos adultos e o fato de que sua família era dona do nosso apartamento fizeram Renée conceder. Ela disse que ia falar com o marido quando voltasse do trabalho. Ao ouvir essas palavras eu já sabia qual seria o resultado.

Durante o jantar, as duas explicaram o que tinha acontecido e, apesar dos argumentos contrários da minha mãe, meu pai liberou na hora.

“Qual o problema da Sarah ir para o Festival com a Célia e os irmãos dela? Ela adora este tipo de música e os dois são ótimos rapazes.”

*

Em uma época sem Internet, – e mesmo sem gravadores de fitas-cassete – a única opção para ouvir nossas músicas preferidas era ou comprar discos caros ou torcer para que tocassem no rádio. A oportunidade do convite da Célia era imperdível. Os melhores artistas do país e outras atrações internacionais estariam se apresentando naquela noite e o evento seria transmitido em horário nobre para o país inteiro.

Para piorar as coisas para mim, mais ligado em música que minha irmã, não tínhamos televisão em casa. Havia a possibilidade remota de assistir o festival na casa do Paulo mas, como meus pais, ele não se interessava em música brasileira. Não ia acontecer. Tive que aceitar que não assistiria o evento do qual todo mundo estaria falando. Meu único consolo era que aquela elas estavam indo para a semifinal; a final seria no próximo fim de semana.

Aquelas competições faziam as manchetes dos jornais no país inteiro e as canções concorrentes tocavam direto no rádio. Conforme a final ia se aproximando todo mundo já tinha escolhido sua preferida. Apesar de serem organizadas por gravadoras promovendo seus artistas e por estações de TV vendendo o espaço publicitário, eram vistas como eventos culturais da maior importância. Tinham até significância política já que, embora não os patrocinasse, o regime as encorajava como uma maneira de unir a nação em torno de uma celebração da música brasileira. Além disso, por tolerar a presença de artistas com mensagens de oposição, eram uma maneira dos generais provarem à população que, embora não permitissem que escolhesse seu próprio governo, não tinham nada contra a liberdade de expressão.

Os artistas subiam ao palco representando todos os segmentos da sociedade. A esquerda intelectual tinha Chico Buarque; os puristas da bossa nova, Tom Jobim e Nara Leão; os roqueiros e os psicodélicos, Os Mutantes; os afrodescendentes, Toni Tornado; a militância estudantil, Geraldo Vandré; a juventude despolitizada, Wanderléa e outros representantes da Jovem Guarda; os tropicalistas tinham Gilberto Gil e Caetano Veloso; os amantes da música tradicional e o povão, Jair Rodrigues e Paulinho da Viola; e ainda tinha Jorge Ben, que agradava a todos.
As revelações daqueles eventos não só encheriam os cofres das gravadoras mas também dariam origem – ou pelo menos influenciariam – a tudo o que viria depois em termos de música popular brasileira.

Acima de tudo, devido ao momento político, esses festivais se tornaram o único canal com alguma possibilidade de se debater a realidade no país, mesmo que de forma indireta.

“Para Dizer Que Não Falei de Flores” do Geraldo Vandré, por exemplo, se tornaria o hino da resistência à ditadura.

Havia ecos de Cuba quando o estádio se juntava para cantar.

“Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão”

Por outro lado, havia a turma hippie, interessada em liberdade individual. Seu carro chefe eram Os Mutantes como com a canção 2001.

“Astronauta libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia”

Essas duas correntes antagônicas competiam lado a lado com canções de amor melosas e sambas engraçados.

*

A polêmica acirrada entre os defensores da liberdade individual radical e a militância política que esquentava os festivais, ia muito além dos palcos. Esse embate também acontecia – não só no Brasil – nas artes, no cinema, no teatro e na literatura. O movimento da Tropicália emergiu desse emaranhado tentando englobar os dois lados e tudo mais que pudesse. Seus expoentes seguiam a máxima do artista plástico Andy Warhol e de outras estrelas da vanguarda internacional de que “tudo é pop”.

Misturando rock com música brasileira e psicodelia com revolução, a música/manifesto Tropicália de Caetano Veloso deixava a plateia atônita, sem saber se vaiava ou se aplaudia.

“Eu organizo o movimento
Eu oriento o Carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central”

Sob as asas acolhedoras dos tropicalistas havia a simpatia pela revolução cubana, o amor pelos Beatles, uma procura por raízes brasileiras, sem esquecer, é claro, de uma boa dose de sagacidade comercial. Embora comumente associada à música de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes, a Tropicália foi bem mais ampla. Antes de se dissipar, o movimento envolveu artistas plásticos, como Hélio Oiticica, músicos vanguardistas como Tom Zé, escritores, cineastas, filósofos e uma pletora de malucos e gênios que marcaram a cultura brasileira.

*

No começo, os militares permitiram que os artistas cantassem o que quisessem. Contudo, a dinâmica dos festivais acabou sendo diferente do planejado. Conforme as canções de liberdade e de revolução foram ganhando destaque, ficou claro que a sua presença nas salas de estar da nação em horário nobre era um contrassenso. Querendo evitar uma imagem negativa ao acabar com a festa ou excluindo as estrelas, a saída que os generais encontraram foi a censura.

As coisas foram de mal a pior com o draconiano AI-5 que tirou as liberdades civis dos brasileiros. Sem ter que responder a um poder judiciário os militares acabaram indo muito além da censura. Ignorando a possível reação da sociedade civil, puseram em marcha um processo de exílio e de aprisionamento dos artistas contrários ao regime, independentemente do seu prestígio e da sua popularidade. A consequência foi que os festivais se esvaziaram de significado e acabaram morrendo.

Alguns anos mais tarde, num gesto de reconciliação, os militares aceitaram os artistas de volta. Porém, nada seria como antes. No seu retorno, apesar de serem recebidos como heróis, haviam amadurecido no exterior. Agora, expostos diretamente ao que estava acontecendo na cenário jovem internacional, tinham preocupações mais profissionais.

Apesar da queixa de alguns críticos puristas, quem acabou ganhando com essa mudança foi o público. Suas apresentações passaram a ser individuais em teatros ou em casas de shows. Mais refinados, propiciavam uma mistura única de resquícios de resistência autêntica, status de celebridade e talento. Essa alquimia contava com o suporte de músicos e produtores de qualidade internacional. Quando Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque subiam no palco, era como se o mundo tivesse voltado à normalidade só que com elementos de uma realidade fantástica.

*

Quando me tornei adolescente – anos depois da minha frustração com a não ida ao festival – comecei a frequentar shows. Eram ocasiões intensas, mais parecidas com partidas de futebol ou com comícios do que com apresentações musicais. Quando os teatros abriam as portas, o público entrava às pressas como gado. Com todos acomodados, começava um clima de Maracanã; diferentes sessões da plateia vaiavam umas às outras ou se aplaudiam como se estivessem torcendo para times diferentes. O público ficava cantando bordões políticos, musiquinhas relacionadas às drogas ou ficavam sacaneando uns aos outros.

“Que beleza…
A maconha que vem lá do Ceará!
O lêlê! O lálá!
Enrola na seda,
acende pra fumar! ”

“A turma lá da frente é bicha!” Os da frente se levantavam e respondiam com vaias.
Quando as luzes se apagavam, a sala caía em silêncio e a magia começava. Nos melhores shows, era como estivessemos na sala de estar dos artistas. As músicas mais calmas proporcionavam uma comunhão tão forte que nunca senti nada parecido, nem antes e nem depois. Artistas mais carismáticos como Gilberto Gil faziam momentos de “pergunta e resposta” em que a plateia respondia entusiasmada às suas orientações musicais. As canções mais animadas – muitas vezes sucessos que tocavam no rádio e apareciam na televisão – eram sempre deixadas para o final e acabavam num Carnaval fora de época com o teatro inteiro indo à loucura, pulando nos corredores e no palco.

Paralelamente a essas festas em forma de show havia algo novo chegando de mansinho. As bandas de rock eram a expressão da geração mais nova. No contexto da época, eram o submundo do submundo. O clima dos seus shows não era de carnaval fora de época. A celebração era macabra, guiada por guitarras distorcidas e ritmos frenéticos na bateria. O público era medonho: agressivo, meio sujo, tinham cabelos mais longos do que o normal e usavam drogas que a maioria de nós nem sabia que existiam. Uma de suas principais expressões era Raul Seixas e seu letrista, o agora mundialmente famoso, Paulo Coelho.

“Quem não tem colírio usa óculos escuros!” Aconselhava uma de suas músicas.

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante.” Dizia outra.

Tal como Led Zeppelin, David Bowie e os Rolling Stones, seus temas; o sexo – tanto hétero como homo -, as drogas e o misticismo, eram perturbadores e anti sociais. Com essa leva vieram os Secos e Molhados. Muito a frente do seu tempo, adotavam um estilo andrógino e usavam uma maquiagem exagerada que mais tarde a banda americana Kiss copiaria. A voz lindamente feminina do seu vocalista Ney Matogrosso e seus trejeitos homoeróticos escancaravam a questão da identidade sexual nas rádios, nos palcos e nos televisores do país; isso nos idos de 1972. Esses artistas, ainda que populares com uma grande parcela dos jovens, chocavam a todos os não envolvidos. Ninguém com um posicionamento “sério” se atrevia a se identificar com eles, nem mesmo intelectuais esquerdistas “avançados”.

Esses pioneiros iniciaram tudo o que a maioria das pessoas de classe média consideraria banal nas décadas seguintes: drogas leves, vegetarianismo, interesse em filosofias orientais e a busca por um jeito zen-individualista de levar a vida. Ignorando tanto a ditadura política da direita quanto a ditadura intelectual da esquerda a galera do rock só queria saber de viver intensamente.

Quando chegou a onda da discoteca, descobriram que dar uma melhorada no visual e soltar a franga nas pistas de dança atraía sexo. Isso e a grande quantidade de fatalidades relacionadas às drogas entre os que mergulharam de cabeça naquele estilo de vida, fizeram com que a primeira geração do rock brasileiro desaparecesse com a mesma velocidade que tinha aparecido.

A passagem de bastão entre as gerações dos festivais e a do rock, marcou o fim da aura de resistência política nos shows. Eles passaram a ser simplesmente um sopro de ar fresco na claustrofobia tanto do regime quanto dos lares tradicionalistas. Com essa mudança ficou claro que esse era um clube para privilegiados. Para fazer parte da turma e participar das atividades afins – sair com a galera descolada, comprar os discos certos e viajar para destinos alternativos – você tinha que ter dinheiro e não era todo mundo que tinha acesso a esse recurso.

Desde os primeiros festivais, nunca havia representantes da classe trabalhadora nos auditórios. As massas ainda eram as domésticas que preparavam o jantar do publico antes de saírem de casa, os cobradores e motoristas dos ônibus que levavam alguns lá, os “flanelinhas” que pediam para vigiar os carros de outros e os policiais lá fora, ávidos para extorquir o seu dinheiro. Nos anos 1970, os rebeldes das classes menos privilegiadas ouviam funk e iam á suas próprias festas, como bem retratado no filme “Cidade de Deus”, um relato verdadeiro desse período da história do Rio de Janeiro.

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Samba Perdido – Capítulo 03, parte 03

Em termos de família, não estávamos sós no Rio de Janeiro. Embora isso nunca tivesse pesado na sua decisão de emigrar, Rafael, tinha uma prima distante morando em Copacabana. Duscha e o marido tinham se mudado da Alemanha para o Rio antes da guerra. Ao contrário dos meus pais que tiveram filhos numa idade avançada – Rafael tinha sessenta e dois e Renée quarenta e dois quando nasci– ela teve seus filhos jovem, logo que chegou. Portanto, nossos primos eram uns quinze ou vinte anos mais velhos.

Minha prima acabaria se tornando uma atriz e cantora famosa; Bibi Vogel. Com seu jeito frágil, seus olhos verdes penetrantes, seus lábios escuros e seu corte de cabelo hippie ela foi uma das musas de sua geração. No entanto, não foi só a beleza que a trouxe fama. Era uma excelente cantora, e com seu estilo parecido com o de Joan Baez, chegou a gravar álbuns de algum sucesso. Contudo, Bibi se tornou mais conhecida como atriz, mostrando seu talento cedo num dos papéis principais na versão brasileira de Hair, o ícone musical da contracultura dos anos 1960.

Quando eu era bebê, antes de virar famosa, Bibi se mudou para Nova York. Lá, tentou a sorte com a banda de bossa nova de uns amigos. Eles eram bons e aproveitando a popularidade da música brasileira, conseguiam lotar barzinhos, casas noturnas e até teatros. Depois de um ano ou dois, Bibi voltou para visitar os pais. No Brasil, ouviu “Mas Que Nada”, o sucesso de Jorge Ben (“ôôôô… Mariá aiôô, obá, obá, obá…”).

Encantada com seu balanço, quando voltou a Nova York, apresentou a canção à banda. Todos adoraram na hora. Depois de adotada, ela passou a ser uma das favoritas dos músicos e do público. Pouco depois, minha prima decidiu abandonar seus companheiros para ir atrás do namorado que estava de mudança para a Califórnia. Sem muita cerimônia Sérgio Mendes a substituiu por uma vocalista americana. Alguns meses mais tarde, conseguiram assinar um contrato com uma gravadora que trouxe o mega produtor Quincy Jones para ajudar. Quando o disco saiu, Sergio Mendes e o Brasil 66 transformaram o sucesso de Jorge Ben numa referência internacional.

Depois da aventura americana, Bibi voltou ao Brasil e fez carreira como atriz na TV Globo. Contudo, a vida de artista pode ser dura e quando o bolso aperta, cada um se vira como pode. Ao me tornar adolescente, fiquei boquiaberto ao deparar com uma foto da minha prima seminua na capa da Status – a primeira revista “masculina” do Brasil. Mais chocante ainda, acabaria também vendo imagens da Bibi estampadas em cartazes de pornochanchadas. Esse era um estilo de filmes com elementos das chanchadas, comédias musicais dos anos 1950 com Oscarito e Grande Otelo, mas com um tempero soft-pornô. Embora péssimos, lotavam salas de cinemas com homens solitários da classe baixa e adolescentes da classe média com documentos falsificados dizendo que eram de idade. Os dois grupos gastavam suas economias para ver atrizes mostrando seus seios em situações sexuais.

Se só o fato de ter uma prima envolvida nisso era estranho, para tornar a coisa ainda mais bizarra, sua mãe, Duscha, era a cantora principal no coral da nossa sinagoga. Nos feriados importantes do calendário religioso judaico, ela agraciava a comunidade com a sua voz treinada e angelical.

O que mais me confundia era que, apesar das conquistas artísticas da Bibi e da sua imagem serem contrárias a tudo o que meus pais pregavam em casa, eles não conseguiam deixar de sentir orgulho dela. Como em qualquer família de classe média, sucesso era mais importante do que caracterizavam como virtude. Não concordava com esses conceitos e nunca deixei de ser fascinado pela minha prima mais velha que nos encantava contando e encenando histórias e nos lendo trechos das suas peças de teatro favoritas quando éramos pequenos. Além de ser muito culta, tinha uma personalidade que impunha respeito, foi uma das primeiras feministas do país e era enturmada com a nata artística da sua geração.

Não podia deixar de sair em sua defesa quando meus amigos faziam gracinhas a seu respeito.

“E aí, Rique! Está cobrando quanto pela meia hora com a tua prima?”

Para mim, Bibi foi uma inspiração importante: se alguém da minha família tinha conseguido se dar bem no meio artístico, por que não eu?

*

Em casa, na escola e nos círculos de amizade de meus pais, todos me consideravam “artístico”; algo que nunca soube dizer ao certo se era um elogio ou uma forma educada de dizer que era um caso perdido. Certos ou errados, gostava de desenhar e era vidrado em cinema e em livros; se a história me tocasse passava semanas fantasiando. Porém, acima de tudo, a música mexia comigo. Musicalidade era um gene que corria na família, não só do lado da Bibi mas, principalmente, do lado da minha mãe. Por décadas, meu tio, o maestro Sydney Torch – o primeiro da família do meu avô Alec a se mudar da Estonia para Londres – conduziu a orquestra de concertos da BBC. Duas gerações mais tarde, Ben Mandelson, meu primo de Liverpool, seria guitarrista do consagrado bardo da esquerda britânica, Billy Bragg, nos anos 1980.

Como minha mãe proibia qualquer tipo de gênero popular em casa, cresci ouvindo música clássica e era um apaixonado. Nos fins de semana, acordava cedo e aproveitava a sala vazia para ligar a vitrola e ficar conduzindo orquestras invisíveis com a minha caneta telescópica japonesa.

Apesar da falta de entusiasmo de Rafael, vendo uma promessa de talento, Renée providenciou aulas de música. O professor que a escola ofereceu era uma pessoa especial. Mr. Stansfield tinha vindo para o Rio por meio de uma instituição de caridade ligada à Igreja da Inglaterra. Ele sofria de paralisia cerebral e os sintomas eram severos – tinha uma completa falta de coordenação motora que tornava o simples ato de andar difícil. Contudo, isso não afetou sua habilidade de ensinar um menino de sete anos a tocar flauta doce.

Depois de vencer a dura batalha para conseguir tocar a minha primeira canção – Au Claire de la Lune – o instrumento passou de inimigo a meu melhor amigo. Descobri a magia de fazer e de criar música e passei a tocar quando e onde podia. Os sons e as frases que saíam da flauta me ligavam a uma energia sutil que parecia escapar à maioria das pessoas. Apesar de meus inimigos da escola encararem minha nova descoberta como mais um motivo para me atacar, vizinhos, professores, família e amigos me encorajavam.

“Ele traz vida à escola com a sua flauta”, disse uma professora à minha mãe, se referindo às minhas aventuras musicais explorando o eco dos corredores vazios enquanto esperava pelas aulas do Mr. Stansfield.

“Que graça teu filho tocando música nesta idade”, diziam os vizinhos, opinião talvez suspeita por causa da etiqueta polida do prédio.

De qualquer forma, depois de mais ou menos um ano tendo que aguentar minhas intermináveis viagens musicais, todos os encolvidos ficaram secretamente aliviados quando decidi trocar a flauta por uma nova paixão mais silenciosa e mais ligada ao ar livre: o jacaré ou o bodyboarding.

Depois do estágio infantil de apostar corridas com a espuma d´água, passei a usar uma prancha de isopor e a me jogar na frente das ondas para que me levassem. O próximo passo foi me aventurar até onde elas quebravam e depois gradualmente aprender a cortá-las para os lados quando estavam arrebentando. Depois que aprendi a nadar fui ganhando confiança no mar e o tamanho das ondas foi aumentando. Entusiasta do esporte e morando a poucas quadras da praia, fui aprimorando minha técnica. Com o tempo as pranchas foram ficando menores, até que as deixei de lado e passei a usar somente as mãos com a ajuda de pés de pato. Quando percebi, já fazia parte fo grupo dos “casca grossas”.

Pegar jacaré passou a ser a melhor coisa do mundo. Lá longe, na água funda e despoluída, atrás da forte arrebentação, debaixo do sol quente, com os edifícios distantes, tudo era puro, simples e calmo. Havia apenas o corpo imerso no vasto oceano em harmonia com sua dinâmica incontrolável, seu sal e seus sons. Quando as ondas começavam a se formar no horizonte, era como estivessem nos desafiando. Para pegá-las, tínhamos que nos posicionar no lugar perfeito e começar a nadar para a frente na velocidade exata até que o mar nos permitisse fazer parte de sua parede de água. Depois disso, era só guiar nossos corpos, nos movendo ligeiramente para prolongar o êxtase o mais que possível.

As ondas grandes eram medonhas, mas também eram as mais divertidas. No auge de minha carreira de bodyboarder, dominava ondas de até dois metros e meio, quase do tamanho da parede de um quarto, que vistas por baixo pareciam enormes. Sempre havia um ponto de não retorno, quando ainda se podia olhar para baixo e pensar sobre o que se estava prestes a fazer. Nesse ponto, o cara tinha que ser meio doido para continuar, mas, em noventa por cento dos casos, o desafio mais que valia a pena.

O ponto alto de pegar jacaré era ficar envolto pelo tubo da onda, ou entubar. Esse é, com certeza, um dos melhores lugares para se estar no planeta: uma efêmera caverna d´água formada pela natureza num momento único. Para um menino, havia uma poética erótica, ainda que subliminar, de se estar ali com o corpo rígido deslizando pelo túnel de agua do cosmos.

Esse tipo de comunhão com a natureza era maior e melhor do que qualquer outra coisa que tinha aprendido em casa ou na escola. Ao desafiar o oceano me sentia forte, corajoso e acima de tudo harmonizado.

Talvez por noventa por cento do corpo ser composto de água – a energia do mar servia como um carregador de baterias natural. Depois dessas sessões, exausto mas energizado, andava pensativo de volta para casa na beira do mar. Era como se  os passeios de madrugada na praia com meu pai retornassem num novo patamar. Embora sem a sua presença, as questões metafísicas e existenciais voltavam ainda mais fortes. Aquele bem-estar absoluto me levava a refletir sobre minha existência bizarra e meu destino de ter que conciliar mundos tão distintos. Ficava pensando que, apesar daquela complexidade insuportável, era apenas um cara como qualquer outro. Por que deveria ser o menino “especial”, solitário e estudioso, que meus pais esperavam que eu fosse? Em casa censurava aqueles pensamentos. Mesmo assim, quando contava minhas façanhas, elas eram acolhidas com apreensão; havia o medo que eu fosse seduzido por atividades socialmente questionáveis que acabariam por me desviar do futuro brilhante reservado a meninos como eu. Para Renée e Rafael, o culto ao físico e a coragem praieira eram coisas para os vândalos cabeludos e insolentes que estavam tomando conta das praias e das ruas cariocas. Para eles e seus amigos, surfistas e roqueiros estavam estragando não só o Rio, mas o mundo. As nuvens de um conflito estavam se formando.

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