Uma orgia democrática

A democracia é um sistema político com muitas falhas, mas ainda assim é o melhor sistema que existe.

Eu escuto de muitos amigos que estão horrorizados com as chamadas alianças partidárias, que segundo eles, são abomináveis, inexplicáveis, nojentas etc. Neste rol entram as alianças nacionais e estaduais que muitas vezes colocam partidos nacionalmente inimigos, estadualmente melhores amigos.

Uma das razões para isto é o número absurdo de partidos existentes hoje no Brasil, Só nesta eleição são 35 partidos.

O nome do jogo é política e nesta arte aprende-se a engolir sapos com uma grande facilidade. Inimigos de ontem, são os amigos de hoje. Fotos e discursos em favor de aliados vão sendo descartados porque hoje não mais se falam.

Neste jogo existe o pragmatismo, e a ideologia vai sempre ficar em segundo plano. Numa disputa política pela governabilidade, vale tudo, ou quase tudo. Vale até mesmo elogiar oponentes e menosprezar aliados, dependendo do estado da nação.

Durante a ditadura, os milicos resolveram o problema permitindo dois partidos. Todos que eram a favor pertenciam a Arena (Aliança Renovadora Nacional) e todos que eram contra, pertenciam ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

Com 35 partidos, não existe ideologia para tanto partido. Por mais que a esquerda se divida, quantos partidos ideológicos pode haver? E na direita a mesma coisa. Até mesmo no centro, que são os que acham que ideologia não serve pra nada, quantos partidos seriam aceitáveis?

Com esta profusão, é lógico que o apelo televisivo, e me refiro ao tempo de TV, tem um alto custo. Cada segundo, conta e aí é preciso vender a alma ao diabo para ter mais um “aliado” com tempo disponível, e a venda. Sim, venda, porque o custo desta entrega vai ser cobrado depois com juros e correção monetária.

Se o jogo é este, quem quiser participar, vai ter que aceitar as regras, sob o risco de ficar sem representação. E vejam que não basta ganhar a presidência, é preciso fazer maioria para poder governar e tentar impor minimamente um plano de governo. Este é o segundo tempo deste jogo, e nele tudo pode mudar. Aliados da corrida a presidência ou ao governo dos estados podem ser substituídos por novos aliados, aqui vale tudo.

O sistema democrático, seja ele presidencialista ou parlamentarista, funciona quando certos limites são colocados em nome do bom funcionamento do sistema. É claro que diferentes pensamentos, nem sempre ideológicos, precisam ter voz. É claro que as minorias precisam estar representadas. Mas tudo isto pode acontecer dentro de, dois, três, talvez cinco partidos. Mais do que isso, é escancarar as portas para o que estamos assistindo, ou seja, uma representatividade puramente pessoal, onde os Tiriricas se elegem em qualquer sigla carregando consigo um número elevado de correligionários com menos votos que aqueles com formação política em partidos de formação ideológica.

É justamente esta incoerência no sistema que está deixando o país ingovernável. É ela que permite um Impeachment político sem qualquer escrúpulo, onde qualquer presidente pode estar sujeito a execração pública, mesmo sem haver cometido qualquer crime.

Esta distorção não será fácil de ser corrigida, pois na medida em que se instalaram, estes partidos nanicos jamais darão seus votos para um aumento do percentual de votos necessários para terem representatividade política. O mal já está feito.

A única saída seria uma consciência política por parte da população. No atual estágio em que o país se encontra, eu não vejo isto acontecendo nos próximos anos. A reboque, além da instabilidade política vamos continuar tendo uma redução da qualidade de vida fruto de uma economia em frangalhos com milhões de desempregados.

Estas eleições, por tudo o que está acontecendo, serão históricas. Infelizmente para o mal.

Antissemitismo, quando os extremos convergem

O antissemitismo não é nenhuma novidade no Brasil, mas ele tem sido mais contundente a partir de grupos e partidos que supostamente deveriam combatê-lo com mais vigor. Estou falando da esquerda brasileira.

Um recente artigo publicado e logo retirado no site Vermelho, do PC do B, com um pedido de desculpas, de autoria de Thomas de Toledo, é o fato mais recente que reascendeu o questionamento de parte dos judeus de esquerda, e causou a ira dos judeus de direita.

O texto em questão muito lembra o conhecido Protocolos dos Sábios de Sião, um livro apócrifo que atribui a dominação do mundo pelos judeus. Os protocolos serviram de inspiração para gerações de antissemitas, tanto de direita como de esquerda.

Thomas de Toledo possui belas credenciais: historiador formado pela USP, com mestrado em desenvolvimento econômico pela Unicamp, secretário geral do Cebrapaz e membro do PC do B.

Não é nenhuma novidade a associação ente Judeus/Israel/Sionismo, como se fossem tudo a mesma coisa quando se deseja atacar o Estado de Israel, e a associação Judeus/Religião/Brasileiros, quando se pretende justificar o não antissemitismo.

Quando afirma que Israel passou a controlar três ministérios chaves do governo golpista de Temer, nominando os ministros com sobrenomes supostamente judeus, Toledo está flertando com os Sábios de Sião. Ele não se distingue daqueles que afirmavam que na Páscoa os judeus faziam a Matzá (pão ázimo) com o sangue de crianças cristãs e os consequentes pogroms e mortes de judeus.

O Estado de Israel não somente foi criado por sionistas-socialistas, como sobreviveu inicialmente graças a ajuda da União Soviética. A representação de esquerda em Israel e os movimentos pacifistas pela criação de um Estado Palestino são formados em sua maioria por pessoas de esquerda. Este mesmo quadro praticamente não existe nos demais países do Oriente Médio. No entanto os movimentos e partidos de esquerda no Brasil são, em sua maioria, favoráveis a destruição do Estado de Israel. Não se contentam posicionar-se contra o atual regime político, claramente fascista e combatido pela esquerda israelense. Muito menos serem solidários com esta esquerda duramente combatida, não apenas pelo regime, como por inúmeros movimentos de extrema direita que os tratam como traidores da pátria.

O conceito de uma conspiração judaica para dominação mundial, como já disse antes, não é novo, tampouco no Brasil. Nos anos 80 e 90 até mesmo uma editora de livros antissemitas se estabeleceu no RS. Chamava-se Editora Revisão (sic) e tinha como proprietário Siegfried Elwanger, um notório revisionista que dizia possuir inúmeros amigos judeus.

O posicionamento contrário a Israel por parte da esquerda também não é novidade no Brasil. O que sim vem surgindo como uma novidade é o famigerado antissemitismo disfarçado de uma política anti-Israel.

Quando um Partido Político de esquerda dá guarida a um texto inequivocadamente  antissemita, ele fere de morte todo o preceito básico da ideologia socialista. Ele se contradiz em si mesmo e se assemelha ao fascismo e todas as suas matizes.

Ironicamente os judeus sempre estiveram ligados a esquerda em nosso país mantendo intensa atividade política com movimentos e partidos de esquerda.

A participação nos anos 20 e 30 foram significativas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte. No Rio de Janeiro a esquerda judaica se reunia em torno da Biblioteca Scholem Aleichem (que mais tarde se transformaria na ASA), na Brazkcor, Sociedade Brasileira Pró-Colonização Judaica na União Soviética, e no Centro Operário Morris Vinchevsky. Em São Paulo eram conhecidos os grupos Cultura e Progresso e, já em 1954, o Instituto Cultural israelita Brasileiro (Icib), a Casa do Povo, de tendência comunista, junto ao Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib). Por curiosidade, a língua e a cultura idiche foram um aglutinador importante destes movimentos.

Na era Vargas os judeus participaram intensamente dos movimentos sindicais, universitários, organizações populares e centros culturais comunitários. Haviam judeus membros da Aliança Nacional Libertadora e no Partido Comunista Brasileiro. Um nome não pode deixar de ser mencionado: Olga Benário.

Nos dias de hoje existem judeus em todo o espectro partidário de esquerda.  Portanto em nada se justificaria no Brasil a intrínseca associação entre esquerda e antissemitismo, no entanto ela existe.

Eu concluo que independentemente de ideologias, a esquerda tem em seus quadros pessoas preconceituosas que diferentemente do que se poderia esperar, afrontam os preceitos ideológicos de sua formação. Não creio que a esquerda brasileira seja antissemita, mas acredito que em seu seio existem militantes que em dada diferem dos membros de organizações fascistas quando o tema é o judeu.

O antissemitismo, muito mais do que ideológico, é um estado doentio de natureza humana e de ordem privada.

OBS: Alguns dados foram obtidos em A História dos Judeus no Brasil – CONIB e no Livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, O anti-semitismo nas Américas: memória e história.