por Mauro Nadvorny | 13 out, 2019 | Brasil, Política
A causa
Estava pensando no que mais se pode dizer deste governo que ainda não tenha sido dito. Todos os dias passo pelas notícias e aquela coisa de que nada está tão ruim, que não possa piorar, piora. O inacreditável passa a ser crível numa sequência de nonsense de tirar o fôlego. As redes sociais fazem a síntese dos absurdos e eu me vejo perguntando até quando.
Estou naquele momento Tiririca. Nada contra o personagem, é que me recordo do fato de que a candidatura dele foi vista como um fato grotesco, ou de protesto, dependendo para quem se pergunte. De toda maneira, a candidatura vingou e acho que foi mais ou menos ali, naquele exato momento que fomos desviados no tempo espaço para um mundo paralelo. Desde então, nada mais pode ser definido como absurdo, nem mesmo a eleição de uma família miliciana.
Alguém vai dizer que os absurdos já aconteciam muito antes, que haviam Malufs e similares sendo eleitos mesmo depois de acusados de roubarem e afirmarem que “roubavam, mas faziam”. Concordo que muitos políticos de carteirinha eram reeleitos contra todo e qualquer senso ético e moral, mas os caras eram políticos escolados, sabiam como levar o povo na sua lábia. Tiririca, para mim, foi quem mudou todos os conceitos.
Vejam que depois dele, a palhaçada se tornou coisa comum. O parlamento assumiu ares de um circo e se alguém duvida, lembrem-se do que foi a noite do Impeachment da presidenta Dilma. Nem o Cirque du Soleil seria capaz de montar um espetáculo daqueles. Aquilo foi uma universidade circense com palhaços dando aulas magnas. E ele, o Tiririca, votou sim.
A coisa foi ficando tão ruim que o palhaço percebeu que onde pensava ser professor, era na verdade um mero aluno recebendo lições. Tinha professor para tudo. Logo se tornou o que menos esperavam dele, mais um político no baixo-clero. Encontrou sua teta para mamar e lá permanece.
Neste universo em que ele nos colocou a realidade sofreu um enorme revés. Um governo de histórias em quadrinhos tomou o poder. Só que não eram os heróis, eram os anti-heróis. Não os bacanas, nem os nerds. Quem assumiu foram os caras que sentavam colados na parede das salas de aula. O pessoal que só rezava para o professor esquecer o nome deles. Os caras que foram para Harvard só no currículo fake que fizeram no computador. Aqueles cujos trabalhos escolares eram um “Control C” e “Control V”. Gente que adorava os sites que provavam que o homem nunca foi a Lua. Os aniversários eram comemorados em uma mesa, eu disse UMA mesa do McDonald’s.
No mundinho que foi a sua infância e adolescência, uma bolha resguardada dos seus piores tormentos, não tiveram tempo de conhecer o lado de lá da vida. O lado com ricos e pobres, com os que tem tudo e os que não tem nada. Da natureza nunca ouviram falar, afinal nunca foram para um acampamento na vida. Direitos humanos e direito animal, nenhum significado em suas vidas. Seu mundinho foi quadrado e continua sendo.
Como poderiam acreditar em um mundo melhor para todos, se nunca foram parte do mundo e nem do todos? Em luta de classes, se sua mediocridade foi sempre uma armadura para sobreviverem? O globalismo os amedronta. O socialismo os atormenta. O neoliberalismo os redime. A religião os entorpece. A direita os seduz.
O efeito Tiririca abriu os portões da salvação para todos eles. Mostrou que eles podiam chegar ao poder pelo voto. Claro que uma ajuda do WhatsApp foi benvinda, mas um juiz em conluio com os promotores tirar o principal empecilho do caminho foi quase divino. Isso foi a apoteose do inferno na Terra.
Ele deixou de ser Francisco Everardo Tiririca Oliveira Silva para se tornar uma lenda. Nossa história ficou definitivamente marcada quando ele se tornou deputado e foi reeleito. Nosso carma só vai terminar quando não se reeleger mais. Ele, e aquela lista inominável que está no Congresso Brasileiro. Bolsonaro não é a causa, é apenas a consequência.
por Mauro Nadvorny | 30 set, 2019 | Brasil, Política
Aos abusadores da lei, a lei.
A nova lei do abuso de autoridade já encontra resistência em algumas das ditas autoridades. Acostumadas a impunidade, adeptas do “sabes com quem estás falando”, eles sentem o natural desconforto de quem lhes limita o poder irrestrito desfrutado até agora.
No país onde as leis são sempre relativizadas no que se tornou comum aos amigos o jeitinho e aos inimigos o rigor da lei, não era de se admirar que a limitação imposta a eles faça levantar uma oposição. E neste caso, claro que exageram na interpretação naquilo que lhes convém.
No site da Conjur se pode encontrar manifestações contrárias à lei de abuso de autoridade e faço aqui minha oposição a elas.
Com relação a polícia, o artigo 10 criminaliza “Decretar a condução coercitiva de testemunha ou investigado manifestamente descabida ou sem prévia intimação de comparecimento ao juízo”. Segundo os críticos deste artigo, interrogar um acusado é passo inicial na investigação e obtenção de provas. Se a sua condução depender de uma intimação prévia o risco de ele evadir-se é grande. Ora, estamos falando do exemplo clássico que foi o depoimento coercitivo do presidente Lula e de outros acusados da Lava Jato.
Para eles é verdade que o tipo fala em condução descabida, mas a simples existência de tipo penal levará a autoridade policial a não agir. Isto pode ser essencial, por exemplo, em um crime de homicídio.
Qualquer autoridade policial com o mínimo de escolaridade compreende perfeitamente que uma coisa é levar para prestar depoimento um preso em flagrante por homicídio, outra e muito diferente, é montar um espetáculo midiático, ou a seu bel prazer, trazer de forma arbitrária uma pessoa para prestar esclarecimentos sem nunca ter sido intimada para isso.
Outro artigo que os incomoda é o artigo 21 que criminaliza manter, na mesma cela, criança ou adolescente em ambiente inadequado, com 1 a 4 anos de reclusão. Segundo eles, menores adolescentes, não raramente, praticam crimes bárbaros. Como local inadequado é algo subjetivo, mantê-lo em uma cela que não tenha ar condicionado, será adequado? Para estas autoridades o tipo penal busca um ideal comum a países como a Finlândia, inexistente no Brasil, e leva insegurança ao sistema penitenciário, inclusive ao juiz.
Convenhamos que qualquer leigo compreende que se trata de não misturar menores infratores com outros presos, ou em locais desumanos. Relacionar a falta de ar-condicionado em uma cela para ilustrar uma suposta falha no que diz a lei, é o uso do famoso jeitinho comum a eles.
Alguns juízes também se rebelam por entenderem que podem ter sua atividade posta em risco evidente. No artigo 37 que prevê como fato delituoso, punido com a grave (sic) pena de 1 a 4 anos de reclusão, “Decretar, em processo judicial, a indisponibilidade de ativos financeiros em quantia que extrapole exacerbadamente o valor estimado para a satisfação da dívida da parte e, ante a demonstração, pela parte, da excessividade da medida, deixar de corrigi-la”.
Claro que o devedor que se recusa a pagar sua divida pode, e em muitos casos deve, ter penhora de bens para quitar seu débito. O que não pode acontecer é um cidadão ter um bem de 100 mil reais penhorado para quitar uma dívida de 100 reais. A lei ainda é clara que na hipótese de comprovado engano de parte do juiz, ele se negar a corrigir.
Agora o que talvez seja o que mais os incomoda, o artigo 9º, parágrafo único, que atribui ao juiz o crime de deixar de relaxar prisão manifestamente ilegal, deixar de conceder medida substitutiva ou de deferir liminar em habeas corpus, impondo-lhe pena de 1 a 4 anos de reclusão. Para eles estas hipóteses são de apreciação subjetiva ao único e exclusivo critério do juiz, podendo ser supridas por HC ao Tribunal. Ou seja, dependendo de quem é o cidadão, a subjetividade requerida daria ao juiz o poder de decidir para quem ele deve cumprir a lei, e para quem ele não deve. Novamente o HC do presidente Lula no TRF-4 é o exemplo clássico.
Claro que já existe uma meia dúzia de juízes que estão se utilizando da nova lei para demonstrar seu desprezo pelo estado de direito. São juízes que antes da promulgação da lei já não eram capacitados para o exercício da justiça.
Nós vivemos no país da impunidade de autoridades. Os exemplos vêm do andar de cima e não são poucos. Temos um governo formado por ministros que fraudavam seus currículos e cuja líder no Congresso plagiava artigos quando era jornalista. O presidente da nação e seus filhos estão envolvidos com milicianos. Procuradores da Lava Jato trabalharam em conluio com o juiz do caso. O ex-procurador do MPF declara que queria matar um ministro do STF. Um ministro do supremo age como delegado de polícia. Esta lei, se não perfeita, é um passo adiante na tentativa de se restabelecer o estado de direito, no respeito à cidadania e da máxima de que a lei é igual para todos.
A maioria dos policiais e dos juízes são conhecedores dos limites da lei e de como ela deve ser cumprida. Agora, aqueles que manifestadamente se comportavam como deuses supremos respaldados pelo poder a eles outorgado para fazerem justiça, estes terão de se submeter a ela ou pedirem para sair.
por Mauro Nadvorny | 18 set, 2019 | Israel, Política
Judias e Judeus com Lula
por Mauro Nadvorny | 14 set, 2019 | Israel, Oriente Médio, Política
Israel volta as urnas, e agora?
As eleições em Israel se repetem nesta terça-feira, dia 17 depois de Bibi não conseguir formar um governo nas eleições passadas e ao invés de passar a tarefa para outro partido, optar por dissolver o parlamento e com isto tentar novamente se manter no poder.
Ao que tudo indica pelas últimas pesquisas, o impasse não se resolveu e ele não vai ter maioria para formar um governo se vencer novamente. Aqui não quer dizer que o partido que tenha mais votos vá conseguir formar o governo. No parlamentarismo é preciso ter maioria com alianças de outros partidos. Elas normalmente não saem barato.
As opções de cada campo são conhecidas. O Likud já tem parceiros de outras eleições e o Azul e Branco ainda é uma incógnita com quem tentaria formar uma coalizão viável, se com a esquerda, com a direita, ou ainda um governo de coalizão nacional com o Likud, sem Bibi, e Israel é a Nossa Casa de Liberman.
Neste momento as pesquisas apontam que o Likud e o Azul e Branco estão chegando a 32 ou 33 cadeiras cada um. Com um percentual de 4,5% de margem de erro, qualquer um dos dois pode estar à frente.
Nos últimos anos o Likud deixou de ser um partido laico de direita, para se tornar conservador de direita. Os partidos religiosos deixaram de ser exclusivamente ligados aos assuntos religiosos para se tornarem também ideologicamente de direita. Eles são parceiros naturais do Likud e juntos chegam a 15 cadeiras.
Um novo partido que se chama Direita, formado por religiosos extremistas e laicos de estrema direita são apoiadores naturais do Likud e estão alcançando 9 cadeiras. Mas a surpresa está sendo o Poder Judaico, um partido de extrema direita que teve dois membros impedidos de concorrer pela Suprema Corte, estar ultrapassando a Cláusula de Barreira e neste momento chegando a 4 cadeiras. Algo como 140.000 israelenses concordam com suas ideias racistas e ultra-nacionalistas.
Do outro lado os trabalhistas e o Campo Democrático com o Meretz, tradicional partido de esquerda chegam com 5 cadeiras cada. Os dois, segundo as pesquisas, vem perdendo votos pra o Azul e Branco.
A Lista Árabe Unificada com 11 cadeiras depende principalmente da vontade dos cidadãos árabes saírem para votar. Se isso acontecer podem chegar a 15, ou mais lugares no parlamento. O problema é que se de um lado eles são oposição aos partidos de direita, o Azul e Branco também não aceitaria uma coalizão com eles.
Por fim, temos o Israel é a Nossa Casa. Eles estão no momento com 9 cadeiras. Liberman diz que não senta em uma coalizão que tenha partidos religiosos. Os partidos religiosos dizem que não sentam com Liberman e o Azul e Branco. O Campo Democrático diz que não senta com Bibi. O Likud diz que não forma coalizão que não tenha os religiosos. Os partidos Direita e o Poder Judaico só aceitam sentarem com o Likud se ele aceitar suas demandas. A Lista Árabe Unificada não senta com Bibi e aceitaria conversar com o Azul e Branco que afirma que não os quer no governo. O Azul e Branco diz que não senta com Bibi, mas aceitaria formar um governo com o Likud e Liberman.
Claro que existe o momento antes, e o depois das eleições. Tudo que foi dito antes, pode mudar radicalmente depois de acordo com as conveniências e aquela conversa pra boi dormir de “em nome da governabilidade”, “pelo desejo do povo”, “vamos fazer um sacrifício” etc.
Assim sendo dia 18 pode ser marcado por muitas surpresas. Diante deste quadro de incertezas ninguém está disposto a apostar no resultado final. Muitos já advertem para o desastre anunciado de uma terceira rodada eleitoral em caso de nenhum partido conseguir formar um governo. Tudo está em aberto a poucos dias das eleições.
Vale ressaltar que nas eleições passadas as pesquisas ficaram bastante aquém dos resultados finais. Somente um canal de TV apresentou um resultado de boca de urna mais próximo dos resultados finais. Por enquanto nenhum dos dois maiores partidos, de acordo com as pesquisas, tem maioria para formar uma coalizão sem abrir mão de seus princípios eleitorais. Aguardemos.
por Mauro Nadvorny | 7 set, 2019 | Brasil, Comportamento, Política
Ser Judeu é Preciso
Não lembro em minha existência de um protagonismo político judaico no Brasil como nestes tempos recentes. Sem dúvida, estas eleições mexeram muito com a comunidade judaica brasileira e parece que o Brasil também ficou sabendo que existem judeus brasileiros.
Nossa existência nestas terras remontam a colonização do Brasil após a sua descoberta. Já chegamos a ser uma comunidade com cerca de 150.000 pessoas, nos acomodamos bem entre as demais comunidades de emigrantes e nos integramos na vida diária.
A comunidade judaica sempre foi muito organizada. No mundo inteiro sempre foi assim e aqui não poderia ser diferente. Sinagogas, escolas, clubes sociais e esportivos, clubes de cultura, associações femininas, e movimentos juvenis são exemplos da vida comunitária presente no Brasil.
O Mito de que judeus só casavam com judeus não se sustentou, a comunidade diminui ano a ano, principalmente devido aos casamentos mistos e abandono da tradição judaica. O mesmo com relação as posições políticas. Os judeus sempre estiveram presentes na esquerda e na direita se afiliando aos diversos partidos políticos que o país já teve.
A comunidade judaica nunca foi monolítica. Com representações a nível estadual e uma representação nacional, os judeus brasileiros são bastante distintos entre si. Não é apenas a origem ocidental (Ashkenazi), ou oriental (Sefaradi), temos visões políticas bastante diversificadas.
O judaísmo é essencialmente humanista. Nossos profetas apontaram para uma existência de respeito ao próximo e de convivência pacífica entre os povos. Se retirarmos a questão divina da equação ficamos com o que mais tarde ficou conhecido como os Direitos Humanos.
Nossa saga histórica é de inúmeras provações, a maior delas e a mais conhecida foi o Holocausto. Um regime político de extrema direita tomou o poder na Alemanha, conduziu o país para a Segunda Guerra Mundial e determinou a aniquilação do povo judeu. Foi uma indústria da morte onde 6 milhões perderam a vida assassinados, entre eles 1,5 milhão de crianças.
Muitos judeus se destacaram na história em todos os ramos do conhecimento. Muito do desenvolvimento humano que alcançamos até os dias de hoje se deve a contribuições judaicas. Não fossem estas contribuições, este artigo, por exemplo, ainda estaria sendo lido em jornais de papel.
O grande divisor de águas na nossa história recente foi a criação do Estado de Israel e suas consequências para nós como judeus, o povo árabe-palestino e o mundo em geral. Ao contrário do que se pensa, a busca por um lar judaico é muito anterior a segunda guerra e o Holocausto foi mais uma razão para esta determinação histórica de retornar para a terra de onde fomos dispersados pelo mundo.
Israel foi construída com base em uma sociedade socialista. As fazendas coletivas chamadas de Kibutz, foram um exemplo de socialismo prático e nenhum outro país conseguiu criar algo parecido. Os sindicatos, a medicina universal e a vida nas cidades foram conceitualmente e na prática visões socialistas. Israel nasceu e se desenvolveu em seus primeiros anos de vida como um estado socialista.
As coisas mudaram a partir de 1977 com a subida ao poder do bloco de direita e continuam assim deste então. O alinhamento com regimes de direita, e especialmente com os Estados Unidos numa simbiose extremamente prejudicial se mantém inalterado até os dias de hoje. É com este governo de Israel que Bolsonaro tenta se aliar.
O mundo evangélico pentecostal vê em Israel e nos símbolos judaicos o que os católicos veem no Vaticano e no Papa. Para eles, Jesus Cristo só voltará a Terra quando todos os judeus tiverem retornado para Israel e o aceito como Messias. Com esta pregação, eles arregimentam milhões de fieis dispostos a seguirem os mandamentos de seus líderes e se dispõe a ajudarem nesta missão. Assim se apropriam de nossa indumentária religiosa e nacional conduzindo a bandeira de Israel em todas as suas cerimônias e manifestações, sejam religiosas ou políticas.
Claro que esta apropriação não é bem recebida, principalmente pelos judeus progressistas. Durante o período das últimas eleições, um grupo denominado de “Judeus Contra Bolsonaro” foi formado no Facebook e em poucos dias chegou a quase 8.000 membros. Nele estavam presentes judeus de todo o espectro político que tinham em comum o fato de não desejarem Bolsonaro como presidente. Estivemos presentes na luta pelo “Ele Não” no dia a dia de todo processo eleitoral.
Passadas as eleições o grupo mudou de nome e hoje se chama ‘Resistência Democrática Judaica’ com pouco mais de 6.000 membros. Nasceram a seguir outros grupos em outras mídias como os “Judeus pela Democracia” em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mais recentemente foi formado o “Observatório Judaico dos Direitos Humanos no Brasil”. Nunca antes na história judaica brasileira surgiram em tão pouco tempo grupos judaicos de oposição política a um governo recém-eleito.
A mensagem destes grupos tem em comum principalmente a luta por um Brasil democrático e o respeito pela dignidade humana. São grupos de judeus progressistas que concentram aquilo que de mais precioso existe no judaísmo, nosso sentimento de humanidade e solidariedade com o próximo. Nossas causas passam, entre outras, pela condenação do golpe que destituiu uma presidente eleita, pela prisão política de um ex-presidente que permitiu a eleição de Bolsonaro, pelos retrocessos dos direitos históricos dos trabalhadores, pelo respeito a diversidade humana, pelo clima, contra a censura etc.
No momento em que Bolsonaro se comporta de maneira tão inapropriada no cargo de Presidente do Brasil, nos envergonha sobremaneira ver nossos símbolos associados a esta vergonha internacional. Não somos seus judeus de estimação e nos aliamos a todos os movimentos que lutam pelo fim de seu regime e acabe com o termo da sua passagem pela presidência.
Nesta hora em que o país dá a cada dia mais indicações de que basta desta milícia familiar no poder, nós judeus progressistas estamos na linha de frente irmanados com todos os brasileiros. Porque ser judeu é preciso.
por Mauro Nadvorny | 30 ago, 2019 | Brasil, Política
Abjetos humanos
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) o percentual de psicopatas na população gira entre 3,5% e 4,0%. Em um universo de 100 pessoas, podemos ter algo em torno de 4 psicopatas. Não necessariamente todos ligados aqueles casos mais extremos que combinam esta falta de empatia com outros distúrbios comportamentais que os levam a cometerem crimes de extrema violência.
Existem milhares de membros no MPF. Muito difícil crer que os membros da Lava Jato tenham sido escolhidos de acordo com o grau de psicopatia. Não foram diagnosticados assim para fazerem parte do que se acreditava ser um grupo de idealistas lutando contra a corrupção.
Em se tratando, pelo menos em sua maioria, de pessoas normais, o que deu errado? Em que momento perderam sua humanidade ao ponto de debocharem de indivíduos mortos, inocentes que nada tinham a ver com atos de corrupção, entre eles um menino de 7 anos?
Dizem que para julgar o caráter de uma pessoa, basta dar a ela poder. Como colocar um uniforme de policial ou receber um cargo de mando. Se ela continuar sendo aquilo pelo qual chegou lá, trata-se de uma pessoa de bom caráter. Caso contrário, ela soube nos enganar muito bem.
Quando me refiro a caráter tenho em mente a índole. Aquele processo construído ao longo da nossa infância e juventude que molda a pessoa que somos. O que não depende diretamente da situação socioeconômica, do lugar onde nascemos ou de motivações religiosas. Aquilo que nos faz aprender o que é certo e errado quase que instintivamente. Que ainda pode ser corrigido.
Estes promotores da Lava Jato podem ser chamados de qualquer coisa, mas o que mais os define é a falta de caráter, sua má índole. Eles não apenas causaram um estrago na economia do país levando milhares de brasileiros ao desemprego, usaram de artimanhas nada recomendáveis para atingirem seus objetivos, como perseguiram um ex-presidente de forma cruel e fora da lei.
Alguns deles chegaram aos cargos que ocupam por influência de parentes. Todos são os típicos brancos, bons cristãos e membros da elite. Não me parecem que tenham sido os mais populares nos seus bancos escolares. Também não fazem o tipo de esportistas. São aqueles, não fosse a fama, nos lembramos sua existência na nossa juventude, mas nos falham os nomes.
Esta gente se auto investiu de um poder que jamais lhes foi outorgado. Se acharam acima do bem e do mal e como numa cruzada contra os infiéis, se lançaram em uma guerra contra a corrupção no Brasil. Não contra todos os corruptos, somente aqueles que ideologicamente lhes convinha. Para isso tiveram um grande aliado, o então juiz Sergio Moro. E assim de mãos dadas, respaldados pelo Grupo Globo e a maioria dos veículos da mídia nacional, juntamente com a complacência do STF, fizeram o que bem entenderam se colocando acima da lei.
Todos os avanços de sinal vermelho foram amplamente apontados. A divulgação ilegal dos áudios do Presidente Lula com a Presidenta Dilma teve ampla divulgação. A condução coercitiva do Presidente Lula e de outros acusados foi matéria nacional. O julgamento recorde no TRF-4 sem o mínimo tempo hábil de leitura do processo pelos juízes e os votos combinados receberam ampla divulgação. A condenação sem provas foi minimizada e comemorada. Viva os heróis da Lava Jato foram as manchetes da mídia escrita e televisiva.
Tudo o que a mídia nacional escondeu ou pouco divulgou como sendo no mínimo impróprio, um site chamado The Intercept, que tem como um de seus fundadores o renomado jornalista Glenn Greenwald, desnudou. Um imenso arquivo contendo as trocas de mensagens entre os procuradores, entre eles e Moro, incluindo áudios, começou a ser esmiuçado por eles e outras mídias. E foi aí que ficamos sabendo que aqueles idealistas realmente não passavam de agentes públicos inescrupulosos. Todos aqueles sinais menosprezados anteriormente passaram a fazer sentido. Eram Tigres de Papel.
A cada divulgação de trocas de mensagens, fomos sendo informados como a justiça pode ser manipulada, e como eles a manipularam de acordo com os seus interesses. Regras básicas de equidistância do juiz para com a defesa e a acusação foram flagrantemente desrespeitados sem o menor pudor, sempre em favor da acusação. E foram ao ponto de o juiz oferecer testemunha para ela.
Trabalharam para impedir o Presidente Lula de dar entrevistas antes da eleição, fingiram investigar FHC, deram palestras para obterem lucros pessoais, pressionaram ministros do STF inclusive se utilizando de grupos de direita para isso, acobertaram um dos seus que pagou por outdoor ilegal e vazaram informações para a imprensa de acordo com os seus interesses quando lhes convinha. Estas são algumas das insensatezes conhecidas até agora que em uma democracia normal já seria motivo de prisão com a nulidade de todos os processos nos quais tiveram envolvimento. Numa democracia normal.
Tudo o que já sabemos até aqui é manifestadamente execrável, mas nada se compara com os comentários jocosos que fizeram contra o Presidente Lula quando das perdas da sua esposa, de seu irmão e de seu neto. Para isso não existem palavras fáceis. Abjetos humanos é pouco para defini-los. A maneira como se referiram aos falecidos é impublicável, mas o fizeram no que acreditavam ser um ambiente favorável e inacessível ao público que deveriam servir de exemplo de idoneidade ética e moral.
Os diálogos que nos foram apresentados atestam inequivocamente que não estavam trabalhando de acordo com o profissionalismo esperado de um agente público. Estavam isto sim, sendo o que de mais baixo existe na humanidade, seres desprezíveis que desceram ao esgoto da sociedade e lá permaneceram para se lambuzarem com a desumanização de seus semelhantes que sequer conheciam, cujo único crime seria o parentesco com aquele que metódica e doentiamente atacaram sem piedade.
Esta gente merece o desprezo de qualquer ser humano. Suas desculpas são como lágrimas de crocodilo. Nada vai apagar a falta de bom senso e total desprezo pelo sofrimento das perdas do Presidente Lula. Erraram uma vez com a morte de sua esposa. Outra vez com a morte de seu irmão e uma terceira com a morte de seu neto. Não tem perdão. Como bons cristãos que são, penitenciem-se até o fim dos seus dias.