Terceira eleição em Israel

Uma colheradinha sobre mídia israeli e politica, pra quem pensa que só no Brasil acontece.

Depois de passar mais de 2/3 de minha vida na minha amada “Entidade Sionista”, aprendi alguma coisa sobre eleições. Uma delas é não comemorar boca de urna. Você pode ir dormir com Peres e acordar com Bibi. (Veja 1996). Desde então, meus cabelos brancos sempre aumentam entre 91 e 100% da contagem. E um fator importantíssimo nesse momento seria receber analises comedidas, de bom senso e de quem? Da mídia, correto? Mas…

Infelizmente, a mídia israelense simplesmente não cumpre seu dever, ela é bajuladora e se encolhe, confusa e sem noção. Novamente. Começou já ontem com a promoção de uma consciência completamente equivocada, como se os resultados fossem uma “vitória arrebatadora” para Benjamin Netanyahu. Foi assim com os canais de TV, com jornalistas rinocerontes, e tambem na maioria dos sites de notícias e jornais. O problema é que isso é factualmente incorreto. O objetivo declarado de Likud e Netanyahu era chegar a 61 no bloco de direita para formar facilmente uma coalizão, mas isso provavelmente não acontece (supondo que a situação permaneça a mesma depois de contar os envelopes duplos e os votos dos soldados). Netanyahu fracassou nas pesquisas de opinião pública pela terceira vez em menos de um ano para alcançar a maioria da coalizão. Então, o que resta para ele nesse meio tempo? Assumir o controle da consciência do cidadão como se fosse vitorioso, e isso é feito através dos meios de comunicação, cuja grande maioria é submissa, hipnotizada, e serve a ele e à falsa consciência que ele difunde, como se fosse a Torá do Sinai.

O que vemos é obviamente um jogo de consciência e Bibi o joga com arte. Impossível não admirar sua genialidade midiática, funcionou até pra mim ontem, quando a mídia se apressou a afirmar que era uma vitória definitiva e “acachapante”.

Então, quando vi que não havia 61, me lembrei de quem se trata, uma pessoa que se apossa de todo “sucesso” seja relacionado a ele ou não, e todo fracasso ou, no caso aqui, lodo jogado sobre outros é derrota de outros, e ele simplesmente declara isso como fato.

Por exemplo, vimos dois dias antes da eleição, quando declarou que Galant não havia sido eleito chefe de gabinete por causa de Ashkenazi e Barak, para jogar lodo no adversário, quando de fato, o que aconteceu foi que ele não o nomeou por conta do relatório do controlador estatal, e claro, esqueceu-se de mencionar que quase não houve um oficial sequer do Tzahal, do Shaba”k ou do Mossad nos últimos vinte anos que não o criticasse de maneira aguda. Caramba, onde estava a mídia para contestá-lo e coloca-lo em seu lugar?

Quando ele vence a luta com o Kaholavan, “o povo disse o que tinha a dizer”, mas quando o Kaholavan teve maioria, foi “tentativa de derrubar o bloco da direita”. Entendem?

Tudo isso é um jogo que brinca com nossas mentes, e a mídia em seus programas de noticias o ajudam trazendo tudo quanto é groupie sem nenhuma formação jornalística e políticos que dirão que o povo decidiu que não há confiança no Sistema Judiciario, apesar de que por enquanto, de acordo aos resultados atuais,a maioria dos cidadãos decidiu que não quer presentear Bibi com a concessão de imunidade. E o MK Amsalem (likud) ainda declarou que a maioria do povo acredita em Bibi e que é claro que a maioria dos árabes serão contra Bibi, mas “quem se importa com o que eles pensam?”

Tudo uma perfeita produção de falsa consciência, com total apoio da mídia, inclusive de representantes da esquerda que ou cooperam com ele ou ele conseguiu que seus truques funcionassem sobre eles também até esgotá-los.

Porem – se a situação atual (Bibi 35 – Gantz 33 – bloco da direita 58) continuar, a direita e Netanyahu não conquistaram nenhuma vitória, nem mesmo pequena. Eles falharam pela terceira vez na urna e não têm nem maioria e nem governo. Nos países civilizados, os líderes já pagariam por isso com sua cadeira, principalmente se estivessem na situação legal de Netanyahu. Mas em Israel? Bibi é o rei. O rei está nu, mas todo mundo está sob hipnose e não vê nada. O principal é que “a mídia é de esquerda”. Acordem!

Miopia Degenerativa

Quando não se sabe identificar o verdadeiro inimigo, ocorre o que acontece sistematicamente com a direita judia: transforma a todos os adversários ideológicos em inimigos, e então o cético passa a ser antissemita, e o crítico vira nazista, e o humanista transforma-se em traidor.
Sim. A direita política intolerante e caolha que hoje até convida os soldados de Israel a desobedecer as ordens da superioridade e abster-se de participar na eventual desocupação dos assentamentos ilegais, e os seus sócios religiosos fundamentalistas que pela boca dos seus rabinos (pisquéi halakhá/decretos divinos) “sentenciam” que as terras são “nossas” e que os árabes são invasores que devem ser expulsos (transferidos a outros países), consideram que:
Quem acusa a Netaniahu e seu “entourage” de haver traído com palavras e com atos o espírito e os princípios sobre os quais se fundou o Estado de Israel, é antissemita.
Quem se opõe a que se anexem os territórios ocupados na Guerra de 1967 (única das guerras desde a criação do Estado que foi iniciada por Israel), exigindo a retirada dos mesmos (com os necessários retoques cosméticos de fronteira e um status especial para Jerusalém), é antissemita.
Quem protesta frente às tentativas dos fundamentalistas fanáticos judeus de acabar com o atual Estado de Israel para em seu lugar erigir o inviável Israel bíblico dos contos de fadas, é antissemita.
Todo judeu ou gentil que repete o que disseram os fundadores do Estado de Israel (que a soberania é humana e não divina, e que ao aceitar a partilha da Palestina fecharam-se as contas com o passado no que a território se refere) é antissemita.
E é assim que amigos fieis do povo judeu e do Estado de Israel como Mario Vargas Llosa, e judeus do porte de um Daniel Barenboim ou de um Iossi Beilin ou de um Shlomo Ben-Amí ou de um Itzhak Rabin, e movimentos progressistas/humanistas – alguns multitudinários como Shalom Achshav/Paz Agora, e outros menores porém igualmente humanistas, como B’Tselem ou Iachad (Méretz) – são ou foram  acusados de quinta-colunistas; de inimigos do seu próprio povo, sendo que um desses próceres (Rabin) caiu vítima de um revólver carregado com os discursos inflamatórios (hassatá pruá, em hebraico) da direita e extrema-direita israelense, com Benjamin Netaniahu (atual primeiro-ministro) como seu maior expoente e estandarte).
Essa direita que não economiza palavras para acusar os suicidas palestinos de terroristas (o que de fato são), e a muitos líderes religiosos muçulmanos de incitar à destruição de Israel (o que de fato acontece), mas cala e olha para outro lado quando o governo de Israel bombardeia seletivamente mas mata coletivamente a muitos inocentes por cada culpado, ou cala num gesto de cumplicidade quando tantos líderes religiosos ou não mas todos eles fundamentalistas judeus, exigem a expulsão de três milhões de palestinos das suas casas decretando como mitzvá (obrigação moral) de todo judeu praticante a ocupação da terra dos outros, ou exigem peremptoriamente que os palestinos suspendam a luta contra a força ocupante (definida e permitida pelas Convenções de Genebra assinadas por Israel), mas se omitem na hora de exigir a Israel que cumpra com as resoluções 224, 338 e seguintes do Conselho de Segurança das Nações Unidas que, com a assinatura incluída dos Estados Unidos, determina que Israel deve abandonar os territórios “conquistados” em 1967.
É por isso que todas essas campanhas publicitárias orquestradas pelo governo de Israel e implementadas nas satrapias da diáspora, transformam-se em bumerangue, pois geralmente a realidade não demora muito para desmentir a propaganda, aumentando assim o grau de desconfiança e desconforto dos amigos de Israel por um lado, e o antissemitismo dos inimigos pelo outro.
Enquanto a direita israelense, associada aos fanáticos religiosos, procurar demonizar a todos os judeus que não aceitam suas premissas como se elas fossem “torá mi sinai” (as tábuas da lei), a fratura dentro do povo judeu será cada vez mais difícil de consolidar. E isso, que ninguém duvide, atende aos interesses dos antissemitas, porque a História ensina que um povo dividido pelo ódio é presa fácil dos seus inimigos.
Bem fariam, portanto, os apologistas do tudoparanósnadaparavós se contratassem gente que entende do “metier”, para que a sua “defesa” dos interesses de Israel não produza o resultado contrário ao desejado, como vem acontecendo com excessiva freqüência. Existem bons e sérios argumentos para utilizar, sem necessidade de tirar da cartola acusações sem fundo, porque como bem diz o ditado, a mentira tem pernas curtas.
Proibido esquecer – na hora de sair em defesa do atual governo de Israel – que para o mundo (e não sem parte de razão) Israel é o agressor, já que a ocupação é a alma mater de quase toda essa dor. O mal chamado povo palestino – é bom lembrar – não era o inimigo a derrotar, já que o governo jordaniano era o alvo. E curiosamente por um lado, após o fim dos combates firmou-se a paz com esse governo, e desgraçadamente pelo outro, o preço dessa paz inter pares o está pagando o mal chamado povo palestino, sendo que o troco desse pagamento o recebe a gente inocente em Israel quando é explodida dentro de um ônibus ou enquanto come um faláfel na porta da escola.
Espero e desejo que ninguém se apresse a tirar conclusões sobre nada do que escrevi. Peço que primeiro comparem o dito com o ideário da esquerda israelense em particular e com o discurso moderado das forças humanistas em geral, e também com o que disseram os fundadores do Estado em relação aos pilares sobre os quais deve repousar um Estado de Israel livre, laico, soberano e democrático.
Finalmente, peço a todos os judeus que – por favor – não esqueçam que Israel se encontra perto das portas que conduzem a uma guerra fratricida. O fundamentalismo religioso mais extremista e o fundamentalismo político de igual teor dispõem de armamento pesado e, o mais aterrador de tudo, ambos fazem gala de uma declarada disposição de usá-lo inclusive contra o exército de Israel.
De uma coisa temos todos que estar muito, mas muito cientes: ou somamos, ou sumimos.

 

Um ser do mal a menos no mundo

Sei que vou atrair a ira de parte da esquerda, mas vou dizer de qualquer maneira que hoje acordamos em um mundo um pouco melhor para se viver. Por razões que não vou entrar no mérito, os EUA mataram o Gen. Qassem Soleimani, chefe máximo da Força Quds, mais conhecida como a tropa paramilitar do clero iraniano, os Guardiões da Revolução.
 
Antes de qualquer coisa, vamos entender quem era este carniceiro que de um inofensivo operário da construção civil, se tornou um dos principais militares a dar sustentação ao regime clerical iraniano, e era ponta de lança das missões internacionais em outros países para dar sustentação a expansão Shiita do regime. Ele foi morto em Bagdá em uma missão de confrontar as forças americanas que ainda estão no Iraque.
 
Soleimani foi o responsável, entre outras coisas, pelo fim da Revolta Estudantil de Teerã 1999. Ela aconteceu antes dos protestos eleitorais iranianos de 2009, e foram um dos protestos públicos mais difundidos e violentos que ocorreram no Irã desde os primeiros anos da Revolução Iraniana.
 
A morte de cerca de 1500 civis nas recentes manifestações contra a alta dos preços, especialmente da gasolina, também tem a assinatura dele. O apoio ao regime de Assad na Síria e dos Insurgentes Shiitas no Iraque são políticas dele. Sua morte em território iraquiano não é por acaso.
 
Ele também ajudou a combater o ISIS no Iraque, o que o tornou um aliado momentâneo dos Estados
Unidos e das forças Kurdas. O ISIS, uma organização jihadista islamita de orientação salafita (sunita ortodoxa) e wahabita queria formar um Estado Muçulmano Sunita englobando territórios da Síria e do Iraque que seriam uma ameaça às pretensões hegemônicas Iranianas na região.
 
Soleimani apoiava militarmente o Hezbolah no Líbano e o Hamas em Gaza. Era um inimigo declarado
de Israel e fornecia armas para os dois grupos que pedem a sua destruição. Para ele Israel era um entrave aos planos Iranianos de influência nos regimes do Oriente Médio. 
 
Nesta sexta-feira, dia 02 de janeiro quando deixava seu jato vindo do Líbano, ou da Síria e entrava em um carro, um Drone Americano lançou um míssil que atingiu o alvo diretamente deixando os corpos dele e dos demais ocupantes praticamente irreconhecíveis, tal foi o impacto.
 
Uma pessoa ruim, é um mal para a humanidade e não importa o regime que sirva. O Irã não é um
regime democrático e os direitos humanos estão longe de serem respeitados. Manifestações contra o regime são duramente combatidas e normalmente com centenas de mortos e desaparecidos. As mulheres são obrigadas a cobrirem a cabeça e são impedidas até de coisas simples como assistir um jogo em um estádio de futebol. Homossexuais não são tolerados e podem ser presos e mortos a qualquer momento.
 
O Irã é uma República Teocrática Islâmica onde os poderes são supervisionados por um corpo de clérigos.  Líder Supremo ou Guia Supremo é o chefe de Estado eleito pela Assembleia dos Peritos (86 membros) para um mandato vitalício, em função dos seus conhecimentos de teologia islâmica. Ele também é o comandante chefe das forças armadas responsável pela nomeação dos comandantes do exército, marinha e aeronáutica, e é quem nomeia vários cargos importantes como, por exemplo, a principal autoridade do judiciário.
 
Para poder ser candidato a aprovação ao direito de concorrer a presidência do país, o candidato tem que ser iraniano Shiita. Ele é eleito por sufrágio universal. O parlamento de 290 membros também é eleito por sufrágio universal onde concorrem candidatos previamente aprovados pelo Conselho Supremo. Cinco cadeiras são reservadas aos representantes de minorarias como os judeus.
 
O Partido Comunista do Irã é proibido, a esquerda no país é totalmente clandestina e seus membros quando descobertos, são acusados de traição e condenados a morte. Não existe pluralidade ideológica de partidos políticos. A religião rege os costumes e as leis no país.
 
Então, se um cara como Soleimani, um servidor de um regime como este que trabalhava para o replicar em outros países foi se encontrar com o Diabo no Inferno, não quero saber quem o despachou, o mundo foi dormir com um ser abominável a menos.

 

Israel volta as urnas, e agora?

Israel volta as urnas, e agora?

As eleições em Israel se repetem nesta terça-feira, dia 17 depois de Bibi não conseguir formar um governo nas eleições passadas e ao invés de passar a tarefa para outro partido, optar por dissolver o parlamento e com isto tentar novamente se manter no poder.

Ao que tudo indica pelas últimas pesquisas, o impasse não se resolveu e ele não vai ter maioria para formar um governo se vencer novamente. Aqui não quer dizer que o partido que tenha mais votos vá conseguir formar o governo. No parlamentarismo é preciso ter maioria com alianças de outros partidos. Elas normalmente não saem barato.

As opções de cada campo são conhecidas. O Likud já tem parceiros de outras eleições e o Azul e Branco ainda é uma incógnita com quem tentaria formar uma coalizão viável, se com a esquerda, com a direita, ou ainda um governo de coalizão nacional com o Likud, sem Bibi, e Israel é a Nossa Casa de Liberman.

Neste momento as pesquisas apontam que o Likud e o Azul e Branco estão chegando a 32 ou 33 cadeiras cada um. Com um percentual de 4,5% de margem de erro, qualquer um dos dois pode estar à frente.

Nos últimos anos o Likud deixou de ser um partido laico de direita, para se tornar conservador de direita. Os partidos religiosos deixaram de ser exclusivamente ligados aos assuntos religiosos para se tornarem também ideologicamente de direita. Eles são parceiros naturais do Likud e juntos chegam a 15 cadeiras.

Um novo partido que se chama Direita, formado por religiosos extremistas e laicos de estrema direita são apoiadores naturais do Likud e estão alcançando 9 cadeiras. Mas a surpresa está sendo o Poder Judaico, um partido de extrema direita que teve dois membros impedidos de concorrer pela Suprema Corte, estar ultrapassando a Cláusula de Barreira e neste momento chegando a 4 cadeiras. Algo como 140.000 israelenses concordam com suas ideias racistas e ultra-nacionalistas.

Do outro lado os trabalhistas e o Campo Democrático com o Meretz, tradicional partido de esquerda chegam com 5 cadeiras cada. Os dois, segundo as pesquisas, vem perdendo votos pra o Azul e Branco.

A Lista Árabe Unificada com 11 cadeiras depende principalmente da vontade dos cidadãos árabes saírem para votar. Se isso acontecer podem chegar a 15, ou mais lugares no parlamento. O problema é que se de um lado eles são oposição aos partidos de direita, o Azul e Branco também não aceitaria uma coalizão com eles.

Por fim, temos o Israel é a Nossa Casa. Eles estão no momento com 9 cadeiras. Liberman diz que não senta em uma coalizão que tenha partidos religiosos. Os partidos religiosos dizem que não sentam com Liberman e o Azul e Branco. O Campo Democrático diz que não senta com Bibi. O Likud diz que não forma coalizão que não tenha os religiosos. Os partidos Direita e o Poder Judaico só aceitam sentarem com o Likud se ele aceitar suas demandas. A Lista Árabe Unificada não senta com Bibi e aceitaria conversar com o Azul e Branco que afirma que não os quer no governo. O Azul e Branco diz que não senta com Bibi, mas aceitaria formar um governo com o Likud e Liberman.

Claro que existe o momento antes, e o depois das eleições. Tudo que foi dito antes, pode mudar radicalmente depois de acordo com as conveniências e aquela conversa pra boi dormir de “em nome da governabilidade”, “pelo desejo do povo”, “vamos fazer um sacrifício” etc.

Assim sendo dia 18 pode ser marcado por muitas surpresas. Diante deste quadro de incertezas ninguém está disposto a apostar no resultado final. Muitos já advertem para o desastre anunciado de uma terceira rodada eleitoral em caso de nenhum partido conseguir formar um governo. Tudo está em aberto a poucos dias das eleições.

Vale ressaltar que nas eleições passadas as pesquisas ficaram bastante aquém dos resultados finais. Somente um canal de TV apresentou um resultado de boca de urna mais próximo dos resultados finais. Por enquanto nenhum dos dois maiores partidos, de acordo com as pesquisas, tem maioria para formar uma coalizão sem abrir mão de seus princípios eleitorais. Aguardemos.

 

 

O círculo vicioso do ódio

A cena bem que poderia fazer parte de um filme, ou um destes seriados novos da Netflix. Duas crianças cruzam um portão, se aproximam dos policiais que fazem a segurança do local, sacam suas facas e atacam o primeiro policial mais próximo. São várias tentativas de esfaqueá-lo, algumas bem-sucedidas, até que os demais seguranças saquem suas armas e comecem a atirar. Uma das crianças é morta, a segunda gravemente ferida. O segurança também acaba ferido levemente. Um funcionário palestino que estava na rua também é ferido por uma bala perdida.

Esta cena é real, aconteceu ontem, 15 de agosto em Jerusalém. Quem vive aqui já convive com este tipo de ataques que acontecem esporadicamente, mas até agora, cometidos principalmente por adultos ou adolescentes. As vítimas atacadas vão desde simples transeuntes, passando por eventuais turistas e forças de segurança. Em quase sua totalidade os perpetuadores são mortos pela polícia o que faz destes ataques uma ação suicida.

Infelizmente as coisas não terminam com a morte dos atacantes, que aqui são chamados de terroristas. Em poucos dias as casas onde viviam, e não importa se sós ou com suas famílias, será destruída numa forma de punição coletiva. Todos vão pagar pelo crime. A tragédia atinge a todos.

Existem todo tipo de explicações para estes atentados. A ocupação dos territórios palestinos há mais de 50 anos é o mais simples. No entanto, eu acho que a desumanização do outro é o principal. Para boa parte dos israelenses, os palestinos são todos terroristas que mais cedo, ou mais tarte, vão atacar Israel para expulsar todos os judeus da Palestina. Do outro lado, boa parte dos palestinos acredita que os sionistas israelenses são monstros culpados por todos seus problemas. O conflito que teve seu ápice na criação do Estado de Israel segue cobrando vidas.

A mídia israelense e a palestina em nada contribuem, com poucas exceções, para desconstruir este dueto terrorista e sionista. Ambas empregam estes termos no dia a dia da cobertura de tudo o que acontece de mal em Israel e nos territórios. No início desta semana um jovem religioso de 19 anos foi covardemente assassinado quando retornava para seu local de estudos nos territórios ocupados. Aparentemente foi escolhido a esmo. Estava no lugar errado, na hora errada quando um grupo de jovens palestinos passou por ele e decidiram matá-lo.

Infelizmente a educação de israelenses e de palestinos não é direcionada para a paz e a convivência em comum. Todos são demonizados e como representantes do mal, se justifica maltratá-los e acabar com suas vidas. É o círculo vicioso do ódio.

A solução do conflito ainda é política, mas sem uma revolução na educação de ambos os povos, está cada dia mais difícil e vai se tornando um problema de difícil solução. Com o aumento da colonização dos territórios palestinos ocupados, a solução da dois estados vão diminuindo diante da impossibilidade de se constituir um estado palestino com uma continuidade territorial. Não bastasse a necessidade de uma ligação terrestre com Gaza, os centros populacionais palestinos estão sendo cercados por colônias judaicas.

Num cenário onde os palestinos estão radicalmente divididos com dois governos que não se entendem, um na Cisjordânia e outro em Gaza, e um governo nacionalista e xenófobo em Israel, encontrar uma maneira de voltar a mesa de negociações para tratar de um acordo de paz, não é tarefa simples, é quase impossível.

No início de setembro teremos eleições em Israel novamente. Nas últimas, o partido de Bibi que não conseguiu formar um governo, dissolveu o parlamento recém-eleito e novas eleições foram convocadas. O problema é que as pesquisas apontam que a situação vai se repetir. Nem a direita, tampouco a esquerda conseguem atualmente obter maioria para formar um governo. São necessários 61, ou mais cadeiras em um parlamento com 120 eleitos.

Uma possibilidade seria um governo com os dois maiores blocos que juntos devem ter 60, ou pouco mais de cadeiras, e um terceiro partido formarem o governo. O bloco do centro diz que não senta em um governo com Bibi. Já o bloco de Bibi diz que ele é o único líder deles para formar um governo.

O terceiro partido, formado principalmente por imigrantes russos, diz que não senta em um governo com religiosos e aceita formar o governo de coalizão com os dois maiores blocos. Mas Bibi diz hoje que não aceita um governo assim sem os religiosos.

Os partidos árabes não são convidados por ninguém e devem ter em torno de 10 a 12 cadeiras. A extrema direita seria parceira natural de Bibi, mas já estão brigando entre si e com Bibi. A esquerda reunida no bloco Campo Democrático só aceitaria fazer parte de um governo com o centro, assim como o já diminuto Partido Trabalhista.

O conflito com os palestinos não é o tema mais importante tratado pelos partidos. A situação da economia, da educação, da saúde e da segurança são os tópicos mais importantes.

É neste cenário que inicialmente duas congressistas norte-americanas foram impedidas de entrarem em Israel. Não por casualidade muçulmanas e críticas das políticas do governo de Israel. Quando eu escrevia este artigo, uma delas, Rashida Tlaib, filha de emigrantes palestinos, teria tido seu pedido humanitário de rever sua avó muito doente sido aceito e sua entrada permitida.  Na sequência ela desistiu da visita.

A decisão do governo provisório israelense de barrar as congressistas, em um apoio tácito ao presidente Trump que é um desafeto delas, terá graves consequências para Israel.

 

 

 

 

 

O Holocausto nosso de cada dia

Há muito se fala sobre o comércio de armas israelense. Um assunto tabu em Israel, ele assombra até os mais céticos com relação a intocável moral do exército. Não que um país fabricante de armas não possa vende-las para outros países, o problema é para que tipo de regimes e com que finalidade este armamento será utilizado.

Em Israel existe um advogado militante dos direitos humanos chamado Eitay Mack que vem peticionando à Suprema Corte de Israel sobre as vendas de armas israelenses para países que praticam o genocídio. Estas vendas acontecem há muitas décadas e sempre foram uma verdadeira caixa preta fechada a sete chaves.

O exemplo mais recente, existem muitos outros, é Myanmar (antiga Birmânia), uma nação do sudeste asiático com mais de 100 grupos étnicos, que faz fronteira com a Índia, Bangladesh, China, Laos e Tailândia. No ano passado o país foi manchete de jornais pela prática de genocídio contra a minoria Rohingya. As Nações Unidas apontaram indícios de “genocídio intencional” e criticaram a passividade da líder do país exigindo que comandantes das Forças Armadas fossem julgados por tribunal internacional. Israel fornece armas para Myanmar.

Existe aqui uma questão ética e moral: como é possível um país que nasceu nas cinzas do Holocausto, um genocídio cuja brutalidade e especificidade gerou uma denominação única para ele, que suspende todas as atividades no dia da sua lembrança, durante um minuto, ao som das sirenes antiaéreas, pode vender armas para países cujos governos praticam genocídios.

Quando se fala de Israel, atualmente, não há como se deixar de mencionar o conflito com os Palestinos, ainda sem solução. Também com relação a ele começam a surgir provas de que na Guerra da Independência teriam sido cometidas atrocidades para ocupação das terras destinadas ao então Estado Palestino, expandindo as fronteiras e gerando um êxodo de cerca de 600.000 pessoas no que ficou conhecido como a Nakba (catástrofe ou desastre).

Novamente temos aqui o mesmo povo que havia acabado de ser massacrado na Segunda Guerra Mundial, lutando para obter seu Estado Independente, praticando crimes de guerra como o massacre de populações civis. Crimes estes que permanecem impunes até o os dias de hoje e sobre os quais o Estado procura ocultar as provas.

Eu acredito que os acontecimentos históricos sempre precisam ser contextualizados e colocados dentro da sua linha de tempo. As coisas precisam ser estudadas sob duas perspectivas, a do vencedor e a do vencido. Só assim podemos compreender o que de fato aconteceu.

Não conheço nenhuma guerra onde não sejam cometidas atrocidades, algumas das quais até perfeitamente evitáveis, algo que os militares costumam chamar de danos colaterais. Um estranho preço a pagar para se obter uma vitória com menos baixas de seus comandados.

Sem querer entrar no mérito do que é certo e errado, mas apenas falando um pouco daqueles dias e dos tristes acontecimentos, relembro que a ONU aprovou a criação de dois países, um judaico e outro palestino. Um dos lados não aceitou a divisão e não pretendo discutir as razões que levaram a isso. Os palestinos não queriam um Estado Judaico no que acreditavam ser a sua terra. Nem eles e nem tampouco todos os países árabes do Oriente Médio. Tanto assim que imediatamente à declaração da independência, Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria declararam guerra a Israel.

Atrocidades foram cometidas pelos dois lados. Soldados judeus foram encontrados mortos com a genitália cortada e enfiada em suas bocas. Corpos de soldados árabes também sofreram mutilações. Não existia ainda um exército israelense de fato. A maior parte era composta por cidadãos que se alistavam para ajudar na guerra sem nenhum treinamento militar, cidadãos que eram transformados em soldados da noite para o dia.  Ainda assim combateram e foram o lado vencedor.

Documentos da época mostram que algumas tropas receberam ordens para entrar em aldeias palestinas, matar todos os homens e expulsar as mulheres e crianças. Isto foi realizado e, em alguns informes dos comandantes, consta também o estupro de mulheres e meninas. Foi desta maneira que parte do Estado foi formado.

Falo sobre estes fatos, porque acredito que sejam importantes serem mencionados e que remetem novamente à questão da venda de armas para países que desrespeitam os direitos humanos. Não podemos nos omitir diante disso e precisamos encarar a verdade de frente, com humildade e retidão.

Os psiquiatras há muito informam que uma pessoa que sofreu violência na infância tem muito mais tendências a repetir esta violência na fase adulta do que uma criança que teve um desenvolvimento amoroso e respeitoso.

Às vezes me pergunto se o fato de sermos um povo que sofreu tanta violência na sua história, se uma parcela do nosso povo carregaria consigo que a violência se combate com mais violência e somente os mais violentos e aqueles dispostos a ela sobrevivem.

É conhecido hoje que as atrocidades cometidas em guerras ocorrem pelas mãos de soldados que tinham uma vida civil simples. Desta maneira, um jornaleiro, um encanador, um entregador de mercadorias são aqueles, dentre outros, os que cometem atrocidades. Infelizmente, os responsáveis pelos crimes de guerra em nome do Estado de Israel são pessoas que convivem conosco no dia a dia.

Hora dizem que somos o povo do livro, hora que somos o povo escolhido e sabemos que nossos profetas nos ensinaram acima de tudo preceitos de justiça. Ainda assim, muitos de nós, têm um comportamento que contraria tudo isso. Por que estas coisas acontecem? Uma resposta simplória seria de que somos um povo como qualquer outro. Será verdade?

O Holocausto ainda é uma dor presente. A minha geração perdeu muitos familiares. Muita gente como eu não conheceu avós, pais, tios e primos que pereceram. Não podemos esquecer e não vamos perdoar, este é o meu mantra. Preciso dizer que se faz uso desta tragédia para outras finalidades que não seja a de ensinar a geração presente e futura do que o ser humano é capaz de fazer contra outro ser humano, e obviamente para que nunca mais venha a se repetir com nenhum outro povo. Um dos usos frequentes desta imensa tragédia é o vitimismo.

Israel usa o Holocausto como uma maneira de lembrar ao mundo, para toda a eternidade, que fomos vítimas de um genocídio. Que em consequência dele é preciso perdoar, entre outras coisas, nossos erros e nossa maneira de agir com o povo palestino e para quem vendemos armas. Tudo que fazemos de errado se justifica como forma de impedir que o Holocausto se repita pelas mãos de outros povos.  Até a pouco eram os árabes que queriam nos destruir, hoje o Irã.  E sempre vamos continuar escutando que o mundo está contra nós.

Nem todos, é verdade. Somos aceitos e de certa forma idolatrados pelos evangélicos pentecostais porque eles acreditam, com toda sua fé, de que quando todo povo judeu retornar para sua terra de direito (neste caso estão incluídos os territórios ocupados), o filho de Deus, Jesus de Nazaré, voltará a terra e o povo judeu irá aceita-lo como o Messias. Por isso existem até mesmo grupos cristãos sionistas.

A antiga Terra de Israel se estendia também pelo que hoje é a Cisjordânia, território onde se encontram muitas localidades bíblicas onde viveram judeus. Mas isso não justifica, sob nenhuma ótica da Lei Internacional, a contínua ocupação destes territórios (há mais de 50 anos) e sua futura incorporação ao atual Estado de Israel. Ainda assim, de maneira lenta e inexorável, Israel vai ocupando estas terras, expandindo ou criando novas colônias e reduzindo a população local palestina que em breve se tornará os Bantus Sul Africanos. Hoje são cerca de 2.200.000 habitantes palestinos.

Evidentemente que existem forças no Oriente Médio que desejam ver Israel ser varrido do mapa, o que quer que isso signifique. Além do Irã, temos a Síria, o Hezbollah, o Hamas, etc. São países e organizações denominadas como terroristas com as quais o diálogo nas atuais circunstâncias é muito difícil, para não dizer impossível.

Assim, se forma dentro do país uma cultura de que precisamos sobreviver a qualquer custo em um mundo de violência que ameaça nossa existência como nação. Dentro deste pensamento, torna-se compreensível que a venda de armas para países que cometem genocídios, seja uma maneira de buscar apoio internacional em uma comunidade que a cada dia nos aponta mais o dedo e que apesar de ainda tolerar algumas de nossas políticas, começam a nos criticar abertamente. Aquela ideia de que o mundo inteiro está contra nós, e qualquer um que se disponha a ser nosso amigo receberá em troca tudo o que desejar, justifica a venda de armas.

Pessoalmente, eu acredito que do ponto de vista diplomático isto é um desastre. A União Europeia antes tão favorável a Israel, está agora cada dia menos. A tentativa de Trump de levar consigo as embaixadas de outros países para Jerusalém foi um redundante fracasso. O pior, entretanto, é ver como fruto desta diplomacia equivocada, a aproximação com países onde o poder se encontra na mão da extrema direita, alguns até com apoio de grupos neonazistas.

Talvez, o que tenhamos que fazer no próximo Dia do Holocausto, quando acendemos cada uma das seis velas em memória dos seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas, seja lembrar também os milhares de mortos com o uso das armas fornecidas por nós:

  1. Os milhares de assassinados pelas ditaduras militares latino-americanas.
  2. Os milhares de assassinados pelo regime de Anastácio Somoza na Nicarágua.
  3. Os milhares de assassinados na África do Sul combatendo o Apartheid.
  4. Os milhares de assassinados pelas milícias do Sudão do Sul.
  5. Os milhares de assassinados no Genocídio em Ruanda.
  6. Os milhares de assassinados da etnia Rohingya no Genocídio em Myanmar.

Ainda assim faltariam velas. A ocupação dos territórios palestinos causa uma mortalidade assustadora. Se fossem apenas fruto de embates militares, ou até mesmo de terroristas, alguém poderia talvez encontrar uma explicação. No entanto as mortes, em todas sextas-feiras junto a cerca da fronteira com Gaza, de crianças, médicos, jornalistas e outros civis afastados dos locais das manifestações, não encontram justificativa sob qualquer aspecto do bom senso humano. O uso de munição real quando não causa a morte, na maioria das vezes deixa os atingidos inválidos para sempre.

Creio que existe algo de podre no Reino de Israel. No entanto, em nenhum momento pode-se colocar em discussão nosso direito a um Estado Nacional na Terra de Israel. Este é um fato consumado. Nenhum fato passado, presente ou futuro pode colocar em dúvida de que somos um país no seio das nações com nossos acertos e nossos erros. Israel não pertence ao seu governo, pertence a todos os cidadãos que nele vivem.

Existe também uma outra Israel. Uma nação solidária em catástrofes em qualquer parte do mundo, que cria tecnologias que beneficiam toda a humanidade, que possui uma das medicinas mais avançadas do mundo que atende a todos os seus cidadãos e até mesmo feridos de conflitos além fronteira, onde a comunidade LGBT é plenamente reconhecida e aceita, e onde cidadãos como Eitay Mack, juntamente com organizações como Paz Agora, Gush Shalom, Rompendo o Silêncio, Mulheres pela Paz, Taiush, B’Tselem etc,  partidos como o Meretz, Hadash, Balad e milhares de companheiros da esquerda progressista que como eu, lutam para mudar tudo isso.

Esta Israel é quem pede a solidariedade internacional para se somarem a nós, e não nos isolarem. Somos agredidos pela direita radical israelense de forma sistemática. Nosso trabalho e dedicação a causa palestina cobra seu preço no dia a dia. Atacar Israel, ao invés de atacar seu governo é um erro estratégico. Ele somente fortalece esta direita radical e afasta qualquer solução pacífica do conflito. Mais que isso, ele ajuda a manter no poder a atual liderança que alimenta conflitos com a venda de armamento sem qualquer critério para quem se disponha a pagar por ele.