por Mauro Nadvorny | 15 dez, 2018 | Israel
Dois jovens soldados acabam de ser enterrados. Cenas da despedida da família e dos amigos são de rachar o coração. Por que isso acontece, é a pergunta que precisa ser respondida.
Os dois soldados foram mortos surpreendidos pelo o que Israel chama de terroristas palestinos do Hamas. Estavam nos territórios ocupados. Lá existem cerca de 600 mil colonos que ocupam terras palestinas e precisam de segurança. É o exército que provem esta segurança.
Semana passada, em outro episódio de violência, uma mãe grávida perdeu seu bebe que precisou ser retirado depois que ela foi baleada em uma parada de ônibus.
Estas foram as vítimas mais recentes do nosso lado. Os palestinos contam as suas no que é um círculo de violência sem fim.
Aqui as coisas funcionam da seguinte maneira: o governo reclama que a Autoridade Palestina não ajuda a manter a segurança, e por segurança entenda-se a dos colonos que já passam de 600 mil ocupando terras palestinas. Querem que os palestinos vivam e deixem viver, como se nada mais fosse importante.
Quando a situação está calma, o governo planeja mais construções nas terras palestinas e reclama que a Autoridade Palestina não quer a paz.
A liberação de construções faz o caldo ferver e logo surgem episódios de violência. Então o governo reclama que a Autoridade Palestina não quer a paz.
Em resumo, nada do que a Autoridade Palestina fizer, ou deixar de fazer vai mudar o cenário e eles já se deram conta disso. O governo israelense quer que o problema palestino desapareça. Que seja ignorado a qualquer custo.
Isso faz com que o Hamas tire proveito da situação. Foi uma célula deles que cometeu os últimos atendados. Fazem isso, não para provocar Israel, mas para desacreditar a Autoridade Palestina perante a população, mostrando que somente eles são capazes de manterem a resistência frente a ocupação e que somente através da força os palestinos podem chegar a um estado independente. O problema no caso é que para o Hamas a Palestina substitui o Estado de Israel.
O Hamas acha que não há com quem conversar em Israel e mostram os fatos como eles se apresentam hoje em dia. Em Gaza o território liderado por eles é uma espécie de Prisão a céu aberto. Tudo o que entra, ou sai, passa pelo crivo de Israel. Aqui pode-se escolher quem veio primeiro ao mundo, se o ovo, ou a galinha. Israel vai dizer que precisa manter esta política de restrição para evitar a violência. O Hamas vai dizer que precisa da violência para se libertar das restrições.
Voltando para a Autoridade Palestina, eles estão diante de dois grandes problemas: precisam enfrentar Israel de um lado e o Hamas de outro. Em meio a isso tudo, uma população dividida entra aqueles que querem levar uma vida normal, viver em paz e buscar seu estado pacificamente, e aqueles que sofrem com a ocupação e querem lutar pelo seu estado por todos os meios possíveis.
Do lado de cá da fronteira, onde existe uma Israel de fato, a população já quase não se preocupa mais com a questão palestina e parece que são os problemas do dia a dia que realmente irritam os israelenses.
Está uma gritaria geral por conta do aumento de preços da luz, dá água, do pão, do leite etc. Já começaram as manifestações contra o governo que prometem se repetir nos próximos dias.
Como curiosidade, os manifestantes estão usando coletes amarelos como os franceses. Os mesmos coletes que utilizam parte dos manifestantes antissemitas na França.
O governo está usando o que mais gosta: das ameaças à segurança do país. Estas ameaças costumam chegar sempre ao nível de sobrevivência nacional. Para isso revelou a existência de 3 túneis construídos pelo Hizbolah, um deles já tendo atravessado a fronteira do Líbano para Israel.
Os túneis estão sendo utilizados para evitar novas eleições, uma espécie de necessidade de união nacional em torno do perigo a nossa existência. Uma desculpa risível que não convence ninguém, mas que serve ao primeiro ministro para tentar se manter no poder em meio aos escândalos de corrupção que vão se somando contra ele.
Enquanto isso nos aproximamos do inverno e uma coisa é certa: não existe guerra nesta estação. Por enquanto, é vida que segue.
por Mauro Nadvorny | 16 nov, 2018 | Israel
É incrível como aparecem historiadores, filósofos e opinantes genéricos para falarem do conflito árabe-israelense, que agora foi reduzido ao conflito palestino-israelense.
Em geral, os ditos de esquerda, sejam por assim se considerarem, seja porque costumam publicar em sites e blogs de esquerda, logo são tratados como porta vozes de toda a esquerda, algo do tipo, chefes da casa civil do governo de esquerda na oposição. Até parece que já temos uma Frente Ampla e eles são os que falam pela frente em relação a Israel.
Hoje existem de fato, duas situações distintas e é preciso diferenciá-las. Um governo palestino chamado de Autoridade Palestina, liderado pelo Fatah na Cisjordânia. A Fatah era o maior grupo terrorista palestino e comandava a Organização para Libertação da Palestina (OLP) que ficou conhecida pelos inúmeros atentados que causaram a morte de centenas de israelenses. Seu líder já falecido foi Yasser Arafat. A OLP desistiu de promover a destruição do Estado de Israel.
A Autoridade Palestina é reconhecida por muitos países como o governo palestino que já possui embaixadas em muitos países, inclusive no Brasil. A Cisjordânia é divida em 3 áreas e cada área tem um tipo de autonomia diferenciada. Existe um parlamento palestino eleito. A AP é conhecida por inúmeros casos de corrupção e apropriação de ajuda monetária em benefício de poucos. A sociedade é laica e as mulheres possuem um alto grau de liberdade e direitos. O homossexualismo não é aceito e os membros desta comunidade precisam esconder seu gênero para não serem perseguidos.
Existe também Gaza, um território pequeno espremido entre Israel, Egito e o mar onde vivem cerca de 1,5 milhão de pessoas governadas pelo Hamas. Diferentemente da AP, o Hamas não é reconhecido por nenhum país como um governo palestino e consta na lista de organizações terroristas. Israel controla tudo o que entra e sai de Gaza, mas é a AP quem paga o que eles recebem. A eletricidade é um bom exemplo. A usina elétrica de Gaza funciona a Diesel e ele precisa ser comprado e pago. Quem paga por ele geralmente é a AP, e quando ela não paga, ou dependendo do que ela está disposta a pagar, isso se traduz no número de horas de eletricidade disponíveis para a população. O Qatar acaba de fazer uma doação para aumentar o número de horas com luz.
O Hamas nos últimos meses tem permitido manifestações violentas na fronteira. Não vou entrar no mérito da justificativa para que elas aconteçam. O fato é que invariavelmente tentam atravessar a fronteira, jogam pedras e pequenos artefatos explosivos contra os soldados postados do lado de Israel e por fim a reação militar acaba em mortes do lado palestino. Foram centenas de mortes e um número maior de feridos e inválidos evitável.
Não são somente manifestações. Os palestinos de Gaza se deram conta que os ventos procedem do Mar para o Continente e por isso soltam balões com um artefato incendiário que provoca chamas ao cair no solo. Foram milhares de incêndios com enormes prejuízos tanto financeiros, como a natureza com a perda de árvores e a morte de animais silvestres. O Hamas nada faz para impedir isso.
Ao contrário da AP, o Hamas luta pela destruição do Estado de Israel. Nesta semana assistimos ao confronto que durou 24 h. Uma operação secreta de Israel em Gaza foi descoberta e levou a morte de um Coronel do exército israelense e de sete palestinos, entre eles, um comandante do Hamas. Logo começaram a chover foguetes sobre Israel. Estes foguetes são jogados para caírem nas cidades próximas. Possuem somente propulsão para voarem por cerca de 5 km até caírem. Quando atingem o solo causam uma explosão suficiente para causar enorme estrago em um raio de 50 metros e a morte de pessoas que estiverem próximas. O objetivo é este.
Israel também bombardeou Gaza, mas de maneira a não causar vítimas civis. Os prédios que estão listados como objetivo militar são marcados e os moradores do local avisados por telefone para deixarem suas casas. Antes do ataque, explosivos de pequeno poder são lançados antes do bombardeio final. Assim, por exemplo, aconteceu com o prédio da TV.
Nas eleições legislativas de 2006, o Hamas ganhou e formou um governo de unidade com o Fatah. Em 2007 o Hamas em Gaza resolve expulsar o Fatah e assume o poder do território. A AP em contrapartida remove o cargo de primeiro ministro do Hamas na Cisjordânia.
Não existem santos neste conflito. Todos fazem vista grossa ao desrespeito dos direitos humanos e o fazem em nome de um nacionalismo xenófobo.
Israel mantém uma política de colonização onde já existem cerca de 600.000 colonos convivendo com cerca de cinco milhões de Palestinos na Cisjordânia. Num eventual acordo de paz que leve a criação de um Estado Palestino de fato, a ideia é de troca de territórios, com Israel cedendo terras para compensar aquelas onde vivem colonos.
Ataques de atropelamentos, com armas de fogo ou esfaqueamento de civis e soldados, tanto nos territórios ocupados da Cisjordânia, como dentro de Israel, perpetrados por palestinos continuam ocorrendo. Israel trata os perpetuadores como terroristas, mas muitos sequer têm afiliação política. Em todos os casos, as casas onde vivam são destruídas. Quando os ataques partem de colonos envolvendo vítimas fatais palestinas, nada acontece com as casas onde viviam. A destruição de propriedade de palestinos de parte de radicais religiosos (não são considerados terroristas) é constante e nenhuma investigação séria é realizada.
Existe uma política totalmente diferenciada no que concerne a penas para o cometimento de crimes por parte de judeus e palestinos. Assim, um judeu que mata um palestino terá uma pena de alguns meses de prisão. Já um palestino que cometer o mesmo crime será condenado à prisão perpétua. Da mesma maneira um judeu que escrever morte aos árabes na sua página do Facebook, não será incomodado. Já um palestino que escreva morte aos judeus, poderá pegar uma pena de 10 anos de prisão.
Ainda assim, existem muitos movimentos pela paz e a reconciliação. Ironicamente eles são em grande maioria formado por israelenses, alguns com participação de árabes israelenses, e quase nenhum no campo palestino.
Existe muita injustiça, mas também existe muita gente tentando mudar isso. A quase totalidade delas está no campo da esquerda. São elas as principais lideranças do Campo da Paz. Este é o meu campo.
por Mauro Nadvorny | 31 out, 2018 | Brasil, Comportamento, Israel, Política
Sempre gostei de História. Muito devo ao meu pai que sempre me incentivou a leitura. Desde pequeno sou um devorador de livros e assim vou lendo um depois do outro. Não consigo ficar sem ler.
Um dos horrores desta última eleição foi a disseminação de notícias falsas. Algumas sobre fatos absurdos, mas muitas simplesmente sobre fatos históricos falsificados. Coisas passíveis de se informar em qualquer livro, ou mesmo na Internet.
Alguns destes fatos me dizem respeito como judeu progressista. Um exemplo disso foi de que o partido Nazista seria de esquerda. Seus defensores argumentaram que o nome do Partido era Nacional Socialista. De nada adiantou a própria embaixada alemã desmentir. Nem mesmo as pregações nazistas contra os comunistas mudou a opinião dos que acreditaram nisso.
Outro fato marcante é que o governo do PT teria dado milhões de dólares ao Hamas, algo como dizer para um judeu que financiaram terroristas assassinos. Na mesma linha, afirmavam que os governos petistas seriam contra Israel. A verdade é que a política externa brasileira sempre foi favorável as resoluções da ONU contra Israel. Durante a ditadura militar votaram a favor da equiparação do Sionismo com Racismo e receberam a representação diplomática da OLP no país. Nada mudou nos governos civis até hoje. O que sim foi omitido é que o Presidente Lula foi o único presidente brasileiro a visitar Israel, e que ele sim, depositou flores no Museu do Holocausto como o fazem todos os líderes que chegam aqui pela primeira vez.
Com relação ao dinheiro para o Hamas, também querem falsificar a história. O governo brasileiro fez uma doação de 25 milhões de dólares para um fundo das ONU que lidou com a reconstrução daquele território. Dezenas de outros países o fizeram, muitos com somas muito superiores.
Todas estas informações estão acessíveis a qualquer um que tenha vontade de conhecer a história. Tudo pode ser esclarecido a um clique em qualquer computador, ou até mesmo em um celular. Não se trata de informação confidencial, ou de difícil acesso.
Qual é o problema então? A conclusão que se chega é que em uma guerra a verdade é a primeira baixa e que de fato, sem exagero, esta eleição foi uma guerra. Assistimos como nunca antes visto a disseminação massiva de informações falsas que foram sendo assimiladas como verdadeiras e criminosamente utilizadas para vencer a guerra. Tanto assim, que passada a eleição ainda recebo informações falsas todos os dias.
No meio judaico existe a convicção de as relações Brasil e Israel serão como uma lua de mel. O embaixador israelense no Brasil já teria visitado o presidente eleito. Este teria dito que visitaria Israel depois dos EUA (antes era o primeiro lugar a ser visitado, mas quem está contando). O primeiro ministro de Israel já teria confirmado sua vinda para o dia da posse. É muito amor incontido.
Tudo isto já faz com que se alvorocem empresários pensando que os negócios entre os dois países terão um grande incremento e já fazem as contas de quanto vão ganhar com isso. Talvez fosse o momento de contar que inúmeros acordos já foram firmados entre os dois países e o que sempre faltou foi liberação de financiamentos para investimento do lado brasileiro, talvez pelos números desfavoráveis na balança comercial. O acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel está em vigor desde 2010.
O comércio bilateral entre os dois países mostra que Israel importa do Brasil cerca de 400 milhões de dólares e exporta cerca de 900 milhões de dólares, mais que o dobro.
Então vale saber que o Brasil exporta para o mundo árabe mais de um bilhão de dólares e importa cerca de 600 milhões de dólares. Para quem sabe fazer contas, o comércio com Israel é deficitário para o país, enquanto que o comércio com o mundo árabe é favorável.
Nesta situação, desejar adquirir mais produtos israelenses, é aumentar o déficit comercial. Afinal, Israel é um país com 8 milhões de habitantes e o Brasil não tem muito o que nos oferecer.
Claro que de um presidente eleito, declaradamente fascista, podemos esperar qualquer coisa. Entre elas uma decisão contrária à lógica econômica onde o equilíbrio comercial entre as nações não seja relevante. Se assim for, sorte de uns, azar de outros quando mais empregos forem perdidos no Brasil.
Tudo que está informado neste texto se encontra documentado, seja em livros sobre a história, seja em informes oficiais que estão a disposição de qualquer um que deseje conhecer a finada verdade.
por Mauro Nadvorny | 13 ago, 2018 | Comportamento, Israel, Política
O fascista mora aqui.
O mal que Netanyahu faz a Israel, talvez só venha ser percebido dentro de alguns anos. Mas as consequências deste mal já se fazem sentir no nosso dia a dia.
É da democracia que um determinado grupo ideológico suba ao poder. É perfeitamente compreensível que este grupo ponha em prática a sua política alinhada ao seu grupo ideológico. Aos da oposição resta espernear e suportar até às próximas eleições.
Quando um partido ganha a eleição e consequentemente seu líder assume o posto de Primeiro Ministro, ele está assumindo um cargo onde outros já estiveram, e com certeza outros estarão.
Existe a honra do cargo que está acima das disputas ideológicas. O cargo é o que representa a democracia e em tese, seu ocupante é quem representa o país dos vencedores e dos vencidos.
Por esta razão, é que se pode distinguir grandes estadistas de meros ocupantes do cargo. Bem Gurion foi um estadista, assim como seu maior opositor, Menachem Begin. O primeiro por ter criado o estado e o segundo por ter alcançado a paz com o Egito. Netanyahu jamais o será.
Bibi, como é mais conhecido, não governa em favor de Israel, governa em favor do poder. Ele saboreia cada momento dele, e como político é um gênio. Conseguiu a façanha de perder uma eleição e ainda assim ser nomeado primeiro ministro. No parlamentarismo, quem ganha de fato é quem consegue montar um governo com a metade mais um do parlamento. Ele já tinha o governo montado, antes mesmo das urnas serem abertas.
Liderando um governo de extrema direita, ele vem diariamente incitando o ódio no seio do povo israelense. Assim, ele agride as minorias e destila seu veneno contra a esquerda. O faz contumazmente.
O fato mais recente, que mostra esta face vil, foi sua resposta à manifestação da minoria árabe com seus simpatizantes, que ocorreu neste último sábado onze de agosto. Nela um grupo compareceu com bandeiras palestinas (contrariando pedido dos organizadores), nada de mais, já que os Drusos uma semana antes também vieram com suas bandeiras. As bandeiras tremularam junto com bandeiras de Israel na mais perfeita ordem. Um pequeno grupo em meio a 100.000 outros.
Esta teria sido apenas mais uma manifestação conta a Lei da Nacionalidade como tantas que vem ocorrendo. Mas Bibi precisava mostrar a sua face e apontando uma foto de um jornal com o grupo das bandeiras palestinas, disse que aquelas bandeiras da OLP na Praça Rabin eram a razão da Lei da Nacionalidade. Sua ministra da Cultura, Miri Regev, disse que Rabin estaria dando voltas no caixão.
Uma pausa para o passado. A praça que leva o nome de Rabin foi onde o assassinaram. A sua morte de deve em muito ao incitamento promovido por Netanyahu e seus partidários que chamavam Rabin de traidor. Ele discursou de um balcão com a foto de Rabin no corpo de um oficial nazista dizendo que Rabin estava traindo o povo. Seu assassino, Yigal Amir, cometeu o crime porque compreendia que Rabin era um traidor e sua morte era justificável. As mãos de Bibi estão sujas com o sangue de Rabin.
Pois bem, este mesmo ser, tem a ousadia de usar o nome de Rabin em proveito próprio.
Felizmente, ele vem se desgastando com vários setores da sociedade que começam a enxergar que sua política de segregação social, sua falta de capacidade para o diálogo com quem não se alinha a suas posições, e especialmente o fato de que os inúmeros inquéritos contra ele estão se avolumando, indicam a possibilidade de uma virada nas próximas eleições.
Entretanto, de Bibi pode-se esperar tudo. Até mesmo uma nova guerra. Pode ser contra Gaza, contra o Irã, contra a Síria, o Líbano, não importa. Tudo para se manter no poder, afinal, nada une mais os israelense com seu governo, que uma boa guerra.
por Mauro Nadvorny | 23 jul, 2016 | Antissemitismo, Comportamento, Israel, Judaísmo, Política
O antissemitismo não é nenhuma novidade no Brasil, mas ele tem sido mais contundente a partir de grupos e partidos que supostamente deveriam combatê-lo com mais vigor. Estou falando da esquerda brasileira.
Um recente artigo publicado e logo retirado no site Vermelho, do PC do B, com um pedido de desculpas, de autoria de Thomas de Toledo, é o fato mais recente que reascendeu o questionamento de parte dos judeus de esquerda, e causou a ira dos judeus de direita.
O texto em questão muito lembra o conhecido Protocolos dos Sábios de Sião, um livro apócrifo que atribui a dominação do mundo pelos judeus. Os protocolos serviram de inspiração para gerações de antissemitas, tanto de direita como de esquerda.
Thomas de Toledo possui belas credenciais: historiador formado pela USP, com mestrado em desenvolvimento econômico pela Unicamp, secretário geral do Cebrapaz e membro do PC do B.
Não é nenhuma novidade a associação ente Judeus/Israel/Sionismo, como se fossem tudo a mesma coisa quando se deseja atacar o Estado de Israel, e a associação Judeus/Religião/Brasileiros, quando se pretende justificar o não antissemitismo.
Quando afirma que Israel passou a controlar três ministérios chaves do governo golpista de Temer, nominando os ministros com sobrenomes supostamente judeus, Toledo está flertando com os Sábios de Sião. Ele não se distingue daqueles que afirmavam que na Páscoa os judeus faziam a Matzá (pão ázimo) com o sangue de crianças cristãs e os consequentes pogroms e mortes de judeus.
O Estado de Israel não somente foi criado por sionistas-socialistas, como sobreviveu inicialmente graças a ajuda da União Soviética. A representação de esquerda em Israel e os movimentos pacifistas pela criação de um Estado Palestino são formados em sua maioria por pessoas de esquerda. Este mesmo quadro praticamente não existe nos demais países do Oriente Médio. No entanto os movimentos e partidos de esquerda no Brasil são, em sua maioria, favoráveis a destruição do Estado de Israel. Não se contentam posicionar-se contra o atual regime político, claramente fascista e combatido pela esquerda israelense. Muito menos serem solidários com esta esquerda duramente combatida, não apenas pelo regime, como por inúmeros movimentos de extrema direita que os tratam como traidores da pátria.
O conceito de uma conspiração judaica para dominação mundial, como já disse antes, não é novo, tampouco no Brasil. Nos anos 80 e 90 até mesmo uma editora de livros antissemitas se estabeleceu no RS. Chamava-se Editora Revisão (sic) e tinha como proprietário Siegfried Elwanger, um notório revisionista que dizia possuir inúmeros amigos judeus.
O posicionamento contrário a Israel por parte da esquerda também não é novidade no Brasil. O que sim vem surgindo como uma novidade é o famigerado antissemitismo disfarçado de uma política anti-Israel.
Quando um Partido Político de esquerda dá guarida a um texto inequivocadamente antissemita, ele fere de morte todo o preceito básico da ideologia socialista. Ele se contradiz em si mesmo e se assemelha ao fascismo e todas as suas matizes.
Ironicamente os judeus sempre estiveram ligados a esquerda em nosso país mantendo intensa atividade política com movimentos e partidos de esquerda.
A participação nos anos 20 e 30 foram significativas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte. No Rio de Janeiro a esquerda judaica se reunia em torno da Biblioteca Scholem Aleichem (que mais tarde se transformaria na ASA), na Brazkcor, Sociedade Brasileira Pró-Colonização Judaica na União Soviética, e no Centro Operário Morris Vinchevsky. Em São Paulo eram conhecidos os grupos Cultura e Progresso e, já em 1954, o Instituto Cultural israelita Brasileiro (Icib), a Casa do Povo, de tendência comunista, junto ao Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib). Por curiosidade, a língua e a cultura idiche foram um aglutinador importante destes movimentos.
Na era Vargas os judeus participaram intensamente dos movimentos sindicais, universitários, organizações populares e centros culturais comunitários. Haviam judeus membros da Aliança Nacional Libertadora e no Partido Comunista Brasileiro. Um nome não pode deixar de ser mencionado: Olga Benário.
Nos dias de hoje existem judeus em todo o espectro partidário de esquerda. Portanto em nada se justificaria no Brasil a intrínseca associação entre esquerda e antissemitismo, no entanto ela existe.
Eu concluo que independentemente de ideologias, a esquerda tem em seus quadros pessoas preconceituosas que diferentemente do que se poderia esperar, afrontam os preceitos ideológicos de sua formação. Não creio que a esquerda brasileira seja antissemita, mas acredito que em seu seio existem militantes que em dada diferem dos membros de organizações fascistas quando o tema é o judeu.
O antissemitismo, muito mais do que ideológico, é um estado doentio de natureza humana e de ordem privada.
OBS: Alguns dados foram obtidos em A História dos Judeus no Brasil – CONIB e no Livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, O anti-semitismo nas Américas: memória e história.
por Mauro Nadvorny | 15 fev, 2016 | Israel, Oriente Médio
Para que se possa compreender a luz da realidade atual o projeto de dois estados para a solução do conflito israelense-palestino, é preciso se voltar para o passado a luz da realidade dos acontecimentos que levaram a ONU a autorizar a partilha da palestina.
Qualquer tentativa de relacionar os acontecimentos do final do século XIX, inicio do século XX sem se colocar no tempo e no espaço da época, é uma tentativa de falsear a história para proveito próprio.
Antes de tudo é preciso esclarecer o surgimento de dois movimentos nacionalistas, o judaico através do sionismo e o palestino, através também do sionismo.
O movimento sionista surge oficialmente com seu primeiro congresso em 1897 na Basiléia, mas já em 1882 judeus russos, diante da onda de pogroms iniciados um ano antes, lançavam um manifesto conclamando os judeus do mundo a regressarem a Israel, conhecido como “Manifesto Bilu”. Foram eles que deram inicio ao retorno a terra prometida criando a cooperativa de Rishon le Tsion neste mesmo ano.
No ano de 1896, Theodor Hertzl escrevia seu livro o “Estado Judeu” depois de ser influenciado por inúmeros casos de antissemitismo, entre eles o Caso Dreyfus na França. O que era até então um nacionalismo embrionário, tomava agora forma e força.
Até este momento, por maiores que sejam as tentativas de se encontrar um nacionalismo palestino para a criação de uma nação, ele não existia. O mais próximo disso era o pan-arabismo, e vínculos com um islã ligado ao Egito, ou a Síria dependendo da corrente muçulmana que pertenciam. Nunca, até este momento existiu qualquer organização que tivesse algo próximo de uma atividade nacionalista visando a formação de uma nação palestina.
A bem da verdade, a diáspora judaica sempre foi organizada. Inúmeras entidades de cunho religioso, assistencial e recreativo sempre existiram. Os judeus em todos os países onde vivem estão organizados, ao contrário dos palestinos que não viveram uma diáspora até 1948 e mesmo nos dias de hoje, não possuem o grau de organização e identidade que os judeus.
A partir do segundo congresso sionista em 1896 surge o sionismo socialista, inicialmente oriundo da Rússia e minoritário, mas que viria a se tornar majoritário a partir do 16º congresso.
A região da Palestina estava sob o controle árabe muçulmano desde 638 D E.C. Em 1517 foi incorporada pelo Império Turco-Otomano até o inicio do século XX. Os judeus sempre foram uma minoria, mas presentes durante todo este período.
Sempre houveram escolas religiosas (Yeshivot) financiadas por organizações filantrópicas, mas no final do século XIX, algumas destas organizações passaram a investir na fundação de cidades e fazendas coletivas dentro do espírito socialista secular. Em 1870 foi fundada a Mickveh Israel, logo a seguir Petach Tikva em 1878, Rishon Letsion em 1882. Ao mesmo tempo surgiam as comunidades agrícolas fundadas por membros do Bilu e do Hovevei Tsion.
Com esta nova leva de imigrantes a demografia na Palestina sofre uma grande mudança. Estas imigrações provenientes principalmente da Rússia e do Iêmen, geram novas cidades e comunidades agrícolas. Elas foram a ponta de lança das imigrações seguintes sob o estímulo da Organização Sionista. Com isto em 1909, os judeus já representavam cerca de 10% da população, quando é fundada a cidade de Tel Aviv, a primeira cidade judaica surgida desde a antiguidade.
No inicio, os locais escolhidos para o estabelecimento dos recém chegados, eram zonas desabitadas compradas com recursos de doações, ou por grandes filantropos judeus, como o Barão Edmond Rothschild que adquiriu para este fim, 125 mil acres de terras.
Um dois pais do Sionismo Socialista, Dov Ber Borochov, nascido na Ucrânia em 1881 e falecido em 1917, fez parte do Partido Trabalhista Russo Social-Democrata de onde foi expulso depois de formar o Sindicato dos Trabalhadores de cunho Sionista Socialista em Ekaterinoslav. A seguir ajudou a formar o partido Poalei Tsion.
Autodidata, pois não era permitido aos judeus estudarem nas Universidades, ele logo se tornaria muito influente no movimento sionista onde explicava o nacionalismo em geral, e o judaico em particular em termos marxistas de luta de classes e através do materialismo dialético. Sua previsão de que as forças nacionalistas seriam mais importantes que as forças econômicas foi correta especialmente no que dizia respeito aos judeus.
Segundo Borochov os judeus ocidentais se assemelhavam dentro da divisão de classes como uma pirâmide invertida e dizia que devido ao fato deles serem forçados a mudar constantemente de país, abandonando suas profissões, que finalmente acabariam por imigrar para a Palestina onde formariam uma classe proletária. Ele se opunha terminantemente a ideia de uma Lar Nacional Judaico em qualquer outro lugar que não fosse a Palestina.
Dentro da ideologia de Borochov as classes trabalhadoras, árabes e judaicas tinham um interesse proletário comum e acabariam por participar juntos na luta de classes marxista quando os judeus tivessem retornado a Palestina. Em um de seus últimos discursos antes de sua morte disse:
“Muitos apontam, os obstáculos que encontraremos no nosso trabalho para a colonização. Alguns dizem que a lei turca dificulta o nosso trabalho, outros afirmam que a Palestina é insignificantemente pequena, e outros ainda nos cobram pelo crime odioso de que desejamos oprimir e expulsar os árabes da Palestina…
Quando as terras baldias forem preparadas para a colonização da Palestina uma técnica moderna for introduzida, e os obstáculos forem removidos, haverá terra suficiente para acomodar tanto judeus como árabes. As relações entre judeus e árabes irá prevalecer”.
Contemporâneo de Borochov, foi Nachman Syrkin (1868-1924) quem levou a ideia da criação de Kibutz (fazendas coletivas) a Palestina. Não era marxista, mas foi o responsável por sintetizar o movimento Hovevei Tsion com o socialismo contando com a ajuda de Borochov.
Ao contrário de outros pensadores sionistas seus contemporâneos, Syrkin não tinha problemas com sua herança judaica, e mesmo sem dizer isso explicitamente em seu ensaio “O Problema Judaico e o Estado Socialista Judeu” (1898), fica claro que ele tinha em mente a ênfase bíblica sobre estrita justiça social, independentemente de riqueza, poder ou privilégio. Para ele o sionismo iria substituir o judaísmo tradicional:
“O novo Sionismo Judaico está em contraponto ao judaísmo do exílio…o sionismo se sobrepõe a religião de uma forma mais forte do que a Reforma ou a assimilação através de novos padrões de judaísmo que constituirão uma nova ideologia que pode ser elevada ao status de uma religião”.
O Poalei Tsion foi a base dos partidos de esquerda de Israel, dividido em vária tendências, cada uma formando um novo partido, Mapam, Mapai etc.
O aumento do antissemitismo na Rússia só fazia aumentar o número de imigrantes. Quando em 1903 o Pogrom de Kishinev vitimou dezenas de judeus, mostrou aos sobreviventes que era necessário buscar um lar nacional judaico.
Com o fim da primeira guerra mundial a Palestina ficou sob domínio britânico. Foi o fim do Império Otomano. O Oriente Médio é redesenhado. Além da Palestina, os britânicos dominaram o Egito, o Sudão, a Jordânia, o Iraque e o sul do Iêmen. Já a França ficou com a Síria e o Líbano. E assim foi até o final da segunda guerra mundial.
Em 1917, o então secretário britânico para assuntos estrangeiros, Arthur Balfour escreve uma carta para o Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido para ser transmitida a Federação Sionista da Grã-Bretanha. Nela ele escreve que o governo de sua majestade aprova a criação de um lar nacional judaico na Palestina. Na carta também está expressa o desejo de que sejam respeitados os direitos civis e religiosos dos povos não judeus que lá vivem. O que parecia o prenuncio da realização de um sonho para os judeus ainda levaria muito tempo para se tornar realidade.
Durante a década de 30, principalmente com o ressurgimento da Alemanha e ascensão de Hitler, milhares de judeus tentaram sair da Europa. A maior parte emigrou para as Américas, outra para a Palestina até que o mundo fechou os portos.
O fechamento dos portos pode ser contado pelo que aconteceu com o navio St. Louis. Saindo da Alemanha em 1939 em direção aos EUA foi impedido de aportar. Percorreu diversos países e todos recusaram sua entrada. Não tendo outra saída retornou a Alemanha. Hoje se sabe que cerca de 30% dos passageiros morreram no Holocausto. A bem da verdade, Inglaterra, França, Bélgica e Holanda aceitaram o desembarque de alguns passageiros.
Um acordo feito em 1933, que durou até 1938, entre a Federação Sionista da Alemanha e o governo Nazista permitiu que 60.000 judeus fossem para a Palestina. Este acordo é mostrado por alguns segmentos da esquerda como um acordo entre os sionistas e os nazistas como forma de demonstrar que o Estado de Israel foi formado por judeus que apoiavam o nazismo. Havia se passado quatro anos desde a maior crise econômica vivida pela Alemanha (um dos fatores que ajudou na ascensão do Nazismo ao poder) e a Noite dos Cristais acontece em 1938, ano do rompimento do acordo. A conferência de Wanasse em janeiro de 1942 foi quem ordenou a Solução Final, ou seja, ninguém em sã consciência poderia imaginar que um regime determinaria a aniquilação física de todo um povo. O uso deste acordo como prova da relação sionista / nazista que levaria a criação do Estado de Israel não corresponde aos fatos e se trata de uma leviandade.
Para impedir que os judeus fossem para a Palestina o parlamento Britânico criou em 1939 o “Papel Branco” que restringia a possibilidade de entrada na Palestina. Apenas 1.500 pessoas por ano eram aceitas legalmente. Por causa disso que 17.000 judeus foram parar em Xangai, que na época estava sob domínio Japonês.
Durante a segunda guerra e mesmo com o fim dela, apesar das restrições, diversos navios se lançaram ao mar em direção a Palestina no que ficou conhecido como “Aliát Bet”. Nem todos chegaram. Muitos foram levados para Chipre. Um dos casos mais conhecidos é o navio Exodus. Em 1947, a Haganá tentou receber 4.554 sobreviventes do Holocausto. O navio chegou rebocado bastante avariado devido a um ataque de navios ingleses em águas internacionais para Haifa, mas seus ocupantes não foram autorizado a permanecer na Palestina, muitos foram levados de volta para a Alemanha.
Voltando um pouco no tempo é preciso recordar dos distúrbio de 1920 e 1921 quando grupos árabes atacaram a população judaica na Palestina. Isto deu origem a Haganá, um grupo que seria o embrião do IDF para proteger as comunidades judaicas. Dali, em 1931 dissidentes que não concordavam em apenas proteger as comunidades sem revidar, criaram o Irgun, grupo ligado a Menachem Begin que viria a se tronar primeiro ministro e assinar o primeiro tratado de paz de Israel com um país árabe, o Egito em 1979.
Entre 1936 e 1939 quando ocorreu a revolta árabe, a Haganá serviu aos interesses britânicos com quem coordenaram ações e de quem chegaram a receber treinamento militar. Com a segunda guerra mundial tudo iria mudar.
A revolta árabe foi uma iniciativa nacionalista e se deu principalmente contra o domínio colonial britânico e a imigração judaica. Primeiro contra a Alta comissão Árabe que foi sepultada através de concessões políticas contando com a ajuda dos governantes do Iraque, Arábia Saudita, Transjordânia e Iêmen, além da ameaça da lei marcial. A segunda fase, no final de 1937 liderada por camponeses se voltou contra as forças britânicas e foi sufocada pelo Exército Britânico e a Polícia Palestina.
A Alta Comissão Árabe, criada em 1936, reunia os diversos clãs árabes palestinos e tinha como seu líder o Mufti Amin al-Husayni. Foi ela que convocou neste ano uma greve geral dos trabalhadores e empresas árabes contra o pagamento de tributos e contra a imigração judaica. Com isto, em 1937 teve proibida sua ação.
Em setembro de 1948, a Comissão reunida em Gaza , proclamou o Governo Árabe de toda a Palestina, o que pode ser considerado a primeira tentativa de criação de um Estado Palestino independente. Foi criada uma Assembleia Constituinte que elegeu como presidente o Mufti Amin al-Husayni. A assembleia passou a se chamar Conselho Nacional Palestino e votou uma constituição provisória.
As operações contra os britânicos e contra a população árabe for realizada pelo Irgun e pelo Lechi, ambos obedientes a Menachem Begin, até 1945 quando concordaram em se submeter a um comando único com a Haganá e evitar uma guerra civil.
A segunda guerra chegava ao fim e o Julgamento de Nuremberg expunha ao mundo as atrocidades do regime nazista e o alcance do Holocausto com seis milhões de judeus assassinados.
No inicio da segunda guerra a Inglaterra pediu a cooperação da Haganá, mas em 1942 com Rommel perdendo a batalha na África voltou atrás. Ainda assim em 1943 foi criada a Brigada Judaica e pela primeira vez na história moderna, judeus lutariam sob a bandeira judaica. Entre os judeus que se alistaram no exército britânico, e os membros da Brigada Judaica, foram mais de 30.000 combatentes.
Na Europa o Plano Marshall de 1947 propunha reerguer o continente dos escombros. Era o momento do movimento sionista cobrar a carta de Balfour e a participação judaica ao lado da Inglaterra no combate ao nazismo.
Assim, sob o estarrecimento do Holocausto e da situação de milhares de judeus sobreviventes, a ONU através da resolução 181, faz a partilha da Palestina criando dois Estados, um Judeu, outro Palestino, ficando Jerusalém sob controle internacional.
A divisão de 53% do território para os 700 mil judeus que lá viviam e 47% para os 1.400.00 árabes aconteceu por duas razões: a primeira de que 65% das terras já haviam sido adquiridas pelos judeus do Império Turco-Otomano. A segunda porque o Estado Judeu não se destinava somente aos judeus que lá se encontravam, mas visava atender a perspectiva de uma onda massiva de imigração de refugiados para a segurança de um lar nacional judaico.
Portanto é preciso destacar que a resolução 181 criou um Estado Judeu para judeus e um Estado Palestino para os palestinos prevendo inclusive o deslocamento de populações de uma área para outra, acordos econômicos, compartilhamento de moeda etc.
A partilha foi prontamente aceita pela Agência Judaica, mas rechaçada pelo Conselho Nacional Palestino e diversos países árabes. Enquanto nascia o Estado de Israel, o Conselho Nacional Palestino, o Egito, Síria, Iraque, Jordânia, Líbano e Arábia Saudita sepultavam o Estado Palestino declarando guerra e invadindo o território. A guerra foi vencida por Israel, os judeus viram chegar ao fim a sua diáspora, os palestinos começavam a sua. Para o povo judeu um Lar Nacional, para o povo palestino a Nakba – Catástrofe.
Ao final da guerra de independência, cerca de 600 mil palestinos tinham se tornado refugiados nos países árabes vizinhos e aproximadamente o mesmo número de judeus imigrantes chegou a Israel. Do território originalmente destinado ao Estado Palestino, nada restou. Parte dele, Gaza ficou sob dominação egípcia e a Cisjordânia sob o domínio Jordaniano. No território restante, o Estado de Israel. Nenhum destes países jamais teve qualquer iniciativa para entregar estes territórios aos palestinos enquanto dominaram estas terras.
Em 1950, dois anos depois da declaração da independência, a Knesset (Parlamento Israelense) promulgava a Lei do Retorno. Na declaração de independência está escrito que “o Estado de Israel permanecerá aberto para a imigração judaica e para o regresso dos exilados”. Desta maneira, o princípio da Lei do Retorno, estabelecia o direito de qualquer judeu de “retornar” para Israel. A lei dá a qualquer judeu “no exílio” o direito de voltar para sua histórica terra natal e de receber prontamente a sua cidadania. Ela não discrimina cidadãos não judeus em Israel, que têm seus direitos assegurados como tais, mas se aplica apenas aos judeus que têm outra nacionalidade, mas que desejam se naturalizar israelenses, tornando essa naturalização legalmente aceita a priori. A lei não impede que pessoas de origem não judaica também se naturalizem, essa possibilidade é prevista em outras leis.
Apesar dos acordos de armistício assinados, o confronto entre a nova nação e o mundo árabe estava estabelecido e várias guerras iriam se seguir: 1956, 1967 e 1983.
Em 1964 é criada a OLP – Organização para Libertação da Palestina durante o 1º. Congresso Nacional Palestino ocorrido em Jerusalém. O objetivo de acordo com a Carta Nacional Palestina era a destruição do Estado de Israel e sua substituição por um Estado Palestino, os meios eram a via armada. Aglutinando diversas organizações, a principal liderança era a Fatah de Yasser Arafat.
Apesar de ter como inimigo o Estado de Israel, seus membros foram expulsos da Jordânia em 1970 no que ficou conhecido como Setembro Negro com algo entre 5.000 e 15.000 guerrilheiros mortos (os números variam de acordo com as fontes) e foram para o Líbano. Em 1982 foram expulsos do Líbano depois da invasão israelense levando seu quartel general para Túnis.
A OLP tornou-se mundialmente conhecida por seus ataques terroristas a civis. Em 1967, após a guerra dos 6 dias foram 61 ataques dirigidos contra escolas, cinemas e restaurantes. Um destes foi o ataque a escola de Maalot que matou 20 crianças. A OLP também se uniu a outros grupos extremistas, entre eles, vale destacar as Células Revolucionárias da Alemanha para o sequestro do avião da Air France levado para Entebbe, Uganda em 1976, quando morre o comandante da ação e irmão do atual primeiro ministro Benjamim Nathaniau, Yonatan Nathaniau, durante o resgate dos passageiros pelas forças israelenses, e o massacre do aeroporto de Lod perpetrado pelo Exército Vermelho Japonês em 1972. Todos visavam exclusivamente civis.
A guerra mais importante para o conflito israelense-palestino é a dos 6 dias em 1967. Nesta guerra Israel conquista as Colinas do Golan no norte, hoje anexadas ao seu território, a Cisjordânia e Gaza. A partir deste momento Israel passa a ser um país ocupante de territórios que não lhe pertencem e onde vivem atualmente cerca de 4 milhões de habitantes.
Nestes territórios Israel iniciou um colonização que hoje abriga dezenas de colônias agrícolas e cidades de pequeno porte. Também entrou em cidades palestinas como Hebron onde ocupam um grande número de casas. Estes assentamentos são hoje o maior entrave para uma solução pacífica.
Foram muitas as tentativas de acordo entre as partes, mas todas terminaram em frustração.
Em 1982 ocorreu o Massacre de Sabra e Chatila, dois campos de refugiados palestinos que eram guardados pelo exército de Israel que tinha à época como Ministro da Defesa Ariel Sharon (que viria mais tarde a se tornar primeiro ministro) pela milícia maronita liderada por Elie Hobeika. O genocídio foi uma retaliação ao assassinato do presidente eleito do país e líder falangista, Bashir Gemayel. Ariel Sharon foi demitido do cargo por conta de sua responsabilidade em permitir o massacre.
Em 1988, a OLP proclamou o Estado Palestino, uma espécie de governo no exílio nos termos da Resolução 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas. Mais tarde no mesmo ano Arafat declarou aceitar a Resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, prometendo futuramente reconhecer Israel e renunciar ao terrorismo (o que só viria acontecer em 1996 com a retirada do termo destruição de Israel da Carta Palestina). Em 1989 Arafat foi eleito pelo Conselho Central do Conselho Nacional Palestino presidente do Estado Palestino. Esta foi a primeira vez que o maior líder palestino falou em dois estados para dois povos, um Estado Judaico dentro das fronteiras de 1967 e um Estado Palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Em 1991 a comunidade internacional tentou um novo processo de paz. Idealizado pelo governo da Espanha e sob os auspícios dos EUA e da URSS. A conferência colocou as delegações árabes e Israel, uma de cada vez, frente a frente, e instituiu comissões multilaterais relativas a tópicos gerais como o controle do armamento e a segurança, desenvolvimento econômico e regional, a política da água e do ambiente e a problema dos refugiados. Esta mesma fórmula de negociação foi depois seguida durante as negociações que desembocaram nos Acordos de Oslo.
Depois de Madrid, seguiram-se novas conversações formais em Washington no mesmo ano e depois em 1994. Já as negociações multilaterais prosseguiram em Moscou em 1992.
Em 1993 foi assinado o Acordo de Oslo, este talvez o mais importante acordo que poderia ter levado a um tratado final de paz e reconciliação. Foram muitas negociações secretas entre as duas partes. Durante as eleições de 1992, o Partido Trabalhista pediu a paralisação dos assentamentos como uma política de boa vontade que permitisse aos palestinos vislumbrar seu estado. Como tudo foi feito a margem da ONU, mesmo tendo como ponto de partida as resoluções 242 e 338, a correlação de forças tão desiguais acabou por levar ao fracasso o processo de paz.
Em 1998 foi assinado o memorando Wye River mediado pelos EUA apara implementar um acordo provisório de 1995. Foi Clinton quem pressionou Netanyahu e Arafat a superarem seus obstáculos e chegarem a um acordo. Até mesmo o Rei Hussein da Jordânia foi chamado para ajudar. A negociação quase terminou quando Netanyahu exigiu a libertação do espião Pollard, que foi negado por Clinton.
O acordo acabou sendo assinado na Casa Branca, tendo Clinton como testemunha. No mesmo ano a Knesset aprovou o memorando, mas as metas daquele acordo não puderam ser implementadas.
Em 2000 aconteceu a Cúpula de Camp David entre Ehud Barak e Yasser Arafat, novamente mediados por Bill Clinton. Foi a última tentativa real de se chegar a um acordo final para o conflito.
Desde então o número de colonos nos territórios vem aumentando. De 1995 para 2008 o número de colonos passou de 130.000 para 270.000. Em 2009 já eram 400.000 e hoje já se fala em 600.000. A ocupação que está chegando há 50 anos, vai ganhando terreno dia a dia.
Em 2005 Israel se retira unilateralmente de Gaza e transforma o território na maior prisão a céu aberto do mundo.
Em 2006 acontece a primeira invasão através da Operação Chuvas de Verão que visava libertar Gilad Chalit sequestrado por um comando do Hamas. Já choviam foguetes lançados de Gaza em território israelense.
Em 2007 o Hdamas expulsa o Fatah de Gaza e se torna o único poder no território, mas é reconhecido como um grupo terrorista por Israel e a comunidade internacional. Uma guerra não declarada prossegue até que em 2008 os dois lados aceitam um acordo de cessar-fogo por 6 meses. Durante este tempo Israel deveria amenizar o bloqueio, o que não aconteceu e o acordo não foi renovado.
No inicio e 2009 Israel invade Gaza por terra. Era a Operação Chumbo Fundido. Depois de 22 dias o número de palestinos mortos chegou a 1300 com mais de 5000 feridos. Do lado israelense foram 13 mortos e 55 feridos.
Tudo continuou da mesma maneira nos anos seguintes e uma nova invasão a Gaza ocorreu em 2014, mas esta trouxe um nível de destruição e mortes nunca vistos. Foram 2500 mortos do lado palestino, sendo 500 crianças e 70 baixas pelo lado israelense. Toda infraestrutura do território foi destruída deixando cerca de 500.000 pessoas sem casa. Até mesmo escolas, hospitais e abrigos da ONU foram bombardeados por Israel.
Em 2005, 171 organizações representativas dos três segmentos do povo palestino, refugiados, habitantes dos territórios ocupados e cidadãos de Israel, entre eles partidos políticos, sindicatos, associações e outras organizações lançaram o BDS: Boicote, Desinvestimento e Sansões.
O BDS está baseado em três premissas:
1. O fim da ocupação e colonização de todos os territórios árabes e o desmantelamento do Muro.
2. Reconhecimento dos direitos fundamentais dos cidadãos Árabes-Palestinos de Israel à plena igualdade.
3. Respeitar, proteger e promover os direitos dos refugiados ao seu regresso às suas casas e propriedades como estipulado na resolução 194 da ONU.
A resolução 194 da ONU do final de 1948 (portanto ao final da Guerra de Independência), por mais estranho que possa parecer não teve o voto favorável dos países árabes, os maiores interessados, e Israel ainda não era um estado membro. Esta resolução determinava o retorno dos refugiados árabes aos seus lares e também a desmilitarização de Jerusalém. Nada disso foi obedecido.
A ocupação se aproxima perigosamente de meio século. Uma geração inteira já chega a meia idade, parte como ocupante, parte como ocupada. Os efeitos nefastos sobre as duas sociedades são visíveis e suas consequências trágicas. Muito tempo será necessário para a reconciliação, mas este caminho já vem sendo pavimentado por inúmeras ONGs.
Este pequeno texto mostra os fatos mais importantes do conflito e tenta resolver algumas questões costumeiramente levantadas pela esquerda, sempre retratando Israel como agressor e os palestinos como vítimas. Minha intenção foi unicamente trazer luz a linha de tempo para mostrar que muitos destes fatos quando vistos durante os acontecimentos na sua época, nos esclarecem e nos fazem compreender a razão deles assim terem se passado.
Minha conclusão, que não é obrigatoriamente a mesma dos que leram o texto, é de que Israel nasceu para ser um Estado Judeu, com tudo que isso traz de bom e de ruim para uma democracia de múltiplas etnias que ali convivem.
A grosso modo, poderia comparar com as reservas indígenas, onde os homens brancos são expulsos, não importando por quantas gerações lá estavam, e todo o território é destinado única e exclusivamente a uma etnia indígena. Podemos considerar uma reserva indígena um território racista onde se pratica o apartheid?
Os palestinos, hora comportam-se como agressores, hora como vítimas. O BDS, por mais que tentem comparar com o movimento internacional que levou a queda da África do Sul, nada tem em comum com ele. Ao tentarem boicotar os movimentos judaicos e israelenses que lutam pela criação do Estado Palestino, pregando a volta dos refugiados baseados numa resolução de 1948, colocando todos os judeus em uma vala comum, parecem estar mais interessados na substituição de Israel por um Estado Palestino do que propriamente na criação de seu estado nos territórios ocupados.
A esquerda festeira prefere se aliar as organizações mais retrógradas do campo palestino do que as organizações progressistas do campo israelense. Ao invés de serem parceiros para a paz, se tornam um entrave para este objetivo quando nomeiam um lado seu inimigo.
Eu acredito que a Paz e a Reconciliação são possíveis e estão mais perto de acontecer do que jamais estiveram. Os passos que estão sendo dados pelas sociedades civis dos dois povos apontam para este caminho e creio que vão poder contar com ajuda internacional muito em breve.
OBS: Todos os fatos aqui relatados foram pesquisados na maior biblioteca do mundo, o Google e podem ser confirmados por quem quer que seja.