O Holocausto nosso de cada dia

Há muito se fala sobre o comércio de armas israelense. Um assunto tabu em Israel, ele assombra até os mais céticos com relação a intocável moral do exército. Não que um país fabricante de armas não possa vende-las para outros países, o problema é para que tipo de regimes e com que finalidade este armamento será utilizado.

Em Israel existe um advogado militante dos direitos humanos chamado Eitay Mack que vem peticionando à Suprema Corte de Israel sobre as vendas de armas israelenses para países que praticam o genocídio. Estas vendas acontecem há muitas décadas e sempre foram uma verdadeira caixa preta fechada a sete chaves.

O exemplo mais recente, existem muitos outros, é Myanmar (antiga Birmânia), uma nação do sudeste asiático com mais de 100 grupos étnicos, que faz fronteira com a Índia, Bangladesh, China, Laos e Tailândia. No ano passado o país foi manchete de jornais pela prática de genocídio contra a minoria Rohingya. As Nações Unidas apontaram indícios de “genocídio intencional” e criticaram a passividade da líder do país exigindo que comandantes das Forças Armadas fossem julgados por tribunal internacional. Israel fornece armas para Myanmar.

Existe aqui uma questão ética e moral: como é possível um país que nasceu nas cinzas do Holocausto, um genocídio cuja brutalidade e especificidade gerou uma denominação única para ele, que suspende todas as atividades no dia da sua lembrança, durante um minuto, ao som das sirenes antiaéreas, pode vender armas para países cujos governos praticam genocídios.

Quando se fala de Israel, atualmente, não há como se deixar de mencionar o conflito com os Palestinos, ainda sem solução. Também com relação a ele começam a surgir provas de que na Guerra da Independência teriam sido cometidas atrocidades para ocupação das terras destinadas ao então Estado Palestino, expandindo as fronteiras e gerando um êxodo de cerca de 600.000 pessoas no que ficou conhecido como a Nakba (catástrofe ou desastre).

Novamente temos aqui o mesmo povo que havia acabado de ser massacrado na Segunda Guerra Mundial, lutando para obter seu Estado Independente, praticando crimes de guerra como o massacre de populações civis. Crimes estes que permanecem impunes até o os dias de hoje e sobre os quais o Estado procura ocultar as provas.

Eu acredito que os acontecimentos históricos sempre precisam ser contextualizados e colocados dentro da sua linha de tempo. As coisas precisam ser estudadas sob duas perspectivas, a do vencedor e a do vencido. Só assim podemos compreender o que de fato aconteceu.

Não conheço nenhuma guerra onde não sejam cometidas atrocidades, algumas das quais até perfeitamente evitáveis, algo que os militares costumam chamar de danos colaterais. Um estranho preço a pagar para se obter uma vitória com menos baixas de seus comandados.

Sem querer entrar no mérito do que é certo e errado, mas apenas falando um pouco daqueles dias e dos tristes acontecimentos, relembro que a ONU aprovou a criação de dois países, um judaico e outro palestino. Um dos lados não aceitou a divisão e não pretendo discutir as razões que levaram a isso. Os palestinos não queriam um Estado Judaico no que acreditavam ser a sua terra. Nem eles e nem tampouco todos os países árabes do Oriente Médio. Tanto assim que imediatamente à declaração da independência, Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria declararam guerra a Israel.

Atrocidades foram cometidas pelos dois lados. Soldados judeus foram encontrados mortos com a genitália cortada e enfiada em suas bocas. Corpos de soldados árabes também sofreram mutilações. Não existia ainda um exército israelense de fato. A maior parte era composta por cidadãos que se alistavam para ajudar na guerra sem nenhum treinamento militar, cidadãos que eram transformados em soldados da noite para o dia.  Ainda assim combateram e foram o lado vencedor.

Documentos da época mostram que algumas tropas receberam ordens para entrar em aldeias palestinas, matar todos os homens e expulsar as mulheres e crianças. Isto foi realizado e, em alguns informes dos comandantes, consta também o estupro de mulheres e meninas. Foi desta maneira que parte do Estado foi formado.

Falo sobre estes fatos, porque acredito que sejam importantes serem mencionados e que remetem novamente à questão da venda de armas para países que desrespeitam os direitos humanos. Não podemos nos omitir diante disso e precisamos encarar a verdade de frente, com humildade e retidão.

Os psiquiatras há muito informam que uma pessoa que sofreu violência na infância tem muito mais tendências a repetir esta violência na fase adulta do que uma criança que teve um desenvolvimento amoroso e respeitoso.

Às vezes me pergunto se o fato de sermos um povo que sofreu tanta violência na sua história, se uma parcela do nosso povo carregaria consigo que a violência se combate com mais violência e somente os mais violentos e aqueles dispostos a ela sobrevivem.

É conhecido hoje que as atrocidades cometidas em guerras ocorrem pelas mãos de soldados que tinham uma vida civil simples. Desta maneira, um jornaleiro, um encanador, um entregador de mercadorias são aqueles, dentre outros, os que cometem atrocidades. Infelizmente, os responsáveis pelos crimes de guerra em nome do Estado de Israel são pessoas que convivem conosco no dia a dia.

Hora dizem que somos o povo do livro, hora que somos o povo escolhido e sabemos que nossos profetas nos ensinaram acima de tudo preceitos de justiça. Ainda assim, muitos de nós, têm um comportamento que contraria tudo isso. Por que estas coisas acontecem? Uma resposta simplória seria de que somos um povo como qualquer outro. Será verdade?

O Holocausto ainda é uma dor presente. A minha geração perdeu muitos familiares. Muita gente como eu não conheceu avós, pais, tios e primos que pereceram. Não podemos esquecer e não vamos perdoar, este é o meu mantra. Preciso dizer que se faz uso desta tragédia para outras finalidades que não seja a de ensinar a geração presente e futura do que o ser humano é capaz de fazer contra outro ser humano, e obviamente para que nunca mais venha a se repetir com nenhum outro povo. Um dos usos frequentes desta imensa tragédia é o vitimismo.

Israel usa o Holocausto como uma maneira de lembrar ao mundo, para toda a eternidade, que fomos vítimas de um genocídio. Que em consequência dele é preciso perdoar, entre outras coisas, nossos erros e nossa maneira de agir com o povo palestino e para quem vendemos armas. Tudo que fazemos de errado se justifica como forma de impedir que o Holocausto se repita pelas mãos de outros povos.  Até a pouco eram os árabes que queriam nos destruir, hoje o Irã.  E sempre vamos continuar escutando que o mundo está contra nós.

Nem todos, é verdade. Somos aceitos e de certa forma idolatrados pelos evangélicos pentecostais porque eles acreditam, com toda sua fé, de que quando todo povo judeu retornar para sua terra de direito (neste caso estão incluídos os territórios ocupados), o filho de Deus, Jesus de Nazaré, voltará a terra e o povo judeu irá aceita-lo como o Messias. Por isso existem até mesmo grupos cristãos sionistas.

A antiga Terra de Israel se estendia também pelo que hoje é a Cisjordânia, território onde se encontram muitas localidades bíblicas onde viveram judeus. Mas isso não justifica, sob nenhuma ótica da Lei Internacional, a contínua ocupação destes territórios (há mais de 50 anos) e sua futura incorporação ao atual Estado de Israel. Ainda assim, de maneira lenta e inexorável, Israel vai ocupando estas terras, expandindo ou criando novas colônias e reduzindo a população local palestina que em breve se tornará os Bantus Sul Africanos. Hoje são cerca de 2.200.000 habitantes palestinos.

Evidentemente que existem forças no Oriente Médio que desejam ver Israel ser varrido do mapa, o que quer que isso signifique. Além do Irã, temos a Síria, o Hezbollah, o Hamas, etc. São países e organizações denominadas como terroristas com as quais o diálogo nas atuais circunstâncias é muito difícil, para não dizer impossível.

Assim, se forma dentro do país uma cultura de que precisamos sobreviver a qualquer custo em um mundo de violência que ameaça nossa existência como nação. Dentro deste pensamento, torna-se compreensível que a venda de armas para países que cometem genocídios, seja uma maneira de buscar apoio internacional em uma comunidade que a cada dia nos aponta mais o dedo e que apesar de ainda tolerar algumas de nossas políticas, começam a nos criticar abertamente. Aquela ideia de que o mundo inteiro está contra nós, e qualquer um que se disponha a ser nosso amigo receberá em troca tudo o que desejar, justifica a venda de armas.

Pessoalmente, eu acredito que do ponto de vista diplomático isto é um desastre. A União Europeia antes tão favorável a Israel, está agora cada dia menos. A tentativa de Trump de levar consigo as embaixadas de outros países para Jerusalém foi um redundante fracasso. O pior, entretanto, é ver como fruto desta diplomacia equivocada, a aproximação com países onde o poder se encontra na mão da extrema direita, alguns até com apoio de grupos neonazistas.

Talvez, o que tenhamos que fazer no próximo Dia do Holocausto, quando acendemos cada uma das seis velas em memória dos seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas, seja lembrar também os milhares de mortos com o uso das armas fornecidas por nós:

  1. Os milhares de assassinados pelas ditaduras militares latino-americanas.
  2. Os milhares de assassinados pelo regime de Anastácio Somoza na Nicarágua.
  3. Os milhares de assassinados na África do Sul combatendo o Apartheid.
  4. Os milhares de assassinados pelas milícias do Sudão do Sul.
  5. Os milhares de assassinados no Genocídio em Ruanda.
  6. Os milhares de assassinados da etnia Rohingya no Genocídio em Myanmar.

Ainda assim faltariam velas. A ocupação dos territórios palestinos causa uma mortalidade assustadora. Se fossem apenas fruto de embates militares, ou até mesmo de terroristas, alguém poderia talvez encontrar uma explicação. No entanto as mortes, em todas sextas-feiras junto a cerca da fronteira com Gaza, de crianças, médicos, jornalistas e outros civis afastados dos locais das manifestações, não encontram justificativa sob qualquer aspecto do bom senso humano. O uso de munição real quando não causa a morte, na maioria das vezes deixa os atingidos inválidos para sempre.

Creio que existe algo de podre no Reino de Israel. No entanto, em nenhum momento pode-se colocar em discussão nosso direito a um Estado Nacional na Terra de Israel. Este é um fato consumado. Nenhum fato passado, presente ou futuro pode colocar em dúvida de que somos um país no seio das nações com nossos acertos e nossos erros. Israel não pertence ao seu governo, pertence a todos os cidadãos que nele vivem.

Existe também uma outra Israel. Uma nação solidária em catástrofes em qualquer parte do mundo, que cria tecnologias que beneficiam toda a humanidade, que possui uma das medicinas mais avançadas do mundo que atende a todos os seus cidadãos e até mesmo feridos de conflitos além fronteira, onde a comunidade LGBT é plenamente reconhecida e aceita, e onde cidadãos como Eitay Mack, juntamente com organizações como Paz Agora, Gush Shalom, Rompendo o Silêncio, Mulheres pela Paz, Taiush, B’Tselem etc,  partidos como o Meretz, Hadash, Balad e milhares de companheiros da esquerda progressista que como eu, lutam para mudar tudo isso.

Esta Israel é quem pede a solidariedade internacional para se somarem a nós, e não nos isolarem. Somos agredidos pela direita radical israelense de forma sistemática. Nosso trabalho e dedicação a causa palestina cobra seu preço no dia a dia. Atacar Israel, ao invés de atacar seu governo é um erro estratégico. Ele somente fortalece esta direita radical e afasta qualquer solução pacífica do conflito. Mais que isso, ele ajuda a manter no poder a atual liderança que alimenta conflitos com a venda de armamento sem qualquer critério para quem se disponha a pagar por ele.

Israel vai as urnas outra vez

Pela primeira vez na história de Israel, o parlamentar que recebeu a incumbência de formar o governo, não conseguiu fazê-lo. Bibi fracassou e está, do alto de toda sua arrogância, atacando seu algoz. Avigdor Lieberman, por todos os meios possíveis.

O resultado das eleições deu ao Bibi um suposto apoio de 65 parlamentares. Aí incluídos além do seu próprio partido, os religiosos, a extrema direita e o partido de Lieberman. Importante lembrar que estas eleições foram antecipadas justamente porque o partido de Lieberman abandou a coalizão. Bibi agora o chama de em tradução livre “o detonador dos governos de direita”.

Muitos devem estar se perguntando porque Lieberman se negou a fazer parte de um governo de direita, afinal seu partido e ele próprio assim se definem. Mais do que isso, dizem que nunca participariam de um governo de esquerda.

Antes de tudo é preciso que se saiba que o número de deputados do Israel Beiteino, o partido de Lieberman, vem perdendo cadeiras no parlamento desde sua primeira eleição onde tiveram 18 deputados, até esta última, quando chegaram a 5 apenas. Mesmo com este número, se tornaram o fiel da balança, sem eles a direita teria um governo de apenas 60 membros, ou seja, ficariam praticamente reféns da oposição.

Bibi e seu partido deram como certo a continuação do seu governo. Continuou desempenhando seu papel de primeiro ministro como se nada tivesse acontecido. Conhecedor dos meandros da formação de uma coalizão, sabia exatamente o que cada partido pediria, o que receberia de fato e sobretudo, sabia do desejo deles de serem governo com todos os benefícios que acompanham.

Desde o início, as negociações não se mostraram fáceis, mas com Lieberman, se mostraram especialmente difíceis. Dentre muitas demandas, uma em especial era inegociável, a Lei do Alistamento que havia sido aprovada em primeira leitura e determinava como os jovens ortodoxos das escolas religiosas seriam alistados nos próximos anos. Lieberman exigia o compromisso de que a lei seria aprovada em segunda e terceira leitura sem nenhuma modificação. Os religiosos não concordaram. Sabiam que poderiam fazer alterações em seu benefício.

Pode parecer algo muito pequeno para impedir a formação de um governo. Bibi também achou e este foi o seu erro. Tentou de todas as formas propostas alternativas, ofereceu tudo que era possível e impossível, pressionou de todos os lados, mas Lieberman não arredou pé. E sem o seu partido não haveria governo.

Haviam duas saídas possíveis. Uma seria Bibi devolver o mandato que recebeu do presidente para formar um governo e outro parlamentar ser escolhido para esta tarefa sem a necessidade de novas eleições. Outra, que foi o que aconteceu, o parlamento votou a sua dissolução e novas eleições foram convocadas para o dia 17 de setembro.

Em uma sociedade sadia, em um país realmente republicano, aquele que não conseguiu formar o governo teria a honradez de ir ao presidente, admitir seu fracasso e devolvido o mandato para que outro pudesse tentar formar uma nova coalizão. Isto nunca passou na cabeça de Bibi e é por conta dele, única e exclusivamente, que Israel se encaminha para uma nova eleição com um custo de quase quinhentos milhões de dólares.

Uma pesquisa realizada ontem, 30 de maio, perguntando em resposta a pergunta em quem votaria se a eleição fosse hoje, os partidos do atual governo chegariam a 58 cadeiras, e a oposição teria 54. Lieberman teria 8, ou seja, 3 a mais do que recebeu agora. Se isso acontecer teremos um novo impasse. Um dos partidos religiosos já afirmou que se nega a participar de qualquer governo que inclua Lieberman e sem eles a direita não consegue maioria.

Claro que a esta altura alguém já deve ter se perguntado se os religiosos são de direita. A resposta é não, eles são apenas religiosos. Praticamente nunca deixaram de fazer parte de nenhum governo desde a criação do Estado de Israel. Dos governos exigem apenas muito dinheiro para poderem manter os ortodoxos nas escolas religiosas, uma vez que não trabalham, não servem ao exército, apenas passam o dia rezando e estudando a Torá. Pedem também a manutenção do status quo no que se refere a abertura do comércio e transporte público no Shabat e nos feriados. O que já funcionava, continua funcionando, o que já abria, continua abrindo, mas nada pode ser acrescentado.

Atualmente os partidos de esquerda levantam a bandeira da liberação geral do comércio e do transporte público e por esta razão os religiosos se alinham com o Likud que prefere ser governo a qualquer preço. Uma questão de prioridades e pragmatismo.

Os ataques de parte a parte, entre Bibi e Lieberman, vão continuar por mais um tempo. Tudo agora está em aberto. Até mesmo os partidos que não conseguiram passar a cláusula de barreira sem votos suficientes para entrar no parlamento, vão tentar novamente. Tudo voltou à estaca zero.

Quem será realmente beneficiado, quem vai perder com esta nova eleição ainda é cedo para saber. Muita coisa vai acontecer. As peças deste complicado jogo político ainda não começaram a se mover e quando o fizerem vamos poder compreender melhor o que se avizinha no futuro próximo.

Como em Game of Thrones, com alianças e traições, todos queremos saber quem vai se sentar na cadeira de primeiro ministro de Israel. Quem será capaz de criar um Dragão e quem será aquele que poderá superar o impasse, assistam nos próximos capítulos.

 

Eleições em Israel, mais do mesmo.

Eleições em Israel, mais do mesmo.

As eleições em Israel chegaram ao fim com a contagem final dos votos e o Likud de Binyamin Nethanyau é o grande vencedor com 36 cadeiras (30 na Knesset anterior). Como o partido Kulanu com 4 mandatos (10 na Knesset anterior) se integrou ao Likud no dia de ontem, eles terão 40 cadeiras no parlamento.

A antecipação das eleições foi uma decisão do primeiro ministro depois que o partido Israel Beiteinu do ex-ministro da Defesa Avigdor Liberman, decidiu sair da coalizão deixando o governo com uma maioria apertada de 61 cadeiras. O partido dele recebeu agora 5 mandatos (6 na Knesset anterior).

Os religiosos saíram em massa para votar. Cerca de 82% dos votantes nesta comunidade foram as urnas e deram aos dois partidos deles, Shas 8 mandatos e Yadut Hatorá mais 7 (tiveram 13 na Knesset anterior).

Se alguém estiver contando, a direita já chegou a 60 cadeiras. Quem se soma a eles é o Yadut Haiemin com mais 5 mandatos (formado por dois partidos, um deles, Ha Bait Haieudi, com 8 mandatos na Knesset anterior, o outro não tinha representação) para formar uma coalizão com 65 cadeiras.

Do outro lado, a oposição com 55 mandatos formada pelo Kachol Lavan com 35 mandatos, o Avodá com 6 (24 na Knesset anterior), o Meretz com 4 (5 na Knesset anterior) e os dois partidos árabes com mais 10 (13 na Knesset anterior quando concorreram unidos). A maioria da comunidade árabe não foi votar.

Quem ficou de fora foi o novo partido do ex-ministro da Educação Naftali Bennett e da ex-ministra da justiça, Ayelet Shaked, o Haiemin Hachadash. Menos dois fascistas no parlamento.

O atual primeiro ministro vai ser em breve réu em diversos processos que correm na justiça. Portanto existe uma probabilidade muito grande de que aconteçam novas eleições no ano que vem. Este governo, se não acabar antes do indiciamento formal dele, tem um prazo de validade já conhecido.

Neste momento vão começar as negociações para a formação do novo governo. Nestes casos, partidos com uma pequena representação se tornam gigantes, uma vez que sem os votos deles não existe governo. Se o Likud não consegue formar o governo, provavelmente vamos a novas eleições, uma vez que o centro esquerda não tem mandatos suficientes.

Uma outra possibilidade é de em um desacordo político entre os membros da coalizão, um dos partidos abandonar o governo como aconteceu agora. Qualquer um que o faça, leva a novas eleições antecipadas.

Uma coisa é certa, o Bibi não terá vida fácil. A oposição já promete infernizar o atual governo de todas as formas possíveis e não lhe dar trégua até que ele caia.

O maior partido da oposição é o Kachol Lavan com apenas dois meses de existência. Formado por 3 ex-generais e um ex-apresentador de TV, é o resultado da união de 3 partidos. Ele atraiu os votos tanto da esquerda como da direita que não queriam a reeleição do Bibi. Se dizendo de centro, tem entre os deputados eleitos, gente de ambos os campos. É muito provável que o Bibi use isso para minar o partido e tentar levar a sua desintegração.

O grande vitorioso foi o primeiro ministro. Mesmo com fortes acusações de aceitação de propinas e ganhos financeiros escusos através do uso do cargo, seu carisma continua inabalável e levou seu partido a uma grande vitória. No entanto cabe ressaltar que o Likud se tornou dependente dele. Em uma eleição sem Bibi, dificilmente vão receber este número de cadeiras.

O grande perdedor, para quem não conhece a história, foi o Partido Avodá, que já foi o maior partido de Israel, o de Bem Gurion, o pai do Estado. Hoje, com apenas 6 mandatos, parece que chegou ao fundo do poço. Seu líder atual, Avi Gabay, anunciou sua renúncia para depois da Páscoa. Talvez com uma nova liderança o partido consiga se reerguer.

O cenário a frente é bastante confuso e ainda um pouco nebuloso até a formação do novo governo. Será preciso muita habilidade por parte do Bibi para agradar a todas as partes envolvidas, não que lhe falte alguma. Mas as demandas em alguns casos se chocam. Por exemplo, o partido Israel Beiteinu quer que os religiosos sirvam ao exército, o que o Yadut Hatorá, um dos partidos religiosos, não admite.

Transporte público no Shabat vai continuar não existindo e casamentos civis nem pensar. O divórcio continua sendo uma regalia do homem a mulher, se, e quando ele quiser. Milhares de mulheres vão continuar não podendo se casar novamente até o receberem.

Em relação ao processo de paz, ele fica como está, ou seja, parado. O Bibi chegou a dizer antes das eleições que pensa em anexar partes da Cisjordânia, o que elevaria a temperatura e teria o mesmo resultado de uma faísca em um tanque de gás.

Nada vai mudar na política externa e este governo vai continuar procurando companhia junto a outros países com governos de direita e alinhado com os Estados Unidos.

A esquerda israelense parece que compreendeu rapidamente o que a levou a este resultado e vários grupos já começam a falar em começar a trabalhar desde agora com vistas às próximas eleições. Um alento em meio a tristeza.

 

 

 

O Assassino da História

Não está sendo fácil para os brasileiros que vivem no exterior. Ter que tentar explicar as besteiras que são ditas pelo presidente do país está sendo cada vez mais difícil.

Eu conheço muita gente que defende o fato da história ter sido escrita pelos vencedores para fabricar novas narrativas, até aí algo compreensível. O problema é quando a total falta de conhecimento histórico leva uma criatura a dizer que o Partido Nazista era de esquerda porque tinha “socialista” no nome (Partido Nacional Socialista). Não qualquer criatura, o Presidente do Brasil ao sair de uma visita ao Museu do Holocausto.

O fato de não saber falar outros idiomas é perdoável. A falta de informação sobre o lugar que está visitando, não ter ideia do motivo da construção do monumento onde está depositando uma coroa de flores e não saber a razão deste local ser incluído nas visitas de dignitários estrangeiros, isso é imperdoável.

A situação foi tão vexatória que assim que sua declaração chegou aos canais de mídia, a imprensa israelense que estava fazendo uma cobertura morna, passou a ataca-lo sem piedade. Vídeos de suas declarações homofóbicas e misóginas surgiram nos noticiários das TVs e o próprio Museu do Holocausto foi questionado, acabando por emitir uma nota onde afirmou que a declaração do presidente brasileiro era equivocada.

Existem muitos assassinos da memória, os conhecidos negadores do Holocausto. Pessoas que afirmam que os nazistas não mataram seis milhões de judeus e que as mortes de alguns milhares nos campos de concentração se deveram a doenças e outros fatores naturais.

Estamos agora diante de um novo conceito, o de assassinos da história. Pessoas que tentam reescrever fatos históricos baseados na linguística, na maneira como de denominavam os movimentos envolvidos. Se um deles tem a palavra Democrata no nome, ele é democrata, se tem a palavra Nacional, ele é nacionalista, e assim por diante. Em sendo assim, Socialista no nome, só pode ser de esquerda.

Se para uma pessoa comum isto é um absurdo, imaginem para nós judeus termos de escutar uma barbaridade destas. Ele, o presidente do país, dando uma declaração estapafúrdia em Israel, na porta do Museu do Holocausto, que afirma em seu site ao explicar a frustração do povo alemão após a Primeira Guerra que “junto a intransigente resistência e alertas sobre a crescente ameaça do Comunismo, criou solo fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, gerando entidades como o Partido Nazista”.

A visita de Bolsonaro não será lembrada aqui pelo fato de não cumprir sua promessa de mover a embaixada do Brasil para Jerusalém. Tampouco pela abertura do escritório comercial em Jerusalém. Muito menos pela visita não protocolar ao Muro das Lamentações e assinar o livro de visitante a um grupo extremista que deseja derrubar as Mesquitas do Monte do Templo para lá construir o Terceiro Templo de Israel. Nem falar dos acordos de intenção que não servem para nada. O que ficou marcado para os israelenses foi “o que aquele presidente idiota do Brasil disse antes de ir embora”.

Interessante mencionar que as entidades judaicas brasileiras representativas da comunidade ficaram em silencio. Somente os grupos judaicos na resistência emitiram nota de repúdio e escreveram artigos contra tamanho absurdo.

O silêncio das entidades oficiais, Federações e Confederação ao oficialmente se omitirem, ou ressaltando o aspecto positivo de que ele ao menos visitou Israel, mostra bem o lado trágico da nossa história. Não foi muito diferente na Alemanha antes da ascensão de Hitler. O fenômeno do fascismo judaico sempre foi uma mancha negra no nosso passado que volta para nos assombrar.

Felizmente existe o outro lado. Vários grupos de resistência judaica democrática existem neste momento fazendo um trabalho fantástico de oposição a este governo fascista. Cada um contribui à sua maneira. Todos somam diariamente ações de vigília e de esclarecimento sobre os acontecimentos. Eles são o verdadeiro espírito judaico humanista. Assim foi também na Alemanha Nazista.

Não em nosso nome

Não em nosso nome

Se você concorda que todo ser humano nasce igual, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que homens e mulheres têm os mesmos direitos, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que todos merecem receber as mesmas oportunidades, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que não é o gênero, mas o caráter do individuo o que realmente importa, você é contra Bolsonaro.

Se você concorda que a tortura é um crime contra a humanidade, você é contra Bolsonaro.

Não é uma questão ideológica, não se trata de esquerda ou de direita. Ser contra Bolsonaro é respeitar nossa diversidade e ter a consciência de que podemos viver em harmonia como seres humanos que chegamos ao mundo e partimos dele da mesma forma.

Como judeus temos uma responsabilidade com a humanidade. Somos o povo mais antigo na Terra. O povo do livro, aquele que trouxe ao mundo os 10 Mandamentos, as primeiras leis conhecidas pelo homem.

Nossa história é pautada por grandes acontecimentos, alguns de grande alegria, outros de imensa tristeza. Nenhum deles impediu que chegássemos aos dias de hoje em nossa terra. Aqui estamos para dizer ao mundo que o Povo de Israel Vive. E aqui vivemos com toda nossa bagagem ancestral de conhecimento e lições de vida.

Infelizmente algumas destas lições, as vezes parecem esquecidas e é preciso relembrá-las. Podemos ter pontos de vista diferentes, maneiras distintas de alcançar os mesmos objetivos, mas nunca podemos deixar de acreditar que somos o povo que deve ser um Farol de Luz para a humanidade.

A presença de Jair Bolsonaro em Israel é uma ofensa a todo ser humano, judeu ou não. Sua visita a Yad Vashem é ainda pior e não condiz com o que este lugar representa. Este presidente do Brasil enaltece a Ditadura Militar Brasileira que perseguiu, torturou e matou jovens de esquerda lembrando a cada um deles de que eram judeus. Entre eles: Ana Rosa Kucinski SilvaMauricio e André Grabois (pai e filho), Chael SchreierGelson ReicherPauline Philipe Reischtuhl, Vladimir Herzog e Yara Iavelberg.

Quando nosso primeiro ministro se acerca deste tipo de líder para tentar obter exclusivamente mais uma embaixada em Jerusalém, temos de nos questionar se ele realmente nos representa. Para ele os fins justificam os meios, e apertar a mão de um ser tão desprezível como este, serve aos seus objetivos particulares de se perpetuar no poder.

Nenhum poder é eterno, os governantes passam e as nações permanecem. No entanto, são nossos governantes atuais que trocam afagos e sorrisos, cada qual com a sua agenda. A de Bolsonaro é agradar aos seus parceiros evangélicos que sonham com uma Israel convertida ao cristianismo para permitir a volta do seu Messias, Jesus Cristo.

O Brasil é muito maior que Bolsonaro, o que ele representa e aqueles que o apoiam. Nós todos que amamos a liberdade, a democracia e o respeito aos direitos humanos, estamos unidos em todo o mundo contra o fascismo. Nossa união é a nossa voz e ela jamais será calada.

Um mundo melhor é possível e somos aqueles que apontam o caminho. Somos a esperança que não morre, a alegria da vida, a beleza do ser humano. Nós somos o futuro.

Somos persistentes, somos obstinados, nunca desistimos porque somos movidos por amor ao próximo. Nossa unidade é consequência do que de melhor representamos no mundo. Nossa força é perene e nossa causa é justa.

Nós israelenses de origem brasileira que voltamos para nossa casa em Israel não esquecemos o Brasil. Não nos permitimos abandonar o povo brasileiro nas mãos deste presidente com ideais fascistas e chamamos a todos os cidadãos de Israel para que se manifestem contra a sua presença.

Jair Bolsonaro você é uma Persona Non Grata em Israel.

Bolsonaro em Israel

Bolsonaro em Israel

Bolsonaro vem aí. Neste domingo chega a Israel para uma curta visita. Na verdade, é um gasto de dinheiro público para nada já que vamos ter eleições para o parlamento dia 9 de abril e, em tese, seu amigo Bibi pode não ser reeleito para primeiro ministro.

Estamos também em meio ao problema de Gaza. As coisas esquentaram novamente depois que um segundo foguete foi lançado contra o centro do país “por engano”. Desta vez tropas e tanques de guerra estão posicionados na fronteira e os ministros de extrema direita querem sangue.

Nem a troca da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém ele vai anunciar. Ao que tudo indica vai dizer que o Brasil terá um Escritório Comercial na cidade. Bibi vai ter que se contentar com esta notícia.

Várias manifestações estão sendo agendadas por onde ele passar. Orgulhosamente participo da organização de algumas e posso dizer que além de brasileiros e latino americanos, muitos israelenses vão estar presentes.

Aqui em Israel, aqueles mais politizados sabem da nossa história de uma ditadura militar, da injusta condenação do Presidente Lula, do golpe contra a Presidente Dilma e da desgraçada eleição de Bolsonaro. Até mesmo o assassinato de Marielle é do conhecimento e indignação aqui.

Preciso explicar que em Israel o voto não é obrigatório. O parlamento possui 120 cadeiras e o presidente escuta todos os partidos eleitos em quem eles apoiam para primeiro ministro. Quem tiver recebido 61 ou mais apoios tem a incumbência de tentar formar o governo. Ou seja, nem sempre o partido com mais deputados eleitos formará o governo.

Basicamente existem 4 blocos de afinidades. O primeiro é formado pelos partidos árabes com os quais nenhum partido judaico aceita se coligar. Uns usam a desculpa de que não são sionistas e outros dizem descaradamente por serem árabes.

Temos também os religiosos. Estes partidos costumavam ser o fiel da balança em vários governos e por conta deles, por exemplo, até hoje não temos transporte público aos sábados. Geralmente eles querem a pasta da educação para garantirem dinheiro para as suas escolas. Graças a eles, quem se dedica ao estudo da Torá não precisava servir ao exército. Esta lei está para ser reformada.

Depois temos o bloco da direita e a extrema direita. Este é o bloco liderado pelo Likud, o partido de Bibi, ou do Bibi. Ele é quem carrega o partido nas costas e sem ele podem vir a ser um partido com muito menos representatividade.

Finalmente o bloco de centro e esquerda. A esquerda em Israel, como conhecemos, tem hoje o Meretz com uma representatividade em torno de 5 cadeiras. O centro esquerda é o Avodá, ou o que restou do Partido Trabalhista israelense. Dependendo da pesquisa eleitoral vai receber entre 5 e 10 cadeiras.

Em toda eleição surge um novo partido chamado de centro. Este ano temos o Azul e Branco, o partido dos generais. É incrível como os generais de pijama adoram entrar para a política. Cada partido tem o seu. Seu líder, Beny Gantz é chamado de esquerda pelo Likud e de direita pelo Avodá. Vale tudo por um voto.

As pesquisas de opinião em Israel são um caso a parte. Cada uma mostra números totalmente diferentes uma da outra. Alguns determinados partidos passam a cláusula de barreira em uma pesquisa, em outra não. Partidos ganham e perdem cadeiras diariamente. Percentual de erro de algumas delas é de mais de 4%. Este percentual muda uma eleição.

Atualmente o partido Azul e Branco deve ser aquele mais votado, mas não necessariamente quem vai formar o governo. Hoje teriam junto com os partidos de centro esquerda e esquerda algo em torno de 42 a 48 mandatos. Vão precisar do apoio dos partidos árabes com quem dizem que não conversam e dos religiosos que dizem que não sentam com eles. Isso, antes da abertura das urnas, depois passa a ser uma mesa de negociações.

Bibi teria o apoio natural de toda a direita e dos religiosos. Basicamente é o seu governo de hoje. O problema é que com um número de 61 ou 62 mandatos. Foi por conta deste baixo número de apoio que ele convocou novas eleições.

Alguns falam de um governo de coalizão nacional entre os maiores partidos. No momento eles se acusam uns aos outros de ladrões, traidores, incompetentes, fanáticos etc. Passada a eleição vem a realidade e o desejo do poder costuma falar alto. Meu desafeto de hoje pode ser meu melhor amigo amanhã, afinal a política é a arte de engolir sapos. Tudo é possível.

Sim, comecei este artigo falando do Bozo e preciso acabar informando aos que me leem que na minha opinião a visita dele a Israel é só para ter mais tempo de brincar no Twitter. De prático mesmo não espero nada. Pelo visto a presença, ou ausência dele no Brasil, dá no mesmo. Um inepto na presidência.