Planejamento Vultuoso

Uma das noções que desenvolvi durante o meu processo de percepção de fenômenos das mais variadas naturezas, mas em especial, nos fenômenos sociais e políticos, é que certas coisas não dão errado – ou voltam-se a uma natureza destrutiva – por acaso. Alguns fenômenos catastróficos só assim o são não pelo fortuito, pelo acaso, ou pela falha de projeto. Ao contrário, são frutos de meticuloso e vultoso planejamento.
Se examinarmos o conjunto de ataques que o sistema político brasileiro vem sofrendo desde o início do século XXI, e mais agudamente a partir das jornadas de 2013, passando pelo golpe de 2016 e culminando na eleição de Bolsonaro, não haverá que ser feito grande esforço intelectual ou analítico para se perceber que existe uma harmonia subjacente a todos esses processos. Uma gradual, crescente e contínua desconstrução do sentido das palavras, da lógica do raciocínio, dos fundamentos da informação, do conhecimento e da ciência em si mesmos.
O estado de coisas em que nos encontramos, onde um presidente do Brasil mente diária compulsivamente, atenta continuamente contra as instituições, tensiona os campos políticos a limites jamais testados desde a redemocratização do país, diante de instituições paralíticas e de um sistema jornalístico que tenta dialogar pelo meio da única linguagem que conhecem, sem entretanto obter qualquer efeito no outro lado, que claramente fala outra língua, desorganiza o pensamento, tira qualquer questão fundamental do foco, e zomba grotescamente de qualquer conquista da civilização, retrata sim uma enorme construção com fundamentos e alicerces que escapam à percepção da imensa maioria.
Há certamente poderosos jogadores por trás desse tabuleiro. Uma união que engloba Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, MBL, Vem-prá-Rua, Kim Kataguiri, Fernando Holliday, Partido Novo, Janaína Paschoal, o próprio presidente e sua família, Sérgio Moro, Abraham Weintraub, entre outros, definitivamente não vem do acaso. A sustentação de uma parcela da sociedade, ainda que minoritária, mas significativa, que sustenta o bolsonarismo apartando-se da sociedade em uma espécie de apartheid voluntário e obsessivo, não se sustenta por mero acaso.
Receio que ainda não estamos instrumentalizados para examinar todo esse complexo e identificar todos os processos que foram empregados para esta construção. Obviamente tudo aponta para Steve Bannon, o grande ideólogo da extrema direita mundial. Mas simplesmente apontar o dedo para o óbvio nada resolverá se não pudermos traçar todos os caminhos desta enorme conspiração sobre a qual eu tenho poucas dúvidas da existência. E logo eu, tradicionalmente avesso a teorias conspiratórias. Mas os fatos que presenciamos no momento, especialmente caracterizados pela paralisia das instituições do estado e dos órgãos de imprensa e instituições da sociedade, incluindo partidos políticos, revelam com clareza que estamos diante de um enorme desconhecido, uma espécie de matéria escura, que no momento predomina em força e preserva-se invisível.
Enquanto não desvendarmos esta estrutura, dificilmente sairemos desse buraco.
NELSON NISENBAUM.

A História se Repete

Para instaurar oficial e definitivamente o desvario filho do cruzamento do nonsense com a desvergonha, em 2014 veio o golpe branco, terminando por liquidar a pseudo democracia que enchia a boca e os bolsos dos políticos corruptos de todos os partidos e as arcas dos jornais coniventes, usando sabe-se lá qual algoritmo para imbecilizar/idiotizar/hipnotizar a uma parte considerável da classe média que – a exemplo do ocorrido nos idos de 64 – caiu na armadilha, tropeçando na mesma pedra.

Aí chegaram Temer e Moro, instalando no poder a brutal ilegalidade de aceitar a delação de criminosos em busca de prisão domiciliar como prova irrefutável para condenar os adversários políticos do Establishment, atapetando com tal proceder o caminho para a chegada triunfal do fascismo Bolsonariano mais esdrúxulo e pré-histórico, com a indispensável colaboração da classe média – como em 64 – e que o tempo com certeza fará que ela se arrependa desse apoio venal– como também aconteceu após 64.

E o golpe branco tingiu de verde os gabinetes do poder. Generais falando sobre psicologia; coronéis dando aula de democracia; analfabetos preparando os currículos escolares; e o hino e a pátria e deus acima de tudo e de todos. E a vida começa na concepção; e o aborto é coisa do diabo, e outras imbecilidades semelhantes.

Sim, quem criou o algoritmo que conseguiu transformar seres pensantes em idiotas teledirigidos, merece o Nobel da maldade. E a Globo, que instrumentalizou e implementou o uso massivo desse maldito algoritmo já está sendo castigada pelo fascismo que ela ajudou a tomar o poder.

Mas a vida me ensinou que nada melhor do que um dia depois do outro. Assim foi no passado. Assim sera no futuro. Quem viver, o verá.

Bruno Kampel

Um indecoro carnavalesco

Um ano atrás, segundo turno chegando e eu fazia um vídeo onde contava a fábula do escorpião e o sapo. Em resumo, o sapo não acreditou que a natureza do escorpião pudesse falar mais alto.

Eis que a Folha de São Paulo nesta semana, publica um editorial onde em resumo, nos dá a entender que não acreditou na natureza do Bolsonaro. Achavam que ele como presidente honraria o cargo, deixaria de ser misógino, racista, homofóbico, extremista de direita, e passaria a respeitar a imprensa.

Ora, sejamos francos, vocês da FSP não podem ter sido ingênuos a este ponto. Vocês sabiam exatamente o que estavam fazendo quando apoiaram o golpe contra a Presidenta Dilma, elevaram o Temer a presidência e apoiaram este que agora lhes dá uma banana por dia em praça pública e xinga sua repórter no nível de uma roda de bêbados nos confins do Brasil.

Por uma suposta ilegalidade que se mostrou uma completa farsa, vocês pediram o Impeachment da Dilma. O que está faltando para vocês começarem a mesma campanha contra Bolsonaro. A total falta de decoro para o cargo que ocupa, envergonhando a todos os brasileiros parece que não é suficiente. O país sendo governado aos trancos não importa. A falta de apoio político no Congresso não lhes diz respeito. A humilhação a que ele submete a imprensa e seus repórteres vocês respondem com editoriais de lamentação e o nomeiam “chefe de um bando”. Façam o favor, tenham vergonha na cara!

É lamentável que não tenham aprendido com a história. Tudo o que a ditadura fez com a imprensa não lhes ensinou nada sobre o que significa uma imprensa livre em uma democracia. Ninguém deveria estar acima da lei, mas este Bolsonaro como presidente, assim se sente e vocês contribuem muito para isso. Quanto mais ele os defenestra, mais vocês se submetem.

Para sorte de vocês chegou o Carnaval. Ao menos por uma semana vão poder se lavar das bananas que receberam. Tomara pudessem aproveitas estes dias para fazerem também um exame de consciência e terem a decência de se posicionar ao lado do povo brasileiro, saindo de uma vez, desta fantasia corporativista que tão bem os protege.

O Brasil vai parar para a folia do Carnaval, mas a falta de decoro deste presidente promete não silenciar. Não deve nos dar sossego nem mesmo neste feriado e a qualquer momento virá mais uma barbaridade.

Por enquanto deixo com vocês aquela marchinha antiga que não me sai da cabeça nestes dias, “Doutor, eu não me engano, o Bozonaro é Miliciano”.

Bom carnaval a todos.