Joga pedra nos judeus

Joga pedra nos judeus

Caro companheiro Moisés Mendes, posso chamá-lo assim? É que de uma certa forma, somos militantes do mesmo lado que combate Bolsonaro, mas como judeu de esquerda, me surpreende sua publicação para os Jornalistas pela Democracia, sobre o silêncio dos judeus diante dos insultos neonazistas de simpatizantes de Bolsonaro. Felizmente, não é verdade.

Antes de tudo, caso não seja de seu conhecimento, os judeus brasileiros são hoje cerca e 100 mil almas. Uma massa insignificante diante do apoio de 57 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro. Ainda que todos tivessem feito isso, hás de convir que nosso voto não representou nada. Agora, admitindo que apenas uma parcela dos judeus ajudaram a eleger Bolsonaro, eu concordo que um judeu que se alia a extrema direita é sob a minha ótica, uma aberração e nunca vão existir pedidos de desculpas suficientes que justifiquem esta posição.

Os judeus brasileiros nunca foram majoritariamente de esquerda, mas este alinhamento com Bolsonaro não foi, e não é uma unanimidade. Ele soube explorar muito bem a ligação com Israel fazendo uma promessa que dificilmente será capaz de cumprir, a mudança da embaixada para Jerusalém. Ganhou até mesmo o apoio incondicional do ex-embaixador de Israel. A cegueira destes judeus e do embaixador foi tamanha, que não prestaram atenção que público para quem estava endereçada esta promessa eram os evangélicos, estes sim, poderiam render, e de fato renderam os votos necessários para sua eleição. Os judeus que o apoiaram, foram a cabresto. Idiotas úteis.

A sua indignação contra a eleição de Bolsonaro é a mesma que a nossa, judeus de esquerda. Por isso, quando dizes que: “Quando setores progressistas passaram a denunciar o conluio de judeus com Bolsonaro, a direita do judaísmo brasileiro e até uma certa esquerda decidiu atacar os ‘inimigos’ como antissemitas e antissionistas”, estás me atacando também, e usas a justificativa mais baixa, aquela de que todos os que atacam as atitudes extremistas de Israel, são chamados de antissemitas. E aí eu me pergunto, onde é que isto se enquadra neste texto? O assunto não era judeus e Bolsonaro? Agora estamos falando de ações extremistas do Estado de Israel? Acredito que tenha sido um deslize, mormente algo que muitos antissemitas usam para dizerem que não são antissemitas. Sem ofensa.

Tu cometes uma grande injustiça quando falas do episódio da Hebraica-RJ. Não mencionas que havia uma enorme manifestação de judeus na porta da Hebraica em 2017 contra a sua presença. Te esqueces de dizer que esta foi a primeira manifestação pública contra Bolsonaro. Preferes cometer uma falácia dizendo que os judeus cariocas são amigos de Bolsonaro. Ao invés disso poderias ter dito que não foi a primeira vez que o então deputado debochou de índios e negros, que ele repetiu o que já vinha pregando há muito tempo.

O voto antiPT não veio somente dos judeus, isto é óbvio. A maioria dos brasileiros caiu no canto da sereia e elegeram este genocida. Uma mancha para a nossa história. Uma tragédia da qual nunca esqueceremos.

Claro que não gostamos do gesto de Filipe Martins. Reprovamos com veemência assim como reprovamos o gesto do Ex-Secretário da Cultura Roberto Alvim e mais recentemente da postagem de Roberto Jefferson. Nós não nos calamos e o Observatório Judaico pelos Direitos Humanos, por exemplo, é uma prova disso. O grupo Resistência Democrática Judaica com 6.000 membros é outra. Articulação Judaica, Juprog, Judeus pela Democracia, JPD-Coletivo Democrático, Judias e Judeus com Lula etc, todos são a prova viva da militância judaica contra o Fascismo em geral e Bolsonaro em especial.

Nenhuma outra minoria brasileira possui proporcionalmente ao seu número, tanta militância organizada e combativa como nós. Sempre estivemos na linha de frente, desde antes da eleição e seguimos combatendo este inepto junto as forças progressistas. Quem prefere dar voz a direita judaica é tu e teus colegas de trabalho, não nós.

Nós os denunciamos desde o princípio e seguimos na luta a despeito de textos como o teu, que insiste em dar destaque a minoria da minoria, quando todos sabem que Bolsonaro foi eleito majoritariamente pelo voto neopentecostal, pela mídia tradicional e o apoio da maior parte do empresariado, com supremo e tudo.

Quem mais, além de nós, ataca Bolsonaro como neonazista? Podemos contar nos dedos quem faz isso. De fato somos uma exceção, somos a voz da resistência judaica quando nesta mesma época, no Pessach de 1943, lutou até o último suspiro enquanto a besta nazista destruía o Gueto de Varsóvia. Nunca nos acovardamos.

Bolsonaro segue tendo seus aliados, 99% deles compostos por não judeus. Sejamos francos, teu artigo não serve a nenhum propósito, outro que não seja Joguem Pedras nos Judeus, não na Geni.

Samba Perdido – Capítulo 32 – parte 02

Desci no ponto final, na Praça da Sé. Perdido no labirinto das ruas do centro, saí perguntando e consegui encontrar um ônibus que ia para o campus. Àquela altura, tudo o que queria era descolar uma cama para passar a noite e tirar um cochilo. Contudo, quando as coisas estão fadadas a dar errado, elas só pioram. Quando cheguei na cidade universitária, me deparei com um confronto entre os estudantes e a polícia justamente por causa do dormitório onde estava planejando passar os próximos meses. As autoridades do campus tinham intervido e os estudantes queriam o controle do seu espaço de volta. Na confusão fiquei sabendo que por conta daquele atrito não estavam podendo aceitar gente que não estudava ali. Sem saber o que fazer, me dirigi à administração da universidade para explicar minha situação e pedir ajuda. Só que meu ar de playboy e meu sotaque carioca não conseguiram convencer ninguém de que estava em apuros.

Sem outra opção, voltei para o diretório dos estudantes para ver se conseguia arranjar um lugar para ficar, mesmo se fosse para dormir no chão por algumas noites. Quando caiu a noite, a sorte sorriu para mim. Em meio ​à uma assembleia, cruzei com o Carlinhos, um maluco que conheci em Canoa Quebrada, a paradisíaca aldeia de pescadores no Ceará. Expliquei minha situação e depois de alguns telefonemas, ele me convidou para ficar na casa dele.

Agradeci de coração e depois que as coisas acalmaram pegamos um ônibus e fomos lá. A família morava bem, num apartamento amplo perto da Avenida Paulista com vista de cima para a teia de telhados de São Paulo. A acolhida não podia ter sido melhor, todos eram muito gente boa e a hospitalidade acabou sendo impecável a ponto de ser embaraçosa. Me trataram como se fosse da família: tinha um quarto só para mim, comiamos juntos e depois iamos para a sala de estar para ficar coversando ou assistindo televisão até tarde. Quando saia com o Carlinhos ele me apresentava para seus amigos como um herói. Além disso, tinha a irmã mais velha do Carlinhos, Alice, uma gata, que também tinha conhecido no Nordeste. Ela ficou contente – achei que até demais –  em me ver, mas a última coisa que precisava era pôr tudo a perder tentando alguma coisa com ela.

*

São Paulo era muito mais sofisticada que o Rio. Em todas as áreas e camadas sociais, os paulistas eram mais profissionais e mais polidos. Para um carioca, tudo era limpo, organizado e funcionava bem: ônibus, sinais de trânsito​, metrô, lojas, padarias. Havia mais formalidade e o nível intelectual em geral parecia padrão de Primeiro Mundo. Os jovens não eram os ratos de praia da Zona Sul se achando a aristocracia da cidade, na paulicéia nao havia tempo para aquele tipo de hedonismo arrogante e de pretensão. Seu estilo urbano, descolado porém de pé no chão, se aproximava ao que a gente via da juventude londrina através de revistas e de video clips. O punk e o estilo gótico caiam bem, ali os anos oitenta faziam sentido.

Após uma semana com a família do Carlinhos veio a hora de ligar para casa. Falei com minha mãe, expliquei que estava tudo bem e onde estava com a intenção de acalmá-la. Contudo, como era de se esperar, a reação da Renée foi a de pânico. Minutos depois da gente se despedir e de dar o telefone da casa no caso de uma urgencia, um amigo que estava morando em São Paulo me telefonou perguntando porque não o havia procurado. Larry era um americano com uma história parecida com a minha. A diferença era que tinha um lar nem mais usual que o meu , a família não estava sofrendo com a crise e por ter uma personalidade menos curiosa e aventureira nunca tinha se atrevido a sair dos padrões esperados da sua situação social.  O conhecia o das aulas de Bar Mitzvá e da Escola Americana. Pra falar a verdade, tinha seu telefone mas não o havia procurado porque era caretíssimo e um tanto chato. Quando éramos crianças a amizade só existiu por causa da insistência da dona Renée, maravilhada com a posição do pai dele, CEO da filial brasileira de um importante banco americano.

Larry tinha acabado de voltar de Miami. Apesar de seus dois irmãos mais velhos terem se estabelecido por lá, ele não havia gostado e agora queria fazer faculdade no Brasil. Assim que soube que estava em São Paulo, ficou louco para que ficasse com ele pois na sua cabeça eu representava o Rio da sua adolescência surfista. Quanto a seus pais – acreditem se quiser – me viam como uma boa influência pois era bom aluno quando estudávamos juntos.

Tive que aceitar o convite, pois não queria abusar da hospitalidade da família do Carlinhos. Além do mais, Larry também tinha que se preparar para o vestibular da FUVEST e com a ajuda de meus pais, nos matriculamos juntos no famoso curso Objetivo da Avenida Paulista, perto das sedes da maioria dos bancos e das grandes companhias e do enorme apartamento da família do Larry . Materialmente, minha situação ficou excelente: fiquei com um quarto e com comida por conta e com duas empregadas e um motorista à disposicao, não tinha que mover um dedo. Apesar do vazio que sentia e da frustração de ter caído de volta na teia da família, volta e meio me animava a acompanhar o Larry para azarar paulistinhas usando nosso jeito de carioca. Neste quesito o sucesso foi surpreendente.

No dia da prova, não havia praia para nadar na véspera nem o bom presságio de um desconhecido parecido com meu avô me olhando da calçada. Não estava nervoso, mas assim que abri o folheto e comecei a ler as questões, me dei conta de que o vestibular de São Paulo também era um nível acima do Rio. Primeiro, havia um teste de múltipla escolha onde fui bem, mas uma semana depois,  teve uma prova específica da área escolhida envolvendo respostas dissertativas e uma redação. Havia matérias que não faziam parte do currículo do Rio e quando confrontado por quatro ou cinco questões dissertativas sobre literatura portuguesa, que nunca havia estudado, não deu para enrolar e tive a certeza de que era o fim da linha para mim.

Essa foi a primeira derrota após uma longa fase de vitórias. Pensei em ficar em São Paulo num quarto alugado por mais um ano para tentar novamente, mas no auge da depressão econômica, até eu conseguia entender que aquela não era uma opção viável. Além disso, as coisas tinham piorado em casa; Rafael tinha sofrido outra parada cardíaca. Senti que era hora de voltar para o Rio para ser um bom filho pelo menos uma vez na vida.

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Vacina, vacina, vacina!

Foi uma semana de boas e má notícias. A boa é que Fachin decidiu anular todas as condenações de Lula. Cinco anos depois, ele teria se convencido que Curitiba não seria o fórum correto para julgar o ex-presidente. A má é que o Brasil vai quebrando recordes de mortes pelo Covid dia a dia.

Quase tivemos outra boa notícia se o STF tivesse concluído pela suspeição de Moro para julgar Lula, não fosse um pedido de vistas. Não obstante as provas contundentes de que Moro perseguiu Lula em conluio com os promotores da Lava a Jato, o julgamento está empatado.

Também foi notícia a viagem a Israel de uma delegação brasileira para trazer na bagagem um spray milagroso que iria curar todos os doentes com Covid. Um verdadeiro desperdício de dinheiro público, mas quem está contando?

Da decisão de Fachin sobram interpretações, mas o fato é que Lula hoje está livre para concorrer nas eleições de 2022. Fez um discurso de estadista que pode ser reconhecido como de lançamento da campanha. Falou por uma hora e meia o que Bolsonaro não é capaz de falar em 3 minutos com cola na mão.

O problema é que as acusações contra Lula ainda existem. Elas vão ser transferidas para Brasília e teoricamente se aceitas pelos magistrados, darão inicio ao processo do zero. A lógica diz que não existem provas, apenas convicções e por isso os processos podem ser extintos ainda na inicial, mas de bunda de nenê e cabeça de juiz, vocês sabem, né?

Agora Fachin decidiu levar sua decisão monocrática, para ser confirmada em plenário. Pode-se  esperar pela confirmação, ou não, e neste caso Lula volta a ter sua candidatura impedida, tudo permanece como estava. O Brasil é uma grande novela mexicana. Não perca os próximos capítulos.

O número de mortos já passa de 2000 ao dia e tudo o que este governo consegue pensar é em paliativos e jogar a responsabilidade no colo de prefeitos e governadores. Não adquire vacinas e menospreza onde começam a fazer uso do Lockdawn. Em resumo, não ajudam e ainda atrapalham como podem.

No julgamento de Moro, Gilmar Mendes sentou o sarrafo. Deu nome aos bois e disse o que todos nós já sabemos há muito tempo. Citou as conversas entre os procuradores e o juiz e como tudo foi combinado para concretizar o desejo deles em condenar Lula a qualquer preço. Nada era novidade, mas escutamos um “isto é gravíssimo” de parte de Cármen Lúcia.

O novato da turma, Nunes Marques, pediu vistas. Mais um que não lê notícias e vive em outro planeta. Desconhece o processo e quer se inteirar do assunto. Vá lá que seja, desde que não leva meses ou anos para isso.

Da turma de turistas brasileiros que chegaram em Israel, algumas coisas ficaram claras. A primeira é de que tiveram de usar máscaras em todos os momentos em que estiveram reunidos com autoridades israelenses. Aqui ninguém estava a fim de arriscar uma nova cepa de Covid trazida por eles. Entre um encontro e outro, ficaram confinados no hotel.

Com relação ao tal remédio milagroso, levaram uma invertida humilhante. A reunião aconteceu no hotel. Foram informados do que poderiam ter lido nos jornais, ou respondido em um encontro por Zoom, que o tal medicamento ainda não começou a ser testado de fato, portanto ele não só não existe, como ainda vai levar muito tempo até que possa vir a ser ministrado em pacientes. Mas também receberam uma lição de como prevenir o Covid: vacina, vacina e vacina!

Para não saírem de mãos abanando, teriam assinado um protocolo de intenções para quando o remédio chegue na fase 2 e 3, o Brasil seja um dos lugares onde possa ser testado. Tipo um prêmio de consolação. Por enquanto a família miliciana vai precisar se contentar com spray de Lança-pefume. Não cura o Covid, mas dá um barato por alguns minutos para esquecer esta presepada.

Uma semana interessante que deixa um gosto amargo pelo aumento do número de vítimas da pandemia no Brasil.

Samba Perdido – Capítulo 31 – parte 02

Foto: arquivo O Globo

O Asdrúbal herdou a posição de abelhas rainhas da malucada carioca que tinha pertencido antes aos Novos Baianos e depois ao revolucionário chique Fernando Gabeira. Aproveitando essa onda, o grupo resolveu virar promotor cultural e, com a ajuda da prefeitura do Rio, abriu um espaço próprio na forma de um circo de verdade no Arpoador, um minibairro entre Copacabana e Ipanema. O nome que deram foi “Circo Voador”, copiado dos Rolling Stones que tinham feito algo parecido na psicodélica Londres dos anos sessenta. 

Enquanto isso, os cursos do Asdrúbal viraram um tremendo sucesso. Havia umas cinco ou seis turmas de cerca de trinta alunos. Quando terminavam, faziam apresentações de peças que eles mesmos tinham escrito com a ajuda de seus mentores. Todas eram boas e falavam diretamente às plateias abarrotadas de jovens. Todo mundo queria vê-las e os alunos mais dedicados continuavam de uma forma ou outra atrelados ao grupo.

Depois de montado o Circo se tornou o palco principal dessas apresentações. Só que a proposta da turma do Asdrúbal ia além do teatro; a ideia era criar um espaço alternativo para todas as formas de expressão. No tocante a música, o circo mudou tudo; com ele veio uma enxurrada de bandas de rock novas. Para a nova geração, as outras casas de shows, além de caras, só se interessavam em cabeludos esquisitos do Nordeste com os quais não se identificavam, bichos grilo, e as já antiquadas estrelas da música popular brasileira.

A piada que corria na boca do pessoal que ia ao Circo era que sob aquela tenda só tocavam dois gêneros: o “rock” e o “roll”.

As bandas que surgiram lá não tinham na a ver com as dos cabeludos viciados barra-pesada dos anos setenta. Agora elas podiam ser, e às vezes eram, de colegas da escola ou da faculdade, amigos e vizinhos. Para nós, não eram estrelas, eram conhecidos, ou conhecidos de conhecidos, eletrisando a moçada com seus instrumentos amplificados. Se o que motivava os shows nos anos setenta era passar algumas horas sem o peso da ditadura e da pressão da família, agora o que motivava essas guitarradas era dar um tempo da crise e o caos curti9ndo uma noitada com bandas sem nenhum conteúdo intelectual mas com muita energia. Aquele espírito se espalhou pelo país e definiu o rock como a expressão cultural da classe média jovem nos anos oitenta. 

Olhando para aquele momento em retrospecto, o Circo Voador marcou o fim de uma época em que a Zona Sul do Rio ditava os gostos musicais e culturais para o resto do Brasil. O centro logo se mudaria para São Paulo, onde o mercado era muito maior e a indústria fonográfica era mais estruturada. Como o rock daquela época era umbilicalmente ligado ao que acontecia no Reino Unido e nos Estados Unidos com sua estética urbana, o estilo de vida paulistano tinha muito mais a ver. Brasília também era e marcou presença fornecendo um monte de bandas boas, entre elas carros chefes como a Legião Urbana e os Paralamas do Sucesso. O contato direto de filhos de funcionários públicos de alto escalão com diplomatas de fora e com estadias no exterior, e o tédio inerente à cidade certamente ajudando na formação daqueles talentos.

*

Se pertencer a grupos de teatro não tinha me apetecido, o mesmo não valeu ao sonho de formar uma banda. Depois de ir a alguns shows no Circo, tive certeza que tinha condições de tocar para aquele público e decidi ir em frente. Para o desespero dos meus pais, comprei um amplificador barato e uma guitarra elétrica com o pouco dinheiro que tinha sobrado da venda do Blues Boy. Com ela, estava pronto para uma carreira na ribalta do rock.

A mudança do violão para a guitarra elétrica foi como trocar uma bicicleta por uma moto. Agora podia balançar as paredes do meu quarto com uma simples palhetada numa corda. Devido a ninguém em casa estar feliz comigo tinha que segurar o volume, mas nos finais de semana quando meus pais iam para Teresópolis, minha irmã ia para a casa do namorado e Dona Isabel ia para a casa dela, as coisas eram diferentes. Com o apartamento só para mim, me sentindo como um rei louco num castelo miserável, a fera surgia. Ligava a guitarra no apmlificador, colocava o volume no máximo e saía atazanando os ouvidos dos pobres vizinhos.    

Comecei a escrever músicas. Usava momentos que aconteceram nos sons que levei durante minhas viagens e novas ideias que foram surgindo. Por um breve momento tive certeza de que esse era meu destino. Tentava misturar rock com ritmos brasileiros. Esse tipo de mistura tinha causado controvérsia nos dias dos festivais quando Caetano Veloso tocou Tropicália com uma banda de rock argentina e foi vaiado. A receita continuou a ser utilizada por artistas nordestinos como os Novos Baianos e Alceu Valença que faziam a versão roqueira das suas culturas regionais e deu certo. Agora, aqui estava eu, um garoto de Ipanema de origem judaica e britânica, trabalhando com a ritmos regionais brasileiros e tentando fazê-los soar como rock pesado. O problema foi que nos anos 1980, o rock e a música brasileira tomaram caminhos divergentes, ambos se tornando mais “puristas” e antagônicos. Bandas fazendo esse tipo de música somente conseguiriam se estabelecer uma geração mais tarde, com artistas como Chico Science e a Nação Zumbi, mas na época minhas fitas cassete com gravações caseiras foram rejeitadas por todas as gravadoras e produtores que as receberam.

*

Talvez devido à sua experiência no Nordeste, Pedro também havia abandonado a Economia e resolveu seguir o seu chamado para ser artista plástico. Para tal, se inscreveu no curso de artes do Parque Laje. Foi uma boa decisão. O curso era excelente. As turmas eram pequenas o que permitia uma atenção especial dos professores. Além disso, depois do Circo, esse era o lugar mais badalado da Zona Sul do Rio de Janeiro. A sede do parque, onde davam o curso, era uma mansão enorme em estilo italiano clássico que parecia surreal nos seus arredores tropicais. O palacete tinha sido construído por um milionário no século 19 e era tão bem conservado que atrás dele ainda havia as ruínas de uma senzala, agora transformada numa gruta com camas de pedra cobertas de musgos que causavam calafrios em quem entrasse.

As aulas eram no pátio interno da mansão. Famoso, ele tinha aparecido em alguns dos mais importantes filmes do Cinema Novo, como a obra-prima de Glauber Rocha, Terra em Transe e em Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. Nos anos 1970, também havia sido palco de shows e de peças de teatro memoráveis mas por causa da reclamação de vizinhos, tinha fechado. Só que agora, depois de alguns anos de silêncio, o local foi reaberto mais uma vez como um lugar para shows. Nos finais de semana, ele passou a competir com o Circo Voador para atrair os maiores talentos e os melhores corações e mentes daquela geração de cariocas. Na minha adolescência tinha visto shows excelentes ali: Alceu Valença, Zé Ramalho, a Barca do Sol, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, o Terço, entre vários outros. Nos anos 1980 iria ver Ultraje a Rigor, Ira, Legião Urbana, Camisa de Vênus, Cazuza, Lobão e muitos outros. Por ser da casa, a Blitz só se apresentava no Circo. 

Uma das apresentações mais marcantes que aconteceu no Parque Lage, unindo as duas gerações do rock, foi uma do Raul Seixas. Junto com a Rita Lee, Raul era o padrinho musical da nova geração. Os seus temas libertários conferiam aos seus shows uma aura anárquica, quase satânica. Naquela noite, a casa estava lotada. Seu público era especial; havia muitas figuras estranhas que pareciam ter saído do passado, mais a ver com os hippies de Mauá do que com a galera bronzeada do Posto Nove. 

Quando Raul subiu no palco uma hora atrasado todos foram ao delírio com a lenda viva. Só que depois das primeiras músicas ficou patente que a idade e as coisas que tinha tomado haviam tido um efeito negativo. Ele estava esquecendo as letras no meio das músicas e parecia meio letárgico. Mesmo assim, o teatro quase veio abaixo quando tocou clássicos como Mosca na Sopa e Gita. O show terminou com a canção Sociedade Alternativa. Como de costume, no final da música Raul recitou as leis que regeriam a tal sociedade alternativa, todas muito legais e cabeça aberta. A última lei, no entanto, foi para causar efeito.

“Na sociedade alternativa o homem terá o direito de matar aquele que o incomode.”

Após mandar a bomba, saiu​ do palco. A banda parou de tocar logo depois e também foi para os camarins. Aquela frase continuou no ar de uma forma meio incômoda. Um cara com ar de ativista político universitário subiu ao palco e, inconformado com o que o Raul tinha dito, pegou no microfone ainda ligado e protestou. 

“Companheiros, descordo do que o Raul disse. Não estamos aqui para cultuar o assassinato, deveríamos estar celebrando a vida numa noite maravilhosa dessas!”

Aquele minidiscurso caiu mal com o público do Raul e veio vaia de tudo quanto é lado.

 “Sai daí, seu veado!”

“Vai falar merda pra tua mãe!!!”

“Desce daí, seu filho da puta!”

O cara, um sujeito franzino de óculos e com cabelo black power, continuou: “Podem vaiar, vocês ouviram bem o que o Raul disse? Isso é coisa de animal!”

As vaias aumentaram e alguém jogou uma lata de cerveja nele. 

“Isso mesmo, podem jogar lata, mostrem que vocês são um monte de ignorantes.”

Depois do convite, latas, garrafas e tudo mais em que o público conseguiu pôr às mãos literalmente choveram no palco. O teatro era a céu aberto e quando olhava para cima parecia que tinha uma mangueira jorrando projéteis. O cara desceu correndo, o Raul não voltou para dar o bis, mas, mesmo assim, a galera ficou gritando o seu nome como num ritual primitivo.

“Raul! Raul! Raul!”

*

Apesar da cena dantesca, a Escola de Artes Visuais do Parque Laje (EAV) era uma das melhores da cidade. O reconhecimento aconteceu quando o curso que Pedro estava fazendo decidiu juntar forças com a faculdade de Belas Artes da Universidade Federal e com alguns pintores já consolidados, para pintar os muros de concreto do parque. Todos contribuíram com criações incríveis. Aquele exercício ganhou uma cobertura ampla na imprensa e acabaria definindo quem seria quem na “Geração 80”, o movimento mais importante da década nas artes plásticas. O muro do Parque Lage foi a porta de entrada para muitos artistas se estabelecerem como profissionais. Para os convidados já estabelecidos em gerações anteriores, o evento os colocaria sob a égide daquele movimento.

O Pedro pintou um dos pedaços do muro e com isso se tornou um membro oficial da “Geração 80”. Aquilo abriu as portas para que circulasse de cabeça erguida entre as “pessoas interessantes” com as quais sempre desejou se relacionar. Com o seu novo status, agora era o Pedro quem passou a me introduzir a círculos sociais que eram de fato interessantes. Nunca consegui curtir, nem respeitar, muito menos usar cortes de cabelos chamativos e artificiais e roupas vanguardistas. A despeito disso, com o preconceito fora da equação, descobri muita criatividade e contestação por trás das máscaras, apesar da superficialidade das comitivas. Dessa forma, me tornei um participante periférico da nata da estética dos anos oitenta que me haviam estragado o Nordeste.

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Sobre língua, Pindorama e degustação

Março se inicia com a impressão marcante de que após atravessar a selva escura de 2020, aportei num cenário distópico de Blade Runner, na porta de um cinema decadente onde se vê em letras de Neon: “Vós Que Aqui Entrais, Abandonais Todas as Esperanças”. Não paguei pra ver esse filme. Não foi por meu voto que esse Ares do Rio das Pedras, com seu plano de matança, destruição e sua saciedade irredimível por cadáveres, nos aterroriza. Mas estamos numa democracia (dizem) e pagar pelas escolhas dos outros é risco que se corre. Ainda que risco de vida, como é o caso.

A morte paira sobre nós. Não estou com cabeça e saúde para filosofar sobre a Indesejadas das Gentes, só digo o lugar comum, ser ela a nossa única certeza. Em tempos normais tentamos não pensar nela, vendo-a, quando muito, como possibilidade de um futuro incerto. Como disse Heidegger: ”Algum dia se morre, mas por enquanto não”. Ate nos permitíamos zombar dela. Minha mãe, ao ver a imagem da capela feita de ossos em Évora e a inscrição: ”Nós que Aqui Estamos Por vós Esperamos”, achou um desaforo e respondeu para até os mortos ouvirem: ”Eles que esperem pela puta que os pariu!”. Não há mais espaço para isso, até esses gracejos nos foram tirados. Porque a morte está presente. Terrivelmente presente. Não há um só dia que eu não dê condolências a alguém pela perda de um ente querido ou que me debata com meu ateísmo enviando preces que não sei se serão ouvidas pela melhora de uma pessoa.

Foi pensando nisso, nesse jogo que já não há, de se esconder e driblar o inevitável, que me veio a memória o caso de uma aeromoça que aconteceu há décadas atrás. Ela ficou presa no transito, se atrasando para o voo de sua companhia, sendo substituída por outra comissária. Era um voo rotineiro, entre NY-Paris, levando a bordo entre outros passageiros um grupo grande de adolescentes , acompanhados de alguns professores, que iriam comemorar a formatura da High School na capital francesa. Era o voo TWA800, no ano de 1996. O avião explodiu na altura de Long Island, levando a morte 230 pessoas. Três anos depois, em 1999, essa mesma aeromoça estava no Parque Nacional de Bwindi, em Uganda, para observar os gorilas. Nesse mesmo dia o parque foi invadido por 150 rebeldes, armados de porretes e facões. Separaram os estrangeiros em duas filas: numa, os que falavam inglês, na outra os que não falavam. Sem entender o que acontecia, ela se postou na fila dos anglófonos. Até ver o homem que estava a sua frente ser trucidado a porretadas. Em um átimo de segundo compreendeu que falar inglês não era um passaporte para a vida e quando já ia ser executada começou a falar em francês e mostrou sua identidade suíça. Foi poupada. O mesmo não se pode dizer dos quatro britânicos, dos dois norte americanos e dos dois neozelandeses que estavam nesse evento. O fato é que essa driblou o encontro com a tesoura da fiandeira Átropos por duas vezes. Mas o jogo vai sendo jogado e uma hora a morte leva a melhor.

Toda essa história da aeromoça (da qual não sei sequer o nome, por preguiça em entrar em acervos jornalísticos, mas garanto que é real, inclusive porque tenho vivo na memória o comentário de um amigo quando li a matéria pra ele: ”Nossa, essa mulher devia ser uma pessoa insuportável, nem a morte quis”) me lembrou da minha história favorita do período colonial. E sei que não estou sozinha nessa, porque quem na escola ouviu o nome do sujeito do enredo e sua triste sina, e não gargalhou, brasileiro não é.

Primeiramente, não há como falar da formação do Brasil sem citar a Companhia de Jesus. Nascida da visão política e militar do basco Ignácio de Loyola, possuía como objetivo principal a realização das tarefas definidas pela Contrarreforma: Recuperar os fiéis perdidos para o Protestantismo e converter os “bárbaros”. Sua função sempre foi apostólica, desde a sua fundação em 1540. Eram Combatentes de Cristo nas Fronteiras recém abertas do Novo Mundo. Antonio Bosi chama  atenção para a bi-frontalidade da expansão colonial: “Por um lado incorporavam-se novas terras, sujeitando-as aos poderes temporais dos monarcas europeus, por outro ganhavam-se novas ovelhas para a religião e para o Papa”. Óbvio que alguns dos costumes indígenas aterrorizavam os religiosos, eles despencaram aqui como astronautas nessa terra estranha e não tinham sustentáculo antropológico para entender e aceitar a cultura dos nativos. Mas sem duvida a que causou mais espanto foi a antropofagia. Novamente citando Bosi: ”Era uma pratica rica de significados, o rito que atava a mente do índio no seu passado comunitário, ao mesmo tempo que garantia sua identidade no interior do grupo”. Não estou aqui para discutir o papel desempenhado pelos jesuítas no Brasil. Acusados de ocidentalizarem os índios com seus planos de catequese, de incentivarem indiretamente a escravidão negra, o que não falta é polêmica envolvendo esses religiosos. Eles porém, por uma exigência da própria Ordem, faziam cartas e relatórios minuciosos do que ocorria, não davam um passo sem registrá-lo. Sem eles seria impossível reconstruir a história do Brasil Colônia.

Aí que entra o Primeiro Bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha. Para ser sincera sempre me liguei mais no ocorrido do que na pessoa, recorri então a artigos , inclusive um intitulado Religião, Administração e Justiça Eclesiástica, com varias transcrições de cartas trocadas pelos jesuítas e documentos da Biblioteca da Ajuda. Vamos fazer o mapa: Pero Fernandes era filho da fidalguia, estudou na Universidade de Paris, instalando-se no Colégio de Santa Bárbara, como bolseiro régio. Se formou em Teologia, ingressou no clero e lecionou em Paris, Salamanca e Coimbra. Em 1545, amparado por João de Castro, então indicado como governador geral da Índia, foi nomeado provedor-mor e visitador geral de Goa. Logo de cara ficou claro que não estava preocupado com a conversão dos naturais da terra, em suas pregações a temática era invariavelmente os desvios dos portugueses que lá estavam, em sua maior parte de cunho sexual. ”Poucos meses após o desembarque em Goa, já dizia mal do lugar, tal como sucederá no Brasil, demonstrando que nunca se afeiçoou as terras para onde foi a serviço do rei”.  A real é que Sardinha gostava mesmo é de dinheiro. Puxa saco de João de Castro e de seu filho Álvaro de Castro, chamava esse último de Ilustre e Magnífico, não ficou registrado mas não duvido que chamasse de Mito também. Essa relação clientelar entre os Castro, lhe trouxe proteção e proventos materiais. Gostava de fazer umas maracutaias também, recebendo a alcunha de clérigo-mercador. E há forte indício de que vendia perdão. Nada de rezar Ave Maria por um pecado cabeludo, dá uma moeda de ouro pra Sardinha que você é absolvido.

Com a morte de João de Castro, depois de juntar um bom pé-de-meia, Sardinha voltou a Lisboa em 1549. Atendendo ao pedido de Nóbrega, que queria uma diocese no Brasil, D. João III comunicou ao Papa essa intenção. Nóbrega, em carta para o Mestre Simão Rodrigues, escreveu sobre aquele que viesse a ser indicado para o cargo de Primeiro Bispo no Brasil ”Que venha para trabalhar e não para ganhar”. E quem veio? O Bispo Sardinha. Mais uma das ironias da história.

O agora sagrado bispo Sardinha, chegou na Bahia em 1551.Conhecido por sua vaidade e suas citações dos clássicos latinos, essa Odete Roitman de batina odiou o que viu. Salvador era um povoado recente, com cerca de mil colonos, vários cumprindo pena de degredo , contando com 200 ou 300 casas, acrescentando aí escravos africanos e nativos. Grande parte dos colonos viviam amancebados, os naturais da terra andavam nus , praticavam a poligamia, incluindo o canibalismo. Mal pisou por essas plagas o Bispo já arrumou confusão. O padre Nóbrega, animado com a chegada, tomou logo um banho de água fria, porque o Bispo não queria saber das crianças convertidas e sim dos rendimentos do colégio. Salvar os índios nunca foi sua preocupação. Aliás, ele odiava os índios. Proibiu os métodos de catequese dos jesuítas, de tocar e saltar e cantar no meio dos curumins, receando que a conversão fosse ao contrário. Os índios foram proibidos de assistir missa com os colonos e sua opinião sobre os nativos era: “Não havia salvação para os gentios, pois são incapazes de aprender a doutrina por sua bruteza e bestialidade”.

O problema da diva quinhentista porém, não foi os aborrecimentos com os inacianos, foi outro muito pior. O governador geral Duarte da Costa, talvez o mandatário mais inepto da História do Brasil , só perdendo para o Bolsonaro, trouxe para Salvador 260 pessoas em sua chegada. Órfãs para casar, fidalgos e seu filho Álvaro da Costa, que havia lutado em África e cavaleiros amigos dele. Eufemismo chamá-los de cavaleiros. Álvaro na verdade trouxe uma gangue, a diversão deles era caminhar nas ruas de Salvador com um porrete na mão batendo em quem estavam a fim. Um pit boy da Idade Moderna. Mulherengo, era acusado de desviar mulheres solteiras e casadas e de fornicar com as índias. Bispo Sardinha faz então um sermão, condenando os hábitos do filho do governador e se inicia uma grande confusão. Só que o playboy era matador de índio, e salvou Salvador de um grande ataque Tupinambá. Sendo assim, Álvaro aclamado herói, o Bispo Sardinha teve que meter a batina entre as pernas, juntar seus barris de ouro e teve sua volta ordenada pelo rei em 1556, embarcando na Nau Nossa Senhora da Ajuda (haja ironia involuntária nessa saga). Ele e mais uma centena de infelizes estavam no navio. A nau naufragou em Alagoas, mas sem vítimas. Todos conseguiram chegar a terra. O que não contavam era com a recepção de 200 caetés, que os esperavam simpaticamente na praia. Foram aprisionados e devidamente devorados. A tristeza dessa história é o revide dos portugueses, que acabaram com os caetés. A grandeza da História é o Bispo ter servido de repasto para quem mais odiava. E o curioso é que, segundo Frei Vicente Salvador,  apenas três pessoas foram poupadas do massacre: dois índios, que estavam num rolé aleatório, tipo nem deviam saber o que estavam fazendo no navio e um português. Que sobreviveu, foi poupado,  por saber falar a língua nativa. Refletindo sobre a aeromoça e o portuga, salvos pelo idioma, a morte se afasta da velha alegoria de uma caveira com uma foice na mão e ganha contornos de uma senhorinha dona de uma franquia do Wizzard. Chupa Heiddeger, filosofia brasileira de botequim é INSUPERÁVEL!

Em Salvador, ano 465 da deglutição do Bispo Sardinha.

A esperança no Brasil pegou Covid

Existem momentos na história onde não somos capazes de prever o futuro. Muitas empresas pagaram caro por isso, algumas devido a sua arrogância, outras devido a sua burrice mesmo.

São muitos exemplos desta falta de bom senso, ou como queiram chamar. Lembram das empresas de Máquinas de Escrever antes dos computadores? Antes disso mais longe no tempo, as empresas de transporte que utilizavam carruagens com a chegada dos veículos movidos a motor. E os fabricantes de filmes para máquinas de fotografia, de toca-discos, e por aí vai. Todos insistiram que seus negócios eram eternos.

A cegueira de muito empresários levou a ruína suas empresas e com elas o desemprego de milhares de trabalhadores. A história está recheada de exemplos e ainda assim até os dias de hoje, muita gente se recusa a aprender com o passado repetindo os mesmos erros.

O mundo hoje disponibiliza informações para todos. A Internet permitiu que qualquer ser humano, praticamente em qualquer ligar do planeta, acesse a rede para obter informações e ensinamentos que antes eram restritos a poucos. Hoje com um celular nas mãos e um acesso a rede, podemos explorar o mundo todo.

Quando falamos de pandemias, a maior delas a Gripe Espanhola, está lá para nos ensinar do que um vírus é capaz. Foram milhões de mortos, uma tragédia mundial com a qual quase, ou nada aprendemos. Repetimos os mesmos erros. Sabemos como devemos nos comportar, ainda assim, deixamos a desejar.

Aprendemos muito neste ano que passou. Temos conhecimento sobre o que enfrentamos, o que pode ser feito e o que não deve ser feito. Cada país fez suas apostas no enfrentamento e com isso temos clareza com relação ao que deu certo e ao que fracassou. Todos são unânimes em alguns aspectos.

Primeiro o óbvio que é o uso de máscaras, distanciamento social e higiene. Estas três regras ajudaram todos os países do mundo no combate ao Covid-19. Depois temos o Lockdown, o fechamento da atividade econômica com a população impedida de circular. Este meio se mostrou eficaz para reduzir o fator “R” (o número de novas infecções causadas por uma pessoa infectada), e consequentemente reduzir o número de novos doentes. Por último a aplicação das vacinas, a única maneira de prevenir a doença.

Em paralelo sabemos que não existe tratamento medicamentoso preventivo. Para os mais antigos, é como se tomar Vitamina C, prevenisse a gripe, como quiseram nos fazer crer no passado. Também sabemos os percentuais de casos que vão se tornar graves e, infelizmente o número dos que vão a óbito.

Todas estas informações permitem aos países que dispões de um comitê de crise, municiar as autoridades com o que deve ser feito, seja lançar mão do Lockdown, de aumentar o número de leitos de UTI, de disponibilizar respiradores e estoque de oxigênio, e obviamente a compra de vacinas.

A importância de vacinar a população no menor prazo de tempo possível é essencial para reduzir a circulação do vírus e as consequentes mutações. A ciência sabe que todo vírus se adapta. Sua mutação normalmente aumenta sua capacidade de driblar as defesas humanas se tornando mais letal. Quanto antes ele é combatido, menor o número de mutações. As novas mutações do Covid-19 fazem dele um vírus mais agressivo, mas infeccioso e que agora é capaz de atacar crianças também.

Como eu comecei escrevendo, houveram momentos na história em que decisões mal calculadas levaram a ruína de negócios centenários. Não foi diferente com o Covid-19. O número de mortos poderia ter sido menor em muitos países se tivessem tomado as medidas necessárias que levassem a um menor impacto causado pelo vírus. Felizmente, quase todos eles, a exceção do Brasil entre as grandes nações, aprenderam a lição e mudaram sua tática de enfrentamento da pandemia. Aprenderam com seus erros e corrigiram suas ações.

O que o mundo assiste hoje, e o que os brasileiros estão vivendo é o inicio da perda de controle e o colapso dos hospitais na sua capacidade de receber e tratar novos pacientes com a falta de UTIs. Os médicos já devem estar escolhendo quem vai morrer e quem vai ter uma chance de tratamento. A mesma coisa aconteceu na Itália no ano passado, mas is italianos aprenderam da pior maneira a não menosprezar o vírus e outros países não repetiram o mesmo erro.

Com a circulação livre do vírus devido a falta de vacinas, o consequente aumento de mutações pode tornar as vacinas existentes ineficazes no Brasil. Uma tragédia anunciada em um país onde não existe um comitê nacional de crise e o Ministro da Saúde é um milico que não sabe sequer como abrir um bandeide.

Se o Brasil não decretar um Lockdown nacional de pelo menos 3 semanas, se não aumentar muito o ritmo da vacinação, o país vai conhecer sua maior tragédia humana em tempos e paz de sua história. Uma carnificina de total responsabilidade de seu presidente, o único entre os países do G20 a não ter se vacinado e continuar negando a importância da vacinação.