por Mauro Nadvorny | 27 mar, 2021 | Artigo, Judaísmo
Finalmente, depois de mais de um ano sob o Covid, vamos ter nossa primeira festa em família sendo comemorada aqui em Israel. Hoje começa o Pessach, a Páscoa Judaica. Como resultado da vacinação, as coisas começam a ter ares de normalidade por aqui, e poder sentar em família é uma delas.
O Pessach é uma festa especial, ela dura uma semana onde não se deve comer pão e nada que contenha fermento. Os mais religiosos chegam a ter jogos de louças, talheres e panelas especialmente para os dias da festa. Os menos religiosos como eu, compram pão para uma semana e guardam no freezer, já que poucas padarias permanecem abertas.
A festa em si é uma recordação da saída do Egito. Moisés depois de muita insistência e 10 pragas contra o Faraó, finalmente consegue com que ele liberte os judeus da escravidão. Na saída apressada, com receio dele voltar atrás, esqueceram de levar fermento e o pão virou uma espécie de bolacha, chamada de Matzá. Ela é consumida durante toda a semana. Na idade média, judeus eram acusados de utilizar o sangue de crianças cristãs para fazerem o Matzá, o que resultou em perseguições e mortes, mas isto é outra história.
Moisés leva o povo em direção a Israel e no caminho recebe de Deus as Tábuas da Lei, também conhecida como os 10 mandamentos. São as primeiras leis de comportamento ético que se tem notícia. Enquanto aguardavam por Moisés retornar de seu encontro com Deus, os judeus tiveram uma recaída e construíram um Bezerro de Ouro para adoração. Quando Moisés chega com as tábuas e percebe o que aconteceu, as quebra em um momento de ira e o povo se arrepende.
Deus não teria ficado nada contente com o que aconteceu. Resolveu que aquela geração contaminada com adorações a outros Deuses, não entraria na Terra Prometida e incluiu Moisés por ter quebrado as tábuas no mesmo castigo. Assim foi que o povo judeu teria permanecido por 40 anos no deserto até que sucumbisse o último dos escravos no Egito.
Voltando lá para o início da história, faltou contar que Moisés, nascido judeu, foi criado pela família do Faraó depois de encontrado por sua filha em um cesto no Rio Nilo ainda bebe de poucos dias. Criado como Egípcio, somente na juventude veio a saber de sua origem. Sua existência, assim como o que se passou com os judeus no Egito, ainda não tem comprovação científica. Não existe nenhum achado arqueológico que comprove esta história. Líder revolucionário, ou figura mítica, o fato é que os judeus comemoram o Pessach com muita comida a mesa, e os cristãos se empanturram de chocolate na Páscoa.
Mesmo que a nada disso tenha acontecido de fato, ficam as lições que são passadas de geração para geração a milhares de anos. Todo judeu deve se sentir como se tivesse sido libertado da escravidão no Egito. Uma lição de humildade e da importância da liberdade.
Retirando-se o aspecto religioso da comemoração, ficam presentes conceitos de grande importância para a humanidade. Os mandamentos das Tábuas da Lei, como não matarás, não cometerás adultério, não cobiçarás a mulher do próximo, nem seus pertences, tudo isto são normas de comportamento ético para tornar o mundo de então, um mundo melhor.
Não menos importante, a lição de que toda tirania chega ao fim. Nenhum déspota é eterno e devemos lutar por nossa liberdade e pela democracia. Todos nascemos livres e iguais, assim deve ser.
Durante a leitura da Hagadá de Pessach, que é o relato dos acontecimentos, são levantados 4 copos de vinho em brindes. Normalmente o primeiro é em memória aos caídos no Gueto de Varsóvia, uma vez que o Gueto sucumbiu diante dos Nazistas, durante o Pessach. Os demais, geralmente também lembram a memória dos que morreram em defesa do povo judeu e nas guerras de Israel.
Eu pessoalmente, mudo de tempos em tempos o último brinde. Neste ano o farei em memória das vítimas do Covid-19 em todo o mundo, e que toda a humanidade possa estar vacinada em breve.
por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2021 | Artigo, Brasil, Opinião
Lockdown é a palavra inglesa para determinar confinamento, muito utilizada nos dias de hoje com o Covid-19. Normalmente é uma medida governamental que obriga os cidadãos a permanecerem em suas casas por um determinado período de tempo. Cada um faz as suas regras, mas na maioria dos casos é permitido sair próximo da residência para a compra de comida e remédios.
Esta medida drástica continua sendo utilizada nos países onde o pandemia continua com um alto número de novos infectados por dia. No mundo inteiro se mede o fator “R”, que nada mais é do que o número de pessoas que são infectadas a partir de um único doente. Todos buscam estar abaixo de 1, o que significa que um doente infecta menos de uma pessoa, ou em outras palavras, que a propagação está controlada e decrescente. Nos países onde o fator “R” permanece acima de 1, o número de casos continua subindo dia a dia. Quanto maior, mais o vírus se espalha.
Quando as pessoas ficam confinadas, a probabilidade de novos infectados é cortada drasticamente. Nas primeiras duas semanas os números ainda parecem altos, mas são resultados das infecções passadas. Na terceira semana os números caem e a partir daí, também o fator “R”. Então começa a pressão pela reabertura e aí está o problema. É preciso abrir, mas como?
A necessidade do uso da máscara não desaparece, e o distanciamento social continua sendo obrigatório, assim como lavar as mãos com sabão ou álcool gel. Inicialmente começam a abrir os lugares que não recebem público. Depois os locais onde a entrada de público pode ser controlada. O transporte público funciona permitido para apenas 50% de ocupação. E assim gradativamente, monitorando os resultados semanalmente, mais e mais negócios vão reabrindo e consequentemente a economia volta a girar.
O que vira o jogo completamente é a vacina. Vacinados não transmitem o vírus e portanto podem ir a qualquer lugar. Quanto mais habitantes vacinados, menor vai ficando o fator “R”, menos doentes graves, menos mortes e consequentemente mais abertura.
Neste momento, enquanto em Israel a vida começa a ter ares de normalidade, onde 55% da população já recebeu a primeira dose e 48% a segunda, os índices são animadores. O número de novos contaminados dia vai caindo, da mesma forma o número de casos graves, e consequentemente a mortalidade. O fator “R” está em 0,72 e diminuindo a cada semana. Parece que a situação está controlada e a batalha sendo vencida.
Na Europa a situação volta a se agravar com a terceira onda chegando forte. Vários países estão decretando Lockdown, a medida inicial mais importante e a única maneira de impedir a deterioração do sistema de saúde. Sem isso, é o inferno como o que estamos vendo agora no Brasil.
A situação brasileira é caótica desde o inicio com a falta de um Gabinete de Gerenciamento de Crise. Todos os países criaram os seus e as medidas de combate ao Covid-19 levam em conta as recomendações feitas pelo gabinete formado normalmente por membros do ministério da saúde, epidemiologistas, economistas e cientistas ligados a saúde.
Quando o presidente do país é um negacionista, como no caso brasileiro, o combate a pandemia fica extremamente complicado. Aqui, são os governadores e prefeitos que precisam tomar as medidas necessárias. Elas são tomadas individualmente e acabam, em muitos casos, sendo inócuas. A população perde a credibilidade nos seus governantes e a situação vai se deteriorando. Toda a cadeia de medidas de combate a pandemia ficam comprometidas sem que exista uma coordenação nacional. Não há como vencer esta guerra desta maneira. O confinamento não quebra a economia, a falta de um gestor, sim.
Com hospitais sem mais lugares para internar novos doentes, os brasileiros começam a morrer em casa por falta de UTIs. Agora, mesmo os que tiverem a sorte de conseguir uma internação, vão morrer pela falta de medicamentos para intubar, sufocados pela falta de ar. O Brasil se transformou em uma Manaus.
A propagação não para de subir e o número de mortos por dia hoje no país vai batendo novos recordes. Uma coisa que todos sabem é que não existe milagre para acabar com este vírus, pelo contrário, novas mutações vão acontecendo e sempre existe a chance de uma delas se tornar imune as vacinas. Se isto acontecer, o mundo vai fechar as portas e janelas para o Brasil.
Se fosse uma ferrovia, o trem descarrilou. Agora é preciso arrumar os trilhos e recolocar a locomotiva de volta no lugar. O problema é que não existe um responsável para o que deve ser feito, faltam peças sobressalentes, meios para chegar ao local, engenheiros e trabalhadores para realizarem o serviço. Todos sabiam que iria acontecer, mas ninguém assumiu a responsabilidade para evitar.
Não quero ser o arauto das más notícias, mas a situação ainda vai piorar muito antes de melhorar um pouco. E com este presidente aí, chamá-lo de genocida, em breve será um eufemismo.
por Mauro Nadvorny | 13 mar, 2021 | Artigo, Brasil, Comportamento
Foi uma semana de boas e má notícias. A boa é que Fachin decidiu anular todas as condenações de Lula. Cinco anos depois, ele teria se convencido que Curitiba não seria o fórum correto para julgar o ex-presidente. A má é que o Brasil vai quebrando recordes de mortes pelo Covid dia a dia.
Quase tivemos outra boa notícia se o STF tivesse concluído pela suspeição de Moro para julgar Lula, não fosse um pedido de vistas. Não obstante as provas contundentes de que Moro perseguiu Lula em conluio com os promotores da Lava a Jato, o julgamento está empatado.
Também foi notícia a viagem a Israel de uma delegação brasileira para trazer na bagagem um spray milagroso que iria curar todos os doentes com Covid. Um verdadeiro desperdício de dinheiro público, mas quem está contando?
Da decisão de Fachin sobram interpretações, mas o fato é que Lula hoje está livre para concorrer nas eleições de 2022. Fez um discurso de estadista que pode ser reconhecido como de lançamento da campanha. Falou por uma hora e meia o que Bolsonaro não é capaz de falar em 3 minutos com cola na mão.
O problema é que as acusações contra Lula ainda existem. Elas vão ser transferidas para Brasília e teoricamente se aceitas pelos magistrados, darão inicio ao processo do zero. A lógica diz que não existem provas, apenas convicções e por isso os processos podem ser extintos ainda na inicial, mas de bunda de nenê e cabeça de juiz, vocês sabem, né?
Agora Fachin decidiu levar sua decisão monocrática, para ser confirmada em plenário. Pode-se esperar pela confirmação, ou não, e neste caso Lula volta a ter sua candidatura impedida, tudo permanece como estava. O Brasil é uma grande novela mexicana. Não perca os próximos capítulos.
O número de mortos já passa de 2000 ao dia e tudo o que este governo consegue pensar é em paliativos e jogar a responsabilidade no colo de prefeitos e governadores. Não adquire vacinas e menospreza onde começam a fazer uso do Lockdawn. Em resumo, não ajudam e ainda atrapalham como podem.
No julgamento de Moro, Gilmar Mendes sentou o sarrafo. Deu nome aos bois e disse o que todos nós já sabemos há muito tempo. Citou as conversas entre os procuradores e o juiz e como tudo foi combinado para concretizar o desejo deles em condenar Lula a qualquer preço. Nada era novidade, mas escutamos um “isto é gravíssimo” de parte de Cármen Lúcia.
O novato da turma, Nunes Marques, pediu vistas. Mais um que não lê notícias e vive em outro planeta. Desconhece o processo e quer se inteirar do assunto. Vá lá que seja, desde que não leva meses ou anos para isso.
Da turma de turistas brasileiros que chegaram em Israel, algumas coisas ficaram claras. A primeira é de que tiveram de usar máscaras em todos os momentos em que estiveram reunidos com autoridades israelenses. Aqui ninguém estava a fim de arriscar uma nova cepa de Covid trazida por eles. Entre um encontro e outro, ficaram confinados no hotel.
Com relação ao tal remédio milagroso, levaram uma invertida humilhante. A reunião aconteceu no hotel. Foram informados do que poderiam ter lido nos jornais, ou respondido em um encontro por Zoom, que o tal medicamento ainda não começou a ser testado de fato, portanto ele não só não existe, como ainda vai levar muito tempo até que possa vir a ser ministrado em pacientes. Mas também receberam uma lição de como prevenir o Covid: vacina, vacina e vacina!
Para não saírem de mãos abanando, teriam assinado um protocolo de intenções para quando o remédio chegue na fase 2 e 3, o Brasil seja um dos lugares onde possa ser testado. Tipo um prêmio de consolação. Por enquanto a família miliciana vai precisar se contentar com spray de Lança-pefume. Não cura o Covid, mas dá um barato por alguns minutos para esquecer esta presepada.
Uma semana interessante que deixa um gosto amargo pelo aumento do número de vítimas da pandemia no Brasil.
por Mauro Nadvorny | 12 mar, 2021 | Artigo, Brasil, Comportamento
Março se inicia com a impressão marcante de que após atravessar a selva escura de 2020, aportei num cenário distópico de Blade Runner, na porta de um cinema decadente onde se vê em letras de Neon: “Vós Que Aqui Entrais, Abandonais Todas as Esperanças”. Não paguei pra ver esse filme. Não foi por meu voto que esse Ares do Rio das Pedras, com seu plano de matança, destruição e sua saciedade irredimível por cadáveres, nos aterroriza. Mas estamos numa democracia (dizem) e pagar pelas escolhas dos outros é risco que se corre. Ainda que risco de vida, como é o caso.
A morte paira sobre nós. Não estou com cabeça e saúde para filosofar sobre a Indesejadas das Gentes, só digo o lugar comum, ser ela a nossa única certeza. Em tempos normais tentamos não pensar nela, vendo-a, quando muito, como possibilidade de um futuro incerto. Como disse Heidegger: ”Algum dia se morre, mas por enquanto não”. Ate nos permitíamos zombar dela. Minha mãe, ao ver a imagem da capela feita de ossos em Évora e a inscrição: ”Nós que Aqui Estamos Por vós Esperamos”, achou um desaforo e respondeu para até os mortos ouvirem: ”Eles que esperem pela puta que os pariu!”. Não há mais espaço para isso, até esses gracejos nos foram tirados. Porque a morte está presente. Terrivelmente presente. Não há um só dia que eu não dê condolências a alguém pela perda de um ente querido ou que me debata com meu ateísmo enviando preces que não sei se serão ouvidas pela melhora de uma pessoa.
Foi pensando nisso, nesse jogo que já não há, de se esconder e driblar o inevitável, que me veio a memória o caso de uma aeromoça que aconteceu há décadas atrás. Ela ficou presa no transito, se atrasando para o voo de sua companhia, sendo substituída por outra comissária. Era um voo rotineiro, entre NY-Paris, levando a bordo entre outros passageiros um grupo grande de adolescentes , acompanhados de alguns professores, que iriam comemorar a formatura da High School na capital francesa. Era o voo TWA800, no ano de 1996. O avião explodiu na altura de Long Island, levando a morte 230 pessoas. Três anos depois, em 1999, essa mesma aeromoça estava no Parque Nacional de Bwindi, em Uganda, para observar os gorilas. Nesse mesmo dia o parque foi invadido por 150 rebeldes, armados de porretes e facões. Separaram os estrangeiros em duas filas: numa, os que falavam inglês, na outra os que não falavam. Sem entender o que acontecia, ela se postou na fila dos anglófonos. Até ver o homem que estava a sua frente ser trucidado a porretadas. Em um átimo de segundo compreendeu que falar inglês não era um passaporte para a vida e quando já ia ser executada começou a falar em francês e mostrou sua identidade suíça. Foi poupada. O mesmo não se pode dizer dos quatro britânicos, dos dois norte americanos e dos dois neozelandeses que estavam nesse evento. O fato é que essa driblou o encontro com a tesoura da fiandeira Átropos por duas vezes. Mas o jogo vai sendo jogado e uma hora a morte leva a melhor.
Toda essa história da aeromoça (da qual não sei sequer o nome, por preguiça em entrar em acervos jornalísticos, mas garanto que é real, inclusive porque tenho vivo na memória o comentário de um amigo quando li a matéria pra ele: ”Nossa, essa mulher devia ser uma pessoa insuportável, nem a morte quis”) me lembrou da minha história favorita do período colonial. E sei que não estou sozinha nessa, porque quem na escola ouviu o nome do sujeito do enredo e sua triste sina, e não gargalhou, brasileiro não é.
Primeiramente, não há como falar da formação do Brasil sem citar a Companhia de Jesus. Nascida da visão política e militar do basco Ignácio de Loyola, possuía como objetivo principal a realização das tarefas definidas pela Contrarreforma: Recuperar os fiéis perdidos para o Protestantismo e converter os “bárbaros”. Sua função sempre foi apostólica, desde a sua fundação em 1540. Eram Combatentes de Cristo nas Fronteiras recém abertas do Novo Mundo. Antonio Bosi chama atenção para a bi-frontalidade da expansão colonial: “Por um lado incorporavam-se novas terras, sujeitando-as aos poderes temporais dos monarcas europeus, por outro ganhavam-se novas ovelhas para a religião e para o Papa”. Óbvio que alguns dos costumes indígenas aterrorizavam os religiosos, eles despencaram aqui como astronautas nessa terra estranha e não tinham sustentáculo antropológico para entender e aceitar a cultura dos nativos. Mas sem duvida a que causou mais espanto foi a antropofagia. Novamente citando Bosi: ”Era uma pratica rica de significados, o rito que atava a mente do índio no seu passado comunitário, ao mesmo tempo que garantia sua identidade no interior do grupo”. Não estou aqui para discutir o papel desempenhado pelos jesuítas no Brasil. Acusados de ocidentalizarem os índios com seus planos de catequese, de incentivarem indiretamente a escravidão negra, o que não falta é polêmica envolvendo esses religiosos. Eles porém, por uma exigência da própria Ordem, faziam cartas e relatórios minuciosos do que ocorria, não davam um passo sem registrá-lo. Sem eles seria impossível reconstruir a história do Brasil Colônia.
Aí que entra o Primeiro Bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha. Para ser sincera sempre me liguei mais no ocorrido do que na pessoa, recorri então a artigos , inclusive um intitulado Religião, Administração e Justiça Eclesiástica, com varias transcrições de cartas trocadas pelos jesuítas e documentos da Biblioteca da Ajuda. Vamos fazer o mapa: Pero Fernandes era filho da fidalguia, estudou na Universidade de Paris, instalando-se no Colégio de Santa Bárbara, como bolseiro régio. Se formou em Teologia, ingressou no clero e lecionou em Paris, Salamanca e Coimbra. Em 1545, amparado por João de Castro, então indicado como governador geral da Índia, foi nomeado provedor-mor e visitador geral de Goa. Logo de cara ficou claro que não estava preocupado com a conversão dos naturais da terra, em suas pregações a temática era invariavelmente os desvios dos portugueses que lá estavam, em sua maior parte de cunho sexual. ”Poucos meses após o desembarque em Goa, já dizia mal do lugar, tal como sucederá no Brasil, demonstrando que nunca se afeiçoou as terras para onde foi a serviço do rei”. A real é que Sardinha gostava mesmo é de dinheiro. Puxa saco de João de Castro e de seu filho Álvaro de Castro, chamava esse último de Ilustre e Magnífico, não ficou registrado mas não duvido que chamasse de Mito também. Essa relação clientelar entre os Castro, lhe trouxe proteção e proventos materiais. Gostava de fazer umas maracutaias também, recebendo a alcunha de clérigo-mercador. E há forte indício de que vendia perdão. Nada de rezar Ave Maria por um pecado cabeludo, dá uma moeda de ouro pra Sardinha que você é absolvido.
Com a morte de João de Castro, depois de juntar um bom pé-de-meia, Sardinha voltou a Lisboa em 1549. Atendendo ao pedido de Nóbrega, que queria uma diocese no Brasil, D. João III comunicou ao Papa essa intenção. Nóbrega, em carta para o Mestre Simão Rodrigues, escreveu sobre aquele que viesse a ser indicado para o cargo de Primeiro Bispo no Brasil ”Que venha para trabalhar e não para ganhar”. E quem veio? O Bispo Sardinha. Mais uma das ironias da história.
O agora sagrado bispo Sardinha, chegou na Bahia em 1551.Conhecido por sua vaidade e suas citações dos clássicos latinos, essa Odete Roitman de batina odiou o que viu. Salvador era um povoado recente, com cerca de mil colonos, vários cumprindo pena de degredo , contando com 200 ou 300 casas, acrescentando aí escravos africanos e nativos. Grande parte dos colonos viviam amancebados, os naturais da terra andavam nus , praticavam a poligamia, incluindo o canibalismo. Mal pisou por essas plagas o Bispo já arrumou confusão. O padre Nóbrega, animado com a chegada, tomou logo um banho de água fria, porque o Bispo não queria saber das crianças convertidas e sim dos rendimentos do colégio. Salvar os índios nunca foi sua preocupação. Aliás, ele odiava os índios. Proibiu os métodos de catequese dos jesuítas, de tocar e saltar e cantar no meio dos curumins, receando que a conversão fosse ao contrário. Os índios foram proibidos de assistir missa com os colonos e sua opinião sobre os nativos era: “Não havia salvação para os gentios, pois são incapazes de aprender a doutrina por sua bruteza e bestialidade”.
O problema da diva quinhentista porém, não foi os aborrecimentos com os inacianos, foi outro muito pior. O governador geral Duarte da Costa, talvez o mandatário mais inepto da História do Brasil , só perdendo para o Bolsonaro, trouxe para Salvador 260 pessoas em sua chegada. Órfãs para casar, fidalgos e seu filho Álvaro da Costa, que havia lutado em África e cavaleiros amigos dele. Eufemismo chamá-los de cavaleiros. Álvaro na verdade trouxe uma gangue, a diversão deles era caminhar nas ruas de Salvador com um porrete na mão batendo em quem estavam a fim. Um pit boy da Idade Moderna. Mulherengo, era acusado de desviar mulheres solteiras e casadas e de fornicar com as índias. Bispo Sardinha faz então um sermão, condenando os hábitos do filho do governador e se inicia uma grande confusão. Só que o playboy era matador de índio, e salvou Salvador de um grande ataque Tupinambá. Sendo assim, Álvaro aclamado herói, o Bispo Sardinha teve que meter a batina entre as pernas, juntar seus barris de ouro e teve sua volta ordenada pelo rei em 1556, embarcando na Nau Nossa Senhora da Ajuda (haja ironia involuntária nessa saga). Ele e mais uma centena de infelizes estavam no navio. A nau naufragou em Alagoas, mas sem vítimas. Todos conseguiram chegar a terra. O que não contavam era com a recepção de 200 caetés, que os esperavam simpaticamente na praia. Foram aprisionados e devidamente devorados. A tristeza dessa história é o revide dos portugueses, que acabaram com os caetés. A grandeza da História é o Bispo ter servido de repasto para quem mais odiava. E o curioso é que, segundo Frei Vicente Salvador, apenas três pessoas foram poupadas do massacre: dois índios, que estavam num rolé aleatório, tipo nem deviam saber o que estavam fazendo no navio e um português. Que sobreviveu, foi poupado, por saber falar a língua nativa. Refletindo sobre a aeromoça e o portuga, salvos pelo idioma, a morte se afasta da velha alegoria de uma caveira com uma foice na mão e ganha contornos de uma senhorinha dona de uma franquia do Wizzard. Chupa Heiddeger, filosofia brasileira de botequim é INSUPERÁVEL!
Em Salvador, ano 465 da deglutição do Bispo Sardinha.