O brasileiro fascista de esquerda

Fazem muitos anos que quando eu digo que sou israelense, o céu desaba sobre a minha cabeça. Invariavelmente as pessoas me acusam de racista, imperialista, de oprimir o povo palestino, assassino, nazista etc. É o preço a ser pago por quem vive sob um regime de extrema direita.

Isto já está acontecendo agora também com quem é brasileiro. Ao sermos identificados como tal, nos chamam de fascistas, de destruidores das florestas, de assassinos dos povos indígenas, de preconceituosos, misóginos etc. É o  preço a ser pago por quem vive sob o regime de Bolsonaro.

Eu tento argumentar que nem todo israelense é de direita. Que a maioria de nós é a favor da solução de dois estados para dois povos. Que eu, pessoalmente apoio esta solução há mais de 50 anos. Que milito nos movimentos pacifistas e sou contra o atual governo israelense.

Se isto me acontecia como israelense, agora já me acontece também como brasileiro e vai acontecer com vocês. Preparem-se para enfrentar o fogo amigo e terem de explicar que nem todo brasileiro votou em Bolsonaro. Que você é de esquerda e condena as queimadas, a destruição das florestas, o genocídio dos povos indígenas, que apoia as minorias e luta contra preconceitos, e que é contra o atual governo brasileiro.

O ser humano tende a ser generalista. Se Trump é um fascista, todo americano é fascista, seja ele um Chomsky ou um Beni Sanders. Temos uma tendência a simplificar as coisas e assim acabamos cometendo, de uma certa forma, o mesmo tipo de preconceito que tanto combatemos.

Assim como nem todo alemão foi um nazista, nem todo israelense ou brasileiro é um fascista. É bom que se diga que tanto em Israel, como no Brasil, os fascistas não representam a maioria do povo.

Mesmo que possamos pensar racionalmente e compreender o óbvio, não é isto o que acontece muitas vezes dentro das nossas próprias fileiras. Eu combato o antissemitismo na esquerda desde os meus 15 anos. Um antissemitismo muitas vezes disfarçado de antissionismo, mas que no fundo tem as mesmas raízes do antissemitismo da direita. Ambos acusam os judeus de quererem dominar o mundo e trazem como prova o apócrifo Protocolos dos Sábios do Sião.

Claro que acusar o atual governo de Israel de fascista é legítimo, assim como o atual governo brasileiro. Condenar as políticas de Bibi em relação aos palestinos, e de Bolsonaro em relação ao meio ambiente, é uma obrigação de quem é progressista. O deve ficar claro, é que estamos na mesma trincheira, do mesmo lado da história. Eu sou antifascista sempre.

Se algo de bom puder ser dito do governo Bolsonaro no futuro, é de que graças a ele a esquerda possa ter aprendido algumas lições. Uma elas é a de saber separar o joio do trigo em cada país. Mesmo naqueles governados por regimes de extrema direita, existem companheiros combatendo com todas as suas forças contra o regime. Estes merecem nosso apoio e nossa solidariedade, somos irmãos da mesma luta por um mundo melhor.

Basta de fogo amigo, chegou o momento de compartilharmos experiências de cada país. De aprender com nossos erros e nossos sucessos. A luta é a mesma, as batalhas são por um mesmo objetivo, derrubar o fascismo onde ele estiver.

Temos um logo caminho comum a ser percorrido. A pandemia, por exemplo, não escolhe lado, mas as políticas de como ser combatida, sim é uma questão política. Priorizar o ser humano, a vida é imperativo. Proteger os menos favorecidos, os mais atingidos pelo vírus é uma opção ideológica. Isto nos une a todos que estamos do mesmo lado e não soltamos a mão de ninguém.

 

 

 

 

Antissemitismo, quando os extremos convergem

O antissemitismo não é nenhuma novidade no Brasil, mas ele tem sido mais contundente a partir de grupos e partidos que supostamente deveriam combatê-lo com mais vigor. Estou falando da esquerda brasileira.

Um recente artigo publicado e logo retirado no site Vermelho, do PC do B, com um pedido de desculpas, de autoria de Thomas de Toledo, é o fato mais recente que reascendeu o questionamento de parte dos judeus de esquerda, e causou a ira dos judeus de direita.

O texto em questão muito lembra o conhecido Protocolos dos Sábios de Sião, um livro apócrifo que atribui a dominação do mundo pelos judeus. Os protocolos serviram de inspiração para gerações de antissemitas, tanto de direita como de esquerda.

Thomas de Toledo possui belas credenciais: historiador formado pela USP, com mestrado em desenvolvimento econômico pela Unicamp, secretário geral do Cebrapaz e membro do PC do B.

Não é nenhuma novidade a associação ente Judeus/Israel/Sionismo, como se fossem tudo a mesma coisa quando se deseja atacar o Estado de Israel, e a associação Judeus/Religião/Brasileiros, quando se pretende justificar o não antissemitismo.

Quando afirma que Israel passou a controlar três ministérios chaves do governo golpista de Temer, nominando os ministros com sobrenomes supostamente judeus, Toledo está flertando com os Sábios de Sião. Ele não se distingue daqueles que afirmavam que na Páscoa os judeus faziam a Matzá (pão ázimo) com o sangue de crianças cristãs e os consequentes pogroms e mortes de judeus.

O Estado de Israel não somente foi criado por sionistas-socialistas, como sobreviveu inicialmente graças a ajuda da União Soviética. A representação de esquerda em Israel e os movimentos pacifistas pela criação de um Estado Palestino são formados em sua maioria por pessoas de esquerda. Este mesmo quadro praticamente não existe nos demais países do Oriente Médio. No entanto os movimentos e partidos de esquerda no Brasil são, em sua maioria, favoráveis a destruição do Estado de Israel. Não se contentam posicionar-se contra o atual regime político, claramente fascista e combatido pela esquerda israelense. Muito menos serem solidários com esta esquerda duramente combatida, não apenas pelo regime, como por inúmeros movimentos de extrema direita que os tratam como traidores da pátria.

O conceito de uma conspiração judaica para dominação mundial, como já disse antes, não é novo, tampouco no Brasil. Nos anos 80 e 90 até mesmo uma editora de livros antissemitas se estabeleceu no RS. Chamava-se Editora Revisão (sic) e tinha como proprietário Siegfried Elwanger, um notório revisionista que dizia possuir inúmeros amigos judeus.

O posicionamento contrário a Israel por parte da esquerda também não é novidade no Brasil. O que sim vem surgindo como uma novidade é o famigerado antissemitismo disfarçado de uma política anti-Israel.

Quando um Partido Político de esquerda dá guarida a um texto inequivocadamente  antissemita, ele fere de morte todo o preceito básico da ideologia socialista. Ele se contradiz em si mesmo e se assemelha ao fascismo e todas as suas matizes.

Ironicamente os judeus sempre estiveram ligados a esquerda em nosso país mantendo intensa atividade política com movimentos e partidos de esquerda.

A participação nos anos 20 e 30 foram significativas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador e Belo Horizonte. No Rio de Janeiro a esquerda judaica se reunia em torno da Biblioteca Scholem Aleichem (que mais tarde se transformaria na ASA), na Brazkcor, Sociedade Brasileira Pró-Colonização Judaica na União Soviética, e no Centro Operário Morris Vinchevsky. Em São Paulo eram conhecidos os grupos Cultura e Progresso e, já em 1954, o Instituto Cultural israelita Brasileiro (Icib), a Casa do Povo, de tendência comunista, junto ao Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib). Por curiosidade, a língua e a cultura idiche foram um aglutinador importante destes movimentos.

Na era Vargas os judeus participaram intensamente dos movimentos sindicais, universitários, organizações populares e centros culturais comunitários. Haviam judeus membros da Aliança Nacional Libertadora e no Partido Comunista Brasileiro. Um nome não pode deixar de ser mencionado: Olga Benário.

Nos dias de hoje existem judeus em todo o espectro partidário de esquerda.  Portanto em nada se justificaria no Brasil a intrínseca associação entre esquerda e antissemitismo, no entanto ela existe.

Eu concluo que independentemente de ideologias, a esquerda tem em seus quadros pessoas preconceituosas que diferentemente do que se poderia esperar, afrontam os preceitos ideológicos de sua formação. Não creio que a esquerda brasileira seja antissemita, mas acredito que em seu seio existem militantes que em dada diferem dos membros de organizações fascistas quando o tema é o judeu.

O antissemitismo, muito mais do que ideológico, é um estado doentio de natureza humana e de ordem privada.

OBS: Alguns dados foram obtidos em A História dos Judeus no Brasil – CONIB e no Livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, O anti-semitismo nas Américas: memória e história.