Na Universidade de São Paulo, alastra-se uma estranha epidemia: uma dermatite moral, urticária antijudaica que acomete certos estudantes ao menor contato com ideias vindas de judeus.
Bastou o anúncio de que o cientista político André Lajst participaria de um debate na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco neste dia 13 para que alunos do Centro Acadêmico XI de Agosto irrompessem em surtos de intolerância.
Erupções cutâneas discriminatórias se espalharam por todo campus.
Emitiram nota de repúdio à presença de judeus ou israelenses que defendem o direito de Israel existir, o direito de autodeterminação do povo judeu.
“Inaceitável dividir espaço com sionistas”, disseram, o que nada mais é que advogar pela destruição do Estado de Israel, deslegitimando.
Como se conviver em uma mesma sala com um judeu ou israelense, liberasse algum tipo de agente infeccioso no ar. O espírito nazista mais elementar reaparece, agora travestido de virtude.
Esses novos puritanos instados a dialogar com judeus ou israelenses, a conviverem em um mesmo ambiente para um debate acadêmico, logo são acometidos de colapsos cutâneos, irrompem em bolhas, pústulas, borbulham em surtos, estouram em brotoejas, latejam em vergões e espocam em exantemas.
Dermatites de toda sorte, que corrompem a consciência e aviltam o caráter — sob risco de morte moral.
Argumentar pelo direito e Israel existir, pela da autodeterminação do povo judeu é inaceitável, perigoso.
No templo da razão, onde se ensina lógica e liberdade, hoje reina o medo higiênico do contraditório.
Em um local onde se supõe que a razão e o debate devam prevalecer, o contato com judeus e israelenses causa aversão e medo, como se uma nova praga estivesse por contaminá-los.
A medicina ainda não nomeou essa moléstia; proponho “psoríase moral”: doença autoimune que faz a mente atacar a si mesma quando exposta ao oxigênio do debate de ideias.
Os sintomas são claros: eczema ideológico, vergões dogmáticos, urticária performática e coceira intelectual diante do nome “Israel”.
Por baixo destas escamas acadêmicas, o velho vírus do racismo e do antissemitismo resistem — agora com camiseta de causas sociais e selfies indignadas.
Por Charles Schaffer Argelazi
Foto: Faculdade de Direito da Universidade de Direito da Universidade São Paulo – Largo São Francisco.
Nos tempos atuais, é importante revisitarmos o conceito e evolução do sionismo ou, como preferimos, sionismos, um dos movimentos políticos e multifacetados mais legitimamente expressivos e eficazes. Não há qualquer dúvida de que os sionismos têm a ver com o espírito do Judaísmo e com o Povo Judeu em sua Galut.
Enquanto movimento, os sionismos têm um caráter emancipatório, de resistência, reafirmação da identidade judaica e resiliência de um Povo, forçado a estar no mundo com o qual nem sempre se sente integrado. Aliás, não se sente integrado por ser constantemente repelido, acusado do alto dos púlpitos, católicos ou luteranos e, também, no eco de muitas mesquitas, de deicídio, desvios e outras narrativas falaciosas. E, pior, massacrado sob pogroms, guetização, discriminação cultural e religiosa, marginalização e extermínio nazifascista, sob o silêncio dos templos e das mesquitas.
Muitos intelectuais judeus perceberam que, mesmo sendo integrados (muitos até assimilados!) em determinados países, obtendo a sua plena nacionalidade e falando a língua daquele povo, seriam discriminados pelo fato de serem judeus. Ser judeu era o problema! Por isso, desenvolveu-se a ideia de que o judeu só estaria livre e protegido se, e quando, em seu próprio país: um Estado Judeu. O objetivo somente seria alcançado com o sionismo!
O sionismo etimologicamente tem a ver com Sion (Tziyon), um dos nomes de Jerusalém, mas especialmente o monte, o lugar elevado, epicentro da história judaica, especialmente davídica e salomônica. Logo, sionismo é o elemento subjetivo, real ou imaginário, cultural ou político, religioso ou histórico, que emerge da alma judia em estar em Jerusalém, sua cidade de eterna identidade, epicentro de sua vida e de seu desenvolvimento político, assim como estar em seu país. Jerusalém, Sion, foi o último lugar no qual os judeus estiveram, antes da expulsão; a última cidade destruída pelos romanos.
Lembremos que, após a destruição de Jerusalém nos anos 70, os Judeus sobreviventes foram espalhados para a circunvizinhança de Jerusalém e pela região do Oriente Médio, como Iraque e Líbano e lugares distantes como Egito, Marrocos, Atenas, Roma, mantendo, contudo, um constante sonho de retorno à Cidade de Davi. Ao longo de dois milênios, em algumas Festas Judaicas, em especial, Pessach (Páscoa judaica), se diz; Leshaná Habaá BiYerushalaim Habnuiá! (no próximo ano em Jerusalém Reconstruída!). É mais que uma reza, é um gemido da imensidão da alma judaica!
Jerusalém tornou-se o reino da utopia judaica, da ideia de retorno como nos tempos dos cativeiros, da reconstrução da cultura, ancestralidade e nacionalidade judaicas. É necessário entender que Sion, ou seja, Jerusalém, povoa o imaginário judaico desde a Antiguidade. É, no sentido do Judaísmo anarquista europeu, uma expressão do messianismo-romântico que alcança, entre outros, o filósofo judeu Martin Buber. É, ainda, um tipo de u-topos (Jerusalém, lugar para se chegar e realizar um ideal), saindo de um topos (seja Ur dos Caldeus, Egito, Cativeiro babilônico, Império Romano, Europa ou Alemanha).
Modernamente, diante do antissemitismo europeu (que propiciou o Holocausto), o sentimento de emancipação judaica e a busca de concretização da liberdade judaica se fortaleceram. Criou-se, em termos políticos (para além do sentimento de dois milênios), o sionismo ou movimento sionista.
Qualquer judeu que buscava a emancipação e resistia à perseguição antissemita reconheceu-se como sionista. Porém, o termo sionista, no sentido de movimento revolucionário, foi utilizado pela primeira vez, em 1885, por Natan Birenboim, estudante da Europa Oriental, em caráter político (Sionismo Político). Aliás, como disse Theodor Herzl, o século XIX foi o despertar de nacionalidades e, com razão diaspórica, os judeus também tiveram o despertamento do seu nacionalismo (judaico) o que, em termos ideológicos e políticos, refere-se ao sionismo – o elemento objetivo e político de proteção do Judaísmo e dos Judeus.
Birenboim fundou um Jornal cujo tema era mesmo a emancipação dos judeus. Após Birenboim, vários grupos de jovens judeus se formaram na Áustria, Alemanha, Inglaterra, França, Estados Unidos, Itália etc. Em 1893, ele publicou um pequeno livro, conclamando para o renascimento em Eretz Israel (terra de Israel) e incentivou a criação de um Congresso Sionista Internacional para discutir a questão da emancipação judaica.
Em 1894, o caso emblemático de Dreyfus fortaleceu o sentimento sionista. Dreyfus foi acusado injustamente e condenado à prisão perpétua. Provou-se depois (1897) que a acusação era falsa. Tal a percepção de injustiça, que o escritor Emile Zolá, também judeu, publicou, em defesa de Dreyfus, a Carta J’Accuse (eu acuso) ao Presidente da República. Ao final, Dreyfus foi julgado novamente e declarado inocente. Theodor Herzl, judeu, formado em Direito, jornalista, acompanhou o caso Dreyfus e sua degradação pública, pois sabiam da inocência, mas mantinham a acusação em caráter antissemita. Disse ele mais tarde: o julgamento de Dreyfus, 1894, fez de mim um sionista. Para Herzl, a questão era o antissemitismo e sua contraposição lógica e efetiva era o sionismo político.
Depois disso, Herzl organizou o Primeiro Congresso Sionista, na Basiléia, de 29 a 31 de agosto de 1897, momento em que foi aprovado o Programa Sionista (Programa de Basiléia). De caráter político, dizia o documento: o sionismo pretende criar um abrigo para o povo judeu em Israel, garantido por um documento político público, reconhecido internacionalmente. Herzl foi eleito presidente do Congresso Sionista e Presidente da Organização Sionista Mundial, com a adoção do Hino Hatikvah e uma Bandeira Judaica.
Em 1901, em oposição ao sionismo político de Herzl, criou-se, com Chaim Weizmann e Martin Buber, a facção sionista democrática, com alguma base nacionalista judaica do sionismo, democratização interna da organização e uma certa visão anarquista religiosa.
Logo depois, em 1902, criou-se um novo grupo sionista, agora de oposição a Herzl e a Buber. Tratava-se dos Mizrachi, organizado por judeus ortodoxos. Chamou-se Centro Espiritual – Mizrachi. Foi a base do sionismo religioso (ortodoxo). Segundo Michael Lövy, tratava-se do messianismo judeu e utopias libertárias na Europa Central (1905-1923), com os seguintes aspectos: a) Judeus religiosos anarquizantes; b) Messianismo judeu e modernas ideias revolucionárias: corrente utópica e corrente restauradora, ou seja, conceito hebraico de tikun: restauração, reparação e reforma.
O pensamento libertário em Gustav Landauer, um dos pais do anarquismo judaico, é a relação entre a topia e utopia, ou seja, combinação entre conservantismo e revolução emancipatória. Registra Löwy, que a utopia messiânica não era o sionismo, mas o anarquismo. O ideal sionista é uma coisa; o ideal messiânico, outra.
Há, entretanto, afinidades eletivas entre tradição messiânica judaica e utopias revolucionárias. Mas, na Europa do final do século XIX, as afinidades eletivas entre redenção, messianismo e sionismo vão tomando forma com grupos judaicos: a) Anarquistas religiosos judaizantes; b) Judeus assimilados (diferente de integrados), ateus-religiosos, anarco-bolchevistas; c) Judeu religioso anarquista sionista, como Buber.
Martin Buber, um sionista originalmente anarquista, será um crítico da direção do sionismo oficialisraelense (estatizante). Ao chegar nos arredores de Jerusalém, em 1938, Buber foi um dos idealizados e incentivadores do movimento de fraternização judio-árabe ichud (união). Buber, enquanto judeu sionista anarquista, recusava um Estado exclusivamente judeu, pois, para ele, o sionismo não se tratava apenas de emancipação de um povo, mas de redenção do mundo. Ele, como outros judeus sionistas e anarquistas de sua época, imaginava uma organização política plural árabe-israelense, ou árabe-judaico e, no limite político, de caráter binacional.
O território palestinense (nome dado pelos romanos como região administrativa) não foi o único imaginado pelos judeus para o processo sionista de emancipação. Depois da morte de Herzl, propôs-se que se buscassem outros lugares, pois seria melhor o Sionismo sem Sion do que Sion sem o Sionismo. Em outras palavras, sionismo como emancipação e liberdade. Qualquer lugar poderia ser estabelecido como ambiente judaico, desde que com garantia internacional e autodeterminação. Este sionismo seria conhecido como sionismo territorialista ou, sionismo em qualquer lugar. Em oposição, os sionistas em Sion defendiam o renascimento e fortalecimento dos grupos judaicos em Eretz Israel, na construção e organização de fazendas, fundamental para os Kibutzim judaicos.
O 7º Congresso Sionista, em 1905, marcou a oposição entre os sionistas políticos que defendiam a defesa dos judeus e seu fortalecimento na região palestinense, com apoio político internacional, e os sionistas práticos, que também defendiam o apoio aos judeus na região, mas sem necessidade de apoio político internacional.
No 8º Congresso Sionista, realizado em Haia, 1907, foi decidido criar um Escritório Israelense e uma Sociedade de preparação do Ishuv, ou seja, de apoio aos judeus que já estavam na região palestinense e outros que ali chegavam fugidos dos pogroms russos e perseguições europeias. Chaim Weizmann, um dos líderes, fez a exigência que se criasse uma síntese entre sionistas políticos e sionistas práticos. Daí surgiu o compromisso de se buscar uma Carta-Patente (político) e de se promover o apoio e estabelecimento judaico em Eretz Israel (prático).
Em 1913, como expressão do sionismo cultural, no 11º Congresso Sionista de Viena, 1913, discutiu-se a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém e o ensino do Hebraico como parte da educação judaica diaspórica. O sionismo cultural, fundado, em 1893, por Achad Haam, pregava o renascimento moral e espiritual do povo judeu. A luta era contra a desintegração do povo judeu. Defendia-se a criação de uma comunidade judaica nas terras antigas, e viam no Sionismo o objetivo de salvar o Judaísmo.
Os ortodoxos e haredim hassídicos, ambos sionistas, ao contrário dos haredim antissionistas (radicais teológicos), enxergam no sionismo o caminho de preparação messiânica. Ou seja, o sionismo, ao proteger o judeu em Israel, permite que se possa praticar o judaísmo longe dos pogroms e perseguições antissemitas.
Após 1950, cria-se uma divisão entre judeus sionistas de Esquerda e judeus sionistas de Direita (ambos em Israel). Os judeus sionistas de esquerda defendiam, de início, um Estado binacional com a presença de judeus e árabes. Atualmente, defendem, como solução para os conflitos entre judeus e árabes-palestinos, a formação de dois Estados: Israel e Palestina.
Por outro lado, os sionistas de direita, principalmente, depois de 1970, com um discurso de segurança nacional contra atos terroristas, defendem o estabelecimento israelense completo com a ocupação da Cisjordânia e Gaza, territórios palestinos.
Como movimento emancipatório e de afirmação da cultura e nacionalidade judaicas, assim como resposta ao antissemitismo, pogroms, perseguições e, por último nazifascismo alemão, o sionismo em suas muitas facetas, religiosas ou não, políticas ou culturais, cumpriu um papel importante.
A nosso ver, as ideias básicas dos Sionismos (originais) deixaram de existir em 1948, exatamente por ter chegado ao seu objetivo maior: a criação do Estado de Israel e de um lar nacional judaico contra as enxurradas antissemitas anteriores. A partir disso, tem-se política estatal, desempenho maior ou menor da democracia e grupos de interesse que lutam pelo poder político.
Dizer-se sionista, hoje, não me parece dizer a mesma coisa do que disseram Birenboim, Herzl, Buber e outros. Dizer-se sionista, hoje, é lutar pela preservação de Israel e seus valores democráticos, e isso inclui, igualmente, a defesa de um Estado Palestino – ao lado do Estado de Israel
Assim tem início o primeiro capítulo do meu livro: Os Judeus são a Nossa Desgraça – Antissemitismo e Direita Radical do Século XIX ao XXI
A Tarde que Mudou Tudo
Berlim, novembro de 1879
A neve caía suavemente sobre Berlim naquela tarde, cobrindo as ruas com um manto branco que parecia querer abafar os passos apressados dos estudantes que se dirigiam ao auditório principal da Universidade Humboldt. Entre eles, Marcus Friedmann, um jovem estudante de direito, ajustava seus óculos embaçados pelo contraste entre o frio exterior e o calor dos corredores lotados.
“Você vai ver, Friedmann, o Professor Treitschke é brilhante!”, exclamou seu colega Hans Weber, enquanto ambos procuravam lugares nas fileiras da frente. Marcus assentiu educadamente, mas algo o incomodava. Nos últimos meses, tinha notado mudanças sutis nas atitudes de alguns professores e colegas. Olhares atravessados, comentários velados, uma frieza que não existia antes.
O burburinho no auditório cessou quando Heinrich von Treitschke, então com 45 anos, emergiu na plataforma. Sua figura imponente, realçada pela barba bem aparada e o olhar penetrante, comandava respeito imediato. Completamente surdo desde a juventude, Treitschke havia desenvolvido uma presença de palco particularmente poderosa, compensando sua incapacidade auditiva com uma voz forte e articulada e uma atenção meticulosa ao ambiente visual. O professor organizou seus papéis com movimentos precisos, quase rituais, enquanto o silêncio expectante crescia.
Na terceira fileira, a Professora Elena Schmidt, da Faculdade de História, observava tudo com olhos críticos. Ela tinha lido os artigos preliminares de Treitschke no Preußische Jahrbücher e pressentia que algo importante – e perturbador – estava prestes a acontecer.
“Prezados colegas…” A voz grave de Treitschke ressoou pelo auditório. Suas primeiras palavras eram medidas, formais, quase entediantes em sua precisão estatística. Números, percentuais, dados sobre distribuição populacional. Marcus relaxou um pouco – parecia apenas mais uma palestra sobre demografia.
Foi então que aconteceu.
“Die Juden sind unser Unglück.”
As palavras caíram no auditório como pedras em um lago plácido, criando ondas que se expandiam em círculos cada vez maiores. Marcus sentiu seu estômago contrair. Ao seu lado, Hans concordava entusiasticamente com a cabeça.
No outro lado do auditório, o professor Heinrich Graetz, historiador judeu respeitado e autor da monumental obra Geschichte der Juden (11 volumes, publicados entre 1853-1875), tomava notas meticulosas. Ele já havia enfrentado Treitschke anteriormente em debates teóricos e, nas semanas seguintes, publicaria uma refutação detalhada deste discurso no jornal alemão-judaico Allgemeine Zeitung des Judentums em 30 de dezembro de 1879, expondo as distorções metodológicas e preconceitos nas teorias de seu colega.
Treitschke continuava, sua voz agora carregada de uma autoridade que transformava preconceito em “teoria científica”. Cada palavra era escolhida com cuidado cirúrgico, cada estatística apresentada com precisão matemática. O veneno era servido em taças de cristal.
“Observe”, dizia ele, “como 9,4% dos estudantes de Direito em Berlim…” Marcus sentiu os olhares se voltarem sutilmente em sua direção. Sua presença ali, percebeu com um aperto no peito, estava prestes a se tornar uma estatística, uma prova da “teoria” que estava sendo construída diante de seus olhos.
A Professora Schmidt rabiscava furiosamente em seu caderno: “Método perigoso – transforma observação em conclusão predeterminada. Usa ciência como máscara.” Ela já tinha visto algo similar em outros contextos, mas nunca tão meticulosamente construído.
Do lado de fora, a neve continuava caindo, indiferente à transformação que ocorria dentro daquelas paredes. Em uma única tarde, o antigo preconceito religioso estava ganhando uma nova e perigosa roupagem. Não mais gritos nas ruas ou acusações religiosas, mas gráficos, estatísticas e linguagem acadêmica refinada.
Quando a palestra terminou, o auditório explodiu em aplausos. Marcus permaneceu sentado, suas mãos imóveis no colo. Hans o cutucou, animado: “Não é fascinante como ele consegue explicar cientificamente o que todos já sabiam?”
A Professora Schmidt guardou seu caderno manchado de tinta e observou os estudantes saindo. Em seus trinta anos de Academia, nunca tinha testemunhado algo tão perturbador: o momento exato em que o preconceito ganhou legitimidade científica.
Marcus foi um dos últimos a sair. Na porta do auditório, olhou para trás uma última vez. Treitschke ainda estava lá, organizando seus papéis com aqueles mesmos gestos precisos, metódicos. O jovem estudante não sabia, mas estava testemunhando o nascimento de algo que mudaria o curso da história – o momento em que o ódio aprendeu a falar a língua da ciência.
O “Socialismo dos Tolos” – Das Origens à Contemporaneidade
A Perspicácia de Bebel: Contexto Histórico e Significado
A Alemanha do final do século XIX experimentava transformações profundas. A industrialização acelerada, a urbanização e as mudanças sociais dramáticas criavam terreno fértil para movimentos políticos que buscavam explicações simplistas para problemas complexos. É neste contexto que August Bebel, um dos fundadores do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), observa um fenômeno perturbador: a infiltração de ideias antissemitas no movimento socialista nascente.
A frase “Der Antisemitismus ist der Sozialismus der dummen Kerle” (“O antissemitismo é o socialismo dos tolos”) foi pronunciada por Bebel em 1893 durante um discurso no Reichstag, conforme documentado em arquivos parlamentares alemães. Este comentário não era apenas uma denúncia do preconceito casual, mas um alerta sobre uma falha estrutural e intelectual no pensamento socialista da época.
O termo “tolos”, usado por Bebel, simbolizava uma crítica à substituição da análise rigorosa por explicações fáceis e preconceituosas. Para ele, o antissemitismo era uma forma de desvio ideológico que afastava a atenção dos trabalhadores das reais estruturas de poder e exploração do capitalismo industrial..
O Contexto do Pensamento de Bebel
Para compreender a profundidade da análise de Bebel, é crucial examinar o ambiente político da época.
O movimento socialista enfrentava questões complexas sobre a natureza do capitalismo industrial, as relações de classe e as estratégias para transformação social. Simultaneamente, correntes antissemitas ofereciam explicações simplificadas, personificando problemas sistêmicos na figura do “judeu”.
A análise de Bebel revelava como o antissemitismo funcionava como uma forma de desvio ideológico pernicioso. Ao personificar problemas sistêmicos do capitalismo na figura do “judeu”, esta simplificação permitia que as verdadeiras estruturas de poder econômico permanecessem intocadas e invisíveis. Em vez de examinar as complexas relações de classe e os mecanismos de exploração capitalista, os “socialistas tolos” contentavam-se em substituir análise rigorosa por preconceitos étnicos arraigados.
Esta substituição tinha consequências graves para o movimento socialista. A solidariedade internacional da classe trabalhadora, fundamental para qualquer projeto de transformação social, era minada por divisões étnicas e religiosas artificiais. Ironicamente, esta fragmentação servia perfeitamente aos interesses das classes dominantes, que se beneficiavam da desunião entre os trabalhadores.
Mais fundamentalmente, o antissemitismo comprometia os próprios princípios do socialismo. Um movimento que se proclamava defensor da igualdade e da emancipação universal não podia, sem grave contradição, abraçar ou tolerar preconceitos contra qualquer grupo étnico ou religioso. A presença do antissemitismo sinalizava uma falha não apenas moral, mas também intelectual no coração do projeto socialista.
Evolução do Antissemitismo na Esquerda
A penetração do antissemitismo no pensamento de esquerda não foi um fenômeno limitado ao século XIX. A revisão dos dados históricos revela que mesmo pensadores influentes como Proudhon e Bakunin, apesar de seu compromisso declarado com a emancipação universal, incorporavam preconceitos antijudaicos em seus escritos.
Por exemplo, Proudhon, em seus textos, associava estereótipos antissemitas à crítica do capitalismo. Bakunin, por sua vez, perpetuava a ideia de que os judeus possuíam características inerentes negativas. Esses casos ilustram como o antissemitismo conseguiu se adaptar e sobreviver mesmo dentro de movimentos que se declaravam progressistas.
No século XX, a Revolução Russa de 1917 marcou um aparente rompimento com o passado antissemita, abolindo leis discriminatórias e promovendo judeus a posições de liderança. Contudo, sob Stalin, o regime soviético desenvolveu uma forma sistemática e sofisticada de antissemitismo estatal.
O “Complô dos Médicos” e o Antissemitismo Soviético
De 1948 a 1953, a campanha contra o “cosmopolitismo sem raízes” atingiu seu ápice com o “Complô dos Médicos” em 1953. Neste evento, 37 médicos, predominantemente judeus, foram presos sob falsas acusações de conspirarem para assassinar líderes soviéticos. Estes eventos são extensivamente documentados nos Arquivos Estatais Russos e em obras como Stalin’s Last Crime de Brent e Naumov.
A Repressão Antissemita na União Soviética Pós-Guerra
A repressão contra judeus na União Soviética, especialmente nos anos pós-Segunda Guerra Mundial, foi marcada por uma série de medidas que visavam a marginalização e a supressão da cultura e identidade judaicas.
Números da Repressão:
– Intelectuais: Cerca de 2.000 intelectuais judeus foram demitidos de seus empregos entre 1948 e 1952, evidenciando uma perseguição sistemática contra a elite intelectual judaica.
– Instituições Culturais: A cultura judaica também foi alvo de repressão, com o fechamento de aproximadamente trinta publicações e dez teatros entre 1948 e 1951.
– Ativismo: O Comitê Antifascista Judaico, um grupo de ativistas judeus, sofreu um duro golpe com a execução de treze de seus membros em 12 de agosto de 1952.
Persistência do Antissemitismo após a Morte de Stalin:
Mesmo após a morte de Stalin em 1953, o antissemitismo continuou a ser uma realidade na União Soviética. Entre 1953 e 1964, observou-se:
– Fechamento de Sinagogas: O número de sinagogas em funcionamento foi drasticamente reduzido, passando de 500 para apenas 96.
– Restrições Religiosas: Um total de 269 comunidades judaicas enfrentaram severas restrições religiosas, limitando a prática do judaísmo e a vida religiosa dos judeus soviéticos.
Os dados apresentados revelam a extensão da repressão antissemita na União Soviética, que afetou não apenas indivíduos, mas também instituições e comunidades judaicas. A perseguição sistemática e a imposição de restrições religiosas visavam a erradicação da identidade judaica e a submissão dos judeus soviéticos ao regime.
Esta persistência é particularmente notável quando comparada ao destino de outras políticas stalinistas. Enquanto práticas como o culto à personalidade, os expurgos políticos e a coletivização forçada foram amplamente criticadas durante a desestalinização, o antissemitismo institucional sobreviveu sob novas formas. O “antissionismo” soviético pós-1967 forneceu um modelo para como preconceitos antijudaicos podiam ser reformulados em termos aparentemente progressistas.
Con Notte dei cristalli (Reichskristallnacht o Kristallnacht, ma anche Reichspogromnacht o Novemberpogrom) viene indicato il pogrom condotto dai nazisti (SS) nella notte tra il 9 e 10 novembre 1938 in Germania, Austria e Cecoslovacchia.
Si parlò di 7500 negozi ebraici distrutti durante la notte del 9 novembre, di quasi tutte le sinagoghe incendiate o distrutte (secondo i dati ufficiali erano stati 191 i templi ebraici dati alle fiamme, e altri 76 distrutti da atti vandalici). Il numero delle vittime decedute per assassinio o in conseguenza di maltrattamenti, di atti terroristici o di disperazione ammontava a varie centinaia, senza contare i suicidi. Circa 30 000 ebrei furono deportati nei campi di concentramento di Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen. Relativamente al campo di Dachau, nel giro di due settimane vennero internati oltre 13 000 ebrei; quasi tutti furono liberati nei mesi successivi (anche se oltre 700 persero la vita nel campo), ma solo dopo esser stati privati della maggior parte dei loro beni.
La polizia ricevette l’ordine di non intervenire e i vigili del fuoco badavano soltanto che il fuoco non attaccasse anche altri edifici. Tra le poche eccezioni ci fu l’agente Wilhelm Krützfeld che impedì che il fuoco radesse al suolo la Nuova Sinagoga di Berlino, e che per la sua azione venne sanzionato internamente. Nessuno tra i vandali, assassini e incendiari venne processato.
L’origine della definizione notte dei cristalli, più correttamente Notte dei cristalli del Reich è una locuzione di scherno che richiama le vetrine distrutte, fatta circolare da parte nazionalsocialista e diffusa poi anche nella storiografia comune. Dello stesso atteggiamento di beffa nei confronti dei cittadini classificati ebrei fa parte anche l’obbligo imposto alle comunità ebraiche di rimborsare il controvalore economico dei danni arrecati.
Traduzione italiana della lettera aperta “J’accuse” di Emile Zola al Presidente della Repubblica Francese Félix Faure in difesa di Alfred Dreyfus.
« Monsieur le Président, permettetemi, grato, per la benevola accoglienza che un giorno mi avete fatto, di preoccuparmi per la Vostra giusta gloria e dirvi che la Vostra stella , se felice fino ad ora, è minacciata dalla più offensiva ed inqualificabile delle macchie. Avete conquistato i cuori,Voi siete uscito sano e salvo da grosse calunnie.
Apparite raggiante nell’apoteosi di questa festa patriottica che l’alleanza russa ha rappresentato per la Francia e Vi preparate a presiedere al trionfo solenne della nostra esposizione universale, che coronerà il nostro grande secolo di lavoro, di libertà e di verità.
Ma quale macchia di fango sul Vostro nome, stavo per dire sul Vostro regno – soltanto quell’abominevole affare Dreyfus! Per ordine di un consiglio di guerra è stato scagionato Esterhazy, ignorando la verità e qualsiasi giustizia. È finita, la Francia ha sulla guancia questa macchia, la storia scriverà che sotto la Vostra presidenza è stato possibile commettere questo crimine sociale. E poiché è stato osato, oserò anche io. La verità, la dirò io, poiché ho promesso di dirla, se la giustizia, regolarmente osservata non la proclamasse interamente. Il mio dovere è di parlare, non voglio essere complice. Le mie notti sarebbero abitate dallo spirito dell’uomo innocente che espia laggiù nella più spaventosa delle torture un crimine che non ha commesso. Ed è a Voi signor presidente, che io griderò questa verità, con tutta la forza della mia rivolta di uomo onesto.
In nome del Vostro onore, sono convinto che la ignoriate. E a chi dunque denuncerò se non a Voi, primo magistrato del paese? Per prima cosa, la verità sul processo e sulla condanna di Dreyfus. Un uomo cattivo, ha condotto e fatto tutto: è il luogotenente colonnello del Paty di Clam, allora semplice comandante. La verità sull’affare Dreyfus la saprà soltanto quando un’inchiesta legale avrà chiarito i suoi atti e le sue responsabilità. Appare come lo spirito più fumoso, più complicato, ricco di intrighi romantici compiacendosi al modo dei romanzi feuilletons, carte sparite, lettere anonime, appuntamenti in luoghi deserti, donne misteriose che accaparrano prove durante gli appuntamenti. È lui che immaginò di dettare l’elenco a Dreyfus, è lui che sognò di studiarlo in una parte rivestita di ghiaccio, è lui che il comandante Forzinetti ci rappresenta armato di una lanterna, volendo farsi introdurre vicino l’accusato addormentato, per proiettare sul suo viso un brusco raggio di luce e sorprendere così il suo crimine nel momento del risveglio. Ed io non ho da dire altro che se si cerca si troverà.
Dichiaro semplicemente che il comandante del Paty di Clam incaricato di istruire la causa Dreyfus, come ufficiale giudiziario nel seguire l’ordine delle date e delle responsabilità, è il primo colpevole del terribile errore giudiziario che è stato commesso.
L’elenco era già da tempo nelle mani del colonnello Sandherr direttore dell’ufficio delle informazioni, morto dopo di paralisi generale. Ebbero luogo delle fughe, carte sparivano come ne spariscono oggi e l’autore dell’elenco era ricercato quando a priori si decise poco a poco che l’autore non poteva essere che un ufficiale di stato maggiore e un ufficiale dell’artiglieria: doppio errore evidente che mostra con quale spirito superficiale si era studiato questo elenco, perché un esame ragionato dimostra che non poteva agire soltanto un ufficiale di truppa. Si cercava dunque nella casa, si esaminavano gli scritti come un affare di famiglia, un traditore da sorprendere dagli uffici stessi per espellerlo. E senza che voglia rifare qui una storia conosciuta solo in parte, entra in scena il comandante del Paty di Clam da quando il primo sospetto cade su Dreyfus.
A partire da questo momento, è lui che ha inventato il caso Dreyfus, l’affare è diventato il suo affare, si fa forte nel confondere le tracce, di condurlo all’inevitabile completamento. C’è il ministro della guerra, il generale Mercier, la cui intelligenza sembra mediocre; c’è il capo dello stato maggiore, il generale de Boisdeffre che sembra aver ceduto alla sua passione clericale ed il sottocapo dello stato maggiore, il generale Gonse la cui coscienza si è adattata a molti. Ma in fondo non c’è che il comandante di Paty di Clam che li conduce tutti perché si occupa anche di spiritismo, di occultismo, conversa con gli spiriti.
Non si potrebbero concepire le esperienze alle quali egli ha sottomesso l’infelice Dreyfus, le trappole nelle quali ha voluto farlo cadere, le indagini pazze, le enormi immaginazioni, tutta una torturante demenza. Ah! Questo primo affare è un incubo per chi lo conosce nei suoi veri dettagli! Il comandante del Paty di Clam, arresta Dreyfus e lo mette nella segreta. Corre dalla signora Dreyfus, la terrorizza dicendole che se parla il marito è perduto. Durante questo tempo, l’infelice si strappava la carne, gridava la sua innocenza. E la vicenda è stata progettata così come in una cronaca del XV secolo, in mezzo al mistero, con la complicazione di selvaggi espedienti, tutto ciò basato su una sola prova superficiale,questo elenco sciocco, che era soltanto una tresca volgare, che era anche più impudente delle frodi poiché i ”famosi segreti” consegnati erano tutti senza valore. Se insisto è perché il nodo è qui da dove usciva più tardi il vero crimine, il rifiuto spaventoso di giustizia di cui la Francia è malata. […]
Ma questa lettera è lunga signor presidente, ed è tempo di concludere. Accuso il luogotenente colonnello de Paty di Clam di essere stato l’operaio diabolico dell’errore giudiziario, in incoscienza, io lo voglio credere, e di aver in seguito difeso la sua opera nociva, da tre anni,con le macchinazioni più irragionevoli e più colpevoli. Accuso il generale Marcire di essersi reso complice, almeno per debolezza di spirito, di una delle più grandi iniquità del secolo. Accuso il generale Billot di aver avuto tra le mani le prove certe dell’innocenza di Dreyfus e di averle soffocate, di essersi reso colpevole di questo crimine di lesa umanità e di lesa giustizia, per uno scopo politico e per salvare lo stato maggiore compromesso.
Accuso il generale de Boisdeffre ed il generale Gonse di essersi resi complici dello stesso crimine, uno certamente per passione clericale, l’altro forse con questo spirito di corpo che fa degli uffici della guerra l’arcata santa, inattaccabile. Accuso il generale De Pellieux ed il comandante Ravary di avere fatto un’indagine scellerata, intendendo con ciò un’indagine della parzialità più enorme, di cui abbiamo nella relazione del secondo un imperituro monumento di ingenua audacia.. accuso i tre esperti in scrittura i signori Belhomme, Varinard e Couard, di avere presentato relazioni menzognere e fraudolente, a meno che un esame medico non li dichiari affetti da una malattia della vista e del giudizio. Accuso gli uffici della guerra di avere condotto nella stampa, particolarmente nell’Eclair e nell’Eco di Parigi, una campagna abominevole, per smarrire l’opinione pubblica e coprire il loro difetto. Accuso infine il primo consiglio di guerra di aver violato il diritto, condannando un accusato su una parte rimasta segreta, ed io accuso il secondo consiglio di guerra di aver coperto quest’illegalità per ordine, commettendo a sua volta il crimine giuridico di liberare consapevolmente un colpevole. Formulando queste accuse, non ignoro che mi metto sotto il tiro degli articoli 30 e 31 della legge sulla stampa del 29 luglio 1881, che punisce le offese di diffamazione. Ed è volontariamente che mi espongo.
Quanto alla gente che accuso, non li conosco, non li ho mai visti, non ho contro di loro né rancore né odio. Sono per me solo entità, spiriti di malcostume sociale. E l’atto che io compio non è che un mezzo rivoluzionario per accelerare l’esplosione della verità e della giustizia. Ho soltanto una passione, quella della luce, in nome dell’umanità che ha tanto sofferto e che ha diritto alla felicità. La mia protesta infiammata non è che il grido della mia anima. Che si osi dunque portarmi in assise e che l’indagine abbia luogo al più presto.
Aspetto
Vogliate gradire, signor presidente, l’assicurazione del mio profondo rispetto.»