A indignação moral só tem valor quando é universal. Quando se torna seletiva, previsível e dirigida sempre aos mesmos alvos, ela deixa de ser princípio ético e passa a ser instrumento de discriminação.
Em certos casos, mais do que isso: converte-se em manifestação objetiva de racismo.
No Brasil, essa afirmação não é retórica nem provocação ideológica. O Supremo Tribunal Federal já fixou entendimento inequívoco de que o antissemitismo é espécie do gênero racismo. Trata-se de definição jurídica consolidada. Hostilizar judeus — direta ou indiretamente — enquanto grupo identitário, religioso, étnico ou nacional configura racismo, ainda que sob o disfarce de discurso político ou moral. Hostilizar israelenses em função da sua descendência ou origem nacional, diz a lei, também é racismo.
Esse entendimento está expresso na Lei nº 7.716, de 1989, e não comporta ambiguidades interpretativas.
O problema contemporâneo é que esse racismo raramente se apresenta de forma explícita. Ele opera, com frequência, por meio da indignação seletiva.
O padrão é facilmente identificável. Determinados conflitos geram condenações imediatas, linguagem extrema e mobilização diplomática intensa. Outros, igualmente graves – ou até mais letais – , são tratados com silêncio ou cautela retórica.
Desde dezembro de 2025, um massacre em curso no Irã, marcado por repressão estatal violenta, execuções e elevado número de vítimas civis, transcorre praticamente sem reação proporcional do governo brasileiro. Não houve discursos inflamados nem condenações reiteradas. O silêncio é eloquente
Há relatos recentes de execução de feridos ainda deitados em macas hospitalares, além da prisão de médicos e profissionais de saúde cujo único “crime” foi prestar atendimento a manifestantes feridos. Médicos relatam dezenas de milhares de mortos em poucas semanas. Tudo isso ocorre sob a complacência retórica de um governo que insiste em propor o “diálogo”.
Diálogo? Diálogo entre um povo oprimido e massacrado e seus algozes?
É como se Luiz Inácio Lula da Silva propusesse um diálogo entre Alexandre Vannucchi Leme e o coronel Brilhante Ustra enquanto o estudante ainda estava pendurado no pau de arara. Ou um diálogo entre Dilma Rousseff e esse mesmo torturador, entre uma e outra sessão de choques elétricos
Esse comportamento contrasta com a postura adotada em relação a Israel, alvo recorrente de condenações sumárias e enquadramentos morais excepcionais. A diferença de tratamento não se explica por critérios humanitários objetivos. Ela revela a escolha reiterada de um alvo simbólico.
Quando essa seletividade parte do próprio Estado, o problema deixa de ser apenas retórico. A política externa do governo liderado por Luiz Inácio Lula da Silva tem exibido uma assimetria moral persistente: condena-se com dureza um único Estado; relativizam-se ou ignoram-se atrocidades cometidas por outros.
Não se trata de blindar Israel contra críticas legítimas. Criticar políticas e governos quando eles se excedem é próprio do debate democrático. O que não é legítimo é transformar um país e seu povo em exceção moral permanente. Menos ainda é tolerar a exclusão de israelenses, enquanto indivíduos, em ambientes acadêmicos, culturais ou institucionais, com base apenas em sua origem nacional.
Israelenses e judeus passam a ser responsabilizados coletivamente de modo obsessivo e contínuo pelo que um governo de ocasião fez ou deixou de fazer.
Historicamente, o antissemitismo jamais se apresentou como ódio puro e explícito. Sempre se revestiu de justificativas morais: combate ao poder, denúncia ética, causa civilizatória. Hoje, reaparece sob a forma de militância seletiva, onde apenas um povo é permanentemente responsabilizado pelos males do mundo.
Defender civis palestinos é legítimo e necessário. Usar essa defesa como pretexto para demonizar judeus, hostilizar israelenses ou hierarquizar vítimas não é solidariedade — é preconceito.
Quando um governo escolhe quem merece indignação e quem merece silêncio, ele não está defendendo direitos humanos. Está exercendo poder simbólico. E quando esse poder recai sempre sobre a mesma identidade, não há mais espaço para eufemismos.
Um governo que se indigna seletivamente pode reproduzir uma lógica racista.
Chamar isso pelo nome não é exagero.
É precisão jurídica, honestidade intelectual e responsabilidade histórica.
Charles Schaffer Argelazi,
Advogado, Cientista Social e um social-democrata irresoluto
Não adianta eu falar 24hs por dia que sou a favor da criação efetiva de um Estado da Palestina. Não adianta eu falar 24hs por dia que tenho um imenso respeito e amor fraternal pelo Povo Palestino, e que sua causa é também minha causa. Não adianta eu falar 24hs por dia que sou contra o Netanyahu (e contra todos a quem ele representa). Não adianta eu repudiar 24hs por dia o massacre israelense contra a população de Gaza.
Não adianta eu falar 24hs por dia que os Israelenses devem respeitar todos os direitos dos Palestinos de Gaza, da Cisjordânia e dos que vivem em Israel ou dos Árabes que sejam também israelenses.
Não adiante eu dizer 24hs por dia que sou Judeu de Esquerda, com pautas de Esquerda, lutas de Esquerda e vida de Esquerda, Não adianta eu falar 24hs por dia que em Israel, como em qualquer país, há Judeus de Esquerda, Jornal de Esquerda, Partidos de Esquerda, Professores de Esquerda, Sindicatos de Esquerda…
Nada disso adianta porque todos e todas me olham como Judeu, e sob o seu olhar maléfico, antissemita e odioso, eu não posso existir como Judeu, eu não posso viver como Judeu nem sentir como Judeu.
Além disso, ser antissemita dá milhares likes, atrai “pix” e monetiza os meios de comunicação alternativos. Para eles, eu sou uma “boa mercadoria”, um “bom objeto” de especulação e um alvo constante.
O que posso fazer a respeito? Nada! Não há diálogo possível com antissemitas. Mas, eles, diante de quem não adianta ficar 24hs por dia falando, pois são antissemiticamente impermeáveis, eles (e elas!) não conseguem destruir em mim o Judeu que sou. Ao contrário, muito ao contrário…
Há vários meses, convidaram-me a proferir uma Palestra em uma Universidade brasil(eira) e, sem qualquer motivo, desconvidaram, dizendo não ser o “momento propício”… (seria por eu ser Judeu?).
II
Sou JUDEU, e todos/todas sabem o que penso, o que defendo, o que escrevo e o que falo, inclusive, o que penso e falo sobre Israel e Palestina (e 2 Estados), sobre as críticas que faço a Netanyahu e sobre Hamás, Hezbollah, Boko Haran, ISIS, Taleban…
III
Então, não deixarei de ser JUDEU para agradar antissemitas… da Esquerda ou da Direita. Pelo contrário, sou ainda mais JUDEU e mais consciente do que sou, de onde venho, o que faço e aonde vou!
IV
Desejam me cancelar por ser Judeu? Bah! Querem ouvir minha gargalhada de desprezo por antissemitas, fundamentalistas, nazifascistas e stalinistas agora ou depois?
Prezados amigos e amigas, fui Estudante e Professor na Faculdade de Direito da USP.
Sou Mestre também pela FAD USP e tratei de Martin Buber, Sionista de Esquerda, no Direito. Como Professor, lecionei Direito Hebraico Comparado. Minhas aulas sempre foram lotadas e os Estudantes demonstravam apreço e respeito pelo Judaísmo, Povo Judeu e Estado de Israel!
NUNCA FUI DESRESPEITADO OU CANCELADO!
O triste episódio com André Lajst é tribal (TRIBAL!), não institucional! O Centro Acadêmico tribal promotor do ataque antissemita contra Lajst não representa a totalidade do Alunado e, muito menos, o Corpo Docente!
Hoje, infelizmente, as tribos, incluindo as identitárias, que se dizem de “Esquerda” são, como escreveu Habermas e Pasolini, fascistizadas. É a Esquerda que se esqueceu de Marx (e nunca leu Proudhon) e, por isso, vive de palavras repetidas facebookianas e abraçada (de quatro) ao terror do Hamás, à misoginia do Irã e ao neofascismo de Maduro, Putin, Ortega etc.
É preciso entender o atual momento, o contexto, discernir e não generalizar. O grupo feroz que se manifestou passará, a FADUSP permanecerá e Israel não sairá do lugar onde se encontra, histórica e geograficamente!
Há 50 anos (10 de novembro de 1975), Ernesto Geisel (de origem alemã, registre-se!), protestante, Presidente da Ditadura Militar, elemento da extrema-direita, antissemita, manifestou seu ódio ao Povo de Israel e ao Povo Judeu e votou, ao lado de países antissemitas, a favor da Resolução 3379 para declarar o Sionismo como racismo.
Seus motivos deveram-se ao fato de o Sionismo ser originalmente Socialista e Anarquista (combatidos pela Ditadura Militar). Alias, a mesma Ditadura que matou (ASSASSINOU) Vladimir Herzog.
Da extrema-direita porca militar (ou não) à extrema-esquerda fétida stalinista quem é antissemita (hoje, antissionista) não esconde!
Essa Resolução estupidamente antissemita foi revogada em 1991 pela Resolução 46/86.
Reafirmo que a Esquerda antissionista não é, e nunca foi, apenas antissionista, mas antissemita, na exata medida de negar ao Povo Judeu a sua autodeterminação e o direito inegociável de viver na sua terra ancestral. Stalin era antissemita (e antissionista)!
2
Na Direita, Mussolini e Hitler eram antissemitas (e antissionistas). Getúlio Vargas era antissemita (e antissionista).
3
Há entre o antissionismo e o antissemitismo uma estreita relação de causa e efeito. O Sionismo nasceu para ser movimento de autoafirmação judaica em resposta ao antissemitismo. Uma das propostas sionistas era dar ao Povo Judeu a sua Pátria e, em especial, sua antiga e histórica terra de Israel (as raízes disso contam 4000 anos!).
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O atual antissionista sequer esconde seu antissemitismo, aliás nem dá para esconder:é um fato!
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Por outro lado, é inteligente e honesto não confundir Sionismo com Judaísmo. Judaísmo é a identidade milenar de um Povo; Sionismo, um movimento emancipador judaico de luta contra o antissemitismo.
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Porém, ser Sionista não é a mesma coisa de ser pró-Netanyahu (ele é a negação do Sionismo histórico). Na Democracia de qualquer país, escolhem-se governos. O governo Netanyahu pode ser aceito ou combatido – faz parte do campo político!
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Ser antissionista, hoje, representa o discurso fácil, osmótico e agressivo de eliminação do Estado de Israel e, com ele, do Povo Judeu-Israelense.
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No que respeita aos ataques, diretos e indiretos, sofridos por Judeus nos últimos tempos (e eu sou um deles), são ataques antissemitas travestidos de antissionismo. O antissemitismo tenta (mas não consegue) esconder-se no antissionismo.
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Dirão, como dizem em flagrante tentativa de silenciamento, que escrevo isso porque sou Judeu. Escrevo também por ser Judeu.
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Escrevo sobre antissionismo e antissemitismo da mesma forma que abordo outras facetas da iniquidade: o racismo, a misoginia, a homofobia, a transfobia, o etarismo, a exploração do trabalhador, a financeirização, a islamofobia, o anti-cristianismo, o antiumbandismo, o anti-candomblecismo e outras formas de destruição humana.
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DEZ FONTES DE ANTISSEMITISMO
Há nove tipos de antissemitismo e um décimo como sintoma de psicose:
1
o antissemitismo iraniano!
2
o antissemitismo do antissionista!
3
o antissemitismo do idiota da rede social!
4
o antissemitismo de quem morre de inveja dos Judeus (conf. Freud, Sartre e Adorno)!
5
o antissemitismo hitlerista!
6
o antissemitismo mussolinista!
7
o antissemitismo stalinista!
8
o antissemitismo esquerdopata universitário!
9
o antissemitismo osmótico!
10
e o antissemitismo do judeu que odeia o próprio espelho!
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Para todos eles tenho um sonoro VAFFANCULO e a lei penal!
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Pietro Nardella-Dellova, novembro de 2025
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Imagem: Open-air gathering of the Bundist Youth Organization, Warsaw, June 1932. Courtesy Bund Archives of Jewish Labor Movement, New York