“A paz é para as mulheres e para os fracos. Impérios se forjam na guerra.”
É o que Agamêmnon disse ao irmão Menelau, que queria a mulher de volta depois que Páris a levara para Troia, e foi a última frase honesta que alguém pronunciou sobre o assunto. Mil navios zarparam, oficialmente por Helena. Os poetas cantaram a face mais bela da terra, os arautos falaram em honra, e às viúvas disseram que os maridos tinham morrido por amor. Os historiadores, gente menos romântica, duvidam. Troia não guardava uma mulher. Guardava a boca de um estreito, o Helesponto, e quem se sentava naquela margem cobrava do resto do mundo pelo direito de atravessar. Os gregos não cruzaram o mar por um rosto. Cruzaram por uma cabine de pedágio. Helena foi a legenda que a história escreveu debaixo da fatura, e a versão que se leu em voz alta aos que enterravam os mortos.
Três mil anos depois, o truque não envelheceu um dia. Há sempre uma Helena à mão, uma face bela o bastante ou ameaçada o bastante para fazer a ganância parecer romance, ou sobrevivência. Vale perguntar o que de fato se quer na outra ponta da água. Não uma mulher, e não uma nação, mas uma moeda, e por trás dela a coisa mais próxima da feitiçaria que a engenhosidade dos mortais já concebeu, o poder de fazer dinheiro do nada, para sempre.
Houve um tempo em que o dinheiro guardava algum recato. Em 1944, em Bretton Woods, as nações combinaram que trinta e cinco dólares comprariam sempre uma onça de ouro, e que todas as outras moedas ficariam ancoradas ao lado do dólar. Cada nota era uma promessa resgatável em metal, e a promessa segurava a mão de quem imprimia. Funcionou enquanto durou o metal. Vieram então o Vietnã e os apetites da prosperidade em casa, as gráficas despejaram mais dólares do que Fort Knox jamais poderia honrar, e a França, atenta às próprias contas, começou a trocar o papel por barras e a esvaziar o cofre. Numa noite de domingo de agosto de 1971, Nixon apareceu na televisão e anunciou o fim da conversibilidade com o ar de quem remaneja o horário dos trens. Daquela noite em diante, o dólar apoiou-se em dois pilares apenas, a fé e a frota.
A fé precisa de algo em que se firmar, e aqui veio a jogada mais astuta do século passado. Washington e Riad chegaram a um entendimento astuto: o petróleo do mundo seria vendido só em dólar, e, em troca, a superpotência manteria seus navios de guerra entre a Casa de Saud e seus inimigos. A garantia do dólar deixou de ser o ouro no cofre e passou a ser o petróleo sob a areia dos outros, e a marinha que tomava conta dele. Quem quisesse rodar um carro ou girar uma fábrica tinha, antes, de juntar dólares, e os países do petróleo os mandavam de volta comprando a dívida do próprio cliente que estavam cobrando, num esquema capaz de arrancar uma lágrima de qualquer agiota. O círculo se fechava, ouro sem ouro, e girava sozinho.
Os franceses chamaram aquilo de privilégio exorbitante, e o nome era exato. Um país que emite a moeda que todos os demais são obrigados a entesourar pode gastar com uma licença que nega aos outros, acumulando déficits que em qualquer nação comum afundariam a moeda e o gabinete até terça-feira, enquanto o mundo, sedento de dólares, forma fila para comprar a dívida e a chama de refúgio. O padrão de vida estadunidense foi bancado pela sede dos estranhos, e com ele as prateleiras, as garagens e as guerras a um hemisfério de distância. A inflação, quando se mexe, é posta num navio; as quebradeiras chegam em Bangcoc, em Buenos Aires, em Brasília, quase nunca à porta do Tesouro estadunidense. E sobre quem se recusa a jogar paira a única arma que o guardião do dinheiro do mundo dispara sem estrondo, a sanção, o banimento dos canos por onde o comércio respira.
Nenhum império ordenha o planeta inteiro sem que o planeta, mais cedo ou mais tarde, pegue a calculadora. Em 2001, um economista de banco cunhou uma sigla para vender quatro mercados famintos, Brasil, Rússia, Índia e China, e os chamou de BRICs; era um slide numa reunião de vendas, e o autor mal suspeitava ter rascunhado um manifesto. O rótulo pegou. Os quatro sentaram-se como bloco, e atrás deles vieram África do Sul, Irã, Egito, Etiópia, Emirados, Indonésia, até que o truque mnemônico de banqueiro passou a abarcar dois quintos da produção do mundo e metade da sua gente. E o bloco fez a pergunta óbvia, aquela que tira o sono do Tesouro: por que negociar na moeda de um estranho, pagando seu pedágio e obedecendo às suas listas negras, quando se pode negociar na própria? E assim os seus países compram e vendem em yuan, em rupia, em real, e assentam linhas de pagamento que contornam o dólar e contornam o Swift, a rede que transmite quase toda transferência entre bancos de países diferentes, aquela que Washington lê por cima do seu ombro e fecha quando quer castigá-lo. Rússia e China já liquidam quase todo o seu comércio sem tocar num dólar; o Irã vende seu petróleo à China em yuan; e cada barril vendido assim é mais uma rachadura no muro.
E aqui voltamos ao estreito, embora não ao que está no mapa. Todo estreito na história acaba, com o tempo, atendendo por um novo nome; o Helesponto virou os Dardanelos, e os Dardanelos viraram Ormuz. Mas o verdadeiro estreito da nossa era não está em carta nenhuma e não hasteia bandeira alguma. É o dólar, e toda carga da terra, seja qual for o oceano que cruze, precisa passar por ele e pagar o homem que guarda o portão. É essa a passagem que importa, e é essa a passagem sob ameaça.
Por isso o Irã, montado sobre o estreito de Ormuz, não é, no fundo, uma história sobre o perigo nuclear. Deixem-me conceder a esse perigo todo o seu peso, porque sou israelense e não vou fingir o contrário: o governo em Teerã é uma ameaça de verdade, jamais deveria ter a bomba, e o fato de que muito provavelmente já a tem basta para tirar o sono de qualquer um. Tudo isso é verdade, e nada disso foi o que moveu as frotas. O Irã vende seu petróleo em outra moeda e ameaça fechar ou taxar o canal por onde escoa um quinto do petróleo do mundo. O perigo nuclear é o motivo apresentável, aquele que um estadista pode berrar ao microfone para colher aplausos; a fatura em yuan é o motivo verdadeiro, e sobre esse um homem prudente fica de boca fechada. Foi por aquela orla, e não por uma ogiva e não por um rosto, que Israel e os Estados Unidos despejaram fogo sobre o Irã em fevereiro passado, em nome da sobrevivência e da derrubada de um regime. O Líder Supremo foi morto. Ormuz se fechou. E o mundo, estremecendo na bomba do posto, lembrou-se de que toda passagem estreita paga dividendo a quem está sentado na margem.
Se a guerra fracassar, o mundo pode trocar de dono, pois quem for capaz de lacrar aquele canal sem a licença do dólar terá mostrado que o poder de Washington afinal tem limite. O que se disputa em Ormuz não é uma ogiva. É a moeda em que a terra vai comprar sua energia pelos próximos cem anos, e portanto quem paga a conta do conforto, das frotas e das guerras distantes. Uma perda ali não seria uma derrota militar. Seria a aposentadoria de um método de fabricar dinheiro.
E Helena. Onde está ela em tudo isto? Onde sempre esteve, no cartaz à porta do cinema. Israel é a face bela e ameaçada cujo nome empresta respeitabilidade a uma ganância antiquíssima, o pretexto que faz o apetite de uma grande potência passar por cavalheirismo. Isto deveria doer em quem ama este lugar, porque um Israel democrático e justo, um país que briga consigo mesmo em voz alta e conta cada um dos seus mortos pelo nome, nada ganha emprestando o próprio rosto às contas de outra nação, deixando que rapazes de dezenove anos em nossas fronteiras sejam gastos como trocado miúdo numa transação cujo lucro se lança num fuso distante. Disseram-nos que éramos Helena, a beldade que as frotas tinham vindo resgatar. Estamos aprendendo, devagar e caro, que a beldade por quem elas de fato navegam nunca teve rosto de gente, e que o nome de Helena, no fim, pertence ao padrão dólar, o nome radiante pregado numa máquina de fazer dinheiro sem fim. Naquela velha história nunca fomos a rainha atrás das muralhas. Fomos a tropa do lado de fora, os descartáveis, gastos para manter uma moeda em seu trono. A crueldade não está só no combate. Está em lançar o sangue na conta de um e o troco no crédito de outro, e em chamar de amor, ou de sobrevivência, o simples pavor de perder o pedágio. Agamêmnon, fosse o que fosse, nunca alegou que a guerra era por Helena.
E aí está o paradoxo que o nome carrega desde Troia. Toda guerra é justa, pois toda guerra tem a sua Helena. E nenhuma guerra é justa, pois atrás de toda Helena há um pedágio. Os dois veredictos são proferidos sobre as mesmas covas, e os dois valem. O brilho da causa é a única pista. Quanto mais radiante a Helena que uma nação manda à frente, mais escuro e mais sem nome o interesse que ela carrega na retaguarda.