Há uma pergunta que pessoas sérias deixaram de fazer talvez porque a resposta tenha se tornado incômoda demais para ser encarada. Pode o progresso ainda ser chamado de progresso se ele abandona nossa capacidade de cuidar?
Não é uma pergunta abstrata. Toda sociedade que avança sem essa capacidade não está progredindo ela está acelerando. E há uma diferença considerável entre as duas coisas. Velocidade sem direção moral não é conquista é fuga. O que se foge invariavelmente é a responsabilidade de governar com algo que vai além da eficiência algo que as democracias mais sérias sempre souberam que não pode ser terceirizado nem automatizado e que por falta de palavra melhor continuamos chamando de cuidado.
Vale a pena deter se nessa palavra. Não como sentimento não como moeda fraca de cartões de felicitações e slogans publicitários mas como alicerce sobre o qual qualquer sociedade que pretenda ser civilizada precisa se sustentar. É o cuidado que faz de um governo algo mais do que um aparato administrativo. É o cuidado que distingue uma democracia de um esquema de proteção. É o cuidado que separa o ato de escrever leis do ato de usá-las como armas contra as pessoas que essas leis supostamente deveriam proteger.
Israel foi fundado na melhor versão que conta de si mesmo como exatamente esse tipo de democracia. Não uma democracia perfeita nenhuma o é e as que reivindicam perfeição são invariavelmente as que mais se deve temer mas uma democracia parlamentar animada por uma convicção específica e duramente conquistada a de que um povo que havia sobrevivido à negação absoluta de sua humanidade construiria um Estado definido pela recusa em negar a humanidade dos outros. Essa era a promessa. Estava escrita na Declaração de Independência de 1948 com uma clareza que relida hoje parece quase ingênua em sua generosidade. Cidadania plena e igualitária para todos os habitantes independentemente de religião raça ou sexo. Um Estado que buscaria a paz e que seria fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas.
O que muitos não perceberam então e o que o tempo tornou dolorosamente evidente é que Israel nasceu com promessas liberais sem os mecanismos que as tornariam difíceis de desmantelar. Sem constituição formal sem separação rígida de poderes com a soberania concentrada num parlamento unicameral o Estado israelense construiu sua legitimidade sobre o compromisso moral de seus fundadores e não sobre travas institucionais que numa democracia mais blindada tornariam a captura do poder um projeto de gerações. Não era uma brecha era a arquitetura inteira. E certas pessoas pacientes e bem organizadas esperaram o momento certo para atravessá-la.
O que acontece com esse Estado hoje não é um desvio de um plano é o plano de outras pessoas executado com paciência e sofisticação considerável ao longo de décadas. A coalizão de extrema direita que governa Israel não chegou ao poder por acaso. Chegou porque certos atores políticos compreenderam com uma astúcia que se reluta em admirar que as instituições democráticas são mais vulneráveis não quando atacadas por fora mas quando esvaziadas por dentro quando a máquina do Estado é gradualmente reapropriada ministério por ministério nomeação por nomeação linha orçamentária por linha orçamentária até que ela não sirva mais ao Estado mas a si mesma e aos homens que a operam. O cuidado nesse processo não é esquecido por descuido é removido por design.
A reforma judicial que convulsionou a sociedade israelense em 2023 foi o episódio mais visível dessa história mais longa mas a visibilidade pode enganar. O que tornou aquela crise tão reveladora não foi a legislação em si embora fosse assustadora o suficiente mas a reação do governo às centenas de milhares de israelenses que tomaram as ruas por meses. Um governo que genuinamente acreditasse no povo que governa teria pausado. Teria ouvido. Teria compreendido que quando uma parcela significativa da cidadania se mobiliza semana após semana em números que um país de nove milhões de habitantes mal consegue sustentar algo deu errado e não se conserta simplesmente aprovando a lei de qualquer maneira. O governo não pausou. Recalculou recuou brevemente quando a catástrofe de 7 de outubro tornou o conflito interno politicamente insuportável e nos meses seguintes retomou seu projeto com a eficiência sombria de uma instituição que confundiu resistência com legitimidade.
O que se perdeu é mais difícil de legislar do que a composição dos tribunais ou a independência do Ministério Público embora essas coisas importem enormemente. O que se perdeu ou está em vias de ser perdido é a capacidade dos que estão no poder de governar como se os governados fossem pessoas reais com interesses reais e não variáveis a serem gerenciadas eleitores a serem apaziguados ou inimigos a serem neutralizados. Não é um problema exclusivo de Israel. É o modo característico de falha do nosso tempo visível em Budapeste Varsóvia Washington e diversas outras capitais cujos líderes descobriram que o vocabulário da democracia é perfeitamente compatível com seu desmantelamento sistemático desde que se avance com cuidado palavra que usam com frequência e praticam com nenhuma.
Contudo Israel carrega um peso particular nessa história porque fez uma reivindicação específica. Afirmou ser diferente. Afirmou e essa afirmação foi acreditada por pessoas sérias em todo o espectro político por muito tempo que sua experiência de catástrofe histórica a havia inoculado contra as crueldades banais da política majoritária. O argumento nunca foi inteiramente convincente para os que observavam como essa história era seletivamente instrumentalizada mas tinha força. Tinha a força do sofrimento genuíno transmutado em princípio genuíno. O que se assiste agora é esse princípio sendo transmutado de volta não exatamente em sofrimento mas em algo adjacente a crueldade confortável dos que decidiram que sua própria segurança é mais bem garantida não pela extensão de direitos mas pela sua contração não pelo fortalecimento das instituições mas pela sua captura não pelo exercício da democracia que herdaram mas pela sua substituição de forma incremental e com grande quantidade de papelada processual por algo que conserva a forma enquanto esvazia o conteúdo.
Os israelenses que marcham que renunciam a comissões militares em protesto que escrevem e argumentam e se recusam a calar estão fazendo algo que merece mais do que hashtags de solidariedade. Estão insistindo a um custo pessoal e profissional real que a promessa feita em 1948 não era um floreio retórico mas uma obrigação vinculante. Estão insistindo que um Estado pode ser julgado por se importar com as pessoas que governa todas elas não apenas as que votaram corretamente ou rezam corretamente ou se parecem suficientemente com os que estão no poder. Estão insistindo na proposição mais radical e mais ameaçada da política contemporânea a de que governar é um ato moral e que um governo sem moralidade não é um governo mas uma máquina e as máquinas por mais eficientes que sejam não pensam não sentem e não se importam.
Os que operam essa máquina sabem disso. É precisamente isso que torna sua hipocrisia não apenas insuportável mas clinicamente precisa. Invocam a segurança enquanto desmantelam os tribunais que a garantem. Invocam a tradição enquanto corrompem as instituições que a sustentam. Invocam Deus enquanto praticam com metódica indiferença aquilo que qualquer leitura honesta de qualquer texto sagrado descreveria como crueldade. São homens que aprenderam a falar em nome do povo enquanto trabalham com notável dedicação para tornar esse povo impotente e que descobriram que a melhor maneira de devorar uma democracia não é atacá-la de frente mas convencer seus cidadãos devagar e com muita solenidade de que o que está sendo feito a eles é na verdade feito por eles.
Há um nome para isso. Não é governo. É a substituição do cuidado pela performance do cuidado da democracia pela máquina que usa o seu nome da promessa pelo seu cadáver bem vestido. E quando uma sociedade chega a esse ponto quando a distância entre o que os governantes dizem e o que fazem se torna grande demais para ser preenchida por qualquer retórica resta apenas a pergunta com que este texto começou formulada agora não como questão abstrata mas como diagnóstico de uma civilização que escolheu a eficiência e abandonou a compaixão que celebrou a inteligência e esqueceu a gentileza que chamou de progresso o que era na verdade o lento e metódico esquecimento de tudo o que nos tornava humanos. Há quase um século com a lucidez de quem já havia visto esse mecanismo operar Charlie Chaplin disse o que ainda precisa ser dito pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquina precisamos de humanidade mais do que inteligência precisamos de bondade e gentileza. Sem essas qualidades a vida será violenta e tudo estará perdido.