A nossa tragédia existencial é que padecemos de uma inocência que beira a complacência. Em Israel, sob os foguetes diários e a angústia crônica, gostamos de acreditar que a sobrevivência repousa nas mãos de um estadista. Entregamos o pescoço da nação a um fiador que julgamos operar sob um pacto moral inviolável. O desespero exige essa fantasia. Mas a realidade desaba quando o guardião do amanhã revela ter a envergadura ética de um agiota.
Para entender a alma do sujeito que assina os cheques de proteção, basta olhar para a escória que ele perdoa. Tomemos o caso de Joseph Schwartz. Ele não era um arquiteto do mal ou um vilão shakespeariano. Era apenas o dono da Skyline Healthcare, uma formidável rede americana de clínicas para idosos. A anatomia moral desse indivíduo precisa ser desenhada com precisão clínica. O talento singular de Schwartz consistia em monetizar escaras e lençóis urinados. Ele transformou a reta final da vida alheia em uma rubrica contábil. Secou os cofres da empresa, sonegou montanhas de impostos, roubou a aposentadoria dos enfermeiros, e terceirizou a desnutrição de pessoas indefesas com uma eficiência metódica. A justiça federal americana, num raro lapso de decência, o trancafiou.
Mas eis que em novembro do ano passado, após três meses irrisórios de reclusão, o empresário saiu caminhando pela porta da frente. O presidente Donald Trump concedeu a ele um perdão incondicional. A desculpa oficial foi uma comovente compaixão por um idoso doente. O suborno real custou cerca de um milhão de dólares, pagos a lobistas que abrem as portas do poder com a mesma naturalidade com que pedem um café. Schwartz comprou a própria liberdade usando o dinheiro extorquido de quem limpava as fezes dos seus pacientes. E Trump, em sua infinita clemência transacional, emitiu o recibo sem piscar.
Quem considera Schwartz uma aberração não entendeu o sistema. Ele é a própria essência do negócio. Neste segundo mandato, os indultos escorreram da caneta presidencial em escala industrial. Executivos que implodiram bancos e bilionários que compraram comitês políticos encontraram a salvação instantânea. A balança da justiça foi obliterada. Ela não pesa mais o crime, apenas verifica o limite do cartão de crédito na antessala do Salão Oval. O reflexo mais direto dessa mercantilização do Estado é o enriquecimento da própria dinastia. Segundo levantamentos recentes da revista Forbes, a fortuna da família Trump dobrou desde o início deste segundo mandato. O perdão de Estado decaiu para um balcão de negócios. O líder do mundo livre rasgou o contrato civil e transformou o delito corporativo em uma taxa de conveniência.
É exatamente nesse cenário que a situação ganha ares de tragédia. Crescemos acreditando que a aliança com os americanos se baseava em princípios compartilhados e laços democráticos. Hoje, terceirizamos o sangue dos nossos filhos a um homem que venderia a própria mãe se a margem de lucro fosse atraente. Se a lei interna americana é leiloada para quem paga a melhor comissão, é delírio puro acreditar que a política externa guarde qualquer lastro moral. A diplomacia presidencial tornou-se uma casa de penhores.
Conhecemos a fragilidade da logística militar. Cada bateria antiaérea nossa só funciona porque acreditamos que as munições cruzarão o oceano quando a sirene berrar. Sob um governo administrado como um império de extorsão, um envio de mísseis de emergência deixa de ser um compromisso entre nações e vira insumo para chantagem pessoal. A defesa passa a depender não da urgência das baixas no campo de batalha, mas da digestão e dos humores privados na Sala Oval.
Dormimos em uma das fatias de terra mais letais do planeta, apostando o pescoço em um homem para quem absolutamente tudo, a lei, a honra, o sangue, e a existência de um aliado, não passa de mercadoria. E é preciso encarar a nossa própria hipocrisia com a crueza necessária. Em um país onde a única coisa que apodrece mais rápido que a banana é a moral dos nossos políticos, estar amarrado ao cinismo predatório de Donald Trump é um sinal de que estamos definitivamente do lado errado da história.