Parada do Orgulho LGBT+ X Parada das Bandeiras

Por Davi Windholz

Uma antiga lenda indígena conta que um avô levou seu neto ao topo de uma montanha e lhe disse:

“Um dia tudo isso será seu, e você liderará a tribo. Mas o mais importante não são as terras, e sim o que você fará com elas. Dentro de nós vivem dois lobos — o lobo do medo e o lobo do amor. O primeiro é cheio de medo, ódio e violência. O segundo é cheio de amor, esperança, fraternidade e paz. Eles lutam constantemente para decidir qual deles irá dominar.”

O neto perguntou imediatamente: “E quem vence?”
O avô respondeu: “Aquele que você alimenta mais.”

Hoje, em Israel, existem duas correntes que podem ser descritas através da metáfora desses lobos: a Parada das Bandeiras e a Parada do Orgulho LGTB+.

No dia 15 de maio vimos a Parada das Bandeiras — o principal evento do Dia de Jerusalém. Houve um tempo em que essa data simbolizava a união da cidade para todo o povo de Israel. Alguns de nós estavam dispostos a compartilhar Jerusalém com muçulmanos e cristãos, transformando-a em uma cidade internacional ou na capital de dois Estados. Foi assim em 1993, nos Acordos de Oslo, em 2000 em Camp David, e em 2007 no encontro entre Olmert e o presidente Abbas.

Os Acordos de Oslo foram o auge da alimentação do lobo do amor. Rabin influenciou tanto israelenses quanto palestinos. Quem se lembra de palestinos distribuindo flores aos soldados israelenses na Cisjordânia e em Gaza após a assinatura dos acordos? A paz parecia ao alcance das mãos. O amor venceu. O lobo do amor venceu.

Mas aqueles que alimentavam o lobo do medo não ficaram satisfeitos. Para eles, a única forma de mudar a realidade não era matar o lobo do amor, mas eliminar quem o alimentava. E foi isso que fizeram. Enviaram um caçador, e três tiros assassinaram aquele que alimentava o amor. Houve quem comemorasse, quem dançasse nas ruas sem vergonha, e quem agradecesse a Deus nas sinagogas. Depois disso, passaram a reunir cada vez mais alimento para o lobo do medo.

Dia após dia, partes do sistema educacional ensinaram medo, ódio e violência. Em sinagogas, distribuíram panfletos cheios de racismo, supremacia e ódio. Sim, aprenderam isso com outros povos, e sabem muito bem o quanto isso machuca os perseguidos. Plantaram sementes de opressão, e em todo lugar onde havia uma tentativa de alimentar o lobo do amor, ela era reprimida.

Anos alimentando continuamente o lobo do medo criaram um mecanismo fechado cujo único objetivo era reunir ainda mais alimento para ele. Chamaram judeus americanos para ajudá-los. Chamaram grupos ultraortodoxos que nem acreditam neste Estado para se juntar a eles. Aproximaram-se também de grupos

com os quais até parte da direita israelense antes se recusava a cooperar. Eles não queriam apenas alimentar o lobo do medo — queriam destruir o lobo do amor e expulsar todos aqueles que acreditavam nele. Juntos, alimentaram também o lobo do medo de seus vizinhos e, durante anos, ajudaram-no a matar o lobo do amor do outro povo.

Encontramos essas pessoas ontem na Parada das Bandeiras. Crianças e adolescentes, acompanhados de seus líderes, caminhando pelas ruas da Cidade Velha espalhando medo, ódio e violência. “Morte aos árabes.” “Que a aldeia deles queime.” Todos vestidos de azul e branco, com símbolos religiosos à mostra e bandeiras de Israel nas mãos.

Quanto eu gostaria de não ter visto o que vi. Quanto medo senti ao ver aquilo. Lembrei-me de Yeshayahu Leibowitz e de sua expressão “judeus nazistas”.

Estudantes religiosos e alunos de yeshivá, ao lado de ultraortodoxos que, em vez de estudar Torá, dedicaram seu tempo a espalhar ódio. Pessoas que acreditam na Torá e rezam diariamente em livros de oração nos quais a palavra “paz” aparece mais de cem vezes — mas não é essa a mensagem que recebem no sistema educacional. Trata-se de um sistema de doutrinação que os transforma em lobos do medo.

Eles aprendem a temer, odiar e lutar contra árabes cidadãos de Israel, palestinos, muçulmanos, cristãos e também judeus que não seguem seu caminho — esquerdistas, reformistas, LGBTQIA+ e mulheres. Todos são vistos como perigosos porque podem alimentar o lobo do amor.

Mas o lobo do amor ainda vive. Mesmo magro e ferido, ainda possui força para levantar a bandeira da esperança. Ainda possui força para marchar com orgulho.

Em oposição à Parada das Bandeiras está a Parada do Orgulho LGTB+ , uma marcha cheia de amor, aceitação, fraternidade e esperança. Não é uma marcha de uma única cor, mas de muitas cores, onde cada pessoa leva consigo suas próprias cores: sua identidade pessoal, sexual, de gênero, comunitária, religiosa e nacional. Um arco-íris de cores. Um arco-íris de emoções. Um arco-íris de identidades.

Nessa marcha caminham todos aqueles que acreditam na liberdade e na paz. Precisamos reunir forças, reunir alimento e voltar a alimentar o lobo do amor. Não podemos permitir que nos bloqueiem o caminho até nosso lobo — até o amor, até a paz.

Não esperem que outros façam isso. Se você acredita na paz, levante-se, reúna alimento e vá às ruas para alimentar novamente o lobo do amor. Se fizermos isso, no dia das eleições o lobo do amor vencerá. E talvez possamos também fortalecer o lobo do amor de nossos vizinhos — que também hoje está agonizando — e aproximar ambos a paz: duas casas sobre uma mesma terra.