Em Sucot os judeus armam a sucá, uma cabana de tábuas com teto de folhas de palmeira, e moram nela sete dias, em lembrança das tendas do deserto. Os religiosos convidam para ela um hóspede por noite. Chamam esses hóspedes de ushpizin, palavra aramaica, e a lista é ilustre, Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Aarão, José e Davi. Cada um deles saiu de casa algum dia. Os sete passam a semana inteira lá dentro, mas cada noite tem o seu.
Não sou religioso e não tenho intimidade com os patriarcas. Imagino uma sucá e convido os meus. Os meus hóspedes não têm nome bíblico. São os sentimentos que moram comigo desde que deixei Porto Alegre.
Na primeira noite a Saudade aparece. Senta-se perto da porta, porque gosta de ver quem passa, e fala da cidade a noite inteira. Lembra as coisas que deixei por lá, uma por uma, sem exagerar nenhuma.
Na segunda a Dúvida traz uma pilha de pratos tampados. Cada prato é um futuro que eu joguei fora sem provar. Ela põe todos na mesa e pergunta se não quero levantar uma tampa. Não quero. Prato que ninguém provou não esfria nem estraga, e por isso pesa tanto.
Na terceira a Culpa se senta na beira da cadeira para dar a impressão de que vai embora cedo, e fica até a madrugada.
Na quarta o Alívio aparece sem ser chamado, porque quase ninguém tem coragem de convidá-lo em voz alta. Come em silêncio e não pede nada.
Na quinta o vento quente que no outono vem do deserto sopra a noite toda, e o Medo chega com ele. As folhas do teto secam e caem sobre as tampas dos pratos da Dúvida. O Medo quer saber se ainda dá tempo de voltar. Em Porto Alegre, nesta época, os jacarandás começam a ficar roxos e a noite ainda pede casaco. Daqui, com esse vento na cara, aquele roxo parece coisa inventada. Respondo ao Medo que dá tempo, sim, e que não vou.
Na sexta convido a Indecisão. Ela não vem. Deve estar até agora na porta, sem decidir se entra. Ficar na porta também é uma escolha, e ela escolheu a porta.
Na sétima convido a mim mesmo. É o hóspede mais difícil. Chega cansado, com as escolhas nas costas, e se senta no lugar que a Indecisão deixou vazio. Para ter um dos futuros que a Dúvida trouxe tampados, eu teria que deixar este aqui do lado de fora. Abandonei muita coisa e sei o que cada uma era para mim. Este não.
Quando a festa acaba, desmonto a sucá. Os outros hóspedes entram comigo em casa, onde moram o ano inteiro. O sétimo me ajuda a guardar as tábuas.