Na noite de trinta de agosto de mil novecentos e trinta e três, três alemães dos Sudetos simpatizantes do nazismo dispararam pela janela do escritório do andar de cima onde Theodor Lessing trabalhava, na Villa Edelweiss, a casa em Marienbad em que ele havia se refugiado, e Lessing, que fugira da Alemanha em março e participara naquele verão do Congresso Sionista de Praga, morreu no dia seguinte, aos sessenta e um anos, com a fama de ter sido um dos homens mais odiados da Alemanha de Weimar. Três anos antes, ele havia publicado Der jüdische Selbsthass, o livro que deu forma moderna à ideia do ódio judaico de si mesmo e examinou os casos de seis judeus infelizes, entre eles Otto Weininger e Arthur Trebitsch, os dois que passaram a enxergar no judaísmo a origem do mal do mundo e a alimentar, com a autoridade de quem falava de dentro, o antissemitismo dirigido ao próprio povo. Foi esse livro que pôs em circulação o rótulo do judeu que odeia a si mesmo, ao qual recorremos com uma frequência que deveria nos preocupar sempre que um judeu da Diáspora critica Israel.

O rótulo atravessou quase um século e chegou intacto, e pronto para o uso, em outubro do ano passado, quando o Washington Post publicou uma pesquisa, feita entre dois e nove de setembro com oitocentos e quinze judeus americanos, na qual sessenta e um em cada cem disseram que Israel havia cometido crimes de guerra em Gaza e trinta e nove disseram que havia cometido genocídio, proporção que subia para a metade entre os que tinham de dezoito a trinta e quatro anos. Uma das entrevistadas, Julia Seidman, moradora de Washington de quarenta e dois anos, disse ao jornal que no início Israel não tivera escolha, já que nenhum país poderia aceitar uma ameaça daquele tamanho, e que dois anos depois nada podia justificar o sofrimento a que ela vinha assistindo e que a deixava enojada.

Antes de decidir o que fazer com Julia Seidman, o leitor talvez queira saber que, no mesmo questionário, noventa e quatro em cada cem disseram que o Hamas havia cometido crimes de guerra contra israelenses, setenta e seis disseram que a existência de Israel era vital para o futuro do povo judeu e cinquenta e oito disseram sentir algum vínculo cultural ou emocional com os israelenses, o que significa, como confirma um minuto de lápis na mão, que pelo menos quinze em cada cem entrevistados acusaram Israel de genocídio e o declararam indispensável na mesma conversa. Preferiríamos que esses quinze fossem mais fáceis de classificar, porque o rótulo de Lessing, o do judeu que odeia a si mesmo, nos ocorre antes de terminarmos de ler a reportagem, e porque tem a enorme vantagem de dispensar quem o usa de ouvir o resto da frase do outro.

Não adianta fingir que nunca o usamos, ou que sempre o usamos com justiça, e quando tentei entender por que ele nos vem tão depressa, encontrei o contorno de um sistema que montamos peça por peça, um sistema em que o estrangeiro que critica Israel é antissemita, o judeu da Diáspora que critica Israel odeia a si mesmo e o israelense que critica Israel é traidor, de modo que todo mensageiro chega desqualificado pela categoria antes de dizer uma palavra e nós ficamos dispensados de ouvir qualquer um deles. Enquanto os acusadores eram quase todos gente de fora, o sistema funcionava como defesa, mas quando o acusador é um judeu que chama Israel de indispensável, ou uma mulher que começa concedendo que Israel não teve escolha e termina nauseada pelo sofrimento em Gaza, a desqualificação deixa de proteger quem quer que seja e passa a amputar um pedaço da família de que dependemos, e é diante deles, muito mais do que diante das manchetes hostis que chegam de tantas capitais, que começo a entender que há algo errado na nossa relação com o mundo, porque um sistema incapaz de distinguir Julia Seidman de Otto Weininger já não consegue distinguir ninguém.

Seria desonesto não reconhecer que o sistema nasceu de uma experiência real e que Weininger e Trebitsch ainda têm sucessores, judeus que marcham ao lado de gente que chamou o sete de outubro de ato de resistência e que negam aos judeus o direito de se considerarem um povo, assim como seria ingênuo ignorar que muito do que se diz sobre Israel no mundo vem, desconfio, de pessoas que não se interessariam por Gaza se os soldados não fossem judeus. O leitor que passou os últimos anos descendo ao abrigo no meio da noite tem direito a essa desconfiança, que também é minha, e nenhuma pessoa sensata nos pediria, depois da perda de cerca de mil e duzentas pessoas num único dia, que recebêssemos cada acusação como conselho de amigo. Mesmo esses sucessores, porém, quando se multiplicam, como se multiplicaram nos Estados Unidos desde o início da guerra os grupos de oração que se dizem antissionistas, dizem algo sobre nós, e não apenas sobre si mesmos.

O problema é que o rótulo foi cortado para caber em Weininger e Trebitsch e cai muito mal numa mulher que concede a Israel, antes de qualquer crítica, que não teve escolha, e mesmo nas mãos do próprio Lessing a expressão nunca foi arma, porque ele tratava esse ódio como um fenômeno histórico e psicológico da vida judaica como minoria na Diáspora, uma ferida antes de ser uma culpa, com a compaixão que todo diagnóstico sério pressupõe. Aplicado a trinta e nove em cada cem judeus americanos e à metade dos seus jovens, o rótulo acaba descrevendo uma população inteira em vez de uma patologia, e quando metade dos jovens de uma comunidade recebe o mesmo diagnóstico, o médico sensato começa a desconfiar do próprio instrumento.

Lessing talvez tivesse apreciado, se lhe tivessem dado tempo, mais uma ironia, a de que o homem que deu nome ao judeu que odeia a si mesmo passou os últimos anos de vida sendo tratado pelos patriotas alemães como o alemão que odiava a Alemanha, desde que publicou, em mil novecentos e vinte e cinco, um artigo contra Hindenburg, o marechal de campo que o país venerava como um santo e que, anos antes, tinha sido paciente de seu pai, que era médico, um texto que levou estudantes nacionalistas a cercar suas aulas em Hanôver até que, no ano seguinte, o ministério o afastou delas. Lessing sabia, portanto, por experiência própria, o que acontece quando uma nação ferida conclui que o crítico de dentro é mais perigoso do que o inimigo de fora, e não traço nenhuma comparação com a Alemanha daquela época quando digo que a lição vale para qualquer povo que se sinta sitiado.

O leitor perguntará o que se ganha ouvindo judeus que usam, para descrever a guerra, uma palavra que ele considera uma calúnia, e a resposta mais honesta que tenho é que ouvi-los não nos obriga a adotar o vocabulário deles, boa parte do qual não assinaríamos, mas nos obriga a admitir que muitos deles disseram duas coisas, como Julia Seidman disse duas, e que nós quisemos ouvir apenas uma. Um país que só consegue ouvir a metade hostil das frases de seus amigos acaba, com os anos, cercado apenas de inimigos, que ao menos têm a virtude de dizer uma coisa só, e perde pelo caminho a única crítica que vinha de gente que queria vê-lo durar.

Lessing morreu sem ver os judeus se tornarem maioria em parte alguma do mundo, e provavelmente estranharia que, tendo enfim um país, tivéssemos passado a usar o rótulo que seu livro pôs em circulação contra aqueles que se afligem com o que esse país faz.

Publico este texto um dia depois do Yom Kipur, que, segundo a tradição, expia nossas transgressões contra o céu, mas não as que cometemos contra o próximo enquanto não tivermos pedido perdão às próprias pessoas que ofendemos, e me parece que a tarefa não termina com o toque do shofar no encerramento do jejum.