Em junho de 2018, a tripulação de um voo da El Al que levava o casal Netanyahu à Europa recebeu uma folha de instruções. Havia uma que se destacava. Em nenhuma circunstância dirija a palavra ao primeiro-ministro. Toda pergunta deve passar pela esposa dele, sentada a poucos centímetros. Se a comissária quisesse saber se ele preferia frango ou carne, chá ou café, a pergunta ia para Sara.
No estúdio do Canal 14, na noite de segunda-feira, perguntaram a Sara Netanyahu se houve traição interna em 7 de outubro. Um não simples bastaria. Ela disse que não queria falar sobre isso. Disse que não sabia. Disse que não fazia parte de teoria nenhuma. E, para que ninguém ficasse em dúvida sobre de qual teoria ela não faz parte, tinha explicado momentos antes que Yair Golan estava vestido e pronto numa hora em que ninguém sabia de nada, o marido dela inclusive. Depois riu e perguntou quem é o primeiro-ministro para precisar ser avisado de que uma guerra estourou.
Ninguém no estúdio fez a pergunta seguinte. Não existe pergunta seguinte naquele canal. O que existe é conivência, e ela é imoral.
E não joguemos tudo isso na conta do estúdio. Um canal que desce a esse ponto diz alguma coisa sobre quem o faz e diz outro tanto sobre quem o assiste. O cenário está iluminado para uma plateia. Alguém em casa ouviu uma mulher insinuar que um general sabia de antemão do massacre dos próprios compatriotas, e não desligou, e não sentiu vergonha, e foi dormir. Aquela plateia não está sendo enganada. Está sendo servida.
Convém lembrar quem faz a acusação. Em 2019, a mesma senhora fez um acordo com a promotoria por ter mandado o Estado pagar refeições encomendadas para a residência oficial. Pagou multa, devolveu o dinheiro, seguiu adiante. É presença constante no processo em que o marido responde por presentes de empresários, charutos e champanhe entregues em quantidade suficiente para virar peça de acusação. Empregados da casa passaram anos levando-a à Justiça.
Foi essa mulher que decidiu auditar o horário de chegada de um general no dia do massacre.
Ela não tem posto. Não foi eleita. Não responde a ninguém. E é a ela que as perguntas vão antes de chegar ao primeiro-ministro. É assim que o poder está arranjado neste país, e está arranjado assim há anos, à vista de todos.
Agora o outro lado, e aqui não vou fingir equilíbrio.
Yair Golan nasceu em maio de 1962. A família do pai dele saiu da Alemanha em 1935, o que significa que alguém naquela casa entendeu a hora certa de ir embora. Foi paraquedista, comandou a Brigada Nahal, comandou o Comando Norte, chegou a segundo homem do Estado-Maior sob Gadi Eisenkot. Em 2016, no dia da memória do Holocausto, subiu num palco e disse que enxergava neste país processos que lembravam a Europa dos anos trinta. Não era candidato a nada. Era o número dois do exército, e falou assim mesmo. Aquilo custou a ele o topo da carreira militar, e ele sabia que custaria enquanto falava.
Em 7 de outubro de 2023 tinha sessenta e um anos. Ninguém o convocou. Desceu para o sul, pegou uma arma numa base do exército, entrou em áreas onde ainda havia terroristas e passou o dia trazendo gente de volta do festival. Voltou mais de uma vez. Homens de sessenta e um anos não fazem isso. Ele fez.
Admiro isso sem nenhuma reserva. Ele passou aquele dia tirando pessoas de carne e osso do campo aberto, uma de cada vez, enquanto outros acertavam a narrativa. Carrego no bolso um cartão que autoriza a doação dos meus órgãos, e a única coisa que ele declara é que a vida acontecendo agora, dentro de gente determinada, não pode ser adiada em nome de nada. Naquela manhã houve um homem em Israel agindo como se isso fosse verdade. Não foi o que estava dormindo.
Em maio passado, Golan disse que este país estava matando bebês por passatempo. O escândalo durou semanas. Concordo com ele. Concordo com cada palavra que disse então e com cada palavra que disse em 2016, e não vou suavizar nada aqui para ficar mais apresentável.
Hannah Arendt escreveu que o sujeito ideal do domínio totalitário é aquele que já não consegue distinguir fato de ficção. Anos depois, ao descrever o que viu no julgamento em Jerusalém, foi chamada de traidora pelos seus e perdeu amizades de trinta anos. Foi condenada por dizer em voz alta uma coisa verdadeira e insuportável sobre a própria gente. É o que este país faz com Golan.
Devo a você a parte que ainda me incomoda. Golan foi formalmente repreendido em 2007, comandando a Divisão da Judeia e Samaria, por autorizar o procedimento que mandava civis palestinos convencerem procurados a se entregar. Não esqueci isso e não vou fingir que esqueci.
Os Democratas aparecem com cerca de dez cadeiras. Dez cadeiras não formam governo em lugar nenhum do mundo, e voto neles assim mesmo. Um país que transforma a pontualidade de um homem em prova contra ele perdeu a capacidade de reconhecer coragem quando ela passa bem na sua frente. Recuso-me a ser contado entre os que aprenderam a achar isso normal.
Sara Netanyahu encerrou a entrevista pedindo uma comissão de inquérito de verdade. Concordo com ela pela primeira e provavelmente última vez na vida. Que se faça. Que comece pela pergunta que ninguém naquele estúdio teve a coragem de fazer, sobre quem estava acordado naquela casa às seis e meia da manhã e o que essa pessoa fez em seguida.
E quando a comissão for instalada, sugiro que adote o protocolo da El Al. Não perguntem nada a ele. Perguntem tudo a ela.