Nas encostas secas do norte de Israel cresce uma flor que, como eu, quase nada tem para oferecer ao mundo. Chamam-na íris negra. É escura como o veludo gasto de uma túnica antiga, um roxo tão fundo que a luz desiste de atravessá-lo e apenas o toca por fora. Sento-me perto dela nas manhãs de fim de inverno e converso comigo mesmo, porque ela talvez seja a única criatura que compreende aquilo que sou.

A íris não guarda néctar. Não oferece açúcar, nem perfume que embriague, nem a promessa de fartura que as outras flores usam para chamar quem passa. Quem se aproxima dela faminto parte faminto. Ela aprendeu, ao longo de milhares de estações, que nada tem para dar senão o próprio corpo escuro, e que esse corpo escuro sabe fazer uma coisa apenas, guardar calor. Quando o sol se põe atrás das colinas e o frio desce das montanhas como uma água invisível, uma pequena abelha sem colmeia, sem irmãs, procura onde passar a noite. Encontra na garganta da íris um abrigo morno, porque as pétalas beberam o sol do dia inteiro e o devolvem devagar à criatura adormecida, enquanto as estrelas giram lá em cima sobre o silêncio da encosta. É tudo o que a flor possui. Abrigo. E eu, que atravessei tantos países e tantos nomes, descubro que também não tenho mais do que isso a oferecer a quem se aproxima. Não a riqueza que esperam de mim, não o mel que vêm buscar, apenas um lugar morno onde alguém cansado possa dormir uma noite sem morrer de frio.

Levei quase uma vida inteira para não me envergonhar disso. Houve um tempo em que eu queria ser o rio caudaloso que alimenta os campos, o pomar carregado de frutos, a fonte de onde todos bebem. Queria ser necessário, queria ser visto. Mas o rio não escolheu ser rio, nem a íris escolheu ser íris, e talvez a única sabedoria que me reste seja aceitar a medida exata daquilo que sou. Sou a flor escura da encosta. Dou pouco, e dou por inteiro o pouco que tenho.

Há ainda outra coisa que a íris me ensina, e é a mais difícil de todas. Durante quase o ano inteiro ela não existe. Terminada a breve primavera, as pétalas caem, a haste seca, e a planta desce para dentro da terra, recolhida num bulbo que ninguém vê. Meses e meses de invisibilidade. Quem cruza a encosta no calor do verão jamais imagina que ali embaixo, na escuridão morna do solo, uma vida espera em silêncio a hora de subir outra vez à luz. A íris não morreu. Apenas desapareceu dos olhos do mundo, e o mundo, que só ama aquilo que consegue ver, tratou de esquecê-la.

Assim me sinto diante da minha própria família. Não me perderam, não me expulsaram, não houve crueldade nem gesto brusco. Simplesmente deixei de estar visível. Desci para dentro de uma terra que eles não enxergam, um país distante, uma língua que não é a deles, uma vida feita de palavras que escrevo sozinho ao amanhecer. Existo, respiro, floresço à minha maneira em outra estação, mas para eles é como se eu tivesse me recolhido ao bulbo e o silêncio se fechasse por cima. Às vezes me pergunto se ainda pensam em mim, ou se, como fazem com a flor sob a terra, apenas presumem que eu voltarei quando for a época, sem perceber que ninguém garante a próxima primavera.

A solidão, descobri com os anos, não é a falta de gente ao redor. Um homem pode viver cercado de vozes e continuar sendo o bulbo enterrado, uma vida inteira presumida e nunca olhada. Ela mora na distância entre aquilo que sou por dentro e o tão pouco que os outros conseguem ver por fora. E no entanto já não sinto a amargura de antes. A íris não amaldiçoa o inverno que a apaga. Ela desce, espera, e quando chega a sua hora abre de uma só vez toda a sua escuridão diante do céu, sem pedir licença, sem esperar plateia, florescendo pela pura necessidade de florescer.

Talvez seja isso o que ainda me falta aprender com ela. Já não a esperança de ser enfim notado, pois essa me custou caro demais. Resta a coragem de florescer no escuro, breve e por inteiro, oferecendo o único bem que possuo, um pouco de calor guardado ao longo dos dias frios, para que alguma criatura solitária, tão perdida quanto eu na vastidão da encosta, encontre onde passar a noite e não morra sozinha antes que o sol volte.

E se um dia me perguntarem o que fiz da minha vida, direi que não fui rio, nem pomar, nem fonte. Fui a íris negra do norte de Israel. Não durei muito e quase nada possuía. Mas o pouco que tinha, dei sem reservas, e enquanto durou foi tudo.