Kant saía para caminhar às três e meia da tarde com tamanha exatidão que os vizinhos de Königsberg acertavam os relógios pela passagem dele. Dois séculos e meio depois, é o relógio que me acerta. O aparelho no meu pulso sabe quando dormi mal, sugere que eu respire. O século que prometeu libertar o homem de seus tutores terminou alugando um por vinte dólares mensais, e ainda agradecemos a gentileza.
O iluminismo, dizia o velho professor, era a saída do homem da menoridade de que ele próprio tinha culpa, a coragem de usar o entendimento sem a direção de outrem. “Sapere aude”. Ousa saber. A proposta era simples e escandalosa, e custou caro a quem a levou a sério. Condorcet, que escreveu sobre a perfectibilidade infinita do espírito enquanto se escondia da guilhotina, morreu numa cela da mesma revolução que havia saudado como aurora da razão. O projeto de emancipar o homem sempre teve esse detalhe incômodo, o de devorar os primeiros crentes.
Pois o projeto amadureceu e mudou de endereço. Os herdeiros do século dezoito moram hoje na Califórnia e oferecem como conveniência aquilo que Kant exigia como coragem. E a oferta funciona tão bem que nos dispensa do exercício.
Esta semana perguntei à máquina que carrego no bolso quem tinha escrito certa frase sobre autômatos como herdeiros do iluminismo. Ela confessou que não sabia ao certo. Listou hipóteses, marcou cada uma com o grau de dúvida correspondente, avisou onde não passava de palpite. Num detalhe, errou. Apontei o erro, ela agradeceu, corrigiu na hora e anotou a regra para não tropeçar duas vezes na mesma pedra. Fiquei um instante comovido. Fui tratado como adulto por um software, e o software se deixou ensinar por mim. Há anos não recebo de um governante uma resposta com essa honestidade, e há ainda mais tempo não vejo um deles aceitar correção sem tratar quem o corrige como inimigo.
A frase que eu buscava sustentava que a automação extrema é a culminação do projeto racionalista do século dezoito. Descobri depois que a frase, tal como eu a guardava, não tem dono. A tese tem. Pertence ao ensaísta francês Éric Sadin, que em 2018 publicou A inteligência artificial ou o desafio do século e ali descreveu o regime da verdade algorítmica, a velha razão emancipadora reduzida a um cálculo que decide por nós. O iluminismo apostou tudo na razão como caminho da liberdade, e a aposta venceu com tamanho excesso que a razão virou técnica, a técnica virou produto, e o produto aprendeu a pensar sem pedir licença ao pensador. O século das luzes queria nos tirar da menoridade. Seu herdeiro mais talentoso nos devolve a ela com respostas instantâneas, e a maioria aceita sorrindo. Kant diria que a culpa, outra vez, é inteiramente nossa.
Dias depois assisti a uma aula de três horas do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. De Nicolelis roubo sem cerimônia um conceito. Ele chama de Brainet a abstração coletiva capaz de pôr milhões de mentes em sincronia, a ideia comum sob a qual uma multidão passa a agir como um único organismo, seja ela uma fé, uma bandeira ou uma promessa. E não se trata de metáfora de palestrante. Antes de levar a palavra à história, ele a provou em laboratório, conectou cérebros de ratos e de macacos em rede e os viu resolver juntos tarefas que nenhum resolveria sozinho. A história das civilizações, sustenta ele, é o embate entre essas redes mentais. Roma ficou de pé enquanto a ideia de Roma convenceu. Quando as legiões começaram a falhar, um vírus informacional novo, a mensagem cristã, ofereceu esperança aos miseráveis e refez o império por dentro.
Vivo num país que é filho direto daquele século e que talvez seja a Brainet mais deliberada da história moderna. Israel foi imaginado em panfletos, votado num congresso em Basileia, debatido em jornais antes de existir em qualquer mapa. Herzl acreditava que a razão pública podia inventar uma nação, e inventou. Gente que não dividia língua nem chão passou a dividir uma abstração, e a abstração virou Estado, com hino, moeda, exército e algoritmos que calculam em milissegundos a parábola de um míssil sobre o norte de Israel.
É essa rede que o atual governo desfaz, fio por fio, com uma diligência que nega a tudo o mais. Mil dias se passaram desde a manhã mais atroz da nossa história sem que se aceitasse uma comissão estatal de inquérito. Uma comissão de inquérito é o instrumento com que uma nação sincroniza a própria memória, fixa uma versão comum do que sofreu e de quem falhou. Adiá-la é manter o país dessincronizado de propósito, cada tribo com a sua verdade, cada verdade apontando para a tribo ao lado. O gabinete desafia a Suprema Corte como quem ignora um vizinho inconveniente, e remove assim o último nó que obrigava todos os outros a conversar. O atual governo não usa a razão. Governa por instinto de sobrevivência e a combate onde quer que ela apareça, porque ela faz perguntas, exige respostas, e toda resposta honesta ameaçaria o poder.
Há nisso uma crueldade distraída e uma hipocrisia. Os mesmos que discursam sobre a inteligência artificial como futuro da nação tratam a inteligência natural como estorvo e cortam o oxigênio das universidades. Nossa democracia, essa senhora que já respirou melhor, observa tudo da varanda, e ninguém se lembra de lhe medir a pressão.
Kant temia os tutores que nos poupam do trabalho de pensar. Não previu que o último deles nasceria da própria razão, nem que haveria governos dedicados a nos poupar do trabalho de pensar juntos. Em Jerusalém, entre os que mandam, saber segue proibido, e a única tarefa executada com pontualidade prussiana é a demolição da ideia que um dia nos ensinou a caminhar juntos.